O Guarany: romance brazileiro, Vol. 1 (of 2)
Part 10
O moço, apezar de preoccupado, tinha o habito da vida arriscada dos nossos caçadores do interior, obrigados a romper as mattas virgens.
Ahi o homem vê-se cercado de perigos por todos os lados; da frente, das costas, á esquerda, á direita, do ar, da terra, póde surgir de repente um inimigo occulto pela folhagem, que se aproxima sem ser visto.
A unica defeza é a subtileza do ouvido que sabe distinguir entre os rumores vagos da floresta aquelle que é produzido por uma acção mais forte do que a do vento; assim como a rapidez e certeza da vista que vai perscrutar as sombras das moitas, e devassar a folhagem espessa das arvores.
Alvaro tinha esse dom dos caçadores habeis; apenas o vento lhe trouxe um estalido de folhas seccas pisadas levantou a cabeça, e circulou o campo com os olhos: depois por prudencia encostou-se ao grosso tronco de uma arvore isolada, e cruzando os braços sobre a clavina esperou.
Nessa posição o inimigo, qualquer que elle fosse, féra, reptil ou homem, não o podia atacar senão de face; elle o veria aproximar-se e o receberia.
Loredano agachado entre as folhas tinha notado este movimento e hesitára; mas o seu segredo estava compromettido; a suspeita que concebêra de que Alvaro fôra quem ha pouco o ameaçára com a palavra _traidores_, acabava de confirmar-se no seu espirito, vendo a prudencia com que o moço evitava uma sorpreza.
O cavalheiro era um inimigo terrivel, e jogava todas as armas com uma destreza admiravel.
A lamina de sua espada como uma cobra elastica, flexivel, rapida, volteava sibilando e atirava o bote com a velocidade e a certeza do cascavel. O arremesso do seu punhal, vibrado pelo braço ligeiro e auxiliado pela agilidade do corpo, era como raio; listrava no ar uma cruz de fogo, e cahia sobre o peito do inimigo e o fulminava.
A bala de sua clavina era uma mensageira fiel que ia buscar a ave que parava no ar, ou a folha que o vento agitava. Muitas vezes na esplanada da casa, o italiano vira Alvaro, depois de ter feito milagres de pontaria, quebrar no ar as settas que Pery atirava de proposito para lhe servirem de alvo.
Cecilia applaudia batendo as mãos; Pery ficava contente por vêr a senhora alegre; e embora para elle que fazia muito mais, aquillo fosse uma cousa vulgar, deixava que o moço conservasse a superioridade, e fosse por todos admirado.
Mas Alvaro sabia que só um homem podia lutar com elle, elevar-lhe vantagem em qualquer arma, e esse era Pery; porque juntava á arte a superioridade do selvagem habituado desde o berço á guerra constante que é a sua vida.
Loredano tinha pois razão de hesitar em atacar de frente um inimigo desta força; mas a necessidade urgia, e o italiano era corajoso e agil tambem. Endireitou para o cavalheiro, resolvido a morrer ou a salvar a sua vida e a sua fortuna.
Alvaro vendo-o aproximar-se rugou o sobr'olho; depois do que se tinha passado na vespera e nessa manhã, odiava aquelle homem ou antes desprezava-o.
--Aposto que tivestes o mesmo pensamento que eu, Sr. cavalheiro? disse o aventureiro, quando chegou a tres passos de distancia.
--Não sei o que pretendeis dizer, replicou o moço seccamente.
--Pretendo, Sr. cavalheiro, que dous homens que se odeião achão-se melhor n'um lugar solitario, do que no meio dos companheiros.
--Não é odio que me inspirais, é desprezo; é mais do que desprezo, é asco. O reptil que se roja pelo chão causa-me menos repugnancia do que o vosso aspecto.
--Não disputemos sobre palavras, Sr. cavalheiro; tudo vem dar no mesmo; eu vos odeio, vos me desprezais; podia dizer-vos outro tanto.
--Miseravel!... exclamou o cavalheiro levando a mão á guarda da espada.
O movimento foi tão rapido, que a palavra soou ao mesmo tempo que a ponta da lamina de aço batendo na face do italiano.
Loredano quiz evitar o insulto, mas não era tempo: seus olhos injectárão-se de sangue:
--Sr. cavalheiro, deveis-me satisfação do insulto que me acabais de fazer.
--É justo, respondeu Alvaro com dignidade; mas não á espada que é a arma do cavalheiro; tirai o vosso punhal de bandido, e defendei-vos.
Proferindo estas palavras, o moço embainhou a espada com toda a calma, segurou-a á cinta para não embaraçar-lhe os movimentos e sacou o seu punhal, excellente folha de Damasco.
Os dous inimigos marchárão um para o outro, e lançárão-se; o italiano era agil e forte, e defendia-se com summa dextreza; por duas vezes já, o punhal de Alvaro, roçando-lhe o pescoço, tinha cortado o talho de seu gibão de belbute.
De repente Loredano, fincando os pés, deo um pulo para tráz, e ergueu a mão esquerda em signal de tregoa.
--Estais satisfeito? perguntou Alvaro.
--Não, Sr. cavalheiro; mas penso que em vez de nos estarmos aqui a fatigar inutilmente, melhor seria tomarmos um meio mais expedito.
--Escolhei o que quizerdes, menos a espada; o mais me é indifferente.
--Outra cousa ainda; se nos batermos aqui, podemos incommodar-nos reciprocamente; porque pretendo matar-vos, e creio que o mesmo desejo tendes a meu respeito. Ora é preciso que desappareça o que ficar, e o outro não leve um vestigio que o possa denunciar.
--Que quereis fazer neste caso?
--O rio está aqui perto, tendes a vossa clavina; collocar-nos-hemos cada um sobre uma ponta de rochedo, aquelle que cahir morto ou simplesmente ferido, pertencerá ao rio e á cachoeira; não incommodará o outro.
--Tendes razão, é melhor assim; eu me envergonharia se D. Antonio de Mariz soubesse que me bati com um homem da vossa qualidade.
--Sigamos, Sr. cavalheiro; nós nos odiamos bastante para não gastarmos tempo em palavras.
Ambos tomárão na direcção do rio, cujo estrepito ouvia-se distinctamente.
Alvaro, valente e corajoso, desprezava muito o seu inimigo para ter o menor receio delle; demais a sua alma nobre e leal, incapaz da mais pequena vilania, não pensava na traição. Nunca podia lembrar-lhe que um homem que o viera provocar e ia medir-se com elle n'um combate franco, levasse a infamia a ponto de querer feri-lo pelas costas.
Assim, continuou a caminhar, quando o italiano, deixando cahir de proposito a cinta da espada, parou um instante para apanha-la e prende-la de novo.
O que se passava então no seu espirito não estava de acordo com as idéas nobres do cavalheiro; vendo o moço adiantar-se, disse comsigo?
--Preciso da vida deste homem, eu a tenho! Seria uma loucura deixa-la escapar, e pôr a minha em risco. Um duello neste deserto, sem testemunhas, é um combate em que a victoria pertence ao mais esperto.
Dizendo isto o italiano ia armando a sua clavina com toda a cautela, e seguia de longe a Alvaro, afim de que o ranger do ferro ou o silencio de suas pisadas não excitassem a attenção do moça.
Alvaro caminhava tranquillamente; seu pensamento estava bem longe d'elle, e esvoaçava em torno da imagem de Cecilia, junto da qual via os grandes olhos negros e avelludados de Isabel embebidos n'uma languidez melancolica: era a primeira vez que aquelle rosto moreno e aquella belleza ardente e voluptuosa se viera confundir em sonhos com o anjo louro de seus amores.
Donde provinha isto? O moço não sabia explicar; mas um quer que seja, como um presentimento, lhe dizia que naquella scena da janella havia entre as duas moças um segredo, uma confidencia, uma revelação, e que esse segredo era elle.
Assim, quando a morte se aproximava, quando já o bafejava e ia toca-lo, elle descuidoso e pensativo repassava no pensamento idéas de amor, e alimentava-se de esperanças. Não se lembrava de morrer; tinha consciencia de si e fé em Deus; mas se por acaso uma fatalidade cahisse sobre elle, consolava-o a idéa de que Cecilia, offendida, lhe perdoaria um resto de resentimento que talvez conservasse.
Nisto metteu a mão no seio do gibão e tirou o jasmim que a moça lhe dera, e que já tinha murchado ao contacto dos seus labios ardentes; ia beija-lo ainda uma vez, quando lembrou-se que o italiano podia vê-lo.
Mas não ouvio os passos do aventureiro; a primeira idéa que lhe veio foi que elle tinha fugido; e como a cobardia para as almas grandes se associa á baixeza, lembrou-se de uma traição.
Quiz voltar-se, e entretanto não o fez. Mostrar que tinha medo daquelle miseravel revoltava os seus brios de cavalheiro; ergueu a cabeça com altivez e seguio.
Mal sabia elle que nesse momento o fecho da clavina movido por um dedo seguro cahia, e que a bala ia partir guiada pelo olhar certeiro do italiano.
VI
NOBREZA
Alvaro ouvio um sibillo agudo.
A bala roçando pela aba rebatida de seu chapéo de feltro cortou a ponta da pluma escarlate que se enroscava sobre o hombro.
O moço voltou-se calmo, sereno, impassivel; nem um musculo do seu rosto agitou-se; apenas um sorriso de soberano desprezo arqueava o labio superior, sombreado pelo bigode negro.
O espectaculo que se offereceu aos seus olhos causou-lhe uma sorpreza extraordinária; não esperava de certo ver o que se passava a dez passos delle.
Pery mostrando nos movimentos toda a força muscular de sua organisação de aço, com a mão esquerda segura á nuca de Loredano, curvava-o sob a pressão violenta, e obrigava-o a ajoelhar.
O italiano livido, com o rosto contrahido e os olhos immensamente dilatados, tinha ainda entre as mãos hirtas a clavina fumegante.
O indio arrancou-a e sacando a longa faca, levantou o braço para crava-la no alto da cabeça do italiano.
Mas Alvaro tinha-se adiantado e aparou o golpe: depois estendeu a mão ao indio.
--Solta este miseravel, Pery!
--Não!
--A vida deste homem me pertence; atirou sobre mim; é a minha vez de atirar sobre elle.
Alvaro ao mesmo tempo que dizia estas palavras, armava a clavina, e apoiava a bocca na fronte do italiano.
--Ides morrer. Fazei a vossa oração.
Pery abaixou a faca; recuou um passo, e esperou.
O italiano não respondeu; a sua oração foi uma blasphemia horrivel e satanica; as palpitações violentas do coração batião de encontro ao pergaminho que tinha no seio, e lembravão-lhe o seu thesouro que ia talvez cahir nas mãos de Alvaro e dar-lhe a riqueza de que não podêra gozar.
Entretanto, na baixeza dessa alma havia ainda alguma altivez, o orgulho do crime; não supplicou, não disse uma palavra, sentindo o contacto frio do ferro sobre a fronte, fechou os olhos e julgou-se morto.
Alvaro olhou-o um instante, e abaixou a clavina:
--Tu és indigno de morrer á mão de um homem, e por uma arma de guerra; pertences ao pelourinho e ao carrasco. Seria um roubo feito á justiça de Deus.
Loredano abrio os olhos; seu rosto illuminou-se com um raio de esperança.
--Vais jurar que amanhã deixarás a casa de D. Antonio de Mariz, e nunca mais porás o pé neste sertão; por tal preço tens a vida salva.
--Juro! exclamou o italiano.
O moço tirou o collar que dava tres voltas sobre os hombros, e apresentou a Loredano a cruz vermelha do Christo que lhe pendia do peito: o aventureiro estendeu a mão, e repetio o juramento.
--Ergue-te; e tira-te dos meus olhos.
E com o mesmo desprezo e a mesma nobreza, o cavalheiro desarmou a sua clavina; voltou-se para continuar o seu caminho fazendo um signal a Pery para que o acompanhasse.
O indio, emquanto se passava a rapida scena que descrevemos, reflectia profundamente.
Quando ouvira o que dizião ha pouco Loredano e seus dous companheiros, quando pelo resto da conversa comprehendêra que se tratava de fazer mal á sua senhora e a D. Antonio de Mariz, a sua primeira idéa tinha sido lançar-se aos tres inimigos e mata-los.
Foi por isso que soltou aquella palavra que revelava a sua indignação; mas immediatamente lembrou-se que elle podia morrer, e que nesse caso Cecilia não teria quem a defendesse. Pela primeira vez na sua vida teve medo; teve medo por sua senhora, e sentio não possuir mil vidas para sacrifica-las todas á sua salvação.
Fugio então com bastante rapidez para não ser visto pelo italiano que subia á arvore: afastou-se delles; chegando á beira do rio, lavou a sua tunica de algodão, que ficára manchada de sangue; não queria que soubessem que estava ferido.
Emquanto se entregava a este trabalho, combinava um plano de acção.
Resolveu não dizer nada a quem quer que fosse, nem mesmo a D. Antonio de Mariz: duas razões o levavão a proceder assim; a primeira era o receio de não ser acreditado, pois não tinha provas com que podesse justificar a accusação, que elle, indio ia fazer contra homens brancos; a segunda era a confiança que tinha de que elle só bastava para desfazer todas as tramas dos aventureiros, e lutar contra o italiano.
Assentado este primeiro ponto, passou á execução do plano; esta reduzia-se para elle em uma punição; aquelles tres homens querião matar, portanto devião morrer, mas devião morrer ao mesmo tempo, do mesmo golpe. Pery receava que, combinados como estavão, se um escapasse vendo succumhir seus companheiros, se deixaria levar pelo desespero e anticiparia a realisação do crime antes que elle o podesse prevenir.
A sua intelligencia sem cultura, mas brilhante como o sol de nossa terra, vigorosa como a vegetação deste solo, guiava-o nesse raciocinio com uma logica e uma prudencia, dignas do homem civilisado; previa todas as hypotheses, combinava todas as probabilidades, e preparava-se para realisar o seu plano com a certeza e a energia de acção que ninguem possuia em grão tão elevado.
Assim dirigindo-se para a casa onde o chamava um outro dever, o de avisar a D. Antonio da eventualidade de um ataque dos Aymorés, elle tinha passado junto de Bento Simões e Ruy Soeiro, e guiado pelos olhares destes viu ao longe Loredano no momento em que apontava sobre o cavalheiro.
Correr, cahir sobre o italiano, desviar a pontaria, e dobra-lo sobre os joelhos, foi um movimento tão rapido que os dous aventureiros apenas o virão passar, virão ao mesmo tempo o seu companheiro subjugado.
A realisação do projecto de Pery apresentava-se naturalmente, sem ser procurada. Tinha o italiano na sua mão; depois delle caminhava aos dous aventureiros, para os quaes bastava a sua faca; e quando tudo estivesse consumado iria ter com D. Antonio de Mariz e lhe diria:
--Esses tres homens vos trahião, matei-os; se fiz mal, puni-me.
A intervenção de Alvaro, cuja generosidade salvou a vida de Loredano, transtornou completamente esse plano; ignorando o motivo por que Pery ameaçava o aventureiro, julgando que era unicamente para puni-lo da tentativa que acabava de commetter perfidamente contra elle, o cavalheiro a quem repugnava tirar a vida a um homem sem necessidade, satisfez-se com o juramento, e a certeza de que deixaria a casa.
Emquanto isto se dava, Pery reflectia na possibilidade de fazer as cousas voltarem á mesma posição; ruas conheceu que não o conseguiria.
Alvaro tinha recebido de D. Antonio de Mariz todos os principios daquella antiga lealdade cavalheiresca do seculo XV, os quaes o velho fidalgo conservava como o melhor legado de seus avós; o moço moldava todas as suas acções, todas as suas idéas, por aquelle typo dos barões portuguezes que havião combatido em Aljubarrota ao lado do Mestre de Aviz, o rei cavalheiro.
Pery conhecia o caracter do moço; e sabia que depois de ter dado a vida a Loredano, embora o desprezasse, não consentiria que em presença delle lhe tocassem n'um cabello; e se preciso fosse tiraria a sua espada para defender este homem, que acabava de tentar contra sua existencia.
E o indio respeitava a Alvaro, não por sua causa, mas por Cecilia a quem elle amava; qualquer desgraça que succedesse ao cavalheiro tornaria a senhora triste; isto bastava para que a pessoa do moço fosse sagrada, como tudo o que pertencia á menina, ou que era necessario ao seu descanço, ao seu socego e felicidade.
O resultado desta reflexão foi Pery metter a sua faca á cinta; e sem importar-se mais com o italiano, acompanhar o cavalheiro.
Ambos seguirão em direcção da casa, caminhando ao longo da margem do rio.
--Obrigado ainda uma vez, Pery; não pela vida que me salvaste, mas pela estima que me tens.
E o moço apertou a mão do selvagem:
--Não agradece; Pery nada te fez; quem te salvou foi a senhora.
Alvaro sorrio-se da franqueza do indio, e córou da allusão que havia em suas palavras.
--Se tu morresses, a senhora havia de chorar; e Pery quer vêr a senhora contente.
--Tu te enganas; Cecilia é boa, e sentiria da mesma maneira o mal que succedesse a mim, como a ti, ou a qualquer dos que está acostumada a ver.
--Pery sabe porque falla assim; tem olhos que vêem, e ouvidos que ouvem; tu és para a senhora o sol que faz o jambo corado, e o sereno que abre a flôr da noite.
--Pery!... exclamou Alvaro.
--Não te zangues, disse o indio com doçura; Pery te ama, porque tu fazes a senhora sorrir. A canna quando está á beira d'agua, fica verde e alegre; quando o vento passa, as folhas dizem Ce-Cy. Tu és o rio; Pery é o vento que passa docemente, para não abafar o murmurio da corrente; é o vento que curva as folhas até tocarem n'agua.
Alvaro fitou no indio um olhar admirado. Onde é que este selvagem sem cultura aprendêra a poesia simples, mas graciosa; onde bebêra a delicadeza de sensibilidade que difficilmente se encontra n'um coração gasto pelo attrito da sociedade?
A scena que se desenrolava a seus olhos respondeu-lhe; a natureza brazileira, tão rica e brilhante, era a imagem que reproduzia aquelle espirito virgem, como o espelho das aguas reflecte o azul do céo.
Quem conhece a vegetação de nossa terra desde a parasita mimosa até o cedro gigante; quem no reino animal desce do tigre e do tapir, symbolos da ferocidade e da força, até o lindo beija-flôr e o insecto dourado; quem olha este céo que passa do mais puro anil aos reflexos bronzeados que annuncião as grandes borrascas; quem viu sob a verde pellucia da relva esmaltada de flôres que cobre as nossas varzeas deslisar mil reptis que levão a morte n'um atomo de veneno, comprehende o que Alvaro sentio.
Com effeito, o que exprime essa cadêa que liga os dous extremos de tudo o que constitue a vida? Que quer dizer a força no apice do poder alliada á fraqueza em todo o seu mimo; a belleza e a graça succedendo aos dramas terriveis e aos monstros repulsivos; a morte horrivel a par da vida brilhante?
Não é isso a poesia? O homem que nasceu, embalou-se e cresceu nesse berço perfumado; no meio de scenas tão diversas, entre o eterno contraste do sorriso e da lagrima, da flôr e do espinho, do mel e do veneno, não é um poeta?
Poeta primitivo, canta a natureza na mesma linguagem da natureza; ignorante do que se passa nelle, vai procurar nas imagens que tem diante dos olhos, a expressão do sentimento vago e confuso que lhe agita a alma.
Sua palavra é a que Deus escreveu com as letras que formão o livro da creação; é a flôr, o céo, a luz, a côr, o ar, o sol; sublimes cousas que a natureza fez sorrindo.
A sua phrase corre como o regato que serpeja, ou salta como o rio que se despenha da cascata; ás vezes se eleva ao cimo da montanha, outras desce e rasteja como o insecto, subtil, delicada e mimosa.
Eis o que a decoração da scena magestosa, no meio da qual se achava á beira do _Paquequer_, disse a Alvaro; mas rapidamente, por uma dessas impressões que se projectão no espirito como a luz no espaço.
O moço recebeu a confissão ingenua do indio sem o minimo sentimento hostil; ao contrario apreciava a dedicação que o selvagem tinha por Cecilia, e ia ao ponto de amar a tudo quanto sua senhora estimava.
Assim, disse Alvaro sorrindo, tu só me amas porque pensas que Cecilia me quer? disse o moço.
--Pery só ama o que a senhora ama: porque só ama a senhora neste mundo: por ella deixou sua mãi, seus irmãos e a terra onde nasceu.
--Mas se Cecilia não me quizesse como julgas?
--Pery faria o mesmo que o dia com a noite; passaria sem te vêr.
--E se eu não amasse a Cecilia?
--Impossivel!
--Quem sabe? disse o moço sorrindo.
--Se a senhora ficasse triste por ti!... exclamou o indio, cuja pupilla negra irradiou.
--Sim? o que farias?
--Pery te mataria.
A firmeza com que erão ditas estas palavras não deixava a menor duvida sobre a sua realidade; entretanto Alvaro apertou a mão do indio com effusão.
Pery temeu offender o moço; para desculpar a sua franqueza, disse-lhe com um tom commovido:
--Escuta. Pery é filho do sol; e renegava o sol se elle queimasse a pelle alva de Cecy. Pery ama o vento; e odiava o vento se elle arrancasse um cabello de ouro de Cecy. Pery gosta de vêr o céo; e não levantava a vista, se elle fosse mais azul do que os olhos de Cecy.
--Comprehendo-te, amigo; votaste a tua vida inteira á felicidade dessa menina. Não receies que te offenda nunca na pessoa della. Sabes se eu a amo; e não te zangues, Pery, se disser que a tua dedicação não é maior do que a minha. Antes que me matasses, creio que me mataria a mim mesmo se tivera a desgraça de fazer Cecilia infeliz.
--Tu és bom; Pery quer que a senhora te ame.
O indio contou então a Alvaro o que se tinha passado na noite antecedente; o moço empallideceu de colera, e quiz voltar em busca do italiano; desta vez não lhe perdoára.
--Deixa! disse o indio; Cecy teria medo; Pery vai endireitar isto.
Os dous tinhão chegado perto da casa e ião entrar a cerca do valle, quando Pery segurou o braço de Alvaro:
--O inimigo da casa quer fazer mal; defende a senhora; se Pery morrer, manda dizer a sua mãi, e verás todos os guerreiros da tribu chegarem para combaterem comtigo, e salvarem Cecy.
--Mas quem é o inimigo da casa?
--Queres saber?
--De certo; como hei de combate-los?
--Tu saberás.
Alvaro quiz insistir; mas o indio não lhe deo tempo; metteu-se de novo pelo matto; emquanto o moço subia a escada, elle fazia uma volta ao redor da casa, e ganhava o lado para onde dava o quarto de Cecilia.
Já tinha vistado ao longe a janella, quando debaixo de uma ramagem surgio a figura magra e esguia de Ayres Gomes, coberto de ortigas e hervas de passarinho, e deitando o bofes pela boca.
O digno escudeiro, tendo encontrado em cima de sua cabeça um maldito galho desageitado, foi de narizes ao chão, estendeu-se maciamente sobre a relva.
Apezar disto ergueu-se um pouco sobre os cotovellos, e gritou com toda a força dos pulmões:
--Olá! mestre bugre!... Dom Cacique!... Caçador de onça viva!... Ouve cá!
Pery não se voltou.
VII
NO PRECIPICIO
Pery tinha parado para ver Cecilia de longe.
Ayres Gomes ergueu-se, correu para o indio, e deitou-lhe a mão ao braço.
--Afinal pilhei-o, dom caboclo! Safa!... Deo-me agua pela barba?... disse o escudeiro resfolgando.
--Deixa! respondeu o indio sem se mover.
--Deixar-te! Uma figa! Depois de ter batido esta mattaria á tua procura! Tinha que ver!
Com effeito D. Lauriana desejando ver o indio fóra de casa quanto antes, havia expedido o escudeiro em busca de Pery para trazê-lo á presença de D. Antonio de Mariz.
Ayres Gomes, fiel executor das ordens de seus amos corria o matto havia boas duas horas; todos os incidentes comicos, possiveis ou imaginaveis, tinhão-se como que de proposito collocado em seu caminho.
Aqui era uma casa de maribondos, que elle assanhava com o chapéo, e o fazião baterem retirada honrosa, correndo a todo o estirão das pernas; ali era um desses lagartos de longa cauda que pilhado de improviso se enrolára pelas pernas do escudeiro com uma formidavel chicotada.
Isto sem fallar das ortigas, e das unhas de gato, cabeçadas e quedas, que fazião o digno escudeiro arrenegar-se, e maldizer da selvajaria de semelhante terra! Ah! quem o dera nos tojos e charnecas de sua patria!
Tinha pois Ayres Gomes razão de sobra para não querer largar o indio, causa de todas as tribulações por que passara; infelizmente Pery não estava de accordo.
--Larga, já te disse! exclamou o indio começando a irritar-se.
--Tem santa paciencia, caboclinho de minha alma! Fé de Ayres Gomes, não é possivel; e tu sabes! Quando eu digo que não é possivel, é como se a nossa madre Igreja... Que diabo ia rezar-lhe?... Ai! que chamei sem querer a madre Igreja do diabo! Forte heresia! Quem se mette a tagarellar dos santos!... Virgem Santissima! Estou incapaz! Cala-te, boca! não me pies mais!