Obras poeticas de Gregorio de Mattos Guerra - Tomo I

Part 3

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Adeus famulo importuno Ladrão público de estrada, Adeus: comei d’esses furtos, Que a bolsa está já acabada.

Adeus ama mal soffrida Que si a paga vos tardava, Furtaveis sem consciencia Meios de carneiro e vacca.

Adeus amigos livreiros, Com quem não gastei pataca No discurso de sete annos, De tantas carrancas cara.

Esta producção foi assim publicada por Varnhagen no seu _Florilegio da poesia brazileira_, t. I, pg. 11.

A sua vida é uma perfeita comedia, em que figuram os mais notaveis personagens do tempo, trazidos á baila pela sua musa folgazã, aviventados pelo seu genio creador e superior.

O Brazil ainda não produziu outro genio egual no seu genero ao de Gregorio de Mattos. Como já disse, não era elle só satyrico: era tambem um poeta sacro e um lyrico insigne. Os sonetos, que escreveu em grande numero, são eguaes ás melhores composições d’esta especie; rivalisam com os mais famosos de Bocage.

Na qualidade de advogado, Mattos era de um tino e perspicacia admiraveis, sabendo tirar partido vantajoso dos mais insignificantes incidentes: uma causa que tivesse a ventura de cahir nas suas mãos, estava de certo ganha e coberta de innumeros applausos, mesmo dos da parte contraria. Era de um laconismo extraordinario nos seus embargos, e de muitos d’elles nos dá noticia o seu biographo Rebello.

Gregorio de Mattos era alegre e folgazão como o mostra boa parte das suas producções.

Em geral os poetas pedem a morte cedo; Gregorio de Mattos porém não desejava morrer na flor da edade, e no soneto em que chora a morte de um filho seu de tenra edade, diz:

Que muito, ó filho, flor de um pau tão bronco, Que acabe a flor na docil infancia, E que acabando a flor dure inda o tronco.

De genio altaneiro e caracter independente, não se curvava a interesses mundanos. Queria dar espansão ao seu singular espirito e não admittia nisso o mais leve constrangimento.

A sua ambição era limitada: assim, não fazia caso de dinheiro, nem mercava a sua musa aos poderosos.

Conta o seu biographo, que quando elle vendeu umas terras suas por tres mil cruzados, recebendo o dinheiro em um saco, mandara-o despejar a um canto da casa, e d’ahi se ia tirando o necessario e sem regra, para os gastos diarios.

Como advogado Gregorio de Mattos era de rectissimo proceder; só defendia o justo e aconselhava o verdadeiro. «Conta-se, diz o seu biographo, que muitas vezes aconteceu entrarem-lhe as partes com dinheiro consideravel, e os amigos com assumptos menos dignos, e que elle despresava aquellas, para attender a estes, passando lastimosas necessidades.»

Apezar da promessa de d. Pedro II de um logar na Casa da Supplicação de Lisboa, não quiz o dr. Gregorio de Mattos devassar no Rio de Janeiro dos crimes imputados ao governador Salvador Corrêa de Sá e Benavides, cahindo assim das graças d’aquelle monarcha. Este facto, si não lhe sobrassem outros muitos que conta o seu biographo, bastava para mostrar a rectidão e a independencia de caracter do poeta.

Á Gregorio de Mattos deve o Brazil o primeiro brado da sua independencia. Foi elle quem primeiro, só e desajudado, teve a coragem e a energia de dar este grito de alarma na colonia portugueza. Em muitas das suas producções notam-se o amor que o poeta consagrava á sua patria e os esforços que empregava para liberta-la do jugo da metropole, e na despedida que fez á Bahia, quando seguiu para o seu exilio de Angola, diz elle:

Que os Brazileiros são bestas E estarão a trabalhar Toda a vida, por manterem Maganos de Portugal.

As famosas _bandeiras_ que em busca de minas partiram da Bahia, levaram o nome do poeta até á Villa Rica de N. S. do Pilar, hoje cidade do Ouro Preto, onde, em homenagem ao famigerado satyrico, denominaram uma das suas ruas _Gregorio de Mattos_: prova inconcussa de que a sua fama não se circumscrevia só á capitania natal. Esta rua parece que hoje já se acha com o nome mudado. Vi-a indicada em uma _Planta de Villa Rica de N. S. do Pilar_, trabalho manuscripto que se guarda no Archivo Militar d’esta côrte.

VII

Gregorio de Mattos como linguista presta um auxilio poderoso á linguagem portugueza e brazileira. É elle o escriptor que nos dá idéa mais exacta do modo de fallar e escrever no Brazil no XVII seculo. O seu vocabulario é riquissimo, principalmente em locuções e termos populares, sem exceptuar, já os de origem indiana, já os derivados da lingua africana, e é o unico documento d’aquelle seculo que possuimos neste genero de estudos; o poeta provavelmente não imaginára que viria um dia prestar valioso serviço aos philologos e investigadores das cousas da patria até sob este ponto de vista.

Gostava Gregorio de Mattos de conviver com gente da mais baixa sociedade; mas d’ahi buscava elle elementos para as suas chistosas composições, e por isso nos dá cabal idéa do que era a Bahia, e por conseguinte o Brazil, nos primeiros tempos coloniaes, relatando-nos por miudo os usos, costumes e modo de viver da gente de então.

Gregorio de Mattos é incontestavelmente um dos homens que mais honra fazem á poesia portugueza e brazileira. Nascido em epocha em que o Brazil, mal conhecido, como as inhospitas praias de Angola, servia de logar de exilio e receptaculo dos povoadores das cadêas do Reino, não podia certamente receber na sua terra aquella instrucção que pedia o seu alentado espirito.

Dispondo seus paes de recursos, mandaram-n’o para Coimbra cursar a sua Universidade, onde se formou em leis, e em Portugal passou a mocidade, ganhando sempre a mais merecida e honrosa fama de poeta e jurisconsulto. Quando se resolveu a tornar á patria, já era um homem feito, pois tinha mais de meio seculo de existencia: contava 58 annos.

Quasi velho pela edade, era todavia moço pelo vigor do talento e pela vivacidade e lucidez do espirito. O amor da terra natal agitava-se fortemente no coração do poeta. Em Portugal, Gregorio de Mattos escreveu muito, mas parece que no Brazil, apezar dos poucos annos que nelle viveu, escreveu ainda mais. Aqui nada lhe escapou, não poupando os desconcertos do seu seculo, nem os desvarios das auctoridades civis e ecclesiasticas da sua terra. Notava elle o desgoverno das conquistas da America Portugueza, e derramava então nos seus escriptos uma torrente de satyras, versando sôbre varios assumptos, umas tractando dos vicios e costumes, outras cheias de personalidades, ora em tom serio, ora repletas de chistes agudos e pouco decorosos; mas o certo é que em todas ellas se observa o mais acrysolado amor da patria:

Querem-me aqui todos mal, Mas eu quero mal a todos, Elles e eu por varios modos Nos pagamos tal por qual: E querendo eu mal a quantos Me têm odio tão vehemente, O meu odio é mais valente; Pois sou só, e elles são tantos.

O odio de Gregorio de Mattos, a que elle proprio se refere, inspirava-o o mais elevado principio--o amor da patria--que é uma das virtudes que mais ennobrecem o coração do homem. O odio do poeta não abrangia a todos, nem a tudo. Soube respeitar e louvar o merito de muitas pessoas do seu tempo; e que as suas satyras tinham grande força e energia prova-o o grande padre Antonio Vieira, quando diz que _maior fructo faziam as satyras de Mattos que as suas missões_; o que importa dizer que mais valiam as censuras satyricas de um poeta do que as palavras cheias de uncção e de verdade proferidas do pulpito por um famoso orador sagrado.

Comprehende-se d’aqui que o poeta gozava de importancia na boa sociedade dos seus dias, e que as suas satyras eram bem cabidas, salvo um ou outro excesso ou exaggero que nellas se nota proprio dos poetas e romancistas, que têm o direito de engendrar cousas as mais impossiveis, sem todavia se lhes poder exigir contas.

Si Gregorio de Mattos não cantou a natureza brazileira tão bellamente recommendada por seu contemporaneo Botelho de Oliveira; si não descreveu os exquisitos fructos indigenas da sua terra, como o fez mais tarde o nosso épico Sancta Rita Durão; si não quiz chamar ao ridiculo a Companhia de Jesus, como o realizára por interesse proprio Basilio da Gama; retratou os vicios e costumes desregrados da sua patria, entrelaçando-os de ditos agudos e picantes. De genio instavel e buliçoso, pouco tempo lhe sobrava para descantar as scenas portentosas da natureza americana, o seu esplendido e formoso céu, as aguas pittorescas e risonhas da sua bahia. Apezar d’isso, e como já disse, ha poesias suas repassadas do mais puro e delicado lyrismo, e que muito o honram e abonam o seu estro.

Gregorio de Mattos foi em vida um homem popular; como poucos, adquiriu esta honraria, tão desejada de muitos; era conhecido por grandes e pequenos, ricos e pobres, e, apezar das suas satyras mordentes e picantes, e, de, ás vezes, empregar expressões menos decorosas nas suas poesias, não deixava todavia de ser respeitado e admirado de quantos o conheciam. Por occasião da sua morte fizeram-lhe um soneto, do qual infelizmente só se conhecem os dois quartetos, que justificam por demais o que fica allegado. Dizem elles:

Morreste emfim, Gregorio esclarecido, Que sabendo tirar por varios modos A fama, a honra, o credito de todos, Desses mesmos te viste applaudido.

Entendo que outro tal não tem nascido Entre os romanos, gregos, persas, godos, Que comtigo mereça ter apodos Nos applausos, que assim has adquirido.

Gregorio de Mattos viveu e viveu longos annos; mas si passou a sua mocidade na grandeza e na abundancia, como elle mesmo confessa no soneto que dedicou á cidade da Bahia, quando diz:

Triste Bahia! Oh quão dissimilhante Estás, e estou do nosso antigo estado. Pobre te vejo a ti, a mim empenhado, Rica te vi eu já, tu a mim abundante,

tambem veiu a soffrer na velhice, si por ventura elle a teve; porque o seu espirito era sempre o mesmo, dizia sempre as suas graças com a mesma naturalidade e chiste; quer na ventura, quer na desventura, foi sempre o mesmo homem, o mesmo genio, o mesmissimo caracter. A sua presença quer em Coimbra quer em Lisboa, quer na Bahia, quer em Angola, quer em Pernambuco, que lhe serviu de tumulo, sempre infundiu o mais decidido respeito.

Era um homem reconhecidamente douto e mui versado nas litteraturas italiana e hespanhola, as duas mais em voga no seu tempo. De facto Gregorio de Mattos escreveu poesias em castelhano, algumas das quaes se acharão nos seus logares da presente edição.

Gregorio de Mattos não era um talento commum, nem um simples versejador; foi um genio e soube crear; um d’esses genios raros e extraordinarios, que só apparecem de seculos a seculos, revestidos de todas as galas, e que perduram por todos os tempos, ganhando cada vez mais fama, augmentando cada dia o numero dos seus admiradores e enthusiastas.

Gregorio de Mattos foi um genio e genio creador--torno a dizer; e teria talvez feito uma eschola, si as suas obras tivessem sido publicadas pouco depois da sua morte, quando já não existissem as personalidades retratadas.

Mas teve inimigos poderosos e hereditarios, que o obrigaram a andar mendigando o pão pelas casas dos amigos e que só desejavam dar-lhe cabo da existencia! Foi torturado, não pela Inquisição, como Bocage, mas pelos grandes da sua terra; e os seus dois maiores amigos foram os seus dois maiores traidores! O poeta porém não fraqueou, ganhou antes novas forças, e, despedindo-se da sua Bahia quando seguiu para o seu exilio de Angola, começou dizendo:

Adeus praia, adeus cidade,

Sendo que estás tão decahida; Que nem Deus te quererá.

E concluiu assim:

Terra, que não se parece Neste mappa universal Com outra; e ou são ruins todas, Ou ella sómente é má.

E como Scipião Africano, chegou a dizer: _Ingrata patria! ossa mea non possidebis!_

Accresce ainda que o poeta teve, além dos inimigos hereditarios, inimigos posthumos, que, calando e occultando as suas obras, só ambicionavam tirar-lhe a aureola de poeta, tentando assim apagar-lhe o nome da memoria dos posteros.

Não obstante isso e as expressões e termos pouco decorosos que ás vezes emprega nas suas obras, o seu nome será sempre evocado com respeito e veneração, e jámais ficará esquecido nos annaes da litteratura dos dois paizes que fallam a sua lingua.

A. DO VALLE CABRAL.

VIDA

DO

DR. GREGORIO DE MATTOS GUERRA

PELO LICENCEADO

MANUEL PEREIRA REBELLO

VIDA

DO

DR. GREGORIO DE MATTOS GUERRA

Abreviarei a vida de um poeta pouco cuidadoso de estende-la nos espaços da eternidade, que lhe franqueou as portas, escrevendo costumes do doutor Gregorio de Mattos Guerra, mestre de toda a poesia lyrica por especial decreto da natureza, cujo enthusiastico furor poderá só retratar-se dignamente, porque de fórma menos viva desconfia a equidade tão excellente materia.

Cousas direi menos decorosas ao sujeito de minha empreza; e por seguir os dictames da verdade historica, quero perder os louros de piedoso advogado contra exemplares famosos, que commentando ou redimindo as obras de benemeritos talentos, affectam justificar-lhe as vidas no resumo d’ellas, de modo que pareça impeccavel aquelle de quem o céu confiou os erarios da sua profluencia. E si a geral opinião reprovar ésta maxima por desabrida, o mesmo sujeito que descrevo me apologisa, cujas doutrinas persuadem sempre a verdade nua.

Nasceu na Bahia de Todos os Sanctos, capital cidade do Estado do Brazil, ao Cruzeiro de S. Francisco, da parte do norte, em casas cuja figurada cornija de medalhas imperiaes ainda hoje as distingue caprichosamente nobres. Os paes que o deram á luz em 7 de abril de 1623 foram Pedro Gonçalves de Mattos, fidalgo da serie dos Escudeiros em Ponte de Lima, natural dos Arcos de Valdevez; e Maria da Guerra, matrona geralmente conhecida de respeito em toda a cidade, cujas prendas intellectuaes amassaram uma trindade capaz de resplandecer no coração da mesma Roma. A 15 do dicto mez recebeu a graça baptismal com o nome de João, na cathedral que depois o venerando prelado d. Pedro da Silva e Sampaio, pela sua occurrencia e milagroso auspicio de S. Gregorio Magno collocado em Nossa Senhora da Ajuda, lhe mudou em Gregorio, mysterioso agouro de que seria Gregorio doutamente grande o tenro afilhado: mas dirigida aquella mudança de algum modo a favorecer a distincção de seus paes.

Eram estes de tal maneira ricos que possuiam com outras fazendas um soberbo cannavial na Patatyba fabricado com perto de cento e trinta escravos de serviço, que repartia a safra por dous engenhos, cujo rendimento suppria largamente os gastos de um liberal tractamento e caridade com os pobres; mas nada d’isto basta para que um poeta sendo grande se escuse de morrer nos braços da maior miseria.

Foi o doutor Gregorio de Mattos o ultimo filho de tres varões que nasceram d’este matrimonio, dotados pela natureza com os maiores thesouros; mas a fortuna sempre opposta aos morgados da natureza veiu a consumir-lhe aquelles nomes, que ambiciosa a fama pedia; e não sem apparencias de virtude, increpando o desalinho e pouca estimação, &, achaques que sempre toma de anniquilar os benemeritos, e desgraça repetidas vezes chorada de sua mãe, que com agudeza natural dizia: «Deu-me Deus tres filhos como tres sovélas sem cabo.» Farei particular menção dos dous primeiros no segundo tomo, para que o ultimo se não queixe do desaire que a minha penna poderia occasionar-lhe, que é menos honra ser um accidentalmente grande, que o ter vinculada sua grandeza na especie generativa.

Gregorio, que d’este triumvirato sapiente é o nosso particular assumpto, criou-se com a boa estimação que inculcavam os seus haveres e as suas honras. Soube mais que seus brazileiros contemporaneos fatalmente agudos com o temperamento do clima, sendo lastima carecerem de mestres para toda a Faculdade: porque Athenas perdêra de uma vez aquella suberba, com que se reproduz em desprezo do mundo.

Passou a Coimbra, onde não teremos por novidade que aprendesse, ou que admirasse quem tanto de casa levava as potencias dispostas. Direi somente que assombrou na poesia: porque Belchior da Cunha Brochado, depois desembargador da Relação d’este Estado, escreveu a certo cavalheiro da côrte em um periodo succinto o maior elogio do seu enthusiasmo: «Anda aqui (dizia elle) um estudante brazileiro tão refinado na satyra, que com suas imagens e seus tropos parece que baila Momo ás cançonetas de Apollo.» Não devia de haver-lhe visto as valentias amorosas para enviar outra cedula aos apaixonados de João Baptista Marini pelo postilhão de Italia: mas como o maior d’esta materia se destina a perpetuo silencio pela impunidade dos termos que a modestia portugueza não permitte, triumphem os Italianos embora, que lá deve de haver necessidade d’aquillo mesmo que cá se despreza.

Doutorou-se na Faculdade de Leis, e passando á côrte a praticar os termos da judicatura com um dos melhores lettrados d’ella, lhe conciliou grandes creditos o caso seguinte:

Defendia este lettrado um pleito a certo titular, tão volumoso que o conduziam mariólas quando era preciso. Era a causa civel sôbre a possessão de uns morgados, e expirava contra aquelle cavalheiro, que somente queria empatar-lhe a execução; e nesse empenho nenhuma esperança lhe dava o seu advogado com os melhores da côrte. Mas por animar o affligido pleiteante, resolveu manda-lo ao doutor Gregorio de Mattos, dizendo que só d’aquella viveza confiava o remedio palliativo a Sua Excellencia, dado que o houvesse. Conduzido aquelle volumoso labyrintho para casa do nosso praticante, com os maiores encarecimentos lhe supplicou o fidalgo que puzesse os olhos naquelle instrumento de sua perdição, examinando-lhe os menores incidentes para embargos, cuja extensão dirigia a concertar-se com a parte vencedora por meio de algum respeito.

Era meio dia, foi-se o fidalgo, e não lhe soffrendo descanso o seu alvoroço antes de vesperas, partiu a examinar si se desvelava ou não com os autos o novo lettrado; mas achando-o na janella que palitava sôbre o jantar, grandemente affligido rompeu em queixas do pouco cuidado que lhe dava cousa de tanta importancia. «Socegue V Ex. (lhe disse o bom Gregorio), que os autos estão vistos, e nelles o remedio que desejamos muito avantajado. Neste termo de autuação temos embargos de nullidade a todo o processo, porque no anno aqui mencionado antes e depois corria um decreto de Felippe IV que condemnava nullos aquelles processos começados em papel que não tivesse o sello das armas de Castella; e como alcançou o decreto este, de que tractamos, e lhe falta o sello, segue-se que está nullo.» Com esta destreza se trocaram as fortunas dos pleiteantes, e o novato se acreditou por aguia de melhor vista.

É tradição constante que serviu na côrte o logar de Juiz do Crime; e que tambem serviu o de Orphãos se mostra de uma douta sentença sua proferida em 2 de novembro de 1671, que traz Pegas no tomo 7.ᵒ das Orden., Liv. I. tit. 87 § 24. Chegou a merecer a attenção do senhor rei d. Pedro II, então principe regente da monarchia, pelo bom e particular conceito que fez da sua grande litteratura e rectissimo proceder, e d’aqui se foi engolphando em merecimentos. Com promessa de logar na Supplicação o mandava sua alteza ao Rio de Janeiro devassar dos crimes de Salvador Corrêa de Sá e Benavides, mercê que fatalmente rejeitou. Uns dizem que por temer as violencias de tão poderoso quão resoluto réu, quando no firme proposito de observar justiça: outros, que com algum atrevimento indecoroso capitulára com o Soberano a mercê antecipada do serviço, dando a entender que se fiava pouco em promessas ainda que Reaes.

Isto é o que se conta, e sempre o ouvi dizer a pessoas de melhor noticia; mas como se faz merecedor do engano (diz Camões) quem acredita mais o que lhe dizem, que o que vê, affirmarei que o doutor Gregorio de Mattos cahiu da graça do Soberano á persuasão de alguem prejudicado em suas satyras, sem que atrevida ou temerosamente recusasse mercês. Thomaz Pinto Brandão, em um resumo que faz da sua mesma vida, diz que viera ao Brazil na companhia d’elle, que se retirava descontente de lhe negarem aquillo mesmo com que rogavam a outros, e isto por ser poeta e jurista famoso:

Procurei ir-me chegando A um bacharel mazombo, Que estava para a Bahia Despachado, e desgostoso De lhe não darem aquillo Com que rogavam a outros, Pelo crime de poeta, Sôbre jurista, famoso.

D’aqui infiro que invejas indignas occasionaram que o doutor Gregorio de Mattos se retirasse desgostoso para a patria d’aquellas injustiças, que de ordinario padecem na côrte os benemeritos. E com elle mesmo provarei o que digo, que é auctor sem suspeita, escrevendo umas decimas a d. João de Alencastre:

Mas inda que desterrado Me tem o fado e a sorte Por um juiz de má morte, &.

Esta queda do conceito de el-rei devia occasionar-lhe certo semivalido, contra quem indignado soltou o meu poeta os diques á sua musa, mostrando desde Lisboa ao mundo a mais venenosa satyra que podéra excogitar o mesmo Apollo. Sempre que leio este ramalhete de viboras me recordo do miseravel Bupalo, que desesperado de honra se enforcou por haver sido assumpto de outra menos viva talvez do que esta: cujo heroe devia de amar menos a honra, do que a vida. Foi tal esta obra, que o mesmo Soberano a decorou, fazendo glorioso apreço das suas figuradas consonancias.

Despachado e desgostoso, que são termos encontrados, diz Thomaz Pinto que viera para a patria o doutor Gregorio de Mattos: e veiu desgostoso por lhe negar el-rei o adiantamento que merecia, mas despachado, porque sendo provido na dignidade de thesoureiro-mór da Sé da Bahia, d. Gaspar Barata de Mendonça, primeiro arcebispo d’esta, lhe commetteu o cargo de vigario geral, que acceitou, e com estes empregos se embarcou para a patria, desenganado de poder lograr o fructo de suas virtuosas lettras em uma côrte que o reconheceu agudo, para teme-lo ousado. O desembargador Christovão de Burgos de Contreiras, natural da Bahia, que depois o foi na Relação de Lisboa, lhe facilitou a passagem na sua conducta, e em julho de 1681 entrou a exercer de ordens menores aquelles cargos que trouxera, trajando porém o habito secular todo aquelle tempo que lhe ficava livre das obrigações ecclesiasticas: capricho que principiou a arrufa-lo com os governadores do arcebispado: porém os erros do habito eram nelle menores que os de costume naquelles, cuja parcialidade se augmentára por horas em contraposição da luz: e o padecente que conhecia o seu damno com vista clara, queria reparar a inimizade de todos com a sua. Elle o pinta magistralmente nestes versos:

Querem-me aqui todos mal, Mas eu quero mal a todos, Elles e eu por varios modos Nos pagamos tal por qual: E querendo eu mal a quantos Me têm odio tão vehemente, O meu odio é mais valente, Pois sou só, e elles são tantos. Algum amigo que tenho, Si é que tenho algum amigo, Me aconselha que o que digo O cale com todo o empenho, &.

Era o doutor Gregorio de Mattos acerrimo inimigo de toda a hypocrisia, virtude que, se podéra, devia moderar, attendendo ao costume dos presentes seculos, em que o mais retirado anacoreta se enfastia da verdade crua. Mas seguindo os dictames da sua natural impertinencia, habitava os extremos da verdade com escandalosa virtude, como si nunca houveram de acabar-se as singelezas da primeira edade; e bem que se communicava com os doudos, d’aquella prodigiosa chuva nunca se resolveu a molhar a cabeça, como admiravelmente o diz na obra em que redargue a doutrina ou maxima de bem viver, que seguem muitos politicos, de involver-se na confusão de homens perdidos e nescios, a qual o leitor veja, por me fazer mercê, e d’esta contumacia lhe nasciam os quebradouros d’ella. Nem havia lisonja que desmentisse as durezas d’aquelle engano, o que se prova com esta decima:

A nossa Sé da Bahia, Com ser um mappa de festas, É um presepe de bestas, Si não fôr estrebaria: Varias bestas cada dia Vejo que o sino congrega: Caveira mula gallega, Deão burrinha bastarda, Pereira mula de albarda, Que tudo da Sé carrega.