Part 14
«Eu posso ainda levantar-me d’este abatimento!--dizia comsigo elle.--Irei longe d’aqui, irei a França, a Italia, a toda a parte onde a riqueza inventa delicias, irei gosar, esquecer-me, viver!»
Este desafogo acalentava-lhe o exaspero breves instantes. Lá no recesso da sua alma havia uma elaboração de veneno, que se lhe coava na chaga, assim que o linimento da esperança começava a cicatrizal-a.
Duas vezes tivera as malas feitas para sair de Portugal: porém, á hora de partir, senhoreava-o a cachexia com desalento anniquilador, que o forçava a desistir, exclamando:
--Onde vou eu? Em que parte do mundo se acabam os limites ao meu inferno?
E então, commovia a lagrimas vel-o chorar a elle com saudades do filho; mas nem a consolação amarga d’estes prantos lhe era concedida! Sobresaltava-o a duvida de ser elle o pae d’aquella creança. Calculava épocas, via attentamente a data gravada na manilha de oiro, que encontrára na caixa da ama: agora, inferia d’aquella data provas concludentes da legitimidade do filho de Beatriz; logo, convencia-se da fallivel significancia das lettras gravadas, podendo ellas meramente commemorar o dia em que fôra dada a prenda. Execrava então o filho, emquanto a soledade e a insulação de toda a convivencia, lh’o não mostrava como esteio unico á vida.
Vagando de quinta em quinta, afinal deixou-se ficar em Palmeira, encerrado, em pouquissimo da casa, estranho ao governo d’ella, inaccessivel a foreiros, a criados, a raros amigos que o procuravam. Um só homem conseguira entrar no quarto de Nicoláo de Mesquita: era o octogenario reitor, varão de preclaras virtudes, que adivinhara o essencial da angustia do fidalgo, que elle baptisara e beijara nos braços de sua mãe, quando assistiu ás estrondosas festas do baptisado. Quantos esforços fez o santo homem para o tirar á luz e ás distracções do campo todos se mallograram. Chamava-lhe o pensamento a coisas de lavoira, obras começadas, melhoramentos que fazer, a reconstrucção da torre de menagem meio arruinada.
Nicoláo respondia:
--O meu tumulo está edificado ha duzentos annos: não tenho outras obras que faça, padre reitor.
Ainda receioso de impaciental-o, o ancião teimava em fallar-lhe de obras.
Um dia, trez mezes depois da morte de Beatriz, dizia o clerigo:
--Quando vi abrir-se o aqueducto da agua que vae dar ao jardim, e andarem lá trabalhadores, cuidei que vossa excellencia resolvera, como seus paes haviam tencionado, formar um grande tanque no terreiro para beberem os cavallos. Esteve a mina aberta uns dias, e depois, logo depois que sua excellencia a senhora D. Beatriz que Deus tem, falleceu, fechou-se o aqueducto.
--É que eu mandei suspender todas as obras--respondeu Nicoláo--e o feitor mandou logo empedrar a bocca da mina.
--E por que não hade vossa excellencia entretêr as suas horas n’uma obra tão util para a casa e para o povo?
--Que me importa o povo e a casa? replicou o fidalgo.
--O povo creio eu que importa a vossa excellencia, meu bom fidalgo, porque paes e avós d’este povo foram sempre como filhos dos ricos homens da Palmeira do Vidago. O povo lucraria muito se vossa excellencia lhe desse para as suas necessidades a agua que superabunda nos hortos e quinta. Esta pobre gente, quando os calores seccam as fontes, vae buscar, a grande custo e perda de tempo, a agua á freguezia proxima. Aqui tem vossa excellencia que está em sua mão, com pequenissimo dispendio, soccorrer este povo, que tão alegre ficou, assim que eu lhes disse a intenção abençoada de vossa excellencia. Parece que tem praga de inveja aquella obra! Seu excellentissimo avô abriu a mina, o paesinho de vossa excellencia continuou-a, o senhor morgado fez lavrar quinze braças; e, quando esta mina ia por pouco encontrar-se com o aqueducto, que desce da serra, vejo eu os jornaleiros a tapal-a de cantaria grossa!
Nicoláo ergueu-se com semblante enfastiado, e o reitor calou-se, como sempre, assim que a expressão do tedio assomava no rosto do morgado como preparação para um grosseiro: «Queira deixar-me sósinho, padre reitor.»
D’este dialogo fica inteirado o leitor de que a mina ficou sendo a sepultura de Raphael Garção, e que o apodrecimento do cadaver não chegou a ser presentido pelo fetido das exhalações.
XXV
O virtuoso reitor de Vidago, presenciando as lagrimas com que Nicoláo fallava de seu filho, e da impossibilidade de descobrir a paragem d’elle, foi a Chaves, e insuspeitamente averiguou de pessoas intimas de Martinho Xavier, e inimigas do viuvo de Beatriz, que o menino estava em Londres com seu avô, esperando o tempo proprio de entrar em collegio. Este descobrimento arrancou o pae ao seu marasmo. Aquella unica estrella, a espaços, lhe preluzia no futuro, na velhice que elle esperava receber da vontade divina como castigo. Animado pelo sacerdote, Nicoláo foi a Londres, onde esperou inutilmente seis mezes o apparecimento do filho ou do sogro. O imprevisto encontro de um amigo de Lisboa, ligado á diplomacia portugueza, esperançou-o em descobrir a residencia de Martinho Xavier, se elle existia em Londres. De feito, e facilmente se deparou ás investigações policiaes o velho fidalgo vivendo nos arrabaldes, com modesta decencia, e quasi incommunicavel. Nicoláo, commovido de jubilo, que lhe amaciava as asperezas da indole, apresentou-se de subito ao pae de Beatriz, no momento em que o velho passeiava o menino sobre o chão arrelvado do jardim, ensinando-lhe o nome das flôres e arbustos. Foi uma visita, que Martinho Xavier não prevenira, deixando abertas as portas gradeadas do jardim. Se Nicoláo batesse á porta, não lh’a teriam aberto, sem previas consultações e licença do velho cioso Pygmalião d’aquelle thesouro.
Nicoláo correu arrebatado ao filho. A creança apavorada d’aquelle homem de longas barbas brancas, aconchegou-se do seio do avô, que se acurvara a defendel-o, sem ter ainda reconhecido o genro. O morgado, com os olhos marejados de lagrimas, parou a curta distancia do grupo, e disse affectuosa e tristemente:
--Pois tambem tu me foges e desprezas, filho da minha alma?
O pae de Beatriz fez espanto da desfiguração do genro. O menino reconheceu-o pela voz, e oscillava entre o avô e o pae, dizendo com voz tremida e balbuciante falla:
--O meu papá não morreu? O avô disse que sim.
--Morri, meu filho, morri!--respondeu soluçante o desgraçado.
Martinho Xavier encheu-se de compaixão d’aquelle homem, ferido pela mão divina. Baixou olhos á creança, e disse-lhe:
--Abraça-o, Martinho, que é teu pae.
--E a mamã--perguntou o menino, apertado nos braços do pae.--E a mamã tambem não morreu? Onde está ella?
O rubor da alegria e do alvoroço coou-se instantaneamente no rosto do pae, e um como pedaço de mortalha, amarellecida pelo tempo entre as taboas sepultadas do caixão, lhe cobriu a parte do rosto que as barbas descobriam.
Martinho Xavier comprehendeu a amargura d’aquelle silencio, e houve pejo de não poder levantar a voz em defeza da filha.
Nicoláo, com o menino nos braços, avisinhou-se do sogro, e disse-lhe compungente, e com os olhos quebrados de supplicante amargura:
--Não sei porque me has de odiar, primo Martinho! As minhas desventuras, se fossem sabidas, commoveriam toda a gente, e as minhas culpas seriam perdoadas. Que julgas tu de mim?
--Que és um desgraçado--respondeu serenamente o pae de Beatriz.
--Bem hajas!--volveu Nicoláo.--Escuso perguntar-te se me julgas o assassino de Raphael Garção.
--Que me importaria isso?... redarguiu Martinho. Seria bem morto, se era infame!
--Atrozmente infame!... E quem me assevéra que elle não vive?
Martinho Xavier encarou penetrantemente nos olhos de Nicoláo, e disse:
--Quem matou, pois Raphael? Morto está elle. Raphael tinha um só amigo; era Ricardo de Almeida. Tenho uma carta d’elle. Cartas recebidas todos os paquetes. Ricardo nunca mais teve novas de Raphael... Quem o matou pois?
--Não sei, pela vida de meu filho t’o juro, Martinho Xavier, se a minha palavra perdeu a tua confiança! Deus fulmine este anjo que é tudo o que me resta, se eu comprehendo que morte foi a de Beatriz e se tenho sombra de suspeita do destino que levou o villão, que tantas vezes me apontaste como...
--Basta! interrompeu o velho, está aqui uma creança, que Deus dotou com precoce entendimento. Ha dois nomes que eu exijo que este menino esqueça. Vens buscar teu filho?
--Não, primo: venho pedir-te que voltes com elle e commigo a Portugal.
--Não: leva-o, e deixa-me morrer, onde mais não veja a sombra de minha filha.
--Ficarei comtigo, Martinho Xavier, e com meu filho, disse Nicoláo. Virei eu perturbar o teu socego?
--Vens: mas eu acceito de boa vontade o que está determinado por Deus. Ficarás comnosco. Assistirás á educação de Martinho; e, quando elle tiver a sabedoria, que contrabalança as desventuras, e fortalece o animo para subjugal-as, então ireis para a patria, e eu estarei já morto e esquecido.
Nicoláo de Mesquita apresentou-se na vivenda do sogro, sem intentar melhoral-a. Afóra os contentamentos aspirados nos labios da creança, o restante da sua vida era dôr sem intermissão. Nenhuma variedade procurava ás suas meditações, não podia sequer conversar com o primo em assumptos ligados ao nome de Beatriz. Se o pae, do secreto de alma, lhe havia perdoado, envergonhar-se-hia de confessal-o. Como já não podia maldizel-a, tambem fugia de suscitar reminiscencias d’ella.
Assim passaram, n’esta angustiosa e contemplativa mudez, um anno.
Martinho, observando com dôr o desperecimento do genro, suggeriu a ideia de irem vêr França. Nicoláo approvou-a indifferentemente. Como conhecia as miudezas de Paris e outras cidades, disse que a todas iriam excepto Leão. Aqui devia viver o marido de Margarida Froment.
Foram, e ao terceiro dia de residencia em Pariz, Nicoláo viu no _boulevard dos Italianos_ um homem conhecido, encostado á vidraça de um estabelecimento de modas; era o chanceller, que havia sido do consulado francez no Porto. D’ahi a segundos, viu sahir uma mulher de bello exterior, e dar o braço áquelle homem: era Margarida Froment.
De maneira que o brioso amigo do marido da infame, como elle a catalogára, o campeão voluntario da honra de Ernesto, degenerára tanto em pundonor de espiritos, que aberta a conjuncção prospera, tomou conta da mulher do seu amigo.
Margarida cravou os olhos em Nicoláo e fez pé atraz de espantada. O morgado inclinára-se a ouvir uma pergunta do filho. Martinho Xavier fôra estranho ao lanço.
Volvidos quinze dias, Nicoláo, passando no bosque de Bolonha, viu um homem que guiava um phaetonte, em que iam duas mulheres de imponente belleza, e brilhantemente vestidas, inclinadas para o elegante conductor de fogosos cavallos. Reconheceu-o.
Ao pé d’elle estava uma roda de francezes, um dos quaes, apontando o transeunte do phaetonte, dizia aos outros:
--Ahi vae Ernesto Froment espalhando os ultimos dez mil francos da fabrica vendida.
Outro ajuntou:
--Em dez annos gastou duzentos mil francos.
Ainda um terceiro:
--Com seis magnificas mulheres. Diz elle que os ultimos mil francos ha de engulil-os como Gilbert enguliu a chave.
--A comparação é modesta! observou um.
--Gilbert, acudiu outro, estremece de horror sabendo que foi parodiado por uma bêsta maior da marca.
Nicoláo passou ávante, e dizia entre si:
--Ernesto e Margarida não expiam, porque se não devem nada.
Vista a grande cidade, Martinho Xavier desejou a quietação da sua casinha suburbana de Londres. Nicoláo seguiu-o automaticamente, discutindo em segredo a ordem das leis providenciaes. A inducção que vimos inferir da impunidade de Margarida, e do alegre viver de Ernesto, prova que o homem principiava a formar um systema racional em materia de expiações.
Tem escapado a muito philosopho e theologo a grande verdade, que elle apanhou pela incoercivel guedelha. É effectivamente verdade que uns certos maridos de umas certas mulheres não expiam, porque não se devem nada.
A respeito d’estes e d’estas parece que a Providencia diz em linguagem chã:
«Lá se entendam e lá se avenham.»
Margarida, Nicoláo e Raphael foram exceptuados d’este menospreço da Providencia.
XXVI
N’uma casa de Villa Real de Traz-os-Montes, em março de 1849, um sujeito lia á sua familia a seguinte correspondencia de Chaves publicada no jornal portuense _O Nacional_, d’aquelle mez e anno:
_Sr. redactor._
«Remetto ao seu jornal a singela narrativa de um estranho successo, que veiu esclarecer os mysterios de uma tragedia de familia, sobre a qual ha quatro annos a opinião publica tem aventurado opiniões, aliás infamantes, algumas das quaes desgraçadamente se verificam hoje.
«Em agosto de 1844, o morgado de Fayões, Raphael Garção Cogominho, rapaz de costumes não louvaveis, mas egual a muitos que o mundo respeita, lisonjeia e admira, desappareceu da casa de seus paes, e nunca mais voltou.
«Ao mesmo tempo... (muito me custa ter de escrever os nomes de pessoas que figuram ou figuraram n’este drama; porém, sacrificando á verdade, e desejando que na minha narrativa ninguem veja um romance, sou forçado a não esconder nenhuma das luzes que alumiam este acontecimento tenebroso). Ao mesmo tempo, D. Beatriz de Sousa, mulher do morgado da Palmeira do Vidago, Nicoláo de Mesquita, morria, segundo disseram os facultativos, de uma congestão cerebral, ou febre thraumatica, consecutiva a ferimentos na face.
«No dia seguinte, os criados de Raphael Garção procuraram seu amo na quinta de Palmeira, para onde elle viéra de noite e furtivamente. Os criados, interrogados pelo marido da senhora morta, confessaram a intenção que os levava alli, e foram despedidos.
«A voz publica francamente disse que o morgado de Fayões morrêra ás mãos do marido de sua prima Beatriz, ou por ordem d’elle; e que a esposa, suspeita de deslealdade, se não perecêra no mesmo ponto, succumbira depois dos flagicios bem claramente denunciados nas contusões da face.
«A ausencia do morgado da Palmeira, na noite em que estes factos se deram, confirmava desconfianças sobre as probabilidades da astucia com que o senhor da casa, praticado ou mandado praticar o crime, se fingia distante do local. Como quer que fosse, do cadaver de Raphael Garção nenhuns indicios alcançaram as pesquizas da justiça, e sobre o cadaver de Beatriz de Souza nenhum exame se fez. O provavel e quasi evidenciado é que ambos estavam mortos.
«Passados sete ou oito mezes, o morgado da Palmeira foi para Londres, em demanda do filho, que o avô, nobilissimo cavalheiro de Chaves, lhe arrebatára. Decorridos dois annos, voltou para Portugal Nicoláo de Mesquita, e o filho, a tomar conta dos grandes haveres do sogro, que falleceu em Londres.
«No principio do corrente anno, quando a memoria da obscura tragedia estava delida no impersistente espirito do publico, quiz a Providencia que o morgado da Palmeira, com a sua propria mão, fosse apontar o infallivel testemunho do seu crime. É bem certo, segundo a phrase da Escriptura, que Deus enlouquece aquelles que quer perder!
«Os operarios, que por ordem de Mesquita desempedravam a porta de um aqueducto, que estivera aberto quatro annos antes, e se fechára dois dias depois da morte de Beatriz de Sousa, encontraram a quinze passos distantes da abertura da mina um esqueleto.
«Os ossos não tinham já fibra de carne adherente, conforme ouvi aos facultativos examinadores. As cartilagens e ligamentos, com quanto articulassem a ossada, principiavam a esphacelar-se, e muitos se desfibraram ao contacto do ar. O esqueleto estava de bruços; e cingida á volta do radio e cubito, ossos correspondentes ao ante-braço, tinha uma especie de pulseira, chamada manilha, com um retrato pendente, perfeitamente conservado no marfim, encastoada em oiro, com o rosto de esmalte, no reverso do qual se lê uma data, e as iniciaes enlaçadas de Raphael Garção e Beatriz de Sousa.
«Quando os jornaleiros descobriram o esqueleto, estava Nicoláo de Mesquita em Chaves. Os mineiros fugiram espavoridos, e foram contar o succedido ao regedor. Este mandou guardar por cabos de policia o aqueducto, e officiou á auctoridade. O aviso chegou simultaneamente ao morgado, que partiu para Palmeira.
«A auctoridade, chegada ao mesmo tempo, consentiu que Nicoláo de Mesquita penetrasse no aqueducto com uma lampada, visto que sem o exame dos peritos não se podia levantar o esqueleto, em conformidade com as ordens do morgado.
«O regedor, que seguiu Nicoláo de Mesquita, observou com grande assombro, um acto de extraordinaria ferocidade; e foi que o morgado depois de examinar a manilha pendente do pulso do esqueleto, fez um gesto de raiva frenetica: e, com um pé assentado em cheio no arcaboiço das costellas, fez que debaixo rangessem e estalassem os ossos do peito e costas. O regedor conteve-o de espalhar a ossada a pontapés, com risco de ser espancado pelo furioso dentro da mina.
«As auctoridades, depois do exame, tomaram conta da ossada, para continuação de averiguações.
«Sr. redactor, como se vê, o indicio de um assassinio está manifesto a todas as luzes; mas o indigitado homicida, porque é fidalgo e opulento, está no liberrimo goso dos seus direitos civis. Se fosse um pobre, já estava preso, e teria sido interrogado em casa de Anaz, e Caifaz, e Pilatos.
«Alguem saiu já em defeza de Nicoláo de Mesquita, allegando que elle, se fosse o assassino, de modo nenhum mandaria bolir no aqueducto. Esta razão tem uma face acceitavel, e outra incumbe á justiça mostral-a. Em quanto a mim e á maioria dos pareceres, o matador de Raphael Garção, cujos olhos são indubitavelmente aquelles, foi Nicoláo de Mesquita, vigesimo segundo senhor da Torre e morgado de Palmeira de Vidago.
«Conte com a noticia circumstanciada d’este processo, e com a verdade incorruptivel, do seu constante leitor,
«EPAMINONDAS TEBANO.»
--O que ahi está é tudo mentira! exclamou uma voz d’entre as pessoas, que escutavam a leitura da correspondencia.
Confluiram todas as vistas para a pessoa que bradara, e viram a criada da casa, Maria Joanna, que deixara cair o fuso, e com a mão levantada repetia:
--Juro pela salvação da minha alma, que o senhor morgado da Palmeira não matou o senhor Raphael.
--Como sabes tu isso?! perguntou o patrão.
--Sei-o, porque era criada da senhora D. Beatriz; fui eu quem creou o menino de que ahi se falla na gazeta. Assisti ao ultimo arranco do senhor Raphael. E, se até agora me calei, é porque não soube que o meu amo pagava innocente.
--Conta o que sabes, Maria, e prepara-te para ir esclarecer a justiça, voltou o patrão.
A antiga confidente de Beatriz relatou as desgraças de sua ama e do assassinado amante d’ella.
No dia seguinte, partiu para Chaves, com recommendações do cavalheiro de Villa Real, e foi levada á presença da auctoridade, deante de quem e de testemunhas, expoz o modo como Raphael Garção fôra encontrado, e a supposição de que elle fôra morto por uns homens que dispararam as armas para dentro da mina. Era preciso ouvir o depoimento dos homens. Maria Joanna indicou dois criados de Palmeira para dizerem quem eram elles, por terem estado, poucos momentos antes, conversando juntos. Os criados ainda o eram de Nicoláo de Mesquita. Foram citados a comparecerem na policia; e, interrogados, lembraram-se dos nomes dos quatro valentões da sanguinaria romaria. Os indicados depuzeram conformemente ao depoimento da creadora de Martinho, e as suspeitas declinaram de sobre a cabeça de Nicoláo de Mesquita.
O cavalheiro de Villa Real, volvidas duas semanas, leu uma segunda correspondencia do _Epaminondas_, antipoda involuntario do Epaminondas de Tebas, na qual as suas conjecturas eram rectificadas, com grande magua de as haver estampado no primeiro afôgo da sua indignação. A indignação dos correspondentes da provincia é coisa de grão pavor quasi sempre!
A correspondencia rematava assim:
«Os ossos de Raphael Garção foram religiosa e pomposamente conduzidos de Chaves para Fayões, e depostos no jazigo de seus avós. O pae de Raphael, que ainda vive doido, na escuridade do seu quarto, onde apenas recebe á força quem lhe ministra o sustento de tão horrivel viver, morrerá sem saber que os ossos do seu filho unico repousam na mesma sepultura da mãe, que morreu saudosa d’elle. A criada Maria Joanna salvou o morgado de Palmeira de um injusto ferrete: não obstante, o marido de Beatriz, com justa ou injusta razão (não ouso decidir-me) não consente esta mulher deante dos seus olhos. Consta-me que lhe mandara entregar as suas caixas, que ainda estavam em Palmeira, e uma esmola valiosa por mão do menino que se creou aos peitos d’ella.
«Finalmente, senhor redactor, em vista do desenlace d’esta infanda historia, devemos olhar ao ceu, e baixar os olhos confundidos, deante da mysteriosa justiça da divina providencia! Raphael Garção morreu. Beatriz viu-o agonisar. Ambos expiraram no praso de vinte e quatro horas. Nicoláo de Mesquita geme ha quatro annos sob o peso de uma cruz de ferro. Estas angustias pode ser que correspondam a antigos crimes. Em summa, ninguem se transvie do caminho da virtude, que o do crime está ladeado de infernaes abysmos.
«EPAMINONDAS.»
XXVII
Nicoláo de Mesquita, em 1850, voltou para Inglaterra com o seu filho, a residir no _cottage_ de seu sogro. O menino, aos sete annos, entrou em collegio, e passava os dias feriados com seu pae.
N’uma estação de ferias, o morgado saiu com o filho a passar uns dias em Pariz, em companhia de uma familia ingleza, proprietaria da residencia em que fallecera Martinho Xavier, e a quem Nicoláo devia o obsequioso cuidado de attentar nas necessidades do filho sem mãe e sem carinhos de mulher, aos quaes se aquece o coração das creanças, e as virtudes fermentam n’elle. O aspecto macilento e sempre sombrio do portuguez acareára a discreta piedade da familia ingleza.
Adivinhavam n’elle um desmarcado infeliz, talvez um delinquente: mas, o remorso ou pena immerecida, o que elle inspirava nas almas contemplativas era compaixão.
Estavam, pois, em Pariz, no anno de 1852, quando Nicoláo, ao sair da egreja de Notre-Dame, onde fôra ouvir prégar Lacordaire, ouviu entre a multidão uma voz muito proxima do ouvido, que lhe dizia:
--Nicoláo de Mesquita.
Olhou de golpe, e viu Margarida Froment. Estremeceu. Aquella mulher devia ter quarenta annos; a decadencia era justificada; mas a velhice, quasi repellente, não.
--Custa-me a reconhecel-a, madame!--disse Nicoláo com os olhos afogados em lagrimas.
A franceza deteve-se entalada pela angustia da humilhação, e disse:
--Não venho pedir-lhe nada: quiz que me visse. Reduziu-me a isto, senhor Mesquita.
--Eu!... santo Deus!--atalhou Nicoláo enxugando as lagrimas.
--Aqui tem a Margarida Froment de 1834--proseguiu ella.--Casualmente nos achamos á porta do templo em que ambos saltámos da carruagem de meu marido para visitarmos as antiguidades d’esta egreja. Recorde-se da mulher de então: sou eu. É esta Margarida que empenhou hontem o seu melhor vestido para ter hoje um almoço. Já lhe disse que não venho pedir nada; quero que me veja.
--Mas a senhora attribula-me horrivelmente!--exclamou Nicoláo entalado de gemidos.--Não foi Margarida quem abandonou a casa de que era senhora? Expulsei-a eu?
--Não lhe respondo, senhor Mesquita. Olhe de cima do despenhadeiro onde me poz, e pergunte á Providencia por que estou aqui, porque sou isto que vê!
--Pois que hei de eu fazer-lhe agora, senhora! Que quer de mim? Eu sou muito desgraçado; mas sou rico ainda. Quer recursos para viver decentemente? Diga sem repugnancia.
--Não, senhor; nada lhe pedi: quero que me veja!
--Mas, infeliz, que vida foi a sua que...?