O Guarany: romance brazileiro, Vol. 2 (of 2)
Part 13
Tinha tomado uma resolução; uma resolução firme, inabalavel, que ia cumprir com a mesma força de vontade e coragem que herdára de seu pai, e dormia no fundo de sua alma, para só revelar-se nas occasiões extremas.
Levantou os olhos ao céo, e pedio a Deos um perdão para uma falta, e ao mesmo tempo uma esperança para uma boa acção que ia praticar; sua oração foi breve, mas ardente e cheia de fervor.
Emquanto isso se passava, Pery, vendo que as sombras da terra já se deitavão sobre o leito do Parahyba, conheceu que era tempo de partir, e preparou-se para continuar a viagem.
No momento em que levantava-se, Cecilia, correu para elle, e collocou-se em face, de modo a lhe occultar a vista do rio.
--Tu sabes? disse ella sorrindo; tenho uma cousa a pedir-te.
Esta só palavra bastava para que Pery não visse mais nada senão os olhos e os labios de sua senhora, que ião dizer-lhe o que ella desejava.
--Quero que apanhes muito algodão para mim e me tragas uma pelle bonita. Sim?
--Para que? perguntou o indio admirado.
--Do algodão fiarei um vestido; da pelle tu cobrirás os meus pés.
Pery, cada vez mais admirado, ouvia sua senhora sem comprehendê-la:
--Assim, disse a menina sorrindo, tu me deixarás acompanhar-te, os espinhos não me farão mal.
O espanto do indio tinha-o tornado immovel, mas de repente soltou um grito, e quiz precipitar-se para o rio.
A mãozinha de Cecilia apoiando-se no seu peito, reteve-o.
--Espera!
--Olha; respondeu o indio inquieto apontando o rio.
A canôa desprendida do tronco a que estava amarrada resvalava á discrição das aguas, e, gyrando sobre si, desapparecia levada pela correnteza.
Cecilia depois de olhar se voltou sorrindo:
--Fui eu que soltei!
--Tu senhora! Porque?
--Porque não precisamos mais della.
Fitando então no seu amigo os lindos olhos azues, disse com o tom grave e lento que revela um pensamento profundamente reflectido e uma resolução inabalavel.
--Pery não póde viver junto de sua irmã na cidade dos brancos; sua irmã fica com elle no deserto, no meio das florestas.
Era essa a idéa que ella ha pouco acariciava no seu espirito, e para a qual tinha invoeado a graça divina.
Não foi sem algum esforço que ella conseguio dominar os primeiros temores que a assaltárão, quando encarou em face essa existencia longe da sociedade, na solidão, no isolamento.
Mas qual era o laço que a prendia ao mundo civilisado? Não era ella quasi uma filha desses campos, criada com o seu ar puro e livre, com as suas aguas crystallinas?
A cidade lhe apparecia apenas como uma recordação da primeira infancia, como um sonho do berço; deixara o Rio de Janeiro aos cinco annos, e nunca mais alli voltára.
O campo, esse tinha para ella outras recordações ainda vivas e palpitantes; a flor da sua mocidade tinha sido bafejada por essas auras; o botão desatára aos raios desse sol esplendido.
Toda a sua vida, todos os seus bellos dias, todos os seus prazeres infantis vivião alli, fallavão naquelles échos da solidão, naquelles murmurios confusos, naquelle silencio mesmo.
Ella pertencia, pois, mais ao deserto do que á cidade; era mais uma virgem brazileira do que uma menina cortezã; seus habitos e seus gostos prendião-se mais ás pompas singelas da natureza, do que ás festas e ás galas da arte e da civilisação.
Decidio ficar.
A unica felicidade que ainda podia gozar neste mundo, depois da perda de sua familia, era viver com os dous entes que a amavão; essa felicidade não era possivel; devia escolher entre um delles.
Ahi o seu coração foi impellido pela força invencivel que o arrastava; mas depois, envergonhando-se de ter cedido tão depressa, procurou desculpar-se a si mesma.
Disse então que entre seus dous irmãos era justo que acompanhasse antes aquelle que só vivia para ella, que não tinha um pensamento, um cuidado, um desejo que não fosse inspirado por ella.
D. Diogo era um fidalgo, herdeiro do nome de seu pai; tinha um futuro diante de si, tinha uma missão a cumprir no mundo; elle escolheria uma companheira para suavisar-lhe a existencia.
Pery tinha abandonado tudo por ella; seu passado, seu presente, seu futuro, sua ambição, sua vida, sua religião mesmo; tudo era ella, e unicamente ella; não havia pois que hesitar.
Depois Cecilia tinha ainda um pensamento que lhe sorria: queria abrir ao seu amigo o céo que ella entrevia na sua fé christã; queria dar-lhe um lugar perto della na mansão dos justos, aos pés do throno celeste do Creador.
É impossivel descrever o que se passou no espirito do selvagem ouvindo as palavras de Cecilia: sua intelligencia inculta, mas brilhante, capaz de elevar-se aos mais altos pensamentos, não podia comprehender aquella idéa; duvidou do que escutava.
--Cecilia fica no deserto!... balbuciou elle.
--Sim! respondeu a menina tomando-lhe as mãos; Cecilia fica comtigo e não te deixará. Tu és rei destas florestas, destes campos, destas montanhas; tua irmã te acompanhará!
--Sempre?...
--Sempre!.... Viveremos juntos como hontem, como hoje, como amanhã. Tu cuidas?... Eu tambem sou filha desta terra; tambem me criei no seio desta natureza. Amo este bello paiz!...
--Mas, senhora, tu não vês que tuas mãos forão feitas para as flores e não para os espinhos; teus pés para brincar e não para andar; teu corpo para a sombra e não para o sol e a chuva?
--Oh! Eu sou forte! exclamou a menina erguendo a cabeça com altivez. Junto de ti não tenho medo. Quando eu estiver cansada, tu me levarás nos teus braços. A rolinha não se apoia sobre a aza de seu companheiro?
Era preciso ver a gentileza e a garridice com que ella dizia todas essas phrases graciosas, que borbulhavão dos seus labios! A irradiação do seu olhar, a animação do seu rosto e a travessura de seu gesto fascinavão.
Pery ficou estatico diante da perspectiva dessa felicidade immensa, com a qual nunca sonhara; mas jurou de novo em sua alma que cumpriria a promessa feita a D. Antonio.
A tarde descahia; e era preciso tratar de prover aos meios de passar a noite em terra, o que seria muito mais perigoso; não para elle a quem bastava o galho de uma arvore; mas para Cecilia.
Seguindo pela margem para escolher o lugar mais favoravel, Pery soltou uma palavra de surpreza vendo a canôa que se tinha embaraçado numa dessas ilhas fluctuantes feitas pelas parasitas do rio que boião sobre as aguas.
Era o melhor leito que podia ter a menina no meio do deserto; puxou a canôa, alcatifou o fundo com as folhas macias das palmeiras, e, tomando Cecilia nos braços, deitou-a no seu berço.
A menina não consentio que Pery remasse; e a canôa deslisou docemente pelo leito do rio, apenas impellida pela correnteza.
Cecilia brincava; debruçava-se sobre as aguas para colher uma flôr de passavem, para perseguir um peixe que beijava a face lisa das ondas, para ter o prazer de molhar as mãos nessa agua crystallina, para rever a sua imagem nesse espelho vacillante.
Quando tinha brincado bastante, voltava-se para seu amigo e fallava-lhe com o gazeio argentino, mimoso chilrear dos labios travessos de uma linda menina, onde as cousas mais ligeiras e mais frivolas revestem encantos e graça suprema.
Pery estava distrahido; seu olhar fitava-se no horizonte com uma attenção extraordinaria; a inquietação que se desenhava no seu semblante era indicio de algum perigo, embora ainda remoto.
Sobre a linha azulada da cordilheira dos Orgãos, que se destacava n'um fundo de purpura e rosicler, amontoavão-se grossas nuvens escuras e pesadas, que, feridas pelos raios do occaso, lançavão reflexos acobreados.
Dahi a pouco a serrania desappareceu envolta nesse manto côr de bronze, que se elevava como as columnas e abobadas de stalactites que se encontrão nas grutas das nossas montanhas. O azul puro e risonho que cobria o resto do firmamento contrastava com a cinta escura, que ia ennegrecendo gradualmente á medida que a noite cahia.
Pery voltou-se.
--Tu queres ir para terra, senhora?
--Não; estou tão bem aqui! Não foste tu que me trouxeste?
--Sim; mas...
--O que?
--Nada; pódes dormir sem receio!
Elle tinha-se lembrado que entre dous perigos o melhor era preferir o mais remoto; aquelle que ainda estava longe e talvez não viesse.
Por isso resolveu não dizer nada a Cecilia, e conservar-se attento e vigilante para salva-la, se o que elle temia se realisasse.
Pery havia lutado com o tigre, os homens, com uma tribu de selvagens, com o veneno; e tinha vencido. Era chegada a occasião de lutar com os elementos; com a mesma confiança calma e impassivel, esperou prompto a aceitar o combate.
Anoiteceu.
O horizonte, sempre negro e fechado, se illuminava ás vezes com um lampejo phosphorescente: um tremor surdo parecia correr pelas entranhas da terra e fazia ondular a superficie das aguas, como o seio de uma vela enfunada pelo vento.
Entretanto, ao redor tudo estava quieto; as estrellas recamavão o azul do céo; a viração aninhava-se nas folhas das arvores; os murmurios doces da solidão cantavão o hymno da noite.
Cecilia adormeceu no seu berço, murmurando uma prece.
Era alta noite; sombras espessas cobrião as margens do Parahyba.
De repente um rumor surdo e abafado, como de um tremor subterraneo, propagando-se por aquella solidão, quebrou o silencio profundo do ermo.
Pery estremeceu: ergueu a cabeça e estendeu os olhos pela larga esteira do rio, que, enroscando-se como uma serpente monstruosa de escamas prateadas, ia perder-se no fundo negro da floresta.
O espelho das aguas, liso e polido como um crystal, reflectia a claridade das estrellas, que já desmaiavão com a aproximação do dia; tudo estava immovel e quêdo.
O indio curvou-se sobre a borda da canôa, e de novo applicou o ouvido; pela superficie do rio rolava um som estrepitoso, semelhante ao quebrar-se da catadupa precipitando-se do alto dos rochedos.
Cecilia dormia tranquillamente; sua respiração ligeira resoava com a harmonia doce e subtil das folhas da canna quando estremecem ao sopro tenue da aragem.
Pery lançou um olhar de desespero para as margens que se destacavão a alguma distancia sobre a corrente placida do rio. Quebrou o laço que prendia a canôa, e impellio-a para a terra com toda a força do remo, que fendeu a agua rapidamente.
Á beira do rio elevava-se uma bella palmeira, cujo alto tronco era coroado pela grande cupola verde, formada com os leques de suas folhas lindas e graciosas. Os cipós e as parasitas, engrazando-se pelos ramos das arvores vizinhas, descião até o chão, formando grinaldas e cortinas de folhagem, que se prendião ás hastes da palmeira.
Tocando a margem, Pery saltou em terra, tomou Cecilia meio adormecida nos seus braços, e ia entranhar-se pela matta virgem que se elevava diante delle.
Nesse momento, o rio arquejou como um gigante estorcendo-se em convulsões, e deitou-se de novo no seu leito, soltando um gemido profundo e cavernoso.
Ao longe o crystal da corrente achamalotou-se; as aguas frisárão-se; e um lençol de espuma estendeu-se sobre essa face lisa e polida, semelhante a uma vaga do mar desenrolando-se pela arêa da praia.
Logo todo o leito do rio cobrio-se com esse delgado sendal que se desdobrava com uma velocidade espantosa, rumorejando como um manto de seda.
Então no fundo da floresta troou um estampido horrivel, que veio reboando pelo espaço; dir-se-hia o trovão correndo nas quebradas da serrania.
Era tarde!
Não havia tempo para fugir; a agua tinha soltado o seu primeiro bramido, e, erguendo o collo, precipitava-se furiosa, invencivel, devorando o espaço como algum monstro do deserto.
Pery tomou a resolução prompta que exigia a eminencia do perigo: em vez de ganhar a matta, suspendeu-se a um dos cipós, e galgando o cimo da palmeira, ahi abrigou-se com Cecilia.
A menina, despertada violentamente e procurando conhecer o que se passava, interrogou seu amigo.
--A agua!... respondeu elle, apontando para o horizonte.
Com effeito, uma montanha branca, phosphorescente, assomou entre as arcarias gigantescas formadas pela floresta, e atirou-se sobre o leito do rio, mugindo como o oceano quando açouta os rochedos com as suas vagas.
A torrente passou, rapida, veloz, vencendo na carreira o tapir das selvas ou a ema do deserto; seu dorso enorme se estorcia e enrolava pelos troncos diluvianos das grandes arvores, que estremecião com o embate herculeo.
Depois, outra montanha, e outra, e outra, se elevarão no fundo da floresta; arremessando-se no turbilhão, lutárão corpo a corpo, esmagando com o peso tudo que se oppunha á sua passagem.
Dir-se-hia que algum monstro enorme, dessas giboias tremendas quo vivem nas profundezas da agua, mordendo a raiz de uma rocha, fazia gyrar a cauda immensa, apertando nas suas mil voltas a matta que se estendia pelas margens.
Ou que o Parahyba, levantando-se qual novo Briareo no meio do deserto, estendia os cem braços titanicos, e apertava ao peito, estrangulando-a em uma convulsão horrivel, toda essa floresta secular que nascêra com o mundo.
As arvores estalavão; arrancadas do seio da terra ou partidas pelo tronco, prostravão-se vencidas sobre o gigante, que, carregando-as ao hombro, precipitava-se para o oceano.
O estrondo dessas montanhas d'agua que se quebravão, o estampido da torrente, os trôos do embate desses rochedos movediços, que se pulverisavão enchendo o espaço de neblina espessa, formavão um concerto horrivel, digno do drama magestoso que se representava no grande scenario.
As trevas envolvião o quadro, e apenas deixavão ver os reflexos prateados da espuma e a muralha negra que cingia esse vasto recinto, onde um dos elementos reinava como soberano.
Cecilia, apoiada ao hombro de seu amigo, assistia horrorisada a esse espectaculo pavoroso; Pery sentia o seu corpinho estremecer; mas os labios da menina não soltárão uma só queixa, um só grito de susto.
Em face desses trances solemnes, desses grandes cataclysmas da natureza, a alma humana sente-se tão pequena, anihila-se tanto, que se esquece da existencia; o receio é substituido pelo pavor, pelo respeito, pela emoção que emmudece e paralysa.
O sol, dissipando as trevas da noite, assomou no oriente; seu aspecto magestoso illuminou o deserto; as ondas de sua luz brilhante derramárão-se em cascatas sobre um lago immenso, sem horizontes.
Tudo era agua e céo.
A inundação tinha coberto as margens do rio até onde a vista podia alcançar; as grandes massas d'agua, que o temporal durante uma noite inteira vertêra sobre as cabeceiras dos confluentes do Parahyba, descêrão das serranias, e, de torrente em torrente, havião formado essa tromba gigantesca que se abatêra sobre a varzea.
A tempestade continuava ainda ao longo de toda a cordilheira, que apparecia coberta por um nevoeiro escuro; mas o céo, azul e limpido, sorria mirando-se no espelho das aguas.
A inundação crescia sempre; o leito do rio elevava-se gradualmente; as arvores pequenas desapparecião; e a folhagem dos soberbos jacarandás sobrenadava já como grandes moitas de arbustos.
A cupola da palmeira, em que se achavão Pery e Cecilia, parecia uma ilha de verdura banhando-se nas aguas da corrente; as palmas que se abrião formavão no centro um berço mimoso, onde os dous amigos, estreitando-se, pedião ao céo para ambos uma só morte, pois uma só era a sua vida.
Cecilia esperava o seu ultimo momento com a sublime resignação evangelica, que só dá a religião de Christo; morria feliz; Pery tinha confundido as suas almas na derradeira prece que expirára dos seus labios.
--Podemos morrer, meu amigo! disse ella com uma expressão sublime.
Pery estremeceu; ainda nessa hora suprema seu espirito revoltava-se contra aquella idéa, e não podia conceber que a vida de sua senhora tivesse de perecer como a de um simples mortal.
--Não! exclamou elle. Tu não podes morrer.
A menina sorrio docemente.
--Olha? disse ella com a sua voz maviosa, a agua sobe, sobe...
--Que importa! Pery vencerá a agua, como venceu a todos os teus inimigos.
--Se fosse um inimigo, tu o vencerias, Pery. Mas é Deos... É o seu poder infinito!
--Tu não sabes? disse o indio como inspirado pelo seu amor ardente, o Senhor do céo manda ás vezes áquelles a quem ama um bom pensamento!
E o indio ergueu os olhos com uma expressão ineffavel de reconhecimento.
Fallou com um tom solemne:
«Foi longe, bem longe dos tempos de agora. As aguas cahirão, e começárão a cobrir toda a terra. Os homens subirão ao alto dos montes; um só ficou na varzea com sua esposa.
«Era Tamandaré; forte entre os fortes; sabia mais que todos. O Senhor fallava-lhe de noite; e de dia elle ensinava aos filhos da tribu o que aprendia do céo.
«Quando todos subirão aos montes, elle disse:--Ficai comigo; fazei como eu, e deixai que venha a agua.
«Os outros não o escutárão; e forão para o alto; e deixárão elle só na varzea com sua companheira, que não o abandonou.
«Tamandaré tomou sua mulher nos braços e subio com ella ao olho da palmeira; ahi esperou que a agua viesse e passasse; a palmeira dava fructos que os alimentavão.
«A agua veio, subio e cresceu; o sol mergulhou e surgio uma, duas e tres vezes. A terra desappareceu; a arvore desappareceu; a montanha desappareceu.
«A agua tocou o céo; e o Senhor mandou então que parasse. O sol olhando só viu céo e agua, e entre a agua e o céo, a palmeira que boiava levando Tamandaré e sua companheira.
«A corrente cavou a terra; cavando a terra, arrancou a palmeira; arrancando a palmeira, subio com ella; subió acima do valle, acima da arvore, acima da montanha.
«Todos morrêrão. A agua tocou o céo tres sões com tres noites; depois baixou: baixou até que descobrio a terra.
«Quando veio o dia, Tamandaré viu que a palmeira estava plantada no meio da varzea; e ouvio a avezinha do céo, o guanumby, que batia as azas.
«Desceu com a sua companheira, e povoou a terra.»
Pery tinha fallado com o tom inspirado que dão as crenças profundas; com o enthusiasmo das almas ricas de poesia e sentimento.
Cecilia o ouvia sorrindo, e bebia uma a uma as suas palavras como se fossem as particulas do ar que respirava; parecia-lhe que a alma de seu amigo, essa alma nobre e bella, se desprendia do seu corpo em cada uma das phrases solemnes, e vinha embeber-se no seu coração, que se abria para recebê-la.
A agua subindo molhou as pontas das largas folhas da palmeira, e uma gota, resvalando pelo leque, foi embeber-se na alva cambraia das roupas de Cecilia.
A menina, por um movimento instinctivo de terror, conchegou-se ao seu amigo; e nesse momento supremo, em que a inundação abria fauce enorme para traga-los, murmurou docemente:
--Meu Deus!... Pery!...
Então passou-se sobre esse vasto deserto d'agua e céo uma scena estupenda, heroica, sobrehumana; um espectaculo grandioso, uma sublime loucura.
Pery hallucinado suspendeu-se aos cipós que se entrelaçavão pelos ramos das arvores já cobertas d'agua, e com esforço desesperado cingindo o tronco da palmeira nos seus braços hirtos, abalou-o até ás raizes.
Tres vezes os seus musculos de aço, estorcendo-se, inclinárão a haste robusta; e tres vezes o seu corpo vergou, cedendo á retracção violenta da arvore, que voltava ao lugar que a natureza lhe havia marcado.
Luta terrivel, espantosa, louca, esvairada, luta da vida contra a materia; luta do homem contra a terra; luta da força contra a immobilidade.
Houve um momento de repouso em que o homem, concentrando todo o seu poder, estorceu-se de novo contra a arvore; o impeto foi terrivel; e pareceu que o corpo ia despedaçar-se nessa distensão horrivel.
Ambos, arvore e homem, embalançáráo-se no seio das aguas: a haste oscillou; as raizes desprendêrão-se da terra já minada profundamente pela torrente.
A cupola da palmeira, embalançando-se graciosamente, resvalou pela flôr d'agua como um ninho de garças ou alguma ilha fluctuante, formada pelas vegetações aquaticas.
Pery estava de novo sentado junto de sua senhora quasi inanimada; e, tomando-a nos braços, disse-lhe com um accento de ventura suprema:
--Tu viverás!
Cecilia abrio os olhos, e vendo seu amigo junto della, ouvindo ainda suas palavras, sentio o enlevo que deve ser o gozo da vida eterna.
--Sim?... murmurou ella; viveremos!... lá no céo, no seio de Deos, junto daquelles que amamos!...
O anjo espanejava-se para remontarão berço.
--Sobre aquelle azul que tu vês, continuou ella, Deos mora no seu throno, rodeado dos que o adorão. Nós iremos lá, Pery! Tu viverás com tua irmã, sempre!..
Ella embebeu os olhos nos olhos do seu amigo, e languida reclinou a loura fronte.
O halito ardente de Pery bafejou-lhe a face.
Fez-se no semblante da virgem um ninho de castos rubores e limpidos sorrisos: os labios abrirão como as azas purpureas de um beijo soltando o vôo.
A palmeira arrastada pela torrente impetuosa fugia...
E sumio-se no horizonte.
FIM DA QUARTA E ULTIMA PARTE.
NOTAS
DO TOMO SEGUNDO
PAG. 7.--=Crispim Tenreiro=.
Foi um dos fundadores do Rio de Janeiro; era casado com D. Isabel Mariz, irmã de D. Antonio.
PAG. 153.--=Mussurana=.
«Os contrarios que os Tupinambás captivão na guerra ou de outra maneira, mettem-nos em prisões, as quaes são cordas de algodão grossas, que para isso tem muito louçãs, a que chamão mussuranas.»--G.S. de SOUZA, _Roteiro do Brazil_.
PAG. 155.--=Esposa do tumulo=.
«Dão a cada um prisioneiro por mulher a mais formosa moça que ha na sua casa; a qual moça tem o cuidado de o servir e dar-lhe o necessario para comer e beber.»--G. SOARES DE SOUZA, _Roteiro do Brazil_, _cap_. 71.
PAG. 156.--=Cardo=.
Fructo da urumbeba e de outras palmas de espinhos de que ha differentes especies; é vermelho na casca, de polpa branca e sementes pretas.
PAG. 158.--=Corrixo=.
Corrixo é um passarinho que tem o dom de arremedar a todos os outros.
«Temos o passaro que entôa Por mil differentes modos, Porque elle remeda a todos, Seu proprio nome é corrixo.»
J. J. LISBOA, _Desc. curiosa_.
PAG. 159.--=És livre=.
«Mas tambem ha algumas que tomárão tamanho amor aos captivos que as tomárão por mulher, que lhes derão muito geito para se acolherem e fugirem das prisões que elle cortão com alguma ferramenta que ellas ás escondidas lhes derão, etc.»--G. SOARES DE SOUZA, _Roteiro do Brazil_, _cap_. 171.
PAG. 173.--=Sacrificio=.
Os costumes dos Aymorés não erão inteiramente conhecidos, por causa do afastamento em que sempre viverão dos colonos. Em algumas cousas porém assemelhavão-se á raça tupy; e é por isso que na descripção do sacrificio aproveitámos o que dizem Simão de Vasconcellos e Lamartinière a respeito dos Tupinambás e outras tribus mais ferozes.
PAG. 201.--=Veneno=.
Os indigenas fabricavão diversos venenos, e a sua perfeição foi objecto de admiração para os colonisadores. Humboldt, á vista dos seus conhecimentos toxicologicos, concluio que devia ter havido na America antigamente uma grande civilisação, e que delia havião os selvagens herdado esses usos. Os principaes desses venenos erão o _bororé_ e o _uirari_.
PAG. 202.--=Curarê=.
«Le bororé, dont le révérend père Grumilha a donné la description dans son _Orenoco illustrado_, parait être exactement le même dont l'abbé Gilly parle dans son _Histoire de l'Amérique_, et qu'on désigne aujourd'hui par le nom de _curarê_. Suivant M. Humboldt, c'est un strichnos, et il ne faut pas le confondre avec le tucunas, composé toxique dont parle M. de la Condamine dans la relation de son voyage aux Amazones.»--Dʳ SIGAUD, _Du climat et des maladies du Brésil_.
PAG. 203.--=Em algumas horas=.
Sobre a violencia do _curarê_ diz ainda o Dʳ Sigaud o seguinte:
«En 1830, le président C. J. de Nyemer apporta du Pará à Rio de Janeiro une petite portion de _curarê_ qu'on fit prendre à petites doses à divers animaux, qui tous ont succombé en peu d'heures dans des convulsions violentes. Le docteur Lacerda, qui a longtemps pratique au Pará et au Maranhão, a fait, dit-on, d'importantes recherches sur les poisons indiens encore inédites; le _curarê_ est, de son aveu, un poison violent, causant d'abord un état tétanique, ensuite une torpeur générale qui précède la mort.»
PAG. 229.--=Contraveneno=.