Part 10
--Basta!--Exclamou Ricardo, engriphando os dedos nos punhados de cartas, que atirou ao pavimento.--Basta, Margarida, que eu estou expiando infernalmente crimes que não pratiquei! Segue-me, segue-me por piedade, e fujamos de Lisboa, senão fizeste de mim um assassino!
--Por minha causa não o serás, Ricardo. Attende-me bem: estas coisas são providenciaes. Eu sou escrava de um impulso sobrenatural. Não sei quem me leva nem onde vou. Ha oito dias que eu desprezava Nicoláo de Mesquita...
--E hoje?...--atalhou com ancias Ricardo.
--Hoje... nenhum de nós sabe que fatal magnetismo nos arremessa um contra o outro, como dois ebrios que se despedaçam a rir...
--Pois tu vaes para Nicoláo?!
--Não sei para onde vou.
--Sabes que elle é casado...
--Sei: que me importa a mim saber o que elle é? Casada era eu, e feliz, e rica e abençoada de todas as esposas e de todas as mães!...
--Que perdição a tua, que estrella, santo Deus! Exclamou em lagrimas Ricardo.
--Compadeces-te? Que faria... se visses a minha alma!...--soluçou Margarida.
--Oh! mas não vás que eu amo-te!
--Não mintas... Deus quer que d’aqui a uma hora me desprezes. Tu amaste-me sem saber por que: hoje odeias-me, sem poder justificar o teu odio. A carta de Nicoláo? Não pode ser! Que viste n’esta carta? Um homem que dizia: «A tua compaixão suavisou a minha dôr. Não me abomines, não peças a Deus o meu castigo, que eu já sinto na garganta a mão vingadora de teu marido!» O restante da carta que era? lagrimas, supplicas, reminiscencias do tempo em que me vira presada da sociedade, e pura como elle já não vê sua mulher. Podeste abominar-me tu, e tolerar que os teus ignobeis amigos me insultem por causa de similhante carta? Oh! se elles tiverem irmãs, ou esposas, alguma hora lhes passará no espirito a imagem de Margarida Froment, que não pode delir com lagrimas o appellido de seu esposo!
--Não vês que choro e que te amo, Margarida!--clamava de mãos postas Ricardo, inclinado aos joelhos d’ella.
--Dignidade, meu amigo! disse ella, erguendo-o.--Dou-te este nome com a sinceridade e honestidade de uma santa. Acceita-o que não pódes ser mais nada para mim.
E saiu da presença de Ricardo. Elle seguiu-a a brados dilacerantes, e ella acolheu-o nos braços, murmurando:
--Ouve-me, meu amigo. Eu pensei hontem em suicidar-me. Se hoje não visse o papel assignado por quatro miseraveis estaria morta a esta hora. Salvou-me aquella ignominia, Deus sabe para quantas mais atrozes. Nicoláo de Mesquita, n’este momento, sabe que eu vou pertencer-lhe...
--Infame!--exclamou Ricardo arrancando-se-lhe dos braços.--Que infame és tu, mulher sem pejo, que te vaes vender ao homem que te abandonou!
--Vender não, meu amigo--atalhou ella com a brandura de um sorriso sem nome nas expressões variadas da agonia.--Eu não me vendo: compro o direito de me espedaçar lentamente.
--Não te entendo, miseravel!--rebramiu Ricardo com os punhos cerrados, e os braços ameaçadores.
--Espero que me não insultes como um homem vil!--disse Margarida, retraindo a face aos punhos convulsos do allucinado.
Ricardo caiu na tormentosa consciencia da sua indignidade, e fugiu da vista da franceza, que soluçava como na ultima entrevista com Nicoláo, na estalagem de Villa Pouca.
No esplendido salão do seu palacete, Ricardo examinava um par de pistollas, e substituia por outros os fulminantes oxidados.
NOTAS DE RODAPÉ:
[3] Aos redactores da acta, modelo de continencia da linguagem no genero, agradecemos o latim, sem o qual a não poderiamos trasladar na integra.
O AUTHOR.
XVII
Ás dez horas da noite d’esse dia, Ricardo de Almeida fez pavor a Raphael Garção, quando lhe entrou no quarto, no _hotel de Italia_, tartamudeando offegante umas phrases sem tino, cortadas por soluços.
Atirou-se aos braços do primo com desalento mulheril, e chorou mais copiosamente do que a razão critica das senhoras viris concede que chore um homem.
Com espaçosas intercadencias de anciado silencio, contou Ricardo o violento dialogo com Margarida. O morgado de Fayões escutou-o com o desprazer que incutem as debilidades do coração alheio aos homens de rija tempera, e disse:
--Eu repito as palavras de Margarida: «agora dignidade, Ricardo.» Sae de Lisboa. Não te aconselho que busques diversões ao espirito no grande mundo, nem aqui nem n’outra parte. Os homens da tua convivencia devem ser odiosos em Lisboa: os infames foram elles; mas o ridiculo és tu. Fóra de Lisboa tambem te aconselho que desistas de distracções, que as não encontrarás. Nas salas ha alegrias, o mais afiado golpe que te póde atirar a indifferença. Vae para a tua aldeia, concentra-te, padece, esquece á força de ninguem te suscitar reminiscencias d’ella. Isto é duro de ouvir-se; mas quem te prometter outras consolações, engana-te primo. Dignidade sobretudo. Eu amava Beatriz com a paixão de homem de minha indole, que seis mezes se esconde a devorar-se na duvida, e a purificar-se para merecel-a. Ao fim de seis mezes, Beatriz desenganou-me. Invoquei o meu dever! e antes de trinta dias, estava distrahido, não te direi honestamente, mas estava curado da ferida, que já não podia sangrar, sem desdouro da minha consciencia... Nota lá, primo Ricardo que a nossa provincia está recamada de bonitas mulheres, portuguezas de lei, materia excellente com o espirito necessario. Lembro-te o que já te disse, respeito ao desfalque de tua casa, ao infortunio de não ter nenhuma, e á tua inhabilidade para recuperares o grande patrimonio sacrificado. Se resistes ás admoestações, que te faz um doido no seu lucido intervallo, maldigo a hora em que me intrometti nas coisas da tua vida.
Ricardo parecia attendel-o com uma fixidez de olhar espavorido: é provavel que o não ouvisse. N’este comenos, entrou no quarto o criado de Raphael, alvoroçadamente.
--Que tens?!--perguntou o amo.
--Acaba de entrar na hospedaria o senhor Nicoláo.
Raphael ergueu-se, relanceando a vista ás pistolas.
--Entrou com elle uma senhora--continuou o criado.
Ergueu-se Ricardo de salto, exclamando:
--É ella!... é Margarida!
--Eu estava no quarto do porteiro--continuou o criado--quando elles saltaram de uma sége. Poucos minutos antes, tinham chegado uns gallegos carregados de malas, e disseram que as mandava um senhor, que ás quatro horas tinha falado com o dono da hospedaria. Eu escondi-me assim que o conheci, e dei tino de que a mulher, que entrou com elle, falava estrangeiro.
Ricardo fez um salto arrebatado á porta. Raphael reteve-o, exclamando:
--Alto ahi, mentecapto! Que vaes fazer?
--Apunhalal-os.
--É justo; mas manda saber primeiro o numero do quarto em que os has de matar--replicou o de Fayões com agastada ironia.--Se não tivesse compaixão de ti, despresava-te, Ricardo!
E, voltando ao criado, mandou-o observar o que podesse.
--Vamos sair ambos--tornou elle ao primo, que arquejava prostrado no sophá.--D’aqui a pouco, o Mesquita sabe que estou em Lisboa, se o não sabe já. Pobre Beatriz! Calcula a minha afflicção, Ricardo! Trata-se da honra e talvez da vida d’aquelle anjo... e, todavia, olha se me vês mudar de côr! Que miseraveis somos! Attraimos o raio da desgraça, e choramos como mulheres, assim que ouvimos o trovão! Ergue-te d’ahi, coisa, que pareces homem! Vaes comigo para outro hotel?
--Irei.
--E brevemente iremos para a provincia, que Beatriz não se demora em Lisboa, ou é fechada em algum convento.
Pouco depois, voltou o criado, informando que Nicoláo tomara o segundo andar do hotel, e que os criados andavam a mudar a bagagem dos hospedes para o primeiro, e a trastejar ricamente os quartos. Accrescentou que a estrangeira era franceza, segundo ouvira dizer, e se chamava Margarida, porque elle mesmo espreitára e ouvíra o senhor morgado da Palmeira chamal-a assim.
Ricardo escutava-o com o ar estupido de um surdo-mudo.
--Fecha as minhas malas, ordenou Raphael. Queres tu, Ricardo? Vamos para tua casa. Vou ser teu hospede! Tens tu champagne, ou absyntho, ou a demencia engarrafada em casa? Vamo-nos embriagar, e depois reflectiremos. Se entramos com a razão n’este labyrintho, estamos perdidos. Valeu?
--Vamos, disse Ricardo.
--Conduz as bagagens ao largo de Andaluz, tornou Raphael ao criado. Os gallegos que te guiem. Paga a conta no hotel, e voltarás depois a saber, com disfarce, se o sr. Mesquita se demorou, ou pernoitou aqui.
Sairam cautelosamente, e mandaram parar a sége perto da casa de Ricardo. Informou-se o morgado com os criados. Margarida Froment, ao escurecer, fechára os seus bahus, e mandára entregal-os a gallegos. Ás nove horas e meia, parára uma carruagem particular com libré defronte do palacete, e o guarda portão vira, á claridade das lanternas, que estava dentro um homem embuçado fumando. Margarida saiu, sem dar palavra aos criados, e saltou ao estribo.
Depois ouviram-n’a dar um ai já dentro, quando se fechava a portinhola da carruagem que despediu á desfilada.
--Quem dá aqui ordens, sou eu! disse jovialmente Raphael. Sôr escudeiro, mande pôr a ceia, se ha ceia n’esta casa. Os melhores vinhos! ordem ao escanção!
Sentaram-se á mesa. Ricardo emborcava á competencia com o hospede os licores mais excitantes.
Raphael comeu á proporção do liquido. Ricardo difficilmente deglutia, e cada bocado lhe anceava entalado. A revezes, aguavam-se-lhe os olhos. O de Fayões exclamava:
--Execração e bebedeira estupida áquelle que puder chorar coisa que não seja vinho!
Antes de finda a ceia, Ricardo perdêra as côres rubras da vinolencia, e desfallecêra prostrado em serena embriaguez. Garção e dois criados transportaram-n’o ao leito.
A embriaguez do hospede era de outra especie: carecia de ar e agitação, de algum enorme desatino ou façanha de estrondo. Crepitaram-lhe no peito fumegante umas lavaredas de amor incendiario a sua prima. A cabeça alcoolisada chammejou. Sobresaltou-o uma vertigem. A sége estava ás ordens. Mandou que a levasse um raio á porta do _hotel de Italia_. Chamou o criado. Era meia noite. Perguntou-lhe se Nicoláo ainda estava. Disse o criado que elle dera ordem ao bolieiro para chegar á uma hora. Raphael mandou picar para o largo do Corpo Santo. Apeou. Entrou no pateo do _hotel francez_. Subiu ao terceiro andar. Abriu a porta da sala: era Beatriz que esperava e suppunha seu marido. Raphael entrou, sem dar tempo a que o vissem os criados. Era a primeira vez que ali entrava. Beatriz caia-lhe convulsa de medo nos braços; e elle abrazava-lhe a cutis livida com os labios, que reviam lume.
--Nicoláo não póde demorar-se, ó primo!... tu perdes-me; eu morro ás mãos d’elle!--murmurou abafada Beatriz.
--Nicoláo vem á uma hora.
--Por que o sabes? onde está elle?
--Com Margarida, no hotel em que eu morava.
--Com a franceza!...--exclamou ella espavorida.
--Sim!... com a franceza, que ha duas horas tirou de casa de Ricardo... Abençoado crime, que me restitue a tua alma inteira! Era o destino!... Eras minha, anjo da infancia! As penas do infinito inferno para a minha alma, se eu deixar de amar-te n’este mundo e no outro... Olha como é bella a nossa vida!... Oh! tu não endoudeces de prazer, Beatriz?...
--Ó Raphael!... tu atterras-me!...--clamou ella, afogando-lhe no peito as altas aspirações, que saiam gementes.--É possivel que eu esteja em teus braços, ó meu amor!... Que alegria e que medo eu sinto!... Foge, que não vá ser este o primeiro e ultimo instante da minha felicidade!... Foge, Raphael!... Oiço chorar o meu filhinho... isto é agouro... a creança chama-me... é o anjo que me está accusando...
A eloquencia persuasiva de Raphael contra as appreensões de Beatriz, era de todo o ponto nulla em quanto á expressão, mas de seus labios mudos resaltavam scintillas, que offuscavam os olhos de Beatriz. Fechou-os ella para não vêr o incendio; mas o mixto de lacerante peçonha e prazer vertiginoso que lhe escaldou as veias, só havemos de comparal-o á infernal deleitação da primeira mulher, que um dia pôde dizer: «Caí; mas vinguei-me.»
Decorridos cincoenta e oito minutos, Raphael entrava na sége, a tempo que a carruagem de Nicoláo de Mesquita parava á porta do hotel.
O marido de Beatriz entrou com alegre sombra na sala e á esposa que não ousava encaral-o, disse:
--Estás zangada, filha? tens razão; demorei-me com os primos Albuquerques, forçado por etiquetas aborrecidas... Por que te não deitaste, priminha?
--Não era meu costume...
--Pois, sim, mas de hora em deante, quando eu me demorar além das onze horas, deita-te, sem susto da minha demora. Alguns amigos conseguiram de mim que eu os coadjuvasse n’umas conspirações politicas contra o conde de Thomar. É forçoso contribuir para a salvação da patria, quando menos tempo nos resta para viver n’ella. Os annos trazem comsigo o amor da patria; e por este motivo, póde ser que eu me detenha por fóra, extraordinariamente; e desgosta-me muito se me esperares; porque não estou por lá descançado. Fazes-me isso, sim, prima?
--Pois sim... deitar-me-hei.
--Bonita! o menino como tem passado a noite?
--Bem.
--E tu que fizeste? Lêste?
--Li.
--Gostas das _Meditações_ de Lamartine?--disse elle, tomando o livro de sobre a almofada do canapé.
--Muito... São tristes...--respondeu ella.
--Qual te fala mais ao coração?
--A _Tristeza_.
--Bem sei...--acudiu elle, recitando de cór:
De mes jours pâllissans le flambeau se consume, Il s’éteint par degrés au souffle du malheur, Ou, s’il jette parfois une faible lueur C’est quand ton souvenir dans mon sein se rallume.
--Mas--proseguiu o morgado--o que ha no teu coração é o _souvenir_ do poeta de Elvira.
--Ha.
--Qual?!...
--A recordação do anjo da minha mocidade.
--Teu primo?--atalhou irado o marido.
--Não... o anjo da minha innocencia.
Nicoláo sorriu-se, compondo o desmancho do rosto, e disse com maviosidade:
--Queria vêr-te feliz, prima!
--Feliz... como tu?
Esta pergunta deu-lhe uma pancada na alma. A reflexão combateu o preconceito, e respondeu:
--Sim, feliz como eu, que te adoro, e te perdôo as maguas todas com que por vezes perturbas a immensa felicidade de te haver merecido...
--São quasi duas horas...--observou Beatriz, depois de uma longa expansão de termos affectuosos do marido.
--Queres dormir, prima?
--Se eu podesse... doe-me tanto a cabeça!...
--Pois sim, vae, meu amor: eu espertei com o muito café que bebi, e aproveito a vigilia para ir escrever aos feitores. Vou alugar um palacete onde o encontrar. Aqui estamos incommodados com a pequena casa, e a bulha da rua. Gostas de ficar em Lisboa alguns mezes?
--É-me indifferente.
--Dizem que teremos bello theatro lyrico. Tomarei um camarote de assignatura. As primas Camaras e as primas Mesquitas irão comtigo, quando os embaraços da politica me não deixarem... Diz-me cá, prima... Tu desejarias ser viscondessa do Vidago? Offerece-se-me excellente occasião, assim que o ministerio cair. Vê lá, queres?
--O que tu quizeres, primo... O que eu agora muito queria era dormir... Sinto-me tão desfallecida!...
--Pois vae, filha, vae; mas ama-me muito, sim? Vem dar-me um beijo... e até ámanhã.
Nicoláo abancou a escrever aos feitores. Eis aqui o specimen de uma das cartas aos feitores:
«Ainda me sinto estremecer debaixo da electricidade dos teus olhos... Abro ao acaso as _Meditações_ de Lamartine, e leio no _Canto d’amor_:
«Laissez-moi respirer sur ces lèvres vermeilles «Ce souffle parfumé!... Qu’ai je fait? «..........................................
«Parle-moi!... que ta voix me touche! «Chaque parole sur ta bouche «Est un écho mélodieux!...
«.......................................................»
Esta carta começa lyrica de mais para um feitor!
XVIII
Ricardo de Almeida, quando Raphael entrou, dormitava anciado, bracejando, e resmoneando sons desligados. Á cabeceira estava o escudeiro, homem de annos, marido da alma que aleitára o fidalgo, e servo dos Almeidas desde a infancia. O velho chorava e dizia a Raphael:
--Saberá vossa excellencia que é a primeira vez que vejo assim meu amo turvado do juizo. Mal hajam as desgraças que vem todas juntas!
--Isto não é desgraça, homem!--contestou Raphael Garção.--As bebedeiras são ás vezes os purgantes da alma. Tu nunca purgaste a alma, meu velho?
--Sempre cuidei, respondeu o mordomo, que as almas se purgavam no purgatorio; mas a de meu amo, ou eu me engano, ou cae direita no inferno. Estou a ver que lhe não chega a hora do arrependimento, como ao seu santo parente fr. Gil de Santarem. Vossa excellencia sabe a vida d’este parente do senhor morgado?
--Has de contar-me isso depois do café. Manda-me fazer café, que seja polvora, e alegra-te, que o fadario de teu amo está a quebrar-se.
--Deus o ouça, meu senhor!--disse o velho, e foi á cosinha filtrar alegremente o café.
Raphael estirou-se n’uma flacida ottomana, e sentiu-se na mais feliz hora da sua vida. O excedente da felicidade vulgar parecia-lhe sonho. Coordenava as reminiscencias de tres quartos de hora, e convencia-se da real existencia da sua fortuna após um arrojo que o coração não praticaria sem a escandecencia dos vinhos. Erguia-se de impeto, e mirava-se n’um espelho, como quem admira o dilecto da melhor fada, e o invejado dos mais bemfadados galans. A felicidade do coração corrompido põe o homem n’estes ridiculos arrôbos de si mesmo.
Chegou a bandeja do café. Raphael fez-se servir reclinado nos coxins, e disse:
--Se me dispensas, velho amigo, de ouvir a historia de S. Gil, meu maior e de teu amo, pede-lhe por nós nas tuas orações, e conta-me alguma coisa de Margarida.
Ricardo sentou-se espavorido, e rouquejou um brado que parecia um romperem-se-lhe as fibras da larynge:
--Margarida!?
--Que é lá?--acudiu Raphael.--Uma chavena de café, primo Ricardo!
O moço circumvagou os olhos esbugalhados, lembrou-se, reconheceu-se, no aperto da desesperançada angustia, e exclamou:
--Que perdição!... que horror me faz a vida!...
O mordomo saiu entalado de suspiros. Raphael deu-lhe a chavena, e exortou-o a esperar a boa crise mais rapida que o regular.
--A materia bruta de sensibilidade--explicava elle--ha de gastar-se mais depressa em ti, que a consomes com maior energia que o vulgar dos homens.
Ricardo saltou oscillante do leito, e abriu as janellas do quarto, aspirando a tragos a viração da antemanhã.
--Estou melhor--disse elle.--Que soubeste de Margarida?
--Soube que Nicoláo saiu de lá fixamente á uma hora.
--Onde estiveste?... aqui?
--Não: estive com a prima Beatriz.
--No hotel?
--Sim, no hotel.
--Como a fortuna te bafeja!--disse com tristeza Ricardo.
--A fortuna só desampara os fracos. Devias saber isto do nosso Virgilio: os fracos e os tolos, accrescento eu ao illustre poeta. Tu, meu amado primo, funestamente acumulas fraqueza...
--E tolice--concluiu Ricardo.
--Estava eu a procurar um termo com mais euphonia; mas tu o disseste. Os dois annos, immolados á franceza, poderás tel-os dourado de faceis e doidas alegrias, á mistura com alguns precalsos inevitaveis, dos quaes a gente se paga usurariamente com delicias. Olha que n’este mundo ha unicamente um estudo sério e digno de vigilias: é salvar a cabeça do coração. Na cabeça é que estão os olhos que descortinam o futuro. A cabeça é quem vê o primeiro barranco em que é honra saltar, e o segundo em que é parvoiçada cair. Certos sujeitos, quando cuidam que o ideal os eleva, burrificam-se. Chegada a occasião de se destramarem habilmente de uma rede, escouceiam, enredam-se mais, e descambam na lama. Felizes aquelles que podem, como tu, dizer á desgraça: «Atraz, maldita, que eu tenho vinte e cinco annos!» De que bordo estás, Ricardo, que fazes?
--Retirar-me ámanhã de Lisboa, ou matal-a.
--Sou de voto que te retires. Vae convalescer e volta ao mundo. Regenera os teus haveres, e torna a dissipal-os, se o bom anjo da tua indole te não apegar á dôce vida que deixaste. Eu preciso d’esta casa, mobilada como está, com as carruagens e cavallos.
--Tudo ahi te fica--disse Ricardo.
--Depois que me disseres o custo de tudo. Convém que saibas que minha tia-avó, fallecida ha dois annos, conservára intactos os cofres de meu tio-avô, governador do Brazil. Fui seu herdeiro. Achei cento e cincoenta mil cruzados em ouro. Gasto estes cabedaes, com a certeza de que sou o forçado herdeiro de uma casa que rende quatorze contos de réis. Já sabes que se a tua mobilia e trens podem valer dez mil cruzados, ou vinte, este dispendio nem levemente altera os meus planos. Se me queres obsequiar, crê que me não obsequeias com o emprestimo d’estes objectos: incommodas-me.
--Como quizeres--conveiu Ricardo.
--Agora presumo que o Mesquita não sae tão cedo de Lisboa, a menos que Margarida me não denuncie. A vida em hospedarias arrisca a segurança das minhas excursões. Sou, portanto, o dono d’isto, e tu és desde agora o meu hospede, e bom é que o sejas por pouco, se é que desistes de dar o ultimo pregão da tua miseria.
Repontava a estrella d’alva. Raphael mandou atrellar os cavallos, e despediu-se, até á noite, de Ricardo. Saiu e recolheu-se á casa da rua dos Romulares. Dormiu bem-aventuradamente cinco horas, ergueu-se como as innocentes avesinhas em manhã de abril, festivo, illuminado de interiores contentamentos, trauteando cançonetas hespanholas. Foi espreitar á janella: viu Nicoláo á beira da esposa: elle bem assombrado e risonho; ella esmaiada da côr e melancolica. Beatriz entreviu-o de um insuspeito lanço de vista. Córou até ás orelhas; alindou-se, purpurejou-se quanto pode o pejo de uma recordação, alanceada pelo espinho do crime sem remorso.
Os espinhos do remorso quebrára-os o marido por mão de Margarida Froment. A natureza moderna tem as coisas assim concertadas, para se não renovarem as penitentes da idade media. É verdade que ha menos santas; mas tambem ha mais quem incense as peccadoras. O inferno lucrou, e o ceu creio eu que perdeu quasi nada.
Á uma hora, saiu Nicoláo, e entrou o criado de Raphael com um bilhete que era uma lamentação, aprasando para as dez da noite o ensejo de poder verter-lhe no seio lagrimas que o suffocavam. Seguiram-se horas de enlevo em mutua contemplação. Por volta das trez da tarde, Beatriz parecia desafogada das lagrimas impertinentes: surria, tregeitava, inventava mimicas eloquentissimas do coração. Entrou o marido beijando-a carinhoso. Raphael jantou, dormiu, sonhou phantasias deleitosas que eram, ainda assim, pallidos arremêdos das alegrias verdadeiras.
Ao fechar-se a noite, foi o morgado de Fayões á casa de Andaluz. Pagou a Ricardo de Almeida a conta que o mordomo lhe apresentou. Fez novas exortações á coragem vacillante do primo, incitou-o a gosar-se de sua mocidade, recobrando-se das duas primaveras desfloridas. Affirmou-lhe que o desastre, visto a dois mezes de distancia, havia de afigurar-se-lhe um manancial de venturas subitamente aberto no seio da desgraça.
Ao outro dia, Ricardo de Almeida embarcou para o Porto com o seu mordomo, e d’alli, fechando os olhos a todos os logares despertadores de memorias saudosas, passou á sua casa do Pontido.
As tias não sairam a recebel-o nos braços porque a noticia inesperada abalou-as de modo, que desfalleceram abraçadas uma n’outra. Ricardo beijou as mãos das transportadas senhoras, que logo alli prometteram erguer um altar na capella da casa consagrada ao seu parente S. Gil.
Encerrou-se o morgado. A sua culpa estava expiada. Margarida fôra ingrata. A Providencia seria injusta, se prolongasse o supplicio do homem, que nenhumas dôres causára com o seu desvario. Se déra escandalo, os escandalisados escarneciam-n’o e vingavam agora a moral publica. Foi por isso que o ceu se abonançou. A solidão restituiu-lhe, a pouco e pouco, a memoria dos seus prazeres simples. Attentou na delapidação dos seus bens. Desempenhou os hypothecados, restaurando rendas bastantes a um decente passadio.