O Atheneu (chronica de saudades)

Part 8

Chapter 83,618 wordsPublic domain

Nearcho fez uma, fez duas, fez cinco! Seguiu-se uma vira-volta, e Nearcho ao trapezio, de cócoras, pôde perambular sobre o pasmo circumstante o pausado beque... Não era tudo, porém! Nearcho arranjou mais umas phantasias de cambalhotas, capazes de transformar radicalmente os principios firmados da arte dos trambolhões, e beneficiou-nos, suando, com um sorriso triumphal.

Faltava a sorte do fim. Nearcho espichou quanto pôde a lamentavel ausencia de musculos e deu-nos... uma _sereia_! A sereia é tudo que ha de mais elementar, de mais pulha, de mais tolamente ostentoso em materia do apparelhos. O sujeito segura-se ás cordas, levanta os pés da barra, mette os pés pelas mãos e de cabeça para a terra empurra o ventre. O pobre Nearcho, desbarrigado, não tinha ventre para empurrar.

Não empurrou cousa nenhuma; quando muito uns ossinhos que lhe saíam á altura do umbigo como cabos de faca. Pulou ao chão.

Estava exhibido o acrobata! Nós olhavamos uns para os outros, bestificados, em compostura abatida de caras-d'asnos. Aristarcho percebeu e reprehendou-nos com o sobrecenho. Nós comprehendemos delicadamente: estava alli o respeitavel pae de um collega...

Uma roda de palmas, claras, estrepitantes, inacabaveis, percorreu as fileiras com a electricidade communicativa das acclamações.

Nearcho, altivo, agradeceu com o nariz.

VI

O futuro tinha reservado para Nearcho um feixe de melhores palmas, uma galhada de louros mais legitimos como tempero de victoria.

O _Gremio Litterario Amor ao Saber_, instituição recente, seria o verdadeiro theatro dos seus soberbos alcances.

Duas vezes ao mez congregavam-se os amigos das letras, numa das salas de cima; a mesma das licções astronomicas de Aristarcho. Havia ainda para illuminar as sessões pedaços de materia cosmica pelos cantos, esfrangalhada pela analyse do mestre. Não quer dizer que merecesse as eternas luminarias da ironia a benemerita associação.

As suas reuniões comparecia eu timidamente, para nada mais que simplesmente abusar, por excessivo consumo, de um direito dos estatutos: podiam os alumnos, todos do _Atheneu_, em silencio humilde, mariscar o que fossem deixando os segadores do trigal das litteraturas.

Assistente infallivel, saía cheio com a rhetorica espigada, que ia espalmar, prensando no diccionario, conservas de espirito, reliquia inapreciavel do Bello.

A difficuldade que encontrava um estudante para forrar-se ao privilegio de gremista, fazia-me mais a fundo veneral-o.

Nearcho não teve o menor embaraço. Entrara para o estabelecimento muito adiantado. Foi immediatamente proposto, acceito e empossado. Á primeira sessão, depois do triumpho ao trapezio, tive occasião de aprecial-o á gymnastica do verbo.

Debatia-se este problema, dos inesgotaveis das aggremiações congeneres: Quem foi maior, Alexandre ou Cesar? indagação historica difficil evidentemente de levar a cabo sem o auxilio da trena.

Nearcho arranjou a cousa a olho e distinguiu-se com a esperada galhardia. Falou durante hora e meia com uma fluencia que lhe angariava para sempre o epitheto de facundo. Juxtapôz com o primor de um varegista de fazendas--Cesar sobre Alexandre Cesar protestou contra a maneira, de barriga para o ar, que nada tinha de artistica; além d'isso espetava-o a armadura de Alexandre. Aquillo faria rir a Pompeu no armario das legendas e a maledicencia do senado, compromettendo-se a seriedade secular do homem que foi, viu e venceu... Nearcho manteve-o inexoravelmente durante o percurso do parallelo critico. Cesar não podia contar com os legionarios do bom tempo; alli esteve a fazer caretas na sujeição inerme, _anima vilis_ dos documentos. Alexandre, que afóra o capacete, via-se ainda maiorzinho que o outro, teve mais paciencia, deixando-se medir até á peroração, com a boa vontade de um defunto. Venceu com effeito. Nearcho proclamou-o magno dos magnos, diversas pollegadas maior que o temerario do Rubicon.

O _Gremio_ esclarecido rejubilou. A discussão encerrou-se, não havendo mais quem falasse. Tambem havia cinco sessões que eram os pobres guerreiros tratados a metro.

Por este memoravel dia arvorou-se Nearcho em notabilidade firmada. Esqueceram todos que elle fôra matriculado sob o quasi compromisso de não dar um passo que não fosse um salto mortal, não descançar senão de pernas para cima em cadeiras equilibradas sobre garrafas, não ter outro recreio que não fosse a corda bamba, por não destoar da percorrida fama. Ficou em olvido a estréa acrobatica. _O Gremio Amor ao Saber_ tomou-o a si, em posse exclusiva, como um orgulho.

Não faltavam, entretanto, poetas, jornalistas, polemistas, romancistas, criticos, folhetinistas. A sociedade tinha o seu orgão, _O Gremio_, impresso no Lombaerts, de que podiam ser canudos á vontade os socios quites e ainda, por maior riqueza de harmonias, os honorarios.

Entre os honorarios figurava Aristarcho, presidente, collaborando sempre no periodico com a transcripção em avulso das maximas de parede, e mandando sempre para a quarta pagina um annuncio garrafal do _Atheneu_, que pagava para auxiliar á empreza. Na interessante publicação appareciam quadrinhas mysticas do Ribas e sonetos lubricos do Sanches. Barreto publicava meditações, especie de _harpa do crente_ em prosa arrebentada.

O rodapé-romance era uma imitação d'_O Guarany_, emplumada de vocabulos indigenas e assignada--_Aimbiré_.

Nearcho atirou-se á especialidade dos parallelos. Começou logo por dous de pancada: Scylla e Mario, Tito e Nero. No expediente promettia-se um terceiro curiosissimo: Plutarcho e os beocios.

Esta quéda para as linhas equidistantes, talento aliás de carril urbano e annexos muares, foi mais uma razão de prestigio para o extraordinario rapaz.

A eloquencia representava-se no _Gremio_ por uma porção de categorias. Cicero tragedia--voz cavernosa, gestos de punhal, que parece clamar de dentro do tumulo, que arrepia os cabellos ao auditorio, franzindo com fereza o sobr'olho, que, se a rhetorica fosse susceptivel de assignatura, accrescentaria ao fim de cada discurso pesadamente: _a mão do finado_; Cicero modestia--formulando excellentes cousas, atrapalhadamente, no embaraço de um perpetuo _début_, desculpando-se muito em todos os exordios e ainda mais em todas as confirmações, lagrimas na voz, difficuldade no modo, selecto e engasgado; Cicero circumspecção--enunciando-se por phrases cortadas como quem encarreira tijolos, homem da regra e da legalidade, calcando os _que_ e os _cujo_, longo, demorado, caprichoso em mostrar-se mais raso do que o muito que realmente é, amigo dos periodos quadrados e vasios como caixões, attenuando mais em cada conceito a attenuante do conceito anterior, conservador e ultramontano, porque as cousas estabelecidas dispensam de pensar, apologista ferrenho de Quintiliano, retardando com intervallos o discurso impossivel para provar que divide bem a sua elocução, com todos os requisitos da oratoria, pureza, clareza, correcção, precisão, menos uma cousa--a idéa; Cicero tempestade--verborrhagico, por páus e por pedras, precipitando-se pela fluencia como escadas abaixo, accumulando avalanches como uma liquidação boreal do inverno, annullando o effeito de assombroso destampatorio pelo assombro do destampatorio seguinte, eloquencia suada, offegante, desgrenhada, ensurdecedora, pontuada a murros como uma scena de pugilato; Cicero franqueza--positivo, indispensavel para o encerramento das discussões, dizendo a cousa em duas palavras, em geral grosseiro e mal falante, prompto para offerecer ao adversario o encontro em qualquer terreno, especie perigosa nas assembléas; Cicero sacerdocio--sacerdotal, solemne, orando em tremolo, alçando a testa como uma mitra, pedindo uma cathedral para cada proposição, calçando aos pés dous pulpitos em vez de sapatos, especie venerada e acatada.

[Figura 21]

Nearcho introduziu o typo ausente do Cicero penetração--incisivo, fanhoso e implicante, gesticulando com a mãozinha á altura da cara e o indicador em croque, marcando precisamente no ar, no soalho, na palma da outra mão o logar de cada cousa que diz, mesmo que se não perceba, pasmando de não ser entendido, impacientando-se até ao desejo de vasar os olhos ao publico com as pontas da sua clareza, ou derreando-se em frouxos de compaixão pela desgraça de nos não comprehendermos, porcos e perolas.

O gesto incisivo, mais a facundia desimpedida, mais o talento historico dos parallelos, consagrou a primazia do gremista.

O presidente effectivo da sociedade era o Dr. Claudio, professor da casa, homem de capacidade, benevolo para os desgarros de tolice da juventude, que teria desgosto para uma semana, se imaginassem que faltara a uma sessão por menosprezo. Esta constancia do chefe era o grande elemento de prosperidade do _Amor ao Saber_. O Dr. Claudio conduzia os trabalhos com verdadeira pericia de automedonte, esclarecia os embroglios, forjava adjectivos de encomio que ia dando a cada um por sua vez e a todos os estimáveis consocios, propunha algumas theses e achava graça em outras. Nas sessões solemnes pronunciava o discurso official.

A maior utilidade do _Gremio_ para mim era a bibliotheca. Uma collecção de quinhentos a seiscentos volumes de variado texto, zelados pela vigilancia cerberesca do Bento Alves, bibliothecario, eleito de voto unanime.

Alves era da associação, como quasi todos os alumnos do curso superior. Filiava-se ao grupo sympathico dos silenciosos, usufruindo os lucros da circumstancia de não ser do regimento a taramela obrigatoria. Fóra da bibliotheca, os seus serviços aos intuitos do _Gremio_ resumiam-se no _apoiado_! consciencioso e firme, á disposição sempre da melhor idéa, em questões elevadas, e do mais sabio alvitre em questões de ordem.

Alguns rapazes, não do _Gremio_ e que não houvessem, nas letras, manifestado grammaticalmente notavel geito para a conjugação subrepticia do verbo adquirir, podiam obter do presidente o direito de ingresso na sala dos livros. Eu, como amigo que era das bonitas paginas impressas, apresentei candidatura. E como não divertia bastante o jogo da barra ao sol, nem o rapa-tira-deixa-pôe das pennas de aço e das carrapetas, nem o correr á panellinha das bolas de vidro espiraladas de côres, fez-se-me a bibliotheca a recreação habitual.

Esta frequencia angariou-me dous amigos, dous saudosos amigos--Bento Alves e Julio Verne.

Ao famoso contador do _Tour du monde_ devo uma multidão numerosa dos amaveis phantasmas da primeira imaginação, excentricos como Fogg, Paganel, Thomas Black, alegres como Joe, Passepartout, o negro Nab, nobres como Glenarvan, Letourneur, Paulina Barnett, attrahentes como Aouda, Mary Grant. Sobre todos, grande como um semideus, barba nitente, luminosa como a neblina dos sonhos, o lendario Nemo da ilha Mysteriosa, taciturno da lembrança das justiças de vingador, esperando que um cataclysma lhe cavasse um jazigo no seio do Oceano, seu vassallo, seu cumplice, seu dominio, patria sombria do expatriado.

Possuia minha litteratura completa de thesouros de meninos, contos de Schmidt; visitara uma por uma no meu burrinho as feiras da sabedoria de Simão de Nantua; estudara profundamente pelas aventuras de Gulliver as vacillações da vida, onde, mal acabamos de zombar da pequenez extrema, vem sobre nós o ludibrio da extrema grandeza, especie de Pascal de mammadeira entre Liliput e Brobdignak; chegara á perfeição de duvidar das emprezas de Munchausen. Isto tudo sem falar nos _Lusiadas_ do Sanches, no reverendo Bernardes, na refinada pilheria do Bertholdo e no _Testamento do Gallo_, symbolo aliás muito philosophico da odiosidade das successões, que por ventura do herdeiro autorisa o destripamento do gallinaceo como a tortura shakspereana de Lear.

Julio Verne foi festejado como uma migração do novidade. Onde quer que me levasse o _Forward_ ou o _Duncan_, o _Nautilus_ ou o balão _Victoria_, a columbiada da Florida ou cryptogramma de Saknussen, lá ia eu, esfaimado de desenlaces, prazenteiro, ávido como os tres dias de Colombo antes da America, respirando no cheiro das encadernações as variantes climatericas da leitura, desde as areias africanas até aos campos de crystal do Arctico, desde os grandes frios sideraes até a aventura do Stromboli.

A amizade do Bento Alves por mim e a que nutri por elle, me faz pensar que, mesmo sem o caracter de abatimento que tanto indignava ao Rebello, certa effeminação pode existir como um periodo de constituição moral. Estimei-o femininamente, porque era grande, forte, bravo; porque me podia valer; porque me respeitava, quasi timido, como se não tivesse animo de ser amigo. Para me fitar esperava que eu tirasse d'elle os meus olhos. A primeira vez que me deu um presente, gracioso livro de educação, retirou-se corado, como quem foge. Aquella timidez, em vez de alertar, enternecia-me, a mim que aliás devia estar prevenido contra escaldos de agua fria. Interessante é que vago elemento de materialidade havia nesta affeição de criança, tal qual se nota era amor, prazer do contacto fortuito, de um aperto de mãos, da emanação da roupa, como se absorvessemos um pouco do objecto sympathico.

Na bibliotheca, Bento Alves escolhia-me as obras: imaginava as que me podiam interessar; e propunha a compra, ou as comprava e offerecia ao _Gremio_, para dispensar-se de m'as dar directamente. No recreio não andavamos juntos; mas eu via de longe o amigo, attento, seguindo-me o seu colhar como um cão de guarda. Soube depois que ameaçava torcer o pescoço a quem pensasse apenas em me offender; seu irmão adoptivo! confirmava.

[Figura 22]

Eu, que desde muito assumira entre os collegas um bello ar de impavida altania, modificava-me com o amigo, e me sentia bem na submissão voluntaria, como se fosse artificial a bravura, á maneira da conhecida petulancia feminina.

A malignidade do Barbalho e seu grupo não dormia. Tremendo da represalia de Alves, faziam pelos cantos escorraçada maledicencia, digna d'elles.

Ás vezes na bibliotheca, emquanto eu lia, Alves olhava-me do outro lado da mesa central de panno verde, com a mão á fronte e os dedos mergulhados nos cabellos. Olhava-me e eu o sentia sem levantar a vista, comprehendendo no mais fino refolho de ninada vaidade que aquella contemplação traduzia o horror do ridiculo, proverbial em Bento Alves, manietando-lhe rijamente uma demonstração effusiva. Não fosse a critica uma creatura do tempo, eu poderia achar comica a situação dos personagens d'esta scena de platonismo. Não havendo a critica para falsear a psychologia por desdobramento, limitava-me a ser sincero, como o pobre amigo. Ás vezes vinha-lhe á palpebra uma lagrima sem origem.

No movimento geral da existencia do internato, desvelava-se caprichosamente; sabia ser de modo inexprimivel, fraternal, paternal, quasi digo amante, tanta era a minudencia dos seus cuidados. Não havia regalo, d'essas mesquinhas cousas de preço enorme na carestia perpetua da prisão escolar, de que se não privasse o Alves, em meu proveito, desesperando-se, a fazer pena, se eu tentava recusar. Á conversa, falava da familia no Rio Grande do Sul; tinha duas irmãs; falava d'ellas, do tempo passado que não as via, muito claras, de bellos olhos, uma de quinze annos, outra de doze; elle tinha dezoito. Falava de cuidados hygienicos meus, mudar de cama no salão azul, que estava muito perto das janellas, e isto havia de ser nocivo... Outras ninharias, em tom de sentida brandura, como se desejasse decrescer das proporções solidas de sua conformação para reduzir-se á exiguidade balbuciante de uma carcassazinha de avó, minguada de velhice, animada, ainda e apenas, pela febre do ultimo alento, pela necessidade de carregar ainda alguns dias um coração, um affecto.

Os estatutos do _Gremio_ marcavam duas occasiões de solemnidade: as festas annuaes de abertura e do encerramento dos trabalhos. Além d'estas, as sessões commemorativas que a casa resolvesse.

Para as festas litterarias, levava-se ao pavilhão do recreio um grande estrado, tres mesas que se alinhavam para a directoria, sob um rico panno côr de vinho, de ramagens negras, que lembravam tinteiros entornados de mau agouro, e uma tribuna familiarmente appellidada _caranguejola_.

[Figura 23]

Esta caranguejola, enorme e pesada, que parecia protestar, a cada solavanco, contra o caracter de movel que lhe queriam á força impingir, fazia figura em todas as salas do _Atheneu_, conforme as exigencias da rhetorica. Localisada a conferencia, a prelecção, a pratica solemne, abalava-se a misera e punha-se em caminho, aos encontrões, seguindo o fadario de mostrador ambulante de eloquencia. Nestas circumstancias não era uma simples tribuna, era um verdadeiro prognostico. Em se movendo a caranguejola, discurseira imminente. Teve um dia de razoavel orgulho: d'ella serviu-se no _Atheneu_ o professor Hartt, para uma conferencia de anthropologia.

Quando a vimos andar um dia e soubemos que aquillo significava a installação do _Amor ao Saber_, congregou-se o _Atheneu_, unificado no mesmo impulso de enthusiasmo, e pela primeira vez a tribuna marchou sem o cerimonial das topadas. Despedimos os criados, tomámol-a nós aos hombros; levámol-a em ovação.

A festa inaugural esteve animada. Mais do que se esperava, infelizmente.

Encheu-se de bancos e cadeiras austriacas o vastissimo salão. Ao centro, em frente, a mesa da directoria; á esquerda, os convidados; á direita, os outros alumnos, o resto, como sé diz das maiorias sem voz activa.

Sobre o panno avinhado de ramagens, abria-se a pasta do secretario; sobre a tribuna scintillava crystallino o copo das urgencias instantes.

Poucos oradores. Aristarcho, presidente honorario, abriu a sessão com a chave do peregrino verbo, recommendando a nova associação como um tentamen honroso e de muito fructo para os moços applicados, que teriam ensejo de se dar ao cultivo da oratoria e das bellas letras.

Subiu em seguida á tribuna o presidente effectivo.

Com a facilidade da sua elocução, fez o Dr. Claudio a critica geral da litteratura brasileira: a galhofa de Gregorio de Mattos e Antonio José, a epopéa de Durão, o idyllio da escola mineira, a uncção de Sousa Caldas e S. Carlos, a influencia de Magalhães, os ensaios do romance nacional, a gloria de Gonçalves Dias e José de Alencar.

E passou a estudar a actualidade.

O auditorio que escutava, interessado, mas tranquillo, começou a agitar-se.

O orador representava a nação como um charco de vinte provincias estagnadas na modorra paludosa da mais desgraçada indifferença. Os germens da vida perdem-se na vasa profunda; á superficie de coagulos de putrefacção, borbulha, espaçadamente, o halito mephitico do miasma, fermentado ao sol, subindo a denegrir o céu, com a vaporisação da morte. Os passaros calados fogem; as poucas arvores proximas no ar parado, debruçam-se uniformes sobre si mesmas num desanimo vegetativo, que parece crescer, descendo,--prosperidade melancolica de salgueiros. O horizonte limpo, remoto, desfere golpes de luz obliqua, reptil, que resvalam, espelhando fachas parallelas, immoveis, sobre o dormir da lama.

Por entre os raros canniços, emergem olhos de sapo, meditando a vantagem d'aquella paz sombria, indolencia negra, em que chega a ser vigor de vontade estrebuchar quatro arrancos através da onda grossa em busca da femea. A arte significa a alegria do movimento, ou um grito de suprema dôr nas sociedades que soffrem. Entre nós, a alegria é um cadaver. Ao menos se soffressemos... A condição da alma é a prostração comatosa de uma inercia morbida. Quem nos dera a tonicidade lethal de uma vasca. Trituramos a vida por igual como um osso; roemos o dia, pacientes, de rojo, sobre o ventre, como cães ao pasto. Fosse manjar o craneo de Rogerio, ao menos teriamos a tragedia... Nada! A condição é o descanço ininterrupto do anniquilamento no plano infinito da monotonia. E não é o tecto de braza dos estios tropicaes que nos opprime. Ah! como é profundo o céu do nosso clima material! Que irradiação de escapadas para o pensamento a direcção dos nossos astros! O pantano das almas é a fabrica immensa de um grande emprezario, organisação de artificio, tão longamente elaborada, que dir-se-ia o empenho madreporico de muitos seculos, dissorrando em vez de construir. É a obra moralisadora de um reinado longo, é o transvasamento de um caracter, alagando a perder de vista a superficie moral de um imperio--o desmancho nauseabundo, esplanado, da tyrannia molle de um tyranno de sebo!...

Calculem agora que estava entre os convidados o Dr. Zé Lobo, pae de um alumno, devoto jurado e confirmado das instituições, irmão de não sei quantas ordens terceiras, primo de todos os conventos, advogado de causas religiosas, conservador em summa, enraivado e militante. O sebo da tyrannia caiu-lhe nos melindres como um pingo de vela benta.

«Protesto!» rugiu, rubro e rouquenho, dilacerando as barbas e erguendo o punho. Não podia admittir que viessem á sua vista ensebar as instituições! Por maior desgraça estava tambem presente o Senador Rubim, avô de outro alumno, senador de máus bofes, um pae da patria padrasto, sem considerações nem papas na lingua.

«Quem protesta contra o sebo da tyrannia é burro!» redarguiu ao apartista com a pachorra temivel dos velhos insolentes.

--Burro, não! clamou o outro, empallidecendo sob a vergasta da injuria, nervoso, perturbado pela attenção da sala inteira que o encarava. Burro, não! taes expressões são indignas de V. Exª., um senador e um velho!...

--Burro, sim!... repetia o outro vagarosamente, com um arreganho enfastiado de insulto. Burro, sim!...

Aristarcho conservava-se á presidencia, na pasmaceira de páu dos idolos affrontados. O salão enorme, alumnos e convidados, tumultuava em vagalhões, fragmentado em partidos oppostos, uns pelo senador e pela anarchia, outros pelo advogado e pela ordem publica. Muitos gesticulavam de pé; havia estudantes, gritando em cima dos bancos. Os insultos voavam como pelouros; os protestos rangiam como escudos feridos; havia mãos pelo ar que pediam espadas.

Aproveitando-se do escarcéu, o advogado ousara arremessar uns desaforos ao senador. O outro, sem ouvir bem, ia replicando com a impertinencia do seu estribilho: «Burro, sim», ate que, impaciente, pôz remate á polemica com as cinco letras da energia popular que Waterloo fez heroicas, Victor Hugo fez épicas e Zola fez classicas.

Sob o peso da conclusão, Zé Lobo cedeu.

Aristarcho achou que era tempo de funccionar a presidencia e sacudiu sobre o tumulto o badalo da ordem.

O orador na tribuna, erecto e calmo, promontorio sobre a tormenta, esperava que o alvoroço chegasse a termo. Apenas viu arrefecer o furor dos improperios:

«Corramos um véu sobre o scenario desolador,» continuou; «venha em soccorro a esperança de um renascimento.» E por ahi habilidosamente conduzindo a oração, acabou por um quadro de futuro, armado em aurora sobre a tribuna, portico de luz, jorrando um deslumbramento que extasiou os ouvintes com o encanto dos vaticinios felizes, levando o sopro da viração matutina as nuvens do desanimo esfumadas antes sobre o panorama.

Tiveram a palavra, ainda, dous estudantes, que moeram uma quantidade profusa de phrases communs a proposito de letras e litteratos. O filho do director, o republicanozinho que conhecem, tinha no bolso dez tiras, dez brulotes de eloquencia incendiaria, que resolveu suffocar depois do escandalo collossal do sebo.

A segunda sessão solemne do gremio, comquanto mais pacifica, não foi menos importante.

Realisou-se em principios de Outubro, pelas immediações das férias. A concorrencia foi maior, compareceram senhoras em grande numero, o que não succedera na de installação; houve mais capricho de ornatos na sala; forrou-se a tribuna de verde e amarello; inscreveram-se os mais aproveitados campeões da oratoria do _Amor ao Saber_. O collegio compareceu fardado; a directoria, de casaca.

A conferencia do Dr. Claudio foi subversiva, mas em sentido diverso da primeira. Versou não mais sobre a litteratura no Brasil, porém sobre a arte em geral:

Arte, esthetica, esthesia é a educação do instincto sexual.