O sangue

Part 13

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A velhice de Gervasio José de Barros enrijou-se nos frios do norte. Sempre laborioso e commerciante, o pae de Innocencio aparou as pontoadas dos desgostos no forte peito encouraçado pelo amor com que estremecia o neto.

Pedro, educado para herdeiro de um grande patrimonio, foi aos oito annos começar a carreira dos estudos no _King’s college and School_. O velho, ao separar-se lagrimoso d’elle, disse aos professores:

--Meu neto é muito rico: não m’o mortifiquem. Ensinem-lhe o que é necessario saber um mancebo que tem muito de seu.

Á volta de poucos dias, sobreveio ao ancião maior agonia: morreu-lhe a esposa; matou-a, sobre a saudade do filho e a deshonra da afilhada, a nostalgia, o incessante lembrar-se do seu Porto, da sua rua das Cangostas.

Têmpera de ferro era a do viuvo! Sósinho em Londres, forçado a silencio por não ter quem o entendesse, ia para o collegio espraiar tristezas com o neto, e atirava-se ás canceiras mercantis para arrancar-se ás prezas da saudade.

Revigorou; mas esteve quasi a pique de ir a terra quando os amigos portuenses lhe participaram que Thomazia, esposa de Nicoláo d’Almeida, estava no Porto, dando bailes, onde compareciam as familias mais graúdas do commercio e da aristocracia, sem excepção do commendador Batalha.

--Oh! que patifes!--exclamou Gervasio.--Oh! que corja é aquillo!

E abafou o monologo, á mingua de auditorio.

Restaurou-se, porém. A raiva umas vezes faz versos, como disse o poeta romano; outras faz saude, como Gervasio José experimentou.

Foi prateando o tempo a veneranda fronte do velho.

Em 1865 prefazia elle setenta e trez annos, e Pedro de Barros dezenove.

Completou o moço a sua educação de rico. Sobejava-lhe verniz litterario para poder em qualquer parte do mundo fingir que não ignorava os rudimentos da sabedoria humana. Jogava armas conspicuamente. Ganhára premios no florete e pistola. Nadava rapido e airoso como um tritão. Desfazia e refazia as articulações em gimnastica. Tocava harpa e piano, lira e rebeca. Carambolava com prodigiosas quantidades; estremava-se nos repiques e repercursões. Em gineta era um perfeito cavalleiro e coudel. Sabia de fundamento a anatomia dos cavallos, e nada sabia da sua.

D’esta arte sahiu do collegio para a companhia do avô.

Pediu um cavallo. O velho deu-lhe dois e carro, com lacaios e libré a capricho. Principiava a fraqueza d’aquelle provecto cérebro de Gervasio! Elle, que esbanjava assim os rolos das libras, é que a morte lhe andava perto.

Um dia, chamou Pedro de Barros ao seu quarto, e fallou-lhe d’este feitio:

--Meu filho, filho do meu sempre chorado Innocencio, é chegada a occasião de te dizer o que não sabes. Tua avó, que Deus tem, e a ama, que te criou, disseram-te que teu pae e tua mãe tinham morrido. Teu pae... certo é que morreu; tua mãe, não.

--Eu tenho mãe!?--exclamou Pedro, crescendo para o avô com transportado impeto.

--Tens e não tens, Pedro. Senta-te ahi, e escuta. Morreu tua mãe para nós, porque foi a vergonha da minha cara, e a deshonra de teu pae. O meu caro filho, como sabes, acabou no _Havre_; e acabou estarrecido de paixão, segundo lá mesmo me disseram no hotel onde elle expirou. Quando a febre o fazia delirar, gritava contra tua mãe, dizendo que morria sem a matar. Basta que eu te conte que, pedindo-lhe o confessor que perdoasse á mulher, elle saltou furioso da cama e não quiz confessar-se. Foi ella que matou o meu filho, foi ella, Deus o sabe!

Queres agora ver, Pedro, que alma tinha a tal féra? Olha tu. Na noite em que esperavamos teu pae, fugiu ella para a companhia de um homem. Quando cheguei a casa com a noticia de elle ter morrido, achei tua santa avó, e tuas tias e tios que já lá estão em cima, a gritar como doidos cuidando que ella se tinha ido botar ao Douro.

Saí de Portugal, quando soube que essa desalmada queria tirar-te da minha companhia, a ver se á tua sombra me comia o suor de meus avós. Deixei os meus negocios arranjados de modo que não ficasse coisa a que ella deitasse as unhas. Pouco e pouco vim passando para cá a minha fortuna e hoje estou senhor de tudo que herdei e ganhei.

--E ella onde está?--atalhou Pedro--E elle!?... Onde está o infame que motivou a morte de meu pae?

--Casou com ella, vivem lá n’uma provincia chamada Minho. Deixal-os estar, que os leve o diabo. Não queremos saber onde estão.

--Oh meu avô!--interrompeu o filho de Thomazia--pois meu pae não hade ser vingado? O opprobrio d’elle não recae tambem sobre mim?

--Deixemo-nos de asneiras, rapaz. Não me comeces a tresvaliar lá com as tuas valentias. Não quero saber d’essa gente. Tua mãe, já te disse que morreu... Ora attende cá. Estou muito velhinho. As pernas já me estão a pedir sepultura. É tempo de te pôr ao corrente dos negocios. Assim que eu fechar olhos, Pedro, manda abrir o meu testamento, onde eu deixo declarado o que se hade fazer por minha alma. Eu lá digo que não tenho nada que deixar, porque receio que tua mãe ainda queira levantar-se com metade da tua herança; mas tu, meu neto, ficas desde já sabendo que n’aquelle cofre de ferro tenho toda a tua fortuna. Ali estão oitenta contos de réis em dinheiro de contado. Guarda-os, toma posse do que era de teu pae, vive do rendimento d’elles que te hade chegar; não te ponhas a extravaganciar, porque podes vir a ser pobre, e muitos o chegaram a ser com mais do que tu. Se alguma vez fôres ao Porto, pede lá que te contem a historia de Pedro Sem, o mais rico negociante que meu pae conheceu, e acabou pedindo. Ora pois, Pedro... Eu bem queria deixar-te casado; mas... leve o demo tal idéa... A desgraça de teu pae fui eu que a fiz com o endiabrado casamento d’uma rapariga que tua avó foi buscar á miseria, e ali creámos como filha!... Deus lhe pedirá contas...

--Que infame mulher!--murmurou o filho de D. Thomazia.

--Deixa-a lá... que o fim não hade ser bom...

--E eu sou filho de tal monstro!--volveu Pedro batendo uma rija punhada no peito.--Eu!... filho d’essa vilissima creatura!

--Lembra-te--acudiu o ancião--que és sómente filho do meu Innocencio. Esquece-a para sempre... Lá está em cima quem n’a hade julgar. (Pedro soltou um cacarejo de riso nasal e arrepelou os cabellos).

--Que engrimanços estás ahi a fazer?--perguntou Gervasio.--És um crianço! é o que tu és!... Tens vinte annos ainda por fazer. Se Deus me der dois annos de vida, que não dá, ainda terei mão de ti; senão, vou para o outro mundo a temer que faças destemperos por cá. Pedro!--bradou elle energicamente--Pedro, tu não te mettas com essa mulher! Já estou arrependido de te contar o caso...

--Não se arrependa, meu avô!... Eu tenho no coração a dignidade e os brios de meu pae.

--É o que se quer; e não me afflijas, que estou doente, e qualquer coisa me faz mal. Não te vivo muito tempo, filho... Seis mezes, quando muito...

* * * * *

Viveu menos do que esperava o pobre velho. Contava ainda com outra primavera, e ao visinhar-se a aurora da eternidade cuidou que se lhe iam os alentos á mingua de um caldo de gallinha. Suavissima foi a morte que lhe chegava o seio como recôsto de descanço. Uma leve inclinação de pescoço ao hombro de Pedro, e um suspiro de creança adormecida foi o trespasse do leveiro espirito a quem Deus certamente não carregará com o peso da fraudulenta pobreza.

* * * * *

Pedro de Barros suffragou-lhe a alma, recadou as aureas entranhas do cofre de ferro, e permaneceu em Londres por espaço de trez mezes, colhendo de Portugal e de portuguezes certas informações.

* * * * *

Chegou, no entanto, ás gazetas de Lisboa e Porto a noticia de ter morrido em Londres Gervasio José de Barros. Um noticiador accrescentava que a «fortuna» do defunto devia ser muito grande, bem que se não désse registro nem inventario d’ella. Recuando delicadamente a coisas acontecidas vinte annos antes, reflexionava que um neto do defunto é quem poderia sobre o certo dizer quantas centenas de contos seu avô deixára.

Nicoláo d’Almeida leu a noticia a sua mulher.

Thomazia pôde ainda contrabalançar a exultante esperança de ver o filho com a tristeza de ser morto seu padrinho.

Os vinte annos intermettidos haviam-lhe dado na consciencia toques de dôr que ella escondia do marido.

--E agora?--perguntou ella.

--E agora?--pergunto eu!--respondeu Nicoláo.

--Que fazes? Vaes procural-o?

--Se o vou procurar! que lembrança!...

--Sim... eu cuidei que tu...

--Cuidaste bem, filha; porque eu vou effectivamente procural-o... vou vêl-o...

--E levas-me?

--Não, menina: vou ver se t’o conduzo aqui.

--O meu filho?

--Sim... por que não?! Pois tu não crês que o sangue opere a maravilha? Tenho-te dito que o sangue tem uma voz imperiosa, e impelle o filho para o pae irresistivelmente.

--E vaes, meu Nicoláo?

--Vou á exposição a Pariz e depois irei a Londres.

--Como hasde tu encontral-o?

--Hade ser o sangue que m’o hade mostrar.

--Ora!... eu não creio n’isso... Se o sangue valesse, não teria elle tido uma palavra para sua mãe?

--Saberia elle que tu existias?

--É verdade... não saberia...--obtemperou a esposa.

--Está portanto deliberado. Vou a Londres. Se o vir--que heide ver--aperto-o ao coração, e digo-lhe: «Atira á lama o dinheiro de Gervasio de Barros; manda-o apanhar pela parentella pobre que elle hade ter em Portugal. Vem que és filho de um homem rico; os teus appellidos são Alves Pinto por tua mãe, e Almeida por teu pae, que sou eu. Abraça-me, filho, que te bate no seio o coração de quem ha vinte annos chora por ti!»

Thomazia tambem chorava de alegria e enthusiasmo maternal.

Poucos dias passados, o fidalgo de Caminha saía para Pariz.

* * * * *

Em uma carta escripta desde Londres dizia Nicoláo d’Almeida a sua mulher: «Pedro saiu d’aqui ha quinze dias. Não me sabem dizer para onde. Presume-se, porém, e é natural que esteja em Pariz. Volto ámanhã para lá...»

No dia em que D. Thomazia recebeu esta carta, apeou de uma carruagem em Caminha um mancebo de galhardo aspecto e ademans afidalgados. Procurou a residencia de uma familia illustre da villa. Apresentou carta de recommendação, e perguntou onde morava Nicoláo d’Almeida.

Disseram-lhe que estava em Pariz, para onde partira um mez antes, e que a familia se retirára a uma quinta das margens do Minho.

Perguntou Pedro de Barros se seria possivel saber-se a residencia de Nicoláo d’Almeida em Pariz. O cavalheiro interrogado, querendo servir o forasteiro que um amigo lhe recommendava calorosamente, encarregou-se de mandar saber á quinta a paragem de Nicoláo. Voltou o solicito informador com esclarecimentos dados por D. Thomazia: que seu marido se hospedára em Pariz no _Hotel des Étrangers_, rua Vivienne, 3; mas que a ultima carta recebida viera de Londres, onde Nicoláo d’Almeida apenas se demoraria algumas horas.

Pedro de Barros resistiu aos rogos da familia, que lhe pedia a honra de pernoitar em sua casa. Desandou para o Porto, e saiu na via ferrea do mesmo dia para Lisboa, afim de alcançar o paquete francez.

* * * * *

Nicoláo d’Almeida jantava no dia 5 de julho á mesa redonda do _Hotel des Étrangers_, e viu em frente de si um moço de gentil compostura, ainda imberbe, conversando com inglezes e francezes correctamente as duas linguas, segundo quiz parecer ao portuguez, que não era hospede em nenhuma. Prestou-lhe attenção, e ouviu dizer que vinha de Portugal. Perguntou-lhe um italiano se era portuguez. Pedro de Barros respondeu negativamente.

--Parabens!--disse o italiano, que era tenor.

--Parabens, porque?--perguntou Barros por sobre a espadua, alisando com o guardanapo a penugem do buço.

--Porque portuguezes são canalha--explicou o tenor.--Estive no Porto um inverno, n’aquella bruta terra onde não ha lettras nem artes. Ha vinho e muitos bebedos.

--O senhor cantou no Porto em 1855?--perguntou Nicoláo d’Almeida em bom francez, intervindo na palestra dos visinhos.

--Sim, cantei.

--Recordo-me:--tornou o portuguez--cantava pessimamente e foi pateado. Quem o pateou não foram os bebedos do Porto. Estavam lá cavalheiros que, nem ainda insultados por um biltre, aviltariam um tagante.

O tenor levantou-se e disse enfaticamente:

--Uma satisfação!

--Não lh’a dou--disse placidamente Nicoláo.--Pertenço aos cavalheiros que não se medem com cantores, além de pessimos, villões.

--Eu sustento as frases d’este senhor--interpoz-se Pedro de Barros.

--E o senhor quem é?--perguntou o fidalgo de Caminha.

--Não sou tenor. Quem o senhor seja, não pergunto eu. Conheço o senhor Nicoláo d’Almeida. Um homem da sua estofa não póde chamar villão a outro.

--Quê?--atalhou Nicoláo enfiado.

--Explicações para occasião conveniente.

--Figura-se-me que o senhor é parvo dos que a prudencia manda tolerar--replicou sereno e quasi recobrado o portuguez.--Estou arrependido de me inquietar um momento com a sua pessoa.

Pedro de Barros correu os dedos pelos cabellos, surriu-se e murmurou:

--Verei se a coragem corresponde á infamia. Os assassinos da honra não costumam arriscar senão palavras. No entanto, veremos.

--Algumas vezes arriscam sujar a luva com que dão a bofetada--retorquiu Nicoláo d’Almeida.

Pedro de Barros levantou-se. Esperou que cincoenta commensaes se calassem impressionados pela postura oratoria do sujeito, e disse apontando sobre Nicoláo:

--Alli está, senhores, um infame sobre quem pesa a morte de um homem honrado, que elle matou prostituindo-lhe sua mulher. Este ferrête, que lhe atiro á testa, em occasião opportuna lh’o grudarei mais sensivelmente.

Fez-se profundo silencio.

Nicoláo levantou-se por sua vez e disse:

--Aquelle miseravel ainda não fez publico o seu nome.

--Sabel-o-ha, quando quizer--respondeu Pedro de Barros.--O meu nome não importa a estes cavalheiros. Se eu o disser, não me conhecem, nem podem por elle ajuizar da autoridade da minha opinião a respeito do senhor Nicoláo d’Almeida. Dentro de trez horas, estarei no quarto n.º 5 d’este hotel. Se eu não estiver, senhores, o infame sou eu, e não elle.

O marido de Thomazia saiu.

Meia hora depois voltava com dois portuguezes, seus contemporaneos da universidade, lisboetas da plana aristocratica.

Pouco em seguida, entrou no quarto n.º 5 Pedro de Barros com dois francezes titulares, seus conhecidos das carreiras hippicas em Londres.

No quarto, antes de avisarem Nicoláo d’Almeida, continuaram assim a conversação que traziam:

--Mas a mudança de nome--dizia um dos francezes--é uma irregularidade original nos duellos!

--Compreende a minha situação, visconde--dizia Barros.--Eu sou filho da mulher que matou meu pae com a villania do seu proceder. Este homem arrebatou de casa minha mãe, no dia em que meus avós choravam a morte do filho. Eu não posso dizer ao infame quem sou. É invencivel a vergonha que tenho de que elle o saiba. O meu proposito é vingar meu pae...

--E queres que elle morra na ignorancia de que és o vingador de teu pae?

--Não. Hei de dizer-lh’o, se a morte lhe der tempo de m’o ouvir.

--Mas eu não achava feio que te declarasses--sobreveio o outro amigo.--Era até bonito e novo! Um filho a vingar seu pae...

--Se eu o declarar, elle não se baterá comigo, porque sou filho da mulher com quem elle é casado. Engulirá as affrontas, e dirá com dissimulada covardia que não desfecha uma pistola ao peito do filho de sua mulher. E depois? que é da minha vingança?

Os amigos assentiram com repugnancia; mas condescenderam em que Pedro de Barros se chamasse Richard Grattan.

Abriu-se a sessão dos parlamentarios. Congregaram-se os quatro padrinhos. Os dois portuguezes, sabido o nome do insultador, que os francezes abonaram como pessoa de primeira distincção e riqueza, segundo entendiam de o verem no concurso de illustres inglezes, caíram logo na particularidade da sua missão. Os quatro vieram ao consenso de que o combate fosse á pistola, a vinte e seis passos. Precisaram a localidade em _Abbaye de Longchamps_, no _Bois de Boulogne_, na madrugada do dia seguinte.

Perguntava Pedro de Barros aos seus padrinhos:

--Quem escolheu as armas?

--Elles.

--Quem marcou as distancias?

--Elles.

--Então o homem é tolo!--observou Nicoláo.

--Se não fôr mestre no tiro...---disse o visconde.

A reflexão era justa. Um ignorante da arma cederia todas as vantagens ao perito, collocando-se a tão grande distancia.

* * * * *

Nicoláo d’Almeida passou tranquillamente o restante da noite com os seus amigos. Ás trez da manhã escreveu uma longa carta a seu filho Lopo, incluindo outra para a mãe.

--Se eu morrer, o que não espero, remettam esta carta a meu filho--recommendou elle aos padrinhos.--Tomem nota no que vou dizer-lhes: os minhotos teem crendices e velharias que lhe estão no sangue. Tenho uma capella em uma das quintas onde está o jazigo dos meus antecessores desde 1515. Vossês, se isso fôr exequivel como creio que é, mandem para lá o meu cadaver, mesmo furado por uma bala de sir Richard Grattan.

Os lisboetas pasmavam da fria coragem do provinciano. Os quarenta e trez annos de Nicoláo d’Almeida representavam trinta e quatro com serodias verduras.

Condiziam n’elle os surrisos e desdem juvenil da morte com a frescura e flexibilidade d’aquelles elegantes meneios e delicadas formas. Os padrinhos é que em verdade representavam as pessoas arriscadas ás balas de sir Richard Grattan.

Apontou a manhã.

--São horas--disse Nicoláo.--A madrugada está linda. Se nos derem tempo, passearemos algum pouco no bosque de Bolonha, que ainda não vi. Veja-se o que fôr possivel á ultima hora.

Partiram.

Esperaram cinco minutos.

Examinaram as quatro testemunhas as pistolas inglezas. Carregaram-nas. Espacejaram as distancias. Accordaram na simultaneidade dos tiros. Deram a voz de fogo. Cruzaram-se as balas. Sir Richard Grattan caiu rodando ligeiramente sobre os calcanhares.

--Morto!--disse o visconde ao companheiro.--A bala penetrou-lhe na cabeça.

--Que tiro!--disse o conde com artistica admiração, como se a cabeça do moribundo ou do morto fosse um alvo, e mais nada.

Nicoláo d’Almeida fez uma breve mesura aos padrinhos do adversario e entrou com os seus na sege.

O facultativo da comitiva de Pedro de Barros acercou-se, examinou e disse:

--É mortal a ferida.

O prognostico era de acceitar; porque a bala batêra, bem que de revez, na sutura sagital, compreendendo, afóra perda de substancia, o pericraneo profundamente.

Pozeram-lhe uma prancheta de fios, ligaram-lhe a fronte, e transportaram-n’o ainda com pulso á carruagem.

No mesmo dia, Nicoláo d’Almeida saiu de Pariz na via-ferrea para Baionna, com direcção a Portugal, depois de pedir aos seus amigos que fizessem o sacrificio de jantar no _Hotel des Étrangers_, e certificar aos hospedes do dia anterior que o inglez acertava tão bem com as balas como com as injurias.

* * * * *

Appareceu inesperado em casa Nicoláo, quando a esposa lhe estava escrevendo afflictivamente.

Um grito de alegria e logo uma torrente de lagrimas, tambem alegres, entraram de suspeitas o marido.

--Que chorar é esse? que sabias tu de mim?!--perguntou Nicoláo quasi supersticioso.

Referiu-lhe Thomazia que quinze dias antes lhe tinha mandado um sujeito de Caminha perguntar em que hotel de Pariz residia o marido; e que só, poucas horas antes, lhe tinha ido mostrar uma carta de Lisboa apresentada por um rapaz de vinte annos pouco mais ou menos, e que n’esta carta lêra ella as seguintes palavras: «Se o cavalheiro, portador d’esta carta, precisar de auxilio estranho para um acto de brioso desaffrontamento, queira ouvil-o e prestar-lh’o.»

--Que queria isto dizer, meu filho?--exclamava Thomazia.--O nosso Lopo disse-me que o homem vinha desafiar-te. O que eu tenho soffrido, Nicoláo! Estive ha momentos para ir com o Lopo em procura de ti... Graças, meu Deus! Não te succedeu mal nenhum, não?

--Bem vês que estou sadío e escorreito--disse o esposo surrindo com triste semblante mal affectado.

--Mas tu vens melancolico, e de mais a mais quando não tencionavas vir... E o nosso filho? noticias nenhumas?

--Pois ahi tens a minha tristesa, Thomazia... Não vi o filho, e quasi perdi as esperanças de o ver.

Era-lhe força relatar á mulher o desastre acontecido com o infeliz que o insultára, e provavelmente devia ser o inglez vindo a Portugal. Não podia elle rastrear os motivos do insulto nem o interesse com que a desatinada coragem do petulante inglez se pagava. Partiu logo a Caminha para averiguar do sujeito a quem o moço viera recommendado os signaes e pormenores de tal apresentação. Disseram-lhe que o rapaz exprimia custosamente a lingua portuguesa, e não proferira palavra relativa a Nicoláo d’Almeida, tirante as necessarias para lhe saber a residencia. Emburilhou-se-lhe ainda mais a trama das conjecturas, até que principiou a convencer-se de que o moço era algum paladino desorientado por vapores da idade média, ou leituras de romances de cavallarias, o qual, ouvindo contar a Gervasio de Barros a tragedia da sua familia, deliberára em honra da sua dama endireitar um _tuerto_, que se lhe figurava crime de vingança digna d’elle e da posteridade.

N’estas fluctuações, recebeu uma carta de um dos seus padrinhos de duello, escripta quarenta e oito horas depois que se tinham separado na estação.

Resava assim:

«Dilucidou-se o misterio. Ahi vae cousa que te deve assombrar, e me traz a mim espantado a pensar que ainda se fazem maravilhosos romances n’esta vida pratica e positiva, onde tudo parece correr com enjoativa regularidade.

«Primeiramente, saberás que sir Richard Grattan ainda não acabou; mas não tardará.

«Segundamente, saberás que os padrinhos d’elle acabam de contar aos seus amigos, e estes amigos a outros, e os outros a todo o mundo, uma coisa que não deixa de ser bonita; mas, apesar d’isso, te recommendo que não leias esta carta deante de tua senhora...»

N’este ponto Nicoláo exclamou, surrindo:

--Oh! que é isto?! Desculpa, Thomazia, que eu devo obedecer ao meu amigo.

--Pois que é? lê, filho.

--Não... Deixa-me...

Ao proferir estas palavras, com os olhos cravados na carta, e a cabeça a tremer como o papel nas mãos convulsas, arrancou um grito estridente, e bradou:

--Matei meu filho!

As palavras que elle tinha lido eram estas:

_O rapaz com quem te bateste não é inglez, nem se chama Richard. É portuguez, é o filho do primeiro marido de tua senhora e chama-se Pedro de Barros._..

--Matei meu filho!--bradou elle segunda vez.

Thomazia não lhe ouvira o segundo brado. Tinha caído nos braços de Lopo, trespassada de frio mortal.

--Matei meu filho!--exclamou ainda Nicoláo d’Almeida.

Avermelhára-se-lhe subitaneamente o rosto. Rutilavam-se-lhe as pupilas errantes em volta de si. Ergueram-se-lhe arriçadas as sobrancelhas, e avincou-se-lhe a fronte em profundos sulcos. Os beiços pareciam alligados entre si, como se os rebordos labiaes se unissem. Contrairam-se as maxillas uma contra outra, premindo-se de modo que davam um som asperrimo de rengir de dentes. As veias frontaes e jugulares latejavam infladas. Depois, os spasmos dos musculos da face completavam o horror da desfiguração. Ao contrair das pupillas correspondia o arfar das cartilagens nasaes.

Passava a vista spasmodica pelo filho que lhe estendia os braços, chamando-o clamorosamente, e não o via. Já a esposa, caída no pavimento, levantava um alto pranto, e elle não ouvia. Os servos rodeavam os seus infelizes amos, chorando e clamando, e Nicoláo ajuntava áquella dissonancia dos gritos o stridor rispido dos dentes.

Morrêra-lhe a razão. Era a demencia que os especialistas denominam a das _paixões spasmodicas_.

* * * * *

E, depois, em quinze dias, aquella mulher que ainda era formosa, envelheceu, á beira do marido.

Alta noite, quando sonhos horrentes lhe sacudiam o corpo adormecido, mas intangivel á mão bemfeitora da morte, erguia-se e dizia á esposa:

--Thomazia, levanta-te. São horas de sair. Vou para Londres. Vou procurar meu filho. Anda. Chama o escudeiro que me arranje as malas. Tu choras? pois que mãe és tu? queres ou não queres teu filho?