Part 8
Martinho Xavier lá estava em Chaves. Decorreram dois mezes, e elle não voltou á Palmeira. Foram visital-o e levar-lhe o neto e afilhado. Acharam-n’o quebrantado com o pezo de mais dez annos. Encaneceram-lhe os cabellos, arrugaram-se-lhe as faces, amortiçou-se a luz dos olhos, arados pela bafagem ardente, que não tinha respiradouro. Para elle a perdição da filha era um anathema indeclinavel. Entrou-se do convencimento de ser ella o instrumento providencial do castigo de Nicoláo de Mesquita. A deshonra de Ernesto Froment havia de ser vingada. A sua amada Beatriz, a innocente das perversidades do marido, obedecia ao sobre-humano impulso da indefectivel justiça. Minguava-lhe illustração para combater o prejuizo. Accusava de injusta a Providencia quando lhe genuflectia, e subpunha a cabeça de sua filha a uma absurda fulminação.
Á força de apprehender n’isto, desordenou-se-lhe a intelligencia por uns paradoxos de fatalismo, que implicavam á religiosidade do seu caracter.
Encarava de fito na filha e chorava. Affagava o neto, e perguntava-lhe:
--Entendes tu a minha dôr, anjo do ceu?
Descaía um severo olhar sobre Nicoláo, e dizia-lhe:
--Não devias casar nunca, sem saldar contas com a Providencia.
O marido de Beatriz suspeitou da inteireza intellectual do sogro. Era para isso. Quiz arrancal-o da solidão do seu quarto, e trazel-o para Palmeira. Foi invencivel a resistencia muda do precoce velho, que apenas contava quarenta e oito annos. Quiz Beatriz ficar em Chaves, e o pae rejeitou o alvitre, como desnecessario á sua morte.
Voltaram a Palmeira.
Parece que lhes soavam n’alma de ambos as medonhas alvoradas de um dia de infinita calamidade. O ceu era o mesmo, a creancinha brincava entre elles com as flôres inverniças; ao passo que os paes, sem se revelarem, olhavam sobre o menino com os olhos lagrimosos.
--Porque choramos nós?--perguntava Nicoláo.
XIII
Chegou ao Vidago a noticia do apalavrado casamento de Raphael Garção com a morgada de Santo Aleixo, bella e rica, de primeira stirpe; transmontana, e costumes irreprehensiveis.
--Aqui tens, Beatriz, disse Nicoláo, como teu pae se illudiu com o descredito de Raphael. Quando as cem trombetas atroam a provincia a divulgar escandalos, offerece-se ao generalissimo da desmoralisação um casamento de primeira ordem!...
--É verdade... admira... ella é bonita...--gaguejou Beatriz, humedecendo os labios calcinados do fogo da alma.
--Será elle tão desastrado que regeite a proposta? É de esperar que não. Aquelles ares de reforma, que lhe vimos, não podem ser hypocrisia, como teu pae diz. Hypocrisia comnosco porque e para que?
--Sim... para que!...
--Vou escrever-lhe a felicital-o, e instigal-o a casar-se...
--Não faças isso, atalhou Beatriz. Sabes tu se elles serão felizes? Deixa-os lá. Se elle um dia se arrepender, escusa de lembrar-se de que o aconselhaste.
--Pensas com acerto, mas sempre quero saber d’elle mesmo se é certo o projecto.
--Isso lá...
--Vejo-te inclinada a julgar de teu primo desfavoravelmente, Beatriz!
--Não... eu... o que entendo é que... a mulher casada com o primo Raphael não ha de ser feliz... porque... é muito cedo para achar prazer á vida tranquilla, que tem sido o que tu sabes em tão pouco tempo... E pode ser que eu me engane... Oxalá...
Escreveu Nicoláo ao morgado de Fayões. Ao outro dia, mostrou a resposta a Beatriz, exclamando:
--O rapaz passou de uma demencia vulgar a uma demencia exquisita! Ha seis mezes era um libertino. Agora não se sabe o que é. Vê lá a resposta de Raphael.
Leu Beatriz:
«Meu presado amigo e excellentissimo primo.
«Agradeço os sinceros emboras que se digna enviar-me; lamento, porém, que se baldassem os seus bons desejos emquanto ao meu casamento: As raias da minha doudice não vão tão longe. Todo o tolo tem as suas demarcações.
«É certo que pessoas da familia de Santo Aleixo propozeram a meu pae o enlace a que vossa excellencia allude. Meu pae consultou-me, e eu rejeitei. Mas, porque, a rejeição divulgada seria offensiva ao orgulho dos visigodos de Santo Aleixo, resolveu a discrição que se deixasse correr o boato da minha annuencia, até esquecer a proposta. Esta é que é a verdade.
«Dir-lhe-hei agora porque não caso: é porque não amo; nem casarei, porque não hei de amar nunca. Se me pergunta em que lamaçaes deixei ficar o coração, abaixo a cabeça, e peço licença para lhe dizer que ainda não prostitui o amor. Entrei nos lamaçaes, é isso verdade, saí sujo, como era forçoso sair, e mais nada. Quanto ao coração, sonhei uma vez que ouvira uma mulher dizer-me: guarda-m’o para m’o restituires no ceu. Foi isto um sonho; porem eu guardo o meu amor para os amores do ceu. O que é a felicidade senão sonho?!
«Meu presado primo, a minha mocidade acabou; foi tempestuosa, mas curta.
«Adeus. Peço á minha excellentissima prima a graça de receber os meus respeitos, e a vossa excellencia a sincera e profunda convicção de uma inalteravel amizade. Sou, etc.»
--Que te parece o espiritualismo do rapaz? perguntou Nicoláo á esposa que disfarçava o tremor das mãos.
--Que singularidade!... tartamudeou Beatriz.
--Estou em crêr que lhe extrairam o sangue máo que elle tinha, com os grãos de chumbo das costas! tornou Nicoláo sorrindo. Hei de mandar esta carta a teu pae.
--Para que?! interrompeu ella com ancia. Tu já sabes que meu pae lhe chamou impostor...
--Por isso mesmo: quero convencel-o.
--Vaes inquietal-o, primo... Que nos importa a nós o juizo que forma o pae? Raphael não solicita amizade d’elle... para que has de tu solicital-a!
--Tens razão, menina. Farto de disputações estou eu.
Facilmente salta ao espirito do leitor a repugnancia de Beatriz. Bem lembrada estava ella da carta surpreendida pelo pae. As ultimas linhas de Raphael eram a resposta. Martinho Xavier se as lesse, saltaria do leito, e correria furioso ao Vidago para esconjurar a procella sobranceira.
Nicoláo, como quem se diverte, replicou em longa carta, recheiada de jocosidades, ácerca do sonho e da reserva do coração para as nupcias celestiaes. Gracejava a respeito do ceu, e de muitas outras figurações, que os padres e os amantes inventam, no intuito de irem apanhando o melhor que podem as bellas coisas da terra. A escrever, Nicoláo de Mesquita remoçava aos espiritos dos vinte annos, com seus laivos de facecia um tanto cynica.
Leu esta carta a Beatriz, e viu que lhe desagradava.
--Em parte não a entendo--disse ella--bem sabes que eu sei quasi nada, e tu empregas ahi palavras que eu não conheço; mas parece-me que tu não sentes o que dizes, quando fazes zombaria do ceu e dos padres para escarnecer a tal mulher do sonho...
--Pois de certo, Beatriz, redarguiu o marido ingenuamente, eu escrevo isto como brincadeira de nenhum peso no animo de Raphael. A minha ideia é o passatempo de uma correspondencia que deve ser preciosa por parte de um rapaz de espirito, perdido nas supremas regiões do bello.
--Então sim... compreendo agora que...
Se ella continuasse em voz alta a idéa, diria: _que é este um meio honesto de eu ter semanalmente uma carta indirecta de Raphael_. Assim foi.
Ao fim de dois mezes, Nicoláo de Mesquita possuia um interessante epistolario, que o recreava infinitamente. A remontada poesia de Raphael denotava um espirito igualmente apaixonado que opulento dos atavios do mais selecto romancista. A erudição tambem não lhe era esquiva: marchetava as suas cartas de sentenças, hauridas de prosadores e lyricos que melhor trataram os theoremas do espiritualismo.
Beatriz estava contente. A occultas do marido, relia, decifrava, e illucidava as phrases obscuras. Sobejava-lhe agudeza de coração para adivinhar até as citações francezas.
Isto durou assim n’este remançoso contentamento conjugal, até que Martinho Xavier inesperadamente appareceu em Palmeira.
Antes de vêr a filha, e sem consentir que o lacaio recolhesse os cavallos, chamou o genro ao bosque do jardim, e disse-lhe:
--Tens tido uma correspondencia de dois mezes com Raphael.
--Tenho.
--Com que fim?
--Nenhum fim, um divertimento... coisa de nenhuma significação.
--Peço-te que me mostres as cartas de Raphael.
--Immediatamente: sobe, que a leitura é demorada.
--Não subo: espero aqui.
--Os cavallos ficam no pateo?!
--Ficam: não me demoro.
--E não vens vêr tua filha?
--Ainda não; traz-me as cartas.
Beatriz tremeu e descorou, quando viu Nicoláo tirar da papeleira o masso das cartas.
--Que é?! perguntou ella agitada.
--Que ha de ser?... a demencia de teu pae... Quer vêr as cartas.
--Disseste-lhe...
--Não, não lhe disse coisa nenhuma; foi elle que m’as pediu... Affliges-te, filha?... Isto dispara em nada, Beatriz!
Assim que o marido saiu, tomou o filho nos braços, e correu os salões da casa, sem atinar com algum intento.
Martinho Xavier leu vagarosamente as cartas, pedindo a traducção dos dizeres em francez.
Acabada a leitura exclamou:
--Este homem é um infame!
--Porque?
--Porque estas cartas são uma cilada á tua honra e á minha, e á honra de minha filha.
--Explica-te, primo Xavier! acudiu com arrebatamento Nicoláo.
--Expliquei-me de mais ao marido de minha filha... Agora... agora, Nicoláo de Mesquita, lavei as mãos! Arranquei da consciencia o ultimo espinho. Fiz o que pude, disse o que podia dizer. Faz o que a tua dignidade te ordenar.
Ia retirar-se; mas o marido de Beatriz susteve-o, exclamando:
--Has de repetir-me essas palavras em presença de minha mulher.
--Não! não!--exclamou o velho movido a lagrimas--Não! que eu matal-a-ia se ella ousasse injuriar esta dignidade de pae que a defende! Tua mulher está sem macula na face, Nicoláo, pelos ossos de meu pae t’o juro! Mas perante mim, se ella ousar mentir-te, o braço de pae vingará a tua honra.
Saiu impetuosamente, e saltou á sélla com o vigor frenetico dos vinte annos.
O morgado estacou. Atormentava-o um dilemma cruelissimo: era sua mulher criminosa, ou seu sogro mentecapto?
Subiu ao quarto de Beatriz: encontrou-a com o filho no collo, e o rosto purpureado da escandecencia das lagrimas mal enxutas. Contemplou-a silencioso, e ella não pôde supportar os coriscos dos olhos d’elle.
--Que segredo da tua deshonra tem teu pae, Beatriz!?--perguntou elle com terrivel placidez.
--Da minha deshonra? nenhum! Eu nunca trahi os meus deveres...
--Não é sómente a deshonestidade a quebra dos deveres. Pergunto eu que ha entre ti e Raphael Garção?
--Nada, absolutamente nada existe. Morto veja eu n’este instante o filhinho em meus braços, se eu te minto!
Nicoláo recordou mentalmente as palavras de Martinho Xavier: _Tua mulher está sem macula na face; pelos ossos de teu pae t’o juro_. Refrigerou-se-lhe o sangue. O juramento da esposa, sobre a vida do filho, podia muito com elle. Saiu a passo lento do quarto; fechou-se no seu gabinete, e repassou detidamente as cartas de Raphael Garção.
Julgal-o-hieis desencavernado do antro de Trophonius, quando saiu do quarto. Era uma amargura de semblante em que facil se prevê que nunca mais se ha de abrir um riso. Nicoláo vira tudo, adivinhára tudo a um clarão do inferno, e tambem vira a essa luz o vulto de Ernesto Froment. Porém, o que elle vira e adivinhára era pouco para considerar-se tão punido quanto offensor. Via o fundo do abysmo; mas via-o de alto. Sua mulher era amada; mas o amador esperava galardoar-se no ceu. Isto, se não consola, offende medianamente um marido. Era ainda incerto que ella o amasse; era ainda perdoavel que ella o tivesse amado em solteira; seria até possivel e quasi desculpavel que ella lhe promettesse esposal-o na bem-aventurança. Meditou estas e outras coisas entre as arvores, e voltou ao gabinete a relêr as cartas. Recordou os relanços em que sua mulher fizera especial reparo, quando elle as lia. Notou, combinou, inferiu, e confortou-se com as noventa e nove probabilidades da pureza de sua esposa, salvando o espirito d’esta conclusão purificante.
Voltou ao quarto de Beatriz, e disse-lhe com brandura, mas torvado o aspeito:
--Mataste a minha felicidade... e a tua. D’hora ávante seremos dois desgraçados que se contemplam. Vives, porque a tua honestidade ainda não está morta. Foi a alma que peccou; convém que a alma soffra. Quando os corpos estão manchados, então é honra espedaçal-os. É occasião de te contar que, ha cento e tantos annos, houve n’esta casa uma adultera. Deitou-se uma noite tranquillamente ao lado do marido, e foi ao outro dia tirada do leito para ser amortalhada. As cinzas d’ella estão alli na capella no jazigo da esquerda. Não se recolheu ainda áquella sepultura nenhum cadaver. Eu quizera que não fosses tu a companheira dos ossos da unica adultera d’esta familia em quinhentos annos sabidos.
--Mas eu estou innocente, meu Deus!--exclamou Beatriz, tirando pelas madeixas com tresvariada angustia.
--Bem sei--disse soturnamente o marido.
--Pois, se sabes, porque me insultas?
--Eu conversei comtigo, Beatriz: os lacaios é que insultam. Meu terceiro avô não me consta que insultasse a minha terceira avó, que está alli no jazigo do lado esquerdo.
--Pois bem!... mata-me e mata-me já, que eu do fundo de minha alma te abomino, e perdôo. Esta creança te amaldiçoará em meu nome.
Era sublime o exaspero de Beatriz, com o filho nos braços, contorcendo-se em altos gritos. Nicoláo tirou-lhe a creança, apertou-a ao seio, beijou-a, lavou-a de lagrimas, e exclamou:
--Tu não me amaldiçoarás, meu filho!... Porque tu és meu filho, és, sinto-te entranhado em meu coração!...
D’ahi a horas, o morgado ordenava aos seus criados que preparassem as liteiras para jornada longa.
Dois dias depois, os fidalgos de Palmeira sairam caminho de Lisboa. E Raphael Garção recebia da mão de uma mulher entrajada de mendiga estas linhas:
«Vamos para Lisboa. Meu pae denunciou tudo. Sou uma martyr. Não me esqueças, anjo da minha vida. Eu perdoei-te, e amo-te mais que nunca. Maldito seja este homem, que me ameaça com a morte!... No ceu, no ceu nos veremos, meu R. Adeus. Sei que não torno a ver-te.»
Raphael Garção, á terceira leitura, disse entre si:
--Verás!
XIV
Appareceu em Chaves Raphael Garção despedindo-se de viagem para França. Deixou um bilhete a seu tio Martinho Xavier, mostrando-se pesaroso de não poder abraçal-o. Notou no seu _remember_ dezenas de encommendas das senhoras flavienses, _novidades_ de Pariz, que ellas haviam de estreiar nas bodas da morgada de Santo Aleixo. O boato corrente era que o morgado de Fayões ia comprar a Pariz o presente de noivado, e encravar os brilhantes e adereços de sua mãe em feitios modernos.
Saiu Raphael por Hespanha, e entrou em Portugal pela Extremadura. Chegou a Lisboa, e informou-se da residencia de Ricardo de Almeida. Margarida Froment é quem dava nome ao transmontano em Lisboa. No _hotel de Italia_, na rua de S. Francisco, onde Raphael se alojara recatadamente hospedava-se um diplomata francez, conhecido da sua compatriota.
Ao outro dia, o morgado de Fayões escreveu a Ricardo de Almeida, marginando a carta com a recommendação de _reserva_. Chamava ao _hotel de Italia_ o seu primo e amigo. Tudo primos! Pode chamar-se o romance dos primos esta novella!
--Que fazes em Lisboa?--perguntou o fidalgo de Aguiar.
--Vim aqui para esconder-me.
--Vens fugido?
--Não, homem: venho na piugada de uma mulher que me fugiu com a alma, e o marido com ella.
--Casada!... Agouro-te desgraça!...--atalhou gravemente Ricardo.
--Ah! tu estás assim?!... Onde tens tu vivido, rapaz? e com quem tens vivido, velhaco?
--Larga resposta me pedes, e mais tarde t’a darei. Vamos ao ponto. É conhecida a mulher?
--É a prima Beatriz Vahia.
--A mulher de Nicoláo!... Então o homem está a contas com a Providencia mais cedo do que eu esperava!...
--A Providencia não entra n’isto, homem!... Tu sabias que nos amavamos eu e ella?
--Parecia que sim...
--O tio Martinho casou-a...
--Porque tu a deixaste casar: logo, não amavas a prima Beatriz.
--Olha se podes ouvir-me sem grande dispendio das formulas do raciocinio: esse «logo» cheira-me a lente de prima! Bem sabes que perdi dois annos de Coimbra, porque não pude fazer exame de logica. Será moda em Lisboa fallar-se de mulheres em syllogismo? Quando eu vinha por aqui passar ha cinco annos, não havia logica para esta casta de gente!... Saberás, pois, primo Almeida, que Beatriz está em Lisboa, e eu quero que me saibas onde está Beatriz. És capaz?
--Sou, se me tu disseres onde está o marido. Tu cuidas que em Lisboa é coisa notoria a chegada do morgado de Palmeira!
--Ora não faças a terra maior do que ella é;--replicou Raphael.--Eu cheguei hontem á noite, e, meia hora depois, sem sair do quarto, sabia onde morava madame Margarida Froment.
--É que as francezas bonitas dão mais nos olhos dos lisboetas, que os morgados de Traz-os-Montes.
--De accordo; mas achas difficil saber-se onde está o Mesquita?
Se não se hospedasse em casa de parentes, é facil pela relação policial das hospedarias.
--Cuida-me disso, e fallemos agora de ti. És feliz, rapaz?
--Sou.
--Dois annos! uma mulher dois annos!... Tu achaste a coisa que os poetas andam a sonhar ha seis mil annos! Dois annos de felicidade com a mesmissima e identica creatura!... Que segredos tem ella? Belleza offuscante, e espirito de endoidecer a gente, não é? Responde alguma coisa, homem!... Parece-me que te vejo no castello d’Aguiar a fazer a côrte por um oculo de vista larga a uma pastorinha, que lavava os pés no regato!... Aposto que ainda te não desbarataste!
--Ainda não; mas fiz coisa peior: desbaratei o melhor da minha casa.
--Já sei: isso consta ha muito por lá... As tias Almeidas e o capellão choram por toda a parte os teus desperdicios. Então estás pobre? queres dinheiro?
--Pobre ainda não: tenho trem, e um palacete, e _soirée_ ás terças feiras.
--Vives sardanapalamente! E, por sobre tudo isso, a franceza, que tu amas! Devéras amas? falla a verdade.
--Amo, porque me não merece confiança nenhuma.
--Esse _porque_ é especie nova para mim! Oh diabo! eu costumo desprezar as mulheres pela razão por que tu as amas!... Isso não é amor, dou-te a minha palavra de homem que leu Byron, Balzac, Henri Beile, e todos os praxistas _ad hoc_.
--Então que é?
--É uma peçonha composta de uma grande dóse de orgulho, e outra grande dóse de tolice. Perdoarás: fallemos rudemente como lá nas nossas montanhas. Ella atraiçoou-te?
--Não...
--Que tu saibas...
--Sei que não; mas tem um ideal.
--A boas horas! Cuidei que estas creaturas não consumiam d’isso, e andavam satisfeitas com vestidos e diamantes e carruagem! De mais a mais, a despeza do ideal!
--Tu rebaixas muito a mulher, primo Almeida!
--Eu!?... tu é que m’a puzeste debaixo dos pés, dizendo-me que ella te não merecia confiança.
--Mas posso ser injusto.
--Ah! então diz-me isso. O certo é que a zelas muito porque a amas desmarcadamente, eim!
--Suspeito que ella, se Nicoláo de Mesquita a requestasse, me deixaria.
--Logo... (cá vem a logica, se permittes uma excepção) logo: a mulher não tem vergonha.
--É barbara a conclusão! Tu ignoras o passado d’esta senhora...
--Sei tudo: contou-me tudo o Mesquita, no mesmo dia em que tu saiste da Foz com ella para Lisboa.
--E elle ainda a ama?
--N’aquelle dia estava cheio de amor! Tocava as raias do delirio e da irrisão. Aturei-o duas horas e levei-o a casa.
--E depois?... atalhou com arrebatamento Ricardo.
--Depois, esqueceu-a, e fez-se amantissimo da mulher. Foi uma desgraça para nós ambos a reconsideração.
--Porquê?
--Porque estavas livre da franceza tu, e eu amaria desassombradamente a prima Beatriz.
--Virá elle a Lisboa com intenções?
--Não sei, mas parece-me que ninguem vem conquistar, ou reconquistar uma mulher com outra ao lado. Esta conjectura é uma calamidade para ti: francamente, Ricardo! Quem te levasse hoje esta mulher, salvava as reliquias da casa dos Almeidas, e rehabilitava os teus creditos para entrares no molde de vida que melhor enquadra ao teu genio. A tua propensão é o casamento, primo Almeida; os homens pegadiços como tu são os eleitos da bem-aventurança matrimonial. Tu consomes com esta mulher porção de sentimento, que na vida honesta, e á sombra das suas arvores gigantes, te daria mananciaes de prazeres. Se eu tivesse a tua alma, bem sei onde a felicidade me esperava. Já estive recolhido seis mezes a trabalhar na refundição da minha indole, e fiquei mais aleijado. Se Deus me pedir contas a mim do que eu sou, hei de eu pedil-as á natureza, e veremos quem fica a dever. Mas tu, homem que podes amar dois annos a mulher de que desconfias, que amor não darias ao coração puro de uma esposa!
--Sinceramente te digo que já pensei n’isso.
--Ah? tu já pensaste n’isso? Então não amas a Margarida.
--Bem se vê que não podeste fazer exame de logica, primo Garção, retorquio sorrindo Ricardo.
--Meu amigo, conheces a regra geral de alveitaria que diz: cavallo que não vê é cego? Pois este axioma em força de verdade corresponde a est’outro: Homem, que, ligado a uma mulher pensa na felicidade que outra póde dar-lhe, não ama a mulher com quem vive. Pilhei-te em flagrante absurdo! Isto só o faz quem não póde fazer exame da arte de raciocinar. Parabens, primo! Dás-me esperanças de te vêr sair d’esta ingloria estagnação em que te apodrece a alma e o patrimonio. Sae d’isto, que é improprio da tua idade. Fecha os olhos. Deixa por descuido aberta a porta da gaiola, e o rouxinol que vá cantar a outros sinseiraes. Homem! olha que o dinheiro é uma cousa importante. Estás nos vinte e seis annos. Que farás aos trinta? Que heranças esperas? Nunca pensaste n’isto?
--Já.
--E que vês no teu futuro, quando hypothecares a ultima geira?
--Vejo um par de excellentes pistolas.
--Essa visão é judiciosa, e não sei realmente desvanecer-t’a. Aqui é que eu queria o egresso que te ensinou o cathecismo. O que eu posso dizer-te, desprendido de toda a pretenção philosophica, é que tu és um asno pyramidal, se continuas assim; e não haverá pyramides que perpetuem a tua asneira, se te matas depois de teres assim vivido. Depois do que, tenho a dizer-te que disponhas da minha casa como tua, e vás saber onde mora a prima Beatriz.
--Pois sim, e fallaremos depois--disse Ricardo de Almeida, e saiu com animo agitado pelo impulso das phrases ora graves, ora picarescas, do morgado de Fayões.
Poucas horas depois, voltou o castellão de Aguiar noticiando que Nicoláo de Mesquita se hospedára n’um hotel francez da rua dos Romulares.
--Obrigado, primo! Venceste a primeira batalha: agora seguem-se os triumphos! exclamou Raphael.
--Que tencionas fazer agora?
--Vou mandar o meu criado alugar uma casa fronteira. O hotel francez necessariamente está defronte de alguma casa.
--Sem questão; mas se a casa tem inquilinos?
--O meu criado leva um mandado de despejo em vinte e quatro horas.
--Estás a mangar!...
--Ninguem manga com o dinheiro, primo Almeida. Imagina tu que no quinto, ou quarto andar do predio mora um empregado publico, que vae rebater duas cedulas para pagar um semestre da casa, que alugou por cincoenta mil réis. O meu criado offerece-lhe quarenta soberanos, e diz-lhe: «rua, dentro de vinte e quatro horas!» Antes das doze, o empregado publico saí com seis cadeiras e duas panellas, e eu entro com esta ponderosa alfaia de um coração em chammas. Impugna lá se podes!
--E depois?
--Essa pergunta é um disfructe! Depois a casa tem janellas, e eu tenho olhos, e Beatriz, essa então bem sabes que magicos, que peregrinos olhos tem! Deixo as omissões á tua discrição. E agora vai-te embora que eu vou dar credenciaes ao criado. Á noite vou a tua casa.
O ladino agente voltou antes da noite, com a certeza de ter as chaves do terceiro andar na casa defrontante com o hotel, ao escurecer do dia seguinte. Apresentou o titulo de sublocação, e o recibo do signal.
Fechou-se Raphael n’uma sege, e foi ao largo do chafariz de Andaluz passar a noite com o primo Almeida.
Estava Margarida Froment ao piano. Recebeu o apresentado friamente, e disse-lhe pouco depois:
--Ricardo passou com vossa excellencia algumas horas do dia...
--Não ha duvida, minha senhora.