O Guarany: romance brazileiro, Vol. 1 (of 2)

Part 11

Chapter 114,031 wordsPublic domain

Emquanto o escudeiro desfiava esse discurso, meio soliloquio, no qual havia ao menos o merito da franqueza, Pery não o ouvia, embebido como estava em olhar para a janella; depois, desprendendo-se da mão que segurava-lhe o braço, continuou o seu caminho.

Ayres acompanhou-o pisada sobre pisada, com a impassibilidade de um auto mato.

--Que vens fazer? perguntou-lhe o indio.

--E esta! Seguir-te e levar-te á casa; é a ordem.

--Pery vai longe!

--Ainda que vás ao fim do mundo, é o mesmo, filho.

O indio voltou-se para elle com um gesto decidido.

--Pery não quer que tu o sigas.

--Lá quanto a isto, mestre bugre, perdes o teu tempo; por força ainda ninguem levou o filho de meu pai, que bom é que, saibas foi homem de faca e calhão.

--Pery não manda duas vezes!

--Nem Ayres Gomes olha atrás quando executa uma ordem.

Pery, o homem da cega dedicação, reconheceu no escudeiro o homem da obediência passiva; sentio que não havia meio de convencer este executor fiel: assim, resolveu livrar-se delle por meio decisivo.

--Quem te deo a ordem?

--D. Lauriana.

--Para que?

--Para te levar á casa.

--Pery vai só.

--Veremos!

O indio tirou a sua faca.

--Heim!... gritou o escudeiro. A conversa vai agora nesse tom? Se o Sr. D. Antonio não me tivesse prohibido expressamente, eu te mostraria! Mas... Podes matar-me, que eu não arredo pé.

--Pery só mata o seu inimigo, e tu não és; tu teimas, Pery te amarra.

--Como?... Como é lá isso?

O indio começou a cortar com a maior calma um longo cipó que se engrasava pelos galhos das arvores, o escudeiro meio espantado sentia a mostarda subir-lhe ao nariz, e esteve quasi não quasi, atirando-se ao selvagem.

Mas a ordem de D. Antonio era formal; via-se pois obrigado a respeitar o indio; ornais que o digno escudeiro podia fazer era defender-se valentemente.

Quando Pery cortou umas dez braças do cipó que ia enrolando ao pescoço, embainhou a faca, e voltou-se para o escudeiro sorrindo. Ayres Gomes sem trepidar puxou da espada, e pôz-se em guarda, segundo as regras da nobre e liberal arte do jogo de espadão, que professava desde a mais tenra idade.

Era um duello original e curioso, como talvez não tenha havido segundo, combate em que as armas lutavão contra a agilidade, e o ferro contra um vime delgado.

--Mestre Cacique, disse o escudeiro rugando o sobr'olho; deixa-te de partes: porque, palavra de Ayres Gomes, se te encostas, espeto-te na durindana!

Pery estendeu o labio inferior, em signal de pouco caso; e começou a voltear rapidamente em torno do escudeiro, n'um circulo de seis passos de diametro que o punha fora do alcance da espada: a sua tenção era assaltar o adversario pelas costas.

Ayres Gomes apoiado a um tronco, e obrigado a gyrar sobre si mesmo, para defender as costas, sentio a cabeça tontear e vacillou. O indio aproveitou o momento, atirou-se a elle, pilhou-o de costas, agarrou-o pelos dous braços, e passou a amarra-lo ao mesmo tronco da arvore em que estava encostado.

Quando o escudeiro voltou a si da vertigem, uma rodilho de cipós ligava-o ao tronco desde o joelho até os hombros; o indio seguira seu caminho placidamente.

--Bugre de um demo! Perro infernal! gritava o digno escudeiro, tu me pagarás com lingua de palmo!...

Sem prestar a menor attenção á ladainha de nomes injuriosos com que o mimoseava Ayres Gomes, Pery aproximou-se da casa.

Via Cecilia, com a face apoiada na mão, a olhar tristemente o fosso profundo que passava em baixo de sua janella.

A menina, depois do primeiro momento de sorpreza em que adivinhou o ciume de Isabel e o seu amor por Alvaro, conseguio dominar-se. Tinha a nobre altivez da castidade; não quiz deixar ver a sua prima o que sentia nesse momento; era boa tambem, amava Isabel, e não desejava magoa-la.

Não lhe disse pois uma só palavra de exprobração nem de queixa; ao contrario ergueu-a, beijou-a com carinho, e pedio-lhe que a deixasse só.

--Pobre Isabel! murmurou ella; com deve ter soffrido!

Esquecia-se de si para pensar em sua prima; mas as lagrimas que saltárão de seus olhos, e o soluço que fez arfar os seios ruinosos a chamarão ao seu proprio soffrimento.

Ella, a menina alegre e feticeira que só aprendera a sorrir, ella, o anginho do prazer que bafejava tudo quando a rodeava, achou um gozo ineffavel em chorar. Quando enxugou as lagrimas, soffria menos; sentio-se alliviada; pôde então reflectir sobre o que havia passado.

O amor revelava-se para ella sob uma nova forma; até aquelle dia a affeição que sentia por Alvaro era apenas um enleio que a fazia corar, e um prazer que a fazia sorrir.

Nunca se lembrára que esta affeição podesse passar daquillo que era, e produzir outras emoções que não fossem o rubor e o sorriso; o exclusivismo do amor, a ambição de tornar seu e unicamente seu o objecto da paixão, acabava de ser-lhe revelado por sua prima.

Ficou por muito tempo pensativa; consultou o seu coração, e conheceu que não amava assim; nunca a affeição que tinha a Alvaro podia obriga-la a odiar sua prima, a quem queria como irmã.

Cecilia não comprehendia essa luta do amor com os outros sentimentos do coração, luta terrivel em que quasi sempre a paixão victoriosa subjuga o dever, e a razão. Na sua ingenua simplicidade acreditava que podia ligar perfeitamente a veneração que tinha por seu pai, o respeito que votava a sua mãi, o affecto que sentia por Alvaro, o amor fraternal que consagrava a seu irmão e a Isabel, e a amizade que tinha a Pery.

Estes sentimentos erão toda a sua vida; no meio delles sentia-se feliz: nada lhe faltava: tambem nada mais ambicionava. Emquanto podesse beijar a mão de seu pai e de sua mãi, receber uma caricia de seu irmão e de sua prima, sorrir a seu cavalheiro e brincar com o seu escravo, a existencia para ella seria de flôres.

Assustou-se pois com a necessidade de quebrar um dos fios de ouro que tecião os seus dias innocentes e felizes; soffreu com a idéa de ver em luta duas das affeições calmas e serenas de sua alma.

Teria menos um encanto na sua vida, menos uma imagem nos seus sonhos menos uma flor na sua alma; porém não faria a ninguem desgraçado, e sobretudo a sua prima Isabel, que ás vezes se mostrava tão melancolica.

Restavão-lhe suas outras affeições; com ellas pensava Cecilia que a existencia ainda podia sorrir-lhe; não devia tornar-se egoista.

Para assim pensar era preciso ser uma menina pura e isenta como ella; era preciso ter o coração como recente botão, que ainda não começou a desatar-se com o primeiro raio do sol.

Estes pensamentos adejavão ainda na mente de Cecilia emquanto ella olhava pensativa o fosso, onde tinha cahido o objecto que viera modificar a sua existencia.

--Se eu podesse obter essa prenda? dizia comsigo. Mostraria a Isabel como eu a amo e quanto a desejo feliz.

Vendo sua senhora olhar tristemente o fundo do precipicio, Pery comprehendeu parte do que passava no seu espirito; sem poder adivinhar como Cecilia soubera que o objecto tinha cahido alli, percebeu que a moça sentia por isso um pezar.

Nem tanto bastava para que o indio fizesse tudo afim de trazer a alegria ao rostinho de Cecilia: além de que já tinha promettido a Alvaro _endireitar isto_, como elle dizia na sua linguagem simples.

Chegou-se ao fosso.

Uma cortina de musgos e trepadeiras lastrando pelos bordas do profundo precipicio cobria as fendas da pedra: por cima era um topete de verde risonho sobre o qual adejavão as borboletas de côres vivas; em baixo uma cava cheia de limo onde a luz não penetrava.

Ás vezes ouvião-se partir do fundo do balseiro os silvos das serpentes, os pios tristes de algum passaro, que magnetisado ia entregar-se á morte; ou o tanger de um pequeno chocalho sobre a pedra.

Quando o sol estava a pino, como então, via-se entre a relva, sobre o calice das campanulas roxas, os olhos verdes de alguma serpente ou uma linda fita de escamas pretas e vermelhas enlaçando a baste de um arbusto.

Pery pouco se importava com estes habitantes do fosso e com o acolhimento que lhe farião na sua morada; o que o inquietava era o receio de que não tivesse luz bastante no fundo para descobrir o objecto que ia procurar.

Cortou o galho de uma arvore, que pela sua propriedade, os colonisadores chamárão _candêa_; tirou fogo, e começou a descer com o facho acceso. Foi só nessa occasião que Cecilia, embebida nos seus pensamentos, viu defronte de sua janella o indio a descer pela encosta.

A menina assustou-se; porque a presença de Pery lembrou-lhe de repente o que se passára pela manhã; era mais uma affeição perdida.

Dous laços quebrados ao mesmo tempo, dous habitos rompidos um sobre o outro, era muito; duas lagrimas correrão pelas suas faces, como se cada uma fosse vertida pelas cordas do coração que acabavão de ser vibradas.

--Pery!...

O indio levantou os olhos para ella.

--Tu choras, senhora? disse elle estremecendo.

A menina sorrio-lhe; mas com um sorriso tão triste que partia a alma.

--Não chores, senhora; disse o indio supplicante; Pery vai te dar o que desejas.

--O que eu desejo?...

--Sim; Pery sabe.

A moça abanou a cabeça.

--Está alli; e apontou para o fundo do precipicio.

--Quem te disse? perguntou a menina admirada.

--Os olhos de Pery.

--Tu viste?

--Sim.

O indio continuou a descer.

--Que vais fazer? exclamou Cecilia assustada.

--Buscar o que é teu.

--Meu!... murmurou melancolicamente.

--Elle te deo.

--Elle quem?

--Alvaro.

A moça córou; mas o susto reprimio o pejo; abaixando os olhos sobre o precipicio, tinha visto um reptil deslisando pela folhagem e ouvido o murmurio confuso e sinistro que vinha do fundo do abysmo.

--Pery, disse empallidecendo, não desças, volta!

--Não; Pery não volta sem trazer o que te fez chorar.

--Mas tu vais morrer!...

--Não tem medo.

--Pery, disse Cecilia com severidade, tua senhora manda que não desças.

O indio parou indeciso; uma ordem de sua senhora era uma fatalidade para elle: cumpria-se irremissivelmente.

Fitou na moça um olhar timido: nesse momento Cecilia, vendo Alvaro na ponta da esplanada junto da cabana do selvagem, retirava-se para dentro da janella córando.

O indio sorrio.

--Pery desobedece á tua voz, senhora, para obedecer ao teu coração.

E o indio desappareceu sob as trepadeiras que cobrião o precipicio.

Cecilia soltou um grito, e debruçou-se no parapeito da janella.

VIII

O BRACELETE

O que Cecilia viu debruçando-se á janella, gelou-a de espanto e horror.

De todos os lados surgião reptis enormes que, fugindo pelos alcantis, lançavão-se na floresta; as viboras escapavão das fendas dos rochedos, e aranhas venenosas suspendião-se aos ramos das arvores pelos fios da têa.

No meio do concerto horrivel que formava o sibillar das cobras e o estridulo dos grillos, ouvia-se o canto monotono e tristonho da cauan no fundo do abysmo.

O indio tinha desapparecido; apenas se via o reflexo da luz do facho.

Cecilia pallida e tremula julgava impossivel que Pery não estivesse morto e já quasi devorado por esses monstros de mil fórmas: chorava o seu amigo perdido, e balbuciava preces pedindo a Deus um milagre para salva-lo.

Ás vezes fechava os olhos para não ver o quadro terrivel que se desenrolava diante della, e abria-os logo para prescrutar o abysmo e descobrir o indio.

Em um desses momentos um dos insectos que pullulavão no meio da folhagem agitada esvoaçou, e veio pousar no seu hombro; era uma esperança, um desses lindos coleopteros verdes que a poesia popular chama _lavandeira de Deus_.

A alma nos momentos supremos de afflicção suspende-se ao fio mais tenue da esperança; Cecilia sorrio-se entre as lagrimas, tomou a lavandeira entre os seus dedos rosados e acariciou-a.

Precisava esperar; esperou, reanimou-se, e pôde proferir uma palavra ainda com a voz tremula e fraca:

--Pery!

No curto instante que succedeu a este chamado, soffreu uma anciedade cruel; se o indio não respondesse, estava morto; mas Pery fallou:

--Espera, senhora!

Entretanto apezar da alegria que lhe causarão estas palavras, pareceu á menina que erão pronunciadas por um homem que soffria; a voz chegou-lhe ao ouvido surda e rouca.

--Estás ferido? perguntou inquieta.

Não houve resposta; um grito agudo partio do fundo do abysmo, e echoou pelas fragoas; depois o cauan cantou de novo, e uma cascavel silvando bravia passou seguida por uma ninhada de filhos.

Cecilia vacillou; soltando um gemido plangente cahio desmaiada de encontro á almofada da janella.

Quando, passado um quarto d'hora, a menina abrio os olhos, vio diante della Pery que chegava naquelle momento, e lhe apresentava sorrindo uma bolsa de malha de retroz dentro da qual havia uma caixinha de velludo escarlate.

Sem se importar com a joia, Cecilia ainda impressionada pelo quadro horrivel que presenciára, tomou as mãos do indio, e perguntou-lhe com sofreguidão:

--Não estás mordido, Pery?... Não soffres?... Dize!

O indio olhou-a admirado do susto que via no seu semblante.

--Tiveste medo, senhora?

--Muito! exclamou a menina.

O indio sorrio.

--Pery é um selvagem, filho das florestas; nasceu no deserto, no meio das cobras; ellas conhecem Pery e o respeitão.

O indio dizia a verdade; o que acabava de fazer era a sua vida de todos os dias no meio dos campos: não havia nisto o menor perigo.

Tinha-lhe bastado a luz do seu facho, e o canto do cauan que elle imitava perfeitamente, para evitar os reptis venenosos que são devorados por essa ave. Com este simples expediente de que os selvagens ordinariamente se servião quando atravessavão as mattas de noite, Pery descera e tivera a felicidade de encontrar presa aos ramos de uma trepadeira a bolsa de seda, que adivinhou ser o objecto dado por Alvaro.

Soltou então um grito de prazer que Cecilia tomou por grito de dôr: assim como antes tinha tomado o écho do precipicio por uma voz cava e surda.

Entretanto Cecilia que não podia comprehender como um homem passava assim no meio de tantos animaes venenosos sem ser offendido por elles, attribuia a salvação do indio a um milagre, e considerava a acção simples e natural que acabava de praticar como um heroismo admiravel. A sua alegria por ver Pery livre de perigo, e por ter nas suas mãos a prenda de Alvaro foi tal, que esqueceu tudo o que se tinha passado.

A caixinha continha um simples bracelete de perolas; mas estas erão do mais puro esmalte e lindas como perolas que erão; bem mostravão que tinhão sido escolhidas pelos olhos de Alvaro, e destinadas ao braço de Cecilia.

A menina admirou-as um momento com o sentimento de faceirice que é innato na mulher, e lhe serve de setimo sentido; pensou que devia ir-lhe bem esse bracelete; levada por esta idéa cingio-o ao braço, e mostrou a Pery que a contemplava satisfeito de si mesmo:

--Pery sente uma cousa.

--O que?

--Não ter contas mais bonitas do que estas para dar-te.

--E porque sentes isto?

--Porque te acompanharião sempre.

Cecilia sorrio; ia fazer uma travessura.

Assim, tu ficarias contente se tua senhora em vez de trazer este bracelete, trouxesse um presente dado por ti?

--Muito.

--E o que me dás tu para que eu me faça bonita? perguntou a menina gracejando.

O indio correu os olhos ao redor de si e ficou triste; podia dar a sua vida, que de nada valia; mas onde iria elle, pobre selvagem, buscar um adorno digno de sua senhora!

Cecilia teve pena do seu embaraço.

--Vai buscar uma flor que tua senhora deitará nos seus cabellos, em vez deste bracelete que ella nunca deitará no seu braço.

Estas ultimas palavras forão ditas com um tom de energia, que revelava a firmeza do caracter desta menina; ella fechou outra vez o bracelete na caixa, e ficou um momento melancolica e pensativa.

Pery voltou trazendo uma linda flôr sylvestre que encontrára no jardim; era uma parasita avelludada, de lindo escarlate. A menina prendeu a flôr nos cabellos, satisfeita por ter cumprido um innocente desejo de Pery, que só vivia para cumprir os seus; e dirigio-se ao quarto de sua prima, occultando no seio a caixinha de velludo.

Isabel pretextára uma indisposição; não sahira do seu quarto depois que voltára do aposento de Cecilia, tendo trahido o segredo de seu amor.

As lagrimas que derramou não forão como as de sua prima, de allivio e consolo; forão lagrimas ardentes, que em vez de refrescarem o coração, o queimão como o rescaldo da paixão.

Ás vezes, ainda humedecidos de pranto, seus olhos negros brilhavão com um fulgor extraordinario; parecia que um pensamento delirante passava rapidamente no seu espirito desvairado. Então ajoelhava-se, e fazia uma oração, no meio da qual suas lagrimas vinhão de novo orvalhar-lhe as faces.

Quando Cecilia entrou, elle estava sentada á beira do leito, com os olhos fitos na janella, por entre a qual se via uma nesga do céo.

Estava bella da melancolia e languidez que prostrava o seu corpo n'um enlevo seductor, fazendo realçar as linhas harmoniosas de talhe gracioso.

Cecilia aproximou-se sem ser vista, e estalou um beijo na face morena de sua prima.

--Já te disse que não te quero vêr triste.

--Cecilia!... exclamou Isabel sobresaltando-se.

--Que é isto? Faço-te medo?

--Não... mas...

--Mas, o que?

--Nada...

--Sei o que queres dizer, Isabel; julgaste que conservava uma queixa de ti. Confessa!

--Julguei, disse a moça balbuciando, que me tinha tornado indigna de tua amizade.

E porque? Fizeste-me tu algum mal? Não somos nós duas irmãs, que nos devemos amar sempre?

--Cecilia, o que tu dizes não é o que tu sentes? exclamou Isabel admirada.

--Algum dia te enganei? replicou Cecilia magoada.

--Não; perdoa; porém é que...

A moça não continuou; o olhar terminou o seu pensamento, e exprimio o espanto que lhe causava o procedimento de Cecilia. Mas de repente uma idéa assaltou-lhe o espirito.

Cuidou que Cecilia não tinha ciumes della, porque a julgava indigna de merecer um só olhar de Alvaro; esta lembrança a fez sorrir amargamente.

--Assim, está entendido, disse Cecilia com volubilidade, nada se passou entre nós; não é verdade?

--Tu o queres!

--Quero, sim; nada se passou; somos as mesmas, com uma differença, accrescentou Cecilia corando, que de hoje em diante tu não deves ter segredos para comigo.

--Segredos! Tinha um que já te pertence! murmurou Isabel.

--Porque o adivinhei! Não é assim que desejo; prefiro ouvir de tua boca; quero consolar-te quando estiveres toda tristezinha como agora, e rir-me comtigo quando ficares contente. Sim?

--Ah! nunca! Não me peças uma cousa impossivel, Cecilia! Já sabes de mais; não me obrigues a morrer a teus pés de vergonha.

--E porque te causaria isto vergonha? Assim como tu me amas, não podes amar uma outra pessoa?

Isabel escondeu o rosto nas mãos para disfarçar o rubor que subia-lhe ás faces, Cecilia um pouco commovida olhava sua prima, e comprehendia nesse momento a causa porque ella propria córava quando sentia os olhos de Alvaro fitos nos seus.

--Cecilia, disse Isabel fazendo um esforço supremo, não me illudas, minha prima; tu és boa, tu me amas, e não queres magoar-me; mas não zombes da minha fraqueza. Se soubesses como soffro!

--Não te illudo, já te disse; não desejo que soffras, e menos que soffras por minha causa; entendes?

--Entendo, e juro-te que saberei fazer calar meu coração; se fôr preciso elle morrerá antes do que dar-te uma sombra da tristeza.

--Não, exclamou Cecilia, tu não me comprehendes: não é isto que eu te peço, bem ao contrario quero que... sejas feliz!

--Que eu seja feliz? perguntou Isabel arrebatadamente.

--Sim, respondeu a menina abraçando-a e fallando-lhe baixinho ao ouvido; que o ames a elle, e a mim tambem.

Isabel ergueu-se pallida, e duvidando do que ouvia; Cecilia teve bastante força para sorrir-lhe com um dos seus divinos sorrisos.

--Não, é impossivel? Tu me queres tornar louca, Cecilia?

Quero tornar-te alegre, respondeu a menina acariciando-a; quero que deixes esse rostinho melancolico, e me abraces como tua irmã. Não o mereço?

--Oh! sim, minha irmã; tu és um anjo de bondade, mas o teu sacrificio é perdido; eu não posso ser feliz, Cecilia.

--Porque?

--Porque elle te ama! murmurou Isabel.

A menina corou.

--Não digas isto, é falso.

--É bem verdade.

--Elle te disse?

--Não, mas adivinhei-o antes de ti mesma.

--Pois te enganaste, e sabes que mais, não me falles nisto. Que me importa o que elle sente a meu respeito?

E a menina conhecendo que a emoção se apoderava della fugio, mas voltou da porta.

--Ah! esqueci-me de dar-te uma cousa que trouxe para ti.

Tirou a caixinha de velludo, e abrindo-a atou o bracelete de perolas ao braço de Isabel.

--Como te vão bem! Como assentão no teu moreno tão lindo! Elle te achará bonita!

Este bracelete!...

Isabel teve de repente uma suspeita.

A menina percebeu: ia mentir pela primeira vez na sua vida.

--Foi meu pai que m'o deo hontem; mandou vir dous irmãos; um para mim, e outro que eu lhe pedi para ti. Assim, não tens que recusar, senão agasto-me comtigo.

Isabel abaixou a cabeça.

--Não o tires; eu vou deitar o meu e ficaremos irmãs. Adeus, até logo.

E apinhando os dedos atirou um beijo á prima e sahio correndo.

A travessura e jovialidade do seu genio já tinhão dissipado as impressões tristes da manhã.

IX

TESTAMENTO

No momento em que Cecilia deixou Isabel, D. Antonio de Mariz subia a esplanada, preoccupado por algum objecto importante, que dava á sua physionomia expressão ainda mais grave que a habitual.

O velho fidalgo avistou de longe seu filho D. Diogo e Alvaro passeando ao longo da cerca que passava no fundo da casa; fez-lhes signal de que se aproximassem.

Os moços obedecerão promptamente, e acompanhárão D. Antonio de Mariz até o seu gabinete d'armas, pequena saleta que ficava ao lado do oratorio, e que nada tinha de notavel, a não ser a portinha de uma escada que descia para uma especie de cava ou adega, servindo de paiol.

Na occasião em que se abrião os alicerces da casa, os obreiros descobrirão um socavão profundo talhado na pedra; D. Antonio como homem previdente, lembrando-se da necessidade que teria para o futuro de não contar senão com os seus proprios recursos, mandou aproveitar essa abobada natural, e fazer della um deposito que podesse conter algumas arrobas de polvora.

O fidalgo achára ainda uma outra grande vantagem na sua lembrança; era a tranquillidade de sua familia, cuja vida não estaria sujeita a um descuido de qualquer domestico ou aventureiro; porque no seu gabinete d'armas ninguem entrava, senão estando elle presente.

D. Antonio sentou-se junto da mesa coberta com um couro de moscovia e fez signal aos dous moços para que se sentassem a seu lado.

--Tenho que fallar-vos de objecto muito serio, de objecto de familia, disse o fidalgo. Chamei-vos para me ouvirdes como em uma cousa que vos interessa e a mim antes do que a todos.

D. Diogo inclinou-se diante de seu pai; Alvaro imitou-o, sentindo um sobresalto ao ouvir aquellas palavras graves e pausadas do velho fidalgo.

--Tenho sessenta amos, continuou D. Antonio; estou velho. O contacto deste solo virgem do Brazil, o ar puro destes desertos remoçou-me durante os ultimos annos; mas a natureza reassume os seus direitos, e sinto que o antigo vigor cede á lei da creação que manda voltar á terra aquillo que veio da terra.

Os dous moços ião dizer alguma doce palavra como quando procuramos illudir a verdade áquelles a quem prezamos, esforçando por nos illurdirmos a nós proprios.

D. Antonio conteve-os com um gesto nobre.

--Não me interrompeis. Não é uma queixa que vos faço; é sim uma declaração que deveis receber, pois é necessaria para que possais comprehender o que tenho de dizer-vos ainda. Quando durante quarenta annos jogamos nossa vida quasi todos os dias, quando vimos a morte cem vezes sobre nossa cabeça, ou debaixo de nossos pés, podemos olhar tranquillo o termo da viagem que fazemos neste valle de lagrimas.

Oh! nunca duvidamos de vós, meu pai! exclamou D. Diogo; mas é a segunda vez em dous dias que me fallais da possibilidade de uma tal desgraça; e esta só idéa me assusta! Estais forte e vigoroso ainda!

--De certo, retrucou Alvaro; dizeis ha pouco que o Brazil vos tinha remoçado, e eu affirmo-vos que ainda estais na juventude da segunda vida que vos deo o novo mundo.