O sangue

Part 12

Chapter 123,918 wordsPublic domain

Ao abrir da manhã, avistou além de Casal de Pedro os dois cavalleiros, que reconheceu pela libré do lacaio. Nicoláo ouviu brados á rectaguarda. Parou, deixou avisinhar o cavalleiro que batia as pernas á espora fita, e reconheceu o marceneiro.

--Que ha?--perguntou Almeida, a distancia.

--Que ha? morreu o senhor Innocencio.

--Como?!--volveu Nicoláo, em quanto a viuva, a tremer sobre as andilhas, abafa o respirar para não perder uma sillaba das palavras de João Ferreira.

--Lembra-se vossa excellencia quando a minha filha disse que ia entrando muita gente para casa da senhora D. Thomazinha?

--Sim.

--Eram negociantes que acompanhavam o senhor Gervasio, onde vinham dois que desembarcaram e trouxeram a noticia de ter morrido na França o senhor Innocencio. Assim que vossa excellencia saiu e mais a senhora, d’ali a pouco, fecharam-se as janellas. Eu disse logo á minha companheira: «Ó mulher, aquillo é novidade! pois com este calor fecham já as janellas!»--«Que queres tu? (disse ella). Se te parece!... Fugiu-lhe a nora, elles não sabem d’ella... estão a gritar, e fecham as janellas por isso.» «Não (disse eu) ali ha coisa de maior!» Tirei-me dos meus cuidados e desci á rua. Cheguei-me a uns senhores que estavam á porta do senhor Gervasio, e perguntei se havia alguma novidade.--Morreu no Havre (acho que disse isto) o Innocencio de Barros. N’isto vinha saindo um sujeito, e disse aos que estavam: «Vocês não sabem? A mulher do Innocencio fugiu esta noute. Vae lá em cima uma barafunda de gritos que nem o diabo se entende! As velhas estão todas desmaiadas; o Gervasio está n’um pasmo mortal. Desgraça d’este calibre, nunca eu vi!»--Puz-me á espreita a ver o mais que diziam uns que vinham e outros que iam, e contavam a mesma coisa. Só houve um que disse: «Se querem saber onde está a mulher de Innocencio, procurem-n’a no hotel do Pexe, que móra lá o brejeiro (vossa excellencia hade perdoar) que lhe andava por aqui a raspar a asa. Eu bem n’o disse, mas ninguem fez caso. Melhor fizera eu, se tivesse avisado o Gervasio.» «Não, que a esse respeito (disse outro d’ali, que por signal era o commendador Batalha) a esse respeito eu lhe conto: não ha muito que eu estava aqui na visinhança mettido n’um pateo á meia noute e um quarto, pouco mais ou menos, e vi botar uma escada de corda a esta janella, e subir um homem, e metter-se lá para dentro, e mais a corda.»--«E você calou-se com isso?--Veio d’alli outro.--«Calei-me, respondeu o Batalha, porque não sou o almotacé das honras alheias; cada qual que guarde a sua casa.»

Eu assim que ouvi isto, meu fidalgo, despedi por ali arriba, que não sei como não botei os fidalgos pela bocca fóra... Depois, foi um raio por essa estrada fóra catrapós, que trago aqui o garrano a dar as ultimas. Aqui tem vossa excellencia o que ha. Sirvo para amigo ou não?

--É um bom, e não sei se o meu unico amigo, senhor Ferreira--disse Nicoláo, apertando-lhe a mão.

--Não ouviu dizer nada do meu filhinho?--perguntou a viuva.

--Não, minha senhora. Ninguem lá fallou no menino.

--E agora? que fazes, Nicoláo?--tornou ella, voltando-se para o pae de seu filho.

--Tudo estava salvo, se não foges... murmurou o de Caminha muito concentrado.

--Mas posso agora ir... acudiu ella.

--Segundo desatino--obstou Nicoláo.--Estás prohibida de deliberar, minha filha--proseguiu o moço em tom de suave preceito.--Senhor Ferreira, siga-nos para Villa do Conde: lá pensaremos. Não ha razões para precipitar qualquer resolução. Estás viuva, estás livre, Thomazia. O teu filho has de reclamal-o: ninguem tem mais direito do que tu a possuil-o. Agora estão as leis por ti. Socega. É uma questão de pouco tempo.

Deixal-a expandir agora a sua silenciosa alegria. Aquillo sim, que é tragar liberdade a sorvos deliciosos. Se ali não fossem duas testemunhas dos seus transportes, Thomazia pediria a Nicoláo que a deixasse desafogar em gritos de exultação bem aconchegada do seio d’elle. O filhinho é d’ella: disse-lh’o tão sobre o seguro o pae! É seu: dentro em pouco, poderá despir-lhe o lucto; e, quando elle souber proferir a palavra _pae_, ninguem lhe dirá _morreu_! Que lhe faz a ella que a riqueza de Gervasio não seja para seu filho? O pae é tão rico, é tão brioso, que não ha de querer que o seu menino se appellide _Barros_ para succeder na herança de algumas duzias de contos! Fluctuando de idéa em idéa, disputada por uma á alegria da outra, de vez em quando foge-lhe um suspiro desafogado por entre surrisos que lhe desbordam do seio.

Nicoláo, porém, vae triste: sente cair-lhe e queimar-lhe sobre o coração uma torrente de lagrimas; relucta por tirar a consciencia de sob o peso d’um cadaver. Quer elle imaginar que a sua misteriosa amargura são parvulesas de poeta, e de amador novel que ainda não tem abroquellado o peito para rebater os golpes do remorso. Quer e succumbe. Vae pois mais amargurado do que virera até ao momento em que lhe disseram: Caminha a passo; não fujas; que o marido d’essa mulher é morto; e o deshonrado pae que ficou a choral-o é um ancião.

* * * * *

Ai! e como o deploravel velho chorava, apertando ao seio a creancinha, n’aquella hora!

--Não tens pae nem mãe!--exclamava elle com a eloquencia nascida a subitas das ingentisssimas agonias.--Como ella te deixou, anjinho, entregue a uns velhos que não podem viver muito!...

E o commendador Batalha, que não o desamparára em todo o curso da noite, dizia-lhe:

--Deixal-a ir: nunca este menino saiba que teve tal mãe! E guarde-se de que essa infame lhe entre a sua porta. Ella hoje é capaz de vir buscar o filho e chamar-se senhora da fortuna que hade ser d’elle e da que lhe cabe.

--Ella!--exclamou de salto o velho--ella pôr mão em dinheiro do meu filho e do meu neto!... Isso é mais facil eu ajuntar o valor de tudo que tenho n’esta casa, e pôr-lhe o fogo! Sou capaz de o fazer... E de mais--proseguiu Gervasio subitamente inspirado e mais energico para que todos ouvissem--não tenho nada de meu. Tudo o que ahi está é os dotes de meus irmãos e irmãs. Não tenho nada que dar a essa mulher...

--Mas que ingrata!--dizia D. Thomazia, na saleta visinha, entre soluços, á esposa do commendador Batalha--que ingrata aquella!... Trazel-a eu pobresinha, creal-a, dar-lhe o meu filho... o meu querido filho... que eu não torno a ver...--e lançava-se por terra, ferindo o rosto nas cadeiras, e escabujando nos braços das cunhadas, que mal podiam acudir aos transes alheios.

--Eu já soube esta noite lá fóra quem era o tal desaforado--dizia o commendador ao auditorio funebre, que de vez em quando intermittia no estilo elegiaco algumas diatribes politicas a José Passos e outros propugnadores da revolução de maio d’aquelle anno--bem sei quem elle era... e agora me arrepello de não ter avisado este pobre chefe de familia; que eu bem o vi subir pela escada de corda...

--Havia de ser--disse o negociante Abreu ao ouvido do negociante Leite--havia de ser quando elle se preparava para subir pela escada de páo, e não de córda, para o quarto da mulher do Simão Lopes que mora trez portas abaixo do lado de lá.

--Pois era isso...--confirmou o negociante Leite--eu já de lá o vi sair de madrugada, e ás dez horas encontrei-o no escriptorio do Simão a dizer que o mundo estava desmoralisado, e que sabia de trez infames mulheres casadas que traziam nas praças e nos cafés a honra dos seus maridos ás vaias dos folhetinistas e d’outros calafrios d’esta laia.

--Pois aquillo é um tratante!... Olha, olha, como elle se explica.

--Estes malvados--proseguia o commendador Batalha, batendo murros nas proprias pernas--estes malvados que desviam do seu dever as senhoras honestas, e cavam a ruina domestica das familias, deviam ser mortos a tiro como cães damnados. E ellas então? eu, todos sabem que sou casado. Graças aos céos, topei mulher que me deixa andar com a cara descoberta...

--Aquillo é mentira--disse o negociante Abreu ao ouvido do negociante Leite.

--Ora diz-m’o a mim!--segredou o outro.--A casa d’elle ninguem sobe com escada de corda, por que a estrada para o coração da mulher é pela trapeira, ha mais de doze annos. Bem sabes que o Raimundo Braga, visinho d’ella...

--Se sei!... Deixa-m’o ouvir.

O commendador saltára do assumpto, por que um dos auditores tinha escarrado, querendo chamar com tão indecente signal a attenção de Leite e d’Abreu.

--Faz o senhor Gervasio o que deve em não consentir que essa mulher perdida lhe entre em casa, nem leve o pequeno--proseguiu o commendador, solicitando com os circumvagantes olhos o apoio do auditorio.--Segure-se, e quanto antes, meu amigo. Estamos aqui todos promptos para tudo que fôr necessario. Não sei se o troca-tintas do seductor tem de seu; mas acho que pouco terá. É d’estes cavalheirotes de aldeia que colhem cem rasas de milho, e vendem quatro arvores quando vem ao Porto. Se é o que eu penso, elle hade querer comer d’ella, e não tarda por ahi a justiça a vir intimal-o para inventario.

--A mim?--atalhou Gervasio--está bem servida a justiça comigo! Já disse que não tenho nada de meu. Devo a cada um de quatro irmãos que ahi estão dez mil crusados de dote afóra os juros. As quintas do Douro estão captivas dos dotes, e mais esta casa. O vinho que por ahi está nos armazens já o vendi. Estou sem nada, logo que pagar o que devo.

--Faz muito bem!--obtemperou radiosamente o commendador--assim é que se ensinam os bigorrilhas e as... e as... adulteras.

--Não sabe o nome da mulher d’elle...--cochichou Abreu á orelha de Leite.

--É mais burro que honrado--addicionou o outro.

* * * * *

Esta farça funebre de pesames, cuja exactidão carecia de mais espaço e relêvo, passava assim n’um lance de supremo infortunio. As lagrimas intermitentes de Gervasio tinham perdido toda a sua pungitiva uncção. Quem ali fosse para compenetrar-se do funeral espectaculo de um velho, chorando um filho morto e simultaneamente infamado, sairia rindo ou amaldiçoando quem tão vilissima tempera deu ao homem.

Quando Gervasio, ao raiar do sol, sentiu pesar-lhe a cabeça carecida de repouso e a recostou para os braços cruzados sobre o peito, os hospedes evacuaram de mansinho a sala, queixando-se todos de enxaqueca, e convidando-se para ir tomar chocolate ao botequim da rua de Santo Antonio.

Gervasio sentiu que uns braços o achegavam do seio e uma face branda lhe animava as cãs. Olhou, e viu sua mulher, que lhe dizia:

--Ó meu pobre homem, se nos deixassem chorar sósinhos...

Abraçaram-se estremecidamente. As primeiras lagrimas de desafogo foram aquellas.

CAPITULO XX

Argumento

De como a formosa viuva se embalava nas serenas aguas do Minho, e o que diziam a respeito de varias coisas os ditosissimos amantes. Requerimentos, embargos, accordãos e outros feitos das justiças d’estes reinos. Gervasio escapa-se com o neto. Nicoláo de Almeida prova de um modo vulgar e sabido que a sociedade devia chamar-se uma porcaria, se a palavra não fosse plebea e repugnante a ouvidos cerimoniosos. O commendador Batalha depois que revessou do bucho a ucharia encruada. As jornalistas pregoam as virtudes de Thomazia, com outras tolices ao mesmo respeito.

D. Thomazia, a viuva, e Nicoláo de Almeida deliciavam-se campestremente nas inspirativas margens do rio Minho.

Vestia de crepe a formosa. Era-lhe realce o escuro. Trajada de côres festivas, a alma saía-lhe ao rosto a dar reflexos de alegria aos lutos.

Nicoláo remava no batel, por baixo de um docel de salgueiros. Os remos trapeavam cadentes, de uma ourela para outra do rio. Cada vez que aproavam a terra e abicavam por entre os bosquesinhos espelhados n’agua, saíam da frescura os rouxinões esvoaçados, e iam mais longe emboscar-se n’algum amieiral, onde a lua bem sabia que era esperada dos seus cantores nocturnos.

--És feliz?--perguntou-lhe Nicoláo secretamente vaidoso de abrir thesouros de felicidade para aquella mulher.

--Não...--murmurou ella surrindo-lhe meiguices de quem pede perdão do aggravo.--Falta-me o nosso filho.

--Não te basta a certeza de que elle hade vir?

--E a saudade? e o medo que m’o tirem ou o façam desapparecer?...

--Não ganhavam com isso nada.

--Mas se meu padrinho cuidar que elle é seu neto?...

--Nem assim lhe assiste o direito de t’o negar.

--Mas quem sabe se o Innocencio deixou alguma declaração...

--De que o filho não era d’elle?

--Sim...

--Mais forte rasão para que t’o não queiram, e comecem desde já um processo a provar a illegitimidade do filho adulterino. Seja como fôr, minha filha, lá tens optimo procurador no Porto. Póde ser que a esta hora o nosso anginho venha esvoaçando para nós. Teu sogro hade achar-te louvavel o procedimento, porque não pedes herança, nem sequer as tuas joias. Pedes o filho e renuncias a ter quinhão dos bens de teu marido.

--E se elles m’o não entregarem?

--Vou eu buscal-o. Entrarei á presença de Gervasio, e direi: «Este menino é meu filho. Não tem d’esta casa uma tabua nem um farrapo. Gosem tranquillos os seus bens de fortuna, que esta creança, quando fôr homem, nem sequer ha de saber que sua mãe foi casada com um chamado Innocencio.»

--E tu ias dizer isso?--atalhou exultantemente a viuva.

--Com toda a certeza, se o escandalo fôr necessario.

--Não ha de ser... Elles dão-me a creancinha.

* * * * *

O procurador de D. Thomazia apresentou ao juiz o requerimento da sua constituinte, pedindo a entrega do filho. Deferiu o juiz. Gervasio José de Barros saiu com embargos ao despacho. Allegava o porte immoral da viuva que não podia ser boa educadora do filho. Desfiavam os artigos a historia das adulteras invasões do amante por escada de corda, consoante as referira o commendador Batalha. As testemunhas de vista eram já sobejas para justificar o crime, e pelo conseguinte a devassidão da viuva, concubinaria de Nicoláo d’Almeida. Accrescentava o libello que Innocencio José de Barros morrêra de paixão e vergonha.

Foram acceitos os embargos.

O procurador aggravou: não teve provimento.

A conjuração contra Thomazia subia das praças aos tribunaes. Os juizes da Relação, no seu accordão, ajustavam á aggravante o epitheto de «infame».

Nicoláo d’Almeida, informado do despacho da causa em segunda instancia, auctorisou o procurador a declarar em nome da sua constituinte que o filho de Thomazia não era filho de Innocencio.

O agente de causas foi retido pelo pudor de sua propria pessoa. Respondeu que regeitava a procuração, e difficilmente encontraria advogado que assignasse a original e de nenhum modo desculpavel declaração.

Os amigos do fidalgo admoestaram-n’o a que não expozesse o nome de D. Thomazia, se a presava tanto como era de presumir; que semelhante requerimento sobrepujava o cumulo do despejo; que, embora o mundo a considerasse criminosa, não fosse ella dobrar a fealdade da sua culpa, revelando segredos que a livelariam hombro por hombro das mulheres derrancadas até onde já não resta sentimento de vergonha.

Caiu em si Nicoláo, e voltou o espirito para a urdidura de traça heroica e summaria. Cogitava em raptar a creança.

Decorreram quinze dias de plano, em que entrava o marceneiro, auctorisado a segurar á ama do menino uma avultada independencia.

Outros quinze dias espiou João Ferreira os passos da ama. Não a viu. As janellas de Gervasio nunca mais se abriram, e as portas meio cerradas escassamente deixavam passar as visitas frequentes, os bons amigos do negociante que lhe alvidravam alienar fraudulentamente os seus haveres e mudar de paiz.

Os mais cordatos asseguravam-lhe que o direito de Thomazia á posse do filho fôra denegado iniquamente, visto que nenhum processo a espoliára dos direitos maternos: precaviam-n’o, pois, contra as novas tentativas d’ella, assim que o odio geral se desvanecesse e a lei funccionasse mais desassombrada.

Temeu o velho e abraçou o alvitre.

Deu os dotes a seus irmãos, segurados nos bens rusticos e urbanos. Liquidou as especies commerciaes, embolçou o maximo dos seus haveres em dinheiro, lavrou titulos capciosos para legalisar as vendas, e saiu furtivamente para Inglaterra com a esposa, e o seu Pedro nos braços da ama.

Raros amigos lhe souberam o destino.

Chegou a nova a Caminha, levada pelo marceneiro. Nicoláo chorou amargamente. Aquelle extremoso amor de pae entranhára-lh’o assim a Providencia para castigo. São inescrutaveis e invisiveis os caminhos por onde baixam do céo as flechas que trespassam as almas. Até succede exasperarem-se em ardor de inferno sentimentos sacratissimos! Vejam onde as chammas começaram a queimar: no coração de pae! tão sublime affecto convertido em lança penetrante!

Thomazia soffreu menos. Levantou clamores de apiedar feras, caiu sem accôrdo nos braços de Nicoláo; mas soffreu menos. Volvidos mezes, quando ella estiver esquecida do filho, Nicoláo d’Almeida, que apenas vira a creança no baptisterio, enxugará as lagrimas cada vez que vir um menino nos braços de seu pae.

Agora, leitores, deixem correr os annos. A vida vae depressa. E, nos romances, quando ella entra no trilho commum, a rapidez salva o leitor do fastio.

Em 1847 Nicoláo d’Almeida era já pae de um menino chamado Lopo. Este filho nasceu legitimo... A sã moral toma aqui ar.

Nasceu legitimo. Um sacerdote, com pouquissimo trabalho, duas frases latinas e duas portuguezas, um meneio de estola, uma benção, e de fóra os termos do ritual, duas graçolas espirituosas de sua lavra, santificou pae, mãe e filho.

Thomazia não se debulhou em lagrimas de reconhecimento. Bastava-lhe saber que era amada antes de ser esposa. O fidalgo tambem não engrandeceu o quilate do seu feito. O que elle havia dado mais valioso áquella mulher, dera-lh’o antes: a alma. O que o esposo fez de mais, foi chamar para si os tios de Thomazia, os irmãos e irmãs do bravo capitão Joaquim Alves, que eram pobres.

* * * * *

Um dia, em 1849, Nicoláo d’Almeida disse a Thomazia:

--O nosso filho Pedro está em Londres.

--Ah! soubeste-o?

--Disse-mo no Porto um homem que viu Gervasio de Barros em Londres.

--E que intentas fazer, meu filho?

--Que hei de eu fazer? esperar. Não questionemos a posse da creança em sacrificio ao teu nome. Quando elle poder entender-me, quando o sangue lhe agitar o coração na minha presença, então lhe direi: «sou teu pae!»

Passados instantes, tomou nos braços o pequenito Lopo, mirou-o muito de chapa, e disse, coberto de lagrimas:

--Pede a Deus que me dê o teu irmãosinho.

Thomazia cobriu o rosto com as mãos, inclinou a cabeça para o seio e soluçou, murmurando:

--Não torno a vel-o...

--Has de ver! replicou Nicoláo com vehemencia.

Em 1850, disse o fidalgo de Caminha a sua mulher:

--Faz hoje quatro annos que o teu nome no Porto era um como ferro que fazia golfar a posthêma da maledicencia d’aquelles peitos. Desejo que tu conheças de perto as cavernas onde não poude chegar a lanceta do teu nome. Ha lá dentro pus que não saiu, quando t’o cuspiram ás costas. Prepara-te. Vamos passar dois mezes ao Porto.

--Por quem és, meu filho, não vamos...--accudiu Thomazia.

--Vamos, menina. Pois não queres conhecer as delicias da rehabilitação? Sabes lá tu que prazer ensoberbece a gente, quando nos vemos de perto com os detraidores de outro tempo, e então reconhecemos quanto eramos grandes, á vista dos abjectos inimigos que tivemos?... Ir ao Porto, é coisa que eu te peço de joelhos, se fôr necessario--concluiu Nicoláo acariciando-a.

--Vamos, filho. Se me fizeram chorar, tu me consolarás.

--Quem te ha de fazer chorar? Vaes topar toda a gente á porfia de te fazer rir... E has de rir.

* * * * *

Era um palacio com quatro salões corridos, e doze janellas a jorrarem luz e estrondosas harmonias. As carruagens, entralhando-se á porta do palacio, despejavam commendadores relampadejantes de venéras com os braços arqueados, onde poisavam leveiras como arveolas umas mulheres que volitavam com suas azas de alvissimas gazes. As baronezas nutridas pisavam ponderosamente os tapetes do vasto peristilo do palacio, pedindo aos maridos que lhes desfizessem os refegos da saia, mas com disfarce. Um criado com borlas e galões de ouro tirava pela sineta, assim que ouvia o fremir das sedas no pateo. A meio da escada, descia então o dono da casa, um mancebo de 26 annos, pallido, de olhos negros, e surriso torvo. Inclinava-se deante das houris que iam povoar o seu paraiso, e, recurvando os braços, as conduzia até onde estava uma mulher loura, grave e linda. Então voltando-se ás senhoras, dizia com palaciano entono:

--Apresento a vossas excellencias Thomazia de Almeida, minha mulher.

* * * * *

E a profusão da ceia fez suppôr que Lucullo e Cresso e Apicio morreram de fome.

Um conviva, quasi afogado pela onda do champagne, e opilado de aves frias que se lhe encruavam no estomago, avençou-se com um criado para lhe ensinar a parte da casa, onde elle podesse obedecer aos impetos de um vomitorio involuntario: era o commendador Batalha. Despejada a ucharia mal esmoida que lhe tomava as cavidades intestinas, sem resalva de uma em que tivera a consciencia, foi dizer a D. Thomazia que Gervasio José de Barros, como judeu que era, alienára indignamente quanto tinha, posto o intento em roubal-a.

--Mas esteja vossa excellencia certa--acrescentava elle--de que seu filho vem a herdar o melhor de oitenta contos. Se fôr preciso, eu direi a vossa excellencia com quem foram feitos os contractos fraudulentos.

D. Thomazia não respondeu. Entreviu nos grupos o marido que a procurava com os olhos, e rebatia, cerrando os labios, o impulso do riso.

Ao outro dia, a imprensa periodica, no esmero com que cinzelou o estilo das noticias, bem deixava entender que escrevia para a eternidade.

Da dona da casa, diziam que associava á fidalguia das maneiras uma tamanha gentileza e fidalgo porte que o primor das joias riquissimas era de seus enfeites o que menos resplandecia.

Que a flôr da sociedade portuense convergira, á competencia de galas, aos salões de suas excellencias; sendo tantas as «notabilidades» que não sabia o redactor estremar primazias de bellezas e ainda menos de _toilettes_.

Que a elegante esposa do excellentissimo Almeida surpreenderia com as suas peregrinas graças a quem a não tivesse já admirado entre as mais preclaras formosuras do Porto, onde sua excellencia tinha nascido.

Que ás cinco da manhã parecia ter começado o baile, sendo áquella hora tal o delirio e enthusiasmo, que os pares invadiam as quatro salas, arrebatados na febre do _cotillon_.

Que a excellentissima Thomazia d’Almeida apenas dançára duas quadrilhas, concedendo a solicitada honra de parceira aos senhores barão da Sola e visconde do Tijolo, que tiveram a fortuna de ouvir sua excellencia descrever as pittorescas orlas dos rios Lima e Minho, onde a virtuosa e abastada senhora possue riquissimas quintas.

«Suas excellencias--concluia o poeta das locaes--tencionam ainda abrir segunda vez as suas esplendidas salas na estação invernosa. Parabens á nata da esbelta cidade da Virgem! que só assim, na esperança de renovados jubilos, poderemos ir mitigando as saudades da rapida noite que hontem nos proporcionou a liberalidade e finissimo gosto d’esta fidalga familia,» _etc._, _etc._

Nicoláo de Almeida, lido o terceiro periodico, entre frouxos de riso, quedou-se triste e disse gravemente:

--Principia agora o nojo. Viste a sociedade, Thomazia? Estás contente com a rehabilitaçao?

Thomazia surriu-se, beijou as mãos do esposo, e respondeu:

--De que me serve a mim isto? Tu é que me fizeste o que sou...

--E receias que estas mulheres façam de ti o que ellas são?

--Não receio... tu me defenderás, meu amor.

--Entendes pois que esta gente não póde reabilitar ninguem?... Vamos então embora. Levemos o nosso filho para as arvores do Minho, que este ar tem veneno que faz mal ás creanças. Está aqui o bafejo acre da podridão interior da illustre canalha, que ha quatro annos te levaria a pontapés das portas dos juizes, se tu viesses pedir teu filho, e o filho fosse de teu marido, e não tivesses pão que lhe dar senão o dos Barros das Cangostas.

CAPITULO ULTIMO

Argumento

Dezesete annos depois