O esqueleto: Romance

Part 7

Chapter 73,710 wordsPublic domain

A espionagem, sem intermissão, de Martinho Xavier gerou no animo da filha um secreto e mal disfarçado odio. Bem queria ella sacudir o jugo; mas a mordaça, a carta fatal, estava em mão de seu pae: ella mesma a viu quando se lhe queixou amargamente de a privarem da companhia d’aquella amiga interventora na correspondencia. O pae, sem proferir um monossyllabo, mostrara-lhe a carta, e voltára as costas.

Planeou a sua emancipação Beatriz com um expediente assim natural que insuspeito. Revelou desejos ao marido de voltar a Palmeira, á suave quietação da sua casa. Nicoláo abraçou alegremente a proposta, e exultou de ouvil-a motivar assim o intento:

--Agora, que tenho o meu filho, basta-me este prazer, e o teu amor ás necessidades da minha alma. Já me fatigam tantos parabens, tantas visitas, tantas etiquetas! Apeteço a solidão comtigo e com elle. Mudei inteiramente, primo Nicoláo. Os filhos parece que envelhecem a gente! E de mais eu quero que o nosso Martinho seja creado ao ar do campo, e não n’estas estufas da cidade. Verás como eu agora me dou bem na aldeia! Quero ir comtigo ás quintas, e gosar a doce liberdade de uma aldeã. Estás contente da minha reforma?

--Se estou, filha!...--clamou o marido, apertando-a contra o coração--se estou contente, eu, que por amor de ti, e contra o meu genio, tenho andado n’estas balburdias de bailes e jantares! Eu tambem espero que o nosso filhinho te aformoseie os quadros aldeãos, que tão aborrecidos te pareceram. Um filho é uma estrella que nos alinda o ceu da terra em que vivemos. Sempre esperei que desejasses voltar para Palmeira com esta creancinha. As mães experimentam um santo egoismo de sua felicidade, quando são mães pelo coração, que as ha tão frivolas, minha querida prima, que apenas se dizem mães por terem sentido os soffrimentos da maternidade.

--O peior, atalhou ella, é que meu pae vae zangar-se com a nossa partida...

--Porquê? zangar-se!...

--Que queres? A amizade do meu pae é extremosa até á importunação! Eu não devia dizer isto; mas olha, primo, já me impacientam tantos cuidados comigo! Em solteira, deixava-me mais liberdade!...

--É que teu pae adora-te, Beatriz!

--Bem sei; mas os excessos de ternura incommodam. Tenho marido e filho para amar e presar: não posso attender ás extremosas pieguices de meu pae. Agora ha de elle cuidar que eu vou enfastiar-me na aldeia, e começa ahi com os seus discursos a demover-te de irmos.

--Seria escusado, que nós iremos, prima.

--Pois então, Nicoláosinho, se elle nos contrariar não o contradigas, para o pouparmos a maior magua. Vamos preparando a partida de nosso vagar, e evitemos questões.

--Pensa bem, Beatriz... Teu pae tem singularidades estranhas, que destoam do meu genio...

--Muitas!...

--Este odio entranhado, que elle tem ao primo Raphael, é absurdo!

--De certo.

--Sei que o pobre moço está em Fayões, e não voltou a nossa casa. Precisamente o rapaz foi magoado da rudeza com que teu pae o tratou á ceia, na ultima noite.

--Parece-me que sim.

--Já perguntei ao primo Martinho porque não tornaria Raphael a Chaves, desde que lá estamos. Respondeu-me que não valia a pena notar-se a falta d’elle. Quiz convidal-o para o baile do baptisado, e teu pae respondeu-me formalmente que não!

--Caprichos...

--Ruins caprichos! Eu transigi para obviar resentimentos; mas... Tu has de consentir, filha, que eu te confesse uma culpa... sim?...

--Que é, primo?

--Não podendo justificar a antipathia de teu pae com Raphael, cheguei a conjecturar se elle desconfiaria de alguma infame intenção de teu primo...

--Infame intenção! a que respeito?

--A respeito de ti...

--Ora essa!... Tu enlouqueceste?

--Não, menina, confesso-me.

--Pois não te perdôo, Nicoláo!--exclamou ella irada sobre posse, e escarlate por effeito da surpreendente suspeita.

--Perdoas, que eu,--tornou caricioso o marido--tanta justiça te fiz que nem levemente indaguei... para não dar direito a que alguem te suppozesse um instante criminosa. Nem com esta prova de respeito ás tuas virtudes me perdoas?

Beatriz deixou-se beijar e sorriu.

Nicoláo continuou:

--Em prova da confiança que me mereces, assim que estivermos em Palmeira, convidarei Raphael.

--Não quero! atalhou Beatriz com vehemencia. Magoas-me cruelmente se o fizeres.

--Compreendo o teu pundonor, tornou Nicoláo, soberbo do pundonor de sua esposa.

N’este dia, disse o morgado ao sogro:

--Vamos passar algum tempo á aldeia.

--Fazeis bem, respondeu Martinho; Beatriz precisa de bons ares, que está com má côr.

--E, talvez, lá fiquemos, se ella quizer.

--É natural que não.

--Pois enganas-te primo: ella mesmo aventou a idéa da mudança.

--Sim. Ella?!

Martinho Xavier ficou pensativo largo espaço, e replicou:

--Foi subita essa determinação de Beatriz?

--Disse-m’a hoje.

--Está bom...

--O filho operou uma tal mudança no espirito de Beatriz--tornou Nicoláo.

--Deve ser isso... disse abstraidamente Martinho Xavier.

--Encheu-me de jubilo esta grave transformação aos dezoito annos.

--São raras estas transformações, tornou o outro meditativo.

--Vaes comnosco?

--Vou, respondeu Martinho energicamente. Vou sem duvida.

--Estimamol-o deveras.

Relatou Nicoláo a sua mulher a substancia d’este dialogo, e a resolução no pae.

--Vae comnosco? exclamou ella com irreflectido transporte. Forte perseguição?... É de mais?... Para que me casei eu? Ou bem sou filha, ou sou esposa!

--Podes ser ambas as coisas dignamente; acudiu o marido.

--Ora!...--redarguiu ella com arremeço; e, caindo em si, ajuntou abatendo a voz: Deixal-o ir... que eu para Chaves não volto... Se meu pae não podia viver sem mim, para que me casou?... A minha scisma é esta. Sim! para que me casou?

--N’isso tens razão, prima.

--Pois não tenho? Quer affagos e cuidados, que eu não posso repartir. Sou esposa e mãe; e além d’isso preciso olhar pela minha casa.

--Pois, meu amor, deixal-o ir; trata-o com amizade de filha, e mostra-te feliz, que elle te deixará viver em tua casa.

Grande parte d’esta pratica foi communicada a Martinho Xavier pela aia de Beatriz. O fidalgo aguardou occasião de encontral-a a sós, e disse-lhe:

--Sei que intenções te levam para Palmeira.

--Sabe... que intenções?!...

--Não admitto interrogatorio... Quero ser ouvido em silencio. Resolvi acompanhar-te para te defender do abysmo. Mudei. Não vou. Escuso de ir. O abysmo está aberto. Vaes cair, desgraçada! E tão depressa caires, irei mostrar-te lá com o dedo a teu marido: «Ella ahi está despenhada. Quiz salval-a, e não pude. Agora escarra-lha na cara, que tu não tens esposa, nem eu filha!»

--Meu pae!--exclamou ella afflicta.--Meu pae, eu não sou criminosa!

--Vaes sel-o.

--Juro-lhe que não!

--Mentes a ti propria. Raphael está recebendo cartas tuas; um dos teus criados entrega-te cartas do libertino, do carrasco da tua honra.

--É falso...

--Falso é o teu juramento, Beatriz! Não me desmintas, que eu justifico-me na presença de teu marido.

--Por quem é... por alma de minha mãe!... bradou ella soluçando.

--Tua mãe foi uma santa. Se está no céo e te vê a consciencia, lá mesmo ao ceu lhe mandaste um inferno, coração perdido! Ficas sabendo que eu vigio as tuas acções e as de Raphael. Escuso de seguir-te a Palmeira. Eu hei de saber pontualmente a hora a que te precipitas. Então me verás!...

Voltou o rosto ás lagrimas da filha e saiu.

Dias depois, preparadas as bagagens, e posta a hora da partida, foi Nicoláo avisar o sogro. Martinho Xavier estava de cama com febres, e differiu a sua ida para mais tarde. Observou o morgado que elle, ao apertar-lhe a mão, chorava. Foi despedir-se da filha á cabeceira do leito; e, n’um instante que ficaram sósinhos, disse-lhe o pae:

--Se Deus me levasse agora d’este mundo, furtava-me á formidavel angustia que me preparas.

--Juro-lhe que não.

--Antes do terceiro juramento, perder-te-has--murmurou Martinho Xavier.

Despediram-se.

Beatriz saiu no proposito de esmagar o coração debaixo do peso da honra. Estava aberta uma egreja, e ella entrou a pedir á Virgem que lhe désse forças, e orou longo tempo. Ergueu-se consolada e forte.

Escreveu a Raphael supplicando-lhe que lhe não escrevesse mais, que a deixasse morrer de saudades, mas sem o stygma de uma vilipendiosa desgraça. Prometteu-lhe amal-o no céu; e pela vida de seu filho, jurou que se mataria antes de ultrajar seu marido.

Esta carta era uma rehabilitação.

Foi para Palmeira. Ia doente e amargurada. Parece isto contra-senso. Devia ir jubilosa de sua valentia. Não é assim. As mulheres, depois d’estes triumphos, caem desfallecidas. O que lhes dá forças a ellas são as fragilidades.

Passados quinze dias, espantou-se ella do silencio de Raphael, e disse entre si: _Não me tinha amor!_ Passado um mez, disse: _Tenho-lhe odio!_

Martinho Xavier convalesceu rapidamente, assim que lhe deram uma alegre nova.

Foi a Palmeira, e, na presença da filha, fallou assim a Nicoláo:

--Não sabes a façanha de Raphael?

--Não sei nada. Aqui não tem vindo ninguem d’esses sitios.

--Pois ouve lá...

--É o caso da menina de Basto?

--Que menina de Basto?! Essa historia não sei eu. O que eu sei é que chegou a Chaves um coronel de cavallaria, casado com uma senhora de fina educação, e vinte annos, ou coisa assim. A senhora deu-se mal com os ares de Chaves, e foi para a quinta de S. Lourenço, proxima a Fayões. Em menos de quinze dias, Raphael tomou conta da esposa do coronel, e foi para Hespanha. Pergunto eu agora a meu primo Nicoláo, se o mundo diz a vigesima parte da verdade?

--Aquillo é um lastimavel doido!...--observou o morgado com pena.--E ella parece-me mais doida ainda! Se elle bem soubesse que futuro o espera com as disciplinas da vingança!...

Beatriz ouvira a historia, com immobilidade de estatua. Á reflexão do marido fez um gesto forçado de assentimento. Assim que o filho vagiu no berço, correu para junto d’elle, chorou em ancias abafadas nas roupas do berço, que embalava para se lhe não ouvirem os soluços.

--Mentirá meu pae para me desvanecer? pensava ella comsigo, e, ao mesmo tempo, resava á Mãe de Jesus, pedindo-lhe o esquecimento do homem fatal.

Não mentira Martinho Xavier.

Raphael, assim que recebeu a ultima carta de Beatriz, chorou o tempo desbaratado n’uma esperança, além da qual se carregaram assentadoras borrascas. Doeu-se da força d’alma com que ella o despedia, e tirou a injudiciosa illação de que era mediocremente amado, porque as grandes paixões querem o estampido, e o sêvo das grandes desgraças. Nenhum dos seus romances fazia menção honrosa de heroes que se deixassem morrer da peçonha do ideal. Olhou o moço em si; viu-se com vinte e tres annos, futuro largo, vinte primaveras ainda a reflorirem-se. Enojou-se da inercia de seis mezes, em que deixara anazarem-se as suas ardentes faculdades. Saltou para o sellim do melhor cavallo, desfilou por montes e valles, visitou primas, que elle denominava o seu medalheiro de estudos numismaticos, restaurou galanteios antigos, antigos de seis mezes; e, n’esta andadura, foi dar á quinta de S. Lourenço, onde vivia um general reformado, com trez sobrinhas.

Apresentaram-lhe a hospeda, esposa do coronel, nem formosa nem sympathica, mas interessante pela melodia com que vibrava a escala chromatica em cada dezena de palavras que dizia: era lisboeta a dama. O galanteio começou alli, sem advertencia do general. Continuou nos quatorze dias subsequentes, cuidando o dono da casa que a namorada era uma de suas sobrinhas. O coronel, porque era marido, receava que o general se enganasse: revelou as suas duvidas, e o bravo do Bussaco respondeu que tinha em bom uso a espada com que espostejara um esquadrão de francezes. Em bom uso estava de certo a espada; virgem, talvez. Descançava o coronel na espada do seu amigo, quando a esposa lhe ia arrebatada no arção da sella do mais possante murzello de Raphael.

Aqui está a simples historia, que, posta em escriptura por mais aparada penna, faria chorar os leitores.

Muita gente ri-se d’isto. Outra levanta os olhos ao ceu: contempla o imperturbavel movimento dos astros, interroga o Creador, e diz:

--E então?

A Providencia responde, depois que os interrogadores estão esquecidos da sua audacia sacrilega.

XII

Este enorme escandalo estrondeou tres semanas, e caiu á voragem silenciosa dos factos consummados. Corridos tres mezes, a fugidiça estava em Lisboa com a mãe; e Raphael Garção, de volta de Hespanha, entrára ás escondidas em Fayões, e lia romances no seu gabinete. O coronel, corrido do vexame, pedira transferencia para o Alemtejo.

Raphael tinha pae e mãe, que incessantemente offereciam ao Eterno o calix de suas dôres em desconto do peccado da má educação, que haviam dado ao filho. A mãe, temerosa do juramento que o general fizera de matar Garção com a espada do Bussaco, alternava, com o marido, sentinella ao filho para elle não sair de casa. O velhaco, assim que as atalaias, por noite velha descuravam a sobre-rolda e ressonavam, saltava da janella ás espaduas do criado confidente, e ia refrigerar a cabeça, exercitar a força musculosa, e beber a sorvos os perfumes da manhã.

Assim devia presumir-se até de madrugada de um dia em que elle voltou com as costas crivadas de chumbo e uma orelha farpada. Extrairam-lhe as balinhas, e cicatrisaram-lhe as orelhas. Passados dias entrou n’um recolhimento de Villa Real uma filha de um boticario de Fayões, e então se aventou que Raphael Garção topára no pharmaceutico a fôrma do seu pé, como lá dizem.

Martinho Xavier foi a Palmeira contar este escandalo supplementar. Nicoláo riu-se e disse:

--Ha doidos que se fazem perdoar e estimar! As tolices de Raphael têem graça.

--É preciso ouvir-t’o, para se crer que fallas de Raphael com tão absurda sympathia!--censurou Martinho.--E jámais, ajuntou a meia voz, na presença de tua mulher: Isso desauthorisa a gravidade de teus annos e estado, primo Mesquita!

--Valha-te Deus, Martinho! redarguiu o morgado. Tu vens a ser muito rabujento, homem! Pareces um ancião com o barbaçudo aprumo de um patriarcha! És inexoravel com os moços e principalmente com teu sobrinho!... Quantas capas deixaste tu ficar por mãos impudicas, ha vinte annos, quando te eu conheci o primeiro casquilho de Chaves e seu termo?

--Não pratiquei desafôros! Atalhou Martinho.

--Graças á tua boa indole, e ao captiveiro do coração em que te teve seis annos a minha bella prima com quem casaste. É preciso perdoar aos rapazes, que não podem reconstruir o seu temperamento, nem remediar aos vinte e tres annos os vicios da educação. Raphael não é despresivel, quanto se te figura; é digno de dó. Vem pagar o que eu não sei bem se é culpa d’elle. Os doidos da bitóla de Raphael teem sempre o mau sestro de encontrarem doidos da mesma natureza. Cumpre ponderar esta notavel attenuante, primo Xavier. O mundo não faz d’isto cabedal, nem desconta. Se Raphael attentasse em mulheres morigeradas, não descobria a esposa do coronel, nem a filha do boticario.

--Foram seduzidas! bradou Martinho.

--Pois isso é claro! Toda a mulher precisa que a seduzam; e se a não seduzem, trata ella de seduzir-se a si mesma.

--Regra geral, portanto!

--Regra geral para as mulheres desviadas do caminho da honra.

--E entendes que Raphael tão somente pode perder as desviadas?

--Cuido que sim.

--E as honradas são invulneraveis?

--Como o calcanhar do heroe de Homero.

--Estás gracejando... Chega-me aqui o ouvido.

Nicoláo inclinou-lhe a orelha, e Martinho segredou:

--A Margarida Froment estava desviada do caminho da honra quando a perdeste?

Nicoláo retraiu de salto a cabeça, e não respondeu.

Beatriz descórou, suspeitando loucamente uma revelação horrivel.

Cessou a polemica.

Estavam no mez de junho.

Beatriz lembrou um passeio á feira annual de Santo Antonio a Villa Real. Martinho Xavier acompanhou-os.

Nicoláo e a mulher compravam objectos de oiro n’uma barraca. Raphael Garção passava e viu-os, e parou. Casualmente voltou a face Beatriz, e expediu um grito. Vira-o, e tremêra no braço do marido. O morgado olhou em roda de si, e perguntára:

--Que foi?

--Pisaram-me...--disse Beatriz.

--Canalha! bradou rancorosamente o morgado no rosto das pessoas mais chegadas ao balcão do ourives.

Passaram a outras barracas.

--Espera! disse com alvoroço Nicoláo.--Queres tu vêr o primo Raphel?!

--Onde? perguntou ella serenamente.

--Além! aquelle sujeito de jaqueta de alamares, e botas á Frederico.

--Parece-me que é.

--Vamos ter com elle.

--E se o pai está por ahi?

--Que importa?

--Bem sabes que nos faz um sermão.

--Ouviremos o sermão com devota paciencia. Vamos ouvir este sublime doido... Elle olha para nós... reconhece-nos...

E chamou-o com um aceno.

Raphael avisinhou-se: faltava-lhe ar, como se o coração, dilatado pelos arquejos, lhe tomasse todo o peito.

--Venha cá, D. João, venha cá!--disse com alegre sombra Nicoláo--que é feito de si, homem perdido?

Raphael cortejou grave e cerimoniosamente a prima; abraçou o morgado, e respondeu solemne:

--_Homem perdido_... é o nome que justamente me frisa. Perdido como todos os homens que atiraram o coração ás sarças de desesperança.

--Que estylo!--atalhou Nicoláo, e que merencorio gesto você está fazendo! Tire lá essa mascara dos quarenta annos, e seja rapaz emquanto seu tio Martinho não apparece por ahi.

--Está cá meu tio?

--Está... respondeu Beatriz, levantando do chão os olhos em que Raphael viu um vidrado de lagrimas.

--O primo Raphael que faz aqui? perguntou o morgado.

--Nem eu sei, sinceramente lh’o digo.

--Sei eu, e bom será... que o boticario de Fayões o não saiba...

O moço não abriu leve sorriso; abaixou os olhos e murmurou:

--Seja generoso, primo Nicoláo. Eu não espero da sua mão a esponja do fel. Creia que tenho sido muito desgraçado, e perdoe-me não ter podido ser feliz.

Apertou a mão da prima, abraçou ligeiramente o morgado, e afastou-se velozmente.

Nicoláo quedou-se immovel e silencioso.

D’ahi a segundos disse a Beatriz:

--Creio que teu primo é sinceramente desgraçado!...

--Parece... Como está magro e pallido!

--E talvez não tenha um amigo!... um amigo sincero que o defenda de novos pricipicios... Quem me dera poder vellar o destino d’este rapaz!

--Pobre moço!... murmurou Beatriz, embebendo as lagrimas no lenço.

--Não te afflijas assim, menina. Se eu lhe não fallar, hei de escrever-lhe. Está em excellente idade para rehaver os creditos perdidos, e depois, é rico; a riqueza é meia rehabilitação, quando não é rehabilitação inteira e mais metade.

Caminhando, encontraram Martinho Xavier, que crescia para elles com a vista derramada, e amarello.

--Que tens? perguntou Nicoláo.

--Nada... respondeu Xavier, ferindo a filha com repetidos olhares penetrativos.

--Que tens, homem? viste o monstro?

--Que monstro?

--O Raphael, o tigre, a basilisco?--perguntou o morgado, sorrindo.

--Vi... e tu tambem?

--Esteve ainda agora comnosco. Eu queria que tu o ouvisses...

--Para que?

--Está revirado. Falla como um S. João, que vem do deserto ao povoado prégar o _agite penitentiam_! Confessou os desvarios que o infelicitaram, e fugiu de nós sem nos dar tempo a consolal-o.

--Faltava-lhe a hypocrisia! atalhou Martinho.--Cerrou a mêda agora, não tem duvida. O fecho da abobada é a hypocrisia!

--Que inexoravel e cru homem tu és, primo!

--Sou, sou flagello inquebrantavel de infames--bradou Martinho com espanto dos transeuntes.

--Está bom... disse brandamente Beatriz. Não questionem... Meu pae, perdoe a quem é infeliz, e despreze-o. Vamos embora d’aqui... As minhas compras estão feitas. Vamos para Palmeira, Nicoláo.

--Pois não has de ir á noite ao theatro, filha?

--Não... se me amas, partamos já.

Emquanto Beatriz se vestia de amazona para cavalgar, Nicoláo disse ao sogro:

--Sinto, meu primo e amigo, sinto amargamente a necessidade de te dizer que me fazes soffrer mais do que pode a minha paciencia por causa de teu sobrinho. Para mim e para tua filha é extrema a satisfação e honra que nos dás com a tua convivencia; mas tambem é certo que nos amarguras com a excessiva intervenção de tua vontade em nossas acções e amisades. Eu comprehendo bem que aborreças teu sobrinho; porém, confesso-me insufficiente para avaliar o direito com que tens embaraçado que eu o receba em minha casa, e lhe prove que o estimo por gratidão e parentesco. Peço-te encarecidamente que absolvas estas reflexões, e por tua parte modifiques esse irreflectido zelo de minha casa, onde eu não receio que entrem homens de costumes soltos, porque sei eu castigal-os, quando elles se esquecerem do que devem á sua dignidade e á minha.

Martinho Xavier lançara-se sobre uma cadeira, e escondera o rosto entre as mãos, soltando estas gementes palavras:

--Meu Deus, meu Deus!

--Que tens tu? perguntou Nicoláo commovido.

Beatriz entrou na sala, e viu o pae enxugando as lagrimas, e o marido inclinado á face d’elle.

--Que é?! disse ella agitada.

--Não sei...

--Vão, e adeus!--murmurou Martinho, erguendo-se com energia.

--Ficas em Villa Real?

--Fico: tenho ahi uns cavallos em ajuste. Só poderei ir ámanhã ou depois.

--Queres que esperemos, Beatriz? perguntou Nicoláo.

--Esperemos...--respondeu ella desopprimida da abafação do susto.

--Não, que eu vou direito a Chaves--contrariou Martinho Xavier.

--E quando voltas a Palmeira?

--Quando poder.

Saiu adeante d’elles, apertando convulsivamente a mão da filha, quando se ella inclinou a beijar a d’elle.

--É mysterioso teu pae!...--ponderou Nicoláo.

--Pois que te disse?

--Ouviu-me umas observações duras de se ouvirem, e chorou, como viste... E não póde deixar de ser o que eu já suppuz... Teu pae é ludibrio de alguma intriga a teu respeito.

--Intriga?

--Sim... Levaram-n’o a uma terrivel suspeita... de ti e de Raphael. Faz mal em se não declarar. A injuria reflecte-se em mim... Eu queria mostrar-lhe a elle, ainda mais que ao mundo, a tua innocencia.

--Pois alguem me considera culpada?!--atalhou extremamente resentida Beatriz.

--Não digo tanto; mas com capacidade para culpada.

--Quem?... Eu mereço isto!... Pois tu podes presumir?...

--Se eu podesse presumir, não t’o diria, minha querida prima. Esperava... Facilitava-te as occasiões; e, quando t’o dissesse, a tua bocca não poderia defender-se. Comprehendeste-me bem?

--O ar com que me estás fallando, Nicoláo...

--É a primeira vez que reparas n’este ar. Deus permittirá que seja a ultima.

--Desconfias da minha lealdade, Nicoláo?

--Já respondi, Beatriz. Não desconfio. A tua agonia de morte começaria desde a desconfiança.

Repostos na bonançosa vida de Palmeira, ataram o fio quebrado das serenas alegrias, que irradiavam á volta do berço da creancinha. Bonançosa vida, escrevi eu, porque os exteriores condiziam com a palavra; todavia, no recondito d’alma de Beatriz, estava o aspide roedor, que lhe torvava os sonhos de infernaes alegrias, ou horridas visualidades. Abria os olhos molhados de culposas lagrimas, e seccava-as ao bafejo do filhinho. Seguiam-se no dia as intermittencias da noite. Uma hora, relampagueava-lhe a esperança uma luz vividissima, ao clarão da qual divisava a imagem de Raphael. Outra hora sentia atravez do seio uma vibração glacial, como se a larga lamina de ferro lhe abrisse bulhões de sangue: n’esta visão infanda era a imagem do marido que lhe avultava descomposta pela vertigem do odio. Refugiava-se ainda sob a egide do anjo, a creancinha, que inclinava o rosto á face d’ella, e balbuciava a primeira syllaba das suas reminiscencias do ceu.