O esqueleto: Romance

Part 13

Chapter 133,844 wordsPublic domain

--Não morre... desespera-se, e redobram as forças que impellem ao crime. Não te chamei para te propôr convento. O que eu quero é o segredo da tua queda. É preciso que mintas ao mundo. Vai com teu marido para Palmeira. Dilacerem-se a occultas da gente, se não podem reciprocamente perdoar-se. A tua ignominia é ainda ignorada. Teu marido sabe-a?

Beatriz fez um gesto negativo, baixando os olhos e escondendo o rosto.

--Nem desconfia? tornou o pae.

--Não sei... murmurou ella.

--Pois salva-me a mim! Emenda-te, desgraçada! Deixa-me morrer, e depois... depois expõe á sociedade o opprobrio de duas familias, e o teu filho que receba a herança!

Beatriz ajoelhou, beijando soffregamente a mão do pae.

Nicoláo de Mesquita entrou n’esta conjuncção, e disse tranquillamente:

--Estás melhor, primo Martinho?

--Creio que sim... Podeis ir para vossa casa, quando vos aprouver. Eu vou sahir de Chaves para uma de minhas quintas, logo que possa.

--Observo que te impacienta a nossa... ou pelo menos a minha presença...--replicou Nicoláo.--A prima Beatriz, se queres, fica, e eu irei.

--Vão ambos... Beatriz pertence-te.

No dia seguinte, seguiram para Vidago.

No trajecto de algumas leguas não trocaram palavra. Beatriz ia de liteira com o filho. O marido cavalgava, e adeantára-se a grande distancia. Depois, na encruzilhada de duas estradas, avisinhou-se rente com a liteira, e disse:

--Eu vou á quinta de Valdez e demoro-me lá alguns dias.

Apertou a mão da esposa, beijou o filho, e seguiu outra estrada.

Beatriz exultou.

Chegada a Palmeira, escreveu, e mandou o criado de confiança a Fayões com uma carta. Era a carta um grito de angustia, uma invocação á misericordia de Raphael.

O criado foi de Fayões ao Valle d’Aguiar. O morgado estava em casa de Ricardo. Aqui recebeu a carta, e respondeu que ás onze horas da seguinte noite estaria em Palmeira. Beatriz, precavida pelas desconfianças do marido, mandou secretamente indagar, se elle estava na quinta de Valdez. Soube que d’ali, onde descançára uma hora, se encaminhára de noite á Ribeira d’Oura. Beatriz exultou ainda. Margarida Froment abonava-lhe a segurança de uma longa entrevista.

O dia seguinte fôra tumultuoso em duas aldeias proximas do Vidago, entre as quaes estava situada a casa de Palmeira. Os malhadores de duas casas, enrixadas desde muito, haviam-se travado na vespera, ao encontrarem-se as respectivas esturdias ou festas de cada malhada. As rebecas, violas, clarinetes e bombos, de parte a parte, ficaram pedaços no campo da sanguinolenta briga. Os dois mais valentes jogadores de pau tinham mordido a poeira, deslombados pelos formidaveis manguaes, cuja pancada é mortal.

Os sinos das duas freguezias tangeram a rebate, e os moradores sairam armados a guardarem as raias do seu territorio.

O dia immediato era santificado, e, na capelinha do cume da serra, havia romagem. Esperava-se alli desordem que se avantajou á espectativa.

As espingardas retroaram toda a tarde, na quebrada das duas serras sotopostas á chã da romaria. Alguns bravos tinham por lá expedido a alma entre as urzes dos matagaes. Os vencedores perseguiram os vencidos até ás raias da sua freguezia, e ahi, desde o lusco fusco, ficaram atalaias até alta noite.

Raphael saira ao fim da tarde do dia anterior, caminho de Fayões. Amelia chorara ao despedir-se d’elle. Laura quizera demovel-o da partida, sem perceber o intento. Ricardo pedira-lhe que escrevesse a Beatriz, contando-lhe a morte do seu criado, o dialogo com Martinho Xavier e a absoluta necessidade de acabarem ou espaçarem-se os seus perigosos encontros.

--Tudo lhe direi em viva voz--continuou Raphael Garção.--Não ir é fraqueza e desdouro, sobre ser crueza. Esta mulher, que assim escreve, é desgraçadissima.

--Melhoras a situação d’ella?--replicou Ricardo.

--Convencel-a-hei a conformar-se. E aqui te dou a minha palavra de honra que ámanhã terminam as nossas relações. Falla muito em mim a tua cunhada que eu amo deveras.

Foi Raphael a casa no intuito de armar dois criados de provada coragem, e cingir ao pulso uma manilha de ouro com um retrato de Beatriz. Esta prenda lhe déra a prima em Lisboa. O retrato, copiado de outro, que Nicoláo de Mesquita lhe mandára tirar, era em marfim, admiravelmente perfeito. Na manilha, em cuja rosca interior estava o cabello de Beatriz, mandára Raphael abrir as iniciaes de ambos, e gravar a data d’aquella noite de embriaguez de cabeça e coração. Jurára elle morrer com a manilha no braço; e, bem que violasse o juramento, depondo-a como incommoda, e reparavel á cunhada de Ricardo, não quiz apparecer a Beatriz sem ella.

Depois, com os seus dois valentes a pé, e elle cavalgado no seu garboso frisão, foram caminho de Palmeira, por caminhos transversaes.

Raphael ia triste. Nunca os prantos de sua mãe o compungiram assim! O pae descêra ao pateo e dera-lhe um abraço, estando já Raphael com o pé no estribo. Os criados esperavam-n’o fóra da aldeia, para não alvoroçarem os velhos.

Ás dez horas e meia da noite, o morgado de Fayões apeou além Tamega, d’onde se enxergavam alvejantes chaminés e claras-boias da casa de Palmeira. Raphael esperou o signal convencionado--uma luz na alta janella d’um mirante acastellado. Ás onze horas illuminou-se o mirante e elle aproximou-se, entregando o cavallo á guarda dos criados com ordem de voltarem na noite seguinte. Cingiu-se á fachada do edificio, d’onde costumava ver Beatriz n’uma janella para lhe indicar qual das portas estava aberta.

--Espera!--disse-lhe ella--que ainda não pude mandar abrir a porta. Andam fora dois criados, por causa das desordens da romaria.

Raphael tinha ouvido o tiroteio, de distancia de meia legua, e entendeu a referencia.

Beatriz continuou:

--Os criados estão ali para baixo com outros homens, e não podem tardar... A noite está linda... havemos de passear no jardim?

--Sim, filha.

--Amas-me ainda? tens pena da tua desgraçada Beatriz?

--Amo-te, prima; não vejo, porém, motivo de compaixão.

--Se tu soubesses o que eu tenho soffrido... o que eu soffri em Chaves. Espera!

Ouviram grande fallario.

--São elles que vem ahi, proseguiu ella agitada. Olha, Raphael; esconde-te alli ao lado da casa... Está lá um aqueducto aberto; entra para dentro, e deixa-os passar. Logo que os dois criados, em que não tenho confiança, entrarem, vou eu mesma abrir-te a porta do jardim. Tem paciencia...

--Sim, filha!... eu espero que elles passem, e aproveito a frescura do aqueducto, disse surrindo Raphael; e, acostado á parede do jardim, foi indo até encontrar a bocca da mina.

Os criados pararam ainda, conversando com os seus companheiros sobre a batalha da tarde. Dizia um d’elles:

--O que eu tenho pena é de levar esta bala para casa na clavina!

--Tambem eu!

--Por hoje não ha mais que vêr! disse um terceiro. Vamos embora.

--Querem vocês que nós dêmos a ultima descarga?

--Valeu! clamaram todos.

--Aqui não! disse um dos criados de Beatriz, que a fidalga toma medo. Vão descarregar os bacamartes ahi para diante.

Despediram-se dos que ficaram uns quatro que seguiram, aperrando as armas, e polvorisando as pederneiras.

Quando chegaram a pouca distancia da mina, em que Raphael se escondêra, disse um:

--Se vocês querem vêr o que é berrar uma clavina, vamos estoiral-as dentro da mina. Isso faz ahi um trovão, que nem peça de artilheria.

--Está dito.

Raphael devêra ouvir a proposta, se a este tempo não viesse do outro lado uma estropeada de dois cavallos, que perpassavam deante da mina.

Os cavalleiros, cirurgiões das cercanias, estiveram conversando com os homens armados, e contando que vinham de examinar os feridos e os mortos nos montados da romaria.

A este tempo já Beatriz estava á janella, maldizendo a paragem dos homens n’aquelle sitio. Os cavalleiros seguiram o seu caminho, e os das clavinas disseram:

--Vá! é agora! os tiros todos a um tempo!

E desfecharam os quatro bacamartes contra a bocca da mina.

Raphael Garção, como empurrado pelas duas balas que lhe entraram no peito, recuou alguns passos e caiu de bôrco, e os braços cruzados entre o peito e a terra.

Os lavradores, depois da descarga, levantaram grande grita e apupada. D’além, dos confins da freguezia, irrompeu medonha celeuma de brados, e estrondear de tiros.

Observou um dos homens:

--Querem vocês vêr que os patifes entraram na freguezia? Carrega e avança, rapazes!...

E correram em direitura ao ponto da vozearia.

Beatriz esperou alguns minutos, dizendo entre si:

--Elle agora já podia sair da mina, que por aqui não está ninguem!

Esperou ainda alguns segundos... e disse á sua criada confidente, que estava com ella:

--Isto que será?! Elle não apparece!... Tu que pensas?...

--Eu não sei, fidalga! respondeu a criada. Terá medo de ser visto, por alguem, que nós d’aqui não enxerguemos, e o fidalgo veja lá de dentro da mina...

--Ha de ser isso... mas olha... a noite está tão clara... e eu não vejo ninguem por alli!... Vamos nós lá?

--Pois vamos, senhora... eu não tenho medo nenhum.

--Nem eu... Estará elle já no jardim?

Desceram de mansinho ao jardim, olharam os recantos sombrios, descerraram a porta, sairam ao caminho, e paráram á bocca da mina.

--Raphael!... chamou ella, primo Raphael!... Não falla! Onde está elle?... Ó meu filho!...

Ouviu um gemido no interior da mina.

--Ouviste? perguntou Beatriz á criada, que tremia--ouviste um gemido?

--Ouvi, fidalga!... Santo Deus, misericordia! que será?!

--Raphael! Raphael!... clamou a brados Beatriz, e entrou mina dentro, chamando sempre, até tropeçar e cair sobre um corpo inerte.

--Uma luz, uma luz!--exclamou ella.--Raphael! tu estás morto?!

--Morto!...--balbuciou elle--Adeus!...

E remexeu-se no vasquejar da suprema agonia.

--Uma luz!... bradou ainda Beatriz.

A criada corrêra a casa, e saira logo com uma vela.

Quando entrou na mina, viu sua ama prostrada sobre o cadaver, e a face ensanguentada, por havel-a roçado ao cair, nas pedras esquinadas que saiam das paredes do aqueducto!

XXIII

Saiu a criada á bocca da mina, no desvariado intento de chamar quem levasse d’ali a fidalga.

Suspendeu-a a lembrança de fazer publica a desgraça de sua ama. Voltou com a vela, que lhe caiu das mãos convulsas, e se apagou. Aterrada e cega nas trevas, invocou a Santa Virgem, e pediu logo perdão da parte intermediaria que lhe fizeram tomar, desde Lisboa, n’estes desventurados amores; tinha sido ama do menino esta criada, que se affeiçoara, como usam affeiçoar-se estas mulheres a suas senhoras. Não obstante, em conflicto de tanta angustia, a sua idéa, quando se viu no escuro, foi fugir da terra, e mudar para outra onde a não conhecessem. N’esta perplexidade, ouvia gemer sua ama, e proferir expressões n’uma toada medonha.

Avisinhou-se ás apalpadelas, e tirou por ella de sobre o cadaver; mas os braços de Beatriz estavam empedernidos ás ilhargas do morto. Chamou-a, agitou-a, sacudiu-lhe a face: baldaram-se vozes e esforços. Cresceu o terror da mulher: decidiu-se pela fuga, sem já dar tento, nem importar-se da crueldade e desamor do acto. Foi ao seu quarto, embolçou os valores que tinha; e, tirante esta ultima prova de bom senso, no mais parecia doida a correr por aquella estrada fóra sem destino.

Por volta de uma hora da manhã, Beatriz espertou da lethargia, e sacudiu os membros para espancar a visão horrenda, o sonho de se estar abraçada no cadaver do amante. A visão teimava em atirar-lhe ao seio o corpo glacial de um morto, e ella esfregava as palpebras, e arrefecia as mãos na testa.

--Que horror de sonho!...--exclamava suffocada--e, apalpando as costas de Raphael, continuava a dizer em sua alma:--Parece que o sinto debaixo das mãos!... Que horror, Virgem Santissima!...

Bracejou, e deu com os braços nas paredes humidas da mina. Então é que foi o supplicio indescriptivel do completo despertar. Ergueu-se de salto. Vibrou um agudissimo grito. Rojou-se ao longo do cadaver com frenetica ternura. Beijou-lhe o perfil do rosto: levantou para si a cabeça como hirta; apertou-a convulsamente á face d’ella; correu-lhe a mão pelo seio, e ensopou-a em bulhões de sangue, ainda quente. Refugiu, levantou-se, bateu com a face nas asperezas da saibrada angulosa de seixos, gritou por luz, chamou a criada, e correu ao longo da mina de encontro ao clarão da abertura. Quando saiu de rosto ao ar livre, e se viu sósinha, e não soube compreender que profundezas de abysmo eram aquellas; e que circo de chammas havia de abranger-lhe o espirito; e que infanda agonia se passava debaixo dos olhos do Senhor... a perdida, a torturada por tormentos, não sabidos de nome n’este mundo, caiu, a poucos passos da mina, caiu como pregada em terra pela flecha de um raio.

Ás trez horas, rompia a manhã. Uns carreteiros, que passavam, ergueram aquella mulher, envolta n’um manto branco, ferretado de sangue.

Reconheceram a fidalga, e chamaram a grandes brados os servos da casa. Acudiram todos, e levaram em braços Beatriz.

No mesmo ponto, saiu um criado para Valdez, e outro para a Ribeira d’Oura a chamar Nicoláo de Mesquita. Estendeu-se uma rede de homens a procurarem não sabiam elles quem; viam a fidalga ensanguentada, e julgaram-n’a ferida. As criadas examinaram-n’a, e apenas lhe viram o rosto escalavrado. Vieram cirurgiões, e decidiram que os ferimentos visiveis, a não existirem outros, eram resultantes de uma queda com o rosto sobre a pedra.

O sangue das mãos entenderam que rebentára da face, quando ella se apalpou.

Beatriz abriu os olhos, na presença de muitas pessoas circumpostas ao leito. Despediu gritos consecutivos, sem intermissão de socego. Rasgou as vestes interiores, e as faces de quem lhe retinha os braços. Cessou de gritar, e interrogava os espavoridos circumstantes, perguntando quem matára Raphael Garção. Os ouvintes encaravam-se e não respondiam. Embravecida pelo silencio, a esposa de Nicoláo de Mesquita atirava-se do leito fóra, arrepelando-se, e lacerando as macerações e feridas do rosto com as unhas. Tingiu-se-lhe de um escarlate de fogo a cara e testa. Relumbravam-lhe os olhos. O arquejar do peito resoava como em paroxismos.

A congestão cerebral declarou-se. Soccorreram-se das copiosas sangrias os facultativos; porém, no momento em que o intenso afogo do rosto parecia esfriar, Beatriz abriu os olhos, encontrou os do filho que chorava, sacudiu os braços com vibrações de metal electrisado, e caiu a um lado sobre o seio do cirurgião, que a relancetava.

Nem um monosillabo! Nem o nome do filho! Nem o nome do amante!...

Morrêra.

Ao anoitecer, chegou Nicoláo de Mesquita. Já desde o alto da serra eminente a Palmeira ouvira o dobrar dos sinos. Tangiam as torres das irmandades de todas as freguezias proximas.

Apeiou, correu ao quarto de sua mulher, e viu-a, na ante-camara, amortalhada, com Martinho Xavier á cabeceira do esquife.

--Que é isto!--exclamou elle--expliquem-me esta horrenda desgraça!...

Martinho Xavier não respondeu. Nicoláo instou pela resposta com gesticulação de furioso, guinando os olhos ameaçadores a todos os lados.

Saiu ás salas, cheias de gente. Ergueu um brado, pedindo a historia da morte de sua mulher.

--Ninguem sabe responder--disse uma voz.

Acercaram-n’o os cirurgiões, e contaram o que sabiam: os criados depozeram lealmente o que tinham visto, e accrescentaram que a ama do menino desapparecera.

--Vão buscal-a! vão prendel-a!--rebramiu Nicoláo.

Martinho Xavier acompanhou o cadaver da filha até ao jazigo da capella, depois de ter assistido aos responsorios. Saiu da capella; e, sem entrar a despedir-se do pae do seu neto, tomou a creancinha nos braços, e accelerou o trote do cavallo, caminho de Chaves.

Nicoláo de Mesquita perguntou pelo filho. Responderam-lhe que o avô o levava ao collo, á saida da capella.

Saltou furioso d’entre os cavalheiros que o rodeavam, e quiz ir na pista do sogro. Retiveram-n’o, lembrando-lhe que ainda estava quente o cadaver de Beatriz.

No outro dia, por noite, chegaram á vista de Palmeira os criados de Raphael Garção com o cavallo, na fórma das ordens de seu amo. Esperaram-n’o a noite inteira. De manhã, repentinamente, viram-se cercados de regedor e cabos que os interrogavam sobre o que faziam parados n’aquelle sitio. Como gaguejassem, foram presos; e, timoratos entre ferros, declararam a que fins tinham vindo.

Nicoláo de Mesquita ordenou que os trouxessem á sua presença. Atterrados pelo apparato, contaram tudo. O morgado suppoz, um momento, que Raphael Garção fôra o motor da morte de sua mulher ou com suas proprias mãos a estrangulára, e fugira para Hespanha. O boato correu assim, e a opinião publica deu-lhe peso. Os paes de Raphael, surpreendidos por esta nova, sairam caminho de Palmeira. Ricardo de Almeida appareceu ao mesmo tempo nos arredores de Palmeira, e defendeu o seu amigo com a eloquencia da verdade e da angustia, na presença de numeroso publico, exclamando:

--O assassino de um, ou de ambos foi Nicoláo de Mesquita!

Enganavam-se todos.

Os paes de Raphael Garção escutavam as differentes vozes com um spasmo e silencio, que fazia chorar. Não sabiam dizer ao que tinham vindo; procuravam o seu filho! Voltaram para casa. A mãe esperou dois mezes. Apagada a esperança de tornar a vel-o, foi procural-o n’outros mundos. O velho, menos feliz que a esposa, ficou-se espantado a olhar contra o jazigo em que lh’a fecharam, e d’alli saiu idiota para a escuridade de uma camara, onde agonisou dez annos.

Ricardo de Almeida, convicto de que seu primo Raphael tinha sido assassinado por ordem de Nicoláo, não podia soffrer que a voz publica infamasse a memoria do desgraçado, poupando o assassino. Como já não podia com o silencio desinfamar a honra de Beatriz, foi a Chaves, e contou a Martinho Xavier os pormenores dos amores de Raphael com sua prima, e as intenções com que elle saira de casa d’elle para Palmeira. O velho achou rasoavel a supposição do morgado do Pontido; mas a sua angustia já não tinha respiradouro. A indignidade da filha culpada e morta enleava-lhe os braços para a vingança. Com que direito iria elle vasar uma bala no peito do homem, que barbaramente se desultrajára!... Pediu elle a Ricardo de Almeida que se calasse para que o tempo levasse a lembrança da horrivel tragedia na sua onda de sangue.

Cançaram-se os pregoeiros da desgraça. Ao fim de um mez os processos começados estagnaram-se, á mingua de indicios. Martinho Xavier, instado para restituir o neto, desappareceu com elle, e com boa parte dos seus cabedaes. O menino tinha quatro annos, n’aquella época. Seu avô dizia que o queria roubar ás reminiscencias do opprobrio e da morte de sua mãe. Refugiára-se com o seu thesouro em Londres.

Nicoláo de Mesquita foi para a Ribeira d’Oura buscar as consolações de Margarida Froment. Enganara-se. O aspecto moral d’esta mulher figurou-se-lhe um demonio, que o escarnecia na sua ignominia, a ignominia de ser deshonrado, como suppunha dos boatos propalados pelo Almeida, no intuito de o condemnar a elle como homicida de Raphael e Beatriz.

Era uma figuração meramente este reparo no escarneo de Margarida. A franceza ageitou as feições á magua do seu amigo: interiormente é que ella se deleitava atrozmente, vendo-se no juizo do mundo e de Nicoláo tão deshonrada como a mulher purissima, por amor de quem fôra abandonada á generosidade do primeiro homem que quiz acoital-a da vergonha de pedir ella um amante em troca de um jantar e de um vestido.

Os exteriores da franceza eram, pois, uma chimera do morgado de Palmeira. O que lhe dava estas visões era a interna dilaceração, que todo o repouso e esperança lhe convertia em raiva e desalento. A publicidade da sua ignominia, aggravada com a hypothese de ter sido elle o assassino, afóra o perdimento do filho, ao qual a Providencia lhe suscitára no coração um amor incendiario, estas angustias, centuplicadas pela dolorosa travação de todas, fizeram da vida d’este homem um espectaculo aborrecido ás raras pessoas que o tratavam, e, mais que a todas, a Margarida Froment.

Assim que ella proferia uma palavra de banal consolação, Nicoláo enfuriava-se, e dizia que o seu vilipendio não transigia com os factos consummados, com a deshonra de muitos homens.

Margarida, injuriada assim na pessoa de seu marido, abria uma das valvulas do seu fel--o fel que o desprezo da sociedade emborca violentamente na consciencia das mulheres despreziveis--e rebatia-lhe as injurias com aviltamentos.

A repetição d’estes conflictos disparou na ameaça de rompimento por parte de Margarida. O atormentado homem, irado pela ameaça, bramiu:

--Pois vae-te, mulher fatal! vae! que a tua expiação ainda não começou! Uma adultera lá está na sepultura! Eu estou aqui n’esta agonia, que tu vês!... Tu, maldita, ousas ainda espremer a peçonha nas minhas chagas, quando devias laval-as com lagrimas! Tu, por amor de quem eu deixei que Beatriz fosse victima da seducção! Tu, que interiormente exultas com o meu opprobrio, e com a queda de uma perdida na tua voragem!... Pois vae-te, vae, maldita, e deixa-me morrer!

Margarida preparava os seus bahus, para ausentar-se; e Nicoláo lançava-se-lhe de joelhos aos pés, exclamando:

--Não me deixes n’esta solidão! bem vês que todos fogem de mim! Não tenho ninguem! ninguem! até o filho me roubaram!...

A franceza condoia-se; estendia-lhe compadecidas mãos; acolhia-o nos braços com ficticia ternura, e desprezava-o tanto quanto elle mais se envilecia.

As maviosidades momentaneas de Nicoláo pareciam ridiculas caricias de velho idiota: os exasperos, interpollados com as caricias, afeiavam-n’o horrivelmente.

Margarida pensou em fugir-lhe, receiosa de algum accesso de furia sanguinaria.

Induziu-o a sair da quinta da Ribeira d’Oura para Lisboa. Nicoláo recebeu jovialmente o alvitre; mas d’ahi a nada, rompia em exclamações contra a mulher, que lhe aconselhava dar maior publicidade á sua deshonra.

--Está mentecapto!--dizia entre si a franceza.--O diabo que o ature!...

Nicoláo de Mesquita foi ao solar de Palmeira, passados dois mezes, abrir as janellas e arejar o palacete que nunca mais se abrira. Meditava em transferir para alli a franceza, desejo que ella manifestára por lhe haverem dito que a casa e bosques e jardins de Vidago eram magnificos.

Deteve-se a revolver as commodas e bahus de Beatriz, onde não encontrou papel suspeito. O mordomo fez-lhe saber que as caixas da ama ainda estavam fechadas no quarto, porque ninguem dava noticia da paragem que ella tinha.

Nicoláo fez arrombar as caixas, e encontrou alguns massetes de cartas, e uma medalha de oiro com o retrato de Raphael Garção, e uma manilha com cabello identica áquella com que o amante de Beatriz morrêra.

O morgado leu as cartas, sem excepção d’aquella em que Raphael alludia galhofeiramente ao episodio burlesco da casa das primas Camaras em Bemfica.

Nicoláo sentiu o feroz impulso de ir insultar o cadaver de Beatriz ao jazigo, como a inquisição fazia aos monarchas. Tinha exemplo de boas fontes. Desistiu da lamentavel inepcia, e fugiu como de si mesmo para a Ribeira d’Oura. Quando chegou, não encontrou Margarida Froment.

Sobre um piano viu um papel fechado, com estas breves linhas:

«Já não podemos ser senão muito desgraçados um em presença do outro. A mulher fatal não quer fazer mais victimas. Adeus.

«MARGARIDA ESPOSA DE E. FROMENT».

Nicoláo, corridos trez minutos de estupefacção, exclamou:

--Pois ha Deus que castigue assim!?

XXIV

A interrogação do morgado não fez mais abalo no tribunal da Providencia que os insultos de Julião e as provocações de Luthero ao Homem-Deus.

Confessou-se castigado, conheceu que expiava: a Providencia que mais queria do verme? Deixou-o a revolver-se nos espinhos, e voltou a face do guzano, que se pascia em sua podridão.

Desde aquella hora, Nicoláo, olhando-se no baço espelho da sua consciencia, viu-se hediondo; e aos vidros, em que poucos dias antes se gosava e narcisava nos seus frescos e garbosos quarenta e quatro annos, via-se agora encanecendo, da noite ao dia, com rapidez de condemnado nas ultimas setenta horas do oratorio.