O Guarany: romance brazileiro, Vol. 2 (of 2)

Part 10

Chapter 104,055 wordsPublic domain

Partindo na vespera, no momento em que começava a sentir os primeiros effeitos do veneno terrivel que tomára, Pery ia cumprir a promessa que tinha feito a Cecilia. Ia procurar a vida em um contra-veneno infallivel cuja existencia só era conhecida pelos velhos _payás_ da tribu, e pelas mulheres que os auxiliavão nas suas preparações medicinaes.

Sua mãi, quando elle partira para a primeira guerra lhe tinha revelado esse segredo que devia salva-lo de uma morte certa no caso de ser ferido por alguma setta hervada.

Vendo o desespero de sua senhora, o indio sentio-se com forças de resistir ao torpor do envenenamento que começava a ganhar-lhe o corpo, e ir ao fundo da floresta procurar essa herva poderosa que devia restituir-lhe a saude, o vigor e a existencia.

Comtudo, quando atravessava a matta parecia-lhe ás vezes que já era tarde, que não chegaria a tempo: então tinha medo de morrer longe de sua senhora, sem poder volver para ella o seu ultimo olhar. Arrependia-se quasi de ter partido de casa e não deixar-se ficar aos pés de Cecilia até exhalar o seu ultimo suspiro; mas lembrava-se que a menina o esperava, lembrava-se que ella ainda precisava de sua vida e creava novas forças.

Pery entranhou-se no mais basto e sombrio da floresta, e ahi, na sombra e no silencio passou-se entre elle e a natureza uma scena da vida selvagem, dessa vida primitiva, cuja imagem nos chegou tão incompleta e desfigurada. O dia declinou: veio a tarde, depois a noite, e sob essa abobada espessa em que Pery dormia como em um sanctuario, nem um rumor revelára o que ahi se passou.

Quando o primeiro reflexo do dia purpureou o horizonte, as folhas se abrirão, e Pery exhausto de forças, vacillante, emmagrecido como se acabasse de uma longa enfermidade, sahio do seu retiro.

Mal se podia suster, e para caminhar era obrigado a sustentar-se aos galhos das arvores que encontrava na sua passagem: assim adiantou-se pela floresta, e colheu alguns fructos, que lhe restabelecêrão um tanto as forças.

Chegando á beira do rio, Pery já sentia o vigor que voltava, e o calor que começava a animar-lhe o corpo en torpecido; atirou-se á agua e mergulhou. Quando voltou á margem, era outro homem; uma reacção se havia operado; seus membros tinhão adquirido a elasticidade natural; o sangue gyrava livremente nas veias.

Então tratou de recuperar as forças que havia perdido, e tudo quanto a floresta lhe offerecia de saboroso nutriente servio a esse banquete da vida, em que o selvagem festejava a sua victoria sobre a morte e o veneno.

O sol tinha raiado havia horas; Pery, acabada a sua refeição, caminhava pensativo, quando ouvio uma descarga de armas de fogo, cujo estrondo reboou pelo ambito da floresta.

Lançou-se na direcção dos tiros, e a pouca distancia, n'um claro da matta, descobrio um espectaculo grandioso.

Alvaro e os seus nove companheiros divididos em duas columnas de cinco homens com as costas apoiadas ás costas uns dos outros, estavão cercados por mais de cem Aymorés que se precipitavão sobre elles com um furor selvagem.

Mas as ondas dessa torrente de barbaros que soltavão bramidos espantosos, ião quebrar-se contra essa pequena columna, que não parecia de homens, mas de aço; as espadas jogavão com tanta velocidade que a tornavão impenetravel; no raio de uma braça o inimigo que se adiantava cahia morto.

Havia uma hora que durava esse combate, começado com armas de fogo; mas os Aymorés atacarão com tanta furia, que breve tinhão chegado á luta corpo a corpo e á arma branca.

No momento em que Pery assomava á margem da clareira, um incidente veio modificar a face do combate.

O aventureiro que dava as costas a Alvaro, levado pelo ardor da peleja, adiantou-se, alguns passos para ferir um inimigo; os selvagens o envolvêrão, deixando a columna interrompida e Alvaro sem defeza.

Entretando o valente cavalheiro continuava a fazer prodigios de valor e de coragem; cada volta que descrevia sua espada era um inimigo de menos, uma vida que se extinguia a seus pés n'um rio de sangue. Os selvagens redobravão de furor contra elle, e cada vez o seu braço agil movia-se com mais segurança e mais certeza, fazendo jogar como um raio a lamina de aço que mal se via brillar nas suas rapidas evoluções.

Desde porém que os Aymorés virão o moço sem defeza pelas costas, e exposto aos seus golpes, concentrárão-se nesse ponto; um delles adiantando-se, ergueu com as duas mãos a pesada tagapema e atirou-a ao alto da cabeça de Alvaro.

O moço cahio; mas na sua queda a espada descreveu ainda um semi-circulo e abateu o inimigo que o tinha ferido á traição; a dôr violenta dera a esse ultimo golpe uma força sobrenatural.

Quando os indios ião precipitar-se sobre o cavalheiro, Pery saltou no meio delles, e agarrando a espingarda que estava a seus pés fez delia uma arma terrivel, uma clava formidavel, cujo poder em breve sentirão os Aymorés. Apenas se viu livre do turbilhão dos inimigos o indio tomou Alvaro nos seus hombros, e abrindo caminho com a sua arma temivel, lançou-se pela floresta e desappareceu.

Alguns o seguirão; mas Pery voltou-se e fê-los arrepender-se de sua ousadia; livrando-se do peso que levava, carregou a espingarda com as munições que Alvaro trazia e mandou uma bala áquelle que o perseguia mais de perto; os outros, que o conhecião pelo combate da vespera, retrocedêrão.

A idéa de Pery era salvar Alvaro, não só pela amizade que lhe tinha, como por causa de Cecilia, que elle suppunha amar o cavalheiro; vendo porém que o corpo continuava inanimado, acreditou que Alvaro estava morto. Apezar disto não desistio do seu proposito; morto ou vivo devia leva-lo áquelles que o amavão, ou para o restituirem á vida, ou para derramarem sobre o seu corpo o pranto da despedida.

Quando Pery acabou a sua narração, o fidalgo commovido chegou-se á beira do sofá, e apertando a mão gelada e fria do cavalheiro, disse:

--Até logo, bravo e valente amigo; até logo! A nossa separação é de poucos instantes; breve nos reuniremos na mansão dos justos onde deveis estar, e onde espero que Deus me concederá a graça de entrar.

Cecilia deo á memoria do moço as ultimas lagrimas, e ajoelhando aos pés do moribundo com sua mãi dirigio ao céo uma prece ardente.

D. Lauriana tinha esgotado todos os recursos dessa medicina domestica que no interior das casas substituia a falta dos homens professionaes, muito raros naquella epoca, e sobretudo longe das cidades; o moço não deo porém o menor signal de vida.

D. Antonio de Mariz, que comprehendêra perfeitamente o que devia esperar da pretendida retirada dos Aymorés, mandou que os seus homens se preparassem para a defeza, não que tivesse a menor esperança, mas porque desejava resistir até o ultimo momento.

Pery, depois de ter respondido a todas as perguntas de Cecilia a respeito do modo por que se havia salvado do veneno, sahio da sala e percorreu a esplanada, observando os arredores. O indio infatigavel sempre que se tratava de sua senhora, apenas acabava de uma empreza gigantesca, como a que o tinha levado ao campo dos Aymorés, cuidava já em combinar outro projecto para salvar Cecilia.

Depois do seu exame estrategico, entrou no quarto que havia abandonado na ante-vespera, e no qual encontrou ainda as suas armas, do mesmo modo que as tinha deixado.

Lembrou-se do pedido que fizera a Alvaro, da contradicção do destino que lhe restituía a vida a elle um homem tres vezes morto, e roubava-a ao cavalheiro a quem elle havia deixado são e salvo.

VIII

NOIVA

Uma hora depois dos acontecimentos que acabamos de narrar, Pery, recostado á janella do quarto que tinha pertencido á sua senhora, olhava com uma grande attenção para uma arvore que se elevava a algumas braças de distancia.

Seu olhar parecia estudar as curvas dos galhos retorcidos, medinho-lhe a distancia, a altura e o tamanho, como se disso dependesse a solução de uma grande difficuldade com que lutava o seu espirito. No momento em que estava de todo entregue a esse exame minucioso, o indio sentio uma mão timida e delicada tocar-lhe de leve no hombro.

Voltou-se; era Isabel que estava junto delle, e que se havia aproximado como uma sombra, sem fazer o menor rumor. Uma pallidez mortal cobria as feições da moça, que apenas sahia do seu desmaio; mas o rosto tinha uma calma ou antes uma immobilidade que assustava.

Voltando a si, Isabel correu um olhar pelo aposento, como para certificar-se de que não era um sonho o que havia passado.

A sala estava deserta; D. Antonio de Mariz tinha sahido para dar as suas ordens; sua mulher, ajoelhada no oratorio sobre um montão de ruinas, rezava ao pé de uma cruz que ficára junto ao altar. No fundo do aposento, sobre o sofá, destacava-se o vulto immovel do cavalheiro, aos pés do qual ardia uma vela de cêra, lançando pallidos clarões.

Cecilia é que estava perto della, e apertava no seio a sua cabeça desfallecida, procurando reanima-la.

Quando o olhar de Isabel cahio sobre o corpo de seu amante, ella ergueu-se como impellida por uma força sobrenatural, atravessou rapidamente a sala, e foi por sua vez ajoelhar-se em face desse leito mortuario. Mas não era para fazer uma prece que ajoelhava, era para embeber-se na contemplação desse rosto livido e gelado, desses labios frios, desses olhos extinctos, que ella amava apezar da morte.

Cecilia respeitou a dôr de sua prima, e por um instincto de delicadeza que só possuem as mulheres, comprehendeu que o amor, mesmo em face de um cadaver, tem o seu pudor e a sua castidade; sahio para deixar que Isabel chorasse livremente.

Passado algum tempo depois da sahida de Cecilia, a moça ergueu-se, percorreu automaticamente a casa, e vendo Pery de longe aproximou-se delle o tocou-lhe no hombro.

O indio e a moça se odiavão desde o primeiro dia em que se tinhão visto; em Isabel era o odio de uma raça que a rebaixava a seus proprios olhos; em Pery era essa repugnancia natural que sente o homem por aquelles em quem reconhece um inimigo.

Por isso Pery, vendo Isabel junto delle, ficou extremamente admirado, sobretudo quando reparou no gesto supplicante que a moça lhe dirigia, como se esperasse delle uma graça.

--Pery!...

O indio sentio-se commovido ao aspecto daquelle soffrimento, e pela primeira vez na sua vida dirigio a palavra a Isabel.

--Precisas de Pery? disse elle.

--Vinha pedir-te um serviço. Não m'o negarás, sim? balbuciou a moça.

--Falla; se fôr cousa que Pery possa fazer, elle não te negará.

--Promettes então? exclamou Isabel, cujos olhos brilhárão com uma expressão de alegria.

--Sim, Pery te promette.

--Vem!

Dizendo essa palavra, a moça fez um gesto ao indio e dirigio-se acompanhada por elle á sala que ainda estava deserta como tinha deixado. Parou junto do sofá, e apontando para o corpo inanimado de seu amante, acenou a Pery que o tomasse nos seus braços.

O indio obedeceu, e acompanhou Isabel até um gabinete retirado a um lado da casa; ahi deitou o seu fardo sobre um leito, cujas cortinas a moça entreabrio, corando como uma noiva.

Corava porque o gabinete onde tinha entrado era o quarto em que habitára e encontrava ainda povoado de todos os sonhos de seu amor; porque o leito, que recebia seu amante, era o seu leito de virgem casta e pura; porque ella era realmente uma noiva do tumulo.

Pery, tendo satisfeito o desejo da moça, retirou-se e voltou ao seu trabalho, que elle proseguia com uma constancia infatigavel.

Apenas ficou só, Isabel sorrio; mas o seu sorriso tinha um quer que seja do extasi da dôr, da voluptuosidade do soffrimento, que faz sorrir na sua ultima hora os martyres e os desgraçados.

Tirou do seio a redoma de vidro onde guardava os cabellos de sua mãi e fitou nella um olhar ardente; mas abanou a cabeça com um gesto de expressão indefinivel. Tinha mudado de resolução; o segredo que encerrava essa joia, o pó subtil que empanava a face interior do crystal, a morte que sua mãi lhe confiára não a satisfazia; era muito rapida, quasi instantanea.

Sahio então furtivamente e acendeu uma vela de cêra, que havia sobre a commoda ao lado de um crucifixo de marfim; depois fechou a porta, cerrou as janellas e interceptou as frestas por onde a luz do dia podia penetrar. O gabinete ficou ás escuras; apenas em torno do cirio que ardia, uma aureola pallida se destacava no meio das trevas e illuminava a imagem de Christo.

A moça ajoelhou e fez uma oração breve; pedia a Deus uma ultima graça; pedia a eternidade e a ventura do seu amor, que tinha passado tão rapido pela terra.

Acabando a prece, tomou a luz, deitou-a na cabeceira do leito, afastou o cortinado e começou a contemplar o seu amante com enlevo.

Alvaro parecia adormecido apenas; sua bella physionomia não tinha a menor alteração; a morte imprimindo nos seus traços o descoramento da cêra e do marmore, havia unicamente immobilisado a expressão e feito do gentil cavalheiro um bella estatua.

Isabel interrompeu o enlevo de sua contemplação para chegar-se de novo á commoda, onde se vião algumas conchas de mariscos tintas de nacar que se apanhão nas nossas praias, e uma cesta de palha matizada.

Esta cesta continha todas as resinas aromaticas, todos os perfumes que dão as arvores de nossa terra; o anime da aroeira, as perolas do beijoim, as lagrimas crystallisadas da embaiba, e gotas do balsamo, esse sandalo do Brazil.

A moça deitou na concha a maior parte dos perfumes, e acendeu algumas bagas de beijoim; o oleo de que estavão impregnadas, alimentando a chamma, communicou-a ás outras resinas.

Frocos de fumo alvadio impregnado de perfumes embriagadores se elevarão da caçoula em grossas espiraes, e enchêrão o gabinete de nuvens transparentes que oscillavão á luz pallida do cirio.

Isabel, sentada á beira do leito, com as mãos do seu amante nas suas e com os olhos embebidos naquella imagem querida, balbuciava phrases entrecortadas, confidencias intimas, sons inarticulados, que são a linguagem verdadeira do coração.

Ás vezes sonhava que Alvaro ainda vivia, que lhe murmurava ao ouvido a confissão do seu amor; e ella fallava-lhe como se seu amante a ouvisse, contava-lhe os segredos de sua paixão, vertia toda a sua alma nas palavras que cahião dos labios. Sua mão, delicada afastava os cabellos do moço, descobria a sua fronte, animava a sua face gelada, e roçava aquelles labios frios e mudos como pedindo-lhe um sorriso.

--Porque não me fallas? murmurava ella docemente: Não conheces tua Isabel?... Dize outra vez que me amas! Dize sempre essa palavra, para que minha alma não duvide da felicidade! Eu te supplico!...

E com o ouvido attento, com os labios entreabertos, o seio palpitante, ella esperava o som dessa voz querida e o echo dessa primeira e ultima palavra de seu triste amor.

Mas o silencio só lhe respondia; seu peito aspirava apenas as ondas dos perfumes inebriantes, que fazião circular nas suas veias uma chamma ardente.

O aposento apresentava então um aspecto fantastico: no fundo escuro desenhava-se um circulo esclarecido, envolto por uma nevoa espessa.

Nessa esphera luminosa como no meio de uma visão surgião Alvaro deitado no leito e Isabel reclinada sobre o rosto de seu amante, a quem continuava a fallar, como se elle a escutasse. A menina começava a sentir a respiração faltar-lhe; seu seio oppresso suffocava-a, e entretanto uma voluptuosidade inexprimivel a embriagava: um gozo immenso havia nessa asphyxia de perfumes que se condensavão e rarefazião o ar.

Louca, perdida, hallucinada, ella ergueu-se, seu seio dilatou-se, e sua bocca, entreabrindo-se, collou-se aos labios frios e gelados de seu amante; era o seu primeiro e ultimo beijo; o seu beijo de noiva.

Foi uma agonia lenta, um pesadelo horrivel em que a dôr lutava com o gozo, em que as sensações tinhão um requinte de prazer e de soffrimento ao mesmo tempo; em que a morte, torturando o corpo, vertia na alma effluvios celestes.

De repente pareceu a Isabel que os labios de Alvaro se agitavão, que um tenue suspiro se exhalava de seu peito, ainda ha pouco insensivel como o marmore.

Julgou que se illudia, mais não; Alvaro estava vivo, realmente vivo, suas mãos apertavão as della convulsamente; seus olhos, brilhando com um fogo estranho, se tinhão fitado no rosto da moça: um sopro reanimou seus labios, que exhalárão uma palavra quasi imperceptivel.

--Isabel!...

A moça soltou um grito debil de alegria, de espanto, de medo; entre as idéas confusas que se agitavão na sua cabeça desvairada, lembrou-se com horror que era ella quem matava seu amante, quem o ia sacrificar por causa de um engano fatal. Fazendo um esforço extraordinario, conseguio erguer a cabeça e ia precipitar-se para janella, abri-la e dar entrada ao ar livre; sabia que a morte era inevitavel; mas salvaria Alvaro.

No momento, porém, em que se levantava, sentio as mãos do moço que apertavão as suas, e a obrigárão a reclinar-se sobre o leito; seus olhos encontrárão de novo os olhos de seu amante.

Isabel não tinha mais forças para resistir e realisar seu heroico sacrificio; deixou cahir a cabeça desfallecida, e seus labios se unirão outra vez n'um longo beijo, em que essas duas almas irmãs, confundindo-se n'uma só, voárão ao céo, e forão abrigar-se no seio do Creador.

As nuvens de fumaça e de perfume se condensavão cada vez mais e envolvião como um lençol aquelle grupo original, impossivel de descrever.

Por volta de duas horas da tarde, a porta da gabinete, impellida por um choque violento, abrio-se; e um turbilhão de fumo lançou-se por essa aberta, e quasi suffocou as pessoas que ahi estavão.

Erão Cecilia e Pery.

A menina, inquieta pela longa ausencia de sua prima, soube de Pery que ella estava no seu quarto; mas o indio occultou parte da verdade, e não disse onde deitára o corpo de Alvaro.

Duas vezes Cecilia viera até á porta, escutára e nada ouvira; por fim resolveu-se a bater, a fallar a Isabel, e não teve a menor resposta. Chamou Pery e contou-lhe o que se passava; o indio, tomado de um presentimento metteu o hombro á porta e abrio-a.

Quando a corrente de ar expellio a fumaça do aposento, Cecilia pôde entrar e ver a scena que descrevêmos.

A menina recuou, e respeitando esse mysterio de um amor profundo, fez um gesto a Pery e retirou-se.

O indio fechou de novo a porta e acompanhou sua senhora.

--Ella morreu feliz! disse Pery.

Cecilia fitou nelle os seus grandes olhos azues, e córou.

IX

O CASTIGO

O dia declinava rapidamente e as sombras da noite começavão a estender-se sobre o verde-negro da floresta.

D. Antonio de Mariz, apoiado ao umbral da porta, junto de sua mulher, passava o braço pela cintura de Cecilia. O sol a esconder-se illuminava com o seu reflexo esse grupo de familia, digno do quadro magestoso que lhe servia de baixo-relevo.

O fidalgo, Cecilia e sua mãi, com os olhos no horizonte, recebião esse ultimo raio de despedida, e mandavão o adeus extremo á luz do dia, ás montanhas que os cercavão, ás arvores, aos campos, ao rio, á toda a natureza.

Para elles esse sol era a imagem de sua vida; o occaso era a sua hora derradeira; e as sombras da eternidade se estendião já como as sombras da noite.

Os Aymorés tinhão voltado, depois do combate em que os aventureiros vendêrão caro a sua vida; e cada vez mais sequiosos de vingança, esperavão que anoitecesse para assaltar a casa. Certos desta vez que o inimigo extenuado não resistiria a um ataque violento, tinhão tratado de destruir todos os meios que podessem favorecer a fuga de um só dos brancos.

Isto era facil; além da escada de pedra, o rochedo formava um despenhadeiro por todos os lados; e só a arvore, que lançava os galhos sobre a cabana de Pery, offerecia um ponto de communicação praticavel para quem tivesse a agilidade e a força do indio.

Os selvagens, que não querião que lhes escapasse um só inimigo, e ainda menos que esse fosse Pery, abaterão a arvore, e cortárão assim a unica passagem por onde um homem poderia sahir do rochedo, no momento do ataque.

Ao primeiro golpe do machado de pedra sobre o grosso tronco do oleo, Pery estremeceu, e, saltando sobre a sua clavina, ia despedaçar a cabeça do selvagem; mas sorrio-se, e encostou tranquillamente a arma á parede. Sem inquietar-se com a destruição que fazião os Aymorés, continuou no seu trabalho interrompido, e acabou de torcer uma corda com os filamentos de uma das palmeiras que servião de esteio á sua cabana.

Elle tinha o seu plano: e para realisa-lo, começára por cortar as duas palmeiras e trazê-las para o quarto de Cecilia; depois rachou uma das arvores, e durante toda a manhã occupou-se em tercer essa longa corda, a que dava uma extraordinaria importancia.

Quando Pery terminava a sua obra, ouvio o baque da arvore que tombava sobre o rochedo; chegou-se de novo á janella, e seu rosto exprimio uma satisfação immensa. O oleo, cortado pela raiz, deitára-se sobre o precipicio, elevando a uma grande altura os seus galhos seculares, mais frondosos e mais robustos do que uma arvore nova da floresta.

Os Aymorés, tranquillos por esse lado, continuárão nos seus preparativos para o combate que conta vão dar durante as horas mortas da noite.

Quando o sol desappareceu no horizonte e a que luz do crepúsculo cedeu ás trevas que envolvião a terra, Pery dirigio-se á sala.

Ayres Gomes, sempre infatigavel, guardava a porta do gabinete; D. Antonio de Mariz estava recostado na sua cadeira de espaldar; e Cecilia, sentada sobre os seus joelhos, recusava beber uma taça que seu pai lhe apresentava.

--Bebe, minha Cecilia, dizia o fidalgo; é um cordial que te fará muito bem.

--De que serve, meu pai? Por uma hora, se tanto nos resta a viver, não vale a pena! respondia a menina, sorrindo tristemente.

--Tu te enganas! Ainda não estamos de todo perdidos.

--Tendes alguma esperança? perguntou ella incredula.

--Sim, tenho uma esperança, e esta não me illudirá! respondeu D. Antonio, com um accento profundo.

--Qual? Dizei-me!

--És curiosa? replicou o fidalgo sorrindo. Pois só te direi se fizeres o que te peço.

--Quereis que beba essa taça?

--Sim.

Cecilia tomou a taça das mãos de seu pai, e depois de beber, volveu para elle o seu olhar interrogador.

--A esperança que eu tenho, minha filha, é que nenhum inimigo passará nunca do limiar daquella porta; pódes crer na palavra de teu pai e dormir tranquilla. Deus vela sobre nós.

Beijando a fronte pura da menina, elle ergueu-se, tomou-a nos seus braços, e, recostando-a sobre a poltrona em que estivera sentado, sahio do gabinete e foi examinar o que se passava fóra da casa.

Pery, que tinha assistido a esse dialogo entre o pai e a filha, estava occupado em procurar no gabinete varios objectos de que tinha necessidade apparentemente.

Logo que achou quanto desejava, o indio encaminhou-se para a porta.

--Onde vais? disse Cecilia, que tinha acompanhado todos os seus movimentos.

--Pery volta, senhora.

--E porque nos deixas?

--Porque é preciso.

--Ao menos volta logo. Não devemos morrer todos juntos, da mesma morte?

O indio estremeceu.

--Não; Pery morrerá: mas tu has de viver, senhora.

--Para que viver, depois de ter perdido todos os seus amigos?...

Cecilia, que lia alguns momentos sentia a cabeça vacillar, os olhos cerrarem-se e um somno invencivel apoderar-se della, deixou-se cahir sobre o espaldar da cadeira.

--Não!... Antes morrer como Isabel! murmurou a menina já entorpecida pelo somno.

Um meigo sorriso veio adejar nos seus labios entreabertos, por onde se escapava a respiração doce, branda e igual.

Pery a principio assustou-se com esse somno repentino que não lhe parecia natural e com a pallidez subita de que se cobrirão as feições de Cecilia.

Seus olhos cahirão sobre a taça que estava em cima da mesa; deitou nos labios algumas gotas do liquido que tinhão ficado no fundo e tomou-lhes o sabor: não podia conhecer o que continha; mas satisfez-se em não achar o que receiára.

Repellio a idéa que lhe assaltára o espirito, e lembrou-se que D. Antonio sorria no momento em que pedia a sua filha para beber, e que a sua mão não tremêra apresentando-lhe a taça. Tranquillo a este respeito, o indio, que não tinha tempo a perder, ganhou a esplanada, correu para o quarto que occupava, e desappareceu.