Obras poeticas de Gregorio de Mattos Guerra - Tomo I

Part 2

Chapter 23,933 wordsPublic domain

«Mandando Vossa Magestade ver neste Conselho a conta que deu o bispo de Pernambuco por via do secretario Roque Monteiro Paim das diligencias que fez quando andou em visita pelos Palmares para reduzir o negro Camoanga, foi Vossa Magestade servido ordenar ao Governador das mesmas capitanias dom Fernando Martins Mascaranhas em carta de 20 de Janeiro d’este anno, que quando com este negro não aproveitassem as advertencias e avisos que lhe tinha feito o bispo para o reduzir, applicasse toda a diligencia, para que não engrossasse em poder e se fizesse ao depois mais custosa a sua destruição.

«Á carta de Vossa Magestade responde o dito Governador por outra de 24 de Junho do mesmo anno, que como o dito negro faltou por varias vezes á palavra que deu ao Bispo para o reduzir de se avistar com elle em tempo certo e logar determinado; e as entradas que faziam os Paulistas no sertão se repetiam amiudadamente nunca poderia demorar em um logar, e si concluiria com elle e com os seus sequazes pelo meio das armas, que era o unico, como a experiencia nos tinha mostrado para se reduzir e sujeitar esta gente á obediencia.

«Ao Conselho parece que como este negro faltou ao que havia promettido ao Bispo, e se não ache em parte certa e se possa temer que engrosse em poder, sendo ao depois mais difficil a sua sujeição e destruição que se deve ordenar ao Governador de Pernambuco que com effeito se lhe faça a guerra, e o busquem de proposito por toda a parte, para se lhe dar o castigo que merece. Lisboa 27 de Setembro de 1700.--_O Conde d’Alvor._--_Serrão._--_Silva._--Como parece. Lisboa 8 de Outubro de 1700.--_Rey._»

E finalmente eis parte da Consulta de 14 de Janeiro de 1701:

«E no vigesimo quinto que tracta da extincção do Terço dos Paulistas que supposto se entenda não ser conveniente a sua assistencia para os Indios, que com tudo para os negros dos Palmares se reconhece ser _precisissima porque sobre haver ainda muitos d’estes inimigos_, cujas hostilidades se fizeram tão sensiveis para os vassallos de Vossa Magestade continentes nas suas visinhanças se elles se apartarem d’ali tornarão a sentir os mesmos povos as suas invasões; e no que respeita as terras que se lhe prometteram e a assistencia dos arraiaes nas partes mais necessarias se tem já dado toda a providencia necessaria.»

Assim, quanto á chamada restauração dos Palmares que se lê na Vida de Gregorio de Mattos, parece que Rebello quer referir-se á morte do Zumby e aos mais successos alcançados pela mesma occasião; mas á vista dos dados authenticos, a data d’estes factos é, como já disse, de fins de 1695 ou começo de Janeiro de 1696. Tambem podiam ter se dado em 1695 e chegado a noticia ao Recife nos primeiros dias de 1696. Si pois Gregorio de Mattos morreu no dia em que chegou ao Recife a nova da victoria alcançada contra os Palmares, não podia de certo o bispo d. fr. Francisco de Lima ter assistido aos ultimos momentos do poeta. Rebello e o bispo do Pará não são testimunhos coevos; ambos escreveram muitos annos depois da morte de Mattos, o primeiro depois de 1740 e o segundo de 1759 a 1764. D. fr. João de S. José Queiroz não dá a data da morte de Gregorio de Mattos, nem declara o nome do bispo que chegou a ir pessoalmente dispor o poeta para que não morresse como impio; mas desde Junho de 1694 a diocese de Pernambuco achava-se vaga, e provavelmente o bispo do Pará quer referir-se a d. fr. Francisco de Lima, que governou de 22 de Fevereiro de 1696 a 23 de Abril de 1704.

III

Como se vê no final da Vida de Gregorio de Mattos, Rebello fez tirar o seu retrato por um antigo pintor, que fôra familiar do poeta; mas este retrato infelizmente não apparece hoje, deixando assim um vacuo immenso na galeria historica dos homens notaveis do paiz.

IV

O nome de Gregorio de Mattos basta para que faça despertar logo no espirito de muitas pessoas as engraçadas anecdotas que de sua vida ainda hoje correm, vindas vagamente de geração em geração, accrescentando-se-lhes ou diminuindo, como é natural, uns pontinhos de mais ou de menos. Vejamos, por exemplo, tres das mais curiosas que vogam, contadas de modos inteiramente diversos.

O bispo do Pará d. fr. João de S. José Queiroz, nas suas _Memorias_, publicadas em 1868 pelo sñr. C. Castello Branco, narra:

«Fez Gregorio de Mattos, em Pernambuco, uma satyra universal ao clero e religiões. Escapou-lhe um clerigo, por lhe não occorrer e viver fóra da cidade. Foi este simples sacerdote procurar o poeta e agradecer-lhe muito o não o metter na satyra. Perguntou-lhe o Mattos o nome e onde assistia. E depois accrescentou: «Reparou Vm. na obra, num _multitudo cavallorum_ que lá vém?»--Sim senhor, disse o clerigo. «Pois alli está Vm. mettido,» concluiu o mordaz poeta.»

O seu biographo, Pereira Rebello, porém, dando conta d’esta passagem, diz:

«... Nem havia lisonja que desmentisse as durezas d’aquelle engano, o que se prova com esta decima:

A nossa Sé da Bahia, Com ser um mappa de festas, É um presepe de bestas, Si não fôr estrebaria; Varias bestas cada dia Vejo que o sino congrega: Caveira mula gallega, Deão burrinha bastarda, Pereira rossim de albarda, Que tudo da Sé carrega.

«Pareceu a certo conego que não ia incluido nesta decima, onde o seu nome se não mostrava, e promptamente lhe veiu agradecer com palavras humildes; mas o poeta lhe respondeu: _Não, sñr. padre, lá vai nas bestas._»

Agora passemos á segunda, que diz respeito aos ultimos momentos do desditoso satyrico. D. fr. João de S. José refere que o poeta.

«...Morreu como impio, sem embargo de o exhortarem padres muito doutos, chegando o bispo de Pernambuco a ir pessoalmente dispo-lo. Recebeu o prelado, dando-lhe as costas e virando-se para a parede. Instado por aquelle benigno pastor que se animasse e pedisse perdão a Deus, voltou-se, e vendo-lhe na mão um crucificado com os olhos coberbertos de sangue, proferiu tão impia como jocosamente o sabido quarteto:

Quando meus olhos mortaes Ponho nos vossos divinos Cuido que vejo os meninos De Gregorio de Moraes.

«Os meninos de Gregorio de Moraes, seus visinhos, traziam os olhos inflammados. Intempestiva e indecente allusão! E assim morreu.»

A este trecho accrescenta o sñr. C. Castello Branco:

«Escreve Innocencio Francisco da Silva que o poeta morrêra com «grandes mostras de contricção e arrependimento, si é verdade o que affirmam os seus biographos.» Não nos edifica o arrependimento de Gregorio de Mattos, si fechou a vida com a copla celebrada pelo bispo do Pará. A meu ver, a impia memoria do mordente brazileiro explica o silencio do abbade de Sever, justamente arguido pelo citado bibliophilo.»

Mas é d’este outro modo accusada pelo biographo Rebello a morte do nosso Mattos:

«Uma rigorosa febre lhe attenuou os dias, de sorte que, desenganados os piedosos pernambucanos de remir-lhe a vida, chamaram o vigário do Corpo Sancto, Francisco da Fonseca Rego, pessoa que suppunham de mais auctoridade, para que o dispuzesse a morrer como catholico. Mas como este parocho era na opinião do poeta mal recebido, sem poder disfarçar nesta hora o genio livre, soltou algumas palavras, que puzeram as chimeras do vulgo em suspeitas, de que nasceu um rumor menos decoroso á sua consciencia; o qual chegando aos ouvidos do illustrissimo prelado d. frei Francisco de Lima, logo desde uma legua de caminho se arrojou como bom pastor a tomar em seus hombros a ovelha que suppunha desgarrada, e não foi assim, porque não só o achou disposto a morrer como verdadeiro christão, mas em signal de que lhe servira o entendimento no maior conflicto, viu em uma folha de papel escripto com caracteres tremulos o grande soneto que offerecemos:

Pequei senhor; mas não, porque hei peccado, Da vossa alia piedade me despido: Antes quanto mais tenho delinquido, Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Si basta a vos irar tanto peccado, A abrandar-vos sobeja um só gemido: Que a mesma culpa, que vos ha offendido, Vos tem para o perdão lisongeado.

Si uma ovelha perdida, já cobrada, Gloria tal o prazer tão repentino Vos deu, como affirmais na Sacra Historia,

Eu sou, senhor, ovelha desgarrada: Cobrae-a; e não queirais, Pastor Divino, Perder na vossa ovelha a vossa gloria.

«Assistiu-lhe o piedoso bispo até o ultimo valle, e logo seu corpo foi levado por homens principaes ao Hospicio de Nossa Senhora da Penha dos Capuchinhos Francezes, o dia em que chegavam as novas da restauração do famoso Palmar a Pernambuco, que havia de ser o sexto da victoria, pois tanto gasta um caminheiro apressado de um logar a outro.»

A terceira é a seguinte, que occorre na _Bibliotheca Bahiana_ de João Nepomuceno da Silva, vol. 2.ᵒ (1863), tractando-se de Gregorio de Mattos:

«A promptidão com que o poeta achava pensamento, rima e sal para a satyra, é o que mais o tornou distincto. Umas mulheres suas visinhas, accommettidas inopinadamente de umas visitas á noite, recorreram ao poeta no emprestimo de umas grandes e bojudas porcelanas chamadas palanganas: servidas, não mais cuidaram em restitui-las. Passado algum tempo chegaram ellas em uma noite á janella para ver um enterro que pela rua passava, ao tempo que o poeta tambem chegava á d’elle. Surprehendidas, disfarçaram, pedindo uma dillação ao poeta, que fizesse uma satyra ao enterro, e então foi esta a satyra que de prompto lhe surgiu:

Dizem que as almas que vão Á este mundo não vem, E as minhas palanganas Fizeram-se almas também?»

Um enthusiasta de Gregorio de Mattos, porém, nas linhas publicadas no _Cruzeiro_ de 7 de Abril de 1881, conta a mesma anedocta de modo differente.

«Mandára o poeta uma bandeja rica com doces a uma familia de suas relações. Acharam graça em guardar a bandeja e o presente. Passaram-se tempos e o poeta nada reclamou. Um dia passou-lhe pela porta, e apanhando-os na gelosia, disse-lhes:

As almas do outro mundo Dizem que vão e não vem, E a minha bandejinha Será alma tambem?»

Conta-se outra anedocta curiosa passada na cidade da Bahia entre o coronel Sebastião da Rocha Pitta, auctor da conhecida _Historia da America Portugueza_, e o poeta.

Rocha Pitta era então alferes de infantaria e estava de guarda em Palacio. Acconteceu passar por ali o nosso poeta, e chegou-se a elle o depois historiador brazileiro e lhe disse: _Senhor doutor, estou com uma obra entre mãos e para acaba-la, quero que V. M.ᶜᵉ me dê um consoante a esta palavra ==para mim==._ Ao que promptamente respondeu Gregorio de Mattos _==Capim==_. Rocha Pitta tornou-se então inimigo de Gregorio de Mattos. O auctor da _America Portuguesa_ tambem era poeta e parece que quando ouviu a rima pedida proferida em tom serio e grave pelo espirituoso satyrico, ficou assim meio duvidoso. Provavelmente o proprio Gregorio de Mattos foi quem andou narrando o caso, e d’aqui procedeu todo o odio de Rocha Pitta.

V

A litteratura do Brazil no seculo do seu descobrimento é apenas representada pelo pernambucano Bento Teixeira Pinto, auctor de um poemeto intitulado _Prosopopéa_, o qual foi impresso em 1601 e reimpresso em 1872 pela Bibliotheca Nacional, á esforços do illustrado sñr. dr. Ramiz Galvão. No seculo immediato, o XVII, entrou então o Brazil a desenvolver-se, e, como era natural, não poucos homens de talento, nascidos no torrão americano, começaram a cultivar as lettras e sciencias em todos os seus ramos.

D’entre os mais notaveis poetas, para só fallar d’elles, destacam-se: Gregorio de Mattos, que já era muito apreciado e applaudido em Portugal; Eusebio de Mattos, Bernardo Vieira Ravasco, Manuel Botelho de Oliveira, Domingos Barbosa, Gonçalo Soares da Franca, Gonçalo Ravasco Cavalcanti de Albuquerque, naturaes da Bahia; Salvador de Mesquita, Martinho de Mesquita e João Mendes da Silva, do Rio de Janeiro. Os poetas bahianos são, em honra da verdade, os que representam toda a litteratura brazileira durante o XVII seculo: de poucos d’elles porém existem livros impressos em separado, mas das composições de quasi todos subsistem algumas amostras.

De todos estes cantores d’aquelle seculo o mais conhecido e reputado foi incontestavelmente Gregorio de Mattos; corriam de mão em mão as suas numerosas obras, e eram por todos repetidas de bocca em bocca, «desde o palacio á choupana, desde a floresta á cidade.»

Ninguem ha, pois, que cultive as lettras no Brazil, que não encontre logo occupando nellas um logar proeminente o nosso Gregorio de Mattos, pelo seu estro gigantesco, pela originalidade das suas producções satyricas, pelos seus rasgos admiraveis. O seu nome, apezar de decorridos quasi dois seculos depois da sua morte, é ainda hoje apregoado como um dos mais valentes cooperadores das litteraturas de dois povos e da lingua portugueza fallada no Brazil. Movido por estes dois pontos de vista decidi-me a publicar as suas obras. Si todas as suas producções são realmente de verdadeiro merito, não o saberei eu dizer; e, quando por ventura não n’o tenham, fica explicada a razão por que encetei a publicação de escriptos de um auctor que fazia timbre em criticar, não a todos nem a tudo, como geralmente se diz, mas áquelles que se deslisavam dos seus deveres, ou que o provocavam com motejos e escriptos pregados pelas praças, e aquillo que julgava no seu esclarecido entendimento andar fóra da razão e da justiça. Moralisar os viciosos, ridicularisar certos usos e costumes desregrados, retratar ao vivo certos personagens, era o fim principal do poeta.

Como disse, até então poucas producções do notavel poeta lograram ver a luz da publicidade; agora, porém, vamos ter uma collecção, ainda que incompleta, das poesias de Gregorio de Mattos, o BOCCA DO INFERNO, nome pelo qual era mais conhecido no seu tempo, pela vehemencia e mordacidade das suas engraçadas satyras, que produziam um effeito extraordinario no espirito dos seus conterraneos, e não menos produzirão ainda hoje com a sua vulgarisação pela imprensa.

Como é sabido, notava-se nos tempos coloniaes o desgoverno do Brazil; tractava então cada um de seguir a sua conveniencia, _gemesse quem gemesse_, e com o apparecimento das satyras do nosso poeta notou-se que de algum modo moderaram os viciosos os seus desregrados costumes: d’ahi veiu a dizer o grande padre Antonio Vieira que _maior fructo faziam as satyras de Mattos que as missões de Vieira_, de onde se infere que não foram poucos os serviços prestados pelo vate bahiano ao então nascente Brazil, concorrendo com a sua veia satyrica para o saneamento moral da patria. Já de Eusebio de Mattos, irmão do poeta, havia affirmado o mesmo padre Vieira «que Deus se apostára em o fazer em tudo grande, e não fôra mais por não querer.»

Gregorio de Mattos, apezar de ter feito da sua vida um verdadeiro romance, cheio de peripecias singulares, de inimitaveis rasgos e de desvarios e desregramentos, fustigou os vicios e expoz ao ridiculo as vaidades e desconcertos do seculo em que viveu e poetou, entresachando as suas satyras de um tiroteio de chistes e descripções picantes, que as tornavam muito lidas e faziam com que gyrassem em cópias manuscriptas, ás centenas, pelas mãos dos curiosos.

Um dos maiores senões das satyras que não versam sobre a critica dos vicios e a censura dos costumes em geral, é devido a ignorar-se mais tarde quasi tudo o que nellas se diz, o que realmente faz com que percam muito do seu sal e valor.

Para o tempo em que correm ainda quentes são de effeito immenso, porque todo o mundo conhece as baldas do criticado e a exacção do satyrico, não lhe escapando as menores circumstancias, que entretanto mais tarde se tornam inteiramente extranhas. D’ahi nascia a avidez com que as satyras de Mattos eram lidas, relidas ás vezes, ante um num eroso auditorio e copiadas com sofreguidão no tempo. O proprio governador da Bahia d. João de Alencastro, a quem se deve o desterro de Mattos, tinha um livro especial em que com esmerada lettra mandava registar as producções do nosso poeta, com mais cuidado e correcção talvez do que as suas mesmas cartas de officio para a côrte: quando porém a musa satyrica lhe entrou por casa sem pedir licença, foi o poeta traçoeiramente prêso e por ordem sua desterrado!

Mas Gregorio de Mattos não foi só poeta satyrico: ha composições suas notaveis e distinctas, não só por terem sahido fóra do seu habito de compor, como porque tractam de tornar salientes as virtudes e merito de algumas pessoas e dignidades da sua patria: d’aqui se conclue que reconhecia elle a virtude, onde quer que a achasse, e que si não era virtuoso, tinha probidade e honra, e a não serem exactas as suas palavras, é certo que elle não exaltaria meritos, si realmente os não encontrasse, pois, como se sabe, o poeta não perdia vaza, e folgava de ter occasião de jogar a sua setta vehemente e ferina contra esta ou aquella pessoa, logo que o merecesse, fosse grande ou pequeno, branco ou preto.

D’aqui vem o dizer-se que Gregorio de Mattos estragava a sua musa delicada com assumptos pouco dignos de um poeta; porque depois que acabava de retratar fielmente um governador e capitão-general, um vice-rei, uma alta dignidade ecclesiastica, descia a photographar a largos traços pessoas inteiramente obscuras e collocadas muito baixo na escala social.

Accresce ainda que ha poesias de Gregorio de Mattos sobre objectos differentes, repassadas do mais fino e delicado lyrismo, e algumas de assumptos religiosos, que certo não são as suas menos estimaveis obras, e bastavam ellas para dar-lhe logar honroso no grande festim da poesia nacional. Tudo isto o que prova? Que a sua musa não tendia só para o comico e satyrico. Na sua alma palpitava fortemente um coração de poeta, e ante as scenas magestosas da natureza, ante a virtude, ante o merito, ante a boa christandade, o seu alevantado espirito não podia de certo ficar calado. Elle era poeta e tinha os olhos fitos no céu e o coração aberto na terra!

As obras de Gregorio de Mattos não são só reservadas aos homens de lettras, como se póde suppor. São destinadas não sómente aos que se dedicam ao cultivo da mais elevada litteratura, como ao povo, para quem em particular escrevia o famoso satyrico. Gregorio de Mattos fazia timbre de ser conhecido e applaudido das turbas populares, tanto que se aprazia em viver entre musicos e folgazões quando estava na Bahia. Escrevia para o povo, mas as suas composições agradavam ao homem mais douto, sabendo assim o poeta a um só tempo deleitar a todos. Por isso muitas das suas poesias não parecem escriptas ha tão longos annos, pela jovialidade que apresentam, pelo enredo de seus dramas, pela agudeza dos seus dictos, pela vivacidade das suas côres.

Gregorio de Mattos foi, como se sabe, o primeiro que introduziu na poesia portugueza o verso decasyllabo, que por isso ainda hoje é conhecido nos tractados de poetica sob o nome de _verso gregoriano_, ainda que o nosso poeta não fosse verdadeiramente o seu inventor, pois havia muito tempo que d’elle usavam os italianos, de quem Gregorio de Mattos o tomou, não deixando com isso de fazer um bom serviço ao mechanismo da poesia portugueza. _Marinicolas_--é a producção caracteristica dos versos decasyllabos, á que me refiro, famosa satyra que tanto celebrisou o notavel satyrico brazileiro.

Conhecido como deve ser o nosso Mattos, tornar-se-ha elle tão popular, como o fôra no seu tempo, não só em todo o Brazil, onde a sua fama chegou a todos os seus recantos, como em Portugal. Gregorio de Mattos pertence á litteratura de dois povos. Costa e Silva chamou-o _Rabelais portuguez_; antes, porém, já o sñr. J. Norberto o chamára o _Juvenal brazileiro_.

As obras de Gregorio de Mattos foram sempre muito apreciadas dos curiosos e amadores da boa poesia; pena é, porém, que o poeta descaia ás vezes em phrases e termos poucos decorosos, que não podem passar pelos olhos de todos e são obrigados a ficar ineditos. Posto que as suas composições fossem escriptas ha dois seculos, muitas d’ellas são e serão incontestavelmente de todos os tempos, pelo interesse geral que offerecem todas.

Os seus criticos são accordes em affirmar que a sua linguagem é rica, especialmente em termos e locuções populares e familiares, fluente, correcta e quasi sempre harmoniosa, e que as suas pinturas são vivas, profundos e penetrantes os seus golpes satyricos, e inexhaurivel a sua graça. Gregorio de Mattos é pois um poeta classico e dos mais auctorisados na linguagem portugueza.

Thomaz Pinto Brandão, o celebre poeta portuguez que «vivendo de alegrar a gente, morreu de fome», como elle proprio o diz, foi seu discipulo e com elle veiu em 1681 para o Brazil, quando o dr. Guerra estava despachado para a Bahia. O biographo de Th. Pinto Brandão diz que «influiu nelle Gregorio de Mattos o seu espirito agudo e picante, a que o seu perspicaz engenho soube illuminar com um emphasi especifico, que brilhava não só nas suas composições, mas nos seus dictos.»

Thomaz Pinto, falecido em 1743, parece que nunca esqueceu o seu mestre e amigo Gregorio de Mattos, e em 1713 invocou a alma do poeta bahiano e deu-nos a _Satyra feita a todo o Governo de Portugal por Gregorio de Mattos ressuscitado em Pernambuco em 6 de Agosto de 1713_. Consta de 40 strophes e é imitada da satyra de Mattos que tem por titulo _Justiça que faz o P na honra hypocrita pelos estragos que anda fazendo na verdadeira honra_, e que começa:

Uma cidade tão nobre, Uma gente tão honrada, Veja-se um dia louvada Desde o mais rico ao mais pobre: Cada pessoa o seu cobre; Mas si o diabo me atiça, Que indo a fazer-lhes justiça, Algum sahia a justiçar, Não mo poderão negar Que por direito e por lei Esta é a justiça que manda El-Rei.

A primeira strophe da satyra de Thomaz Pinto é esta:

Um Reino de tal valor, E de povo tão honrado, É justo seja louvado Desde o vassallo ao senhor. Inda que fraco orador, A verdade hei de dizer, E cada qual recolher Póde, aquillo, que lhe toca; Inda que diga, o provoca Uma imitação real: Este o bom Governo de Portugal.

Esta longa producção ainda se conserva inedita. A Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro a possue nas _Obras partas de Thomaz Pinto Brandão_, msc. in-4.ᵒ de 269 ff. num. Acha-se de ff. 195 a 204.

VI

Os homens de genio nunca morrem; neste caso está o nosso Gregorio de Mattos, que é uma verdadeira gloria nacional: quasi obumbrado por espaço de dois seculos, o seu ainda que não completo apparecimento no mundo litterario é quiçá um acontecimento. Estou certo que, mais conhecido, o seu nome se tornará tão vulgar como o de Luiz de Camões, dado o desconto da indole poética de um e de outro e da profunda differença dos assumptos de que um e outro se occuparam e que não são de certo para comparar-se. Gregorio de Mattos terá porém egualmente citadores, porque ha nas suas poesias muito que se applicar a todas as situações da vida, e si as condições sociaes mudaram, não são as mesmas do tempo em que poetou e floresceu, a humanidade é ainda a mesmissima e as fragilidades humanas se repetem e renovam em todos os seculos... por ventura refinadas.

Nascido na Bahia formára-se em Coimbra e estivera por algum tempo em Lisboa a exercer a advocacia. Tornou depois á Bahia, de onde, preso pela vivacidade das suas satyras, fôra deportado para Angola: d’ahi voltou a Pernambuco, onde exhalou o ultimo suspiro em 1696.

Como Camões, foi em Coimbra que Gregorio de Mattos começou a fazer-se conhecido pelas suas poesias e satyras; ahi esteve 7 annos, como elle proprio o diz, e, quando terminou o seu tirocinio academico, não se esqueceu de compôr um _Adeus á Coimbra_, despedindo-se da Universidade:

Adeus Coimbra inimiga, Dos mais honrados madrasta, Que eu me vou para outra terra Onde viva mais á larga.

Adeus prolixas escholas, Com reitor, meirinho, e guarda, Lentes, bedeis, secretario Que tudo sommado é nada.