O Guarany: romance brazileiro, Vol. 1 (of 2)

Part 12

Chapter 123,961 wordsPublic domain

--Obrigado, Alvaro, obrigado, meu filho, disse D. Antonio sorrindo; quero acreditar nas vossas palavras. Comtudo julgareis que é prudente da parte de um homem que chega ao ultimo quartel da vida, dispor a sua ultima vontade, e fazer o seu testamento.

--O vosso testamento, meu pai! disse D. Diogo pallido.

--Sim: a vida pertence a Deus, e o homem que pensa no futuro, deve preveni-lo. É costume encarregar-se isto a um escriba; nem o tenho aqui, nem o julgo necessario. Um fidalgo não póde confiar melhor a sua ultima vontade do que a duas almas nobres e leaes como as vossas. Perde-se um papel, rompe-se, queima-se; o coração de um cavalheiro que tem sua espada para defendê-lo e seu dever para guia-lo, é um documento vivo e um executor fiel. Este será pois o meu testamento. Ouvi-me.

Os dous cavalheiros conhecêrão pela firmeza com que fallava D. Antonio, que sua resolução era inabalavel; dispuzerão-se a ouvi-lo com uma emoção de tristeza e respeito.

--Não trato de vós, D. Diogo, a minha fortuna pertence-vos como chefe da familia que sereis; não trato de vossa mãi, porque perdendo um esposo restar-lhe-ha um filho devotado: amo-vos a ambos, e vos bem-direi na ultima hora. Ha porém duas cousas que mais prezo neste mundo, duas cousas sagradas que devo zelar como um thesouro ainda mesmo depois que me partir desta vida. É a felicidade de minha filha, e a nobreza do meu nome; uma foi presente que recebi do céo, o outro legado que me deixou meu pai.

O fidalgo fez pausa, e volveu um olhar do rosto triste de D. Diogo para o semblante de Alvaro, que estava em extraordinaria agitação.

--A vós, D. Diogo, transmitto o legado de meu pai; estou convencido que conservareis o seu nome tão puro como a vossa alma, e vos esforçareis por eleva-lo, servindo uma causa santa e justa. A vós, Alvaro, confio a felicidade de minha Cecilia; e creio que Deus enviando-vos a mim, fazem já dez annos, não quiz senão completar o dom que me havia concedido.

Os dous moços tinhão deitado um joelho em terra, e beijavão cada uma das mãos do velho fidalgo, que collocado no meio delles envolvia-os n'um mesmo olhar de amor paternal.

--Erguei-vos, meus filhos, abraçai-vos como irmãos, e ouvide-me ainda.

D. Diogo abrio os braços, e apertou Alvaro ao peito; um instante os dous corações nobres baterão um de encontro ao outro.

--O que me resta dizer-vos é difficil; custa sempre confessar uma falta, ainda mesmo quando se falla a almas generosas. Tenho uma filha natural: a estima que voto a minha mulher e o receio de fazer essa pobre menina corar de seu nascimento, obrigárão-me a dar-lhe em vida o titulo de sobrinha.

--Isabel?... exclamou D. Diogo.

--Sim, Isabel é minha filha. Peço-vos a ambos que a trateis sempre como tal; que a ameis como irmã, e a rodeieis de tanto affecto e carinho, que ella possa ser feliz, e perdoar-me a indifferença que lhe mostrei e a infelicidade involuntaria que causei á sua mãi.

A voz do velho fidalgo tornou-se um tanto tremula e commovida; sentia-se que uma recordação dolorosa, adormecida no fundo do coração, havia despertado.

--Pobre mulher!... murmurou elle.

Levantou-se, passeou pelo aposento, e conseguindo dominar a sua emoção, voltou aos dous moços.

--Eis a minha ultima disposição; sei que a cumprireis; não vos peço um juramento; basta-me a vossa palavra.

Diogo estendeu a mão, Alvaro levou a sua ao coração: D. Antonio, que comprehendeu tudo quanto dizia essa muda promessa, abraçou-os.

--Agora deixai a tristeza; quero-vos risonhos; eu o estou, vêde! A tranquillidade sobre o futuro vai remoçar-me de novo; e esperareis muito tempo talvez, antes que tenhais de executar a minha vontade, que até lá fica sepultada no vosso coração, como testamento que é.

--Assim o tinha entendido, disse Alvaro.

--Pois então, replicou o fidalgo sorrindo, deveis ficar entendendo tambem um ponto; é que talvez me incumba eu mesmo de realisar uma das partes do meu testamento. Sabeis qual?

--A da minha felicidade!... respondeu o moço córando.

D. Antonio apertou-lhe a mão.

--Estou contente e satisfeito, disse o fidalgo; pena é que tenha um triste dever a cumprir. Sabeis de Pery, Alvaro?

--Vi-o ha pouco.

--Ide e mandai-o a mim.

O moço retirou-se.

--Fazei chamar vossa mãi e vossa irmã, meu filho.

D. Diogo obedeceu.

O fidalgo sentou-se á mesa e escreveu n'uma tira de pergaminho, que fechou com um retroz e sellou com as suas armas.

D. Lauriana e Cecilia entrárão acompanhadas por D. Diogo.

--Sentai-vos, minha mulher.

D. Antonio reunia sua familia para dar uma certa solemnidade ao acto que ia praticar.

Quando Cecilia entrou, elle perguntou-lhe ao ouvido:

--Que queres tu dar-lhe?

A menina comprehendeu immediatamente; a affeição pouco commum que tinhão a Pery, a gratidão que lhe votavão, era uma especie de segredo entre esses dous corações; era uma planta delicada que não querião expor ao reparo que causaria aos outros amizade tão sincera por um selvagem.

Ouvindo a pergunta de seu pai, Cecilia, que neste dia tinha soffrido tantas emoções diversas, lembrou-se do que se tratava.

--Como! sempre pretendeis manda-lo embora! exclamou ella.

--É necessario; eu te disse.

--Sim: mas pensei que depois houvesseis resolvido o contrario.

--Impossivel!

--Que mal faz elle aqui?

--Sabes quanto eu o estimo; quando digo que é impossivel, deves crêr-me.

--Não vos agasteis!...

--Assim não te oppões?

Cecilia calou-se.

--Se não queres absolutamente, não se fará; mas tua mãi soffrerá, e eu, porque lhe prometti.

--Não; a vossa palavra antes de tudo, meu pai.

Pery appareceu na porta da sala; uma vaga inquietação resumbrava no seu rosto, quando viu-se no meio da familia reunida.

A sua attitude era respeitosa, mas o seu porte tinha a altivez innata das organisações superiores; seus olhos grandes, negros e limpidos percorrêrão o aposento, e fixárão-se na physionomia veneravel do cavalheiro.

Cecilia prevendo o que se ia passar tinha-se escondido por detraz de seu irmão D. Diogo.

--Pery, acreditas que D. Antonio de Mariz é teu amigo? perguntou o fidalgo.

--Tanto quanto um homem branco pode ser de um homem de outra côr.

--Acreditas que D. Antonio de Mariz te estima?

--Sim; porque o disse e mostrou.

--Acreditas que D. Antonio de Mariz deseja poder pagar-te o que fizeste por elle, salvando sua filha?

--Se fosse preciso, sim.

--Pois bem, Pery; D. Antonio de Mariz, teu amigo, te pede que voltes á tua tribu.

O indio estremeceu.

--Porque pedes isto?

--Porque assim é preciso, amigo.

--Pery entende; estás cançado de dar-lhe hospitalidade!

--Não!

--Quando Pery te disse que ficava não te pedio nada; sua casa é feita de palha em cima de uma pedra; as arvores do matto lhe dão o sustento: sua roupa foi tecida por sua mãi que veio traze-la na outra lua. Pery não te custa nada.

Cecilia chorava; D. Antonio e seu filho estavão commovidos; D. Lauriana mesma parecia enternecida.

--Não digas isto, Pery? Nunca na minha casa te faltaria a menor cousa, se tu não recusasses tudo e não quizesses viver isolado na tua cabana. Mesmo agora dize o que desejas, o que te agrada, e é teu.

--Porque então mandas Pery embora?

D. Antonio não sabia o que responder; e foi obrigado a procurar um pretexto para explicar ao indio o seu procedimento: a idéa da religião, que todos os povos comprehendem, pareceu-lhe a mais propria.

--Tu sabes que nós os brancos temos um Deus, que mora lá em cima, a quem amamos, respeitamos e obedecemos.

--Sim.

--Esse Deus não quer que viva no meio de nós um homem que não o adora, e não o conhece; até hoje lhe desobedecêmos; agora elle manda.

--O Deus de Pery tambem mandava que elle ficasse com sua mãi, na sua tribu, junto dos ossos de seu pai, e Pery abandonou tudo para seguir-te.

Houve um momento de silencio; D. Antonio não sabia o que replicar.

--Pery não te quer aborrecer; só espera a ordem da senhora. Tu mandas que Pery vá, senhora?

D. Lauriana que apenas se tinha fallado em religião voltára ás suas prevenções contra o indio, fez um gesto imperioso a sua filha.

--Sim! balbuciou Cecilia.

O indio abaixou a cabeça; uma lagrima deslisou-lhe pela face.

O que elle soffria é impossivel dizer; a palavra não sabe o segredo das tormentas profundas de uma alma forte e vigorosa, que pela primeira vez sente-se vencida pela dôr.

X

DESPEDIDA

D. Antonio aproximou-se de Pery e apertou-lhe a mão:

--O que eu te devo, Pery, não se paga; mas sei o que devo a mim mesmo. Tu voltas á tua tribu: apezar da tua coragem e esforço, pode a sorte da guerra não te ser favoravel, e cahires em poder de algum dos nossos. Este papel te salvará a vida e a liberdade; acceita-o em nome e de tua senhora e no meu.

O fidalgo entregou ao indio o pergaminho que ha pouco tinha escripto e voltou-se para seu filho:

--Este papel, D. Diogo, assegura a qualquer Portuguez de quem Pery possa ser prisioneiro, que D. Antonio de Mariz e seus herdeiros respondem por elle e pelo seu resgate, qualquer que fôr. É mais um legado que vos deixo a cumprir, meu filho.

--Ficai certo, meu pai, replicou o moço, que saberei responder á essa divida de honra, não só em respeito á vossa memoria, como em satisfação dos meus proprios sentimentos.

--Toda a minha familia aqui presente, disse o fidalgo dirigindo-se ao indio, te agradece ainda uma vez o que fizeste por ella; reunimo-nos todos para te desejarmos a boa volta ao seio dos teus irmãos e ao campo onde nasceste.

Pery fitou o olhar brilhante no rosto de cada uma das pessoas presentes, como para dizer-lhes o adeus que seus labios naquella occasião não podião exprimir.

Apenas seus olhos se fitarão em Cecilia, impellido por uma força invencivel atravessou o aposento e foi ajoelhar-se aos pés de sua senhora.

A menina tirou do peito uma pequena cruz de ouro presa a uma fita preta, e deitou-a no pescoço do indio:

--Quando tu souberes o que diz esta cruz, volta, Pery.

--Não, senhora; de onde Pery vai, ninguem voltou.

Cecilia estremeceu.

O selvagem ergueu-se, e caminhou para D. Antonio de Mariz, que não podia dominar a sua emoção.

--Pery vai partir; tu mandas, elle obedece; antes que o sol deixe a terra, Pery deixará tua casa; o sol voltará amanhã, Pery não voltará nunca. Leva a morte no seio porque parte hoje; levaria a alegria se partisse no fim da lua.

--Por que razão? perguntou D. Antonio; desde que é necessario que nos separemos, tanto deves sentir hoje, como d'aqui a tres dias.

--Não, replicou o indio; tu vais ser atacado amanhã talvez, e Pery estaria comtigo para defender-te.

--Vou ser atacado? exclamou D. Antonio pensativo.

--Sim: podes contar.

E por quem?

--Pelo Aymoré.

--E como sabes isto? perguntou D. Antonio fitando nelle um olhar desconfiado.

O indio hesitou durante um momento; estudava a resposta.

--Pery sabe porque viu o pai e o irmão da india, que teu filho matou sem querer, olharem tua casa de longe, soltarem o grito da vingança, e caminharem para sua tribu.

--E tu o que fizeste?

--Pery viu-os passar; e vem te avisar para que te prepares.

O fidalgo fez com a cabeça um movimento de incredulidade.

--É preciso não te conhecer, Pery, para acreditar no que dizes; tu não podias olhar com indifferença para os inimigos de tua senhora e meus.

O indio sorrio tristemente.

--Erão mais fortes; Pery deixou que passassem.

D. Antonio começou a reflectir; parecia evocar as suas reminiscencias, e combinar certas circumstancias que tinha impressas na memoria.

Seu olhar abaixando-se do rosto de Pery, cahira sobre os hombros; a principio vago e distrahido como o de um homem que medita, começou a fixar-se e a distinguir um ponto vermelho quasi imperceptivel, que apparecia no saio de algodão do indio.

Á proporção que a vista se firmava, e que o objecto se desenhava mais distincto, o semblante do fidalgo se esclarecia, como se tivesse achado a solução de um difficil problema.

--Estás ferido? exclamou o fidalgo de repente.

Pery recuou um passo; mas D. Antonio lançando-se para elle entreabrio o talho de sua camisa, e tirou-lhe as duas pistolas da cinta; examinou-as, e viu que estavão descarregadas.

O cavalheiro depois deste exame cruzou os braços, e contemplou o indio com admiração profunda.

--Pery, disse elle, o que fizeste é digno de ti; o que fazes agora é de um fidalgo. Teu nobre coração pode bater sem envergonhar-se sobre o coração de um cavalheiro portuguez. Tomo-vos a todos por testemunhas, que vistes um dia D. Antonio de Mariz apertar ao seu peito um inimigo de sua raça e de sua religião como a seu igual em nobreza e sentimentos.

O fidalgo abrio os braços e deo em Pery o abraço fraternal consagrado pelos estylos da antiga cavallaria, da qual já naquelle tempo apenas restavão vagas tradições. O indio, de olhos baixos, commovido e confuso, parecia um criminoso em face do juiz.

--Vamos, Pery, disse D. Antonio, um homem não deve mentir, nem mesmo para esconder as suas boas acções. Responde-me a verdade.

--Falla.

--Quem disparou dous tiros junto ao rio, quando tua senhora estava no banho?

--Foi Pery.

--Quem atirou uma flexa que cahio junto de Cecilia?

Um Aymoré, respondeu o indio estremecendo.

--Porque a outra flexa ficou sobre o lugar onde estão os corpos dos selvagens?

Pery não respondeu.

--É escusado negares; tua ferida o diz. Para salvar tua senhora, te offereceste aos tiros dos inimigos; depois os mataste.

--Tu sabes tudo; Pery não é mais preciso: volta á sua tribu.

O indio lançou um ultimo olhar a sua senhora, e caminhou para a porta.

--Pery! exclamou Cecilia, fica; tua senhora manda.

Depois correndo para seu pai, e sorrindo-lhe entre as lagrimas, disse com um tom supplicante:

--Não é verdade? Elle não deve partir mais. Vós não podeis manda-lo embora, depois do que fez por mim?

--Sim! A casa onde habita um amigo dedicado como este, tem um anjo da guarda que vela sobre a salvação de todos. Elle ficará comnosco, e para sempre.

Pery, tremulo e palpitando de alegria e esperança, estava suspenso aos labios de D. Antonio.

--Minha mulher, disse o fidalgo dirigindo-se a D. Lauriana com uma expressão solemne, julgais que um homem que acaba de salvar pela segunda vez vossa filha pondo em risco a sua vida, que, despedido por nós, apezar da nossa ingratidão, a sua ultima palavra é uma dedicação por aquelles que o desconhecem, julgais que este homem deva sahir da casa onde tantas vezes a desgraça teria entrado, se elle ahi não estivera?

D. Lauriana, tirados os seus prejuizos, era uma boa senhora, e quando o seu coração se commovia sabia comprehender os sentimentos generosos. As palavras de seu marido achárão écho em sua alma.

--Não, disse ella levantando-se e dando alguns passos; Pery deve ficar, sou eu que vos peço agora esta graça, Sr. D. Antonio de Mariz; tenho tambem a minha divida a pagar.

O indio beijou com respeito a mão que a mulher do fidalgo lhe estendêra.

Cecilia batia as mãos de contente; os dous cavalheiros sorrião um para o outro, e comprehendião-se. O filho sentia um certo orgulho, vendo seu pai nobre, grande e generoso. O pai conhecia que seu filho o approvava, e seguiria o exemplo que lhe dava.

Neste momento Ayres Gomes appareceu no vão da porta e ficou estupefacto.

O que se passava era para elle uma cousa incomprehensivel, um enigma indecifravel para quem ignorava o que succedêra anteriormente.

Pela manhã, depois do almoço, D. Antonio de Mariz, chegando a uma janella da sala, vira uma grande nuvem negra abater-se sobre a margem do _Paquequer_. A quantidade dos abutres que formavão essa nuvem, indicava que o pasto era abundante; devia ser um ou muitos animaes de grande corpulencia.

Levado pela curiosidade natural em uma existencia sempre igual e monotona, o fidalgo desceu ao rio; encontrou junto da latada de jasmineiros que servia de casa de banho á Cecilia, uma pequena canôa em que atravessou para a margem opposta.

Ahi descobrio os corpos dos dous selvagens que immediatamente reconheceu pertencerem á raça dos Aymorés; viu que tinhão sido mortos com arma de fogo. Nesse momento não se lembrou de cousa alguma senão de que os selvagens ião talvez atacar a sua casa, e um terrivel presentimento cerrou-lhe o coração.

D. Antonio não era supersticioso; mas não podéra eximir-se de um receio vago quando soube da morte que D. Diogo tinha feito involuntariamente e por falta de prudencia; fôra este o motivo por que se tinha mostrado tão severo com seu filho.

Vendo agora o começo da realisação de suas sinistras previsões, aquelle receio vago que a principio sentira, redobrou; auxiliado pela disposição de espirito em que se achava, tornou-se em forte presentimento.

Uma voz interior parecia dizer-lhe que uma grande desgraça pesava sobre sua casa, e a existencia tranquilla e feliz que até então vivêra naquelle ermo ia transformar-se n'uma afflicção que elle não sabia definir. Sob a influencia desse movimento involuntario d'alma, que ás vezes sem motivo nos mostra a esperança ou a dôr, o fidalgo voltou á casa.

Perto viu dous aventureiros a quem ordenou que fossem immediatamente enterrar os selvagens, e guardassem o maior silencio sobre isto; não queria assustar sua mulher.

O mais já sabemos.

Pensou que podia a desgraça, que elle temia, recahir sobre sua pessoa, e quiz dispor a sua ultima vontade, assegurando o socego de sua familia.

Depois, o aviso de Pery lembrou-lhe de repente o que tinha visto; recordou-se das menores circumstancias, combinou-as com o que Isabel havia contado a sua tia, e conheceu o que se tinha passado como se o houvesse presenciado.

A ferida do indio que se abrira com as emoções por que passou durante o momento cruel em que sua senhora o mandava partir, tinha manchado o saio de algodão com um ponto quasi imperceptivel; este ponto foi um raio de luz para D. Antonio.

O escudeiro, o digno Ayres Gomes, que depois de esforços inauditos conseguira arrastar com o pé a sua espada, levanta-la e com ella cortar os laços que o prendião, tinha pois razão de ficar pasmado diante do que se passava.

Pery, beijando a mão de D. Lauriana, Cecilia contente e risonha, D. Antonio de Mariz e D. Diogo contemplando o indio com um olhar de gratidão; tudo isto ao mesmo tempo, era para fazer enlouquecer ao escudeiro.

Sobretudo para quem souber que apenas livre correra á casa unicamente com o fim de contar o occorrido e pedir a D. Antonio de Mariz licença para esquartejar o indio; resolvido se o fidalgo lh'a negasse despedir-se do seu serviço, no qual se conservava havia trinta annos; mas tinha uma injuria a vingar, e bem que lhe custasse deixar a casa, Ayres Gomes não hesitava.

D. Antonio vendo a figura espantada do escudeiro, rio-se; sabia que elle não gostava do indio, e quiz neste dia reconciliar todos com Pery.

--Vem cá, meu velho Ayres, meu companheiro de trinta annos. Estou certo que tu, a fidelidade em pessoa, estimarás apertar a mão de um amigo dedicado de toda a minha familia.

Ayres Gomes não ficou pasmado só; ficou uma estatua. Como desobedecer a D. Antonio que lhe fallava com tanta amizade? Mas como apertar a mão que o havia injuriado?

Se já se tivesse despedido do serviço, seria livre; mas a ordem o pilhára de sorpreza; não podia sophisma-la.

--Vamos, Ayres!

O escudeiro estendeu o braço hirto; o indio apertou-lhe a mão sorrindo.

--Tu és amigo; Pery não te amarrará outra vez.

Por estas palavras todos adivinhárão confusamente o que se tinha passado, e ninguem pôde deixar de rir-se.

--Maldito bugre! murmurava o escudeiro entre dentes; has de sempre mostrar o que és.

Era hora do jantar: o toque soou.

XI

TRAVESSURA

Na tarde desse mesmo domingo em que tantos acontecimentos se tinhão passado, Cecilia e Isabel sahião do jardim com o braço na cintura uma da outra.

Estavão vestidas de branco; lindas ambas, mas tinha cada uma diversa belleza; Cecilia era a graça; Isabel era a paixão; os olhos azues de uma brincavão; os olhos negros da outra brilhavão.

O sorriso de Cecilia parecia uma gota de mel e perfume que distillavão os seus labios mimosos; o sorriso de Isabel era um beijo ideal, que fugia-lhe da boca e ia roçar com as suas azas a alma daquelles que a contemplavão.

Vendo aquella menina loura, tão graciosa e gentil, o pensamento elevava-se naturalmente ao céo, despia-se do envolucro material e lembrava-se dos anginhos de Deus.

Admirando aquella moça morena, languida e voluptuosa, o espirito apegava-se á terra; esquecia o anjo pela mulher; em vez do paraiso, lembrava-lhe algum retiro encantador, onde a vida fosse um breve sonho.

No momento em que sahião do jardim, Cecilia olhava sua prima com um certo arzinho malicioso, que fazia prever alguma travessura das que costumava praticar.

Isabel, ainda impressionada pela scena da manhã, tinha os olhos baixos; parecia-lhe, depois do que se havia passado, que todos, e principalmente Alvaro, ião ler o seu segredo, guardado por tanto tempo no fundo de sua alma.

Entretanto sentia-se feliz; uma esperança vaga e indefinida dilatava-lhe o coração e dava á sua physionomia a expressão de jubilo, expansão da creatura quando acredita ser amada, aureola brilhante que bem se podia chamar _a alma do amor_.

O que esperava ella? Não sabia; mas o ar lhe parecia mais perfumado, a luz mais brilhante, o olhar via os objectos côr de rosa, e o leve roçar da espiguilha do vestido no seu collo avelludado causava-lhe sensações voluptuosas.

Cecilia com o mysterioso instincto da mulher adivinhava, sem comprehender, que alguma cousa de extraordinario se passava em sua prima, e admirava a irradiação de belleza que brilhava no seu moreno semblante.

--Como estás bonita! disse a menina de repente.

E conchegando a face de Isabel aos labios, imprimio nella um beijo suave; a moça respondeu affectuosamente á caricia de sua prima.

--Não trouxeste o teu bracelete? exclamou ella reparando no braço de Cecilia.

É verdade! replicou a menina com um gesto de enfado.

Isabel julgou que este gesto era produzido pelo esquecimento; mas a verdadeira causa foi o receio que teve Cecilia de se trahir.

--Vamos busca-lo?

--Oh! não! ficaria tarde, e perderiamos o nosso passeio.

--Então devo tirar o meu; já não estamos irmãs.

--Não importa; quando voltarmos prometto-te que ficaremos bem irmãs.

Dizendo isto Cecilia sorria maliciosamente.

Tinhão chegado á frente da casa. D. Lauriana conversava com seu filho D. Diogo, emquanto D. Antonio de Mariz e Alvaro passeavão pela esplanada conversando.

Cecilia se dirigio a seu pai, levando Isabel, que ao aproximar-se do joven cavalheiro sentio fugir-lhe a vida.

--Meu pai, disse a menina, nós queremos dar um passeio. A tarde está tão linda! Se eu vos pedisse e ao Sr. Alvaro para que nos acompanhassem?

--Nós fariamos como sempre que tu pedes, respondeu o fidalgo galanteando; cumpririamos a tua ordem.

--Oh! ordem, não, meu pai! Desejo apenas!

--E o que são os desejos de um lindo anginho como tu?

--Assim, nos acompanhais?

--De certo.

--E vós, Sr. Alvaro?

--Eu... obedeço.

Cecilia fallando ao moço não pode deixar de córar; mas venceu a perturbação e seguio com sua prima para a escada que descia ao valle.

Alvaro estava triste; depois da conversa que tivera com Cecilia, vira-a durante o jantar; a menina evitava os seus olhares, e nem uma só vez lhe dirigira a palavra. O moço suppunha que tudo isto era resultado da sua imprudencia da vespera; mas Cecilia mostrava-se tão alegre e satisfeita que parecia impossivel ter conservado a lembrança da offensa de que elle se accusava.

A maneira por que a menina o tratava tinha mais de indifferença do que de resentimento; dir-se-hia que esquecêra tudo que havia passado; nem guardava já a minima lembrança da manhã. Era isto o que tornára Alvaro triste, apezar da felicidade que sentira quando D. Antonio o chamára seu filho; felicidade que ás vezes parecia-lhe um sonho encantador que ia esvaecer-se.