Obras poeticas de Gregorio de Mattos Guerra - Tomo I
Part 5
O vigario da Muribeca Antonio Gomes Baracho, atravessado com o seu coadjutor, não lhe podia soffrer as presumpções de solfista. Ordenou ao seu trombeta que tocasse desesperadamente em ouvindo cantar como sempre o coadjutor. Mas este que percebeu a burla, tambem se armou de um caracol marinho, com que apupava a trombeta de seu inimigo. O vigario, a quem o grande odio descompunha o entendimento, se foi querelar do caso perante o vigario geral, com quem privava. Recebida a queréla, e seguro o coadjutor, chegou o caso á noticia de Gregorio de Mattos, e posto a caminho sobre a besta de um farinheiro entrou com seis leguas de jornada por casa do criminoso, a quem pediu procuração para defender-lhe a causa, asseverando que o não trouxera alli outro algum negocio, e que de graça o queria servir. Ia o padre a agradecer-lhe tanta fineza, mas o doutor lhe atalhou, dizendo: «Não, sñr. padre, não m’o agradeça, que o meu interesse é saber d’este juiz qual é a lei que condemna a quem toca um buzio.» Avisado o vigario do excesso que fizera aquelle homem, a quem conhecia douto e respeitava poeta, logo o foi buscar á casa do mesmo coadjutor, concedendo a este pazes, e ficando em particular amizade com elle.
Honravam-no todos seriamente; mas arrebatado de seu fresco e esparcido genio fugia dos homens circumspectos, e se inclinava (como na Bahia) a musicos e folgazões. E sendo naturalmente aceiado e gentil, descompunha a sua auctoridade vivendo entre estes ao philosopho: de sorte que invejava aos barbaros gentios do Brazil a liberdade de andarem nus pelo arvoredo, lastimando-se d’aquellas pensões a que nos obriga a policia. Como outros costumam adornar seus escriptorios de odoriferos pomos, que regalam a vista e olfacto, adornava elle o seu de bananas que chamam do Maranhão, que mais servem ao sustento que ao gosto: e isto em demasiada quantidade, que provocando riso a quem as via, dava em razão:--_adornemo-nos de proveito, que em quanto as tenho, riu-me da fome_.
Uma rigorosa febre lhe attenuou os dias, de sorte que desenganados os piedosos pernambucanos de remir-lhe a vida, chamaram o vigario do Corpo Sancto Francisco da Fonseca Rego, pessoa que suppunham de mais auctoridade, para que o dispuzesse a morrer como catholico. Mas como este parocho era na opinião do poeta mal recebido, sem poder disfarçar nesta hora o genio livre, soltou algumas palavras, que puzeram as chimeras do vulgo em suspeitas, de que nasceu um rumor menos decoroso á sua consciencia; o qual chegando aos ouvidos do illustrissimo prelado d. fr. Francisco de Lima, logo desde uma legua de caminho se arrojou como bom pastor a tomar em seus hombros a ovelha que suppunha desgarrada; e não foi assim, porque não só o achou disposto a morrer como verdadeiro christão, mas em signal de que lhe servira o entendimento no maior conflicto, viu em uma folha de papel escripto com caracteres tremulos o grande soneto que offerecemos:
Pequei, senhor: mas não, porque hei peccado, Da vossa alta piedade me despido: Antes quanto mais tenho delinquido, Vos tenho a perdoar mais empenhado. Si basta a vos irar tanto peccado, A abrandar-vos sobeja um só gemido: Que a mesma culpa, que vos ha offendido, Vos tem para o perdão lisongeado. Si uma ovelha perdida, já cobrada, Gloria tal e prazer tão repentino Vos deu, como affirmais na Sacra Historia: Eu sou, senhor, ovelha desgarrada; Cobrae-a; e não queirais, Pastor Divino, Perder na vossa ovelha a vossa gloria.
Assistiu-lhe o piedoso bispo até o ultimo valle, e logo seu corpo foi levado por homens principaes ao Hospicio de Nossa Senhora da Penha dos Capuchinhos Francezes, o dia em que chegavam as novas da restauração do famoso Palmar a Pernambuco, que havia de ser o sexto da victoria, pois tanto gasta um caminheiro apressado de um logar a outro. Mas é em vão busca-lo em Pitta, auctor moderno que d’isto tracta como si não tractára. E mais me escandalisa que passasse em sua mesma patria por um poeta de tal nome seu contemporaneo, com quem devia gastar parte d’aquelles elogios. Morreu finalmente no anno de 1696 com edade de setenta e tres annos.
Este é o mais abreviado resumo que posso dar da vida do meu suspirado, quão dilectissimo poeta lyrico; e oxalá podéra eu publicar os prodigiosos fundamentos do meu amor, derramando entre as gentes o manancial thesouro de suas graças! Singular foi a estrella que dominou em seu engenho; porque a toda a circumferencia das luzes apolineas brilhou com egualdade senhoril; e não menos prodigioso aquelle não sei que de sua guarda, porque offendendo ás claras muitas pessoas, de quem o menor movimento seria sem duvida uma tyranna morte, sempre se atreveu, e nunca de seu motu proprio cautelou perigos; morrendo intacto de tão prolongados mezes.
Muitos eram os feridos do seu ferro que consultaram o remedio no mesmo instrumento da chaga, beijando a Achilles a lança que os traspassára. Raro testimunho d’esta fatalidade foi a resposta que deu a um queixoso certo governador severamente resoluto: «Não faça V. Mᶜᵉ. caso (disse), porque isso tambem passa por mim, sem que por mim passe a minima tenção de o castigar.»
Testimunho d’esta fatalidade são as duas quartas de um soneto, que se fez em sua morte; o qual não escrevo por inteiro em razão de que si os seus principios professam a verdade pura, os fins todavia contém temeraria petulancia:
Morreste emfim, Gregorio esclarecido, Que sabendo tirar por varios modos A fama, a honra, o credito de todos, D’esses mesmos te viste applaudido.
Entendo que outro tal não tem nascido Entre os Romanos, Gregos, Persas, Godos, Que comtigo mereça ter apodos Nos applausos, que assim has adquirido.
Muitas vezes quiz elle refrear o genio, que conhecia prejudialmente peccaminoso, fazendo os actos de christão que em seu logar veremos, mas debalde o intentava, porque o seu furor intrepido imperava dominante na massa sanguinaria contra os desacertos d’aquella edade, castigados por Deus com tão horrorosa peste e tão repetidas fomes: como tambem veremos pelo decurso d’estas obras. E não é de admirar que disparadas do throno da divina justiça aquellas duas lanças de sua via, seguisse a terceira com tão exquisito genero de guerra em um homem, que de sua mãe unicamente tomou este appellido entre outros partos: ella o deu appelidando-se--da Guerra--, e elle o foi sem aquella proposição _da_, por ser a mesma guerra, e não o instrumento d’ella. Isto parece que prophetizou corto inimigo seu, respondendo-lhe a uma satyra com outra na seguinte fórma:
Porém si em nada és guerreiro, Para que te chamas guerra, E a fazes a toda a terra Com a lingua, que é mor damno, &.
Deixou o dr. Gregorio de Mattos um filho de sua mulher Maria de Povos, chamado Gonçalo de Mattos, cujo amor publica em várias obras este livro, que em seus logares se verão sem enfadosas citas.
o quente da cama Com Gonçalo, e com sua ama, Dizendo estava comei-me, &. Por vida do meu Gonçalo, Custodia formosa e linda, &. Madrasta do Gonçalinho, Que é lindo enteado a fé, &. Sim, por vida de Gonçalo, &. Mas por vida de Gonçalo, &.
D’este moço, que com sua mãe ficou em summa pobreza e desamparo, correm noticias muito geraes que totalmente degenerára d’aquella massa scientifica de seus estupendos progenitores. Bem pudera eu duvida-lo em uma terra, onde sempre se hão de tomar os echos da fama pelo contrario; pois nunca vi nella abonar um sujeito que não mereça ser desterrado por máu, nem vituperar outro que ao contrario desmereça elogios de bom.
Mas para cumprir com os relativos d’esta historia consultei dous sujeitos que se criaram com Gonçalo de Mattos, ambos de instincto capaz para uma informação, e entre elles achei a contradicção, que póde servir de exemplo a quem se informa: um affirma com juramento que era poeta natural, o outro jurando nega que tal fosse, dizendo que elle nem o Padre Nosso era capaz de repetir. A este seguem muitos, e nenhum áquelle: mas o primeiro chamado Christovão Rodrigues diz que em sua adolescencia lhe dera o seguinte mote:
Com que, porque, para que.
Defendia-se o Gonçalo temeroso de uma maldição condicional de sua mãe, em respeito da qual não queria pegar na penna para fazer versos, posto que no animo lhe pulsavam as Musas (tal foi o escarmento que deixaram ellas naquelles cadaveres da paciencia lastimosa). Mas como a condição do preceito tinha sua clausula, em que fundar-se uma heresia graciosa, respondeu importunado: «Pegae vós na penna, porque a maldição de minha mãe parece que não me prohibe fazer versos, mas sim pegar na penna para elles.»
Repetiu-me então esta decima, que tanto ella como a resposta, si são verdadeiras, vem a ser uns relampagos da esphera do fogo:
GLOSA.
Disse Clori que me amava Para o intento que tem, O qual não disse a ninguem, Nem o porque declarava: Eu então lhe perguntava Com que genero de fé! Suspensa a dama se vê; Como nada respondeu, Não pude saber o seu Com que, porque, para que.
Persuado a crer o caso pelas suas circumstancias, e muito mais quando vejo aqui umas reliquias mais separadas d’aquelle humor, ou ramas menos fortes do enxerto do doutor Pedro de Mattos seu tio, onde não ha resposta sem equivoco sem substancia do genero mais nobre.
Foi o doutor Gregorio de Mattos de boa estatura, secco do corpo, membros delicados, poucos cabellos e crespos, testa espaçosa, sobrancelhas arqueadas, olhos garços, nariz aguilenho, bocca pequena e engraçada, barba sem demasia, e no tracto cortezão. Trajava commummente seu collete de pelles de ambar, volta de fina renda, e era finalmente um composto de perfeições como poeta portuguez, que são Esopos os de outras nações. Tinha phantasia natural no passeio, e quando algumas vezes por recreação sulcava os quietos mares da Bahia a remo compassado, com tão bizarra confiança interpunha os oculos, examinando as janellas da sua cidade, que muitos curiosos iam de proposito a vê-lo.
Fiz tirar d’elle a presente cópia, por um antigo pintor, que foi seu familiar, e conferindo-a com as memorias que d’elle têm algumas pessoas antigas, tenho-a por mui conforme a seu original. Naquelle tempo era pouco versado o uso das cabelleiras, e elle a trajava: mas pareceu-me copia-lo sem ella, porque os homens de talento devem patentear-nos as officinas capitaes que o produzem para informação dos judiciosos.
SATYRICAS
OBRAS POETICAS
DE
GREGORIO DE MATTOS GUERRA
AOS VICIOS
TERCETOS
Eu sou aquelle que os passados annos Cantei na minha lyra maldizente Torpezas do Brazil, vicios e enganos.
E bem que os descantei bastantemente, Canto segunda vez na mesma lyra O mesmo assumpto em plectro differente.
Já sinto que me inflamma e que me inspira Thalia, que anjo é da minha guarda Des’ que Apollo mandou que me assistira.
Arda Bayona, e todo o mundo arda, Que a quem de profissão falta á verdade Nunca a dominga das verdades tarda.
Nenhum tempo exceptua a christandade Ao pobre pegureiro do Parnaso Para fallar em sua liberdade.
A narração ha de egualar ao caso, E si talvez ao caso não eguala, Não tenho por poeta o que é Pegaso.
De que póde servir calar quem cala? Nunca se ha de fallar o que se sente?! Sempre se ha de sentir o que se falla.
Qual homem póde haver tão paciente, Que, vendo o triste estado da Bahia, Não chore, não suspire e não lamente?
Isto faz a discreta phantasia: Discorre em um e outro desconcerto, Condemna o roubo, increpa a hypocrisia.
O nescio, o ignorante, o inexperto, Que não elege o bom, nem mau reprova, Por tudo passa deslumbrado e incerto.
E quando vê talvez na doce trova Louvado o bem, e o mal vituperado, A tudo faz focinho, e nada approva.
Diz logo prudentaço e repousado: --Fulano é um satyrico, é um louco, De lingua má, de coração damnado.
Nescio, si d’isso entendes nada ou pouco, Como mofas com riso e algazarras Musas, que estimo ter, quando as invoco.
Si souberas fallar, tambem falláras, Tambem satyrisáras, si souberas, E si fôras poeta, poetisáras.
A ignorancia dos homens d’estas eras Sizudos faz ser uns, outros prudentes, Que a mudez canoniza bestas feras.
Ha bons, por não poder ser insolentes, Outros ha comedidos de medrosos, Não mordem outros não--por não ter dentes.
Quantos ha que os telhados têm vidrosos, E deixam de atirar sua pedrada, De sua mesma telha receiosos?
Uma só natureza nos foi dada; Não creou Deus os naturaes diversos; Um só Adão creou, e esse de nada.
Todos somos ruins, todos perversos, Só nos distingue o vicio e a virtude, De que uns são comensaes, outros adversos.
Quem maior a tiver, do que eu ter pude, Esse só me censure, esse me note, Calem-se os mais, chiton, e haja saude.
BENZE-SE
O P. DE VARIAS ACÇÕES QUE OBSERVAVA NA SUA PATRIA
D’estes que campam no mundo Sem ter engenho profundo, E, entre gabos dos amigos, Os vemos em papafigos Sem tempestade, nem vento: Anjo bento!
De quem com lettras secretas Tudo o que alcança é por tretas, Baculejando sem pejo, Por matar o seu desejo, Desde a manhãa té à tarde: Deus me guarde!
Do que passeia farfante, Muito presado de amante, Por fóra luvas, galões, Insignias, armas, bastões. Por dentro pão bolorento: Anjo bento!
D’estes beatos fingidos, Cabisbaixos, encolhidos, Por dentro fataes maganos, Sendo nas caras uns Janos, Que fazem do vicio alarde: Deus me guarde!
Que vejamos teso andar Quem mal sabe engatinhar, Muito inteiro e presumido, Ficando o outro abatido Com maior merecimento: Anjo bento!
D’estes avaros mofinos, Que põem na meza pepinos, De toda a iguaria isenta, Com seu limão e pimenta, Porque diz que queima e arde: Deus me guarde!
Que pregue um douto sermão Um alarve, um asneirão; E que esgrima em demasia Quem nunca lá na Sophia[1] Soube pôr um argumento: Anjo bento!
[1] Rua principal de Coimbra: allusão á Universidade.
D’esse sancto emmascarado, Que falla do meu peccado, E se tem por Sancto Antonio, Mas em luctas com o demonio Se mostra sempre cobarde: Deus me guarde!
Que atropellando a justiça, Só com virtude postiça, Se premeie o delinquente, Castigando o innocente Por um leve pensamento: Anjo bento!
REPROVAÇÕES
Si sois homem valoroso, Dizem que sois temerario, Si valente--espadanchim, E atrevido si esforçado. Si resoluto--arrogante, Si pacifico, sois fraco, Si precatado--medroso, E si o não sois--confiado. Si usaes justiça, um Herodes, Si favoravel, sois brando, Si condemnaes, sois injusto, Si absolveis, estaes peitado. Si vos dão, sois um covarde, E si daes sois deshumano, Si vos rendeis, sois traidor, Si rendeis--afortunado. Si sois plebeu, sois humilde, Soberbo, si sois fidalgo, Si sois segundo sois pobre, E tolo si sois morgado. Si galeaes, sois fachada, E si não--não sois bizarro, Si vestis bem, sois gram moda, Si mal vestis sois um trapo. Si comeis muito, guloso, E faminto, si sois parco, Si comeis bem, regalão, E si mal, nunca sois farto. Si não soffreis, imprudente, Si soffreis sois um coitado, Si perdoaes, sois bom homem, E si não sois--um tyranno. Si brioso, tendes fumos, E si não, sois homem baixo, Si sois serio, descortez, Si cortez, afidalgado. Si defendeis, sois amigo, Si o não fazeis sois contrario, Si sois amigo, suspeito, Si o não sois--affeiçoado. Si obraes mal, sois ignorante, Si bem obraes, foi acaso, Si não servis, sois isento, E si servis, sois criado. Si virtuoso, fingido, E hypocrita si beato, Si zeloso, impertinente, E si não, sois um patrano. Si sois sisudo, intractavel, Si sois devoto, sois falso, Pertinaz, si deffendente, Si arguinte, porfiado. Si discreto, prevenido, E si não, sois insensato, Si sois modesto, sois simples, E si o não sois, sois um diabo. Si sois gracioso, sois fatuo, E si não sois, um marmanjo, Si sois agudo tresledes, E si o não sois, sois um asno. Si não compondes, sois nescio, Si escreveis, sois censurado, Si fazeis versos sois louco, E si o não fazeis, sois parvo. Si previsto, feiticeiro, E si não, desmazelado, Si verdadeiro, bom homem, Muito humilde, si sois lhano. Si robusto, sois grosseiro, Si delicado, sois brando, Si descansado, ocioso, Si para pouco, sois tranco. Si sois gordo, sois balôfo, Sois phthisico, si sois magro, Si pequeno, sois anão, E gigante, si sois alto. Si sois nobre, sois pelão, E si official, sois baixo, Si solteiro--extravagante, Si noivo sois namorado. Si corado, figadal, Descorado, si sois alvo, Si grande nariz--judeu, Si trigueiro, sois mulato. Si liberal sois perdido, E si o não sois, sois escasso, Si sois prodigo, vicioso, E avarento, si poupado. Si não despendeis--mesquinho, Si despendeis, sois mui largo, Si não gastaes--miseravel, Si gastaes--esperdiçado. Si honesto sois, não sois homem, ... si sois casto, Si não namoraes, ..... Si o fazeis, sois estragado. Si não luzis, não sois gente, Si luzis, sois mui presado, Si pedis, sois pobretão, E si não, fazeis Calvarios. Si andaes devagar--mimoso, Si depressa sois cavallo, Mal encarado, si feio, Si gentil--affeminado. Si fallaes muito, palreiro, Si fallaes pouco, sois tardo, Si em pé, não tendes assento, Preguiçoso, si assentado. E assim não póde viver Neste Brazil infestado, Segundo o que vos refiro Quem não seja reprovado.
VERDADES
Ouve, ó amigo João, Esta verdade que canto, Si a verdade causa espanto Esta causa admiração: É certo, sem remissão, E contra isto não ha nada, Que a outra verdade usada Com rebuços, mais enganos, É verdade de maganos, Mas esta é de gente honrada.
Domingos e dias sanctos Nos manda a egreja guardar, Nos mais dias trabalhar: As mulheres trazem mantos: Os doutos estão nos cantos, Os ignorantes na praça, Os cachorros vão á caça, Os gatos furtam as ceias, Os barbeiros rasgam veias E as padeiras fazem massa.
Os homens fazem a guerra, E as mulheres fazem renda, Os tolos não têm emenda, Os capos cavam a terra: O bezerro sem mãe berra Batem bandeiras alferes, Os pobres buscam haveres, Os peixes nadam no mar, As purgas fazem purgar, E os franciscanos colhéres.
Os cavallos comem herva, Os despidos andam nús, Come o Gentio cajús, Os Tapuyas são caterva: Não dorme de noite a cerva, Os macacos fazem momos, Os escripturarios tomos, Os namorados passeiam, As fragonas zombeteiam, E as limas todas têm gomos.
Todos os ferrões têm ponta, A agua do mar é salgada, O hóspede logo enfada, Todo o algarismo é conta: A nau sem vela não monta, O badalo dá no sino, Chorar muito é desatino, Muito comer enche a pança, _Bum-bum_ é agua em criança E ter em pé, _pino-pino_.
Os caranguejos têm pernas, Tocado o tambor faz bulha, O _arrelá_ desempulha, O navio tem cavernas; O fogo accende as lucernas Os ... fedem á .., Quem degenera não herda, O carvão todo é de lenha, É só de lã a estamenha, E a cabelleira tem cerda.
As hervas são todas folhas, As larangeiras dão fructas, Mulheres damas são .. .., Uma talha são dez polhas: As botijas levam rolhas, Toda a neve é branca e fria, A irmãa de mãe é tia, É o bronze todo duro, Onde não ha luz, é escuro, Quando não é noite é dia.
O sol e o fogo são quentes, A chuva aonde cae molha, Quem não tem vista não olha, Ossos na boca são dentes: É affronta dizer--mentes! É ave grande a gallinha, O cabello cae com tinha, Quem é rouco tem catarrho, Carregado canta o carro, Mulher de rei é rainha.
Não ha barba sem cabello, A arêa toda é de grãos, Toca-se a harpa com as mãos, É animal o camello: Nenhuma calva tem pello, Os ovos saem pelo .. É marisco o sururú, Todo o feijão é legume, Coze-se o comer ao lume, É abobora o gerumú.
Todo o unguento é mézinha Não tem banha o bacalhau, Papas ralas é mingau, Trigo moido é farinha: Couza alheia não é minha, Não ha escada sem degraus, Os picaros são maraus, Tem aduellas a pipa, Umbigo é ponto de tripa, Sempre é loio o rei de paus.
Primeiro foi frango o gallo, Palangana é prato fundo, É redondo todo o mundo, As luvas não fazem callo: Tem quatro pés o cavallo, Nunca mija o papagaio, O chouriço grande é paio, Não sabe ler a guariba, Quem tem carcunda tem giba, Antes de junho está maio.
Todo o chapeu é sombreiro, As arvores são de pau, Tudo o que não presta é mau, E faz a barba o barbeiro: O.. detraz é trazeiro, É nervo a penna de pato, Filho de parda, é mulato, Mulheres todas são femeas, Duas em um ventre são gemeas, No pé se calça o sapato.
Toda a cousa negra é preta, Papel é de trapos velhos, Olhos do. são besbelhos, Bordão de velho é moleta: O mascarado é careta, Tabaco é fumo pizado, Peixe de moquem é assado, O pirão duro é taipeiro, Mareta em mar é carneiro, Rapadura é mel coalhado.
Quem não tem juizo é tolo, Quem morre fica sem vida, Perna delgada é comprida, Reposto de jogo é bôlo: Negro ladino é creoulo, Sebo de vacca é gordura, Figado e bofes forçura, Manteiga é nata de leite, É oleo todo o azeite, E todo o vigario é cura.
Sem a lingua não se falla, Quem não come morre á fome, A empinge toda come, O surrão de couro é mala: _Palalá_ é... rala, O tatú tem casca dura, O salgado faz secura, Arroz sem casca é pilado, As sôpas são pão molhado, O ferrolho é fechadura.
Os bancos servem de assento, Leicenço tem carnegão, Homem de villa é villão, As pennas voam com vento: O adro da egreja é bento, A camisa é roupa branca, Pau que fecha a porta é tranca, Tem ventas todo o nariz, Toda a batata é raiz, A cara feia é carranca.
A farinha do Brazil Primeiro foi mandioca, Milho estalado é pipoca, O gato todo é subtil: Tres barris e um barril Enchem todos uma pipa, Não se faz casa sem ripa, Ou vara com seu sipó, Quem não tem ninguem é só, Todo o bom cavallo esquipa.
Sempre é boa a espada nova, Mas a velha é saramago, Homem que gagueja é gago, Toda a banana é pacova: Quem morreu vai para a cova, Olho do .. é mataco: Agua de flor do sovaco Deu sempre vida a um morto, O que tem um olho é torto, _Guariba_ não é macaco.
Solimão e rozalgar Matam, porque são veneno, Grande doutor foi Galeno, O fazer curso é purgar: Fallar por solfa é cantar, Na botica ha trementina, Criança femea é menina, .... ..... .. Mascarado é papa-angú, Oleo de pinha é resina.