O sangue

Part 14

Chapter 142,980 wordsPublic domain

A pobre não sabia consolar. Começava a encher a mala de camisas, e esperava n’esta canceira que viesse a madrugada e o torpor do somno aquietar as impaciencias, e ás vezes os frenesis violentos do alienado.

Os medicos rodeavam o enfermo; porém, Thomazia não dizia a ninguem a origem da demencia do marido. Parecia-lhe atrocissima offensa ao desgraçado revelar que elle matára o filho.

Que supplicio o da viuva de Innocencio José de Barros! Que castigo tão desproporcionado! Se todas as alegrias da sua existencia de vinte annos valiam uma só das noutes que ella passava no quarto de Nicoláo d’Almeida!

* * * * *

Ao decimo dia da demencia, chegou outra carta do amigo que lhe enviára a morte na primeira.

Dizia d’este teor:

«Milagre! Pedro de Barros está salvo. Já se lhe levantaram os appósitos da ferida. A substancia perdida foi reparada. Aquillo é cabeça á prova de bala! Com um adversario assim não ha partido! Dizem os medicos que um elefante não resistiria», etc.

D. Thomazia arrancou a carta das mãos a Lopo, e correu ao quarto do marido, exclamando:

--Nicoláo, Nicoláo, não mataste o teu filho! não mataste! aqui está a carta do teu amigo... Olha, lê, lê, meu querido amor, lê, que teu filho está vivo! Ó mãe de Jesus Christo! valei a meu marido! Não lês, Nicoláo? Leio eu... olha... ouve...

Nicoláo d’Almeida ouviu com apparencia de profunda attenção, voltou as costas, entrou ao quarto de vestir, começou a reunir casacos e pantalonas, e saiu fóra com a troixa do fato, dizendo:

--O escudeiro que me dobre esta roupa. O wagon sae ás quatro horas para o Havre. Vou a Londres procurar meu filho.

Thomazia ajoelhava, caía de face contra o pavimento, e arrancava gemidos convulsos.

* * * * *

Dois mezes depois, em setembro de 1867, Lopo d’Almeida passeava no vasto salão, que servia de casa de espera, na quinta solarenga onde vivia-morto seu pae, e agonisante sem poder morrer sua mãe.

O mancebo, com os braços pendentes, rosto abatido, e olhos carregados de lagrimas, dizia entre si:

--Que dezenove annos os meus! Que mocidade! Que portas se me abrem para tão negra vida!... Nunca mais poderei ter hora de contentamento! Heide ver meu pae envelhecer n’aquelle tormento, e a minha pobre mãe a pedir a Deus que lhe dê vida para ainda ver a luz da razão nos olhos d’elle!...

Interrompeu-lhe o recolhimento doloroso o surgir subito de um homem desconhecido no patamar da escada que conduzia á sala.

Fitou-o e perguntou:

--Quem procura?

--Nicoláo d’Almeida.

--Não recebe senão os medicos. Sou filho d’elle. Represento meu pae n’esta casa. Quem é o senhor?

--Um homem que procura os infames quando elles se escondem, ou fingem doidos para se furtarem á responsabilidade das suas protervias.

Lopo d’Almeida mediu-o da cabeça aos pés, e respondeu:

--Não encontrou um lacaio no páteo quando entrou aqui?

--Não encontrei ninguem. Que quer dizer a pergunta?

--Que volte, e diga ao lacaio o seu nome. Depois, espere-me ahi fóra que eu vou onde meu pae não póde ir.

--O meu nome posso atiral-o á cara de quem quer que seja, sem a intervenção do lacaio. Sou Pedro de Barros.

Lopo contemplou-o por instantes silencioso, deu dois passos para elle, e disse com boa sombra:

--Seja bem vindo o senhor Pedro de Barros. Está em casa de...

Conteve-se, e tornou:

--Está em casa de sua mãe.

--Não tenho mãe. Retire a injuria.

--Retirei. Agora, senhor Pedro de Barros...--E apontou-lhe para a porta.

--O senhor me disse, ha momentos, que não duvidava ir onde seu pae não fosse.

--Antes de o conhecer. Iria bater-me com um homem chamado Richard Grattan; com Pedro de Barros, não. Eu respeito os homicidas que escondem o seu verdadeiro nome, julgando que os disfarça o medo do opprobrio. Ao homem, porém, que entra em casa de sua mãe, e diz seu nome, e revela sem cerimonia o programma de assassino, desprezo-o, e só receio que elle me tira pelas costas.

* * * * *

D. Thomazia tinha ouvido a voz alterada de Lopo, e chegára-se ao reposteiro interposto ás duas salas, quando o filho proferiu as palavras: _Ao homem, porém, que entra em casa de sua mãe..._

Escutou as restantes, julgando-se turvada de entendimento e ouvidos. Levantou o reposteiro, e saiu á sala, com a vista desvairada e os passos oscillantes.

Lopo foi recebel-a pela mão, apertou-a ao seio e disse-lhe:

--Vá para dentro, minha mãe, peço-lh’o com as mãos erguidas!

--Quem é este?!--perguntou ella--a quem dizias tu...? Não fallaste aqui agora em _mãe_... e não sei quê...?

Relançou Lopo os olhos a Pedro. Figurou-se-lhe ver no rosto d’elle uma feição extraordinaria de agitação interior. Cedeu a um impulso de generoso enthusiasmo, e disse á mãe:

--Aquelle é Pedro... é seu filho!

Thomazia, antes de ver o filho, viu o esposo. Não proferiu um monosillabo. Retrocedeu com desatinada velocidade. Sumiu-se nas salas interiores. Correu ao quarto de Nicoláo. Travou-lhe do braço. Tirou-lhe por elle a impetos freneticos. O louco deixava-se arrastar. Entrou com elle ao salão, a tempo que Lopo, travando do braço de Pedro que fugia, lhe bradava:

--Espere, que vae ter occasião de cravar a bala no infame que se finge doido!

N’este conflicto, acercou-se D. Thomazia com o marido. Aproximou-se de Pedro, que recuava, e disse-lhe:

--Olha, Nicoláo, olha... Aqui está teu filho!... Vêl-o vivo? Repara, meu amor. Não é este o que teve o desafio em Pariz comtigo? Não é?...

Nicoláo encarava no rosto de Pedro com penetrativa fixidez; quando, porém, Thomazia lhe espertava a gritos as reminiscencias, elle declinava para sobre ella o olhar torvo, e estremecia como assustado das suas exclamações.

No entretanto, a postura de Pedro de Barros--a fórma exterior, que a interna é indefinivel--significava a ancia de evadir-se a uma situação que lhe demudára o rancor em tortura de uma especie nunca escripta nem imaginada. Abalo de coração parece que não sentia nenhum bom. Na cabeça tumultuava-lhe um torvelinho de idéas que o desvairavam. Aquillo de chamar-se seu pae aquelle homem soava-lhe como uma zombaria, se não era antes sonho ou allucinação de ouvidos. Sentimento filial ou sequer de piedade não lhe suscitava a mãe nenhum. Por maneira, que todos os seus movimentos d’olhos e de espirito, segundo mostrava, era livrar-se do espectaculo, em que talvez elle fosse capaz de ver alguma coisa ridicula para si.

Thomazia, voltando as exclamações do marido, que saíra da sala, para o filho, ia, n’uma explosão de ternura redobrada pela agonia de ver o marido impassivel, lançar os braços ao pescoço de Pedro.

Haveis de crêl-o, mães, que não sabeis dos supplicios de outras; crel-o-heis de melhor mente se já vistes repellidas as que não tiveram hora de vida apartada dos filhos.

Pedro fez pé atraz, quando a mãe lhe dizia:

--Filho da minha alma, ajuda-me a dar vida á razão de teu pae!

O retraimento de Pedro tirou lavaredas de odio aos olhos de Lopo.

Seria sublime, se não fosse triste de contar-se que o filho segundo de Nicoláo d’Almeida, no lanço de furtar-se o irmão aos braços da mãe, tomou para si o corpo d’ella, apertou-a com apaixonado amor, sentiu-a desfallecer, depôl-a sobre um canapé, abeirou-se de Pedro, e disse-lhe acceleradamente:

--Olhe que é mentira quanto ouviu: Aquella senhora não é sua mãe. Maldita seja ella, se alguma hora se lembrar sem vergonha das lagrimas que chorou. Vá... Mentimos-lhe todos. Este homem não é seu pae. Quem? elle! Aquelle santo desgraçado que endoudeceu cuidando que tinha matado um filho!... Mentiram-lhe a elle de Pariz. Fuja, fuja... se lhe parece que é uma enorme covardia o parricidio... Fuja, porque... o senhor matou meus paes... e eu não quero prival-o da expiação do remorso...

Ditas estas palavras, Pedro de Barros foi repulsado rijamente para fóra da porta. Lopo ajoelhou ao pé de sua mãe, e colou-lhe o ouvido ao coração. Latejava. A justiça divina renovava-lhe o sangue para que a expiação se prolongasse a termos de se provar n’aquella mulher que as religiões, promettendo infernos além d’este mundo, foram mais inventivas que Deus.

* * * * *

O meu amigo Antonio Joaquim rematou assim a narrativa:

--Nicoláo d’Almeida não tem memoria nenhuma do reapparecimento do seu adversario de Pariz. D. Thomazia todos os dias lhe conta que o filho esteve ali na casa d’elles. É esperança que ainda não desamparou a pobresinha restaural-o assim. Que illusão! O marido escuta, parece reflectir accentuando com a cabeça as palavras da senhora, e passa de ouvil-a a tão glacial indifferença, que vae para uma janella rufar nas vidraças. Aqui tens o que presenciei na ultima visita que fiz ha oito dias á gehenna d’estes reprobos das alegrias do mundo.

Não te sei dizer onde pára o herdeiro de Gervasio José de Barros, se te interessa sabel-o.

Não; a mim o que mais me convinha era saber dar á tua historia um titulo.

--Eu chamava-lhe o SANGUE.

--O sangue?! qual? o da cabeça de Pedro de Barros?

--Não: o sangue, que tem ares de titulo filosofico e assim com presumpções de these. Porque hasde ter ouvido dizer que um filho conhece seu pae, e o pae seu filho, por um secreto impulso do sangue.

Em confirmação d’este preconceito, que desluz muitas cabeças illustradas, podes vir com argumentos confortativos; por exemplo: os casos de parricidio em que os filhos assassinam os paes com perfeitissimo conhecimento da pessoa filialmente assassinada; o caso vulgar das mães que estrangulam as creancinhas assim que ellas, ao sair-lhes do seio, estendem as mãosinhas para os peitos; o caso em que os filhos, repatriados ricos ao seu paiz donde saíram com o enxoval que custou vigilias e fomes aos paes, sentem-se inclinados a dar razão aos barbaros que matavam os velhos como entes inuteis e incommodos. Todos estes casos provam que o sangue é um engenhoso registro que a Providencia implantou na economia animal, para regulamento dos nossos deveres de familia. Demonstrado isto, corre-te obrigação de mostrar uma coisa, já muito sabida e notoria; e vem a ser que tu e eu e os mais da nossa especie somos os reis da creação; e que os bichos, que estremecem seus filhos e seus paes, são bichos.

--Mas, sem embargo do titulo, qual achas tu que seja a moralidade do romance?

--A moralidade é clara.

--A expiação de Thomazia, não é verdade?

--Homem, eu n’isto de expiações não tenho ainda formado perfeito juizo. Conheço muitas familias que me authorisam a suppôr que a expiação é um castigo da tolice e não do vicio.

--Homem, essa! Vão lá escrever o absurdo n’um livro que tem de melhorar os costumes e os usos...

--E de certo melhoras. Todo o livro é um melhoramento na industria do papel e da tipografia.

--Mas,--tornei eu farejando a moralidade do romance--não posso eu dizer que o pae de Pedro de Barros era...?

--Era o que as nupcias demonstravam, como diz a lei romana. Era Innocencio. O sangue de Pedro vinha a ser o dinheiro de Innocencio. Lá está o axioma que diz: _O dinheiro é sangue_. Um filho só póde ser filho de quem é seu pae, quando não herda oitenta contos de outro que foi casado com sua mãe.

FIM

J. P. OLIVEIRA MARTINS

OBRAS COMPLETAS

I. Historia nacional:

HISTORIA DA CIVILISAÇÃO IBERICA, 4.ª ed. (1897), 1 vol., br. 700 rs. Enc. 900.

HISTORIA DE PORTUGAL, 6.ª ed. (1901), 2 vol., br. 1$400 rs. Enc. 1$800.

O BRAZIL E AS COLONIAS PORTUGUEZAS, 4.ª ed. (1888), 1 vol., br. 700 rs. Enc. 900.

PORTUGAL CONTEMPORANEO, 3.ª ed. (1895), 2 vol., br. 2$000 rs. Enc. 2$400.

PORTUGAL NOS MARES, (1889), 1 vol., br. 700 rs. Enc. 900.

CAMÕES, OS LUSIADAS E A RENASCENÇA EM PORTUGAL, (1891), 1 vol., br. 600 rs. Enc. 800.

NAVEGACIONES Y DESCUBRIMIENTOS DE LOS PORTUGUESES (_ed. do Ateneo de Madrid_, 1892), 1 vol. (não entrou no commercio.)

A VIDA DE NUN’ALVARES, 2.ª ed. (1894), 1 vol., br. 2$000 rs. Cart. 2$400. Enc. (folhas doiradas) 3$200.

OS FILHOS DE D. JOÃO I, 2.ª ed., 2 vol., br. 1$400rs. Enc. 1$800 rs.

O PRINCIPE PERFEITO, (1895), 1 vol., br. 2$000 rs. Encad., folhas doiradas, 3$200.

II. Historia geral:

ELEMENTOS DE ANTHROPOLOGIA, 4.ª ed. (1895), 1 vol., br. 700 rs. Enc. 900.

AS RAÇAS HUMANAS E A CIVILISAÇÃO PRIMITIVA, 2 vol., br. 1$400 rs. Enc. 1$800 rs.

SYSTEMA DOS MYTHOS RELIGIOSOS, 2.ª ed. (1895), 1 vol., br. 800 rs. Enc. 1$000.

QUADRO DAS INSTITUIÇÕES PRIMITIVAS, 2.ª ed. (1893), 1 vol., br. 700 rs. Enc. 900.

O REGIME DAS RIQUEZAS, 2.ª ed. (1894), 1 vol., br. 600 rs. Enc. 800.

HISTORIA DA REPUBLICA ROMANA, 2.ª ed., 1897, 2 vol., br. 2$000 rs. Enc. 2$400.

O HELLENISMO E A CIVILISAÇÃO CHRISTÃ, 2.ª ed., 1 vol., br. 800 rs. Enc. 1$000 rs.

TABOAS DE CHRONOLOGIA E GEOGRAPHIA HISTORICA, (1884), 1 vol., br. 1$000 rs. Encadernado 1$200.

III. Varia:

A CIRCULAÇÃO FIDUCIARIA, 2.ª ed., 1 vol., br. 800 rs. Enc. 1$000 rs.

A REORGANISAÇÃO DO BANCO DE PORTUGAL, _opusculo_, (1877), br. 150 rs.

O ARTIGO «BANCO» no _Diccionario Universal Portuguez_, (1877), 1 vol., br. 500 rs.

POLITICA E ECONOMIA NACIONAL, (1885), 1 vol., br. 700 rs.

PROJECTO DE LEI DE FOMENTO RURAL, _apresentado á camara dos deputados na sessão de 1887_, 1 vol., br. 300 rs.

ELOGIO HISTORICO DE ANSELMO J. BRAAMCAMP, _ed. part._ (1886), 1 vol. (esgotado).

THEOPHILO BRAGA E O CANCIONEIRO, _opusculo_, (1869), esgotado.

O SOCIALISMO, (1872-3), 2 vol., br. 1$200. (Esgotado)

AS ELEIÇÕES, _opusculo_, (1878), br. 200 rs.

CARTEIRA DE UM JORNALISTA: I. _Portugal em Africa_, (1891), 1 vol., br. 400 rs.

INGLATERRA DE HOJE, CARTAS DE UM VIAJANTE, 2.ª ed., (1894), 1 vol., br. 600 rs. Enc. 800.

CARTAS PENINSULARES, (1895), 1 vol., br. 600 rs. Enc. 800 rs.

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Obras de JOSÉ QUINTINO TRAVASSOS LOPES

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