O Guarany: romance brazileiro, Vol. 1 (of 2)

Part 13

Chapter 133,946 wordsPublic domain

As duas moças havião chegado ao valle, e seguião por entre as moitas de arvoredo que bordavão o campo formando um gracioso labyrintho. Ás vezes Cecilia desprendia-se do braço de sua prima, e correndo pela vereda sinuosa que recortava as moitas de arbustos, escondia-se por detraz da folhagem, e fazia com que Isabel a procurasse debalde por algum tempo. Quando sua prima por fim conseguia descobri-la, rião-se ambas, abraçavão-se e continuavão o innocente folguedo.

Uma occasião porém Cecilia deixou que D. Antonio e Alvaro se aproximassem; a menina tinha um olhar tão travesso e um sorriso tão brejeiro, que Isabel ficou inquieta.

--Esqueci-me dizer-vos uma cousa, meu pai.

--Sim! E o que é?

--Um segredo.

--Pois vem contar-m'o.

Cecilia separou-se de Isabel; chegando-se para o fidalgo, tomou-lhe o braço.

--Tende paciencia por um instante, Sr. Alvaro, disse ella voltando-se; conversai com Isabel; dizei-lhe vossa opinão sobre aquelle lindo bracelete... Ainda não o vistes?

E sorrindo afastou-se ligeiramente com seu pai; o segredo que ella tinha, era a travessura que acabava de praticar, deixando Alvaro e Isabel sós, depois de lhes ter lançado uma palavra, que devia produzir o seu effeito.

A emoção que sentirão os dous moços ouvindo o que dissera Cecilia é impossivel de descrever.

Isabel suspeitou o que se tinha passado; conheceu que Cecilia a enganára para obriga-la a aceitar o presente de Alvaro; o olhar que sua prima lhe lançára afastando-se com seu pai, lh'o tinha revelado.

Quanto á Alvaro, não comprehendia cousa alguma, senão que Cecilia tinha-lhe dado a maior prova do seu desprezo e indifferença; mas não podia adivinhar a razão por que ella associara Isabel a esse acto que devia ser um segredo entre ambos.

Ficando sós em face um do outro, não ousavão levantar os olhos; avista de Alvaro estava cravada no bracelete; Isabel, tremula, sentia o olhar do moço, e soffria como se um annel de ferro em braza cingisse o seu braço mimoso.

Assim estiverão tempo esquecido; por fim Alvaro desejoso deter uma explicação, animou-se a romper o silencio:

--Que significa tudo isto, D. Isabel? perguntou elle supplicante.

--Não sei!... Fui escarnecida! respondeu Isabel balbuciando.

--Como?

--Cecilia fez-me acreditar que este bracelete vinha de seu pai, para me fazer aceita-lo; pois se eu soubesse...

--Que vinha de minha mão! Não aceitarieis?

--Nunca!... exclamou a moça com fogo.

Alvaro admirou-se do tom com que Isabel proferio aquella palavra; parecia dar um juramento.

--Qual o motivo? perguntou depois de um momento.

A moça fitou nelle os seus grands olhos negros; havia tanto amor e tanto sentimento nesse olhar profundo, que se Alvaro o comprehendesse teria a resposta á sua pergunta. Mas o cavalheiro não comprehendeu nem o olhar nem o silencio de Isabel; adivinhava que havia nisto um mysterio, e desejava esclarecê-lo.

Aproximou-se da moça e disse-lhe com a voz doce e triste:

--Perdoai-me, D. Isabel; sei que vou commetter uma indiscrição; mas o que se passa exige uma explicação entre nós. Dizeis que fostes escarnecida; tambem eu o fui. Não achais que o melhor meio de acabar com isto, seja o fallarmos francamente um ao outro?

Isabel estremeceu.

--Fallai: eu vos escuto, Sr. Alvaro.

--Escuso confessar-vos o que já adivinhastes; sabeis a historia deste bracelete, não é verdade?

--Sim! balbuciou a moça.

--Dizei-me pois como elle passou do lugar onde estava ao vosso braço. Não penseis que vos censuro por isso, não; desejo apenas conhecer até que ponto zombão de mim.

--Já vos confessei o que sabia. Cecilia enganou-me.

--E a razão que teve ella para enganar-vos não atinais?

--Oh! se atino.... exclamou Isabel reprimindo as palpitações do coração.

--Deizei-m'a então. Eu vo-lo peço e supplico!

Alvaro tinha deitado um joelho em terra, e tomando a mão da moça implorava della a palavra que devia explicar-lhe o acto de Cecilia, e revelar-lhe a razão que tivera a menina para rejeitar a prenda que elle havia dado.

Conhecendo esta razão talvez podesse desculpar-se, talvez podesse merecer o perdão da menina; e por isso pedia com instancia a Isabel que lhe declarasse o motivo porque Cecilia a havia enganado.

A moça vendo Alvaro a seus pés, supplicante, tinha-se tornado livida; seu coração batia com tanta violencia que via-se o peito de seu vestido elevar-se com as palpitações fortes e apressadas: o seu olhar ardente cahia sobre o moço e o fascinava.

--Fallai! dizia Alvaro; fallai! Sois boa; e não me deixeis soffrer assim, quando uma palavra vossa pode dar-me a calma e o socego.

--E se essa palavra vos fizesse odiar-me? balbuciou a moça.

--Não tenhais esse receio; qualquer que seja a desgraça que me annunciardes, será bem vinda pelos vossos labios; é sempre um consolo receber-se a má nova de voz amiga!

Isabel ia fallar, mas parou estremecendo:

--Ah! não posso! seria preciso confessar-vos tudo!

--E porque não confessais? Não vos mereço confiança? Tendes em mim um amigo.

--Se fosseis!...

E os olhos de Isabel scintillárão.

--Acabai!

--Se me fosseis amigo, me havieis de perdoar.

--Perdoar-vos, D. Isabel! Que me fizestes vós para que eu vos perdoe? disse Alvaro admirado.

A moça teve medo do que havia dito; cobrio o rosto com as mãos.

Todo este dialogo, vivo, animado, cheio de reticencias e hesitações da parte de Isabel, tinha excitado a curiosidade do cavalheiro; seu espirito perdia-se n'um dedalo de duvidas e incertezas.

Cada vez o mysterio se obscurecia mais; a principio Isabel dizia que tinhão escarnecido della; agora dava a entender que era culpada: o cavalheiro resolveu a todo o transe penetrar o que para elle era um enigma.

--D. Isabel!

A moça tirou as mãos do rosto; tinha as faces inundadas de lagrimas.

--Porque chorais? perguntou Alvaro soprezo.

--Não m'o pergunteis!...

--Escondeis-me tudo! Deixais-me na mesma duvida! O que me fizestes vós? Dizei!

--Quereis saher? perguntou a moça com exaltação.

--Tanto tempo ha que supplico-vos!

Alvaro tomara as duas mãos da moça, e com os olhos fitos nos della esperava emfim uma resposta.

Isabel estava branca como a cambraia do seu vestido; sentia a pressão das mãos do moço nas suas e o seu halito que vinha bafejar-lhe as faces.

--Me perdoareis?

--Sim! Mas porque?

--Porque...

Isabel pronunciou esta palavra n'uma especie de delirio; uma revolução subita se tinha operado em toda a sua organisação.

O amor profundo, vehemente que dormia no intimo de sua alma, a paixão abafada e reprimida, por tanto tempo, acordára, e quebrando as cadêas que a retinhão erguia-se impetuosa e indomavel.

O simples contacto das mãos do moço tinha causado essa revolução; a menina timida ia transformar-se na mulher apaixonada: o amor ia transbordar do coração como a torrente caudalosa do leito profundo.

As faces se abrazárão; o seio dilatou-se; o olhar envolveu o moço, ajoelhado a seus pés, em fluidos luminosos; a boca entreaberta parecia esperar, para pronuncia-la, a palavra que sua alma devia trazer aos labios.

Alvaro fascinado a admirava; nunca a vira tão bella; o moreno suave do rosto e do collo da moça illuminava-se de reflexos doces e tinha ondulações tão suaves, que o pensamento ia, sem querer, enleiar-se nas curvas graciosas como para sentir-lhe o contacto, espreguiçar-se pelas fórmas palpitantes.

Tudo isto passára rapidamente emquanto Isabel hesitava ao proferir a primeira palavra.

Por fim vacillou: reclinando sobre o hombro de Alvaro, como uma flor desfallecida sobre a haste, murmurou:

Porque... vos amo!

XII

AS MENSAGENS DE PERY

Alvaro ergueu-se como se os labios da moça tivessem lançado nas suas veias uma gota do veneno subtil dos selvagens que matava com um atomo.

Pallido, atonito, fitava na menina um olhar frio e severo; seu coração leal exagerava a affeição pura que votava a Cecilia a tal ponto, que o amor de Isabel lhe parecia quasi uma injuria; era ao menos uma profanação.

A moça com as lagrimas nos olhos, sorria amargamente; o movimento rapido de Alvaro tinha trocado as posições; agora era ella que estava ajoelhada aos pés do cavalheiro.

Soffria horrivelmente; mas a paixão a dominava; o silencio de tanto tempo queimava-lhe os labios; seu amor precisava respirar, expandir-se, embora depois o desprezo e mesmo o odio o viessem recalcar no coração.

--Promettestes perdoar-me!... disse ella supplicante.

--Não tenho que perdoar-vos, D. Isabel, respondeu o moço erguendo-a; peço-vos unicamente que não fallemos mais de semelhante cousa.

--Pois bem! Escutai-me um momento, um instante só, e juro-vos por minha mãi, que não ouvireis nunca mais uma palavra minha! Se quereis, nem mesmo vos olharei! Não preciso olhar para ver-vos!

E acompanhou estas palavras comum gesto sublime de resignação.

--Que desejais de mim? perguntou o moço.

--Desejo que sejais meu juiz. Condemnai-me depois; a pena vindo de vós será para mim um consolo. M'o negareis?

Alvaro sentio-se commovido por essas palavras soltas com o grito de um desespero surdo e concentrado.

--Não commettestes um crime, nem precisais de juiz; mas se quereis um irmão para consolar-vos, tendes em mim um dedicado e sincero.

--Um irmão!... exclamou a moça. Seria ao menos uma affeição.

--E uma affeição calma e serena que vai bem outras, D. Isabel.

A moça não respondeu; sentio a doce exprobração que havia naquellas palavras; mas sentia tambem o amor ardente que enchia sua alma, e a suffocava.

Alvaro tinha-se lembrado da recommendação de D. Antonio de Mariz; o que a principio fora uma simples compaixão tornou-se sympathia. Isabel era desgraçada desde a infancia; devia pois consola-la, e desde já cumprir a ultima vontade do velho fidalgo, a quem amava e respeitava como pai.

--Não recuseis o que vos peço, disse elle affectuosamente, aceitai-me por vosso irmão.

--Assim deve ser, respondeu Isabel tristemente, Cecilia me chama sua irmã; vós deveis ser meu irmão. Aceito! Sereis bom para mim?

--Sim, D. Isabel.

--Um irmão não deve tratar sua irmã pelo seu nome simplesmente? perguntou ella com timidez.

Alvaro hesitou.

--Sim, Isabel.

A moça recebeu essa palavra como um gozo supremo; parecia-lhe que os labios do cavalheiro, pronunciando assim familiarmente o seu nome, o acariciavão.

--Obrigada! Não sabeis que bem me faz ouvir-vos chamar-me assim. É preciso ter soffrido muito para que a felicidade esteja em tão pouco.

--Contai-me as vossas magoas.

--Não; deixai-as comigo; talvez depois as conte; agora só quero mostrar-vos que não sou tão culpada como pensais.

--Culpada! Em que!

--Em querer-vos, disse Isabel corando.

Alvaro tornou-se frio e reservado.

--Sei que vos incommodo: mas é a primeira e a ultima vez; ouvi-me, depois ralhareis comigo, como um irmão com sua irmã.

A voz de Isabel era tão doce, seu olhar tão supplicante, que Alvaro não pode resistir.

--Fallai, minha irmã.

--Sabeis o que eu sou; uma pobre orphã que perdeu sua mãi muito cedo, e não conheceu seu pai. Tenho vivido da compaixão alheia; não me queixo, mas soffro. Filha de duas raças inimigas devia amar a ambas; entretanto minha mãi desgraçada fez-me odiar a uma, o desdem com que me tratão fez-me desprezar a outra.

--Pobre moça! murmurou Alvaro lembrando-se segunda vez das palavras de D. Antonio de Mariz.

--Assim isolada no meio de todos, alimentando apenas o sentimento amargo que minha mãi deixára no meu coração, sentia a necessidade de amar alguma cousa. Não se póde viver sómente de odio e desprezo!...

--Tendes razão, Isabel.

--Inda bem que me approvais. Precisava amar; precisava de uma affeição que me prendesse á vida. Não sei como, não sei quando, comecei a amar-vos; mas em silencio, no fundo de minha alma.

A moça embebeu um olhar nos olhos de Alvaro.

--Isto me bastava. Quando vos tinha olhado horas e horas, sem que o percebesseis, julgava-me feliz; recolhia-me com a minha doce imagem, e conversava com ella, ou adormecia, sonhando bem lindos sonhos.

O cavalheiro sentia-se perturbado; mas não ousava interromper a Isabel.

--Não sabeis que segredos tem esse amor que vive só de suas illusões, sem que um olhar, uma palavra o alimente. A mais pequenina cousa é um prazer, uma ventura suprema. Quantas vezes não acompanhava o raio de lua que entrava pela minha janella e que vinha a pouco e pouco se aproximando de mim; julgava vêr naquella doce claridade o vosso semblante, e esperava tremula de prazer como se vos esperasse. Quando o raio se chegava, quando a sua luz assetinada cahia sobre mim, sentia um gozo immenso; acreditava que me sorrieis, que vossas mãos aperta vão as minhas, que vosso rosto se reclinava para mim, e vossos labios me fallavão...

Isabel pendeu a cabeça languida sobre o hombro de Alvaro; o cavalheiro palpitando de emoção passou o braço pela cintura da moça e apertou-a ao coração; mas de repente afastou-se com um movimento brusco.

--Não vos arreceieis de mim, disse ella com melancolia, sei que não me deveis amar. Sois nobre e generoso; o vosso primeiro amor serão ultimo. Podeis-me ouvir sem temor.

--Que vos resta a dizer-me ainda? perguntou Alvaro.

--Resta a explicação que ha pouco me pedieis.

--Ah! emfim!

Isabel contou então como apezar de toda a força de vontade com que guardava o seu segredo se havia trahido; contou a conversa de Cecilia, e o modo por que a menina lhe fizera aceitar o bracelete.

--Agora sabeis tudo; o meu affecto vai de novo entrar no meu coração, donde nunca sahiria se não fosse a fatalidade que fez com que vos aproximasseis de mim, e me dirigisseis algumas palavras doces. A esperança para as almas que não a conhecêrão ainda, illude tanto e fascina, que devo merecer-vos desculpa. Esquecei-me, meu irmão, antes que lembrar-vos de mim para odiar-me!

--Fazeis-me uma injustiça, Isabel; não posso é verdade ser para vós senão um irmão, mas esse titulo sinto que o mereço pela estima e pela affeição que me inspirais. Adeus, minha boa irmã.

O moço pronunciou estas ultimas palavras com uma terna effusão, e, apertando a mão de Isabel, desappareceu: precisava estar só para reflectir sobre o que lhe acontecia.

Estava agora convencido que Cecilia não o amava, e nunca o havia amado; e esta descoberta tinha lugar no mesmo dia em que D. Antonio de Mariz lhe dava a mão de sua filha!

Sob o peso da magoa dolorosa, como é sempre a primeira magoa do coração, o cavalheiro afastou-se distrahido, com a cabeça baixa; caminhou sem direcção, seguindo a linha que traçavão os grupos de arvores, destacados aqui e alli sobre a campina.

Estava quasi a anoitecer: a sombra pallida e descorada do crepusculo estendia-se como um manto de gaze sobre a natureza; os objectos ião perdendo a forma, a cor, e ondulavão no espaço vagos e indecisos.

A primeira estrella engolfada no azul do céo luzia a furto como os olhos de uma menina que se abrem ao acordar, e cerrão-se outra-vez temendo a claridade do dia: um grillo escondido no toco de uma arvore começava a sua canção; era o trovador insecto saudando a aproximação da noite.

Alvaro continuava o seu passeio, sempre pensativo, quando de repente sentio um sopro vivo bafejar-lhe o rosto; erguendo os olhos viu diante de si uma longa flexa fincada no chão, e que ainda oscillava com o movimento que lhe tinha imprimido o arco.

O moço recuou um passo e levou a mão á cinta; logo reflectindo aproximou-se da seta e examinou a plumagem de que estava ornada; erão de um lado pennas de azulão e do outro pennas de garça.

Azul e branco erão as côres de Pery; erão as cores dos olhos e do rosto de Cecilia.

Um dia a menina, semelhante a uma gentil castellã da media idade, tinha-se divertido em explicar ao indio, como os guerreiros que servião uma dama, costumavão usar nas armas de suas côres.

--Tu dás a Pery as tuas cores, senhora? disse o indio.

--Não tenho, respondeu a menina; mas vou tomar umas para te dar; queres?

--Pery te pede.

--Quaes achas mais bonitas?

--A de teu rosto, e a de teus olhos.

Cecilia sorrio.

--Toma-as; eu te as dou.

Desde este dia, Pery enramou todas as suas settas de pennas azues e brancas; seus ornatos, além de uma faxa de plumas escarlates que fôra tecida por sua mãi, erão ordinariamente das mesmas côres.

Foi por esta razão que Alvaro, vendo a plumagem da setta, tranquillisou-se; conheceu que era de Pery, e comprehendeu o sentido da phrase symbolica que o indio lhe mandava pelos ares.

Com effeito aquella flecha na linguagem de Pery não era mais do que um aviso dado em silencio e de uma grande distancia; uma carta ou mensageira muda, uma simples interjeição: _Alto_!

O moço esqueceu os seus pensamentos e lembrou-se do que Pery lhe havia dito pela manhã; naturalmente o que acabava de fazer tinha relação com esse mysterio que apenas deixara entrever.

Correu os olhos pelo espaço que se estendia diante delle, e sondou com o olhar as moitas que o cercavão; não viu nada que merecesse attenção, não percebeu um signal que lhe indicasse a presença do indio.

Alvaro resolveu pois esperar; e parando junto da flecha, cruzou os braços, e com os olhos fitos na linha escura da matta que se recortava no fundo azul do horizonte, esperou.

Um instante depois uma pequena setta açoutando o ar veio cravar-se no tope da primeira, e abalou-a com tal força que a haste inclinou-se; Alvaro comprehendeu que o indio queria arrancar a flecha, e obedeceu á ordem.

Immediatamente terceira seita cahia dous passos á direita do cavalheiro, e outras forão-se succedendo na mesma direcção de duas em duas braças até que uma mergulhou-se n'um arvoredo basto que ficava a trinta passos do lugar onde parára a principio.

Não era difficil desta vez comprehender a vontade de Pery; Alvaro, que acompanhava as settas á proporção que cahião, e que sabia indicarem ellas o lugar onde devia parar, apenas viu a ultima sumir-se no arvoredo, escondeu-se por entre a folhagem.

Dahi, com pequeno intervallo, viu tres vultos que passavão pouco mais ou menos pelo logar que ha pouco havia deixado; Alvaro não os pôde conhecer por causa da ramagem das arvores, mas viu que caminhavão cautelosamente, e pareceu-lhe que tinhão as pistolas em punho.

Os vultos afastárão-se dirigindo-se á casa; o cavalheiro ia segui-los, quando os folhas se abrirão, e Pery resvallando como uma sombra, sem fazer o menor rumor, aproximou-se delle, e disse-lhe ao ouvido uma palavra.

--São elles.

--Elles quem?

--Os inimigos brancos.

--Não te entendo.

--Espera: Pery volta.

E o indio desappareceu de novo nas sombras da noite que avançava rapidamente.

XIII

TRAMA

Tornemos ao lugar onde deixámos Loredano e seus dois companheiros.

O italiano, depois que Alvaro e Pery se afastárão, levantou-se; passada a primeira emoção, sentira um accesso de raiva e desespero por lhe escaparem os seus inimigos.

Um instante lembrou-se de chamar os complices para atacar o cavalheiro e o indio; mas essa idéa desvaneceu-se logo; o aventureiro conhecia os homens que o seguião; sabia que podia fazer delles assassinos, mas nunca homens de energia e resolução.

Ora, os dous inimigos que tinha a combater, erão respeitaveis; e Loredano temeu comprometter ainda mais a sua causa, já muito mal parada. Devorou pois em silencio a sua raiva, e começou a reflectir nos meios de sahir da posição difficil em que se achava.

Neste meio tempo Ruy Soeiro e Bento Simões vinhão se aproximando receiosos do que tinhão visto, e temendo o menor incidente que complicasse a situação.

Loredano e seus companheiros olhárão-se em silencio um momento; havia nos olhos desses ultimos uma interrogação muda e inquieta, a que respondia perfeitamente o rosto pallido e contrahido do italiano.

--Não era elle!... murmurou o aventureiro com a voz surda.

--Como sabeis?

--Se fosse, acreditais que me deixasse a vida?

--É verdade; mas quem foi então?

--Não sei; porém agora pouco importa. Quem quer que fosse, é um homem que sabe o nosso segredo, e pode denuncia-lo, se já não o fez.

Um homem?... murmurou Bento Simões que até então se conservara silencioso.

--Sim; um homem. Quereis que fosse uma sombra?

--Uma sombra não, mas um espirito! acudío o aventureiro.

O italiano sorrio de escarneo.

--Os espiritos têm mais que fazer para se occuparem com o que vai por este mundo; guardai as vossas abusões, e pensemos seriamente no partido que devemos tomar.

--Lá quanto a isto, Loredano, é escusado; ninguem me tira que anda em tudo isto uma cousa sobrenatural.

--Quereis calar-vos, estúpido carola! replicou o italiano com impaciencia.

--Estupido!... Estupido sois vós que não vistes que não ha ouvido de creatura que podesse ouvir as nossas palavras, nem voz humana que saia da terra. Vinde! E vou mostrar-vos se o que digo é ou não a verdade.

Os dous acompanhárão Bento Simões e voltárão á touça de cardos, onde tivera lugar a sua entrevista.

--Ide, Ruy, e fallai á guela despregada para vêr se Loredano ouve uma palavra sequer.

Com effeito a experiencia mostrou-lhes o que Pery tinha conhecido; que o som da voz entaipado dentro daquella especie de tubo, se elevava e perdia no ar, sem que dos lados se podesse perceber a menor phrase. Se porém o italiano se tivesse collocado sobre o formigueiro que penetrava até ao chão onde ha pouco estavão sentados, teria tido a explicação da scena anterior.

--Agora, disse Bento Simões, entrai; eu gritarei e vereis que a palavra vos passará pela cabeça e não sahirá da terra.

--Quanto a isto pouco se me dá, respondeu o italiano. A outra observação, sim, tranquillisa-me. O homem que nos ameaçou não ouvio; desconfia apenas.

--Ainda insistis em que fosse um homem?

--Escutai, amigo Bento Simões; ha uma cousa de que tenho mais medo do que de uma cobra; é de um homem visionario.

--Visionario! dizei crente!

--Um vale outro. Visionario ou crente, se me fallais outra vez em espiritos e milagres, prometto-vos que ficareis neste lugar onde servireis de carniça aos urubús.

O aventureiro tornou-se esverdinhado; não era a idéa da morte e sim da pena eterna que segundo uma crença religiosa, soffrem as almas cujos corpos ficão insepultos, o que mais o horrorisava.

--Pensastes?

--Sim.

--Admittis que fosse um homem?

--Admitto tudo.

--Jurais?

--Juro.

--Sobre...

--Sobre minha salvação.

O italiano soltou o braço do miseravel, que cahio de joelhos pedindo ao Deus que offendia perdão para o perjurio que acabava de commetter.

Ruy Soeiro voltou: os tres seguirão calados o caminho que tinhão feito; Loredano pensativo, seus companheiros cabisbaixos.

Sentárão-se á sombra de uma arvore; ahi permanecêrão quasi uma hora, sem saber o que devião fazer, nem o que podião esperar. A posição era critica; reconhecião que se achavão n'um desses lances da vida, em que um passo, um movimento, precipita o homem no fundo do abysmo, ou o salva da morte que vai cahir sobre elle.

Loredano media a situação com a audacia e energia que nunca o abandonava nas occasiões extremas; uma luta violenta se travára neste homem, só tinha agora um sentimento, uma fibra; era a sêde ardente do gozo, sensualidade exacerbada pelo ascetismo do claustro e o isolamento do deserto. Comprimida desde a infancia, a sua organisação se expandira com vehemencia no meio desse paiz vigoroso, aos raios do sol ardente que fazia borbulhar o sangue.

Então, no delirio dos instinctos materiaes, surgirão duas paixões violentas.

Uma era a paixão do ouro; a esperança de poder um dia deleitar-se na contemplação do thesouro fabuloso que como Tantalo elle ia tocar e fugia-lhe.

A outra era a paixão do amor; a febre que lhe requeimava o sangue quando via aquella menina innocente e candida, que parecia não dever inspirar senão affeições castas.

A luta que naquelle momento o agitava dava-se entre essas duas paixões. Devia fugir e salvar o seu thesouro, perdendo Cecilia? Devia ficar e arriscar a vida para saciar o seu desejo infrene?

Ás vezes dizia comsigo que bastava-lhe a riqueza para poder escolher no mundo uma mulher que amasse; outras parecia-lhe que o universo inteiro sem Cecilia ficaria deserto, e inutil lhe seria todo o ouro que ia conquistar.

Por fim ergueu a cabeça. Seus companheiros esperavão uma palavra sua como o oraculo do seu destino; preparárão-se para ouvi-lo.