Part 6
Arrugou-se a fronte de Nicoláo de Mesquita. Pezara-lhe o ultrage: é que elle vira n’aquelle momento Margarida Froment, encostada ao braço de seu marido, oito annos antes, repartindo recursos e consolações pelos operarios da sua fabrica de Leão, enfermos, e de mãos postas a orarem pelo anjo da caridade.
Esbordava-lhe o coração de lagrimas, quando se arredou friamente do sarcastico mancebo. Foi intermittencia momentanea.
Martinho Xavier abriu as suas salas, n’aquella noite, á sociedade flaviense. Beatriz dançou com seu marido, como ha vinte annos se fazia na provincia sem irrisão. Raphael distinguiu-se no solo inglez, e aprimorou-se n’uma gavota com sua prima. A gentil senhora respirava a peito cheio o ar tepido e balsamico das salas. O setim da cutis retingiu-se-lhe. O marido parecia-lhe outro homem e as flores das jarras figuravam-lhe as primeiras da sua nova primavera. Dava ares de creança; e o marido consolava-se de vêl-a assim.
Seguiram-se outros bailes, e Nicoláo de boa vontade em todos. Balbuciou Beatriz o desejo de residir em Chaves. Em poucos dias, se passaram as preciosas decorações do palacio de Palmeira para outro de Chaves. Martinho Xavier estava em permanentes acções de graças ao Senhor dos Milagres! Via a filha feliz e o genro transfigurado.
No viver intimo, a mudança da indole de Beatriz fôra menos sensivel do que devêra presumir-se. Aquelle temperamento, fóra da quentura dos salões esfriava. Recebia os affagos do marido, como se elle meramente fosse o tio Nicoláo. Ella mesma não sabia dar-se conta da atonia da sua alma. Parecia-lhe que o tinha amado um anno antes, sem dar tento de uns cabellos brancos, que lhe listravam o bigode, nem da calvicie incipiente que lhe affeiava um tanto a cabeça. Calculava, computava os annos, e chegava á exactissima deducção de uma coisa que a mortificava: e era que o marido havia de ter cincoenta e dois annos, quando ella tivesse trinta. Nicoláo era intuitivamente advertido d’estas secretas meditações. Revelava-lhes a razão esclarecida; mas, assim mesmo, confiava bastante de si para deixar-se avassallar de uma suspeita indecorosa a sua mulher. Erro palmar dos homens, que foram muito queridos até aos trinta annos, e se presumem encouraçados e invulneraveis ás injurias do tempo e ás desgraças, que não pouparam propriamente os deuses olympicos, e outros mais importantes deuses terrestres.
Chegado o verão d’aquelle anno de 1841, o morgado da Palmeira foi passar a sasão estiva no seu solar, convidando a acompanhal-o algumas damas e cavalheiros parentes, sem olvidar-se de Raphael Garção, por quem cobrára grande estima. Se alguma hora lhe sombreou o espirito a lembrança ingrata de que fôra Raphael o espertador do coração de sua mulher, acudiam-lhe á memoria as palavras ouvidas no hotel da Foz com referencia ao puro e respeitoso amor que lhe sagrára. As suspeitas fugiam logo envergonhadas, e a confiança restabelecia-se, cimentada nas virtudes de Beatriz, e nas mil diversões amorosas do morgado de Fayões.
Por outro prisma via as coisas Martinho Xavier, sem embargo do conceito que formava da filha. Raphael é que para elle significava o supremo patife das duas provincias do norte, juizo, a meu vêr, moderado, attentos os adulterios, seducções e barganterias femeaes, que corriam por sua conta. Assim, pois, era certo surgir, como por encanto, Martinho Xavier á beira da filha, logo que Raphael Garção se avisinhava d’ella sem testemunhas de acrisolada probidade. Este resguardo não o revelava elle ao genro; porém, visando ao scôpo com a pontaria n’outro alvo, desfazia nas qualidades do sobrinho, e contava os adulterios com taes visagens, que um marido cioso, na posição de Nicoláo, teria desde logo horror do seu proprio infortunio, enforcaria a mulher.
O morgado ouvia as tenebrosas historias, e dizia:
--Ha-de ser a quarta parte do que diz o mundo, primo Martinho. Não sejamos vulgo. Eu, antes de emigrar, gosei fama de ter um harem na minha quinta da Ribeira d’Oura, e de ter obrigado cinco paes de familia a enclausurarem as filhas, e de ser a causa funesta de alguns maridos aferrolharem as esposas infidas na casa do Ferro[2]. Pois, meu amigo, sob minha palavra de cavalheiro te assevero, que antes de emigrar, apenas tinha galanteado uma tecedeira, a qual tecedeira galanteava ao mesmo tempo o meu padre capellão, e veiu por fim a casar com o meu lacaio. Eu era isto, quando tu e os outros hypocritas--disse elle sorrindo--me chamaveis o terror das familias. Pois argumenta de mim para Raphael Garção. Que sabemos nós positivamente? O que elle nos conta, com a fatuidade propria da sua edade. As atoardas que correm, quem as verifica? Os maridos infelizes? Que é d’elles?
--Calam-se--respondeu Martinho Xavier.
--Isso não é nas nossas montanhas, primo. Os maridos ultrajados, quando se calam, fazem fallar a bocca das clavinas.
A discrição do pae de Beatriz rematava aqui o dialogo. Nicoláo permanecia alguns minutos pensativo, e ia de um relanço insuspeito devassar o coração de sua mulher, e espiar os olhos do hospede. Encontrava-os sempre distraidos um do outro, ou conversando as mais innocentes praticas, na presença de Martinho.
N’um d’aquelles dias, ergueram-se alegres vozes subitamente na casa de Palmeira. Foi por que, findo o almoço, Nicoláo de Mesquita, tartamudeando de commovido, annunciou que sua esposa sentia os primeiros indicios da maternidade. Foram as senhoras beijal-a nos braços do pae, e os cavalheiros brindaram clamorosamente o vigesimo quinto senhor de Palmeira. Ao terceiro dia, ao setimo, e ao decimo quinto, depois da nova, celebraram o jubilo com trez bailes, e trez jantares, e trez ceias. Concorreram os poetas de Villa Real, de Chaves, de toda a terra em que Deus plantára um poeta, com capacidade de fazer um soneto.
Beatriz era infantilmente amimada por seu marido, que chorava alvoraçado pela deliciosa expectação da paternidade! Andava elle a inventar-lhe incommodos, para ter o goso de a desvelar com branduras e melindres, que excediam a seriedade de um marido. Receava que a chilreada dos passaros lhe turvasse o somno matutino, e mandava á noite espancar a passarinhada das copas dos chorões. Cuidou que o aroma das flores damnificasse á geração e mandou cavar os alegretes e taboleiros sobpostos ás janellas do seu quarto. Com estas competiam outras crendices não menos irrisorias.
Assim que as chuvas de outubro ameaçaram, cuidou-se na mudança para Chaves.
Martinho Xavier contrastava a alegria de todos. Definhava-se a olhos visto, e respondia com estranho aspeito aos cuidados de Beatriz, e com rancoroso gesto ás delicadas attenções de Raphael.
Fôra o caso que elle, n’uma ante-manhã, ouvira abrir subtilmente uma porta envidraçada do quarto de Raphael, e o vira passar ao jardim, e sumir-se entre uns maciços de murta, e voltar, instantes depois, a fechar-se no quarto. Isto preoccupou-o em dolorosas conjecturas.
Assim que foi dia claro, desceu Martinho Xavier ao jardim, fez umas voltas na visinhança dos maciços, e emboscou-se n’elles, sem ser visto. Examinou os recantos, esquadrinhando algum vestigio. Dois vasos de porcellana ladeavam a entrada de uma gruta, comada de maracujás e baunilhas. Meditou, e desistiu de atinar com o intento de Raphael. Saiu, reflectiu ainda, e retrocedeu. Levantou um dos vasos, e viu que a terra secca, rebordando-lhe o fundo, indicava que não fôra bulido. Examinou o outro, e descobriu claros indicios de ter sido deslocado e, na terra em que elle assentava, o signal de ter alli estado um corpo mais liso, pois que o restante da terra estava crespo das saliencias do vaso. Inferiu que estivera alli uma carta. Assim se explica a maceração do rosto do fidalgo, e a severidade com que tratava a filha, e repulsão odienta com que afastava de si o sobrinho. Quinze dias se erguêra de noite, esperando a alvorada, e mallogrando-se-lhe as vigilias.
Ao anoitecer, porém, da vespera da mudança para Chaves, viu elle sair a filha apressada de entre os maciços, e responder ao marido que chamava de uma janella. Ao mesmo tempo descobriu a distancia, mal embrenhado n’um bosquete de amoreiras, o morgado de Fayões, olhando na direcção das murteiras. Correu Martinho Xavier, encoberto pela ramagem, a erguer o vaso suspeito. Encontrou uma carta. O papel caiu-lhe das mãos convulsas. Quiz sair; mas o tremor das pernas forçou-o a sentar-se no banco de cortiça, que adornava o interior do caramanchel. Cerrára-se a noite. Ouviu fremir a folhagem perto. Era Raphael Garção, que saltava por entre uns buxos defesos á observação da casa. Acercou-se o moço lestamente do vaso, levantou-o, palpou, esteve um instante suspenso, deixou-o baixar; mas, ao tempo que o pousava, sentiu uma pressão de ferro nas vertebras cervicaes, e bateu em cheio com o rosto no gradeamento do caramanchel. Reconheceu a mão que o sopesava, quando ouviu a palavra:
--Infame!
--Meu tio! murmurou elle--por quem é!...
--A tua morte, villão!--bradou suffocado o pae de Beatriz--a tua morte, villissimo lacaio, seria um escandalo, quando não, havia de arrancar-te a collada. Ouve-me bem, canalha! se esta noite não te despedires com qualquer pretexto, e o sol de ámanhã te vir n’esta casa, maldito seja eu, se te não matar. Entendeste-me bem, biltre?
--Cumprirei a sua vontade--respondeu Raphael.
--Ámanhã minha filha e meu genro vão para Chaves--tornou Martinho Xavier.--Se você não quizer ser azorragado debaixo dos olhos d’ella pelos meus criados, não passe mais debaixo das suas janellas. Martinho Xavier cumpre o que promette.
Saiu o pae de Beatriz, e encerrou-se no seu quarto. Abriu a carta, leu-a, e desafogou-se n’uma profunda expiração de contentamento.
Dizia assim a carta:
«Meu pae desconfia. A tristeza d’elle não póde ser motivada por outra coisa. O ar carrancudo com que me falla é mais uma prova. Reparo que tambem te encara com maus olhos. Sejamos cuidadosos, meu primo. Eu amo-te muito; mas não te posso sacrificar mais do que as minhas lagrimas. Deus me livre que o tio N. suspeite que eu te amo. Se tu vês que será util conviveres menos em minha casa, poupa-me algum grande dissabor. Tem sempre comtigo a certeza de que eu te quero muito, e que, se por agora não posso ser para ti mais que irmã, póde ser que um dia seja o mais que posso ser, e o que Deus não quiz que fossemos... _tua esposa_! Quem sabe, meu R!... Ha acontecimentos tão inesperados!... Lembra-te que tenho dezoito annos, e elle... Adeus, adeus, que o tio não me deixa uma hora sósinha. Vou ver se ainda posso levar a carta.»
Era rasoavel o contentamento de Martinho Xavier.
NOTAS DE RODAPÉ:
[2] O _Ferro_ era por aquelle tempo, no Porto, um recolhimento, ou carcere, paradeiro das adulteras.
X
Á hora da ceia, faltou Raphael Garção.
Nicoláo soube que elle estava no seu quarto, e pedia desculpa de não comparecer á mesa. Foi elle buscal-o: encontrou-o emmalando o fato.
--Isso é que é pressa de entroixar, primo Raphael!--disse o morgado,--deixe isso, que tem tempo. Nós só vamos ámanhã por tarde.
--Mas eu vou partir esta noite, primo Mesquita.
--Como assim? Venha contar-nos essa aventura á mesa, que está Beatriz á espera. Temos empreza! não póde deixar de ser...
Travou-lhe do braço, e levou-o, exclamando, ao entrar na casa da ceia:
--Fui encontral-o a dobrar a roupa, e saberão que se despede á meia noite!
Beatriz encarou-o com affectuosa melancolia. Martinho Xavier fitou a filha. Raphael não poz olhos em nenhum.
O morgado proseguiu em tom de galhofa:
--É negocio de damas! Alguma victima saudosa que, do leito dos paroxismos, chama o seu algoz querido para perdoar-lhe!
Confrangia-se o animo de Martinho. O sorriso de Beatriz era um partir-se-lhe a alma, forçada a fingir-se estranha á saida do primo, e arrependida de lhe ter aconselhado a ausencia.
--Agora acredito, minhas senhoras e senhores, tornou o morgado, que é séria e respeitavel a magua do nosso Raphael! É a primeira vez que o vejo quebrado de cores e cabisbaixo! Então, primo, se a jornada é longa, cumpre comer. Coração a um lado e estomago a outro. D. João de Marana e o amado de Clarisse comiam ás horas, e o Byron ceiou optimamente no dia ou na noite em que uma das suas martyres se afogou no canal de Veneza!... Então, Beatriz, não te serves de nada? Primo Xavier, ordena a tua filha que coma... Com que então, á meia noite, primo Garção?
--É verdade...--respondeu Raphael, affectando com violento artificio, o seu natural alegre.
--E quando volta a Chaves?
--Não sei, primo.
--Não sabe?! Agora vejo que a façanha é complicada de incidentes e estranhos casos!... Pois bem, meu amigo, permitta-me fallar-lhe com sisudesa... A melancolia do seu ar faz-me desconfiar da importancia do passo. Reflexione, primo. Se é um presagio que o quebranta, escute-o. Se o pundonor o não impelle, fique. Distinga entre dever e dever. Olhe que nós pomos na balança das obrigações, muitas vezes, a nossa deshonra. Nem sempre as mulheres devem obrigar-nos a tudo, que uma errada consciencia nos aconselha.
Martinho Xavier morria de abafos, se não exclamasse:
--Que discurso tamanho para tão pequeno assumpto! Ora, primo Mesquita, não pregues aos peixes. Deixa-o ir para onde elle quizer!
--Pois eu decerto o deixo ir para onde elle quizer; mas o admoestal-o como amigo e parente entendo eu que é um dever tão meu como teu, primo Xavier. As nossas idades e sobretudo a minha experiencia...
--Pois sim, de accordo--replicou o pae de Beatriz amaciando a voz, receoso de denunciar a causa da sua colera--farto de admoestal-o estou eu, e estão todas as pessoas de bem... É malhar em ferro frio. Deixal-o, deixal-o, que o mundo ha de ensinal-o. Quando chegar aos meus annos, elle chorará os que desbaratou na libertinagem.
Correu breve e triste a ceia. Ao levantarem-se da mesa, Raphael despediu-se de Beatriz, sem atrever-se a olhal-a em rosto, porque o pae, á beira da filha, não o desfitava. Beatriz articulou umas palavras banaes, sêccas e tão contrafeitas, que por si mesmas, á custa de muita arte, a denunciariam a um marido precatado. Do tio Martinho, não pôde despedir-se, que, a disfarce, saíra da sala. Nicoláo seguiu-o ao quarto, offereceu-lhe dinheiro, se o necessitava, e conseguiu arrancar-lhe um imaginoso segredo da sua aventura. Pelos modos, uma menina de Basto, não podendo occultar dos pais o testemunho de sua desgraçada paixão, fugira de casa, e invocava o pae do filhito que lhe estremecia no seio. Mentir como o diabo, tinha dito Raphael pela bocca de Voltaire.
Á meia noite saiu o pae do menino, que estremecia no seio da tão coitada de Basto, e Nicoláo, em termos patheticos, foi contar a Beatriz a revelação do primo. A senhora fingiu compadecer-se das calamidades da menina do filhinho, e aproveitou o ensejo para chorar as suas saudades na presença do marido, que se desentranhou em consolações distractivas, que não fosse ella perigar por demasia de sensibilidade. A sorte de tantos maridos espertos! Faz pena vêr a despotica ingerencia que tem a comedia nos lances mais graves! A humanidade a chorar e um histrião a cobrir a toada do choro com o tilintar do barrete! É triste, mas necessario isto ao regimento da sociedade.
Saíram para Chaves no dia seguinte.
Beatriz ia triste, e recolhida. As caricias do esposo enfastiavam-n’a. O pae, nada blandicioso, fazia-lhe mal com o seu olhar, e dizia-lhe á puridade umas phrases amphibologicas de que ella ficava sentida, sem ousar pedir esclarecimentos.
As palavras que mais a pungiram e intimidaram foram estas:
--Ai, de ti se teu marido se me queixa da tua frieza! Terás em mim um verdugo, e não um pae.
A ameaça logrou menos do que devêra esperar-se. Beatriz desconfiava que o pae lhe surprehendesse o coração n’algum descuidoso olhar ou gesto a Raphael; porém, quando assim fosse, as provas contra a sua honestidade eram nenhumas, e ella facilmente se defenderia das suspeitas calumniosas.
Era de vêr que a retirada de Raphael havia de ser descontada na affeição ao marido. A esposa criminosa, ou propensa ao crime, costuma dar, pelo menos, ao marido um millesimo do amor que prodigalisa ao amante. Se, todavia, o amante lhe foge, nem o quinhão diminutissimo do marido lhe deixa. Isto tambem é triste, e atroz!
Nicoláo attribuia as securas e enojos de sua mulher aos mysterios phenomenicos da geração. Tambem elle tinha accessos biliosos de impaciencia, irritados pelos caprichos de Beatriz; mas soffreava-se, affastando-se. Queixar-se é que não. No entanto, Martinho Xavier, lendo-lhe no rosto alquebrado o desgosto da má vida intima da casa, abstinha-se de interrogal-o, e dizia á filha:
--Tu não me attendeste; mas afinal será tarde, quando caires em ti. Já te disse que, em te faltando a estima do marido, não contes com a estima do pae, Beatriz?...
--Que quer isso dizer, meu pae? atalhou ella. Tantas ameaças, tantas ameaças! Que crimes tenho eu?
--As mais criminosas intenções!... Silencio! silencio!... ouviste Beatriz! Muito juizo para remediar o mal feito... Se assim não fôr...
* * * * *
Raphael Garção estava na sua casa de Fayões. Quizera distanciar-se de Chaves, sair a uma viagem longa, distrahir-se, esquecer-se; mas não pudera. Estava alli preso pela corrente de um grande amor a sua prima. Era o primeiro, o unico, porque não amára outra, desde que nos labios d’ella, ainda solteira, depozera, como n’um altar, as primicias do seu coração. Sem os estorvos, póde ser que outra mulher o roubasse ás froixas glorias de uma facil proesa; mas depois do aviltante castigo do tio, e da vergonha com que saiu da Palmeira, queria elle superar as difficuldades para sentir-se remunerado do seu vilipendio. Era isto a um tempo galardão ao amor, e galardão á vingança. Eram os vinte e dois annos, e a má índole, acerada pela educação que tivera, á lei da natureza bruta. Não sei tambem se eram o Lovelace, e o Saint-Preux, e o D. João Tenorio. Era tudo, incluindo n’esta mistura o elle ser homem, feito á similhança e imagem de... Fóra com a blasfemia!
Empenhou-se Raphael, mediante os serviços de algum amigo de Chaves, em fazer entregar a Beatriz uma carta explicativa da sua rapida saída de Palmeira, o degredo que se elle impozéra na triste soledade de Fayões. Uma dama das mais acreditadas de Chaves foi a portadora da carta.
Então sómente comprehendeu Beatriz o valor das ameaças de seu pae, e o gume do perigo em que estava sua honestidade, e talvez sua vida, se á mão do marido passasse a carta de Raphael.
Nicoláo ganhou com este descobrimento por um lado, e perdeu pelo outro. Os ganhos eram os exteriores affectuosos com que a mulher o indemnisava dos desdens passados. As perdas foram restabelecer-se a correspondencia epistolar entre Beatriz e o primo.
A illustre alcôfa d’esta correspondencia andava espiada por Martinho Xavier, á conta de ser irmã de um particular amigo e contubernal parasita de Raphael. D’esta espionagem, confiada á aia de Beatriz, velha de rija tempera de virtude, resultou ser a correctora cupidinaria avisada para não voltar a casa de Nicoláo de Mesquita, sob pena de ser publicada como negociadora de amores adulteros. O aviso foi dado face a face por Martinho Xavier, que tinha brutalidades de fidalgo montezinho.
O que elle não podia era contraminar a corrupção dos criados. Beatriz continuou a receber cartas do primo; e Nicoláo a experimentar as caricias de sua senhora. Ó Azaïs!...
Decorreram uns seis mezes de vigilancia assidua do fidalgo. Rondava as portas do genro até alta noite. Assalariára olheiros em Fayões para lhe segredarem os passos do morgado. Espicaçava o zelo da velha covilheira de Beatriz para a não largar de vista; quando o marido saísse a fiscalisar o grangeio das quintas.
Por este tempo deu Beatriz um menino aos carinhos doidos de seu pae. Em honra do menino, volvidos quinze dias, encheram-se as salas de mulheres, de musica, de poetas, de flores, e de alegria cerimoniosa. Esta segunda era coadjuvada pela garrafeira. A commissão de parentes, encarregados dos convites, incluira as senhoras Almeidas do Castello de Aguiar. Com muito sacrificio foram de liteira as velhinhas, amolgadas por grandes desgostos. Nicoláo, quando as viu, teve arrepios de espinha dorsal. Interrogou a commissão, a qual respondeu que os Almeidas do Valle de Aguiar eram os mais preclaros parentes de ambas as familias. Hospedaram-se estas senhoras em casa de Martinho Xavier, que acinte as levou para obstar a que palavreassem na presença de Beatriz ácerca de Margarida Froment e Ricardo de Almeida. Isto, porém, não tirou que a dama, assim que esteve a sós com ellas e o capellão adjunto, lhes desse azo á expansão das lastimas.
Disse D. Sancha que o sobrinho estava em Lisboa, desbaratando os bens e que os livros todos tinha vendido, e já havia antecipado rendas de trez annos.
Ajunctou D. Simôa que uma só esperança tinham de o resgatarem da escravidão do demonio, desfigurado na franceza, e vinha a ser o patrocinio de um santo, parente da familia, que tinha sido grande peccador como Ricardo, e depois, tornára sobre si, e acabára a vida santamente: o qual santo era S. Gil de Santarem.
Que S. Gil de Santarem era parente das senhoras D. Sancha e Simôa não ha duvida nenhuma, e vae demonstrar-se para confusão dos praguentos.
Estamos em tempo do senhor rei D. Affonso Henriques, que santa gloria haja.
Depois da milagrosa victoria de Ourique, os barões da comitiva do rei conquistador recolheram a suas terras, ganhadas a montante, e Deus sabe como. O bravo rico-homem de Galliza, Fernão Martins de Almeida, despediu-se com um aperto de guante dos seus primos e amigos Lourenço Viegas e Martim Moniz, e foi-se a matar corças e ursos nas suas tapadas do Valle de Aguiar. Fatigado de matar e comer ursos, cuidou em casar-se com a filha de D. Payo Mendo Gil, senhor das terras de Cavallaria, termo da cidade de Vizeu junto á villa de Vouzella. Preferiu o castellão residir no solar de sua mulher, e deixou as suas terras a cargo de irmãos. D’este consorcio nasceu D. Tareja Gil, a qual casou em 1184 com Ruy Paes de Valladares, do conselho d’el-rei D. Sancho I, seu mordomo-mór, e alcaide-mór do castello de Coimbra. Estes são os bem-aventurados paes de Gil Rodrigues, conhecido e venerado do leitor pio por S. Gil de Santarem, ao qual o divino Garrett denominou o Fausto portuguez.
Nada menos que este santo, inquestionavel parente das senhoras Almeidas, estava empenhado em arrancar o seu consanguineo dos braços satanicos da franceza. No entanto, alguns mezes haviam passado, depois do voto das senhoras a seu tio frei Gil, sem que o energumeno voltasse, cumprido o seu fadario. Sem embargo, ellas esperavam, e razão era que esperassem. Alguem faria o milagre, se não fosse o santo feiticeiro, antigo pactuario do demonio: que estes milagres, nos tempos correntes, bastam a fazel-os algumas lettras a vencer na mão de um usurario. A onzena tem convertido mais perdularios do que a vida mirifica de S. Gil.
O certo e naturalissimo era que Ricardo de Almeida tinha esbanjado metade dos seus haveres, e perto iria n’aquelle desperdicio. Sustentava em Lisboa a lauta vida do Porto, e redobrava de extremos com Margarida a cada requestador que lhe varava ao coração o stylete do ciume. Os galãs lisboetas eram mais arrojados e tentadores, mais ociosos e pertinazes que os do Porto. Ricardo via isto pelos seus olhos de amante desconfiado, e de são juizo para entender que o facil para elle não seria extremamente difficil para o restante da humanidade.
Este receio era injurioso a Margarida Froment: era sinceramente; mas o não menor castigo das mulheres na condição da franceza é inspirarem suspeitas aviltadoras áquelles mesmos que as estremecem, e authorisarem o galanteio de quem quer que meramente as deseja.
Seja como fôr, as senhoras D. Sancha e Simôa choravam lagrimas como punhos, quando Martinho Xavier saiu do salão do baile a procurar Beatriz que tambem chorava com as velhas.
Uma paixão explora veios de lagrimas desconhecidos. Chorava, porque amava, a mal-sorteada senhora!
XI