O Guarany: romance brazileiro, Vol. 2 (of 2)

Part 8

Chapter 83,958 wordsPublic domain

Com effeito esse offerecimento que os selvagens fazião ao prisioneiro de uma arma para se defender, era uma ironia cruel; ligado pelo laço que o prendia, immovel pela tensão da corda, de que lhe servia vibrar o _tacape_ no ar, se não podia attingir os inimigos?

Pery aceitou a arma que a menina lhe trazia; calcando-a aos pés cruzou os braços e esperou o cacique, que avançava lentamente, terrivel e ameaçador.

Chegado em face do prisioneiro, a physionomia do velho esclareceu-se com um sorriso feroz, reflexo dessa embriaguez do sangue, que dilata as narinas do jaguar prestes a saltar sobre a presa.

--Sou teu matador! disse em guarany.

Pery não se admirou ouvindo a sua bella lingua adulterada pelos sons roucos e guturaes que sahião dos labios do selvagem.

--Pery não te teme!

--És Goytacaz?

--Sou teu inimigo!

--Defende-te!

O indio sorrio:

--Tu não mereces.

Os olhos do velho fuzilárão de raiva: a mão cerrou o punho da tagapema; mas elle reprimio logo o assomo da colera.

A esposa do prsioneiro atravessou o campo e offereceu ao vencedor um grande vaso de barro vidrado cheio de vinho de ananaz ainda espumante.

O selvagem virou de um trago a bebida aromatica, e endireitando o seu alto talhe, lançou ao prisioneiro um olhar soberbo:

--Guerreiro Goytacaz, tu és forte e valente; tua nação é temida na guerra. A nação Aymoré é forte entre as mais fortes, valente entre as mais valentes. Tu vais morrer.

O côro dos selvagens respondeu a essa especie de canto guerreiro, que preludiava o tremendo sacrificio.

O velho continou:

--Guerreiro Goytacaz, tu és prisioneiro; tua cabeça pertence ao guerreiro Aymoré; teu corpo aos filhos de sua tribu; tuas entranhas servirão ao banquete da vingança. Tu vais morrer.

Os gritos dos selvagens respondêrão de novo: e o canto se prolongou por muito tempo lembrando os feitos gloriosos da nação Aymoré, e as acções de valor de seu chefe.

Emquanto o velho fallava, Pery o escutava com a mesma calma e impassibilidade; nem um dos musculos do seu rosto trahia a menor emoção; seu olhar limpido e sereno ora fitava-se no rosto do cacique, ora volvia-se pelo campo examinando os preparativos do sacrificio.

Apenas quem o observasse veria que de braços cruzados como estava, uma das mãos desfazia imperceptivelmente um dos nós que havião na ponta de seu saio de algodão.

Quando o velho acabou de fallar encarou o prisioneiro, e recuando dous passos elevou lentamente a pesada clava que empunhava na mão esquerda. Os Aymorés anciosos esperavão; as velhas com as suas navalhas de pedra estremecião de impaciencia; as jovens indias sorrião, emquanto a noiva do prisioneiro voltava o rosto para não ver o espectaculo horrivel que ia apresentar-se.

Nesse momento Pery levando as duas mãos aos olhos cobrio o rosto, e curvando a cabeça ficou algum tempo nessa posição, sem fazer um movimento que revelasse a menor perturbação.

O velho sorrio.

--Tens medo!

Ouvindo estas palavras, Pery ergueu a cabeça com ar senhoril. Uma expressão de jubilo e serenidade irradiava no seu rosto, dir-se-hia o extasi dos martyres da religião que na ultima hora, através do tumulo, entrevêm a felicidade suprema.

A alma nobre do indio prestes a deixar a terra parecia exhalar já do seu involucro; e pousando nos seus labios, nos seus olhos, na sua fronte, esperava o momento de lançar-se no espaço para ir se abrigar no seio do Creador.

Erguendo a cabeça, fitou os olhos no céo, com se a morte que ia cahir sobre elle fosse uma visão encantadora que descesse das nuvens sorrindo-lhe. Era que nesse ultimo sonho da existência via a linda imagem de Cecilia, feliz, alegre e contente; via sua senhora salva.

--Fere!... disse Pery ao velho cacique.

Os instrumentos retumbarão de novo; os gritos e os cantos se confundirão com aquelles sons roucos, e rebóarão pela floresta como o trovão rolando pelas nuvens.

A tagapema coberta de plumas gyrou no ar scintillando aos raios de sol que ferião as côres brillantes.

No meio desse turbilhão ouvio-se um estrondo, uma ancia de agonisante e o baque de um corpo: tudo isto confusamente, sem que no primeiro instante se podesse perceber o que havia passado.

III

SORTIDA

O estrondo que se ouvio, fôra causado por um tiro que partio d'entre as arvores.

O velho Aymoré vacillou; seu braço que vibrava o tacape com uma força herculea, cahio inerte; o corpo abateu-se como o ipê da floresta cortado pelo raio.

A morte tinha sido quasi instantanea; apenas um estertor de agonia resoou no seu peito largo e ainda ha pouco vigoroso: cahira já cadaver.

Emquanto os selvagens permanecião estaticos diante do que se passava, Alvaro com a espada na mão e a clavina ainda fumegante precipitava-se no meio do campo. De dous talhos rapidos cortou os laços de Pery, e com as evoluções de sua espada conteve os selvagens, que voltando a si cahião sobre elle bramindo de furor.

Immediatamente ouvio-se uma descarga de arcabuzes; dez homens destemidos tendo á sua frente Ayres Gomes saltárão por sua vez com a arma em punho, e começárão a talhar de alto a baixo a grandes golpes de espada.

Não parecião homens, e sim dez demonios, dez machinas de guerra vomitando a morte de todos os lados; emquanto a sua mão direita imprima á lamina da espada mil voltas, que erão outros tantos golpes terriveis, a esquerda jogava a adaga com destreza e segurança admiravel.

O escudeiro e seus homens tinhão feito um semi-circulo em roda de Alvaro e de Pery, e apresentavão uma barreira de ferro e fogo ás ondas de inimigos que bramião, recuavão, e lançavão-se de novo quebrando-se de encontro a esse dique.

No curto instante que mediou entre a morte do cacique e o ataque dos aventureiros, Pery de braços cruzados olhava impassivel para tudo o que se passava em torno d'elle. Comprehendia então o gesto que sua senhora ha pouco lhe fizera do alto da esplanada, e o raio de esperança e de alegria que elle julgára ver brilhar no seu semblante.

Com effeito no primeiro momento de afflicção Cecilia se lançára para ver o indio, chama-lo ainda, e supplicar-lhe mesmo que não expozesse a sua vida inutilmente.

Não tendo mais visto Pery, a menina sentio um desespero cruel; voltou-se para seu pai, e com as faces orvalhadas de lagrimas, com o seio anhelante, com a voz cheia de angustia, pedio-lhe que salvasse Pery.

D. Antonio de Mariz, antes que sua filha lhe fizesse esse pedido, já tinha-se lembrado de chamar os seus companheiros fieis, e seguido por elles correr contra o inimigo, e livrar o indio da morte certa e inevitavel que procurava.

Mas o fidalgo era um homem de uma lealdade e de uma generosidade a toda a prova; sabia que aquella empreza era de um risco immenso, e não queria obrigar os seus companheiros a partilhar um sacrificio que elle só faria de bom grado á amizade que votava a Pery.

Os aventureiros que se havião dedicado com tanta constancia á salvação de sua familia, não tinhão as mesmas razões para se arriscarem por causa de um homem que não pertencia á sua religião, e que não tinha com elles o menor laço de communidade.

D. Antonio de Mariz perplexo, irresoluto entre a amizade e o seu escrupulo generoso, não soube o que responder a sua filha; procurou consola-la, afflicto por não poder satisfazer immediatamente a sua vontade.

Alvaro, que contemplava esta scena pungente a alguma distancia, no meio dos aventureiros fieis e dedicados que tinha sob suas ordens, tomou repentinamente uma resolução.

Seu coração partia-se vendo Cecilia soffrer; e embora amasse Isabel, a sua alma nobre sentia ainda pela mulher a quem votára os seus primeiros sonhos, uma affeição pura, respeitosa, uma especie de culto.

Era uma cousa singular na vida dessa menina; todas as paixões, todos os sentimentos que a envolvião soffrião a influencia de sua innocencia, e ião a pouco e pouco depurando-se e tomando um quer que seja de ideal, um cunho de adoração.

O mesmo amor ardente e sensual de Loredano, quando se tinha visto em face della, adormecida na sua casta isenção, emmudecêra e hesitara um momento se devia manchar a santidade do seu pudor.

Alvaro trocou com os aventureiros algumas palavras; e dirigio-se para o grupo que formavão D. Antonio de Mariz e sua filha.

--Consolai-vos, D. Cecilia; disse o moço, e esperai!

A menina fitou nelle os seus olhos azues cheios de reconhecimento; aquella palavra era ao menos uma esperança.

--Que contais fazer! perguntou D. Antonio ao cavalheiro.

--Tirar Pery das mãos do inimigo!

--Vós!... exclamou Cecilia.

--Sim, D. Cecilia, disse o moço; aquelles homens dedicados vendo a vossa afflicção sentirão-se commovidos e desejão poupar-vos uma justa mágoa.

Alvaro attribuia a generosa iniciativa aos seus companheiros, quando elles não tinhão feito senão aceita-la com enthusiasmo.

Quanto a D. Antonio de Mariz, sentira uma intima satisfação ouvindo as palavras do moço: seus escrupulos cessavão desde que seus homens espontaneamente se offerecião para realisar aquella difficil empreza.

--Cedereis-me uma parte dos nossos homens; quatro ou cinco me bastão; continuou o moço dirigindo-se ao fidalgo; ficareis com o resto para defender-vos no caso de algum ataque imprevisto.

--Não; respondeu D. Antonio; levai-os todos, já que se prestão a essa tão nobre acção, que não me animava a exigir de sua coragem. Para defender a minha filha, basto eu, apezar de velho.

--Desculpai-me, Sr. D. Antonio, replicou Alvaro; mas é uma imprudencia a que me opponho; pensai que a dous passos de vós existem homens perdidos, que nada respeitão, e que espião o momento de fazer-vos mal.

--Sabeis se prezo e estimo esse thesouro cuja guarda me foi confiada por Deus. Julgais que haja neste mundo alguma cousa que me faça expo-lo a um novo perigo? Acreditai-me: D. Antonio de Mariz, só, defenderá sua familia, emquanto vós salvareis um bom e nobre amigo.

--Confiais demasiado em vossas forças!...

--Confio em Deus, e no poder que elle collocou em minha mão: poder terrivel, quando chegar o momento fulminará todos os nossos inimigos com a rapidez do raio.

A voz do velho fidalgo pronunciando estas palavras tinha-se revestido de uma solemnidade imponente; o seu rosto illuminou-se com uma expressão de heroismo e de magestade que realçou a belleza severa do seu busto veneravel.

Alvaro olhou com uma admiração respeitosa o velho cavalheiro emquanto Cecilia, pallida e palpitante das emoções que sentira, esperava com anciedade a decisão que ião tomar.

O moço não insistio e sujeitou-se á vontade de D. Antonio de Mariz;

--Obedeço-vos; iremos todos e voltaremos mais promptos.

O fidalgo apertou-lhe a mão:

--Salvai-o!

--Oh! sim, exclamou Cecilia, salvai-o, Sr. Alvaro.

--Juro-vos, D. Cecilia, que só a vontade do céo fará que eu não cumpra a vossa ordem.

A menina não achou uma palavra para agradecer essa generosa promessa; toda a sua alma partio-se n'um sorriso divino.

Alvaro inclinou-se diante della; foi juntar-se aos aventureiros, e deo-lhes ordem de se prepararem para partir. Quando o moço entrou na sala então deserta para tomar a suas armas, Isabel, que já sabia do seu projecto, correu a elle pallida e assustada.

--Ides bater-vos? disse ella coma voz tremula.

Em que isto vos admira? Não nos batemos todos os dias com o inimigo!

--De longe!... Defendidos pela posição! Mas agora é differente!

--Não vos assusteis. Isabel! Daqui a uma hora estarei de volta.

O moço passou a clavina á tiracollo e quiz sahir.

Isabel tomou-lhe as mãos com um movimento arrebatado; seus olhos scintillavão com um fogo estranho; suas faces estavão incendiadas de vivo rubor.

O moço procurou tirar as mãos daquella pressão ardente e apaixonada:

--Isabel, disse elle com uma doce exprobação; quereis que falte á minha palavra, que recue diante de um perigo?

--Não! Nunca eu vos pediria semelhante cousa! Era preciso que não vos conhecesse, e que não... vos amasse!...

--Mas então dexai-me partir.

--Tenho uma graça a supplicar-vos?

--De mim?... Neste momento?

--Sim! Neste momento!... Apezar do que me dizieis ha pouco, apezar do vosso heroismo, sei que caminhais a uma morte certa, inevitavel.

A voz de Isabel tornou-se balbuciante:

--Quem sabe... se nos veremos mais neste mundo?!

--Isabel!... disse o moço querendo fugir para evitar a commoção que se apoderava delle.

--Promettestes fazer-me a graça que vos pedi.

--Qual?

--Antes de partir, antes de me dizer adeus para sempre...

A moça fitou no cavalheiro um olhar que fascinava.

--Fallai!... fallai!...

--Antes de nos separarmos, eu vos supplico, deixai-me uma lembrança vossa!... Mas uma lembrança que fique dentro de minha alma!

E a menina cahio de joelhos aos pés de Alvaro, occultando seu rosto que o pudor revoltado em luta com a paixão cobria de um brillante carmim.

Alvaro ergueu-a confusa e vergonhosa do que tinha feito, e chegando os seus labios ao ouvido proferio, ou antes murmurou uma phrase.

O semblante de Isabel expandio-se; uma aureola de ventura cingio a sua fronte; seu seio dilatou-se, e respirou com a embriaguez do coração feliz.

--Eu te amo!

Era a phrase que Alvaro deixára cahir na sua alma, e que a enchia toda como um effluvio celeste, como um canto divino que resoava nos seus ouvidos e fazia palpitar todas as suas fibras.

Quando ella sahio desse extasi, o moço tinha sahido da sala, e unia-se aos seus companheiros promptos a marchar.

Foi nessa occasião que Cecilia, chegando imprudentemente á palissada, fez a Pery un aceno que lhe dizia esperasse.

A pequena columna partio commandada por Alvaro e por Ayres Gomes, que depois de tres dias não deixava o seu posto dentro do gabinete do fidalgo.

Quando os bravos combatentes desapparecêrão na floresta, D. Antonio de Mariz recolheu-se com sua familia para a sala, e sentando-se na sua poltrona esperou tranquillamente. Não mostrava o menor temor de ser atacado pelos aventureiros revoltados, que estavão a alguns passos de distancia apenas, e que não deixarião de aproveitar um ensejo tão favoravel.

D. Antonio tinha a este respeito uma completa segurança; tendo fechada as portas e examinado a escorva de suas pistolas, recommendou silencio, afim de que nem um rumor lhe escapasse.

Vigilante e attento, o fidalgo reflectia ao mesmo tempo sobre o facto que se acabava de passar, e que o tinha profundamente impressionado.

Conhecia Pery e não podia comprehender como o indio, sempre tão intelligente e tão perspicaz, se deixára levar por uma louca esperança a ponte de ir elle só atacar os selvagens.

A extrema dedicação do indio por sua senhora, o desespero da posição em que se achavão, podia explicar essa hallucinação, se o fidalgo não soubesse quanto Pery tinha a calma, a força e o sangue-frio que tornão o homem superior a todos os perigos. O resultado de suas reflexões foi que havia no procedimento de Pery alguma cousa que não estava clara e que devia explicar-se mais tarde.

Ao passo que elle se entregava a esses pensamentos, Alvaro tinha feito uma volta, e favorecido pela festa dos selvagens se aproximara sem ser percebido.

Quando avistou Pery a algumas braças de distancia, o velho cacique levantava a tagapema sobre a sua cabeça.

O moço levou a clavina ao rosto; e a bala sibilando foi atravessar o craneo do selvagem.

IV

REVELAÇÃO

Apenas Alvaro, com a chegada dos seus companheiros, viu-se livre dos inimigos que o atacavão, voltou a Pery, que assistia immovel a toda esta scena.

--Vinde! disse o moço com autoridade.

--Não! respondeu o indio friamente.

--Tua senhora te chama!

Pery abaixou a cabeça com uma profunda tristeza.

--Dize á senhora que Pery deve morrer; que vai morrer por ella. E tu parte, porque senão seria tarde.

Alvaro olhou a physionomia intelligente do indio para ver se descobria nella algum signal de perturbação de espirito: porque o moço não comprehendia, nem podia comprehender a causa desta obstinação insensata.

O rosto de Pery, calmo e sereno, não lhe deixou ver senão uma resolução firme, inabalavel, tanto mais profundo quando se mostrava sob uma apparencia de socego e tranquillidade.

--Assim, tu não obedece á tua senhora?

Pery custou a arrancar a palavra dos labios.

--A ninguem.

Quando pronunciava esta palavra, um grito fraco soou ao lado delle; voltando-se viu a india que lhe havião destinado por esposa cahindo atravessada por uma flecha.

O tiro fôra destinado a Pery por um dos selvagens, e a menina lançando-se para cobrir o corpo daquelle que amára uma hora recebêra a setta no peito.

Seus olhos negros, desmaiados pelas sombras da morte, volvêrão a Pery um ultimo olhar; e cerrando tornárão a abrir-se, já sem vida e sem brilho. Pery sentio um movimento de piedade e sympathia vendo essa victima de sua dedicação, que como elle sacrificava sem hesitar a sua existencia para salvar aquelle a quem amava.

Alvaro nem se apercebeu do que acabava de passar; lançando um olhar para seus homens que batião-se valentemente com os Aymorés fez um aceno a Ayres Gomes.

--Escuta, Pery; tu sabes se costumo cumprir a minha palavra. Jurei a Cecilia levar-te; e ou tu me acompanhas, ou morreremos todos neste lugar.

--Faze o que quizeres! Pery não sahira d'aqui.

--Vês estes homens?... são os unicos defensores que restão á tua senhora; se todos elles morrem, bem sabes que é impossivel que ella se salve.

Pery estremeceu. Ficou um momento pensativo; depois, sem dar tempo a que o seguissem, lançou-se entre as arvores.

D. Antonio de Mariz e sua familia, tendo ouvido os tiros dos arcabuzes, esperavão com anciedade o resultado da expedição.

Dez minutos havião decorrido na maior impaciencia, quando sentirão tocar na porta, e ouvirão a voz de Pery; Cecilia correu, e o indio ajoelhou-se a seus pés pedindo-lhe perdão.

O fidalgo, livre do pezar de perder um amigo, assumira a sua costumada severidade, como sempre que se tratava de uma falta grave.

--Commetteste uma grande imprudencia, disse elle ao indio; fizeste soffrer teus amigos; expozeste a vida daquelles que te amão; não precisas de outra punição além desta.

--Pery ia salvar-te!

--Entregando-te nas mãos do inimigo?

--Sim!

--Fazendo-te matar por elles?

--Matar e...

--Mas qual era o resultado dessa loucura?

O indio calou-se.

--É preciso explicar-te, para que não julguemos que o amigo intelligente e dedicado de outr'ora tornou-se um louco e um rebelde.

A palavra era dura; e o tom em que foi dita ainda aggravava mais a reprehenção severa que ella encerrava.

Pery sentio um lagrima humedecer-lhe as palpebras:

--Obrigas Perry a dizer tudo!

--Deves fazê-lo, se desejas rehabilitar-te na estima que te votava, e que sinto perder.

--Pery vai fallar.

Alvaro entrava nesse momento tendo deixado no alto da esplanada os seus companheiros já livres de perigo, e quites por algumas feridas que não erão felizmente muito graves.

Cecilia apertou as mãos do moço com reconhecimento; Isabel enviou-lhe n'um olhar toda a sua alma.

As pessoas presentes se grupárão ao redor da poltrona de D. Antonio, em face do qual Pery de pé com a cabeça baixa, confuso e envergonhado como um criminoso, ia justificar-se.

Dir-se-hia que confessava uma acção indigna e vil: ninguem adivinhava que sublime heroismo, que concepção gigantesca havia nesse acto, que todos condemnavão como uma loucura.

Elle começou:

«Quando Ararê deitou o seu corpo sobre a terra para não tornar a erguê-lo, chamou Pery e disse:

«Filho de Ararê, teu pai vai morrer; lembra-te que tua carne é a minha carne; que teu sangue é meu sangue. Teu corpo não deve servir ao banquete do inimigo.

«Ararê disse, e tirou suas contas de fructos que deo a seu filho; estavão cheias de veneno; tinhão nellas a morte.

«Quando Pery fosse prisioneiro, bastava quebrar um fructo, e ria do vencedor que não se animaria a tocar no seu corpo.

«Pery viu que a senhora soffria e olhou as suas contas; teve uma idéa; a herança de Ararê podia salvar a todos.

«Se tu deixasses fazer o que queria, quando a noite viesse não acharia um inimigo vivo; os brancos e os indios não te offenderião mais.»

Toda a familia ouvia esta narração com uma surpreza extraordinaria; comprehendião delia que havia em tudo isto uma arma terrivel,--o veneno; mas não podião saber os meios de que o indio se servira ou pretendia servir-se para usar desse agente de destruição.

--Acaba! disse D. Antonio; por que modo contavas então destruir o inimigo?

--Pery envenenou a agua que os brancos bebem, e o seu corpo, que devia servir ao banquete dos Aymorés!

Um grito de horror acolheu essas palavras ditas pelo indio em um tom simples e natural.

O plano que Pery combinára para salvar seus amigos acabava de revelar-se em toda a sua abnegação sublime, e com o cortejo de scenas terriveis e monstruosas que devião acompanhar a sua realisação.

Confiado nesse veneno que os indios conhecião com o nome de _curarê_, e cuja fabricação era um segredo de algumas tribus, Pery com a sua intelligencia e dedicação descobrira um meio de vencer elle só aos inimigos, apezar do seu numero e da sua força.

Sabia a violencia e o effeito prompto daquella arma que seu pai lhe confiára na hora da morte; sabia que bastava uma pequena parcella desse pó subtil para destruir em algumas horas a organisação a mais forte e a mais robusta. O indio resolveu pois usar desse poder que na sua mão heroica ia tornar-se um instrumento de salvação, e o agente de um sacrificio tremendo feito á amizade.

Dous fructos bastárão; um servio para envenenar a agua e as bebidas dos aventureiros revoltados; o outro acompanhou-o até o momento do supplicio, em que passou de suas mãos aos seus labios.

Quando o cacique vendo-o cobrir o rosto perguntou-lhe se tinha medo, Pery acabava de envenenar o seu corpo, que devia d'ahi a algumas horas ser um germen de morte para todos esses guerreiros bravos e fortes.

O que porém dava a esse plano um cunho de grandeza e de admiração, não era sómente o heroismo do sacrificio; era a belleza horrivel da concepção, era o pensamento superior que ligára tantos acontecimentos, que os submettêra á sua vontade, fazendo-os succeder-se naturalmente e caminhar para um desfecho necessario e infallivel.

Porque, é preciso notar, a menos de um facto extraordinario, desses que a previdencia humana não pode prevenir, Pery quando sahio da casa tinha a certeza de que as cousas se passarião como de facto se passárão.

Atacando os Aymorés a sua intenção era excita-los á vingança; precisava mostrar-se forte, valente, destemido, para merecer que os selvagens o tratassem como um inimigo digno de seu odio. Com a sua destreza e com a precaução que tomára tornando o seu corpo impenetravel, contava evitara morte antes de poder realisar o seu projecto; quando mesmo cahisse ferido, tinha tempo de passar o veneno aos labios.

A sua previsão porém não o illudio; tendo conseguido o que desejava, tendo excitado a raiva dos Aymorés, quebrou a sua arma, e supplicou a vida ao inimigo; foi de todo o sacrificio o que mais lhe custou.

Mas assim era preciso; a vida de Cecilia o exigia; a morte que o havia respeitado até então podia surprendê-lo; e Pery queria ser feito prisioneiro, como foi, e contava ser.

O costume dos selvagens, de não matar na guerra o inimigo e de captiva-lo para servir ao festim da vingança, era para Pery uma garantia e uma condição favoravel á execução do seu projecto.

Quanto á peripecia final, que a intervenção de Alvaro obstára; não fôra esse incidente imprevisto, que seria igualmente infallivel.

Segundo as leis tradicionaes do povo barbaro, toda a tribu devia tomar parte no festim, as mulheres moças tocavão apenas na carne do prisioneiro; mas os guerreiros a saboreavão como um manjar delicado, adubado pelo prazer da vingança: e as velhas com a gula feroz das harpias que se cevão no sangue de suas victimas.

Pery contava pois com toda a segurança que dentro de algumas horas o corpo envenenado da victima levaria a morte ás entranhas do seus algozes, e que elle só destruiria toda uma tribu, grande, forte, poderosa, apenas com auxilio dessa arma silenciosa.