Obras poeticas de Gregorio de Mattos Guerra - Tomo I

Part 4

Chapter 43,722 wordsPublic domain

Pareceu a certo conego que não ia incluido nesta decima, onde o seu nome se não mostrava, e promptamente lhe veiu agradecer com palavras humildes; mas o bravo lhe respondeu: «Não, senhor padre, lá vai nas bestas.» É verdade que naquelle tempo eram poucos ou nenhuns os formados que vestiam murça, e tanto que para acceitarem aquelles logares capitulavam conveniencias os benemeritos, pelo contrario do que agora passa.

Com ésta singular opinião passou o doutor Gregorio de Mattos de uma côrte de sabios, que o representavam grande, a uma colonia de presumidos, que o aborreciam critico, experimentando por peior condição d’esta troca desegual o entregar-se nos braços da propria patria, onde o mais purificado sempre tem o desar de o haverem visto menino. E como aquelle que olhou para o sol, que qualquer sombra depois lhe parece abysmo, a elle, com a vista proxima de Lisboa, se representavam infernos as confusões da Bahia.

O genio satyrico e orgulho intrepido, não ha duvida que de justiça providencial se devia ao desgoverno d’estas conquistas, onde cada um tracta de fazer a sua conveniencia, gema quem gemer, e se notou que de algum modo moderaram os viciosos seus depravados costumes: de que veiu a dizer o grande padre Antonio Vieira que maior fructo faziam as satyras de Mattos, que as missões de Vieira; mas bem podéra deixar de dizer muitas cousas, sem inteira informação, do que ao depois como christão se arrependeu, dizendo ao vigario da Muribeca em Pernambuco, Antonio Gomes Baracho, que lhe doia na alma o que dissera de fr. Basilio.

Com este genio pois e com esta valentia se fez Gregorio de Mattos aborrecido de uns e temido de outros. Estes lhe fingiam amizade, pelo que já sentiam: sendo o primeiro golpe da commum vingança fazerem-lhe despir a murça capitular com desprezo, por sentença do arcebispo d. fr. João da Madre de Deus, successor d’aquelle em cujo tempo a vestira; si não é que elle de motu proprio abandonou o beneficio por se não accommodar ás pensões da sua residencia.

Poucos dias antes pretendeu este prelado com piedosas mostras persuadir ao poeta que tomasse ordens sacras, para conservar-lhe os cargos; mas elle respondeu com inteira resolução que não podia votar a Deus aquillo que era impossivel cumprir pela fragilidade de sua natureza; e que a troco de não mentir a quem devia inteira verdade, perderia todos os thesouros e dignidades do mundo: que o ser mau secular não era tão culpavel e escandaloso, como ser mau sacerdote. E esta resposta esperava sem duvida o arcebispo, conhecida a inteireza de Gregorio de Mattos. Sendo certo que si o quizera conservar nos cargos não eram as ordens condição necessaria, valentia foi sem duvida offender a um homem que para despicar-se não respeitava caracter, nem potestade, trajando por espada a mesma foice de Saturno amolada nas esquinas da eternidade.

D’esta segunda declinação da fortuna, que com os bens patrimoniaes muito antes havia vacillado, nasceu o precipicio terceiro, que se encadeam os males, casando com Maria de Povos, viuva honestissima, quanto formosa; mas tão pobre que seu mesmo tio Vicente da Costa Cordeiro, lastimado do seu abatimento, entendeu despersuadi-lo. Mas vendo ser impossivel, fez da sua fazenda um donativo, para que a sobrinha não fosse totalmente destituida. Era o gosto de Gregorio de Mattos, e não se trocava pelos maiores interesses, que nunca o dinheiro foi capaz de lhe apaixonar o animo. Vendeu já necessitado por tres mil cruzados uma sorte de terras, e recebendo em um sacco aquelle dinheiro, o mandou vasar no canto da casa, d’onde se distribuia para os gastos sem regra, nem vigilancia.

Posto já na obrigação de sustentar encargos de matrimonio, e aberto as portas o escriptorio da vocacia, poucos eram os defendidos, porque a inteireza do seu animo patrocinava sómente a mesma razão em materias civeis, sendo inimigo voraz d’aquelles advogados, que por junctarem cabedal enredam as partes no labyrintho de incertas opiniões. Si algumas vezes defendeu contra o que entendia, eram as causas crimes, onde a summa justiça se reputa por summa iniquidade. Ninguem se acorda que lhe rejeitassem embargos, e toda a materia d’elles se corporisava em quatro palavras d’aquelle espirito laconico, que sem offender gigantes fórmas conseguia a diminuição plausivel das materias, logrando na curta esphera de qualquer laconismo alma substancial, visivel graça, e intelligencia commum, como ninguem. Por exemplo contarei com brevidade alguns casos.

Pleiteava Pedro o cabedal que havia dado com sua filha em dote a Paulo, o qual depois de adornar a defuncta esposa com palma e capella, publicava que havia fallecido intacta. Defendia por parte do auctor o nosso jurista, e provada legalmente razoou o feito com ésta vulgaridade:

Gaita de folles não quiz tanger, Olhe o diabo o que foi fazer.

Banhou-se em aguas de flor o patrono adverso accusando de ridicularia indecente este razoado na extensa formalidade do seu: mas um e outro Senado confirmando aquella sentença, veiu a conhecer o que realmente passava; e foi que o doutor Mattos fallando pouco para merecer o menos, dizia muito para conseguir o mais.

Outro laconismo se nos envolve na historia de um religioso, para cuja intelligencia já dissemos o grande aborrecimento que tinha a todo o fingido. Venerava os religiosos verdadeiros tanto quanto abominava os que com este sancto titulo apenas merecem o nome de frades. Elle o diz com graça nestes versos:

Se virdes um dom abbade Sôbre o pulpito cioso, Não lhe chameis religioso, Chamae-lhe embora de frade.

Um d’estes frades pois se valeu do doutor Mattos, pedindo embargos para seu sobrinho, sentenciado á morte natural por haver furtado a naveta da sua sacristia. Mas elle absolutamente o desenganou que não estava em hora de o servir. Instava o religioso por saber ao menos a razão da difficuldade, e comtudo não poderei eu doirar a pilula da resposta. «É (dizia elle) que neste instante se foi d’aqui Maria de S. Bento muito agastada, e fez aquella cruz na minha porta em juramento de não entrar mais por ella.» «Ila-hei buscar (tornou o religioso), si nisso está o valer-me V Mᶜᵉ.» E logo foi representar á mulata quanta necessidade tinha de leva-la a quebrar o seu juramento. Caprichosa era ella, mas em tal caso caritativa accompanhou o triste pretendente, e posta já na presença d’esse singular e exquisito genio, ouviu que lhe dizia assim: «Não eras tu, ridicula, quem fez aquella cruz de aqui não tornar? Bem se vê que morrias por esta introducção. Ora vae, que agora te mando eu.» Foi-se a mulata exhalando veneno pelos olhos; e á vista dos autos fez elle a seguinte trova por embargos:

A naveta, de que se trata, Era de latão, e não de prata.

Á vista dos autos digo, porque o processo nelles estava em termos de lhe valerem, como valeram, ganhando sempre applausos pela attenção com que examinava os menores incidentes.

Com a folhinha do anno livrou a outro condemnado, contra quem as testemunhas com verdade haviam jurado de vista sôbre um furto de noite escura, a peditorio de seu amigo João dos Reis, mordomo então da Misericordia.

Um homem de baixa esphera, que por aquella iniquidade a que no Brazil chamam fortuna, subiu a desconhecer seu amo, comprando a vara de Juiz Ordinario na villa de Igaraçú em Pernambuco, fez um auto criminal contra este, por lhe haver chamado por Vós, como antes de o ver Juiz costumava. Defendia o nosso jurista ao réu, e confessando a culpa, mostrou que o não era, começando as razões com este argumento:

Si tractam a Deus por tu, E chamam a El-Rei por vós, Como chamaremos nós Ao Juiz de Igaraçú? Tu e vós e vós e tu.

Estas e outras obras de mais agigantado peso no seu officio canonizaram o doutor Gregorio de Mattos pelo melhor jurista; de sorte que no dia de sua morte disse o Ouvidor de Pernambuco, que lhe não era affeiçoado: «Já morreu quem entendia o direito.» Mas si o dinheiro é inimigo declarado da virtude, mal poderia Gregorio de Mattos adquiri-lo, defendendo o justo, e aconselhando o verdadeiro, arrebatado maiormente pelo furor das Musas, cuja condição totalmente se encontra com os labyrinthos de Bardo e Bartolo. Conta-se que muitas vezes aconteceu entrarem-lhe as partes com dinheiro consideravel, e os amigos com assumptos menos dignos, e que elle despresava aquellas, por attender a estes, passando lastimosas necessidades.

Era a esposa um pouco impaciente, talvez pelo pouco pão que via em casa, e tal pelo distrahimento de seu marido, cujas desenvolturas claro se patenteam d’estas obras: como veremos pelas rubricas de cada uma, posto que nem a todas se deva dar inteiro credito; e enfadada de uma e outra desesperação sahiu de casa, e entrou pela de seu tio, que depois de a reprehender asperamente, veiu rogar ao poeta com razões de amigo que a fosse buscar, ou consentisse ao menos que elle lh’a trouxesse: e foi-lhe respondido que de nenhum modo admittiria sua mulher em casa sem vir atada em cordas por um capitão do matto, como escrava fugitiva. Assim se fez pelo mais decoroso modo, e elle a recebeu, paga a tomadia do regimento; protestando chamar Gonçalos áquelles filhos que nascessem de tal matrimonio; porque a sua casa se pudesse dizer de Gonçalo, com mulher tão resoluta.

Acossado da pobreza, e sem esperança alguma de remedio em uma terra, onde sómente o tem para triumphar da fortuna quem por estradas de iniquidade caminha, se entregou o poeta a todo o furor da sua Musa, ferindo a uma e outra parte como raio com edificios altos a materia mais debilitada. E não achando a resistencia, que talvez desesperado pretendia (negação fatal em tempos bellicosos), elegeu peregrinar pelas casas dos amigos, e sahiu ao reconcavo povoado de pessoas generosas pela multidão florentissima de engenhos d’assucar, preciosa droga, que perdendo com o valor a estimação, levou comsigo a dos Magnates Brazilienses.

Por este Paraiso de deleites estragava a cithara de Apollo suas harmoniosas consonancias com assumptos menos dignos de tão relevante estrondo. Lascivas mulatas e torpes negras se ufanizaram dos tropos e figuras de tão delicada poesia. Mas que muito, si quando naufraga o baixel quaesquer barbaros galeam a mais preciosa mercadoria! Não quero persuadir que a desesperação lhe occasionou desenvolturas; mas direi que do genio, que já tinha, tirou a mascara para manuzear obscenas e petulantes obras em tanta quantidade, que das que tenho em meu poder tão indignas do prélo, como merecedoras da melhor estimação, se póde constituir um grande volume.

Mas a prodiga diffusão de mal applicados conceituosos dispendios nascia das enchentes prodigiosas d’aquella Musa, que sem esperança de que seus descuidos correriam na futura estimação, barateava versos á conjuncção dos acasos, facilitando linguagem ao genio dos sujeitos. Da mesma sorte que o celebrado pintor Raphael de Urbino, que disfarçado em sua criminosa peregrinação pintava aos oleiros louça, e taboletas de mezão aos estalajadeiros, sem prevenir que em sua posteridade seriam resgatados por alto preço aquelles borrões milagrosos da sua malograda idéa.

Assistia-lhe nestas desenvolturas com outros do mesmo genero aquelle celebrado trovador de chistes, a quem uma titular lisonja proporcionou Thalia por ama sêcca, que se prezava muito de ministrar-lhe assumptos, apezar dos melhores amigos, que d’estas companhias lhe prognosticavam sempre a fatal ruina.

Governava então d. João de Alencastre, secreto estimador das valentias d’esta Musa, que a toda a diligencia lhe enthesourava as obras desparcidas, fazendo-as copiar por elegantes lettras; quando de uma náu de guerra desembarcou o filho de certa personagem da côrte com animo vingativo contra o poeta, por dizer-se que havia satyrisado toda a honra de seu pae: e bem que disfarçava sua maligna intenção, toda a intenção maligna percebeu d. João dos mesmos disfarces d’ella. Era este cavalheiro generosamente compadecido, e excogitando meios de livrar uma vida em que a natureza depositára tão singulares prendas, achou traças de segurar-lhe o perigo nos fingimentos de rigoroso justiceiro.

Ordenou aos officiaes de milicia que saindo fóra da cidade a toda a cautela lhe trouxessem preso o dr. Gregorio de Mattos. Mas não pôde effeituar a diligencia, porque suspeitoso d’ella o vigario da Madre de Deus, Manuel Rodrigues, homem virtuoso que o hospedava, soube consumir naquella ilha as mesmas presumpções de ser achado. Mas o governador impaciente com ésta tyranna piedade, que lhe frustrava os meios da sua piedosa tyrannia, communicou a intenção ao secretario d’Estado Gonçalo Ravasco Cavalcanti de Albuquerque, pessoa de bom entendimento, e como tal estimador do poeta, e accordaram que o mesmo secretario fingisse que o chamava para dar-lhe importantes avisos, que não poderiam ser menos de pessoaes; e com carta de sua lettra se enviou portador interessado nas melhoras do perseguido.

Conhecida a lettra pelo dr. Gregorio de Mattos, e confiado na muita honra de Gonçalo Ravasco, promptamente veiu a fallar-lhe no logar determinado, que era a casa de Antonio de Moura Rolim, tambem amigo, para que se veja que quando os amigos grandes se junctam empenhados a favorecer um desditado poeta, será para o prenderem e desterrarem por modo de fineza. Sempre tenho que d’estas tres amizades, a primeira arrastou com sagacidade as duas por temer em seu govêrno os atrevidos córtes d’esta penna.

Alli pois o prenderam sem poder dar um desafôgo ao discursivo; e mettido na casa que chamam Leoneira, na mesma portada de Palacio, mandou que alli não deixassem chegar pessoa de qualidade nenhuma: e por mãos de um confidente criado lhe remettia para sustentar-se os manjares de sua meza particular: e d’esta particular prisão o trasladaram depois á cadêa, mal seguros de seu perigo.

Trabalhou o infeliz Gregorio por justificar-se, lisongeando a um tempo aquelle magistrado, cujas entranhas dominava pias; mas d. João o desenganou, intimando-lhe que por sua conhecida culpa e necessario remedio havia de embarcar-se para Angola em uma nau, que promptamente carregava a tropa de cavallos de El-Rei para Benguella. Era o dr. Gregorio de Mattos consummado solfista, e modulando as melhores lettras d’aquelle tempo, em que a solfa portugueza se avantajava a todas as de Europa, tangia graciosamente. A proposito do que me pareceu escrever aqui esta decima, que por isso lhe fez Gonçalo Soares da Franca, nobre engenho da Bahia:

Com tanto primor cantais, Com tanta graça tangeis, Que as potencias suspendeis, E os sentidos elevais: De ambas sortes admirais Suspendido o bravo Eolo, Mas eu vos digo sem dolo, Que de mui pouco se admira Pois tocais de Orpheu a lyra, E a pluma tendes de Apollo.

Com estas prendas fazia apreço particular de uma viola, que por suas curiosas mãos fizera de cabaço, frequentado divertimento de seus trabalhos, e nunca sem ella foi visto nas funcções a que seus amigos o convidavam, recreando-se muito com a brandura suave de suas vozes. Por esta viola, que havia deixado na Madre de Deus, fazia extremos taes, receiando que sem ella o embarcassem, que o vigario Manuel Rodrigues, a quem feriam na alma suas desgraças, promptamente lh’a mandou com um liberal donativo para as cordas d’ella.

D. João, chegada a hora de embarcar, o mandou vir á sua presença, e tractando-o com humanidade de principe lhe pediu que evitasse as occasiões de sua perdição ultima; porque era lastima que uma pessoa, a quem o céu enriquecêra de talento para melhor fama, comprasse o seu discredito com o discredito irremediavel de tantos. Decorosamente o fez embarcar, não se olvidando de recommenda-lo ao governador de Angola Pedro Jacques de Magalhães, a quem com a causa d’aquelle degredo insinuava os perigos que em qualquer parte corria sua pessoa.

Chovendo maldições e praguejando satyras peregrinou os mares aquelle que por instantes naufragava nas tempestades da terra. Dizia elle que com razão sobrada podia articular o _non possidebis ossa mea_ de Scipião; e fallou com rigoroso acêrto: porque se houveram patrias no mundo que desterraram seus benemeritos filhos, não consistiu talvez essa desgraça tanto na malicia d’ellas, como no destino d’estes. Porém a Bahia dos muitos habitos de desprezar seus naturaes fez natureza para aborrece-los e persegui-los. A melhor pintura d’esta verdade se póde ver nas vozes que sôbre ella declama o mesmo poeta, onde sem hyperbole de Musas resplandece a propriedade tal, que eu com ser extrangeiro acreditava a poesia com o juramento dos Sanctos Evangelhos.

As personagens de quem o poeta justamente se queixa em suas satyras são comparadas a uma herva natural de Guiné, chamada aquelle terreno Nhesiquè, e transplantada neste com o nome de Melão de S. Caetano, por virem as primeiras a um sitio d’este nome; a qual de sorte se apoderou do Brazil em toda parte, que não ha logar sem ella, nem planta que prevaleça com sua inutil visinhança. As casas de religião enriquecidas e illustradas pelos curiosos e liberaes mazombos, e sempre nellas laborando petulantes opposições a parcialidade dos Reinóes admittidos alli por com miseração. Ingratos hospedes! Mas si algum tivesse desejos de padecer martyrio, fallar nesta materia queixoso causaria ao menos um degredo similhante ao do doutor Gregorio de Mattos.

Não poderá negar-me a razão, que choro, quem sabe que no anno de 1740 mandou o provincial de S. Francisco conduzir do Porto uma chusma de pobretões, em desprezo dos pacientissimos naturaes da terra, para adorno da sua religião, e nunca o demonio acertou com esta destreza para combater o animo de Job. Chegam finalmente a aborrecer os mesmos filhos sem maior causa que haverem nascido no Brazil, onde receberam cabedal, e inundando por toda a parte em que os brazileiros os honram e estimam, em nenhuma d’ellas querem soffrer que haja honra nem estimação nos brazileiros.

Fazendo porém verdadeira distincção nos nossos naturaes que são comprehendidos nesta miseria, culparei sómente os das fecundissimas provincias da Beira e Minho (salvando os nobres), e é de reparar que sendo estes os que com maior necessidade se lançam a buscar dinheiro, são estes mesmos aquelles cuja suberba é tão formidavel a quem os remedeia. Vejamos ésta queixa allegorisada pela nossa aguia sôbre o gato de um meirinho:

Não posso comer ratinhos, Porque cuido, e não me engano, Que de meu amo são todos Ou parentes, ou paisanos: Porque os ratinhos do Douro São grandissimos velhacos; Em Portugal são ratinhos, E cá no Brazil são gatos.

Mas deixando esta materia por irremediavel, e não por temer as unhas d’estes gatos, irei seguindo o meu infeliz poeta em sua fatal navegação.

Chegado ao reino de Angola, miseravel paradeiro de infelizes, a quem com a propriedade costumada chamou armazem de pena e dor, e exercendo na cidade de Loanda o officio de advogado, aconteceu que amotinada a infantaria da guarnição d’aquella praça, e posta em armas fóra da cidade, entrou uma chusma de soldados pela casa de Gregorio de Mattos, forçando-o a que os fosse aconselhar sôbre as capitulações que tinham com o governador seu general; e posto com effeito entre os amotinados no campo, clamou que o levassem á casa para trazer certa cousa que lhe esquecêra, sem a qual não podia obrar á medida de suas satisfações. Entenderam os soldados que seria livro de direito, e não duvidaram de romper segunda vez o perigo de entrar na praça; mas aquelle que imaginavam instrumento de solido conselho, outra cousa não era mais que a sonora cabaça do poeta; do que se infere o como chasqueou este Democrito das alterações da fortuna.

Muito pago ficou o governador d’esta galantaria geralmente celebrada. Serviu-se d’elle para adjuncto na condemnação dos cabeças d’aquelle motim, que foram arcabuzados pelos ouvidos; e desempenhando a recommendação de d. João de Alencastre deu-lhe liberdade para embarcar-se a Pernambuco. Posto naquella capitania, governada então por Caetano de Mello de Castro, com o semblante perturbado pela indecencia do habito demandou a presença d’este fidalgo, que lastimando de ver o miseravel estado a que chegára um homem tão mimoso da natureza, lhe fez donativo de uma bolsa bem provida, e com palavras um pouco severas lhe mandou que naquella capitania cuidasse muito em cortar os bicos á penna, si o quizesse ter por amigo. Não sei si era zelo publico, si particular temor. Gregorio de Mattos o prometteu fazer assim, e em algumas occasiões mostrou quão violentado estava com aquelle preceito: seja uma d’ellas o caso que refiro.

Picadas de ciumes se encontraram duas mulatas meretrizes juncto á porta do poeta, e renovando suas paixões de uma e outra parte se descompunham em vozes petulantes. Passaram de lingua a braços, e atracadas tenazmente cahiram por terra em ridicula visão, a tempo que avisado da grita sahiu a vê-las o poeta, e dando naquelle espectaculo deshonesto começou a gritar: _ai que de El-Rei contra o senhor Caetano de Mello!_ Perguntaram-lhe os circumstantes que queixa tinha do governador: «Que maior queixa (respondeu) que a de prohibir-me fazer versos quando se me offerecem similhantes assumptos?» Notavel argumento do respeito d’este fidalgo, si Gregorio de Mattos não tomára depois algumas licenças de satyrisar.

Os nobres de Pernambuco contendiam ambiciosas demonstrações de urbanidade com elle, venerando em sua pessoa prendas de que já os havia a fama informado por escriptos. De uma em outra fazenda passava Gregorio de Mattos uma regalada vida, e sem offender a nobreza d’este paiz, me presuado a crer que o adoravam á maneira que os antigos idolatras com politica religião faziam sacrificios ao gorgulho para não destruir-lhe as sementeiras, e á peste para perdoar-lhe as vidas. Mas sempre é digno de louvor quem sabe lisongear o damno porque o teme. Na Bahia perdeu muitos amigos pelo meio de os ganhar; e em Pernambuco os ganhava pelo meio de perde-los. Referirei dous casos, que sirvam de exemplo a este ultimo reparo.

Certa pessoa muito principal em Pernambuco, de quem o poeta era hospede, ouvia d’elle os encarecimentos com que relatava a desgraça em que nascêra, e sua desterrada peregrinação com todos os acontecimentos tristes, e como attribuia seus infortunios á rigorosa força de estrella; e mal persuadido d’esta rhetorica triste lhe respondeu atalhando nesta fórma: «Sñr. doutor, nós mesmos somos os auctores da nossa fortuna, e cada um colhe o que semêa.»--«Não ha duvida (respondeu o poeta), mas é desgraçado aquelle contra quem se conjurou a malicia, que das mesmas virtudes lhe fazem dilictos: verbi gratia, alli vem aquelle boi (e mostrou um da fazenda do mesmo sujeito); elle tem um só corno, como estamos vendo, mas si eu lhe chamar boi de um corno, Deus me livre da indignação de seu dono.» E sendo esta materia por toque ou remoque muito melindrosa em Pernambuco, disfarçou este homem o proposito, sendo certo que foi o maior amigo que teve naquella terra o doutor Gregorio de Mattos.