O Guarany: romance brazileiro, Vol. 2 (of 2)
Part 12
O sol tinha quebrado a sua força, era tempo de continuar a viagem e aproveitar a frescura da tarde para vencer a distancia que os separava do campo dos Goytacazes.
O indio chegou-se tremulo para a menina:
--Que queres tu que Pery faça, senhora?
--Não sei; respondeu Cecilia indecisa.
--Não queres que Pery te leve á taba dos brancos?
--É a vontade de meu pai?... Deves cumpri-la.
--Pery prometteu a D. Antonio levar-te a sua irmã.
O indio fez a canôa boiar sobre as aguas do rio, e quando tomou a menina nos seus braços para deita-la no barquinho, ella sentio pela primeira vez na sua vida que o coração de Pery palpitava sobre o seu seio.
A tarde estava soberba; os raios do sol no occaso, filtrando por entre as folhas das arvores, douravão as flôres alvas que crescião pela beira do rio.
As rolas começavão a soltar os seus arrulhos no fundo da floresta; e a brisa, que passava ainda tepida das exhalações da terra, vinha impregnada de aromas silvestres.
A canôa resvalou pela flôr d'agua, como uma garça ligeira levada pela correnteza do rio.
Pery remava sentado na prôa.
Cecilia, deitada no fundo, meio apoiada sobre uma alcatifa de folhas que Pery tinha arranjado, engolfava-se nos seus pensamentos, e aspirava as emanações suaves e perfumadas das plantas, e a frescura do ar e das aguas.
Quando seus olhos encontravão os de Pery, os longos cilios descião occultando um momento o seu olhar doce e triste.
A noite estava serena.
A canôa, vogando sobre as aguas do rio, abria essas flôres de espuma, que brilhão um momento á luz das estrellas, e se desfazem como o sorriso da mulher.
A brisa tinha escasseado; e a natureza adormecida respirava a calma tepida e perfumada das noites americanas, tão cheias de enlevo e encanto.
A viagem fora silenciosa; essas duas creaturas abandonadas no meio do deserto, sós em face da natureza, emmudecião, como se temessem despertar o echo profundo da solidão.
Cecilia repassava na memoria toda a sua vida innocente e tranquilla, cujo fio dourado tinha-se rompido de uma maneira tão cruel; mas era sobretudo o ultimo anno dessa existencia, desde o dia do apparecimento imprevisto de Pery, que se desenhava na sua imaginação.
Porque interrogava ella assim os dias que tinha vivido no remanso da felicidade? Porque o seu espirito voltava ao passado, e procurava ligar todos esses factos a que na descuidosa ingenuidade dos primeiros annos dera tão pouco apreço?
Ella mesma não saberia explicar as emoções que sentia; sua alma innocente e ignorante tinha-se illuminado com uma subita revelação: novos horizontes se abrião aos sonhos castos de seu pensamento.
Volvendo ao passado admirava-se de sua existencia, como os olhos se deslumbrão com a claridadade depois de um somno profundo; não se reconhecia na imagem do que fôra outr'ora, na menina isenta e travessa.
Toda a sua vida estava mudada; a desgraça tinha operado essa revolução repentina, e um outro sentimento ainda confuso ia talvez completar a transformação mysteriosa da mulher.
Em torno della tudo se resentia dessa mudança; as côres tinhão tons harmoniosos, o ar perfumes inebriantes, a luz reflexos avelludados, que seus sentidos não conhecião.
Uma flôr que antes era para ella apenas uma bella fórma, parecia-lhe agora uma creatura que sentia e palpitava; a brisa que outr'ora passava como um simples bafejo das auras, murmurava ao seu ouvido nesse momento melodias ineffaveis, notas mysticas que resoavão no seu coração.
Pery, julgando sua senhora adormecida, remava docemente para não perturbar o seu repouso; a fadiga começava a vencê-lo; apezar de sua coragem indomavel e de sua vontade poderosa, as forças estavão exhaustas.
Apenas vencedor da luta terrivel que travára com o veneno, tinha começado a empreza quasi impossivel da salvação de sua senhora; havia tres dias que seus olhos não se cerravão, que seu espirito não repousava um instante.
Tudo quanto a natureza permittia á intelligencia e ao poder do homem, elle tinha feito; e comtudo não era a fadiga do corpo que o vencia, erão sim as emoções violentas por que passára durante esse tempo.
O que elle tinha sentido quando plainava sobre o abysmo, e que a vida de sua senhora dependia de um passo falso, de uma oscillação da haste fragil que lhe servia de ponte pensil, ninguem comprehenderia.
O que soffreu quando Cecilia no seu desespero pela morte de seu pai o accusava por tê-la salvado, e lhe dava ordem de leva-la ao lugar onde repousavão as cinzas do velho fidalgo, é impossivel de descrever.
Forão horas de martyrio, de soffrimento horrivel, em que sua alma succumbiria, se não achasse na sua vontade inflexivel e na sua dedicação sublime um conforto para a dôr, e um estimulo para triumphar de todos os obstaculos.
Erão essas emoções que o vencião, e ainda depois de vencidas, elle conheceu que seus musculos de aço, escravos submissos que obedecião ao seu menor desejo, se destendião como a corda do arco depois do combate. Lembrou-se que sua senhora precisava delle e que devia aproveitar esses momentos em que ella repousava para pedir ao somno novo vigor e novas forças.
Ganhou o meio do rio, e escolhendo um lugar onde não chegava nem um galho das arvores que crescião nas ribanceiras, amarrou a canôa nos nenuphares que boiavão á tona d'agua.
Tudo estava quieto; a terra ficava a uma distancia de muitas braças; portanto podia sua senhora dormir sem perigo sobre esse chão prateado, debaixo da abobada azul do céo; as ondinhas a embalarião no seu berço, as estrellas vigiarião o seu somno.
Livre de inquietação, Pery encostou a cabeça na borda da canôa; um momento depois suas palpebras entorpecidas cerrárão-se a pouco e pouco; seu ultimo olhar, esse olhar vago e incerto que adeja na pupilla já meio adormecida, viu desenhar-se na sombra uma forma alva e graciosa que se reclinava docemente para elle.
Não era um sonho, essa linda visão. Cecilia sentindo a canôa immovel despertou das suas recordações; sentou-se, e debruçando-se um pouco viu que seu amigo dormia, e accusou-se por não ter ha mais tempo exigido delle esse instante de repouso.
O primeiro sentimento que se apoderou da menina, vendo-se só, foi o terror solemne e respeitoso que infunde a solidão no meio do deserto, nas horas mortas da noite.
O silencio parece fallar; as sombras se povoão de seres invisiveis; os objectos, na sua immobilidade, como que oscillão pelo espaço.
E ao mesmo tempo o nada com o seu vacuo profundo, immenso, infinito; e o chãos com a sua confusão, as suas trevas, as suas formas increadas; a alma sente que falta-lhe a vida ou a luz em torno.
Cecilia recebeu essa impressão com um temor religioso; mas não se deixou dominar pelo susto; a desgraça a habituára ao perigo; e a confiança que tinha no seu companheiro era tanta, que mesmo dormindo parecia-lhe que Pery velava sobre ella.
Contemplando essa cabeça adormecida, a menina admirou-se da belleza inculta dos traços, da correcção das linhas do perfil altivo, da expressão de força e intelligencia que animava aquelle busto selvagem moldado pela natureza.
Como era que até então ella não tinha percebido naquelle aspecto senão um rosto amigo? Como seus olhos tinhão passado sem ver sobre essas feições talhadas com tanta energia?
Era que a revelação physica que acabava de illuminar o seu olhar, não era senão o resultado dessa outra revelação moral que esclarecêra o seu espirito; dantes via com os olhos do corpo, agora via com os olhos da alma.
Pery, que durante um anno não fôra para ella senão um amigo dedicado, apparecia-lhe de repente como um heróe; no seio de sua familia estimava-o, no meio dessa solidão admirava-o.
Como os quadros dos grandes pintores que precisão de luz, de um fundo brilhante, e de uma moldura simples, para mostrarem a perfeição de seu colorido e a pureza de suas linhas, o selvagem precisava do deserto para revelar-se em todo o esplendor de sua belleza primitiva.
No meio de homens civilisados, era um indio ignorante, nascido de uma raça barbara, a quem a civilisação repellia, e marcava o lugar de captivo. Embora para Cecilia e D. Antonio fosse um amigo, era apenas um amigo escravo.
Aqui, porém, todas as distincções desapparecião; o filho das mattas, voltando ao seio de sua mãi, recobrava a liberdade; era o rei do deserto, o senhor das florestas, dominando pelo direito da força e da coragem.
As altas montanhas, as nuvens, as catadupas, os grandes rios, as arvores seculares, servião de throno, de docel, de manto e sceptro a esse monarca das selvas cercado de toda a magestade e de todo o esplendor da natureza.
Que effusão de reconhecimento e de admiração não havia no olhar de Cecilia! Era nesse momento que ella comprehendia toda a abnegação do culto santo e respeitoso que o indio lhe votava!
As horas corrêrâo silenciosamente nessa muda contemplação; a aragem fresca que annuncia o despontar do dia bafejou o rosto da menina; e pouco depois o primeiro albor da manhã desmaiou o negrume do horizonte.
Sobre o relevo que formava o perfil escuro da floresta, nas sombras da noite, luzio limpida e brilhante a estrella d'alva; as aguas do rio arfárão docemente; e os leques das palmeiras se agitárão rumorejando.
A menina lembrou-se do seu despertar tão placido de outr'ora, de suas manhãs tão descuidosas, de sua prece alegre e risonha em que agradecia a Deus a ventura que vertia sobre ella e sua familia.
Uma lagrima pendeu nos cilios dourados, e cahio sobre a face de Pery; abrindo os olhos, e vendo ainda a mesma doce visão que o adormecêra, o indio julgou que o sonho continuava.
Cecilia sorrio-lhe; e passou a mãozinha pelas palpebras ainda meio cerradas de seu amigo:
--Dorme, disse ella, dorme; Cecy vela.
A musica dessas palavras despertou completamente o selvagem.
--Não! balbuciou elle envergonhado de ter cedido á fadiga. Pery sente-se forte.
--Mas tu deves ter necessidade de repouso! Ha tão pouco tempo que adormeceste!
--O dia vai raiar; Pery deve velar sobre sua senhora.
--E porque tua senhora não velará tambem sobre ti? Queres tomar tudo; e não me deixas nem mesmo a gratidão!
O indio lançou um olhar cheio de admiração á menina:
--Pery não entende o que tu dizes. A rolinha quando atravessa o campo e sente-se fatigada, descansa sobre a aza de seu companheiro que é mais forte; é elle que guarda o seu ninho emquanto ella dorme, que vai buscar o alimento, que a defende e que a protege. Tu és como a rolinha, senhora.
Cecilia córou da comparação ingénua de seu amigo.
--E tu? perguntou ella confusa e tremula de emoção.
--Pery... é teu escravo, respondeu o indio naturalmente.
A menina abanou a cabeça com uma inflexão graciosa:
--A rolinha não tem escravo.
Os olhos de Pery brilhárão, uma exclamação partio de seus labios:
--Teu...
Cecilia com o seio palpitante, as faces vermelhas, os olhos humidos, levou a mãozinha aos labios de Pery, e reteve a palavra que ella mesma na sua innocente faceirice tinha provocado.
--Tu és meu irmão! disse ella com um sorriso divino.
Pery olhou o céo, para fazê-lo confidente de sua felicidade.
A claridade da alvorada estendia-se sobre a floresta e os campos como um vêo finissimo; a estrella da manhã scintillava em todo o seu fulgor.
Cecilia ajoelhou-se.
--Salve, rainha!...
O indio contemplava-a com uma expressão de ventura ineffavel.
--Tu és christão, Pery! disse ella lançando-lhe um olhar supplicante.
Seu amigo comprehendeu-a, e ajoelhando, juntou as mãos como ella.
--Tu repetirás todas as minhas palavras; e faze por não esquecê-las. Sim?
--Ellas vêm de teus labios, senhora.
--Senhora, não! irmã!
Dahi a pouco os murmurios das aguas confundião-se com os accentos maviosos da voz de Cecilia que recitava o hymno christão repassado de tanta uncção e poesia.
A palavra de Pery repetia como um écho a phrase sagrada.
Terminada a prece christã, talvez a primeira que tinhão ouvido aqnellas arvores seculares, a viagem continuou.
Logo que o sol chegou ao zenith, Pery procurou como na vespera um abrigo para passar as horas de calma.
A canôa pojou n'um pequeno seio do rio, Cecilia saltou em terra; e seu companheiro escolheu uma sombra onde ella repousasse.
--Espera aqui; Pery já volta.
--Onde vais? perguntou a menina inquieta.
--Ver fructos para ti.
--Não tenho fome.
--Tu os guardarás.
--Pois bem; eu te acompanho.
--Não; Pery não consente.
--E porque? Não me queres junto de ti?
--Olha tuas roupas; olha teus pés, senhora; os espinhos do cardo te offenderião.
Com effeito Cecilia estava vestida com um ligeiro roupão de cambraia; e seu pézinho que descansava sobre a relva, calçava um borzeguim de seda.
--Então me deixas só? disse a menina entristecendo.
O indio ficou um momento indeciso; mas de repente sua physionomia expandio-se.
Cortou a haste de um iris que se balançava ao sopro da aragem, e apresentou a flôr á menina.
--Escuta, disse elle. Os velhos da tribu ouvirão de seus pais, que a alma do homem quando sahe do corpo, se esconde n'uma flôr, e fica alli até que a _ave do céo_ vem busca-la e leva-la bem longe. É por isso que tu vês o _guanumby_, saltando de flôr em flôr, beijando uma, beijando outro; e depois batendo as azas e fugindo.
Cecilia, habituada á linguagem poetica do selvagem esperava a ultima palavra que devia fazê-la comprehender o seu pensamento.
O indio continuo:
--Pery não leva a sua alma no corpo, deixa-a nesta flôr. Tu não ficas só.
A menina sorrio, e tomando a flôr escondeu-a no seio.
--Ella me acompanhará. Vai, meu irmão, e volta logo.
--Pery não se afastará; se tu o chamares, elle ouvirá.
--E me responderás, sim?... para que eu te sinta perto de mim...
O indio, antes de partir, circulou a alguma distancia o lugar onde se achava Cecilia de uma corda de pequenas fogueiras feitas de louro, de canella, uratahy e outras arvores aromaticas.
Desta maneira tornava aquelle retiro impenetravel: o rio de um lado, e do outro as chammas que afugentarião os animaes damnihos, e sobretudo os reptis, o fumo odorifero que se escapava das fogueiras afastaria até mesmo os insectos. Pery não soffreria que uma vespa e uma mosca sequer offendesse a cutis de sua senhora, e sugasse uma gota desse sangue precioso; por isso tomára todas essas precauções.
Cecilia devia pois ficar tranquilla como se estivesse em um palacio; e de facto era um palacio de rainha do deserto esse sombrio cheio de frescura a que a relva servia de alcatifa, as folhas de docel, as grinaldas em flôres de cortinas, os sabiás de orchestra, as aguas de espelho, e os raios do sol de arabescos dourados.
A menina vio de longe o desvelo com que seu amigo tratava de sua segurança, e acompanhou-o com o olhar até o momento em que elle desappareceu no mais espesso da matta.
Foi então que ella sentio a soledade estender-se em torno e envolvê-la; insensivelmente levou a mão ao seio e tirou a flôr que Pery lhe tinha dado.
Apezar de sua fé christã, não pôde vencer essa innocente superstição do coração: pareceu-lhe, olhando o iris, que já não estava só e que a alma de Pery a acompanhava.
Qual é o seio de dezaseis annos que não abriga uma dessas illusões encantadoras, nascidas com o fogo dos primeiros raios do amor? Qual é a menina que não consulta o oraculo de um malmequer, e não vê n'uma borboleta negra a sibylla fatidica que lhe annuncia a perda da mais bella esperança?
Como a humanidade na infancia, o coração nos primeiros annos tem tambem a sua mythologia; mythologia mais graciosa e mais poetica do que as creações da Grecia; o amor é o seu Olympo povoado de deosas ou deoses de uma belleza celeste e immortal.
Cecilia amava; a gentil e innocente menina procurava illudir-se a si mesma, attribuindo o sentimento que enchia sua alma a uma affeição fraternal, e occultando, sob o doce nome de irmão, um outro mais doce que titillava nos seus labios, mas que seus labios não ousavão pronunciar.
Mesmo só, de vez em quando um pensamento que passava no seu espirito, incendia-lhe as faces de rubor, fazia palpitar-lhe o seio e pender mollemente a cabeça, como a haste da planta delicada quando o calor do sol fecunda a florescencia.
Em que pensava ella, com os olhos fitos no iris, que o seu habito bafejava, comas palpebras meio cerradas e o corpo reclinado sobre os joelhos?
Pensava no passado que não voltaria; no presente que devia escoar-se rapidamente; e no futuro que lhe apparecia vago, incerto e confuso.
Pensava que de todo o seu mundo só lhe restava um irmão de sangue, cujo destino ignorava, e um irmão d'alma, em que tinha concentrado todas as affeições que perdera.
Um sentimento de tristeza profunda annuviava seu semblante, lembrando-se de seu pai, de sua mãi, de Isabel, de Alvaro, de todos que amava e que formavão o universo para ella; então o que a consolava era a esperança de que os dous unicos corações que lhe restavão não a abandonarião nunca.
E isto a fazia feliz; não desejava mais nada; não pedia a Deos mais ventura do que a que sentiria vivendo junto de seus amigos e enchendo o futuro com as recordações do passado.
A sombra das arvores já beijava as aguas do rio, e Pery ainda não tinha voltado; Cecilia assustou-se, e, temendo que não lhe tivesse succedido alguma cousa, chamou por elle.
O indio respondeu de longe, e pouco depois appareceu entre as arvores; o seu tempo não tinha sido inutilmente empregado, a julgar pelos objectos que trazia.
--Como tardaste!... disse-lhe Cecilia erguendo-se e indo ao seu encontro.
--Tu estavas socegado; Pery aproveitou para não te deixar amanhã.
--Amanhã só?
--Sim, porque depois chegaremos.
--Aonde? perguntou a menina com vivacidade.
--Aos campos dos Goytacazes, á cabana de Pery, onde tu mandarás a todos os guerreiros da tribu.
--E depois, como iremos ao Rio de Janeiro?
--Não te inquietes; os Goytacazes tem _igaras_ grandes como aquella arvore que toca ás nuvens; quando elles atirão o remo, ellas voão sobre as aguas como a _atyaty_ de azas brancas. Antes que a lua, que vai nascer, tenha desapparecido, Pery te deixará com a irmã de teu pai.
--Deixará!... exclamou a menina, empallidecendo. Tu queres me abandonar?
--Pery é um selvagem, disse o indio tristemente; não póde viver na taba dos brancos.
--Porque? perguntou a menina com anciedade. Não és tu christão como Cecy?
--Sim; porque era preciso ser christão para te salvar; mas Pery morrerá selvagem como Ararê.
--Oh! não, disse a menina, eu te ensinarei a conhecer Deus, Nossa Senhora, as suas virgens e os seus anginhos. Tu viverás comigo e não me deixarás nunca!
--Vê, senhora: a flor que Pery te deu já murchou porque sahio de sua planta; e a flôr estava no teu seio. Pery na taba dos brancos, ainda mesmo junto de ti, será como esta flôr; tu terás vergonha de olhar para elle.
--Pery!... exclamou a menina offendida.
--Tu és boa; mas todas as que têm a tua côr não têm o teu coração. Lá, o selvagem seria um escravo dos escravos; e quem nasceu o primeiro póde ser teu escravo; mas é senhor dos campos, e mando aos mais fortes.
Cecilia, admirando o reflexo de nobre orgulho que brilhava na fronte do indio, sentio que não podia combater a sua resolução dictada por um sentimento elevado. Reconheceu que havia no fundo de suas palavras uma grande verdade, que o seu instincto adivinhava; ella tinha a prova na revolução que se operára no seu espirito, vendo Pery no meio do deserto, livre, grande, magestoso com um rei.
Qual não seria pois a consequencia dessa outra transição, muito mais brusca? N'uma cidade, no meio da civilisação, o que seria um selvagem, senão um captivo, tratado por todos com desprezo?
No intimo de sua alma quasi que approvava a resolução de Pery; mas não podia afazer-se á idéa de perder seu amigo, seu companheiro, a unica affeição que talvez ainda lhe restava no mundo.
Durante esse tempo, o indio preparava a simples refeição que lhes offerecia a natureza. Deitou sobre uma folha larga os fructos que tinha colhido: erão os aracás, os jambos corados, os ingás de polpa macia, os cocos de varias especies.
A outra folha continha favos de uma pequena abelha, que fabricára a sua colmeia no tronco de uma cabuiba, de sorte que o mel puro e claro tinha perfumes deliciosos: dir-se-hia mel de flôres.
O indio tornou concava uma palma larga e encheu-a com o succo do ananaz, cuja fragrancia é como a essencia do sabor: era o vinho que devia servir ao banquete frugal.
N'uma segunda palma tambem concava, apanhou a agua crystallina da corrente que murmurava a alguns passos; devia servir para Cecilia lavar as mãos depois da refeição.
Quando acabou esses preparativos que elle fazia com uma satisfação inexprimivel, Pery sentou-se junto da menina, e começou a trabalhar n'um arco de que precisava. O arco era sua arma favorita, e sem elle, embora possuisse a clavinha e as munições que por precaução deitára na canôa para servirem a D. Antonio de Mariz, não tinha tranquillidade de espirito e confiança plena na sua agilidade.
Reparando, porém, que sua senhora não tocava nos alimentos, ergueu a cabeça e vio o rosto da menina banhado de lagrimas, que cahião em perolas sobre os fructos, e os rociavão como gotas de orvalho.
Não era preciso adivinhar, para conhecer a causa dessas lagrimas.
--Não chores, senhora, disse o indio afflicto; Pery te fallou o que sentia; manda, e Pery fará a tua vontade.
Cecilia olhou-o com uma expressão de melancolia que partia a alma.
--Queres que Pery fique comtigo? Elle ficará; todos serão seus inimigos; todos o tratarão mal; desejará defender-te e não poderá; quererá servir-te e não o deixarão; mas Pery ficará.
--Não, respondeu Cecilia; não exijo de ti esse ultimo sacrificio. Deves viver onde nasceste, Pery.
--Mas tu vais ainda chorar!
--Vê, disse a menina enxugando as lagrimas; estou contente.
--Agora toma uma fructa.
--Sim; jantaremos juntos, como jantavas outr'ora no meio das mattas com tua irmã.
--Pery nunca teve irmã.
--Mas tens agora, respondeu ella sorrindo.
E como uma filha das florestas, uma verdadeira americana, a gentil menina fez a sua refeição partilhando-a com seu companheiro, e acompanhando-a dos gestos innocentes e faceiros que só ella sabia ter.
Pery admirava-se da mudança brusca que se tinha operado em sua senhora, e no fundo do seu coração sentia um aperto, pensando que ella se consolára bem depressa com a lembrança da separação.
Mas elle não era egoista, e preferia a alegria de sua senhora a seu prazer; porque vivia antes da vida della do que da sua propria.
Depois da refeição, Pery voltou ao seu trabalho.
Cecilia, que desde o primeiro dia sentia-se abatida e languida, tinha recobrado um pouco de sua vivacidade e gentileza dos bons dias.
O rosto mimoso conservava ainda a sombra melancolica que lhe deixarão impressas as scenas tristes de que fora testemunha, e sobretudo a ultima desgraça que a tinha privado de seu pai e de sua mãi.
Mas essa mágoa tomava nas suas feições uma expressão angelica, e tal mansuetude e suavidade que dava novo encanto á sua belleza ideal.
Deixando seu companheiro distrahido com a sua obra, chegou á beira do rio e sentou-se junto de uma moita de uvaias, á qual estava amarrada a canôa.
Pery viu-a afastar-se, e, sempre seguindo-a com os olhos, continuou a preparar a vergontea que devia servir-lhe de arco, e as cannas selvagens, ás quaes o seu braço ia dar o vôo da ave altaneira.
A menina com a face apoiada na mão e os olhos postos na correnteza do rio, scimava; ás vezes as palpebras cerravão-se; os labios se agitavão imperceptivelmente; nesses momentos parecia que conversava com algum espirito invisivel.
Outras vezes, um doce sorriso despontava nos seus labios e desfazia-se logo, como se o pensamento que viera pousar ali voltasse a esconder-se no fundo do coração, donde se tinha escapado.
Por fim ergueu a fronte com o meneio de rainha, que ás vezes tomava a sua cabecinha loura, á qual só faltava o diadema; a physionomia mostrou uma expressão de energia, que lembrava o caracter de D. Antonio de Mariz.