O Guarany: romance brazileiro, Vol. 1 (of 2)

Part 14

Chapter 143,895 wordsPublic domain

--Só ha duas cousas a fazer; ou entrarmos na casa, ou fugirmos daqui mesmo; é preciso resolver. Que pensais vós?

--Eu penso, disse Bento Simões tremulo ainda, que devemos fugir quanto antes, e andar dia e noite sem parar.

--E vós, Ruy, sois do mesmo aviso?

--Não; fugir é nos denunciar e perder. Tres homens sós neste sertão, obrigados a evitar o povoado, não podem viver; temos inimigos por toda a parte.

--Que propondes então?

--Que entremos em casa como se nada se tivesse passado; ou estamos descobertos, e neste caso ainda faltão as provas para nos condemnarem; ou ignorão tudo e não corremos o menor risco.

--Tendes razão, disse o italiano, devemos voltar; nessa casa está a nossa fortuna, ou a nossa ruina. Achamo-nos n'uma posição em que devemos ganhar tudo ou perder tudo.

Houve longa pausa durante que o italiano reflectia.

--Com quantos homens contais, Ruy? perguntou elle.

--Com oito.

--E vós, Bento?

--Sete.

--Decididos?

--Promptos ao menor signal.

--Bem, disse o italiano com o desempenho de um chefe dispondo o plano da batalha; trazei cada um os vossos homens amanhã a esta hora; é preciso que á noite tudo esteja concluido.

--E agora o que vamos fazer? perguntou Bento Simões.

--Vamos esperar que escureça; á bocca da noite nos achegaremos da casa. Um de nós á sorte entrará primeiro; se nada houver, dará signal aos outros. Assim, quando um se perca, dois ao menos terão ainda esperança de salvar-se.

Os aventureiros resolverão passar o dia no matto; uma caça, algumas fructas silvestres derão-lhes simples mas abundante refeição.

Por volta de cinco horas da tarde se encaminhárão á casa, afim de sondarem o que passava, e realisarem o seu projecto.

Antes de partirem, Loredano carregou a clavina, mandou seus companheiros carregar as suas, e disse-lhes:

--Assentai bem nisto. Na posição difficil em que estamos, quem não é nosso amigo é nosso inimigo. Póde ser um espião, um denunciante; em todo o caso será depois menos um que teremos contra nós.

Os dous comprehendêrão a justeza dessa observação, e seguirão com as armas engatilhadas, olho vivo e ouvido alerta.

Apezar porém da sua attenção, não vîrão agitar-se as folhas a dous passos delles, e estender-se pelos arbustos uma oudulação que parecia produzida pela correnteza do vento.

Era Pery; havia um quarto d'hora que elle acompanhava os aventureiros como a sua sombra; o indio deixando D. Antonio dera pela sua ausencia, e conjecturando que elles tramavão alguma cousa, lançou-se em sua procura.

O italiano e seus companheiros caminhavão já havia pedaço, quando Bento Simões parou:

--Quem entrará primeiro?

--A sorte decidirá, respondeu Ruy.

--Como?

--Desta maneira, disse o italiano. Vêdes aquella arvore? O que primeiro chegar a ella será o ultimo a entrar; o ultimo será o primeiro.

--Está dito!

Os tres mettêrão as armas á cinta, e preparárão-se para a corrida.

Pery ouvindo-os teve uma inspiração: os aventureiros ião separar-se; como Loredano, elle tambem disse, comsigo:

--O ultimo será o primeiro.

E tomando tres flechas, esticou a corda do arco; mataria os aventureiros sem que um percebesse a morte dos outros.

Os tres partirão; mas não tinhão feito uma braça de caminho quando Bento Simões tropeçando, foi de encontro a Loredano, e estendeu-se no chão ao fio comprido do lombo.

Loredano soltou uma blasphemia, Bento gritou misericordia; Ruy que já ia adiante, voltou julgando que alguma cousa succedia.

O plano de Pery tinha gorado.

--Sabeis, disse Loredano, que no pareo perde aquelle que se deixou cahir. Sereis o primeiro, amigo Bento.

O aventureiro não replicou.

Pery não perdêra a esperança de lhe deparar a fortuna outra occasião favoravel para realisar o seu projecto; seguio-os. Foi então que de longe por baixo das arvores avistou Alvaro na mesma direcção em que ião os aventureiros; despedindo uma setta por elevação dera ao cavalheiro o primero signal, e os outros que o fizerão afastar-se.

Deixando Alvaro, a intenção do indio era atalhar os aventureiros, espera-los junto á cerca; e quando elles se separassem para entrar a um e um, mata-los.

Mas uma fatalidade parecia perseguir o indio, e proteger os inimigos.

Quando Bento Simões, destacando-se dos companheiros entrou na cerca, Pery ouvio naquella direcção a voz de Cecilia que voltava do passeio com seu pai e sua prima.

A mão do indio, que nunca tremêra no meio do combate, cahio inerte; escapou-lhe o arco, só com a idéa de que a setta que ia atirar podesse assustar a menina, quanto mais offendê-la.

Bento Simões passou incolume.

XIV

A CHACARA

Pery viu passar pouco depois Loredano e Ruy Soeiro.

Era a terceira vez que os aventureiros depois de estarem na sua mão lhe escapavão por uma especie de fatalidade.

O indio reflectio alguns momentos, e tomou uma resolução definitiva; modificou inteiramente o seu plano. A principio decidira não atacar os tres inimigos de frente, não porque os temesse, mas sim porque receiava que morrendo podessem realisar a salvo o projecto, cujo segredo só elle sabia.

Conheceu porém que não havia remedio senão recorrer a este expediente; o tempo corria; de um momento para outro podia o italiano executara sua trama.

O que precisava era achar um meio para no caso de succumbir prevenir a D. Antonio de Mariz do perigo que o ameaçava; este meio havia já acudido ao pensamento do indio.

Foi ter com Alvaro que o esperava.

O moço já o tinha esquecido; pensava em Cecilia, na sua affeição quebrada, na sua mais doce esperança murcha, e talvez perdida para sempre.

Ás vezes tambem apresentava-se ao seu espirito a imagem melancolica de Isabel; lembrava-se que ella tambem amava, e não era amada. Esta lembrança creava certo laço entre elle e a moça; ambos soffrião pela mesma causa, ambos sentião o mesmo pezar, e curtião igual desengano.

Depois vinha a idéa de que era a elle que Isabel amava; sem querer repassava na memoria as ternas palavras; revia o sorriso triste e os olhares de fogo que se avelludavão com alanguidez do amor.

Parecia-lhe que sentia ainda o halito perfumado da moça, a pressão da cabeça desfallecida em seu hombro, o contacto das mãos tremulas, e o echo das queixas murmuradas pela voz maviosa.

O coração lhe palpitava com violencia; esquecia-se revendo a bella imagem, de um moreno suave, a que o amor dava reflexos e uma aureola esplendida.

Mas de repente estremecia, como se a moça ainda estivesse perto delle; passava a mão pela fronte para arrancar as reminiscencias que o incommodavão; e tornava á indifferença de Cecilia e ao desengano de suas esperanças.

Quando Pery se aproximou, Alvaro estava n'um dos momentos de tedio e desapego da vida, que succedem ás dores profundas.

--Diz-me, Pery. Fallaste de inimigos?

--Sim; respondeu o indio.

--Quero conhecê-los.

--Para que?

--Para ataca-los.

--Mas são tres.

--Melhor.

O indio hesitou:

--Não; Pery quer combater só os inimigos de sua senhora; se elle morrer tu saberás tudo; acaba então o que Pery tiver começado.

--Para que este mysterio? Não podes dizer já quem são esses inimigos?

--Pery póde; mas não quer dizer.

--Porque?

--Porque tu és bom e pensas que os outros tambem são; tu defenderás os máos.

--Oh! que não. Falla!

--Ouve. Se Pery não apparecer amanhã, tu não tornarás a vê-lo: mas a alma de Pery voltará para te dizer os nomes delles.

--Como?

--Tu verás. São tres; querem offender a senhora, matar seu pai, a ti, a todos da casa. Tem outros que os seguem.

--Uma revolta!... exclamou Alvaro.

--O primeiro delles quer fugir e levar Cecy, que tu amas; mas Pery não deixará.

--É impossivel! disse o moço surprendido.

Pery te diz verdade.

--Não creio!...

Com effeito o cavalheiro attribuindo as desconfianças do indio a uma exageração filha da sua dedicação extrema pela filha de D. Antonio, não podia acreditar no horrivel attentado: sua direitura de sentimentos repellia a possibilidade de um crime tal.

O fidalgo era amado e respeitado por todos os aventureiros: nunca durante dez annos que o moço o acompanhava se tinha dado na banda um só acto de insubordinação contra a pessoa do chefe; havia faltas de disciplina, rixas entre os companheiros, tentativas de deserção; mas não passava disto.

O indio sabia que Alvaro duvidaria do que se passava; e por isso se obstinava em guardar parte do segredo, receiando que o moço com o seu cavalheirismo não tomasse o partido dos tres aventureiros.

--Tu duvidas de Pery?

--Quem faz uma accusação tal, precisa prova-la. Tu és um amigo, Pery; mas os outros tambem o são, e têm o direito de se defenderem.

--Quando um homem vai morrer, tu julgas que elle mente? perguntou o indio com firmeza.

--Que queres dizer com isto?

--Pery vai vingar sua senhora; vai se separar de tudo quanto ama; se elle perder a vida dirás ainda que se engana?

Alvaro foi abalado pelas palavras do indio.

--Melhor é que falles a D. Antonio de Mariz.

--Não; elle e tu servem para combater homens que atacão pela frente; Pery sabe caçar o tigre na floresta, e esmagar a cobra que vai lançar o bote.

--Mas então o que queres de mim?

--Que se Pery morrer, acredites no que elle te diz e faças o que elle fez; que salves a senhora!

--Assassinar?... Nunca, Pery; nunca o meu braço brandirá o ferro senão contra o ferro!

O indio lançou ao moço um olhar que brilhou nas trevas.

--Tu não amas Cecy!

Alvaro estremeceu.

--Se tu a amasses, matarias teu irmão para livra-la de um perigo.

--Pery, talvez não comprehendas o que vou dizer-te. Daria a minha vida sem hesitar por Cecilia; mas a minha honra pertence a Deus e á memoria de meu pai.

Os dous homens olhárão-se um momento em silencio; ambos tinhão a mesma grandeza de alma, e a mesma nobreza de sentimento; entretanto as circumstancias da vida havião creado nelles um contraste.

Em Alvaro, a honra e um espirito de lealdade cavalheiresca dominavão todas as suas acções; não havia affeição ou interesse que podesse quebrar a linha invariavel que elle havia traçado, e era a linha do dever.

Em Pery a dedicação sobrepujava tudo; viver para sua senhora, crear em torno della uma especie de providencia humana, era a sua vida; sacrificaria o mundo se possivel fosse, contanto que podesse como o Noé dos indios, salvar uma palmeira onde abrigar Cecilia.

Entretanto essas duas naturezas, uma filha da civilisação, a outra filha da liberdade selvagem, embora separadas por distancia immensa, comprehendião-se: a sorte lhes traçára um caminho differente; mas Deus vasára em suas almas o mesmo germen de heroismo, que nutre os grandes sentimentos.

Pery conheceu que Alvaro não cederia; Alvaro sabia que Pery apezar de sua recusa, cumpriria exactamente o que tinha resolvido.

O indio a principio pareceu impressionado pela obstinação do cavalheiro; porém ergueu a cabeça com um gesto altivo, e batendo com a mão no peito largo e vigoroso, disse em tom de energia:

--Pery só, defenderá sua senhora: não precisa de ninguem. É forte; tem como a andorinha as azas de suas flechas; como a cascavel o veneno das settas; como o tigre a força de seu braço; como a ema a velocidade de sua carreira. Só póde morrer uma vez; mas uma vida lhe basta.

--Pois bem, amigo, respondeu o cavalheiro com nobreza, vais realisar o teu sacrificio; eu cumprirei o meu dever. Tenho uma vida tambem, e a minha espada. Farei de uma a sombra de Cecilia; com a outra traçarei em torno della um circulo de ferro. Podes ficar certo que os inimigos que passarem por cima de teu corpo acharão o meu antes de chegarem á tua senhora.

--Tu és grande; podias ter nascido no deserto, e ser o rei das florestas; Pery te chamaria irmão.

Apertárão as mãos e dirigirão-se á casa; em caminho Alvaro lembrou-se que ainda não conhecia os homens contra os quaes tinha de defender Cecilia; perguntou seus nomes; Pery recusou formalmente e prometteu que o cavalheiro saberia, quando fosse tempo.

O indio tinha a sua idéa.

Chegando á casa os dous separárão-se; Alvaro ganhou o aposento que occupava; Pery encaminhou-se para o jardim de Cecilia.

Erão então oito horas da noite, toda a familia se achava reunida na cêa; o quarto da menina estava ás escuras. Pery examinou os arredores para vêr se tudo estava tranquillo e em socego; e sentou-se n'um banco do jardim.

Meia hora depois uma luz esclareceu a janella do quarto, e a porta abrindo-se deixou vêr o corpinho gracioso de Cecilia que se destacava no vão esclarecido.

A menina avistando o indio correu para elle:

--Meu pobre Pery, disse ella; tu soffreste hoje muito, não é verdade? E achaste tua senhora bem má e bem ingrata, porque te mandou partir! Mas agora, meu pai disse: Ficarás comnosco para sempre.

--Tu és boa senhora: tu choravas quando Pery ia partir; pediste para elle ficar.

--Então não tens queixa de Cecy? disse a menina sorrindo.

--O escravo póde ter queixa de sua senhora? tornou o indio simplesmente.

--Mas tu não és escravo!... respondeu Cecilia com um gesto de contrariedade; tu és um amigo sincero e dedicado. Duas vezes me salvaste a vida; fazes impossiveis para me veres contente e satisfeita; todos os dias te arriscas a morrer por minha causa.

O indio sorrio:

--Que queres que Pery faça de sua vida, senhora?

--Quero que estime sua senhora e lhe obedeça, e aprenda o que ella lhe ensinar, para ser um cavalheiro como meu irmão D. Diogo e o Sr. Alvaro.

Pery abanou a cabeça.

--Olha, continuou a menina; Cecy vai te ensinar a conhecer o Senhor do céo, e a rezar tambem e ler bonitas historias. Quando souberes tudo isto, ella bordará um manto de seda para ti; terás uma espada, e uma cruz no peito. Sim?

--A planta precisa de sol para crescer, a flôr precisa de agua para abrir; Pery precisa de liberdade para viver.

--Mas tu serás livre; e nobre como meu pai!

--Não!... O passaro que vôa nos ares cahe, se lhe quebrão as azas; o peixe que nada no rio morre, se o deitão em terra; Pery será como o passaro e como o peixe, se tu cortares as suas azas e o tirares da vida em que nasceu.

Cecilia bateu com o pé em signal de impaciencia.

--Não te zanga, senhora.

--Não fazes o que Cecy pede?... Pois Cecy não te quer mais bem; nem te chamará mais seu amigo. Vê; já não guardo a flôr que me déste.

E a linda menina, machucando a flôr que arrancou dos cabellos, correu para o seu quarto, e bateu a porta com violencia.

O indio voltou pezaroso á sua cabana.

De repente cortou o silencio da noite voz argentina, que cantava uma antiga chacara portugueza, com sentimento e expressão arrebatadora. Os sons doces de uma guitarra hespanhola fazião o acompanhamento da musica.

A chacara dizia assim:

Foi um dia.--Infanção mouro Deixou Alcaçar de prata e ouro.

Montado no seu corcel, Partio Sem pagem, sem anadel.

Do castello á barbacã Chegou Viu formosa castellã.

Aos pés daquella a quem ama Jurou Ser fiel á sua dama.

A gentil dona e senhora Sorrio; Ai! que isenta ella não fora

«Tu és mouro; eu sou christã:» Fallou A formosa castellã.

«Mouro, tens o meu amor: Christão, Serás meu nobre senhor.»

Sua voz era um encanto, O olhar Quebrado, pedia tanto!

«Antes de ver-te, senhora, Fui rei; Serei teu escravo agora.

«Por ti deixo meu alcaçar Fiel; Meus paços d'ouro e de nacar.

«Por ti deixo o paraiso; Meu céo É teu mimoso sorriso.»

A dona em um doce enleio Tirou Seu lindo collar do seio.

E duas almas christãs, Na cruz Um beijo tornou irmãs.

A voz suave e meiga perdeu-se no silencio do ermo; o echo repetio um momento as suas doces modulações.

FIM DA SEGUNDA PARTE.

NOTAS

DO TOMO PRIMEIRO.

PAG. 3.--=Guarany=.

O titulo que damos a este romance significa o _indigena brazileiro_. Na occasião da descoberta, o Brazil era povoado por nações pertencentes a uma grande raça, que conquistára o paiz havia muito tempo, e expulsára os dominadores. Os chronistas ordinariamente designavão esta raça pelo nome _Tupi_ mas esta denominação não era usada senão por algumas nações. Entendemos que a melhor designação que se lhe podia dar era a da lingua geral que fallavão e naturalmente lembrava o nome primitivo da grande nação.

PAG. 3.--=O Paquequer=.

Para se conhecer a exactidão dessa descripção do rio Paquequer naquella epoca, lêa-se B. da Silva Lisboa, _Annaes do Rio de Janeiro_, 1° tomo, pag. 162. Hoje as grandes plantações de café transformárão inteiramente aquelles lugares outr'ora virgens e desertos.

PAG. 4.--=Brazão d'armas=.

Este brazão da casa dos Marizes é historico; nos mesmos _Annaes do Rio de Janeiro_, tomo 1°, pag. 329, acha-se a sua descripção que copiei litteralmente.

PAG. 11.--=D. Antonio de Mariz=.

Este personagem é historico, assim como os factos que se referem ao seu passado, antes da epoca em que começa o romance.

Nos _Annaes do Rio de Janeiro_, tomo 1°, pag. 328, lêa-se uma breve noticia sobre sua vida.

PAG. 13.--=D. Pedro da Cunha=.

Deste projecto de transportar ao Brazil a coroa portugueza, falla Warnhagen na sua historia do Brazil.

PAG. 16.--=Aventureiros=.

O costume que tinhão os capitães daquelle tempo de manterem uma banda de aventureiros ás suas ordens, é referido por todos os chronistas. Esse costume tinha o quer que seja dos usos da media idade, e a necessidade o fez reviver em nosso paiz onde faltavão tropas regulares para as conquistas e explorações.

PAG. 14.--=D. Lauriana=.

Segundo B. da S. Lisboa a mulher de D. Antonio de Mariz chamava-se Lauriana Simoa, e era natural de S. Paulo.

PAG. 19.--=D. Diogo de Mariz=.

Este personagem tambem é historico. Em 1607 era provedor da alfandega do Rio de Janeiro, cargo que tinha servido seu pai alguns annos antes. S. Lisboa.--_Annaes_.

PAG. 20.--=Pistoletes=.

Ou arcabuzes pequenos. Pela ord. n° 5, tit. 80, s. 13ª, era defesa trazê-los armados ou tê-los em casa.

PAG. 32.--=Um indio=.

O typo que descrevemos é inteiramente copiado das observações que se encontrão em todos os chronistas. Em um ponto porém varião os escriptores; uns dão aos nossos selvagens uma estatura abaixo da regular; outros uma estatura alta. Neste ponto preferi guiar-me por Gabriel Soares que escreveu em 1580, e que nesse tempo devia conhecer a raça indigena em todo o seu vigor, e não degenerada como se tornou depois.

PAG. 38.--=Forcado=.

Esta maneira de caçar uma onça, que a muitos parecerá extraordinaria, é referida por Ayres do Casal. Ainda hoje no interior ha sertanejos que cação deste modo, e sem o menor risco ou difficuldade, tão habituados já estão.

PAG. 40.--=Ticum=.

O ticum é uma palmeira de cujos filamentos os indios usavão como os Europeus do linho. Della se servião para suas redes de pesca, para cordas de arco e outros misteres; o fio preparado por elles com a resina de almocega era fortissimo.

PAG. 42.--=Biribá=.

Era a arvore com que os indigenas tiravâo fogo por meio do attrito, roçando fortemente um fragmento de encontro ao outro. B. da S. Lisboa.--_Annaes_.

PAG. 43.--=Gardenia=.

Nome scientifico que Fr. Velloso na sua Flora Fluminense dá á açucena silvestre; nos nossos campos encontra-se essa flôr da varias côres; a mais commum é a branca e escarlate.

PAG. 73.--=Pery=.

Palavra da lingua guarany que significa _junco silvestre_.

PAG. 80.--=Oleo=.

É uma das arvores mais elevadas de nossas florestas; cresce a mais de cem palmos, e o tronco chega a uma extraordinaria grossura.

PAG. 94.--=Hirara=.

Especie de gato selvagem, indigena do Brazil.

PAG. 100.--=Soffrer=.

É um lindo passaro do Brazil, côr de ouro, com os encontros de um negro brilhante. O seu canto doce imita a palavra soffrer, razão por que os primeiros colonos lhe derão esse nome.

PAG. 102.--=Cecy=.

É um verbo da lingua guarany que significa _magoar_, _doer_.

PAG. 106.--=Sapucaia=.

Arvore de alta grandeza, que dá um fructo do tamanho e da confeição de um côco.

PAG. 107.--=Pequiá=.

Arvore de mais de cem palmos de altura, que tem uma pequena flôr de brilhante escarlate; floresce nos mezes de setembro e outubro.

PAG. 111.--=O cactus=.

Temos differentes especies de cactus; os mais lindos são o branco, o rosa e o amarello, a que os indigenas chamavão _urumbeba_. Todos elles abrem á meia noite e fechão ao despontar do sol.

PAG. 111.--=Graciola=.

É o nome scientifico que Fr. Velloso na sua _Flora Fluminense_ dá á pequena flôr azul de um arbusto indigena.

PAG. 111.--=Malvalisco=.

Assim designa Saint-Hilaire uma especie de malva indigena brazileira, cuja flor é escarlate.

PAG. 112.--=Viuvinha=.

Pequeno passaro negro que canta ao amanhecer; dizem ser o primeiro que saúda o nascimento do dia.

PAG. 113.--=Jasmineiro=.

Ha uma especie de jasmineiro indigena do Brazil; assim o dizem os dous botanicos que citamos acima.

PAG. 115.--=Colhereira=.

É uma das aves aquaticas mais lindas do Brazil; suas pennas são de uma bella côr de rosa.

PAG. 146.--=O cão=.

Diz o Sr. Warnhagen na sua historia do Brazil que o cão era o companheiro constante do nosso indigena, ainda mais do que do Europeu.

PAG. 149.--=Cabuiba=.

A cabuiba ou cabureiba, _Balsamum Peruvianum_ de Pison, _Cabuibaiba_ de Maregrave e _Miroxilem Cabriuva_ de outros naturalistas, é uma arvore das nossas mattas de mais de cem palmos, e a que vulgarmente se chama arvore do balsamo.

Distilla um licor louro de um cheiro agradavel, que dizem milagroso para cura de feridas frescas. (Gabriel Soares; S. Lisboa e Ayres do Casal.)

PAG. 154.--=Formigueiro=.

No sertão encontrão-se frequentemente essas excavações subterraneas, feitas por uma formiga, a que os indios chamárão _taciahy_.

PAG. 161.--=Garcia Ferreira=.

Garcia Ferreira foi provido no officio de tabellião do Rio de Janeiro por Salvador Corrêa de Sá, em 15 de Fevereiro de 1588. (B. da Silva Lisboa.)

PAG. 163.--=Roberio Dias=.

Roberio Dias offereceu a Felippe II o segredo de uma grande mina de prata, descoberta por elle nos sertões de Jacobina, provincia da Bahia; pedia em troca o titulo de marquez das Minas, que não lhe foi dado. Essas minas, falsas ou verdadeiras, nunca se descobrirão.

Roberio morreu pobre e desgraçado, recusando revelar o segredo das minas. (B. da S. Lisboa.)

PAG. 177.--=Convento do Carmo=.

«Logo que os carmelitas se estabelecerão em Santos pela doação de José Adorno, de 1589, se passou ao Rio do Janeiro o padre Fr. Pedro, para fundar aqui o convento do Carmo. Supposto não conste com certeza o anno da fundação é indisputavel todavia que fôra entre 1589 e 1590, pois que já estava aquelle feito em 1595. Corria por tradição geralmente ter sido o seu começo em 1590.» (B. da S. Lisboa, tom. VII°, cap. 2°, § 6.)

PAG. 196.--=Arvores de ouro=.

A sapucaia perde a folha no tempo da florescencia, e cobre-se de tanta flor amarella que não se vê nem tronco, nem galhos; o mesmo succede á embaiba, ao páo d'arco e outras arvores. (G. Soares, _Roteiro do Brazil_, e B. da S. Lisboa _Annaes_).

Sendo epoca da florescencia dessas arvores em setembro, a phrase figurada do indio traduz-se da seguinte maneira: «Era o mez de setembro.»

PAG. 196.--=O mais forte=.

É sabido que entre as nossas tribus, o chefe era sempre aquelle que tinha maior reputação de valor e fortaleza. O principio de hereditariedade, se algumas vezes regulava a successão do mando, era ephemero.

PAG. 197.--=Taba dos brancos=.

Allude-se á colonia da Victoria, hoje capital da provincia do Espirito Santo, que foi duas vezes arrasada pelos Goytacazes Tupininquins. É um desses combates que o indio conta de passagem.

PAG. 198.--=Senhora dos brancos=.

Pela descripção seguinte conhece-se que o selvagem viu na igreja, na occasião do incendio que devorou a villa da Victoria, uma imagem de Nossa Senhora, que o impressionou vivamente.

PAG.--=A estrella grande=.