O Atheneu (chronica de saudades)

Part 10

Chapter 103,517 wordsPublic domain

Depois havia os jogos de parada, em que circulavam como preço as pennas, os sellos postaes, os cigarros, o proprio dinheiro. As especulações moviam-se como o bem conhecido ophidio das corretagens. Havia capitalistas e usurarios, finorios e papalvos, idiotas que se encarregavam de levar ao mercado, com a facilidade de que dispunham fóra do collegio, fornecimentos inteiros, valiosissimos, de Mallats e Guillots que os habeis limpavam com a gentileza de figurões da bolsa, e sellos inestimaveis que os colleccionadores praticos desmereciam para tirar sem custo; fumantes ebrios de fumo alheio, adquirido facilmente no movimento da praça, repimpados á turca sobre os coxins da barata fartura.

As transacções eram prohibidas pelo codigo do _Atheneu_. Razão de mais para interessar. Da letra da lei, incubados sob a pressão do veto, surgiam outros jogos, mais expressamente caracteristicos, dados que espirravam como pipocas, naipes em leque, que se abriam orgulhosos dos bellos trunfos, entremostrando a pansa do rei, o sorriso galhardo do valete, a symbolica orelha da sota, a paysagem ridente do az; roletas miudas de cavallinhos de chumbo; uma alluvião de fichas em cartão, pullulantes como os dados e córadas como os padrões do carteiro.

A principal moeda era o sello.

Pelo sinete da posta dava-se tudo. Não havia premios de licção que valessem o mais vulgar d'aquelles coupons servidos. Sobre este preço, permutavam-se os direitos do pão, da manteiga ao almoço, da sobremesa, as delicias secretas da nicotina, o proprio decoro pessoal em si.

A raiva dos colleccionadores, caprichando em exhibir cada qual o album mais completo, mais rico, transmittia-se a outros, simples agentes de especulação; d'estes ainda a outros com a seducção do interesse. No collegio todo, só Rebello talvez e o Ribas, primeiro fundeado no porto da misanthropia senil que o distanciava do mundo tempestuoso, o outro a fazer perpetuamente de anjo feio aos pés de Nossa Senhora, escapavam á mania geral do sello, melhor, á geral necessidade de premunir-se com valor corrente para as emergencias.

No commercio do sello é que fervia a agitação de emporio, contractos de cobiça, de agiotagem, de esperteza, de fraude. Accumulavam-se valores, circulavam, fructificavam; conspiravam os syndicatos, arfava o fluxo, o refluxo das altas e das depreciações. Os inexpertos arruinavam-se, e havia banqueiros atilados, espapando banhas de prosperidade.

Falava-se, com a reserva tartamuda dos caudatarios do milhão, de fortunas imponderaveis... Certo felizardo que possuia aquelles immensos exemplares da primeira posta na Inglaterra, os dous rarissimos, ambos! o azul e o branco, de 1840, com a estampa nitida de Mulrady: a Gran-Bretanha braços abertos sobre as colonias, sobre o mundo; á direita, a America, a propaganda civilisadora, a conquista da savanna; á esquerda, o dominio das Indias, coolies sob fardos, dorsos de elephantes subjugados; ao fundo, para o horizonte, navios, o trenó canadiano que foge á disparada das rennas; no alto, como as vozes aladas da fama, os mensageiros da metropole.

Joias d'este preço immobilisavam-se nas collecções, inalienaveis por natureza como certos diamantes. Nem por isso era menos ardente a mercancia na massa febril da pequena circulação; da quantidade infinita dos outros sellos, rectangulares, octogonaes, redondos, ellipsoidaes, alongados verticalmente, transversalmente, quadrados, lisos, denteados, antiquissimos ou recentes, inglezes, suecos, da Noruega, dinamarquezes, de sceptro e espada, sumptuosos Hannover, como retalhos de tapeçaria, cabeças de aguia de Lubeck, torres de Hamburgo, aguia branca da Prussia, aguia em relevo da moderna Allemanha, austriacos, suissos de cruz branca, da França, imperiaes e republicanos, de toda a Europa, de todos os continentes, com a estampa de um pombo, de navios, de um braço armado; gregos com a effigie de Mercurio, o deus unico que ficou de Homero, sobrevivo do Olympo depois de Pan; sellos da China com um dragão esgalhando garras; do Cabo, triangulares; da republica de Orange com uma larangeira e tres trompas; do Egypto com a esphinge e as pyramides; da Persia de Nasser-ed-Din com um pennacho; do Japão, bordados, rendilhados como pannos de biombo e de ventarolas; da Australia, com um cysne; do reino de Hawaii, do rei Kamehameha III; da Terra Nova com uma phoca em campo da neve; dos Estados-Unidos; de todos os presidentes da republica de S. Salvador com uma aureola de estrellas sobre um vulcão; do Brasil, desde os enormes mal feitos de 1843; do Perú com um casal de lamas; todas as côres, todos os sinetes com que os estados tarifam as correspondencias sentimentaes ou mercantis explorando indistinctamente um desconto minimo nas especulações gigantescas e o imposto de sangue sobre as saudades dos emigrados da fome.

A sala geral do estudo, comprida, com as quatro galerias de carteiras e a parede opposta de estantes e a tribuna do inspector, era um microcosmo de actividade subterranea. Estudo era pretexto e apparencia, as encadernações capeavam mais a esperteza do que os proprios volumes.

A certas horas reunia-se alli o collegio inteiro, desde os elementos de primeiras letras até os mais adiantados cursos. Agrupavam-se por ordem de habilitações; o abc diante da porta de entrada, á direita; á extrema esquerda, os philosophos, cogitadores do Barbe, os latinistas abalisados, os admiraveis estudantes do allemão e do grego. Baralhavam-se as tres classes de idades; podia estar um marmanjo empacado á direita na carteira dos analphabetos, e podia estar um bêbê prodigio a desmammar-se na philosophia da esquerda. O acaso da collocação podia sentar-me entre o Barbalho e o Sanches, como podia da affeição do Alves desterrar-me uma legua. Dependia tudo do adiantamento.

Como compensação d'estas desvantagens havia os telegraphos e a correspondencia de mão em mão. Os fios telegraphicos eram da melhor linha de Alexandre 80, subtilissimos e fortes, accommodados sob a taboa das carteiras, mantidas por alças de alfinete. Em férias desarmavam-se. Dous amigos interessados em communicar-se estabeleciam o apparelho; a cada extremidade, um alphabeto em fita de papel e um ponteiro amarrado ao fio; legitimo Capanema. Tantas as linhas, que as carteiras vistas de baixo apresentavam a configuração agradavel de citharas encordoadas tantas, que ás vezes emmaranhava-se o serviço e desafinava a cithara dos recadinhos em harpa de carcamano.

Havia o genio inventivo no _Atheneu_, esperanças de riqueza, por alguma descoborta milagrosa que o acaso deparasse á maneira do pomo de Newton. Occorre-me um perspicaz que contava fazer fortuna com um privilegio para explorar ouro nos dentes chumbados dos cadaveres, uma mina! Foi assim a invenção malfadada do telegrapho-martellinho. Tantas pancadinhas, tal letra; tantas mais, tantas menos, taes outras. Os inventores achavam no systema dos signaes escriptos a desvantagem de não servir á noite. O elemento base d'esta refórma era uma confiança absoluta na surdez dos inspectores; aventuroso fundamento, como se provou.

As primeiras pancadinhas passaram; apenas os estudantes mais proximos sorriam disfarçando. Mas o martellinho continuou a funccionar e ganhou coragem. No silencio da sala, gottejavam as pancadas, miudas, como o debicar de um pintainho no soalho.

No alto da tribuna, o Sylvino coçou a orelha e ficou attento; começava a implicar com aquillo. Silencio... silencio, e as pancadinhas de vez em quando.

Foi o diabo. Inesperadamente precipitou-se do alto assento como um abutre, e com a finura do officio foi cair justo sobre o melhor de um despacho. Seguiu-se a devastação. Examinando a carteira, descobriu a rêde consideravel dos outros telegraphos. Foi tudo raso. Brutal como a furia, implacavel como a guerra--oh Havas!--o Sylvino não nos deixou um fio, um só fio ao novello das correspondencias! De carteira em carteira, por entre pragas, arrancou, arrebentou, destruiu tudo, o vandalo, como se não fosse o fio telegraphico listrando os céus a pauta larga dos hymnos do progresso e a nossa imitação modesta uma homenagem ao seculo.

A violencia não fez mais que augmentar o trafego dos bilhetinhos e suspender temporariamente a telegraphia.

De mão em mão como as epistolas, corriam os periodicos manuscriptos e os romances prohibidos. Os periodicos levavam pelos bancos a troça mordaz, aos collegas, aos professores, aos bedeis; mesmo a pilheria blasphema contra Aristarcho, uma temeridade. Os romances, enredados de atribulações febricitantes, attrahindo no descriptivo, chocantes no desenlace, alguns temperados de grosseira sensualidade, animavam na imaginação panoramas ideados da vida exterior, quando não ha mais compendios, as luctas pelo dinheiro e pelo amor, o ingresso nos salões, o exito da diplomacia entre duquezas, a festejada bravura dos duellos, o pundonor de espada á cinta; ou então o drama das paixões asperas, tormentos de um peito malsinado e sublime sobre um scenario sujo de bodega, entre vomitos de máu vinho e palavradas de barregã sem preço.

Com a proximidade das férias de anno, tudo desapparecia. O aborrecimento imperava.

A impaciencia da expectativa de livramento fazia intoleravel a reclusão dos ultimos dias.

Organisavam-se os preparativos para a grande exposição de trabalhos da aula de desenho, as aulas primarias estavam a ponto de entrar em exames, dos particulares semestraes, em que o director sondava o aproveitamento. Estes cuidados não podiam combater a inercia expectante dos animos.

No salão do estudo poucos abriam livro. Os rapazes alargavam os cotovellos sobre a carteira, fincavam o queixo nas costas da mão e abstrahiam-se com o olhar immovel, idiotismo de espera, como se tentassem perceber o curso das horas no espaço. Por traz da casa, no quintal do director, ouvia-se cantando Angela, cantilenas hespanholas, sinuosas de molleza; mais longe, muito mais, em zumbido indistincto, como um horizonte sonoro, as cigarras trilavam, agitando o ar quente com uma vibração de fervura.

Nas horas longuissimas do recreio, os rapazes passeavam calados, destruindo a communhão usual dos brincos, como se temessem estragar mais alegria naquelle captiveiro, certos de melhor emprego breve. Pelas paredes a carvão, pelas taboas negras a traços brancos, arranhada na caliça, escripta a lapis ou a tinta, por todos os cantos via-se esta proclamação: _Viva ás férias_! determinando a ansiedade geral, como um pedido, uma intimativa ao tempo que fosse menos tardo, oppondo, cruel, a resistencia impalpavel, invencivel dos minutos, dos segundos, á chegada festiva da boa data.

Bento Alves, depois de assegurar que unicamente por mim se havia sujeitado á humilhação que soffrera, andava propositalmente arredio.

Eu, solitario, ia e vinha como os outros, percorrendo o pateo, marcando a bocejos os prazos alternados de impaciencia e resignação, vendo pairar por cima do recreio um papagaio que soltavam meninos da rua para as bandas do _Atheneu_. Invejava-lhe a sorte, ao papagaio cabeceando alegre, ondeando a balouçar, estatelando-se no vento, passaro caprichoso, dominando vermelho o vasto rectangulo azul que as paredes cortavam no firmamento, solitario, solitario como eu, captivo tambem--mas ao alto e lá fóra.

Relaxava-se o horario; professores faltavam; era menos rude a inspecção. Os alumnos iam por toda parte á vontade. Faziam roda de palestra nos dormitorios, pilando enfastiadamente os mais duros assumptos, murmurações esmoidas, escabrosidades pulverisadas, trituradas malicias, algumas vezes malicias ingenuas se é possivel, caracterisando-se no conciliabulo o azedume tagarella do cançaço podre de um anno, conforme a psychologia de cada salão.

Os dormitorios appellidavam-se poeticamente, segundo a decoração das paredes: _salão perola_, o das crianças, policiado por uma velha, mirrada e má, que erigira o beliscão em preceito unico disciplinar, olhos minimos, chispando, bocca sumida entre o nariz e o queixo, garganta escarlate, Uma população, de verrugas, cabeça pennugenta de gypaeto sobre um corpo de bruxa; _salão azul_, _amarello_, _verde_, _salão floresta_, dos ramos do papel, aos quaes se recolhia a classe innumeravel dos médios. O salão dos grandes, independente do edificio, sobre o estudo geral, conhecia-se pela denominação amena de _chalet_. O chalet fazia vida em separado e mysteriosa.

O policiamento dos dormitorios competia aos diversos inspectores, convenientemente distribuidos.

Na época attenuavam-se os zelos da policia. O proprio gypaeto do _perola_ batia as azas para a folia, uma innocente folia de noventa annos.

A palestra corria desassombrada.

Deitavam-se uns a uma cama, outros cercavam agrupados nas camas proximas e atacavam os assumptos.

No salão dos médios:

«D. Emma... D. Emma... não se murmura á tôa... Reparem na maneira de falar do Chrysostomo... Tem motivo, um rapagão... Palavra que os apanhei sósinhos, juntinhos, conversando, á distancia de um beijo...

--O melhor é que o Chrysostomo não vae para a rua... Que diabo, nem tanto vale o grego, que se pague a beijocas descontadas pela mulher.... Tenho para mim que o negocio ainda acaba mal e porcamente, _kakós kai ruparós_ com uma estralada...

--Ora, directores! emprezarios! fabricantes de sciencia barata e prodigios de carregação, com que empulham os papaes basbaques... O que querem é a frequencia do negocio... Falem cá em annuncios... Mulher ao balcão... Que chamariz, uma carinha seductora! Eu por mim, se fosse director, inaugurava um _Kindergarten_ para taludos; uma bonita directora á testa e quatro adjunctas amaveis... Não haveria nhonhô graudo que não morresse pelo ensino intuitivo. Como não haviam de pagar para cortar pauzinhos no meu jardim! E que serviço ao progresso do meu paiz: estimular á Frœhel as intelligencias perrengues e as adolescencias atrazadas...

--Pois eu seria capaz de guerrear o estabelecimento. Se fosse director, teria o cuidado de ser tambem ministro do imperio... Revogava a Instrucção Publica e approvava a minha gente por decreto, tudo de pancada e com distincção.

--Qual! eu, se fosse director, seria safado! Não ha nada neste mundo como ser safado! Uma bonita meninada, que festança! Os meninos gostam da gente, a gente gosta dos meninos e o collegio cresce: _crescite_!... D'ahi a pouco tanta matricula, que precisariamos mudar de casa...

--Que canalha! Que linguinhas... Safa! Pois eu cá só digo mal d'aquelle typo do _Lyceu Marcello_, que tem na face a costura cicatrizada do talho que lhe fez um discipulo em certa aventura com o mais pacifico dos utensilios, e que, ainda assim, foi apanhado no _Cassino_ deixando aberto num divan o _carnet_ de baile, cuidadosamente illustrado de symbolos... pedagogicos.

A palestra no _perola_ era muito mais candida, e, principalmente, nada pessoal.

Curso improvisado de obstetrica elementar, pura especulação. Todos queriam saber; apertavam-se vinte pequenos em roda do problema, como aquellas figuras da licção de Rembrandt. Qual a origem das especies? Eram investigadores. Ninguem adiantava um passo. Estava ausente o gypaeto, que talvez podesse explicar. Feliz quem póde conhecer a causa das cousas! Como é a entrada na vida? Ordem dorica? jonica? composita? As imaginações trabalhadas formigavam avidamente sobre a questão; ninguem penetrava. Desenrolavam-se as theorias domesticas, angelico-gynecologicas.

Havia em Paris uma grande empreza de exportação, da qual eram agentes em todo o mundo os parteiros, e commissaria central no Rio M.^me Durocher. Vinha o genero nos berços, encaixotados, mijadinhos e chorosos. Esta theoria tinha o merecimento philosophico de prescindir das causas finaes. Os metaphysicos inclinavam-se mais para a intervenção da sobre-natureza: por occasião do Natal havia de noite uma distribuição geral de herdeirozinhos pela terra, chuva de pimpolhos, para compensar a matança dos innocentes, tão prejudicial no tempo de Herodes. Inutil dizer que os referidos innocentes vinham outr'ora ao mundo pela mão dos mesmos portadores das credenciaes da revelação, hoje em desuso.

E a academiazinha de investigadores amimava documentos, sorrindo alguns da credulidade dos outros, exhibindo em refutação credulidade de diverso quilate; alguns, mais positivos, adduzindo observações proprias, porque os meninos espiam, offerecendo á opinião dos collegas uma nota ponderosa, edificando-se lentamente o systema como os systemas se edificam, aproveitando-se apenas o elemento franqueado pelo apoio commum.

Dous ultimos pareceres concorreram opportunamente para desatar os embaraços e a assembléa dispersou-se. Um cearensezinho, de cabello á escova, intelligente e silencioso, amigo de responder por um geito especial de virar os olhos, senhor de um sorriso desconcertante que sabia armar a proposito, falando baixinho e explicito, introduziu no debate a descripção minuciosa, sem perda de fofos nem apanhados, da toilette balnearia das mulheres do sertão na provincia, descendo ao rio, de um bello panno sympathico em que o raio do sol nascente representa de fio mais grosso. Outro parecer foi a grosseira chacota de um caturra barrigudinho, fronte de novilho, miniatura de arrieiro, brutal e maroto, filho de um criador abastado do Paraná e instruido para todas as exigencias praticas da industria paterna. Estava alli a ouvir desde o principio sem dizer palavra, esperando a conclusão. Suppondo que o cearense ia fazer a luz, atirou-se adiante, interrompeu-o e concluiu largando o enxurro, espojando-se farto na garotada, como a cria da estancia no lodo fresco.

A vadiagem dos dormitorios não consistia só em palestra. Depravados pelo aborrecimento e pela ociosidade, inventavam extravagancias de cynismo.

O Cerqueira, _ratazana_, sujeito comico, cara feita de beiços, rachada em bocca como as romans maduras, de mãos enormes como um disfarce de pés, galopava a quatro pelos salões, zurrando em fraldas de camisa, escoucinhando uma alegria sincera de mú. Maurilio, o dos quinaus, não era exclusivamente o campeão da taboada que conhecemos; tinha outra habilidade notavel e prestava-se com applauso a uma experiencia original de fluidos inflammaveis. Este rapaz escapou de morrer, em um dos ultimos naufragios da nossa costa; um ex-collega escreveu-lhe: Quem os semeia, colhe tempestades.

As provocações no recreio eram frequentes, oriundas do enfado; irritadiços todos como feridas; os inspectores a cada passo precisavam intervir em conflictos; as importunações andavam em busca das susceptibilidades; as susceptibilidades a procurar a sarna das importunações. Viam de joelhos o Franco, puxavam-lhe os cabellos. Viam Romulo passar, lançavam-lhe o appellido: _mestre cook_!

Esta provocação era, além de tudo, inverdade. Cozinheiro, Romulo! só porque lembrava a culinaria, com a carnosidade bamba, fofada dos pastellões, ou porque era gordo das enxundias enganadoras dos fregistas, dissolução morbida de sardinha e azeite, sob os aspectos de mais volumosa saude? Romulo era simplesmente e completamente o confeiteiro das esperanças doces de Aristarcho.

Anafado de apparencia, e ainda mais ancho de fortuna, significava bem o que se diz um bom partido. Aristarcho tinha uma filha; saude, fortuna: um genro ideal; ainda por cima bonachão e pacato.

A Melica, a altiva e requebrada Amalia, lambisgoia, proporções de vareta, fina e longa, morena e airosa, levava o tempo a fazer de princeza. Dous grandes olhos pretos, exaggero dos olhos pretos da mãe, tomavam-lhe a face, dando-lhe de frente a semelhança justa de um bello I com dous pingos. Por estes olhos e por sobre os hombros, que tinha erguidos e mephistophelicos, derramavam-se desdens sobre tudo e sobre todos. Possuia e petiscava a certeza facil de que o _Atheneu_ em peso andava caído por ella, e morava no andor imaginario d'aquella idolatria de trezentos. Trezentos corações, trezentos desdens. A eminencia do pae sobre aquelle mundozinho desprezivel dava-lhe vida á vangloria, e ella gostava de visitar o collegio para ter occasião de exercitar a altivez culminante, misturada, do sexo e da gerarchia. Quanto a Romulo, era o primeiro no seu desprezo. Timbrava em não prestar-lhe attenção. Designava-o esplendidamente:--o parvo. Melica era bem conversada e preciosa.

Romulo philosophava por Epicuro. Desdens não matam. Havia de bom naquella attitude de noivado perenne, uma serie de utilidades: cargo de vigilante, privilegios de benevolencia, um jantar de vez em quando com o director,--isto é, uma folga ao paladar imaginada em sonho por quantas boccas, no regimen obrigatorio e destemperado da casa, _menu_ permanente, inviolavel como a letra das constituições.

Quando vinha Melica ao _Atheneu_, era Romulo o primeiro a aproximar-se, o ultimo a ser visto. Aristarcho chamava-o ás vezes e levava a passeio com a menina. Melica, toda donaire e orgulho, passava adiante e permittia, quando muito, que Romulo a seguisse cabisbaixo e mudo, como um hippopotamo domesticado. Diga-se, a bem da verdade, que o gorducho esperava rir por ultimo ao pae e á filha.

Em um estabelecimento de rumorosa fama como o _Atheneu_ não se podia deixar de incluir no quadro das artes a musica de pancadaria.

Passava despercebido o harmonium do Sampaio, religioso e bálbuce. Estimava-se como cousa somenos a rabequinha do Cunha, choramigas e expressiva, nas mãos do esguio violinista; manhoso o instrumento como uma casa de maternidade, pallido o musico, espichadinho e chlorotico; dando ares de graça a linguagem das cravelhas por meio de sons que imitavam a quasi aphasia timorata e infantil do Cunha, descambando em syncopes, de vez em quando, estendendo guinchos hystericos de amor vadio, saltitando _pizzicatos_ como as biqueiras de verniz do Cunha, amigo de valsar, agil no baile como as fitas, as plumas e as evaporadas tulles.

Considerava-se razoavelmente o piano do Alberto Souto, bochechas largas de maestro em effigie, pianista portento que viera parar ao _Atheneu_, depois de percorrer a Europa á cata de triumphos, redondo, curto e musical como um cylindro de realejo; famoso pela gargalhada soez, bagaço espremido da vaidade, da cobiça, que lhe ficara dos successos do palco e das surras da aprendizagem; e pela estupidez secca nos estudos, como se a intelligencia lhe houvesse escapado pelos dedos para os teclados em deserção definitiva.

[Figura 26]

Mas a predilecção de Aristarcho era pela banda, pela pancadaria, grita vibrante dos cobres, fuzilaria das vaquetas, levando gente á janella quando o _Atheneu_ passava, dando rebate á admiração das esquinas, o estrepito das caixas troando á marcha dobrada como um eco de combates, furor infrene, irresistivel, de zabumbada em feira.

A banda tinha casa propria e um professor bem pago. Os instrumentistas gozavam de particular favor nos relaxamentos de disciplina; nas occasiões de festa eram mimoseados, com um brinde de gulodices; condecoravam-se com distinctivos de prata, que nem os harmoniosos concertantes do _Orpheon_ logravam pilhar.

Ainda na banda graduava-se a predilecção de Aristarcho, segundo a importancia de sonoridade dos timbres. O grave bombardão, o ophiclide, a trompa, o trombone, o proprio sax, destinados ao mister secundario de acompanhamento, recuando, como lacaios, na encenação sonora, homens de armas servilmente bravos nas investidas brilhantes, ou timidos pagens, arrepanhando o abandono de caudas escapadas ao luxo regio das grandes notas do canto,--valiam menos ainda, na estima do director, que na marcação da partitura.