O Guarany: romance brazileiro, Vol. 2 (of 2)

Part 11

Chapter 114,014 wordsPublic domain

A noite já estava fechada, e uma escuridão profunda envolvia a casa e os arredores. Durante esse tempo nenhum acontecimento extraordinario viera modificar a posição desesperada em que se achava a familia; a calma sinistra, que precede as grandes tempestades, plainava sobre a cabeça d'essas victimas que contavão, não as horas, mas os instantes de vida que lhes restavão.

D. Antonio passeava ao longo da sala, com a mesma serenidade dos seus dias tranquillos e placidos de outr'ora; de vez em quando o fidalgo parava na porta do gabinete, lançava um olhar sobre sua mulher que orava e sua filha adormecida; depois continuava o passeio interrompido.

Os aventureiros grupados junto á porta seguião com os olhos o vulto do fidalgo que se perdia no fundo escuro da sala, ou se destacava cheio de vigor e de colorido na esphera luminosa a que cingia a lampada de prata suspensa ao tecto.

Mudos, resignados, nenhum d'esses homens deixava escapar uma queixa, um suspiro que fosse; o exemplo de seu chefe reanimava nelles essa coragem heroica do soldado que morre por uma causa santa.

Antes de obedecerem á ordem de D. Antonio de Mariz, elles tinhão executado a sua sentença proferida contra Loredano; e quem passasse então sobre a esplanada veria em torno do poste, em que estava atado o frade, uma lingua vermelha que lambia a fogueira, enroscando-se pelos toros de lenha.

O italiano sentia já o fogo que se aproximava e a fumaça, que, ennovelando-se, envolvia-o n'uma nevoa espessa: é impossivel descrever a raiva, a colera e o furor que se apossárão d'elle n'esses momentos que precedêrão o supplicio.

Mas voltemos á sala em que se achavão reunidos os principaes personagens d'essa historia, e onde se vão passar as scenas talvez mais importantes do drama.

A calma profunda que reinava n'essa solidão não tinha sido perturbada; tudo estava em silencio; e as trevas espessas da noite não deixavão perceber os objectos a alguns passos de distancia.

De repente listras de fogo atravessárão o ar, e se abatêrão sobre o edificio; erão as settas inflammadas dos selvagens que annunciavão o começo do ataque; durante alguns minutos foi como uma chuva de fogo, uma cascata de chammas que cahio sobre a casa.

Os aventureiros estremecêrão; D. Antonio sorrio.

--É chegado o momento, meus amigos. Temos uma hora de vida; preparai-vos para morrer como christãos e portuguezes. Abri as portas para que possamos ver o céo.

O fidalgo dizia que lhe restava uma hora de vida, porque, tendo destruido o resto da escada de pedra, os selvagens não podião subir ao rochedo senão escalando-o; e por maior que fosse a sua habilidade, não era possivel que consumissem n'isso menos tempo.

Quando os aventureiros abrirão as portas, um vulto resvalou na sombra, e entrou na sala.

Era Pery.

X

CHRISTÃO

O indio dirigio-se rapidamente a D. Antonio de Mariz.

--Pery quer salvar a senhora.

O fidalgo abanou a cabeça em signal de duvida.

--Escuta! replicou o indio.

Aproximando os labios do ouvido de D. Antonio, fallou-lhe por algum tempo em voz baixa, e n'um tom rapido e decisivo.

--Tudo está preparado: parte, desce o rio; quando a lua estender o seu arco chegarás á tribu dos Goytacazes. A mãi de Pery te conhece: cem guerreiros te acompanharão á grande taba dos brancos.

D. Antonio de Mariz ouvio em profundo silencio as palavras do indio; e quando elle terminou, apertou-lhe a mão com reconhecimento.

--Não, Pery: o que me propões é impossivel. D. Antonio de Mariz não pode abandonar a sua casa, a sua familia e os seus amigos no momento do perigo, ainda mesmo para salvar aquillo que elle mais ama n'este mundo. Um fidalgo portuguez não pode fugir diante do inimigo, qualquer que elle seja; morre vingando a sua morte.

Pery fez um gesto de desespero.

--Assim tu não queres salvar a senhora?

--Não posso, respondeu o cavalheiro; o meu dever manda que fique, e partilhe a sorte de meus companheiros.

O indio no seu fanatismo não comprehendia que houvesse uma razão capaz de sacrificar a vida de Cecilia, que para elle era sagrada.

--Pery pensou que tu amasses a senhora! disse elle fôra de si.

D. Antonio olhou-o com uma expressão de dignidade e nobreza.

--Perdôo-te a offensa que me fizeste, amigo; porque é ainda uma prova de tua grande dedicação. Mas acredita-me; se fosse preciso que eu me votasse só ao sacrificio barbaro dos selvagens para salvar minha filha, eu o faria sorrindo.

--E porque recusas o que Pery te pede?

--Porque?... Porque o que tu pedes não é um sacrificio, é uma vergonha; é uma traição. Tu abandonarias tua mulher, teus companheiros, para salvar-te do inimigo, Pery?...

O indio abaixou a cabeça com abatimento.

--Demais, essa empreza demanda forças com que um velho como eu já não póde contar. Havia duas pessoas que a poderião realisar.

--Quem? perguntou Pery com um raio de esperança.

--Uma era meu filho, que a esta hora esta bem longe d'aqui; a outra deixou-nos esta manhã e nos espera; era Alvaro.

--Pery fez pela senhora o que podia; tu não queres salva-la; Pery vai morrer a seus pés.

Morrer? disse o fidalgo. Quando tens a liberdade e a vida á tua disposição? E julgas que consentirei nisto?... Nunca! Vai, Pery; conserva a lembrança de teus amigos; a nossa alma te acompanhará na terra. Adeus. Parte: o tempo urge.

O indio ergueu a cabeça com um gesto soberbo de indignação.

--Pery arriscou bastantes vezes a sua vida por ti, para ter o direito de morrer comtigo; tu não pódes abandonar teus companheiros; o escravo não póde abandonar sua senhora.

--És injusto, amigo; exprimi um desejo, não quiz arrogar-te uma injuria. Se exiges uma parte do sacrificio, esta te pertence, e tu és digno d'ella; fica.

Um grito dos selvagens retroou nos ares.

D. Antonio, fazendo um gesto aos aventureiros, encaminhou-se para o gabinete.

Cecilia, adormecida sobre a cadeira de espaldar, sorria como se algum sonho alegre a embalasse no seu somno tranquillo; o rosto um pouco pallido, moldurado pelas tranças louras de seus cabellos, tinha a expressão suave da innocencia feliz.

O fidalgo, contemplando sua filha, sentio uma dôr pungente e quasi arrependeu-se de não ter aceitado o offerecimento de Pery, e de não tentar ao menos esse ultimo esforço para defender aquella vida que apenas começava a expandir-se.

Mas podia elle mentir ao seu passado e faltar ao dever imperioso que o obrigava a morrer no seu posto? Podia trahir na sua ultima hora aquelles que havião partilhado a sua sorte?

Tal era o sentimento de honra naquelles antigos cavalheiros, que D. Antonio nem um momento admittio a idéa de fugir para salvar sua filha; se houvesse outro meio, de certo o receberia como um favor do céo; mas aquelle era impossivel.

Emquanto o espirito do fidalgo se debatia nessa luta cruel, Pery, de pé junto de Cecilia, parecia querer ainda protegê-la contra a morte inevitavel que a ameaçava. Dir-se-hia que o indio esperava algum soccorro imprevisto, algum milagre que salvasse sua senhora; e que aguardava o momento de fazer por ella tudo quanto fosse possivel ao homem.

D. Antonio, vendo a resolução que se pintava no rosto do selvagem, tornou-se ainda mais pensativo; quando passado esse momento de reflexão, ergueu a cabeça, seus olhos brilhavão com un raio de esperança.

Atravessou o espaço que o separava de sua filha, e, tomando a mão de Pery, disse-lhe com uma voz profunda e solemne:

--Se tu fosses christão, Pery!...

O indio voltou-se extremamente admirado daquellas palavras.

--Porque?... perguntou elle.

--Porque?... disse lentamente o fidalgo. Porque se tu fosses christão, eu te confiaria a salvação de minha Cecilia, estou convencido de que a levarias ao Rio de Janeiro, á minha irmã.

O rosto do selvagem illuminou-se; seu peito arquejou de felicidade; seus labios tremulos mal podião articular o turbilhão de palavras que lhe vinhão do intimo d'alma.

--Pery quer ser christão! exclamou elle.

D. Antonio lançou-lhe um olhar humido de reconhecimento.

--A nossa religião permitte, disse o fidalgo, que na hora extrema todo o homem possa dar o baptismo. Nós estamos com o pé sobre o tumulo. Ajoelha, Pery!

O indio cahio aos pés do velho cavalheiro, que impoz-lhe as mãos sobre a cabeça.

--Sê christão! Dou-te o meu nome.

Pery beijou a cruz da espada que o fidalgo lhe apresentou, e ergueu-se altivo e sobranceiro, prompto a affrontar todos os perigos para salvar sua senhora.

--Escuso exigir de ti a promessa de respeitares e defenderes minha filha. Conheço a tua alma nobre, conheço o teu heroismo e a tua sublime dedicação por Cecilia. Mas quero que me faças um outro juramento.

--Qual? Pery está prompto para tudo.

Jura que, se não poderes salvar minha filha, ella não cahirá nas mãos do inimigo?

--Pery te jura que elle levará a senhora a tua irmã; e que se o senhor do céo não deixar que Pery cumpra a sua promessa, nenhum inimigo tocará em tua filha; ainda que para isso seja preciso queimar uma floresta inteira.

--Bem; estou tranquillo. Ponho minha Cecilia sob tua guarda: e morro satisfeito. Podes partir.

--Manda fechar todas as portas.

Os aventureiros obedecêrão á ordem do fidalgo; todas as portas se fechárão; o indio empregava este meio para ganhar tempo.

Os gritos e bramidos dos selvagens, que continuavão com algumas interrupções, forão-se aproximando da casa; conhecia-se que escalavão o rochedo nesse momento.

Alguns minutos se passárão n'uma anciedade cruel. D. Antonio de Mariz depositou um ultimo beijo na fronte de sua filha; D. Lauriana apertou ao seio a cabeça adormecida da menina e envolveu-a n'uma manta de seda.

Pery, com o ouvido attento, o olhar fito na porta, esperava. Ligeiramente apoiado sobre o espaldar da cadeira ás vezes estremecia de impaciencia e batia com o pé sobre o pavimento da sala.

De repente, um grande clamor soou em tomo da casa; as chammas lambêrão com as suas linguas de fogo as frestas das portas e janellas: o edificio tremeu desde os alicerces com o embate da tromba de selvagens que se lançava furiosa no meio do incendio.

Pery, apenas ouvio o primeiro grito, reclinou sobre a cadeira e tomou Cecilia nos braços; quando o estrondo soou na porta larga do salão, o indio já tinha desapparecido.

Apezar da escuridão profunda que reinava em todo o interior da casa, Pery não hesitou um momento; caminhou direita ao quarto onde habitára sua senhora e subio á janella.

Uma das palmeiras da cabana estendia-se por cima do precipicio e apoiava-se a trinta palmos de distancia sobre um dos galhos da arvore que os Aymorés tinhão abatido durante o dia para tirarem aos habitantes da casa a menor esperança de fuga.

Pery apertando Cecilia nos braços, firmou o pé sobre essa ponte fragil, cuja faça convexa tinha quando muito algumas pollegadas de largura.

Quem lançasse os olhos nesse momento para aquella banda da esplanada veria ao pallido clarão do incendio deslisar-se lentamente por cima do precipicio o vulto hirto, como um dos fantasmas que, segundo a crença popular, atravessavão á meia noite as velhas amêas de algum castello em ruinas.

A palmeira oscillava, e Pery, embalançando-se sobre o abysmo, adiantava-se vagarosamente para a encosta opposta. Os gritos dos selvagens repercutião nos ares de envolta com o estrepito dos _tacapes_ que abalavão as porta da sala e as paredes do edificio.

Sem se inquetar com a scena tumultuosa que deixava após si, o indio ganhou a encosta opposta, e segurando com uma mão nos galho da arvore, conseguio tocar a terra sem o menor accidente.

Então, fazendo uma volta para não aproximar-se do campo dos Aymorés, dirigio-se á margem do rio; ahi estava escondida entre as folhas a pequena canoa que servia outr'ora para os habitantes da casa atravessarem o _Paquequer_.

Durante a ausencia de uma hora que Pery tinha feito, quando deixára Cecilia adormecida, elle havia tudo preparado para essa empreza arriscada que devia salvar sua senhora.

Graças á sua actividade espantosa, armou com o auxilio da corda a ponte pensil sobre o precipicio, correu ao rio, amarrou a canôa no lugar que lhe pareceu mais propicio, e em duas viagens levou a esse barquinho, que ia servir de morada a Cecilia durante alguns dias, tudo quanto a menina podia carecer.

Erão roupas, uma colcha de damasco com que se poderia arranjar um leito, alguns alimentos que restavão na casa; lembrou-se até que D. Antonio devia ter necessidade de dinheiro logo que chegasse ao Rio de Janeiro, porque Pery contava que o fidalgo não duvidaria salvar sua filha.

Chegando á beira do rio, o indio deitou sua senhora no fundo da canôa, como uma menina no seu berço, envolveu-a na manta de seda para abrita-la do orvalho da noite, e tomando o remo, fez a canôa saltar como um peixe sobre as aguas.

A algumas braças de distancia, por entre uma aberta da floresta, Pery viu sobre o rochedo a casa illuminada pelas chammas do incendio, que começava a lavrar com alguma intensidade.

De repente uma scena fantastica, terrivel, passou, diante de seus olhos, como uma dessas visões rapidas que brilhão e se apagão de repente no delirio da imaginação.

A frente da casa estava ás escuras; o fogo ganhára as outras faces do edificio e o vento o lançava para o fundo. Pery do primeiro olhar tinha visto os vultos dos Aymorés a se moverem nas sombras; e a figura horrivel e medonha de Loredano, erguendo-se como um espectro no meio das chammas que o devoravão.

De repente a fachada do edificio tombou sobre a esplanada esmagando na sua queda um grande numero de selvagens.

Foi então que o quadro fantastico se desenhou aos olhos de Pery.

A sala era um mar de fogo; os vultos que se movião nessa esphera luminosa parecião nadar em vagas de chammas.

No fundo destacava-se o vulto magestoso de D. Antonio de Mariz, de pé no meio do gabinete, elevando com a mão esquerda uma imagem de Christo e com a direita abaixando a pistola para a cava escura onde dormia o volcão.

Sua mulher abraçava os seus joelhos calma e resignada; Ayres Gomes e os poucos aventureiros que restavão, immoveis e ajoelhados a seus pés, formavão o baixo-relevo dessa estatua digna de um grande cinzel.

Sobre o montão de ruinas formado pela parede que desmoronára, desenhavão-se as figuras sinistras dos selvagens, semelhantes a espiritos diabolicos dansando nas chammas infernaes.

Tudo isso, Pery viu de um só relance d'olhos; como um painel vivo illuminado um momento pelo clarão instantaneo do relampago.

Um estampido horrivel reboou por toda aquella solidão: aterra tremeu, as aguas do rio se encapellárão como batidas pelo tufão. As trevas envolvêrão o rochedo ha pouco esclarecido pelas chammas, e tudo entrou de novo no silencio profundo da noite.

Um soluço partio o peito de Pery, talvez a unica testemunha dessa grande catastrophe.

Dominando a sua dôr, o indio vergou sobre o remo, e a canôa voou pela face lisa e polida do _Paquequer_.

XI

EPILOGO

Quando o sol, erguendo-se no horizonte, illuminou os campos um montão de ruinas cobria as margens do _Paquequer_.

Grandes lascas de rochedos, talhadas de um golpe e semeadas pelo campo, paredão ter saltado do malho gigantesco de Novos Cyclopes.

A eminencia sobre a qual estava situada a casa tinha desapparecido, e no seu lugar via-se apenas uma larga fenda semelhante á cratera de algum volcão subterraneo.

As arvores arrancadas dos seus alveolos, a terra revolta, a cinza ennegrecida que cobria a floresta, annunciavão que por ahi tinha passado algum desses cataclysmas que deixão após si a morte e a destruição.

Aqui e alli por entre os comoros das ruinas apparecia alguma india, resto da tribu dos Aymorés, que tinha ficado para chorar a morte dos seus, e levar ás outras tribus a noticia dessa tremenda vingança.

Quem plainasse nesse momento sobre aquella solidão, e lançasse os olhos pelos vastos horizontes que se abrião em torno, se a vista podesse devassar a distancia de muitas leguas, veria ao longe, na larga esteira do Parahyba, passar rapidamente uma forma vaga e indecisa.

Era a canoa de Pery, que impellida pelo remo e pela viração da manhã corria com uma velocidade espantosa semelhando uma sombra a fugir das primeiras claridades do dia.

Toda a noite o indio tinha remado sem descansar um momento; não ignorava que D. Antonio de Mariz na sua terrivel vingança havia exterminado a tribu dos Aymorés, mas desejava apartar-se do theatro da catastrophe, e aproximar-se dos seus campos nativos.

Não era o sentimento da patria, sempre tão poderoso no coração do homem; não era o desejo de ver sua cabana reclinada á beira do rio, e abraçar sua mãi e seus irmãos, que dominava sua alma nesse momento e lhe dava esse ardor.

Era sim a idéa de que ia salvar sua senhora e cumprir o juramento que tinha feita ao velho fidalgo; era o sentimento de orgulho que se apoderava delle, pensando que bastava a sua coragem e a sua força para vencer todos os obstaculos, e realisar a missão de que se havia encarregado.

Quando o sol, no meio de sua carreira, lançava torrentes de luz sobre esse vasto deserto, Pery sentio que era tempo de abrigar Cecilia dos raios abrazadores, e fez a canôa abicar á beira do rio na sombra de uma ramagem de arvores.

A menina envolta na sua manta de seda com a cabeça apoiada sobre a prôa do barquinho dormia ainda o mesmo somno tranquillo da vespera; as côres tinhão voltado, e sob a alvura transparente de sua pelle alva brilhavão esses tons côr de rosa, esse colorido suave, que só a natureza, artista sublime, sabe crear.

Pery tomou a canôa nos seus braços, como se fôra um berço mimoso, e deitou-a sobre a relva que cobria a margem do rio; depois sentou-se ao lado, e com os olhos fitos em Cecilia, esperou que ella sahisse desse somno prolongado que começava a inquieta-lo.

Tremia lembrando-se da dôr que sua senhora ia sentir quando soubesse a desgraça de que elle fôra testemunha na vespera; e não se achava com forças de responder ao primeiro olhar de surpreza que a menina lançaria em torno de si logo que despertasse no meio do deserto.

Emquanto durou o somno, Pery, com o braço apoiado á borda da canôa e o corpo reclinado sobre o rosto da menina, esperando com anciedade o momento que elle desejava e temia ao mesmo tempo, velava sobre Cecilia com um cuidado e uma solicitude admiravel.

A mãi mais extremosa não se desvelaria tanto por seu filho, como esse amigo dedicado por sua senhora; uma restea de sol que, enfiando-se pelas folhas, vinha brincar no rosto da menina, um passarinho que cantava sobre um ramo do arbusto, um insecto que saltava na relva, tudo elle afastava para não perturbar o seu repouso.

Cada minuto que passava era uma nova inquietação para elle; porém era tambem um instante mais de socego e de tranquillidade que a menina gozava, antes de saber a desgraça que pesava sobre ella, e que a privára de sua familia.

Um longo suspiro elevou o seio de Cecilia; seus lindos olhos azues se abrirão e cerrarão, deslumbrados pela claridade do dia; ella passou a mão delicada pelas palpebras rosadas, como para afugentar o somno, e seu olhar limpido e suave foi pousar no rosto de Pery. Soltou um gritozinho de prazer, e sentando-se com vivacidade, lançou um olhar de surpreza e admiração em torno da especie de pavilhão de folhagem que a cercava; parecia interrogar as arvores, o rio, o céo; mas tudo emmudecia.

Pery não se animava a pronunciar uma palavra, via o que se passava n'alma de sua senhora, e não tinha a coragem de dizer a primeira letra do enigma que ella não tardaria a comprehender.

Por fim, a menina, baixando a vista para ver onde estava, descobrio a canôa, e lançando um volver rapido para o vasto leito do Parahyba que se espreguiçava indolentemente pela floresta, ficou branca como a cambraia do seu roupão.

Voltou-se para o indio com os olhos extremamente dilatados, os labios tremulos, a respiração presa, o seio offegante, e supplicando com as mãozinhas juntas:

--Meu pai!... meu pai!... exclamou soluçando.

O selvagem deixou cahir a cabeça sobre o peito e escondeu o rosto nas mãos.

--Morto!... Minha mãi tambem morta!... Todos mortos!...

Vencida pela dôr, a menina apertou convulsamente o seio que lhe estalava com os soluços, e reclinando-se como o calice delicado de uma flôr que a noite enchêra de orvalho, desfez-se em lagrimas.

--Pery só podia salvar a ti, senhora! murmurou o indio tristemente.

Cecilia ergueu a cabeça altiva.

--Porque não me deixaste morrer com os meus?... exclamou ella n'uma exaltação febril. Pedi-te eu que me salvasses? Precisava de teus serviços?...

Seu rosto tomou uma expressão de energia extraordinaria.

--Tu vais me levar ao lugar onde descansa o corpo de meu pai. É ahi que deve estar sua filha... Depois partirás!... Não careço de ti.

Pery estremeceu.

--Escuta, senhora... balbuciou elle em tom submisso.

A menina lançou-lhe um olhar tão imperioso, tão soberano, que o indio emmudeceu, e voltando o rosto escondeu as lagrimas que lhe molhavão as faces.

Cecilia caminhou até á beira do rio, e com os olhos estendidos pelo horizonte, que ella suppunha occultar o lugar em que habitára, ajoelhou e fez uma oração longa e ardente.

Quando ergueu-se, estava mais calma: a dôr tinha-se repassado do consolo sublime da religião, dessa doçura e suavidade que infiltra no coração a esperança de uma vida celeste, que reune aquelles que se amárão na terra.

Ella pôde então reflectir sobre o que se tinha passado na vespera; e procurou lembrar-se das circumstancias que havião precedido á morte de sua familia. Todas as suas recordações, porém, chegavão unicamente até o momento em que, já meia adormecida, fallava a Pery, e dizia essa palavra ingénua e innocente que lhe escapára do intimo d'alma.

--Antes morrer como Isabel!

Lembrando-se dessa palavra, córou; e vendo-se só no deserto com Pery, sentio uma inquietação vaga e indefinida, um sentimento de temor e de receio, cuja causa não sabia explicar.

Seria essa desconfiança subita proveniente da colera que ella sentira, porque o indio salvára a sua vida, e a arrancára da desgraça que tinha destruido toda a sua familia?

Não; não era essa a causa: ao contrario Cecilia conhecia que fôra injusta para com seu amigo que tinha talvez feito impossiveis por ella; e a não ser o receio instinctivo que se apoderára involuntariamente de sua alma, já o teria chamado para pedir-lhe perdão daquellas palavras duras e crueis.

A menina ergueu os olhos timidos e encontrou o olhar triste e supplice de Pery: não pôde resistir; esqueceu os seus receios, e um tenue sorriso fugio-lhe pelos labios.

--Pery!...

--O indio estremeceu, mas desta vez de alegria e de contentamento: veio cahir aos pés de sua senhora, que elle encontrava de novo boa como sempre tinha sido.

--Perdoa a Pery, senhora!

--És tu que me deves perdoar, porque te fiz soffrer; não é verdade? Mas bem sabes!... Não podia abandonar meu pobre pai!

--Foi elle que mandou a Pery que te salvasse! disse o indio.

--Como?... exclamou a menina. Conta-me, meu amigo.

O indio fez a narração da scena da noite antecedente desde que Cecilia tinha adormecido até o momento em que a casa saltára com a explosão, restando delia apenas um montão de ruinas.

Contou que elle tinha preparado tudo para que D. Antonio de Mariz fugissse, salvando Cecilia; mas que o fidalgo recusára, dizendo que a sua lealdade e a sua honra mandavão que morresse no seu posto.

--Meu nobre pai! murmurou a menina enxugando as lagrimas.

Houve um instante de silencio, depois do qual Pery concluio a sua narração, e referio como D. Antonio de Mariz o tinha baptisado, e lhe havia confiado a salvação de sua filha.

--Tu és christão, Pery?... exclamou a menina, cujos olhos brilhárão com uma alegria ineffavel.

--Sim; teu pai disse: «Pery; tu és christão; dou-te o meu nome!»

--Obrigado, meu Deus, disse a menina juntando as mãos e erguendo os olhos ao céo.

Depois, envergonhada desse movimento espontaneo, escondeu o rosto: o rubor que cobrio as suas faces tingio de longes côr de rosa as linhas puras do collo assetinado.

Pery ergueu-se e foi colher alguns fructos delicados que servirão de refeição á sua senhora.