Part 12
Beatriz, porém, afervorava-se mais em ternura desde que presagiára algum desastre. Lembrou-se que Nicoláo, com as provas da deslealdade d’ella, era homem talvez para matal-a, ou repellil-a com desprezo. O pae, o severo Martinho Xavier, aferrolhal-a-ia n’um convento, ou vingaria o marido, n’um rapto de furioso odio. Beatriz precisava contar com o refugio e amparo do homem amante, corajoso, rico, e affrontador de todos os respeitos sociaes por amor d’ella. Faltava-lhe animo e impudor, digamol-o assim, para prevenir Raphael no sentido dos seus presagios. O bizarro moço acudiu ás balbuciações da prima, anhelando a hora em que ella se despenhasse dos respeitos vãos do mundo aos braços defensores do esposo de sua alma. Alentou-se o espirito da senhora. Achou-se mais destemida, e mais segura na rampa da sua perdição.
Escreveu o morgado da Palmeira ao sogro, e dizia-lhe n’um post-scriptum: «Aqui vi Raphael, que chegou de Pariz. Leva uma franceza. Doido até á morte!»
Martinho Xavier respondeu:
«No tocante a Raphael Garção ouso pedir á tua bondade que me não falles mais. Eu fallei muito a respeito d’este homem. Hoje a ti peço, aos mais ordeno que me não fallem n’elle.»
Martinho Xavier, velho amigo do governador civil de Lisboa, sabia, mediante as faceis pesquisas policiaes, onde morava Raphael em Lisboa. Concluiu muito mais além do que a alçada da policia devassou, e calou-se para não ir elle hastear o patibulo da deshonra da filha.
Nicoláo de Mesquita ponderou em nada as palavras do sogro.
Revieram dias serenos, serenos de sobejo para a lethargia de Raphael. Sensação nova para elle! até saudades dos paes o inquietavam! Parecia-lhe que na provincia havia de amar mais poeta, e mais intensamente sua prima.
Este constrangimento adoentou-o sem artificio. Beatriz deu tento de sua tristeza, e considerou-se desamada. Chorou e fez-se aborrecida. A mulher, nas condições de Beatriz, nada vence com lagrimas, e ás vezes dissolve com ellas os filamentos que a prendem á estima que se desfaz. Raphael queixou-se amargamente da injustiça e da ingratidão.
--Avalias mal, disse elle, um homem dos meus annos, e com o meu temperamento, que está, ha sete mezes, privado da liberdade, e até de ar, no centro de Lisboa, rodeado de prazeres, attraido pelas diversões de que amante nenhum se abstém.
--Eu cuidei que eras assim feliz!... atalhou ella seccando as lagrimas ao incendio do subito arrependimento.
--Feliz... de certo fui e sou; mas custa-me que tu chores, quando eu me queixo que não posso com esta vida... Tens tu força de mover teu marido a ir para a provincia?
--Eu não tenho força nenhuma, primo...
--Experimenta, Beatriz: diz-lhe que estás doente: póde ser que elle te deixe ir para Palmeira. Se elle quizer ficar com a franceza, que te faz isso?
--A mim que me ha de fazer?!... Pois sim, eu lhe pedirei que me deixe ir para Palmeira... E perdoa-me, disse ella, enternecedora, perdoa-me, Raphael, que bem conheço que estás doente, e aborrecido como eu de Lisboa. Quem me dera nas minhas arvores, e á margem do meu Tamega!... Amei-te com tanto coração n’aquelles sitios!... Tenho saudades da gruta em que eu ia buscar as tuas cartas e levar as minhas! Conheço todas as plantas d’onde tu colheste uma flôr, que deixavas cair entre as murtas para eu a murchar ao calor do meu seio. Tambem te lembras?
--De tudo, minha filha!...--disse Raphael commovido.--De tudo me lembro em que teus olhos pousaram um instante. Voltaremos nós áquelle ceu?... Vêr-nos-ha uma d’aquellas noites estrelladas da nossa terra?
Estavam mais liricos que o seu costume. O morgado de Fayões era alma pouco puxada á fieira do idillio. As estrellas distraiam-n’o mediocremente, e a lua incommodava-o com demasias de luz, nas suas escaramuças nocturnas á pacifica honestidade dos infelizes, como o pharmaceutico, e o coronel, e outros de lacrimavel memoria. No tocante a Beatriz, até áquella hora, minguára-lhe tempo aos devaneios pelo azul dos céus da sua terra e canteiros do seu jardim. Nos romances, que lêra, se alguns amantes se detinham em palestras concernentes ás estrellas, e sombras de platanos, admirava-se ella da impertinencia dos authores, que tão pouco, em certas conjuncções, conheciam o coração de duas pessoas apaixonadas, ardentes, novas, doidas, escondidas uma n’outra como dois anjos, que não entendem o mundo.
Desde este dia, ou noite, Beatriz ficou pensando sempre em voltar á aldeia. Tambem ella esperava que o seu Raphael centuplicasse os carinhos, além, n’aquelles convidativos bosques, onde parece que o coração se dilata, e enche do amor dos mil amores que a natureza espira.
Pediu ao marido que a levasse a Palmeira, se elle queria passar o verão em Lisboa.
Nicoláo respondeu que não podia ir, nem viver sem ella.
--E se te eu disser que me sinto deperecer, e brevemente morrerei em Lisboa?--replicou ella.
--Não morrerás, menina. Pelo contrario, a vida da aldeia ser-te-ia hoje um incessante fastio.
--Como quizeres, primo...--tornou Beatriz com despeito.--Ainda assim, has de consentir que eu, se me sentir peior, escreva a meu pae, pedindo-lhe que me venha buscar. Tenho um filho, e quero viver para meu filho.
--Pois vive em Lisboa, priminha, que estes ares são purissimos, se me não engano.
--Tu nunca te enganas, meu primo--retorquiu, surrindo amargamente;--mas tambem não enganas ninguem.
--Explica-te!
--Mais tarde...
--Porque não ha de ser já?!
--Porque ainda se não gastou a paciencia... Não me faças mais perguntas, visto que eu tenho a delicadeza de te não responder. Se um dia me queixar, não ha de ser de ti.
Nicoláo recolheu a colera e a interrogação imprudente. Compreendeu que Beatriz lhe conhecia deslealdade; e, do aprumo glacial com que ella o invectivou, tambem inferiu que não era amado.
Resignou-se, e protestou acautelar-se, visto que ainda era tempo. As cautelas consistiram em sondar e precatar a fidelidade dos criados. Ia bem n’aquelle rumo!
Passados dias, voltou Beatriz a pedir-lhe que a levasse para Palmeira. Nicoláo respondeu:
--Póde ser na semana que vem.
Escreveu a um amigo de Chaves, perguntando-lhe se Raphael Garção tinha casado com a Angela de Santo Aleixo. Disseram-lhe que Angela havia casado, quatro mezes antes, com o morgado das Boticas, e que o morgado de Fayões ninguem sabia d’elle, porque não escrevia a ninguem.
--Então que é isto?--perguntava Nicoláo á sua razão esclarecida.--O homem disse-me em Cintra que ia para casa, e ninguem sabe d’elle!... Não negou que ia casar com Angela, e Angela estava casada!... Mas, se elle estivesse em Lisboa, e Beatriz o soubesse, seria um contra-senso querer ella ir para a provincia! Isto não falha aos dictames de uma razão escorreita! Já sei o que é: o doido escondeu-se por aqui, ou no Porto, ou na provincia com a franceza. É o que é. Martinho Xavier sabe-o, e, irado contra esse escandalo, prohibe que lhe fallem n’elle. Minha mulher é estranha a tudo isto. Vejo-a doente, e receio que ella se queixe ao pae. Sabe a minha vida misteriosa, e, se eu a contrario, é capaz de me denunciar. Martinho Xavier vem a Lisboa, e toma conta da filha. Remediemos as eventualidades. Vou para Palmeira com minha mulher, e preparo residencia á franceza na minha quinta de Ribeira d’Oura. No inverno seguinte, deixo Beatriz em Chaves com o pae, e volto a Lisboa com Margarida.
Beatriz recebeu a nova da partida. Avisou Raphael, que antecedeu oito dias a jornada, entrando outra vez em Hespanha. A mobilia da casa de Andaluz foi vendida em globo, em nome do seu criado. O desabafado moço cuidou que saia de Lisboa com um pulmão desfeito, e o outro atacado de tuberculos.
Entrou Raphael Garção em Chaves, com dois caixotes de encommendas de Pariz, mandadas comprar no Chiado. Andou entregando os objectos ás primas, com as quaes fallava difficilmente o portuguez. As senhoras achavam-n’o assim mais interessante. As donzellas gostavam de ser chamadas _mamasélles_ e _chères cousines_, pronuncia que feria os ouvidos lusitanissimos das velhas. De Chaves foi para Fayões, onde se espantou de não encontrar cincoenta e tantas cartas, que havia escripto a seus paes, de differentes cidades do mundo. Os velhos choravam abraçados n’elle, como se o filho, por milagre de Jesus, quebrasse a campa. Julgavam-n’o como morto, não obstante Ricardo de Almeida, compadecido d’elles, lhes haver asseverado, de mez a mez, que Raphael Garção vivia. O morgado queixou-se acremente da inconstancia da prima de Santo Aleixo, e protestou casar-se por vindicta com a mais rica herdeira.
Passados dias, foi visitar Ricardo ao castello de Aguiar. Viu Laura, a pomba do ceu, que depuzera o ramo de oliveira no coração do amante de Margarida. Inclinou-se com ingenuo respeito deante da mulher, que o recebia com um surriso de estima. Sabia ella quanto seu esposo devia a Raphael Garção, perdido no conceito publico, e ao mesmo tempo bajulado dos paes, querido das mulheres, e invejado dos homens. Ricardo pintára-lhe vantajosamente o caracter de Raphael, omittindo o desdouro dos seus amores adulteros. Laura uma vez lhe revelára a esperança de vêr uma das suas irmãs casadas com o morgado de Fayões. Ricardo singelamente lhe disse:
--Não penses em tal. Raphael ha de morrer solteiro, porque ha de morrer novo.
Regosijou-se a dama brazileira de vêr Raphael com saudavel exterior, e uns vislumbres de espirito fatigado de correr mundo á procura das aventuras vãs e estragadoras do coração. Julgava ella que as leviandades do fidalgo eram amar sem destino, gastar o sentimento em affectos inconsequentes, e com mulheres devastadas pelas paixões, falsas paixões que desluzem as illusões candidas da alma, como as côres postiças corroem a natural purpura do rosto.
Largas horas praticaram os dois amigos em passeios na serra, por onde Raphael tragava saude, e renovava o sangue. Fallava de Beatriz com saudade, por que a distancia lh’a aureolava com o resplendor de outros tempos. Revelava os seus intentos a Ricardo, que, sem fortalecer o discurso com axiomas, lhe pedia que rompesse uma alliança, promettedora de cortar-se mais tarde com mais doloroso golpe.
--E cuidas tu que Beatriz não morre, deixando-a agora eu?--dizia entre piedoso e fatuo o de Fayões.
--Cuido que não morreria, primo Raphael. Merecia a pena experimentares quinze dias.
--Fez-te barbaro a felicidade, Ricardo!... Assim, queres tu que eu faça uma fria e selvagem experiencia na vida da mulher que me ama, e que tem posto a risco a honra e a vida por amor de mim?
--Não, primo... O que eu queria era induzir-te a salvar-lhe a honra, que a vida não tem marido que lh’a tire.
--E, depois,--redarguiu Raphael, que querias tu fazer de mim?
--O mesmo que tu indirectamente fizeste do teu primo Ricardo.
--Levar-me ao casamento?
--Levar-te á honra, e a honra depois que te inspirasse, meu amigo.
XXI
Chegaram os fidalgos ao Vidago. Beatriz entrou contente na enorme gruta de arvores seculares, que emboscavam a casa de Palmeira.
Quinze dias depois, Margarida Froment, com o seu mordomo e criadas, aposentavam-se na quinta da Ribeira d’Oura. Nos arredores corria que esta dama, com suas aias, e mordomo, vestidos á bizarra, era uma illustre estrangeira, que viajava, e parára alli, embellesada nos encantos do sitio.
Martinho Xavier não visitou a filha, e, respondendo ao genro, que lhe annunciava a chegada, nem promettia ir vel-o, por estorvo de enfermidades, nem o convidava a ir a Chaves. Nicoláo de Mesquita azedou-se da indelicadeza, e disse á mulher que o pae era uma creatura intractavel.
Informou-se o morgado do viver de Raphael. Colheu que vivia muito no Pontido com Ricardo, e com os amores começados de uma cunhada de Ricardo, dotada com duzentos e cincoenta mil cruzados. Varreram-se-lhe as suspeitas do pensamento. Foi á Ribeira d’Oura; deteve-se oito dias, e voltou forçado pelas conveniencias, e já não pelo ciume.
N’este espaço de tempo, Raphael Garção passou trez dias no palacete de Palmeira, e revistou com Beatriz, nas cálidas horas das noites de julho, os maciços das murtas, os alegretes das flores almejadas em Lisboa, os arvoredos cerrados, as margens do Tamega rumoroso. Noites lindas, scismadoras como as do tempo ido, mas que differentes ao espirito de Raphael! Poesia espontanea, essa fenecêra como as flores de então. A poesia de agora, tirada á força da fantasia, era toda arte de coração fatigado. Beatriz é que era sinceramente ditosa.
Raphael estava alli e pensava em Amelia, irmã de Laura, trigueira como sua irmã, olhos mais ardentes, espiritos mais scintillantes, cheia de graça na conversação, e de meigas puerilidades no seu amor.
Acontecia, porém, que o pae de Amelia desconfiava do caracter de Raphael. Repugnava-lhe o tom galhofeiro do primo de Ricardo de Almeida. Achava-o mundano de mais; bom para as salas; verde de mais para a vida intima. Não obstante, ligeiramente contradizia a propensão da filha.
Raphael não podia romper de vez o enlace com Beatriz; promettia, porém, ser forte e honrado, assim que o casamento se tratasse.
Aqui o temos, pois, transtornado, e seduzido pelo exemplo da felicidade do primo. As differenças de genio, que mezes antes observára elle, entre si e Ricardo, tornaram em identidade de aspirações. Dizia-lhe o castellão de Aguiar que principiasse a sua reforma, renunciando ás abominaveis intelligencias com a esposa de Nicoláo de Mesquita. Raphael mentiu, protestou despedir-se d’ella cavalheiramente, recolheu-se a Fayões; e assim que houve nova da segunda ida de Nicoláo á quinta da Ribeira d’Oura, voltou para Vidago.
Martinho Xavier sabia os passos do genro, e os do sobrinho. Ao genro perdoára; ao sobrinho não pudera. Um dia, chamou dois valentes filhos de um caseiro das suas terras de Barrozo. Deu a cada um seu bacamarte; e, ao cerrar da noite, ordenou-lhes que o esperassem fóra de Chaves, com um cavallo á redea. No sellim iam afivelados coldres de pistolas de alcance.
Á meia noite, haviam caminhado quatro leguas. A casa acastellada de Fayões negrejava como um morro de fragas, a um oitavo de legua distante.
Martinho parou e disse:
--Á uma hora devem aqui passar dois homens a cavallo. Se o que vier á rectaguarda fizer algum movimento com armas, atirem a matar. Ao que vier na frente não lhe ponham mão. Se acontecer matar o criado, fujam, e esperem-me além Tamega. Eu lá irei ter.
Antes da hora marcada aos criados, que se embrenharam n’uma bouça, ouviu-se perto o strupido de cavallos no declive pedregoso da calçada. A estrada achanava-se ao cimo da ladeira.
Raphael Garção viu ante si um cavalleiro, quedo e immovel como estatua.
--Quem é?--perguntou engatilhando uma pistola.
--Sou Martinho Xavier, pae de Beatriz.
--Meu tio!--exclamou Raphael, abaixando o braço da pistola.
--Arreda lá com o parentesco, infame villão!--bradou o velho.--Vae perguntar a tua mãe que lacaio te deu o sangue plebeu que te gira nas veias!
--Essa affronta não fere minha mãe, senhor Xavier! respondeu o de Fayões erguido nos estribos.
O criado de Raphael, seu companheiro e guarda desde os quinze annos, esporeou o cavallo com um bacamarte em punho.
--Alto ahi!--ordenou Raphael ao seu valente criado.
O homem susteve o impeto do cavallo, e recebeu no mesmo ponto, duas balas em cheio peito. Oscilou sobre a sella, inclinou a cabeça ao pescoço do empinado cavallo, e, destribado caiu morto em terra.
--É uma espera de assassinos?--exclamou Raphael, abocando a pistola ao peito do tio.
--Como quizeres, canalha! Vaes agora morrer tu, ás mãos de um velho, que deshonraste. Desfecha, corôa a tua vida com o homicidio! Mata quem te vae varar esse perverso coração!... O pae de Beatriz deve morrer ás tuas mãos!
Raphael abaixou a arma apontada, e disse:
--Atire! aqui me tem mais perto!...
E impelliu a trancos o cavallo para a frente, e quasi ao alcance do braço de Martinho.
O velho retirou o dedo convulso, que premia o gatilho.
--Antes quer que os seus criados me assassinem?--exclamou Raphael.--Pois então que atirem elles! Um homem innocente está alli morto no chão; matem agora o criminoso; desculpem-se de uma barbaridade com um acto de justiça. Salvem a honra de seu amo, que o sangue do meu criado não lhe póde lavar as nodoas!
Martinho Xavier fraquejara. Aquelle silencio era uma estrangulação que lhe afogava na garganta a voz. Contara comsigo para uma desaffronta, que, nas cogitações do seu quarto, lhe parecêra heroica. A presença do cadaver, e o animo frio de Raphael conturbaram-n’o.
--A deshonra de minha filha!...--balbuciou elle. E as lagrimas romperam-lhe em torrentes, e a pistola caiu-lhe da mão.--A minha amada filha... prostituida... por um sobrinho de seu pae... pelo companheiro da sua infancia, que eu tinha em meus braços, quando ambos se beijavam... E pudeste, Raphael, tu, pudeste perdel-a, quando devias guardar a dignidade dos teus, respeitar a esposa de um amigo, a filha de um velho, que te estremecêra como pae... Tu, filho de uma irmã de minha mulher!... Maldito sejas!... Deus não quer que eu possa castigar-te... Divina Providencia, eu vos entrego este criminoso!... Castigae-o vós!
Martinho Xavier desandou o cavallo, e partiu vagarosamente. Carecia de forças, para accelerar a carreira.
Raphael desmontou, ergueu pelos hombros o criado, quiz acostal-o á riba da estrada; mas o corpo inerte resvalava com a cabeça pendida, e os braços desarticulados. O collete e a camisa fumegavam ainda queimados pelas buchas dos bacamartes. O morgado tirou as mãos ensanguentadas; e desistiu de esperar signal de vida.
Voltou a Fayões a chamar criados com uma maca de carregar. Transportou-o a casa, e não deixou que fosse avisada a justiça. Amortalhou-o e depositou-o na capella do palacete. Foi suffragado com a decencia das pessoas da sua familia, e distinctamente sepultado ao pé do jazigo dos Cogominhos Garções.
Quinze dias depois d’este successo, Martinho Xavier enfermou gravemente, e prohibiu que Beatriz fosse avisada. Sem embargo, chegou a Palmeira a nova da perigosa doença do fidalgo. Nicoláo de Mesquita, sopesando o despeito, foi com a esposa e o filho a Chaves.
Era irrecusavel o accesso ao quarto do enfermo. Sentou-se com transporte de ira o velho, quando viu a filha. Contemplou-a com os olhos arraiados, e acovados nas orbitas azues. Apontou-a com o braço tremente e murmurou:
--O crime!... a lividez patibular do crime!... A maceração da consciencia no rosto que foi tão bello!... Vae-te, amaldiçoada!... Olha que pesa sobre ti uma vida innocente, que eu fiz matar!
Nicoláo, que se detivera consultando os medicos, acudiu aos brados roucos de Martinho, e viu sua mulher ajoelhada aos pés do leito, e lavada em lagrimas.
Assim que o intreviu no reposteiro, o velho carregou a fronte, e bradou:
--Quem te chamou aqui, devasso? Vae para as vergonhosas delicias da mulher, que achaste mais digna quando era mais perdida. Vae cumprir a tua expiação, e não venhas ser testemunha da minha. Dei-te essa desgraçada, que ahi está, cuidando que a guardarias no santuario de um amor digno. Não podeste, porque vinhas do crime sordido, havias de voltar ao mesmo abysmo, e arrastal-a comtigo! Vão-se ambos da minha presença, e... despedacem-se!
Nicoláo estava corrido na presença das pessoas que o acompanharam ao quarto. Retrocedeu taciturno, perguntando aos medicos se seu sogro estava doudo. Os medicos, suspeitosos da justa supposição do morgado, entraram ao quarto a examinar-lhe os olhos e os movimentos. Martinho compreendeu-os, e disse placidamente:
--Eu não estou doudo, meus amigos. Escusam de examinar-me. Se vêm lagrimas, são de desgraça, e não de demencia. Peço-lhes o favor de me deixarem repousar... E, se ahi está alguma senhora, queiram pedir-lhe que venha transportar d’ahi essa creatura.
E apontou para Beatriz, que desfallecêra.
Levada nos braços de duas damas, a filha de Martinho Xavier cobrou o alento, e, expediu, com vibrantes gritos, repetidos golfos de sangue. O marido sentou-se ao lado do leito onde a depuzeram, e encarou-a com feroz catadura. É que das palavras de Martinho se convencêra que a filha fôra accusar a ligação com Margarida Froment. Como os deixassem breve tempo sósinhos, o marido acurvou-se ao ouvido da esposa, e disse-lhe:
--Que esperavas lucrar tu com a denuncia, desgraçada?
--Qual denuncia, miseravel?--perguntou ella, erguendo-se de salto.
--Falla baixo! e responde: que lucraste?...
--Sae dos meus olhos, que te detesto!--exclamou Beatriz voltando-se de repellão.
Replicou Nicoláo com uma convulsão de riso sarcastico, e saiu da alcôva. Entraram senhoras a rodearem o leito de Beatriz. Encararam n’ella com assombro, sem ousarem interrogal-a.
--Meu pae?--perguntou ella.
--Está socegado.
--Morrerá?!--tornou Beatriz muito commovida.
--Talvez não: os doutores dizem que a molestia é moral; mas a causa toda a gente a ignora. Sabe-se que saiu á noite, ha quinze dias; voltou de madrugada; fechou-se no quarto; e adoeceu, como se vê.
Uma das melhores amigas de Beatriz inclinou-se-lhe ao ouvido, e, pedindo venia ás outras, perguntou-lhe:
--Tu sabes da morte do criado de teu primo Raphael?
--Não--respondeu Beatriz agitada.
--Pois mataram-n’o na mesma noite em que teu pae saiu; meus irmãos dizem que a doença do tio Martinho está ligada a este acontecimento.
A senhora concentrou-se, e não respondeu nem esclareceu a tal respeito coisa nenhuma.
Reinou de novo um silencio de pesames mortuarios no quarto; porém, na saleta proxima, alguns cavalheiros conversavam com Nicoláo.
Dizia um d’elles.
--Este anno tem sido fertil em casamentos. As melhores herdeiras foram empalmadas; mas o melhor dote, que veiu para estes sitios, entre Chaves e Villa Real, foi o de Ricardo de Almeida. Cem contos em moeda!
Revelava outro:
--Cem contos de réis a cada filha, sendo trez as que tem o tal ricaço de Mirandella, negreiro segundo dizem. Sabem vossês que uma das filhas vae casar... com quem imaginam?
--Isso é sabido, acudiu outro. Casa com o Raphael Garção...
Um estridente grito de Beatriz agitou de encontro á porta do quarto os cavalheiros. Nicoláo entrou com elles, e viu sua mulher debatendo-se freneticamente nos braços de duas senhoras. Erguia-se ella a prumo, estorcendo-se e inteiriçando-se em afflictivas ancias. Depois, ao recair, quebrada de forças nos braços amparadores, bolçava sangue, e recurvava as unhas sobre o peito, como se quizesse arrancar um cauterio do coração.
Uma só pessoa compreendia cabalmente aquella agonia. Era o marido.
XXII
Chega uma hora, em que a mulher, esfacelada pelas cordas em que estrebuxa, quando a mão inexoravel do dever lh’as estira e reaperta, sente em si a desesperada ousadia de pregoar á face do proprio marido o seu amor maldito. Se o insulto á moral se não desprende então dos labios febris da energumena, é porque em todo o coração, congestionado de sangue peçonhento, como que se abre uma valvula por onde os pulmões ingerem um oxigenio purificante. Esta lufada de bom ar não tem que vêr com os orgãos communs das funcções respiratorias. É fluido estranho á sciencia de Bichat e Orfilla: chama-se _Esperança_.
Foi a esperança que poz mordaça aos delirios de Beatriz. A presença do marido, em cujo rosto revia o escarneo rancoroso, exagitava-a em anciadas remettidas contra os braços que sustinham. N’uma intermittencia de quebranto, a filha de Martinho Xavier tirou da luz do seu inferno um clarão de duvida, e logo o deleite satanico da esperança. E surriu, e atirou com aquelle surriso á cara de Nicoláo de Mesquita.
Avisaram o velho do estado afflictivo de sua filha, pessoas inteiramente alheias ao complicado enredo do infortunio de ambos. Martinho mandou dizer a Beatriz que viesse ao seu quarto. A senhora cobrou forças, e, descomposta de feições, abeirou-se á cama do pae.
--Já não é tempo de evitar o espectaculo da nossa desgraça, Beatriz? perguntou elle.
--É, meu pae,--disse ella.--Eu vou voluntariamente morrer n’um convento: mas deixem-me levar o meu filho.
--O convento que significa? Em que se rehabilita a deshonra, fechada n’um convento? Responde, Beatriz!
--Morre-se... murmurou ella.