O Guarany: romance brazileiro, Vol. 2 (of 2)

Part 9

Chapter 93,929 wordsPublic domain

Póde-se agora comprehender qual tinha sido o seu desespero vendo esse plano inutilisado; depois de ter desobedecido á sua senhora, depois de haver tudo realisado, quando só faltava o desfecho, quando o golpe que ia salvar a todos cahia, mudar-se de repente a face das cousas, e ver destruida a sua obra, filha de tanta meditação!

Ainda assim quiz resistir, quiz ficar, esperando que os Aymorés continuarião o sacrificio; mas conheceu que a resolução de Alvaro era inabalavel como a sua; que ia ser causa da morte de todos os defensores fieis de D. Antonio, sem ter já a certeza de sua salvação.

No primeiro momento que succedeu á confissão de Pery, todos os actores dessa scena, pallidos, tomados de espanto e de terror, com os olhos cravados no indio, duvidavão ainda do que tinhão ouvido; o espirito horrorisado não formulava uma idéa; os labios tremulos não achavão uma palavra.

D. Antonio foi o primeiro que recobrou a calma; no meio da admiração que lhe causava aquella acção heroica, e das emoções produzidas por essa idéa ao mesmo tempo sublime e horrivel, uma circumstancia o tinha sobretudo impressionado.

Os aventureiros ião ser victimas do envenenamento; e por maior que fosse o gráo de baixeza e aviltamento a que tinhão descido esses homens pela sua traição, a nobreza do fidalgo não podia soffrer semelhante homicidio.

Elle os puniria a todos com a morte ou com o desprezo, essa outra morte moral; mas o castigo na sua opinião elevava a morte á altura de um exemplo; emquanto que a vingança a fazia descer ao nivel do assassinato.

--Vai, Ayres Gomes, gritou D. Antonio ao seu escudeiro; corre e previne a esses desgraçados, se ainda é tempo!

V

O PAIOL

Cecilia ouvindo a voz de seu pai estremeceu como se acordasse de um sonho.

Atravessou o aposento com passo vacillante, e chegando-se a Pery, fitou nelle os seus lindos olhos azues com uma expressão indefinivel.

Havia nesse olhar ao mesmo tempo a admiração immensa que lhe causava a acção heroica do indio; a dôr profunda que sentia pela sua perda; e uma exprobação por não ter elle ouvido as suas supplicas.

O indio nem se animava a levantar os olhos para sua senhora; não tendo realisado o sen desejo, considerava agora tudo quanto fizera como uma loucura.

Sentia-se criminoso, e de toda a sua acção heroica e sublime para os outros, só lhe restava o pezar de ter offendido Cecilia, e de lhe haver causado inutilmente um degosto.

--Pery, disse a menina com desespero, porque não fizeste o que tua senhora te pedia?...

O indio não sabia o que responder; temia ter perdido a affeição de Cecilia, e essa idéa martyrisava os últimos momentos que lhe restavão a viver.

--Cecilia não te disse, continuou a menina soluçando, que ella não aceitaria a salvação com o sacrificio de tua vida?

--Pery já te pedio que perdoasses! mnrmurou o indio

--Oh! Se tu soubesses o que fizeste hoje soffrer á tua senhora!... Mas ella te perdôa.

--Ah!... exclamou Pery, cuja physionomia illuminou-se.

--Sim!... Cecilia te perdôa tudo que soffreu, e tudo que vai soffrer! Mas será por pouco tempo...

A menina dizia essas palavras com um triste sorriso de sublime resignação; conhecia que não havia mais esperança de salvação, e esta idéa quasi a consolava.

Não pôde acabar porém; a palavra ficou-lhe presa aos labios, tremula, consulva: seus olhos se fixavão em Pery com um sentimento de terror e de espanto.

A physionomia do indio se tinha decomposto; seus traços nobres alterados por contracções violentas, o rosto encovado, os labios roxos, os dentes que se entrechocavão, os cabellos erriçados da vão-lhe um aspecto medonho.

--O veneno!... gritárão os espectadores dessa scena horrorisados.

Cecilia fez um esforço extraordinario; e lançando-se para o indio, procurou reanima-lo.

--Pery!... Pery... balbuciava a menina aquecendo nas suas as mãos geladas de seu amigo.

--Pery vai-te deixar para sempre, senhora.

--Não!... Não!... exclamou a menina fora de si.

Não quero que tu nos deixes!... Oh! tu és máo muito máo!... Se estimasses tua senhora, não a abandonarias assim!...

As lagrimas orvalhavão as faces da menina, que no seu desespero não sabia o que dizia. Erão palavras entrecortadas, sem sentido; mas que revelavão a sua augustia.

--Tu queres que Pery viva, senhora? disse o indio com a voz commovida.

--Sim!... respondeu a menina supplicante. Quero que tu vivas!

--Pery viverá!

O indio fez um esforço supremo, e restituindo um pouco de elasticidade aos seus membros entorpecidos, dirigio-se á porta e desappareceu.

Todas as pessoas presentes o acompanharão com os olhos e o virão descer á varzea e ganhar a floresta correndo.

A ultima palavra que elle proferira tinha um momento restituido a esperança a D. Antonio de Mariz; mas quasi logo a duvida apoderou-se do seu espirito; julgou que o indio se illudia.

Cecilia porém tinha mais do que uma esperança; tinha quasi uma certeza de que Pery não se enganára; a promessa de seu amigo lhe inspirava uma confiança profunda. Nunca Pery lhe havia dito uma cousa que se não realisasse; o que parecia impossivel aos outros, tornava-se facil para a sua vontade firme e inabalavel, para o poder sobrehumano de que a força e a intelligencia o revestia.

Quando D. Antonio de Mariz e sua familia se recolhêrão tristemente impressionados, Alvaro de pé na porta do gabinete fez um gesto de espanto ao fidalgo, e apontou-lhe para o oratorio.

A parede do fundo, prestes a tombar, oscillava sobre a sua base como uma arvore balançada pelo vento.

D. Antonio sorrio, e ordenando a sua familia que entrasse no gabinete, tirou a pistola da cinta, armou-a e esperou na porta ao lado de Alvaro.

No mesmo instante ouvio-se um grande estrondo, e no meio da nuvem espessa de pó que se elevou desse montão de ruinas seis homens precipitárão-se na sala.

Loredano foi o primeiro; apenas tocou o chão, ergueu-se com extraordinaria rapidez, e seguido pelos seus companheiros caminhou direito ao gabinete onde se achava recolhida a familia.

Recuárão porém lividos e tremulos; horrorisados diante da cena muda e terrivel que se apresentava aos seus olhos espantados.

No meio do aposento via-se um desses grandes vasos de barros vidrados, feitos pelos indios, e que continha pelo menos uma arroba de polvora. De uma aberta que havia nesse vaso corria um largo trilho que ia perder-se no fundo do paiol, onde se achavão enterradas todas as munições de guerra do fidalgo.

Duas pistolas, a de D. Antonio de Mariz e a de Alvaro, esperavão um movimento dos aventureiros para lançarem a primeira faisca ao volcão. D. Lauriana, Cecilia e Isabel de joelhos, oravão julgando a cada momento ver confundirem-se no turbilhão todos os espectadores dessa scena.

Era esta a arma terrivel de que fallára ha pouco D. Antonio, quando dizia a Alvaro que Deus lhe havia confiado o poder de fulminar todos os seus inimigos. O moço comprehendeu então a razão por que o fidalgo o tinha obrigado a partir com todos os homens para salvar Pery, julgando-se bastante forte para defender elle só, a sua familia.

Quanto aos aventureiros, lembrárão-se do juramento solemne de D. Antonio de Mariz; o fidalgo os tinha todos fechados na sua mão, e bastava apertar essa mão para esmaga-los como um terrão de argila. Lançando um olhar esvairado em torno de si os seis criminosos quizerão fugir, mas não tiverão animo de dar um passo, e ficárão como pregados ao solo.

Ouvio-se então um rumor de vozes da parte de fora, e Ayres Gomes seguido pelos aventureiros apresentou-se á porta da sala.

Loredano conheceu que desta vez estava irremediavelmente perdido, e assentou de vender caro a sua vida; mas a desgraça pesava sobre elle. Dous dos seus companheiros cahirão a seus pés estorcendo-se em convulsões horriveis, e soltando gritos que mettião dó e compaixão.

A principio ninguem comprehendeu a causa dessa morte subita e violenta; mas a lembrança do veneno de Pery acudio logo á memoria de alguns e explicou tudo.

Os aventureiros que chegavão guiados por Ayres Gomes apoderárão-se de Loredano, e forão ajoelhar-se confusos e envergonhados aos pés de D. Antonio de Mariz, pedindo-lhe o perdão de sua falta.

O fidalgo tinha assistido a todos esses acontecimentos que se succedião tão rapidamente, sem deixar a sua primeira posição; dir-se-hia que sobre essas paixões humanas que se debatião a seus pés elle plainava como um genio, prestes a vibrar o raio celeste.

--A vossa falta é daquellas que não se perdoão, disse D. Antonio; mas estamos nesse momento extremo em que Deus manda esquecer todas as offensas. Levantai-vos e preparemo-nos todos para morrer como christãos.

Os aventureiros erguêrão-se, e arrastando Loredano para fóra da sala, retirárão-se para o alpendre, com a consciencia alliviada de um grande peso.

A familia pôde então, depois de tantas emoções, gozar um pouco de socego e repouso; apezar da posição desesperada em que se achavão, a reunião dos aventureiros revoltados tinha trazido um fraco vislumbre de esperança.

Só D. Antonio de Mariz não se illudia, e desde aquella manhã tinha conhecido que, quando os Aymorés não o vencessem pelas armas, o vencerião pela fome. Todos os viveres estavão consumidos, e só uma sortida vigorosa podia salvar a familia desse martyrio que a ameaçava, martyrio muito mais cruel do que uma morte violenta.

O fidalgo resolveu esgotar os ultimos recursos antes de confessar-se vencido; queria morrer com a consciencia tranquilla de ter cumprido o seu dever, e de haver feito o que fosse humanamente possivel. Chamou Alvaro e entreteve-se com o moço durante algum tempo em voz baixa; concertavão um meio de realisar essa idéa de que dependia toda a esperança de salvação.

Ao mesmo tempo que isto se passava, os aventureiros reunidos em conselho, julgavão a Frei Angelo di Lucca, e o condemnavão por um voto unanime.

Proferida a sentença, apresentárão-se diversas opiniões sobre o supplicio que devia ser infligido ao culpado; cada um lembrava o genero de morte mais cruel; porém a opinião geral adoptou a fogueira como o castigo consagrado pela inquisição para punir os hereges.

Fincárão no meio do terreiro um alto poste, e o cercárão com uma grande pilha de madeira e outros combustiveis; depois sobre essa pyra ligárão o frade, que soffria todos os insultos e todas as injurias sem proferir uma palavra.

Uma especie de atonia apoderára do italiano desde o momento em que os aventureiros o havião arrastado da sala de D. Antonio de Mariz; elle tinha a consciencia do seu crime, e a certeza de sua condemnação.

Entretanto na occasião em que o atavão á fogueira, um incidente espertou de repente a sensibilidade desse homem embrutecido pela idéa da morte, e pela convicção de que não podia escapar a ella.

Um dos aventureiros, um dos cinco complices da ultima conspiração, chegou-se a Loredano, e tirando-lhe a cinta que prendia o seu gibão, mostrou-a aos seus companheiros. O italiano vendo-se separado do seu thesouro sentio uma dôr muito mais forte do que a que ia soffrer na fogueira; para elle não havia supplicio, não havia martyrio que igualasse a este.

O que o consolava na sua ultima hora era a idéa de que esse segredo que possuia, e do qual não podéra utilisar-se, ia morrer com elle, e ficaria perdido para todos; que ninguem gozaria do thesouro que lhe escapava.

Por isso apenas o aventureiro tirou-lhe a cinta onde guardava o roteiro, soltou um rugido de colera e de raiva impotente; seus olhos injectárão-se de sangue, e seus membros crispando-se ferirão-se contra as cordas que os ligavão ao poste.

Era horrivel de ver nesse momento; seu aspecto tinha a expressão brutal e feroz de um hydrophobo, seus labios espumavão, silvando como a serpente; e seus dentes ameaçavão de longe os seus algozes como as presas do jaguar.

Os aventureiros rirão-se do desespero do frade por ver roubarem-lhe o seu precioso thesouro, e divertirão-se em augmentar-lhe o supplicio, promettendo que apenas livres dos Aymorés farião uma expedição ás minas de prata.

A raiva do italiano redobrou quando Martim Vaz atou a cinta ao corpo, e disse-lhe sorrindo:

--Bem sabeis o proverbio: «O bocado não é para quem o faz.»

VI

TREGOA

Erão oito horas da noite.

Os aventureiros, sentados no terreiro em roda de um pequeno fogo, esperavão tristemente que cozinhassem alguns legumes destinados á magra cêa.

A penuria tinha succedido á abundancia de outr'ora; privados da caça, sua alimentação ordinaria, estavão reduzidos a simples vegetaes. Os seus vinhos e as bebidas fermentadas de que fazião largas libações, tinhão sido envenenadas por Pery, e forão pois obrigados a deita-las fóra, muito felizes ainda por não terem sido victimas dellas.

Loredano fechando a porta da despensa foi que os tinha salvado; apenas dous dos aventureiros que o havião acompanhado tinhão tocado nessas bebidas, e por isso poucas horas depois cahirão mortos, como vimos, na occasião em que ião atacar D. Antonio de Mariz.

Não erão porém essas scenas de luto e a situação critica em que se achavão, que infundião nesses homens sempre alegres e tão galhofeiros aquella tristeza que não lhes era habitual. Morrer com as armas na mão, batendo-se contra o inimigo, era para elles uma cousa natural, uma idéa a que a suavidade aventuras e de perigos os tinha affeito.

O que realmente os entristecia, era não terem uma boa cêa, e um cangirão de vinho diante de si; era o seu estomago que se contrahia por falto de alimento, e que tirava-lhes toda a disposição de rir e de folgar.

A chamma avermelhada da fogueira ás vezes oscillava ao sopro do vento, e estendendo-se pelo terreiro ia illuminar a alguma distancia com o seu frouxo clarão o vulto de Loredano atado ao poste sobre a pyra de lenha.

Os aventureiros tinhão resolvido demorar o supplicio, e dar tempo a que o frade se arrependesse dos seus crimes e se decidisse a morrer como christão, humilde e penitente; por isso deixárão-lhe a noite para reflectir.

Talvez entrasse tambem nessa resolução um requinte de maldade e de vingança; julgando o italiano a verdadeira causa da posição em que estavão collocados, os seus companheiros o odiavão e querião prolongar o seu soffrimento como uma reparação do mal que lhes tinha feito.

Assim, de vez em quando um delles se erguia, e chegando-se ao frade exprobrava-lhe a sua perversidade, e cobria-o de improperios e de injurias. Loredano estorcia-se de raiva, mas não proferia uma palavra, porque seus algozes o tinhão ameaçado de cortar-lhe a lingua.

Ayres Gomes veio chamar os aventureiros da parte de D. Antonio de Mariz; todos se apressárão em obedecer, e pouco depois entrárão na sala onde estava reunida toda a familia.

Tratava-se de uma sortida como fim de procurar viveres que podessem alimentar os habitantes da casa, até que D. Diogo tivesse tempo de chegar com o soccorro que tinha ido procurar. D. Antonio de Mariz reservava dez homens para defender-se; os outros partirião com Alvaro; se fossem felizes, havia ainda uma esperança de salvação; se fossem mal succedidos, uns e outros, os que fossem e os que ficassem morrerião como christãos e portuguezes.

Immediatamente a expedição preparou-se, e favorecida pelo silencio da noite partio e internou-se pela floresta; devia afastar-se sem ser percebida pelos Aymorés, e procurar pelas vizinhanças fazer uma ampla provisão de alimentos.

Durante a primeira hora que succedeu á partida, todos os que ficárão, com o ouvido attento escutavão, temendo ouvir a cada momento o estrondo de tiros que annunciasse um combate entre os aventureiros e os indios. Tudo conservou-se em silencio; e uma esperança, bem que vaga e tenue, veio pousar nesses corações quebrados por tantos soffrimentos e tantas angustias.

A noite passou-se tranquillamente; nada indicava que a casa estivesse cercada por um inimigo tão terrivel como os Aymorés.

D. Antonio admirava-se que os selvagens, depois do ataque da manhã, se conservassem tranquillos no seu campo, e não tivessem investido a habitação uma só vez. Passou-lhe pelo espirito a idéa de que se tivessem retirado com a perda de alguns dos seus principaes guerreiros; mas elle conhecia de ha muito o espirito vingativo e tenacidade dessa raça para admittir semelhante supposição.

Cecilia recostou-se n'um sofá, e alquebrada de fadiga conseguio adormecer apezar das idéas tristes e das inquietações que a agitavão. Isabel, com o coração cerrado por um terrivel presentimento, lembrava-se de Alvaro, e acompanhava-o de longe na sua perigosa expedição, misturando as suas preces com as palavras ardentes do seu amor.

Assim passou-se esta noite; a primeira, depois de tres dias, em que a familia de D. Antonio de Mariz pôde gozar alguns momentos de socego.

De vez em quando o fidalgo chegando á janella via ao longe, perto do rio, brilharem os fogos do campo dos Aymorés, mas uma calma profunda reinava em toda aquella planicie. Nem mesmo se ouvia o écho enfraquecido de uma dessas cantigas monotonas com que os selvagens costumão á noite acompanhar o embalançar de sua rede de palha; apenas o sussurrar do vento nas folhas, a queda da agua sobre as pedras, e o grito do oitibó.

Contemplando a solidão, o fidalgo insensivelmente voltava a essa esperança que ha pouco sorrira, e que o seu espirito tinha repellido como uma simples illusão. Tudo com effeito parecia indicar que os selvagens havião abandonado o seu campo, deixando nelle apenas os fogos que havião servido para esclarecer os seus preparativos de partida.

Para quem conhecia, como D. Antonio, os costumes desses povos barbaros, para quem sabia quanto era activa, agitada, ruidosa essa existencia nomada, o silencio em que estava sepultada a margem do rio era um signal certo de que os Aymorés já alli não estavão.

Comtudo o fidalgo, demasiadamente prudente para se fiar em apparencias, recommendára aos seus homens que redobrassem de vigilancia para evitar alguma surpreza.

Talvez que aquelle socego e aquella serenidade fossem apenas uma dessas calmas sinistras que preludião as grandes tempestades, e durante as quaes os elementos parecem concentrar as suas forças para entrarem nessa luta espantosa, que tem por campo de batalha o espaço e o infinito.

As horas corrêrão silenciosamente; a viuvinha cantou pela primeira vez; e a luz branca da alvorada veio empallidecer as sombras da noite.

Pouco a pouco o dia foi rompendo; o arrebol da manhã desenhou-se no horizonte, tingindo as nuvens com todas as côres do prisma. O primeiro raio do sol, desprendendo-se daquelles vapores tenues e diaphanos, deslisou pelo azul do céo, e foi brincar no cabeço dos montes.

O astro assomou, e torrentes de luz inundárão toda a floresta, que nadava n'um mar de ouro marchetado de brilhantes que scintillavão em cada uma das gotas do orvalho suspensas ás folhas das arvores.

Os habitantes da casa, despertando, admiravão esse espectaculo magnifico do nascer do dia, que depois de tantas tribulações e de tantas augustias, lhes parecia completamente novo.

Uma noite de quietação e socego os tinha como que restituido á vida; nunca esses campos verdes, esse rio puro e limpido, essas arvores florescentes, esses horizontes descortinados se havião mostrado a seus olhos tão bellos, tão risonhos como agora.

É que o prazer e o soffrimento não passão de um contraste; em luta perpetua e continua, elles se acrysolão um no outro, e se depurão; não ha homem verdadeiramente feliz senão aquelle que já conheceu a desgraça.

Cecilia, com a frescura da manhã, tinha-se expandido como uma flôr do campo; suas faces colorirão-se de novo, como se um raio do sol beijando-as lhes tivesse imprimido o seu reflexo roseado; os olhos brilhárão; e os labios entreabrindo-se para aspirarem o ar puro e embalsamado da manhã, arqueárão-se graciosamente quasi sorrindo.

A esperança, esse anjo invisivel, essa doce amiga dos que soffrem, tinha vindo pousar no seu coração, e murmurava-lhe ao ouvido palavras confusas, cantos mysteriosos, que ella não comprehendia, mas que a consolavão e vertião em sua alma um balsamo suave.

Sentia-se em todas as pessoas da casa um quer que seja, uma animação, um começo de bem-estar que revelava uma grande transformação operada na situação da vespera; era mais do que a esperança, menos do que a seguridade.

Só Isabel não partilhava essa impressão geral; como sua prima, ella tambem viera contemplar o raiar do dia; mas fôra para interrogar a natureza, e perguntar ao sol, á luz, ao céo, se as lugubres imagens que tinhão passado e repassado na sua longa vigilia, erão uma realidade ou uma visão.

E cousa singular! Esse sol tão brilhante, essa luz esplendida, esse céo azul, que aos outros reanimára, e que devia inspirar a Isabel o mesmo sentimento, pareceu-lhe ao contrario uma amarga ironia.

Comparou a scena radiante que se apresentava aos seus olhos com o quadro que se desenhava em sua alma; emquanto a natureza sorria, o seu coração chorava. No meio dessa festa esplendida do nascer do dia, a sua dôr, só, isolada, não achava uma sympathia, e repellida pela creação voltava a recalcar-se em seu seio. A moça recostou a cabeça sobre o hombro de sua prima, e escondeu ahi o rosto para não perturbar a doce serenidade que se expandia no semblante de Cecilia.

Entretanto D. Antonio tinha tratado de averiguar se as suas suspeitas da vespera erão reaes; certificou-se de que os selvagens havião abandonado o campo. Ayres Gomes, acompanhado de mestre Nunes, chegou mesmo a sahir da casa, e aproximar-se com todas as cautelas do lugar onde na vespera os Aymorés festejavão o sacrificio de Pery.

Tudo estava deserto; não se vião mais no campo os vasos de barro, as peças de caça suspensas aos galhos da arvore, e as redes grosseiras que indicavão a alta de uma horda selvagem. Não havia já duvida, os Aymorés tinhão partido desde a vespera á noite, depois de enterrarem os seus mortos.

O escudeiro voltou a dar esta noticia ao fidalgo, que recebeu-a menos favoravelmente do que se devia suppôr; ignorava a causa e o fim dessa partida repentina, e desconfiava della.

Não ha que admirar nisto; D. Antonio era um homem prudente e avisado; a sua experiencia de quarenta annos o tinha tornado suspeitoso; por cousa nenhuma queria dar aos seus uma esperança que viesse a frustrar-se.

VII

PELEJA

Quando a familia de D. Antonio de Mariz gozava dos primeiros momentos de tranquillidade que succedião a tantas afflicções, soou um grito na escada de pedra.

Cecilia levantou-se estremecendo de alegria e felicidade; tinha reconhecido a voz de Pery.

No momento em que ia correr ao encontro de seu amigo, mestre Nunes já tinha abaixado uma prancha que servia de ponte levadiça, e Pery chegava á porta da sala.

D. Antonio de Mariz, sua mulher e sua filha ficárão mudos de espanto e terror; Isabel cahio fulminada, como se a vida lhe faltasse de repente.

Pery trazia nos seus hombros o corpo inanimado de Alvaro; e no rosto uma expressão de tristeza profunda. Atravessando a sala, depôz sobre o sofá o seu fardo precioso, e olhando o rosto livido daquelle que fôra seu amigo, enxugou uma lagrima que lhe corria pela face.

Nunhuma das pessoas presentes se animava a quebrar o silencio solemne que envolvia aquella scena lugubre; os aventureiros que havião acompanhado Pery quando passára no meio delles correndo, pararão na porta, tomados de compaixão e respeito por aquella desgraça.

Cecilia nem pôde gozar da alegria de ver Pery salvo; seus olhos apezar dos soffrimentos passados, ainda tinhão lagrimas para chorar essa vida nobre e leal que a morte acabava de ceifar. Quanto a D. Antonio de Mariz, sua dôr era a de um pai que havia perdido um filho, era a dôr muda e concentrada que abala as organisações fortes, sem comtudo abatê-las.

Depois dessa primeira commoção produzida pela chegada de Pery, o fidalgo interrogou o indio e ouvio de sua bocca a narração breve dos acontecimentos, cuja peripecia tinha diante dos olhos.

Eis o que havia passado.