O esqueleto: Romance

Part 9

Chapter 93,757 wordsPublic domain

--Facilmente conheci que o senhor Garção exerce uma sinistra influencia no animo de seu primo.

--Porque, madame? Sinistra influencia!...

--Certamente, que elle entrou em casa com uma linguagem nova.

Raphael relanceou os olhos ao primo, e disse entre si: «Este homem será mais inepto do que eu presumo?»

E, replicando a Margarida, disse:

--Bem vê, minha senhora, que a minha idade não authorisa a dirigir o espirito de ninguem, particularmente de uma pessoa, que vossa excellencia domina com absoluto imperio.

--Agradecida! tornou ella com ironico sorriso.

--Eu não previa tão aspero acolhimento d’esta dama! disse Raphael ao primo. Que significa este desastre?

--Imaginação d’esta senhora! respondeu Ricardo.

--Imaginação e dignidade! acudiu em tom grave a franceza.

Raphael lembrou-se do verso de Molière, que já occorreu ao leitor e sorriu-se para dentro.

Margarida vibrou vertiginosamente o teclado do piano e levantou-se a aspirar o aroma de umas flores, que adornavam o marmore da jardineira.

Raphael ia-se aborrecendo da sua posição, quando Margarida, brincando com uma camelia, deu dois passos com um meneio de muito garbo, e disse ao hospede com requebro maviosissimo de voz:

--Vossa excellencia veiu a Lisboa buscar seu primo?

--Não, minha senhora: o meu prazer seria trazer-lh’o, se elle estivesse longe de vossa excellencia.

--O tom da lisonja esconde uma desconsideração. Perdoo-lh’a, porque as mulheres na minha posição nem sequer merecem que a desconsideração se vista de palavras usadas nos salões.

--Oh! minha senhora! acudiu Raphael, balbuciando.

Entrou um escudeiro annunciando uns sujeitos da primeira plana genealogica.

Margarida pôde ainda accrescentar a meia voz, em quanto Ricardo saiu ao encontro dos cavalheiros:

--Está enganado, senhor Garção! eu não espero que me abandonem.

--Isso que prova, minha senhora? respondeu o morgado de Fayões.

XV

De relance, disse Raphael a Ricardo que ia sair para esquivar-se a apresentações. E ajuntou:

--Estrago tudo, se me faço conhecido em Lisboa. Como hoje não é terça-feira, cuidei que estarias só. Adeus. Faz os meus cumprimentos á tua amiga. E apparece.

No decurso do seguinte dia, o criado de Raphael comprou a mobilia de um quarto, e recolheu-a, ao fechar-se a noite, na casa fronteira ao hotel. Antemanhã, prevenido com chave de trinco, entrou Raphael, e pregou cortinas na janella destinada a observatorio. Instruiu o criado sobre cousas do estomago, e fechou-se a continuar a carta que daria um opusculo de cincoenta paginas em oitavo francez. Era a historia do seu amor desde os quinze annos até áquella hora de ineffavel amargura. Ás nove horas levantou mão de sobre a setima pagina do sexto caderno, e foi encostar-se á vidraça encortinada. Esperou impacientado uma hora. Todas as janellas estavam abertas, e ao maior numero tinham chegado mulheres e homens. Nicoláo era madrugador e Beatriz tambem; mas nem a sombra lhes vira no interior dos quartos. Ás dez horas assomou a uma janella uma criada com trajes da provincia. Suspeitou o moço que fosse a ama do filho de Beatriz, e animou-se. D’ahi a momentos chegou Nicoláo á beira da ama, e affagou o menino dando-lhe para brincar as borlas do chambre.

Saiu a ama e ficou o morgado da Palmeira encaracolando as guias do bigode, e baforando fumaças do charuto.

Fitou-lhe Raphael o binoculo por entre o resquicio das cortinas justapostas ás vidraças; e viu, no interior da saleta ou ante-camara, Beatriz reclinada nas almofadas de um canapé, e a ama sentada no tapete com o menino, que brincava com os longos anneis do cabello da mãe.

Nicoláo volveu o rosto para dentro, disse breves palavras, e voltou a debruçar-se no peitoril da janella. Depois, retirou-se, ficando Beatriz no canapé. Passado um quarto d’hora, saiu o morgado á saleta de chapéu, vestindo as luvas; e apertando a mão da mulher, inclinou-se a beijar o filho e saiu.

Beatriz levantou-se da postura inclinada, e sentou-se. A ama saiu á janella mostrando ao menino um papagaio da casa proxima. A creança dava valor aos bracinhos, e festejava com tregeitos e risos as cascalhadas do passaro. Beatriz veiu á janella gosar da alegria do filho. Raphael estremeceu: era outra mulher sua prima; mas tambem formosa a outra mulher figurada.

Tinha sido redonda e purpurina de rosto; agora emaciava-lhe a palidez um rosto oval. Alvejavam-lhe agora os labios, que o escarlate do rubi enrubescera. A transparencia das cartilagens do nariz era tal que se mostrava ao alcance do oculo. Posto que melindrosa de compleição, havia sido abundante de carnes, ou os ossos tão delicados que se escondiam sob uma subtil epiderme. Raphael descobrira-lhe no despeitorado do roupão de velludo azul a magreza do pescoço e as saliencias das claviculas. Não podia desfitar as lentes d’aquella encantadora mulher, que todavia já não era a sua prima Beatriz.

Saiu da janella a ama, e fitou a senhora, enlevada n’uns sons de piano, que lhe davam rebates de saudade de alguma bella e triste memoria do seu passado.

Raphael depoz o oculo, reflectiu um instante, e correu a vidraça com estrondo. Beatriz relançou a vista á janella que se abrira; ergueu-se de salto, do peitoril da sua; admirou anceada o homem que lhe sorria; levantou machinalmente as mãos em postura supplicante, e desprendeu um ai estridente.

Raphael fez pé atraz, logo que viu a orla do vestido da ama, que vinha correndo. Beatriz affastou-se ao interior da saleta, e caiu no canapé. Pouco depois, levantou-se, contemplou fixamente a janella fronteira, entreviu Raphael que se approximava da primeira luz, e sorriu. A ama atravessou a ante-camara, e Beatriz recolheu-se ao interior da casa onde devia de estar a alcova.

Posto que a gentil visinha não fosse exactamente a linda Beatriz, o morgado de Fayões sentia-se apaixonado d’ella, e radioso de jubilo.

Esperava-o o almoço, foi para a mesa, e lembrou-se das palavras de Nicoláo de Mesquita: «coração a um lado; estomago a outro». Almoçou como almoça toda a gente que se levanta feliz, e como os infelizes que não jantaram no dia anterior.

--Não saias, disse elle ao criado.

Ao meio dia, voltou Beatriz á janella: vestira-se a primor de graça e simplicidade. Os caracoes ondeavam-lhe nas espaduas estremecidas pela viração do mar. As rosas encarnaram-se nas faces. Os labios coloriram-se dos reflexos do rosto. A prima Beatriz estava passando por mais milagrosa transformação que a primeira.

Assim que viu Raphael, retraiu-se ao meio da saleta, e fez-lhe um gesto de espanto e uma pergunta por acenos. O primo respondeu, mostrando-lhe uma carta, e chamando ao seu lado o criado conhecido de Beatriz. Ella mostrou irresolução temerosa, e o criado, brevemente instruido, atravessou a rua e subiu ao terceiro andar do hotel.

A esposa de Nicoláo chamou a ama á janella, e disse-lhe:

--Entretém o menino com o papagaio.

Depois foi ao mainel da escada correspondente ao terceiro andar, recebeu a carta, e disse ao criado:

--Ámanhã á mesma hora, respondo. O primo que tenha muita cautella... Eu não volto hoje á janella, senão á tarde.

Raphael desceu as vidraças e cortinas. Mandou comprar os ultimos romances francezes, e saboreou as horas na leitura e na meditação, com intervallos de espionagem.

Viu de uma vez Nicoláo de Mesquita passeando na saleta, e gesticulando com os braços desabridamente.

Era um dialogo violento com sua mulher...

Assim que entrou fez reparo no ataviamento de Beatriz, e disse:

--Maravilha! Desde que estás em Lisboa, é a primeira vez que te vestes e penteias com esmero!

--Não cuidei que se fazia notar uma coisa tão insignificante, primo! objectou ella com amavel sombra.

--Pois não! Nem pallida, nem quebrantada, um ar de excellente saude!

--Parece que folgavas com vêr-me pallida! Estarás chorando a esperança perdida de me veres brevemente morta?

--Pelo contrario... respondeu ironico, folgo muito de te vêr tão vivedoura...

Um exquisito instincto impelliu á janella Nicoláo de Mesquita, e todas as janellas lateraes e fronteiras foram mais ou menos examinadas.

Beatriz entendeu a disfarçada analyse, e, olhando por sobre o hombro d’elle, viu hermeticamente fechadas todas as janellas de Raphael.

--Tive hoje carta de teu pae, disse o marido, com melhor phisionomia e brandura de voz.

--Como está elle?

--Melhor. Diz que vem a Lisboa.

--Oxalá...

--Dá-me a noticia do proximo casamento de Raphael com a Angela de Santo Aleixo.

--Sim?...

--É verdade.

Nicoláo fixava de perto o semblante da prima, e satisfactoriamente observava a quietação e a côr inalteravel da indifferença.

--Raphael, continuou elle, foi a Pariz comprar as prendas do casamento.

--Deve trazer-lhe coisas lindissimas! observou Beatriz com um sorriso frivolo.

--Vou jurar que elle não volta cá tão cedo. Pariz é o engodo, e o tonico das almas estragadas. Quando elle achar o deleite que tem em si aquelle bello inferno de Pariz, esquece a morgada de Santo Aleixo, e acha em cada franceza feia uma mulher superior ás mais formosas de Portugal.

Beatriz magoou-se; não se magoaria, antes de lêr a carta de Raphael, em que elle, indelicadamente, contava as scenas occorridas com Margarida Froment, antes e depois do casamento de Nicoláo.

O despeito respirou estas imprudentes expressões:

--Bem sei; as francezas são muito amaveis; mas é triste que os amantes das francezas sacrifiquem as mulheres que nasceram e viveram felizes e amadas em Portugal.

--Que quer dizer isso, prima? interrogou elle, avincando a fronte.

--A consciencia que te responda.

--Como sabes tu que...?

Susteve-se, e murmurou com retrincado sorriso:

--Bem sei... bem sei... O infame havia de preparar o terreno... Faremos contas mais tarde...

--Que contas? atalhou Beatriz, fingindo-se ultrajada pela suspeita.

--As contas que se liquidam com os traidores!

--E tu já as deste, primo? não deves nada?

--Abstenha-se de interrogar-me, senhora! A perfidia... não ousa tanto. Abaixa a cabeça, e cala-se! Entendeu?

--A perfidia!... teimou ella com azedume. A perfidia!... sempre a palavra injuriosa!... As perfidias despresam-se, primo Nicoláo! Eu tenho o patrimonio de minha mãe com que posso viver. Quando quizer separemo-nos!

--Póde ser... concluiu o marido, saindo da sala.

Ao fim da tarde, Raphael escassamente divisou atravez da vidraça Beatriz, que lhe fizera signal de não abrir a janella.

O amor subtilisara-lhe a esperteza. Desconfiou que Nicoláo, alvorotado pelo esmerado trajar d’aquelle dia, de qualquer angulo da rua a estaria espionando. A suspeita era acertada. O criado de Raphael vira o morgado da Palmeira, encoberto pelos cunhaes das casas esquinadas, a espreitar as janellas do hotel.

Á noite, Raphael Garção foi encerrar-se no seu quarto do _hotel de Italia_, onde era conhecido pelo nome do seu criado, que tirára passaporte em Hespanha. Raras vezes um espirito leviano prevê tão miudamente as superveniencias nocivas ao bom exito de uma empreza! Cada Fausto acareia as simpathias de um diabo invisivel, que o aconselha, até á hora definitiva em que lhe toma conta da alma, se é que uma alma, infernada por mulheres, póde servir de pasto aos griphos das alimarias do reino escuro.

Encontrou Raphael o primo Almeida, que o esperava sobremodo attribulado.

--Que tens tu? perguntou o de Fayões. Foi a franceza que te deu tratos de polé! Aposto!

--Coisa peior.

--Fugiu-te?!

--Não: surprehendi na algibeira d’um criado uma carta para ella do Mesquita. Facilmente se conhece que Margarida o auctorisou a escrever-lhe, respondendo á primeira que recebeu. Apresentei a carta á franceza, e ella, a infame, leu-a placidamente, e disse: «Sem contradicção, esta carta é para mim.»

--E tu mataste-a?

--Zombas com a suprema desgraça, Raphael?

--Não: congratulo-me com a suprema felicidade! Despediste-a?

--Não... foi ella quem se despediu.

--Oiro sobre azul. Então já lá vae!...

--Teria ido, se me não dissesse isto: «Sou culpada; mas criminosa, não. Respondi a um desventurado, que está pagando as dôres que eu recebo das tuas mãos!»

--Oh! acudiu Raphael com afflicção, que atrocissima lembrança! Disseste-lhe que eu amava Beatriz!

--Não.

--Por tua honra?

--Por minha honra.

--Estava perdida a minha pobre prima! A franceza, por vingança ou por interesse, accusava a mulher ao Mesquita... Seria uma fatalidade!...

--Socega, que eu não lhe fallei em Nicoláo: era de interesse meu occultar os dissabores do homem que ella ainda ama. O que Margarida não póde perdoar é ser elle feliz.

--O caso é que ella ficou...--volveu Raphael.

--Pedi-lhe eu que ficasse, emquanto o coração a não impellisse a outro homem.

--E ella ficou? Não sei qual dos dois é mais admiravel! Vocês devem ter um pelo outro a maior desconsideração!... Está claro que te não podes arrancar da mulher...

--Eu não sei o que está claro.--disse Ricardo de Almeida.--Escura sei eu que está a minha alma como as trevas dos condemnados. Eu saí de casa allucinado, e procurei-te para te contar a minha deliberação: como te não encontrei, nem te quiz procurar na rua dos Romulares, desisti do teu parecer, e mandei desafiar Nicoláo de Mesquita. Ámanhã ás onze horas é procurado pelos padrinhos.

--Então é certo que endoudeceste?--exclamou Raphael Garção.--Em primeiro logar, a mulher por quem te bates, se o duello fosse uma coisa elevada e seria, baixava-o á infima irrisão. Em segundo logar, Nicoláo de Mesquita não se bate, e humilha-te, respondendo que as Margaridas Froments tão sómente merecem paladinos, que se desafiem a vêr quem gasta mais com ellas. Em terceiro logar, quando te batesses... Que armas jogas? Ha dois annos não jogavas nenhuma...

--Nem hoje.

--Pois então, Deus haja misericordia da tua alma, porque Nicoláo de Mesquita é professor em todas as armas, sem excepção de côr ou feitio! Ahi vaes tu offerecer o peito ao estoque ou á bala, tu, Ricardo de Almeida, um rapaz de futuro, um dos mais estimaveis e nobres moços da provincia! E assim te deixas morrer irrisoriamente por amor ou desprezo--não sei o que é--de uma mulher despejada, que te abandonou! Abre a tua alma a um raio de luz, desgraçado! Crava as proprias unhas no coração ou na cabeça, e arranca de lá essa ignominia, que te sacrifica a uma coisa que não póde ser amor!... Tu vaes d’aqui procurar os padrinhos, e retirar a proposta. Depois, vens residir n’este hotel, e desimpedir a porta de tua casa para que a franceza saia livremente sem as angustias da despedida. O dever, a dignidade é isto!

--Tenho vergonha de retirar a proposta--replicou Almeida.--Em Lisboa um caso d’estes é a perda irreparavel da reputação.

--Da valentia!

--Da honra.

--Então é a honra convencional que te move, já não é o ultraje...

--É tudo. Não desisto... Emquanto a morrer, sinceramente, com todas as veras de minha alma te digo que me não importa. Antecipo um acabar mais obscuro... porque eu, em me vendo pobre, já te disse que me suicido... Além de pobre, desprezado d’esta mulher, que nem o coração me deixou...

--Tens ainda um grande coração, porque podes chorar, meu rico Ricardo--atalhou Raphael abraçando-o.--De hoje em deante és meu irmão! Hei de disputar-te ao diabo e vencerei!

XVI

Ás onze horas do dia immediato, um criado do hotel apresentou a Nicoláo de Mesquita dois bilhetes de uns sujeitos que esperavam na sala. Eram nomes de tomo na velha fidalguia d’estes reinos.

Desceu o morgado da Palmeira á sala. Um dos cavalheiros com a graça amavel e affectuosa de quem vae convidar um amigo para um alegre festim, disse que elle e o seu amigo D. Fulano de tal haviam sido encarregados pelo primo Ricardo de Almeida de fazerem expressa ao excellentissimo Nicoláo de Mesquita, cavalheiro que elles propoentes conheciam de nome, e de mui illustre parentella em Lisboa, a sua resolução de pleitear com as armas no campo da honra o direito de repellir uma affronta.

--Affronta, ajuntou Mesquita, que vossas excellencias terão a bondade summa de nomear.

--Cartas escriptas a uma dama, que vive em companhia do cavalheiro offendido, madame Margarida Froment.

--A dama de que se trata, disse o morgado, é uma mulher que eu sustentava minha amante, estabelecida em residencia minha no Porto, no dia 26 de outubro de 1839, ás tres horas da tarde; e ás quatro horas, pouco mais ou menos, d’esse dia, e anno, o senhor Ricardo de Almeida senhoreou-se d’ella. Qual dos dois entendem vossas excellencias que foi o affrontado?

--Não viemos munidos de instrucções para responder a vossa excellencia.

--Instruidos vossas excellencias, recebo as suas ordens, pedindo licença para observar-lhes que tenho em minha companhia minha mulher, e o local é inconveniente para o proseguimento d’estas negociações. Vossas excellencias consentirão que os cavalheiros, chamados a representarem-me n’esta indiscreta pendencia, se encontrem em logar designado por vossas excellencias.

Reunidos os quatro agentes, dois nomeados por Nicoláo, em casa de um d’elles, saiu D. Fulano a colher instrucções de Ricardo de Almeida, e voltou confirmando o declarado por Nicoláo de Mesquita, com pequenas variantes, que não alteravam a substancia. Em consequencia do que, lavrou-se acta com os seguintes considerandos:

«Os abaixo assignados, incumbidos de accordarem mutuamente na deliberação a tomar sobre um conflicto de honra entre o senhor Ricardo de Almeida e Noronha Valladares Riba-fria de Aguiar Falcão Athayde, morgado do Pontido, e o senhor Nicoláo de Mesquita Sotto-mayor Sepulveda Cão e Aboim da Nobrega e Neiva, Morgado da Palmeira do Vidago;

«Considerando que a franceza Margarida, actualmente, e desde 1839, contubernal de Ricardo de Almeida, era considerada em dominio de Nicoláo de Mesquita, ao tempo em que foi requestada pelo segundo dos citados cavalheiros possuidores;

«Considerando que Nicoláo de Mesquita foi o primeiro ferido no seu coração, ou no seu amor proprio, termos equivalentes na questão subjeita;

«Considerando que o primeiro affrontado entendeu acertadamente que os pleitos de honra são objectos sacratissimos em que as leviandades de uma mulher desdoirada não devem preponderar;

«Considerando que Margarida, _ipso facto_, se havia constituido materia _primi capientis_[3], e desde logo coisa apropriavel sem desaire de quem quer que fosse, nem titulo de propriedade valido;

«Considerando que Nicoláo de Mesquita havia dado o exemplo de cordura e desprendimento quando lhe foi extorquido um dominio, que elle voltava a requestar, sem offensa de Ricardo de Almeida, nem das leis consuetudinarias;

«Considerando que a unica pessoa presumivel de offendida seria Margarida, offensa que não se deu, por ella mesma affoitamente se gloriar de ser a pessoa a quem endereçava a carta, o corpo de delicto na questão litigada;

«Considerando, finalmente, que a dignidade de dois cavalheiros não deve baixar a contender sobre materia que nunca se pode provar honrosamente discutida;

«Os abaixo assignados resolveram que não ha offensa, nem leve desdouro, cuja desaffronta nobilite as armas nas mãos dos cavalheiros, de quem receberam authoridade para esta ou outra deliberação.--Lisboa, e casa de D. João d’Ornellas Themudo, 20 de junho de 1842.»

Seguem as assignaturas.

Ricardo de Almeida recebeu a copia d’esta coisa e gemeu surdamente angustiado pela humilhação, que aviltava a mulher dos seus sacrificios. Ponderou na crueza e alarvaria de certas palavras escusaveis na formalidade da acta: os padrinhos offenderam-se do reparo, sairam abespinhados, e consultaram os reinicolas em duellos sobre se deviam desafial-o.

Nicoláo de Mesquita riu dos considerandos, como fórma e como substancia; achou-os magnificos de ironias e patuscada; agradeceu infinitamente os serviços dos seus bons amigos; os quaes, azoados com o riso equivoco do Mesquita, por um cabello que o não desafiaram tambem.

Os cavalheiros signatarios por parte de Ricardo, bem que lhe desculpassem a defeza de Margarida e o tratassem com deferencia e amizade em publico, não voltaram mais a casa d’elle, onde jantavam e passavam d’antes as noites com frequencia. Motivaram este procedimento, allegando que se achavam mal com Margarida Froment nas salas de um amigo. Os sabedores d’este acume de pundonor imitaram os praxistas da elegancia e dos brios: ninguem volveu ao palacete de Andaluz.

Queixou-se Ricardo ao primo Raphael dos briosos devassos; e o de Fayões invectivou contra os considerandos, lamentando não poder sahir a publico e desafiar, um a um, ou todos quatro de pancada, os signatarios da indecorosa acta. E d’aqui passou a lastimar Margarida Froment, com uns termos tão compungidos, que propriamente Ricardo se espantava do reviramento.

A mudança era racional. Raphael era mais meditativo que o commum dos homens das suas manhas e costumes. Cogitara elle que se a franceza, embora estranha ao seu amor á prima, se reconciliasse com Nicoláo, facilmente lhe diria que Raphael Garção lhe fôra apresentado por Almeida. Assaltado por tal medo, cuidou em dominar egoistamente o fraco espirito de Ricardo, persuadindo-o a sair com ella de Lisboa para o Porto, ou para o estrangeiro, em ordem a que Nicoláo de Mesquita não lograsse a vingança desde muito planeada.

O morgado do Pontido, obtemperado muito á vaidade, e já pouquissimo ao amor, conveio em retirar-se á sua casa da Foz no Porto, e differir opportunamente a desligar-se de Margarida, cujo descredito o enojava. Deploravel orgulho de homem, que julga purificar com a sua estimação a mulher empéstada no conceito dos outros!

Propoz elle á franceza a saída para o Porto.

--Não vou--respondeu ella firme e rapida.--O desprezo dos teus amigos não me afugenta de Lisboa; o mais que pode é afugentar-me de tua casa.

--Desprezo os meus amigos--replicou Ricardo. Vamos... porque...

--Porque vamos?--acudiu Margarida ás suspensivas reticencias.

--Porque desconfio da tua lealdade.

--Aqui?... Porque has de ter mais confiança lá?...

--Confessas, pois...

--Confesso que te sou pesada, e que me pesa de o ser. Eu surprehendi muitas vezes o teu espirito, e resignei-me. Esperei que elle fallasse: foi teu primo que te ensinou a eloquencia do tedio. Morri desde logo para ti, porque tudo esmaguei na minha queda, mesmo o meu orgulho, esta luz do ceu ou do inferno que nunca deixa escurecer a dignidade das peccadoras apedrejadas, que não encontram Jesus. Os teus amigos sabiam que impunemente podiam offerecer aos teus olhos um libello injurioso que tu deixaste mal guardado para que eu me podesse vêr n’aquelle espelho, e admirar a continuação da tua generosidade em baixar até ao esterquilinio onde me atiraram. Convenci-me de que sou a mulher descripta n’este papel em que a minha baixeza corre parelhas com a tua. É impraticavel a nossa convivencia. Reciprocamente nos desprezamos, Ricardo.

--Queres, portanto, dizer...

--Que nos desliguemos.

--Por que voltas aos amores antigos?

--Não te dou contas das minhas tenções: bem sabes que ha dois annos e meio as não dei a Nicoláo de Mesquita.

--O que me espanta é que vivesses dois annos commigo!...

--Por que te espanta?

--Precisamente ninguem te inquietou... disse elle afiando o sarcasmo com o riso.

--Espera!

Margarida abriu uma papeleira, e tirou de um falso alguns massetes de cartas, que desatou, e derramou sobre a jardineira.

--Lê as cartas recebidas em Lisboa pela mulher, que ninguem inquietava. Ahi reconhecerás a lettra dos teus principaes amigos. Ahi estão cartas dos signatarios da acta do duello, que se não fez porque Margarida _é coisa apropriavel, sem titulo de propriedade valida_. Vae agora perguntar a cada um dos teus amigos se possue carta da Margarida. São grandes fidalgos, e alguns--especialmente os que não te pediam dinheiro--são ricos e prodigos. Vae perguntar-lhes se a mulher, _a materia que nunca se póde provar honrosamente discutida_, baixou até elles, quando lhe rastejavam os pés, acceitando o desprezo, com a mesma abjecção com que traiam o amigo. Vae...