O Guarany: romance brazileiro, Vol. 2 (of 2)
Part 7
Via o vulto de D. Antonio de Mariz que assomava por cima da palissada; e suspensa ao seu braço, reclinada sobre o abysmo, Cecilia, sua linda senhora, que lhe fazia de longe um gesto de desespero; ao lado Alvaro e a familia.
Tudo que elle havia amado neste mundo ali estava diante de seus olhos; sentia um prazer intenso por ver ainda uma vez esses objectos de sua dedicação extrema, de seu amor profundo.
Adivinhava e comprehendia o que sentia então o coração de seus bons amigos; sabia que soffrião vendo-o prisioneiro, proximo a morrer, sem terem o poder e a força para salva-lo das mãos do inimigo.
Consolava-o porém essa esperança que estava prestes a realisar-se; esse gozo ineffavel de salvar sua senhora, e de deixa-la feliz no seio de sua familia, protegida pelo amor de Alvaro.
Emquanto Pery, preoccupado por essas idéas, enlevava-se ainda uma vez em contemplar mesmo de longe a figura de Cecilia, a india de pé de fronte delle olhava-o com um sentimento de prazer misturado de surpreza e curiosidade.
Comparava suas fórmas esbeltas e delicadas com o corpo selvagem de seus companheiros; a expressão intelligente de sua physionomia com o aspecto embrutecido dos Aymorés; para ella Pery era um homem superior e excitava-lhe profunda admiração.
Foi só quando Cecilia e D. Antonio de Mariz desapparecêrão da esplanada, que Pery, lançando ao redor um olhar para ver se a sua morte ainda se demoraria muito, descobrio a india perto delle.
Voltou o rosto e continuou a pensar em sua senhora, e a rever a sua imagem; debalde a menina selvagem, lhe apresentava um lindo fructo, um alimento, um vinho saboroso; elle não lhe dava attenção.
A india tornou-se triste por causa dessa obstinação com que o prisioneiro recusava o que lhe offerecia; e achegando-se levantou a cabeça pensativa de Pery.
Havia nos olhos da menina tanto fogo, tanta lubricidade no seu sorriso; as ondulações morbidas do seu corpo trahião tantos desejos e tanta voluptuosidade, que o prisioneiro comprehendeu immediatamente qual era a missão dessa enviada da morte, dessa esposa do tumulo, destinada a embellezar os ultimos momentos da vida!
O indio voltou o rosto com desdem; recusava as flôres como tinha recusado os fructos; repellia a embriaguez do prazer como havia repellido a embriaguez do vinho.
A menina enlaçou-o com os braços, murmurando palavras entrecortadas de uma lingua desconhecida, da lingua dos Aymorés, que Pery não entendia; era talvez uma supplica, ou um consolo com que procurava mitigar a dôr do vencido.
Mal sabia que o indio ia morrer feliz e esperava o supplicio como a realisação de um sonho doce, como a satisfação de um desejo querido e por muito tempo afagado com amor.
Mas podia ella, pobre selvagem, presentir e mesmo comprehender semelhante cousa? O que sabia era que Pery ia ser morto; que ella devia suavisar-lhe a ultima hora; e cumpria esse dever com um certo contentamento.
Pery sentindo os braços da menina cingirem seu collo, repellio-a vivamente para longe de si; e voltando procurou ver por entre as folhas se descobria os preparativos que os Aymorés fazião para o sacrificio.
Tardava-lhe o momento supremo em que devia ser immolado á colera e á vingança dos inimigos; sua altivez revoltava-se contra essa humilhação do captiveiro.
A india continuava a olha-lo tristemente, e sem comprehender porque a repellia; ella era linda e desejada por todos os jovens guerreiros de sua tribu; seu pai, o velho cacique, tinha-a destinado para o mais valente prisioneiro, ou para o mais forte dos vencedores.
Depois de conservar-se muito tempo nesta posição, a menina adiantou-se de novo, tomou um vaso cheio de _cauim_, e apresentou-o a Pery sorrindo e quasi supplicante.
Ao gesto de recusa que fez o indio, ella deitou o vaso no rio, e escolhendo sobre as folhas um cardo vermelho e doce como um favo de mel, estendeu a mão e tocou com o fructo a bocca do prisioneiro.
Pery engeitou o fructo como tinha engeitado o vinho, e a virgem selvagem atirando-o por sua vez ao rio, aproximou-se e offereceu ao prisioneiro seus labios encarnados, ligeiramente destendidos como para receberem o beijo que pedião.
O indio fechou os olhos, e pensou em sua senhora. Elevando-se até Cecilia, seu pensamento desprendia-se do involucro terrestre, e adejava n'uma atmosphera pura e isenta da fascinação dos sentidos que escravisa o homem.
Comtudo Pery sentia o halito ardente da menina que lhe requeimava as faces: entreabrio os olhos, e viu-a na mesma posição, esperando uma caricia, um afago daquelle a quem a sua tribu mandára que amasse, e a quem ella já amava espontaneamente.
Na vida selvagem, tão proxima da natureza, onde a conveniencia e os costumes não reprimem os movimentos do coração, o sentimento é uma flor que nasce como a flor do campo, e cresce em algumas horas com uma gota de orvalho e um raio de sol.
Nos tempos de civilisação, ao contrario, o sentimento torna-se planta exotica; e só vinga e floresce nas estufas, isto é, nos corações onde o sangue é vigoroso, e o fogo da paixão ardente e intenso.
Vendo Pery no meio do combate, só contra toda a sua tribu, a india o admirara: contemplando-o depois quando prisioneiro, o achára mais bello do que todos os guerreiros.
Seu pai a destinára para esposa do inimigo que ia ser sacrificado; e portanto ella que começára por admira-lo acabava por deseja-lo, por ama-lo algumas horas apenas depois que o tinha visto.
Mas Pery, frio e indifferente, não se commovia, nem aceitava essa affeição passageira e ephemera que tinha começado com o dia e devia acabar com elle, sua idéa fixa, a lembrança de seus amigos, o protegia contra a tentação.
Voltando as costas, levantou os olhos ao céo para evitar o rosto da selvagem que acompanhava a sua vista, como certas flôres acompanhão a rotação apparente do sol.
Entre a folhagem das arvores passava-se uma das scenas graciosas e singelas, que a cada momento no campo se offerecem á attenção daquelles que estudão a natureza nas suas pequenas creaturas.
Um casal de corrixos, que tinha feito o seu ninho n'um ramo, sentindo a habitação do homem e o fogo em baixo da arvore, mudava a sua pequena casa de palha e algodão.
Um desfazia com o bico o ninho, e o outro conduzia a palha para longe, para o lugar onde ião novamente fabrica-lo; quando acabárão este trabalho, acariciárão-se, e batendo as azas forão esconder o seu amor n'algum lindo retiro.
Pery se divertia em ver esse innocente idyllio, quando a india levantando-se de repente soltou um pequeno grito de alegria e de prazer, e sorrindo mostrou ao prisioneiro os dous passarinhos que voavão um a par do outre sobre o cupola da floresta.
Emquanto elle procurava comprehender o que queria dizer este aceno, a virgem desappareceu, e voltou quasi immediatamente trazendo um instrumento de pedra que cortava como faca e um arco de guerra.
Aproximou-se do indio, soltou-lhe os laços que lhe ligavão os punhos, e partio a mussurana que o prendia á arvore. Executou isto com uma extrema rapidez; e entregando a Pery o arco e as flechas, estendeu a mão na direcção da floresta, mostrando-lhe o espaço que se abria diante delles.
Seus olhos e o seu gesto fallavão melhor do que a sua linguagem inculta, e exprimião claramente o seu pensamento:
--Tu és livre. Partamos!
FIM DA TERCEIRA PARTE.
QUARTA PARTE
A CATASTROPHE
I
ARREPENDIMENTO
Quando Loredano afastou-se de João Feio que o acabava de ameaçar, chamou quatro companheiros em quem mais confiava, e retirou-se com elles para a despensa.
Fechou a porta afim de interceptar a communicação com os aventureiros, e poder tranquillamente tratar o negocio que tinha em mente.
Nesse curto instante havia feito uma modificação no seu plano da vespera; as palavras de ameaça ha pouco proferidas lhe revelárão que o descontentamento começava a lavrar. Ora, o italiano não era homem que recuasse diante de um obstaculo, e deixasse roubarem-lhe a esperança, que nutria desde tanto tempo.
Resolveu trazer as cousas rapidamente e executar naquelle mesmo dia o seu intento: seis homens fortes e destemidos bastavão para levar ao cabo a empreza que projectára.
Tendo fechado a porta, guiou os quatro aventureiros á sala que tocava com o oratorio, e onde Martim Vaz continuava a sua obra de demolição, minando a parede que os separava da familia.
--Amigos, disse o italiano, estamos n'uma posição desesperada; não temos força para resistir aos selvagens, e mais dia menos dia havemos de succumbir.
Os aventureiros abaixarão a cabeça e não respondêrão; sabião que aquella era a triste verdade.
--A morte que nos espera é horrivel; serviremos de pasto a esses barbaros que se alimentão de carne humana; nossos corpos sem sepultura cevarão os instinctos ferozes dessa horda de cannibaes!...
A expressão do horror se pintou na physionomia daquelles homens, que sentirão um calafrio percorrer-lhes os membros e penetrar até á medulla dos ossos.
Loredano demorou um instante o seu olhar perspicaz sobre esses rostos decompostos:
--Tenho porém um meio de salvar-vos.
--Qual? perguntárão todos á uma voz.
--Esperai. Posso salvar-vos; mas isto não quer dizer que esteja disposto a fazê-lo.
--Por que razão?
--Por que... Porque todo o serviço tem o seu preço.
--Que exigis então? disse Martim Vaz.
--Exijo que me acompanheis, que me obedeçais cegamente, succeda o que succeder.
--Podeis ficar descansado, disse um dos aventureiros; eu respondo pelos meus companheiros.
--Sim! exclamarão os outros.
--Bem! Sabeis o que vamos fazer, já, neste momento?
--Não; mas vós nos direis.
--Escutai! Vamos acabar de demolir esta parede e atira-la dentro; entrar nessa sala, matar tudo quanto encontrarmos, menos uma pessoa.
--E essa pessoa...
--É a filha de D. Antonio de Mariz, Cecilia. Se algum de vós deseja a outra, póde toma-la; eu vol-a dou.
--E depois disto feito?
--Tomamos conta da casa; reunimos os nossos companheiros, e atacamos os Aymorés.
--Mas isto não nos salvará, retrucou um dos aventureiros; ha pouco dissestes que não temos força para resistir-lhes.
--De certo! acudio Loredano; não lhes resistiremos, mas nos salvaremos.
--Como! disserão os aventureiros desconfiados.
O italiano sorrio.
--Quando disse que atacaremos o inimigo, não fallei claro: queria dizer que os outros o atacarão.
--Não vos entendo ainda; fallai mais claro.
--Ahi vai pois. Dividiremos os nossos homens em duas bandas; nós e mais alguns pertenceremos a uma que ficará sob a minha obediencia.
--Até aqui vamos bem.
--Isto feito, uma das bandas sahirá da casa para fazer uma sortida emquanto os outros atacarão os selvagens do alto do rochedo; é um estratagema já velho e que deveis conhecer; metter o inimigo entre dous fogos.
--Adiante; continuai.
--Como a expedição de sahir é a mais perigosa e arriscada, tomo-a sobre mim; vós me acompanhais e marchamos. Sómente em lugar de marchar sobre o inimigo, marchamos sobre o mais proximo povoado.
--Oh! exclamarão os aventureiros.
--Sob pretexto de que os selvagens podem cortar-nos a entrada da casa por alguns dias, levamos provisão de viveres. Caminhamos sem parar, sem olhar atrás; e prometto-vos que nos salvaremos.
--Uma traição! gritou um dos aventureiros. Entregarmos nossos companheiros nas mãos dos inimigos!
--Que quereis? A morte de uns é necessaria para a vida dos outros; este mundo é assim: não seremos nós que o havemos de emendar; andemos com elle.
--Nunca! Não faremos isto! É uma vilania!
--Bom, respondeu Loredano friamente, fazei o que vos aprouver. Ficai; quando vos arrependerdes será tarde.
--Mas, ouvi...
--Não; não conteis já comigo. Julgei que fallava a homens a quem valesse salvar a vida; vejo que me enganei. Adeus.
--Se não fôra uma traição...
--Que fallais em traição!... replicou o italiano com arrogancia. Dizei-me, credes vós que algum escapará d'aqui na posição em que nos achamos? Morreremos todos. Pois se assim é, mais vale que se salvem alguns.
Os aventureiros parecêrão abalados por este argumento.
--Elles mesmos, continuou Loredano, a menos de serem egoistas, não terão o direito de se queixarem; e morrerão com a satisfação de que sua morte foi util aos seus companheiros, e não esteril como deve ser se ficarmos todos de braços cruzados.
--Vá feito; tendes razões a que não se resiste. Contai comnosco, acudio um aventureiro.
--Comtudo levarei sempre um remorso, disse outro.
--Faremos dizer uma missa por sua alma.
--Bem lembrado! respondeu o italiano.
Os aventureiros forão ajudar o seu companheiro na demolição surda da parede, e Loredano ficou só retirado a um canto.
Por algum tempo acompanhou com a vista o trabalho dos cinco homens; depois tirou um largo cinto de escamas de aço que apertava o seu gibão.
Da parte interior desse cinto havia uma estreita abertura pela qual elle sacou um pergaminho dobrado ao comprido, era o famoso roteiro das _minas de prata_.
Revendo esse papel, todo o seu passado debuxou-se na sua memoria, não para deixar-lhe o remorso, mas para exita-lo a proseguir em busca desse thesouro que lhe pertencia, e do qual não podia gozar.
Foi tirado da sua distracção por um dos aventureiros, que se achegára para elle desapercebido, e depois de olhar por muito tempo o papel, dirigio-lhe a palavra:
--Não podemos derrubar a parede.
--Porque? perguntou Loredano erguendo-se. Está segura?
--Não é isso, basta um empurrão; mas o oratorio?
--Que tem o oratorio?
--Que tem? Os santos, as sagradas imagens bentas não são cousa que se atire ao chão! Se tão damnada tentação nos tomasse, pediríamos a Deus que nos livrasse della.
Loredano desesperado dessa nova resistencia, cuja força elle conhecia, passeava pela sala de uma ponta á outra.
--Estupidos! murmurava elle. Basta um fragmento de madeira e um pouco de argila para fazê-los recuar! E dizem que são homens! Animaes sem intelligencia, que nem sequer têm o instincto da conservação!...
Alguns momentos decorrêrão: os aventureiros parados esperavão a resolução do seu chefe.
--Tendes medo de tocar nos santos, disse Loredano avançando para elles; pois bem, serei eu que deitarei a parede abaixo. Continuai, e avisai-me quando for tempo.
Emquanto isto se passava, o resto dos aventureiros que ficara no alpendre ouvia a narração de João Feio, que lhes communicava as revelações de mestre Nunes.
Quando elles souberão que Loredano era um frade que abjurára dos seus votos, erguêrão-se furiosos, e quizerão procura-lo e espedaça-lo.
--Que ides fazer? gritou o aventureiro. Não é assim que elle deve acabar; a sua morte ha de ser uma punição, uma terrivel punição. Deixai-me arranjar isto.
--Para que mais demora? respondeu Vasco Affonso.
--Prometto-vos que não haverá demora; hoje mesmo será condemnado; amanhã receberá o castigo de seus crimes.
E porque não hoje?
--Deixemos-lhe o tempo de arrepender-se; é preciso que antes de morrer sinta remorso do que praticou.
Os aventureiros decidirão por fim seguir esse conselho, e esperárão que Loredano apparecesse para se apoderarem delle, e o condemnarem summariamente.
Passou-se um bom espaço de tempo, e nada do italiano sahir; era quasi meio-dia.
Os aventureiros estavão desesperados de sêde; a sua provisão de agua e de vinho, já bastante diminuida depois do sitio dos selvagens, achava-se na despensa, cuja porta Loredano fechara por dentro.
Felizmente descobrirão no quarto do italiano algumas garrafas de vinho, que bebêrão no meio de risadas e chacotas, fazendo brindes ao frade que ião dentro em pouco condemnar á pena de morte.
No meio da hilaridade algumas palavras revelavão o arrependimento que começava a se apoderar delles; fallavão de ir pedir perdão ao fidalgo, de se reunir de novo a elle, e ajuda-lo a bater o inimigo.
Se não fosse a vergonha da má acção que tinhão praticado, correrião a lançar-se ao joelhos de D. Antonio de Mariz immediatamente; mas resolvêrão fazê-lo quando o principal autor da revolta tivesse recebido o castigo do seu crime.
Seria esse o seu primeiro titulo ao perdão que ião supplicar; seria mais a prova da sinceridade do seu arrependimento.
II
O SACRIFICIO
Pery comprehendêra o gesto da india; não fez porém o menor movimento para segui-la.
Fitou nella o seu olhar brilhante e sorrio.
Por sua vez a menina tambem comprehendeu a expressão daquelle sorriso e a resolução firme e inabalavel que se lia na fronte serena do prisioneiro.
Insistio por algum tempo, mas debalde. Pery tinha atirado para longe o arco e as flechas, e recostando-se ao tronco da arvore, conservava-se calmo e impassivel.
De repente o indio estremeceu.
Cecilia apparecêra no alto da esplanada, e lhe acenára; sua mãozinha alva e delicada agitando-se no ar parecia dizer-lhe que esperasse; Pery julgou mesmo ver no rostinho gentil de sua senhora, apezar da distancia, brilhar um raio de felicidade.
Quando com os olhos fitos naquella graciosa visão elle esforçava-se por adivinhar a causa de tão subita alegria, a india soltou um segundo grito selvagem, um grito terrivel.
Tinha pela direcção do olhar do prisioneiro visto Cecilia sobre a esplanada; tinha percebido o gesto da menina, e comprehendêra vagamente a razão por que Pery recusára a liberdade e o seu amor. Precipitou-se sobre o arco que estava atirado ao chão; mas apezar da rapidez desse movimento, quando ella estendia a mão, já Pery tinha posto o pé sobre a arma.
A selvagem, com os olhos ardentes, os labios entreabertos, tremula de ciume e de vingança, levantou sobre o peito do indio a faca de pedra com que lhe cortara os laços ha pouco; mas a arma cahio-lhe da mão, e vacillando apoiou-se no seio que ameaçára.
Pery tomou-a nos braços, deitou-a sobre a relva, e sentou-se de novo junto ao tronco da arvore, tranquillo a respeito de Cecilia, que desapparecêra da esplanada e estava fora de perigo.
Era a hora em que a sombra das montanhas sobe ás encostas, e o jacaré deitado sobre a arêa se aquece aos raios do sol.
O ar estrugio com os sons roucos da inubia e do maracá; ao mesmo tempo um canto selvagem, o canto guerreiro dos Aymorés, misturou-se com a harmonia sinistra daquelles instrumentos ásperos e retumbantes.
A india deitada junto da arvore sobresaltou-se; e erguendo-se rapidamente, acenou ao prisioneiro mostrando-lhe a floresta e supplicando-lhe que fugisse. Pery sorrio como da primeira vez; tornando a mão da menina a fez sentar perto delle, e tirou do pescoço a cruz de ouro que Cecilia lhe havia dado.
Então começou entre elle e a selvagem uma conversa por acenos de que seria difficil dar uma idéa.
Pery dizia á menina que lhe dava aquella cruz como uma lembrança, mas que só depois que elle morresse é que devia tira-la do pescoço. A selvagem entendeu ou julgou entender o que Pery procurava exprimir symbolicamente, e beijou-lhe as mãos em signal de reconhecimento.
O prisioneiro obrigou-a a atar de novo os laços que o ligavão, e que ella no seu generoso impulso de dar-lhe a liberdade havia desfeito.
Nesse momento quatro guerreiros Aymorés dirigirão-se á arvore em que se achava Pery; e segurando as pontas da corda o conduzirão ao campo, onde tudo estava já preparado para o sacrificio.
O indio ergueu-se e caminhou com o passo firme e a fronte alta diante dos quatro inimigos, que não percebêrão o olhar rapido que nessa occasião elle lançou ás pontas da sua tunica de algodão, torcidas em dous nós pequenos.
O campo cortado em ellipse no meio das arvores estava cercado por cento e tantos guerreiros armados em guerra e cobertos de ornatos de pennas.
No fundo as velhas pintadas de listras negras e amarellas, de aspecto horrido, preparavão um grande brasido, lavavão a lage que devia servir de mesa, e afiavão as suas facas de ossos e lascas de pedra.
As moças grupadas de um lado guardavão os vasos cheios de vinho e bebidas fermentadas, que offerecião aos guerreiros quando estes passavão diante dellas entoando o canto de guerra dos Aymorés.
A menina que fôra incumbida de servir ao prisioneiro, e o acompanhára ao lugar do sacrificio, conservava-se a alguma distancia, e olhava tristemente todo esses preparativos; pela primeira vez seu instincto natural parecia relevar-lhe a atrocidade desse costume tradicional de seus pais, a que ella tantas vezes assistira com prazer.
Agora que ia representar como heroina no drama terrivel, e como esposa do prisioneiro devia acompanha-lo até o momento supremo, insultando-lhe a dôr e a desgraça, o seu coração confrangia-se; porque realmente amava Pery, tanto quanto amar era possivel a uma natureza como a sua.
Chegados ao campo, os selvagens que conduzião o prisioneiro passárão as pontas da corda ao tronco de duas arvores, e esticando o laço o ohrigárão a ficar immovel no meio do terreiro. Os guerreiros desfilárão em roda entoando o canto da vingança; as inubias retroárão de novo; os gritos confundirão-se com o som dos maracás, e tudo isto formou um concerto horrivel.
Á medida que se animavão, a cadencia apressava-se, de modo que a marcha triumphal dos guerreiros se tornava uma dansa macabria, uma corrida veloz, uma valsa fantastica, em que todos esses vultos horrendos, cobertos de pennas que brilhavão á luz do sol, passavão como espiritos satanicos envoltos na chamma eterna.
A cada volta que fazia esse sabbat, um dos guerreiros destacava-se do circulo, e adiantando-se para o prisioneiro o desafiava ao combate, e conjurava-o a que désse provas de sua coragem, de sua força e de seu valor.
Pery, sereno e altivo, recebia com um soberbo desdem a ameaça e o insulto, e sentia um certo orgulho pensando que no meio de todos aquelles guerreiros fortes e armados, elle, o prisioneiro, o inimigo que ia ser sacrificado, era o verdadeiro, o unico vencedor.
Talvez pareça isto incomprehensivel; mas o facto é que Pery o pensava, e que só o segredo que elle guardava no fundo de sua alma podia explicar a razão desse pensamento e a tranquillidade com que esperava o supplicio.
A dansa continuava no meio dos cantos, dos alaridos e das constantes libações, quando de repente tudo emmudeceo, e o mais profundo silencio reinou no campo dos Aymorés.
Todos os olhos se voltárão para uma cortina de folhas que occultava uma especie de cabana selvagem, construida a um lado do campo em face do prisioneiro.
Os guerreiros se afastárão, as folhas se abrirão, e entre aquellas franjas de verdura assomou o vulto gigantesco do velho cacique. Duas pelles de tapir ligadas sobre os hombros cobrião seu corpo como uma tunica; um grande cocar de pennas escarlates ondeava sobre a sua cabeça, e realçava-lhe a grande estatura.
Tinha o rosto pintado de uma cor esverdeada e oleosa, e o pescoço cingido de uma colleira feita com as pennas brilhantes do tucano; no meio desse aspecto horrendo os seus olhos brilhavão como dous fogos vulcanicos no seio das trevas. Trazia na mão esquerda a tagapema coberta de plumas resplandecentes, e amarrada ao punho direito uma especie de busina formada de um osso enorme da canella de algum inimigo morto em combate.
Chegando á entrada do campo o velho selvagem levou á bocca o seu instrumento barbaro, e tirou delle um som estrondoso; os Aymorés saudárão com gritos de alegria e de enthusiasmo o apparecimento do vencedor.
Ao cacique cabia a honra de ser o algoz da victima, o matador do prisioneiro; seu braço devia consummar a grande obra da vingança, esse sentimento que constituia para aquelles povos fanaticos a verdadeira gloria.
Apenas cessárão as acclamações com que foi acolhida a entrada do vencedor, um dos guerreiros que o acompanhavão adiantou-se e fincou na extrema do campo uma estaca destinada a receber a cabeça do inimigo, logo que ella fosse decepada do corpo.
Ao mesmo tempo a joven india que servia de esposa ao prisioneiro, tirou o tacape que pendia do hombro de seu pai, e caminhando para Pery desligou-lhe os braços e offereceu-lhe a arma, fitando nelle um olhar triste, ardente e cheio de amarga exprobação.
Nesse olhar dizia-lhe que se tivesse aceitado o amor que lhe offerecêra, e com o amor a vida e a liberdade, ella não seria obrigada pelo costume tradicional de sua nação a escarnecer assim da sua morte.