O Atheneu (chronica de saudades)
Part 9
A manutenção da existencia individua tem a razão de ser no instincto de vitalidade da especie. O momento presente das gerações nada mais é que a ligação prolifica do passado com a posteridade. E a razão de ser das especies? A indagação não perscruta.
Para que o individuo perdure, momento genesico da existencia especifica no tempo, é indispensavel adaptar-se ás imposições do meio universal. O rio a correr não despreza o detalhe do mais insignificante remanso, nem póde sophismar o obstaculo do menor rochedo no alvéu. O criterio inconsciente do instincto é o guia da adaptação.
O esforço da vida humana, desde o vagido do berço até o movimento do enfermo, no leito de agonia, buscando uma posição mais commoda para morrer, é a selecção do agradavel. Os sentidos são como as antennas salvadoras do insecto titubeante; vão ao encontro das impressões, avisadores opportunos e cautelosos.
A cada mundo de sensações notaveis corresponde um sentido. Os sentidos, theoricamente delimitados, são cinco, multipla transformação de processo de um unico--o tacto, exactamente o sentido rudimentar das antennas.
Faz-se, tacteando instinctivamente a procura dos agradaveis: agradavel visual, agradavel gustativo, agradavel tangivel, em summa. O agradavel é essencialmente vital; se é ás vezes funesto, é porque o instincto póde ser atraiçoado pelas illusões.
A perfectibilidade evolutiva dos organismos em funcção, manifestando-se prodigiosamente complexa, no typo humano, corresponde á revelação, na ordem animal, do mysterioso phenomeno personalidade, capaz de fazer a critica do instincto, como o instincto faz a critica da sensação.
A informação de reportagem de cada sentido não desperta, portanto, no homem a actividade cerebral dos impulsos de preferencia, de repugnancia, simplesmente, como nos outros animaes; mas amplia, pela psychologia inteira dos phenomenos espirituaes, a variedade infinita das comparações, permutadas de mil modos na unidade do espirito como as peças de um jogo maravilhoso sobre o mesmo panno.
Duas são as representações elementares do agradavel realisado: nutrição e amor.
Os animaes inferiores, não favorecidos por um razoavel coefficiente de progresso, produzem secularmente a condição da inferioridade: olham, tocam, farejam, ouvem, não provam com demasiado escrupulo e devoram grosseiramente para depois amar, como sempre fizeram.
O homem, por desejo de nutrição e de amor, produziu a evolução historica da humanidade.
A nutrição reclamou a caçada facil--inventaram-se as armas; o amor pediu um abrigo, ergueram-se as cabanas. A digestão tranquilla e a perfilhação sem sobresaltos precisaram de protecção contra os elementos, contra os monstros, contra os malfeitores,--os homens tacitamente se contractaram para o seguro mutuo, pela força maior da união: nasceu a sociedade, nasceu a linguagem, nasceu a primeira paz e a primeira contemplação. E os pastores viram pela vez primeira que havia no céu a estrella Vesper, expandida e pallida como o suspiro.
Mas era preciso que fossem leitos de amor as crinas de ouro e fogo dos leões, e que houvesse marfim, metaes luzentes, pedraria, sobre a alvura lactea da carne amada, que não bastavam beijos para vestir; era preciso deliciar a gustação, com o requinte das estranhezas. E os homens levaram a conquista aos reis da floresta, ao ventre do solo; foram colher aos ares os incolas mais raros, emplumados de luz como creações canoras do sol; e foram buscar ás ondas os mais esquivos viajores do abysmo, singrando celeres, phantasticos, na sombra azul, cm cauda um reflexo vago de escamas,--para morder-lhes á vida.
Urgiu ainda a fome, urgiu mais o amor e veio a guerra, a violencia, a invasão. Curvaram-se os captivos ao latego vencedor e foram abatidas as escravas sob a garrada lascivia sanguinaria, faminta de membros avulsos, olhos sem alma, labios sem palavra, formas sem vontade, pretexto miseravel de espasmos. Formaram-se os odios de raça, as oppressões de classe, as corrupções vingadoras e demolidoras.
Mas a scisma evoluiu tambem, aquella scisma poetica da pastoral primeva que buscara os astros no céu para adereço dos idyllios. O fundo tranquillo e obscuro das almas, aonde não chega o tumultuar de vagas da superficie, inflammou-se de phosphorescencias; geraram-se as aureolas dos deuses, coalharam-se os discos das glorias olympicas; as religiões nasceram.
Mas era preciso que fosse palpavel o espectro da divindade: as rochas descascaram-se em estatuas, os metaes se fizeram carne e houve templos, houve cultos, houve leis, vieram prophetas e pontifices ambiciosos. E esta evolução da scisma que fôra amante, feita instrumento da tyrannia, deu logar ás praticas do terror, aos apostolados do morticinio.
[Figura 24]
Mas uma lyra ficara da geração primeira de scismadores, e as cordas cantavam ainda e os sons falaram no ar as epopéas do Oriente e da Grecia. Roubou-se aos sacerdotes tyrannos o monopolio dos deuses para jungil-os á atrelagem do metro; que levassem, através dos seculos, o carro triumphal da estrophe, onda sonora de vibrações immortaes.
E os esculpidores dos idolos legaram o segredo da fabrica, revelando que vinham de um molde de barro aquellas arrogancias de bronze, e que se fazem deuses como as amphoras. E os artistas modernos recomeçaram, chamando a religião ao atelier, como um modelo de hora paga; e gravaram em tinta, pelos muros, as visões mysticas da crença.
A nitidez artistica das formas fizera crer aos homens que morava realmente um espirito sagrado na porosidade do marmore, e que realmente havia em proporções infinitas uma tela de olympos e paraisos, onde as côres do anthropomorphismo artistico viviam soberanas, olhando o mundo lá em baixo, vasando a urna providencial das penas e das alegrias.
Decaídas as phantasias sentimentaes, reformou-se o aspecto do mundo. Os deuses foram banidos como effeitos importunos do sonho. Depois da ordem em nome do Alto, proclamou-se a ordem positivamente em nome do Ventre. A fatalidade nutrição foi erigida em principio: chamou-se industria, chamou-se economia politica, chamou-se militarismo. Morte aos fracos! Alçando a bandeira negra do darwinismo spartano, a civilisação marcha para o futuro, impavida, temeraria, calcando aos pés o preconceito artistico da religião e da moralidade.
Sobrevive, porém, o poema consolador e supremo, a eterna lyra...
Reinou primeiro o marmore e a forma; reinaram as côres e o contorno; reinam agora os sons,--a musica e a palavra. Humanisou-se o ideal. O hymno dos poetas do marmore, do colorido, que remontava ao firmamento, fala agora aos homens, advogado energico do sentimento.
Sonho, sentimento artistico ou contemplação, é o prazer attento da harmonia, da symetria, do rhythmo, do accôrdo das impressões, com a vibração da sensibilidade nervosa. É a sensação transformada.
A historia do desenvolvimento humano nada mais é do que uma disciplina longa de sensações. A obra de arte é a manifestação do sentimento.
Dividindo-se as sensações em cinco especies de sentidos, devem os sentimentos corresponder a cinco especies e igualmente as obras de arte.
Da sensação acustica vem a esthesia acustica: sentimento nos sons, nas palavras--eloquencia e musica; da sensação da vista, a esthesia visual, o sentimento na fórma, no traço e no colorido,--esculptura, architectura, pintura; da sensação palatal e olfactiva nasce o sentimento do gosto e do perfume,--artes menos consideradas pela relativa inferioridade dos seus effeitos. A sensação do tacto, secundada por todas as outras, dá logar ao sentimento complexo do amor, arte das artes, arte matriz, razão de ser de todas as especies de esthesia.
O primeiro momento contemplativo de um amoroso foi o advento da esthetica, no gozo visual das linhas da formosura, na delicia auditiva de uma expressão inarticulada, que fosse emittida com expressão, na commoção de um contacto, na aspiração inebriante do aroma indefinido da carne. A obra d'arte do amor é a prole; o instrumento é o desejo.
Depois da arte primitiva e fundamental do tacto, a arte do ouvido. A obra de arte é a phrase sentida, habil para produzir emoção; o instrumento é a linguagem.
Esta arte devia mais tarde ramificar-se em eloquencia propriamente e poesia popular, graças á aproximação hybrida de terceira arte, do ouvido, a musica.
Com o progresso humano, o sentimento artistico da symetria e da harmonia destacou-se analyticamente da arte de amar. E, depois da arte primordial, descendente immediata do instincto erotico, da qual se desprendera, sob a fórma selvagem das interjeições primitivas, a arte da eloquencia; e em seguida, sob a forma de expressões homometricas, a poesia popular e a primeira musica; nasceram as artes intencionaes, de imitação, da esculptura, da architectura, do desenho. Depois da poesia popular, amorosa ou heroica, veio a rhapsodia.
Ainda mais, segundo um traçado naturalissimo de filiação, o sentimento da symetria, trasladado para a esphera das relações sociaes, serviu de plano á organisação das religiões, filhas do pavor, e das moralidades, invenção das maiorias de fracos. Com o predominio insensato das religiões, o amor deixou de ser um phenomeno, passou a ser um ridiculo ou uma cousa obscena.
Por um raciocinio de retrocesso, se ponderarmos que a moralidade é a organisação symetrica da fraqueza commum, que a religião é a organisação symetrica do terror, que a symetria, isto é, harmonia e proporção, é a norma artistica das imitações plasticas da ingenua admiração da creatura primitiva, e que esta admiração prazenteira, testemunhada por uma tentativa de desenho ou de estatua, por um canto popular ou por uma interjeição vehemente, nada mais é do que um modo accentuado de um esforço de attenção, e que a primeira attenção dos homens do principio,--a lenda de Adão que o diga,--devia ser do individuo de um sexo para o individuo de outro sexo, teremos averiguado o aphorismo paradoxal de que a arte subjectivamente, o sentimento artistico, nas suas mais elevadas, mais ethereas manifestações, é simplesmente--a evolução secular do instincto da especie.
Esta é a sua grandeza, e por isso vae zombando, através das idades, das vicissitudes tempestuosas do combate pela nutrição, dos proprios exasperos homicidas do amor.
A arte é primeiro espontanea, depois intencional.
Manifesta-se primeiro grosseiramente, por erupções de sentimento, e faz o amor concreto, a interjeição, a eloquencia rudimentar, a poesia primitiva, o primitivo canto. Manifesta-se mais tarde, progressivamente, por effeitos de calculo e meditação e dá o epos, a eloquencia culta, a musica desenvolvida, o desenho, a esculptura, a architectura, a pintura, os systemas religiosos, os systemas moraes, as ambições de synthese, as metaphysicas, até as formas litterarias modernas, o romance, feição actual do poema no mundo.
As manifestações espontaneas são coevas de todas as sociedades; a poesia popular, por exemplo, não desapparece, nem a eloquencia, ainda menos o amor. As manifestações intencionaes, ampliações, aperfeiçoamentos do modo primitivo de expressão sentimental, sujeitam-se aos movimentos e vacillações de tudo que progride.
O coração é o pendulo universal dos rhythmos. O movimento isochrono do musculo é como o aferidor natural das vibrações harmonicas, nervosas, luminosas, sonoras. Graduam-se pela mesma escala os sentimentos e as impressões do mundo. Ha estados d'alma que correspondem á côr azul, ou ás notas graves da musica; ha sons brilhantes como a luz vermelha, que se harmonisam no sentimento com a mais vivida animação.
A representação dos sentimentos effectua-se de accôrdo com estas repercussões.
O estudo da linguagem demonstra.
A vogal, symbolo graphico da interjeição primitiva, nascida espontaneamente e instinctivamente do sentimento, sujeita-se á variedade chromatica do timbre como os sons dos instrumentos de musica. Gradua-se em escala ascendente u, o, a, e, i, possuindo uma variedade infinita de sons intermediarios, que o sentimento da eloquencia suggere aos labios, que se não registram, mas que vivem vida real nas palavras e fazem viver á expressão, sensivelmente energica, emancipada do preceito pedagogico, de improviso, quasi inventada pelo momento.
Ha ainda na linguagem o rhythmo de cada expressão. Quando o sentimento fala, a linguagem não se fragmenta por vocabulos, como nos diccionarios. É a emissão de um som prolongado, a crepitar de consoantes, alteiando-se ou baixando, conforme o timbre vogal.
O que move o ouvinte é uma impressão de conjuncto. O sentimento de uma phrase penetra-nos, mesmo enunciado em desconhecido idioma.
O timbre da vogal, o rhythmo da phrase dão alma á elocução. O timbre é o colorido, o rhythmo é a linha e o contorno. A lei da eloquencia domina na musica, colorido e linha, seriação de notas e andamentos; domina na esculptural, na architectura, na pintura: ainda a linha e o colorido.
Na sua qualidade de representação primaria do sentimento, depois do facto do amor, a eloquencia é a mais elevada das artes. Dahi a supremacia das artes litterarias,--eloquencia escripta.
A eloquencia foi a principio livre, fiel ao rhythmo do sentimento; influenciada pela musica monotona dos mais antigos tempos, cadenciou-se em metro regular e monotono como a musica. Aproveitada como recurso mnemonico, libertou-se da musica, guardando, porém, a fórma do metro igual e da quantidade equivalente, que havia de ser um dia a metrificação da syllaba, que havia de dar em resultado a monstruosidade da rima, o calembour feito milagre de perfeição.
A musica seguiu á parte a sua evolução.
Na arte da eloquencia da actualidade accentuasse uma reacção poderosa contra o metro classico; a critica espera que dentro de alguns annos o metro convencional e postiço terá desapparecido das officinas da litteratura. O sentimento encarna-se na eloquencia, livre como a nudez dos gladiadores e poderoso. O estylo derribou o verso. As estrophes medem-se pelos folegos do espirito, não com o pollegar da grammatica.
Hoje, que não ha deuses nem estatuas, que não ha templos nem architectura, que não há _dies iræ_ nem Miguel-Angelo; hoje que a mnemonica é inutil, o estylo triumpha, e triumpha pela fórma primitiva, pela sinceridade vehemente, como nos bons tempos em que o coração para bem amar e o dizer não precisava crucificar a ternura ás quatro difficuldades de um soneto.
Qual a missão da arte? Originaria da propensão erotica fóra do amor, a arte é inutil,--inutil como o esplendor corado das petalas sobre a fecundidade do ovario. Qual a missão das petalas córadas? De que nos serve a primavera ser verde? As aves cantam. Que se aproveita do cantar das aves? A arte é uma consequencia e não um preparativo. Nasce do enthusiasmo da vida, do vigor do sentimento, e o attesta. Agrada sempre, porque o enthusiasmo é contagioso como o incendio. A alma do poeta invade-nos. A poesia é a interpretação de sentimentos nossos. Não tem por fim agradar.
E, depois, reclamar titulos de utilidade ás divagações graciosas de uma energia da alma, que significa em primeira manifestação a propria perpetuidade da especie?!
Além de inutil, a arte é immoral. A moral é o systema artistico da harmonia transplantado para as relações da collectividade. Arte _sui generis_. Se é possivel efficazmente o regimen social das symetrias da justiça e da fraternidade, o futuro ha de provar. Em todo caso, é arte differente e as artes não se combinam senão em productos falsos, de convenção.
Poema intencionalmente moral é o mesmo que estatua polychroma, ou pintura em relevo. Apenas uma cousa possivel, nada mais; ha tambem quem faça flôres, com azas de barata e pernas.
A verdadeira arte, a _arte natural_, não conhece moralidade. Existe para o individuo sem attender á existencia de outro individuo. Póde ser obscena na opinião da moralidade: Leda; póde ser cruel: Roma em chammas, que espectaculo!
Basta que seja artistica.
Cruel, obscena, egoista, immoral, indomita, eternamente selvagem, a arte é a superioridade humana--acima dos preceitos que se combatem, acima das religiões que passam, acima da sciencia que se corrige; embriaga como a orgia e como o extase.
E desdenha dos seculos ephemeros.
Á vista da tranquillidade do auditorio, subentende-se que não estavam presentes os dous heróes da primeira sessão solemne: o Dr. Zé Lobo não viera, para não encontrar o Senador; o Senador Rubim não viera, para não encontrar o Dr. Zé Lobo: impulsos equivalentes em sentido contrario annullam-se.
Havia na sala diversos ouvintes que se distrahiam de perseguir com attenção a galopada de hippogrypho, em que se elevava a eloquencia do orador.
Bento Alves, um; outro o Malheiro, moreno, nervoso, carrancudo, o primeiro gymnasta; outro, Barbalho.
A preoccupação de Bento Alves era uma injuria. Entre elle e Malheiro havia rixa velha de emulação. Malheiro não lhe perdoava a culpa de ser bravo. Os proprios prodigios da força e agilidade, applaudidos e proclamados pelo _Atheneu_, não davam para saciar a vaidade. De que valia ser forte, se era impossivel a applicação do seu esforço para affrouxar uma fibra á musculatura do Bento? Ah! não ser possivel por suggestão desfiar uma a uma aquellas meadas de arame, reduzir a infantilidade debil aquella corpulencia odiosa! Por que não iriam os desejos da inveja, como vampiros, sorver o sangue áquella força, a vida, gotta a gotta, áquelle vigor de ferro?
Bento Alves não dava mostras de perceber a rivalidade. Malheiro evitava-o. Era impossivel conservar-se um momento perto do collega, que lhe não dessem impetos de assaltal-o.
A façanha da prisão effectuada pelo rival definitivamente retirava-lhe a gloria de valoroso unico. Malheiro entrou em melancolia trancada. O rosto moreno amorenou-se mais; a animação de um brilho não lhe chegava á janella do olhar; o sorriso nos labios não abria a porta. Dir-se-ia um frontispicio de lucto.
Ficou a ruminar o projecto de um encontro.
O meu bom amigo, exaggerado em mostrar-se melhor, sempre receioso de importunar-me com uma manifestação mais viva, inventava cada dia nova surpreza e agrado. Chegara ao excesso das flôres. A principio, petalas de magnolia secca com uma data e uma assignatura, que eu encontrava entre folhas de compendio. As petalas começaram a apparecer mais frescas e mais vezes; vieram as flôres completas. Um dia, abrindo pela manhã a estante numerada do salão do estudo, achei a imprudencia de um ramalhete. Santa Rosalia da minha parte nunca tivera um assim. Que devia fazer uma namorada? Acariciei as flôres, muito agradecido, o escondi-as antes que vissem.
Mas o Barbalho espiava, ultimamente constituido fiscal occulto dos meus passos.
As circumstancias o tinham aproximado do Malheiro, e o açafroado caolho pretendia manejar a rivalidade dos dous maiores: um conflicto entre Malheiro e Bento podia ser a vergonha para mim.
O Malheiro, com o vozeirão grave de contrabaixo, começou a infernisar-me por epigrammas. Queria incommodar o Alves mortificando-me, julgando que me queixasse. Eu devorava as affrontas do marmanjo sem descobrir o meio de tirar correcta desforra. Barbalho lembrou-se de tomar as dôres. Depois de incitar o Malheiro contra mim, incitou o Bento contra o Malheiro. Procurou-o mysteriosamente e informou: «o Malheiro não passa pelo Sergio que não pergunte quando é o casamento... é preciso casar... Ainda hoje pediu convite para as bodas. O Sergio está desesperado.»
O furor do Alves não se descreve, furor poderoso dos calados. Uma onda de apoplexia ruborisou-lhe as faces. Por unico movimento de indignação contrahiu os dedos, como estrangulando. Procurou o Malheiro e com a voz talvez alterada, mas sem odio, fez intimação: «amanhã é a sessão de encerramento; em meio da festa saímos ambos; preciso falar-lhe das bodas.»
Malheiro percebeu: era o sonhado encontro!
Apenas desceu da tribuna o presidente effectivo do Gremio, os adversarios deixaram as cadeiras. Barbalho saiu pouco depois. Notei o movimento e adivinhei mais ou menos.
Quando saímos do pavilhão, finda a solemnidade, um criado entregou-me um enveloppe, uma carta do Alves, a lapis. «Estou preso; antes que te digam que por alguma indignidade, previno: por ter dado uma licção ao Malheiro.»
Minutos depois, Franco, muito satisfeito, contava a todos: «tinham luctado no jardim o Malheiro e o Alves; que briga dos dous brutos!» Alves saíra ferido com um golpe no braço, acreditam que de navalha; Malheiro estava no dormitorio. Avisados pelo Alves, os criados tinham ido buscal-o sem sentidos, ao fundo de um bosquete no parque. «Sem sentidos! garantia o Franco; que pandega! que sopapos! ora o Malheiro malhado!»
Soube-se que Barbalho espreitara o combate através dos arbustos. Antes de o vêr acabado, correra activo, e concentrando a vesgueira numa só attenção de intrigante, preparara as cousas de modo que, ao voltar do jardim, Bento Alves foi surprehendido por uma ordem de prisão do director.
Não denunciar nunca é preceito sagrado de lealdade no collegio. Os contendores recusaram-se a explicações. Bento Alves negou o braço a exame e a curativo; Malheiro, em pannos de sal, fingindo-se muito prostrado, offerecia o mais impenetravel silencio ás indagações de Aristarcho e protestava esborrachar as ventas a quem caísse na asneira de insinuar o bedelho no que não era da sua conta.
«Ora o malhado!...» resmungavam os collegas; mas tratavam de esquecer o caso.
Por minha parte, entreguei-me de coração ao desespero das damas romanceiras, montando guarda de suspiros á janella gradeada de um carcere onde se deixava deter o gentil cavalheiro, para o fim unico de propôr assumpto ás trovas e aos trovadores medievos.
VII
O tédio é a grande enfermidade da escola, o tédio corruptor que tanto se póde gerar da monotonia do trabalho como da ociosidade.
[Figura 25]
Tinhamos em torno da vida o ajardinamento em floresta do parque e a toalha esmeraldina do campo e o diorama accidentado das montanhas da Tijuca, ostentosas em curvatura toraxica e frentes felpudas de collosso: espectaculos de excepção, por momentos, que não modificavam a seccura branca dos dias, enquadrados em pacote nos limites do pateo central, quente, insupportavel de luz, ao fundo d'aquellas altissimas paredes do _Atheneu_, claras da caiação, do tédio, claras, cada vez mais claras.
Quando se aproxima o tempo das férias, o aborrecimento é maior.
Os rapazes, em grande parte dotados de tendencias animadoras para a vida pratica, forgicavam mil meios de combater o enfado da monotonia. A folgança fazia época como as modas, metamorphoseando-se depressa como uma serie de ensaios.
A peteca não divertia mais, palmeada com estrepito, subindo como foguete, caindo a rodopiar sobre o cocar de pennas? Inventavam-se as bolas elasticas. Fartavam-se de borracha? Inventavam-se as pequenas espheras de vidro. Acabavam-se as espheras? Vinham os jogos de salto sobre um tecido de linhas a giz no soalho, ou riscadas a prego na areia, a _amarella_, e todas as suas variantes, primeira casa, segunda casa, terceira casa, descanço, inferno, céu, levando-se á ponta de pé o seixozinho chato em arriscada viagem de pulos. Era depois a vez dos jogos de corrida, entre os quaes figurava notavelmente o saudoso e rijo _chicote queimado_. Variavam os aspectos da recreação, o pateo central animava-se com a revoada das pennas, o estalar elastico das bolas, passando como obuzes, ferindo o alvo em pontaria amestrada, o formigamento multicôr das espheras de vidro pela terra, com a gritaria de todas as vozes do prazer e do alvoroço.