O Atheneu (chronica de saudades)

Part 11

Chapter 113,604 wordsPublic domain

Predilecto era o flautim, florete feito som, tenue, penetrante, perfuração de agulhas; predilecta era a requinta, especie de flautim rachado, aggressiva como a vibração do dardo das serpentes; o fagote, augmentativo de requinta, unico apparelho capaz de produzir artificialmente a fanhosidade colerica das sogras; o claro oboe, larynge metallica de um cantor de epopéas, heroico e bello; o piston frenetico e vivo, estandarte á mostra sobre a celeuma, harmonisando, centralisando a instrumentação como um regimento de cavalleiros. Predilectos porque gritavam mais! Predilecto principalmente o tambor e o bombo tonante, primazia do estrondo, a trovoada das pelles tezas, que a tormenta sobraça nos arroubos de carnaval canalha dos seus dias e que sobraçava, no _Atheneu_, Romulo, o graxo Romulo, o nedio, o opulento, o carissimo genro das esperanças caras.

Foi exactamente por esta seriação de preferencias acusticas que chegou Aristarcho á descoberta do seu favorito. E por acaso.

Durante uma festa escolar, exhibia-se a banda. Distrahe-se o bombo e solta fóra de tempo um magnifico tiro, que ia bem á composição executada como uma gotta de tinta Monteiro numa aquarella. Metade dos ouvintes acreditaram que aquillo era um capricho wagneriano enxertado de proposito; outra metade não conteve o riso.

Aristarcho admirava o bombo em solo, solidão das salvas em pleno mar, factor grandioso de sonoridade que o Zé Pereira multiplica. Mas o riso dos convidados incommodou-o.

Acabada a festa, mandou vir á presença o artista do estampido. Apresenta-se o musico e não sei como se entenderam que, em vez de castigo, retirou-se Romulo do gabinete com os foraes vantajosos de genro _ad honorem_.

O escandaloso favor suscitou uma reacção de inveja.

Romulo era antipathisado. Para que o não manifestassem excessivamente, fazia-se temer pela brutalidade. Ao mais insignificante gracejo de um pequeno, atirava contra o infeliz toda a corpulencia das infiltrações de gordura solta, desmoronava-se em sôcos. Dos mais fortes vingava-se, resmungando intrepidamente.

Para desesperal-o, aproveitavam-se os menores do escuro. Romulo, no meio, ficava tonto, esbravejando juras de morte, mostrando o punho. Em geral procurava reconhecer algum dos impertinentes e o marcava para a vindicta. Vindicta inexoravel.

No decorrer enfadonho das ultimas semanas, foi Romulo escolhido, principalmente, para expiatorio do desfastio. _Mestre cook_! via-se apregoado por vozes phantasticas, saídas da terra; _mestre cook_! por vozes do espaço, rouquenhas ou esganiçadas. Sentava-se acabrunhado, vendo se se lembrava de haver tratado panellas algum dia na vida; a unanimidade impressionava. Mais frequentemente, entregava-se a accessos de raiva. Arremettia bufando, espumando, olhos fechados, punhos para traz, contra os grupos. Os rapazes corriam a rir, abrindo caminho, deixando rolar adiante aquella ambulancia damnada de elephantiasis.

A uma das vaias estive presente. Romulo marcou-me. Pouco depois encontravamo-nos no longo corredor que levava á bibliotheca do _Gremio_. Situação embaraçosa. Eu vinha, elle ia. Parar? Recuar? Emquanto hesitava, fui-me adiantando. Romulo, de salto, empolgou-me a golla da blusa. Sacudia a ponto de macerar-me o peito. «Então, seu cachorro (_sic_), diga-me aqui, se é capaz, quem é _mestre_.»

A injuria equilibrou-me do espanto. Estava tudo perdido. Deitei bravura. «_Mestre, mestrissimo cook_!» gritei-lhe á barba. Não sei bem do que houve. Quando dei por mim, estava estendido em baixo do uma escada. Entraram-me na cabeça tres pregos, que havia nos ultimos degráus. Ponderando que tinha no futuro tempo de sobra para vingança, levantei-me e sacudi da roupa a poeira humilhante da derrota.

Afinal, o dia chegou dos exames primarios.

Provas de formalidade para as transições do curso elementar: primeira aula, para a segunda, segunda para a terceira, terceira para o ensino secundario.

Levavam-se assentos e mesas para o salão do oratorio, vestido o altar de um reposteiro, e repotreava-se a commissão solemne, da qual faziam parte personagens da Instrucção Publica, com o director e os professores.

Aristarcho representava, na mesa, o voto pensado do guarda-livros. Contas justas: approvação com louvor, cambiando ás vezes para distincção simples; atrazo de trimestre, approvação plena com risco de simplificação; atrazo de semestre, reprovado.

Havia no _Atheneu_, fóra d'esta regra, alumnos gratuitos, doceis creaturas, escolhidas a dedo para o papel de complemento objectivo do caridade, timidos como se os abatesse o peso do beneficio; com todos os deveres, nenhum direito, nem mesmo o de não prestar para nada. Em retorno, os professores tinham obrigação de os fazer brilhar, porque caridade que não brilha é caridade em pura perda.

Nas provas do terceiro anno, as distincções foram tão numerosas, que me veio ter as mãos uma, sem escandalo aliás, que desde muito perdera o medo e começava a quadrar-me a _aisance_ das demonstrações, como um mal contaminado do director. Fiz um figurão, apanhei a deliciosa nota, que levei a mostrar em casa, como um bichinho raro, mimando-lhe o pello fino, beijocando-lhe a focinheira. Sanches teve louvor; Manlio, louvor; Cruz, louvor tambem, graças á especialidade da cartilha, em que era provecto, espantando a commissão julgadora com a ladainha toda de Nossa Senhora e ameaçando-nos com o calendario de cór. Santo por Santo, observações adjacentes, mais a designação das festas moveis e das luas, como o proprio doutor Ayer das pilulas catharticas o não faria. Gualterio, palhaço, foi reprovado. Nascimento, o _bicanca_, fungou de satisfação: plenamente. Negrão, Almeidinha, Alvares, distincção. Contra a distincção d'este ultimo, o professor Manlio protestou surdamente; o bronco do Alvares com distincção! Baptista Carlos, o bugre das settas, bomba! Diante da commissão mostrou-se muito surprehendido das perguntas, como se tivesse alguma cousa com aquillo; Barbalho, bomba. Barbalho pae andava atrazado semestre e meio e Barbalho filho não deixou de salvar as apparencias com uma escrupulosa collaboração de asneiras. O optimo, o veneravel Rebello não compareceu: deixara o collegio, havia mezes, por causa dos olhos.

[Figura 27]

Emquanto na sala verde, emparedada de porphyro polido, esperava, com os collegas, que apparecesse á porta o inspector que devia ler o resultado do escrutinio, foi-me parar a vista aos quadros de alto relevo, das artes e das industrias, os risonhos meninos nús, fraternaes, em gesso puro e innocencia. Senti-me velho. Que longa viagem de desenganos! Alguns mezes apenas, desde que vira, á primeira vez, as ideaes crianças vivificadas no estuque pelo contagio do enthusiasmo ingenuo, ronda feliz do trabalho... Agora, um por um que os interpretasse, aos pequenos hypocritas mostrando as nadegas brancas com um reverso igual de candura, um por um que os julgasse, e todo aquelle gesso das facezinhas rechunchudas córaria de uma sancção geral e esfoladora de palmadas. Não me enganavam mais os pequeninos patifes. Eram infantis, alegres, francos, bons, immaculados, saudade ineffavel dos primeiros annos, tempos da escola que não voltam mais! E mentiam todos! Cada rosto amavel d'aquella infancia era a mascara de uma falsidade, o prospecto de uma traição. Vestia-se alli de pureza a malicia corruptora, a ambição grosseira, a intriga, a bajulação, a covardia, a inveja, a sensualidade brejeira das caricaturas eroticas, a desconfiança selvagem da incapacidade, a emulação deprimida do despeito, da impotencia, o collegio, barbaria de humanidade incipiente, sob o fetichismo do Mestre, confederação de instinctos em evidencia, paixões, fraquezas, vergonhas, que a sociedade exaggera e complica em proporção de escala, respeitando o typo embryonario, caracterisando a hora premente, tão desagradavel para nós, que só vemos azul o passado, porque é illusão e distancia.

Para a exposição dos desenhos foram retiradas as carteiras da sala de estudo, forradas de setim escuro as paredes e os grandes armarios. Sobre este fundo, alfinetaram-se as folhas de Carson, manchadas a lapis: pelo sombreado das figuras, das paysagens, pregaram-se, nas molduras de friso de ouro, os trabalhos reputados dignos d'esta nobilitação.

Eu fizera o meu successozinho no desenho, e a garatuja evoluira no meu traço, de modo a merecer encomios. A principio, o bosquejo simples, linear, experiencia da mão; depois, os esbatimentos de tons que consegui logo como um matiz de nuvem; depois, as vistas de campo, folhagem rendilhada em bicos, pardieiros em demolição pittoresca da escola franceza, como ruinas de páu podre, armadas para os artistas. Depois de muito moinho velho, muita vivenda de palha, muito casarão deslombado, mostrando as miserias como um mendigo, muita pyramide de torre aldeã esboçada nos ultimos planos, muita figurinha vaga de camponesa, lenço em triangulo pelas costas, rotundas ancas, saias grossas em pregas; sapatões em curva, passei ao desenho das grandes cópias, pedaços de rosto humano, cabeças completas, cabeças de corcel; cheguei á ousadia de copiar com toda a magnificencia das sedas, toda a graça forte do movimento, uma cabra do Thibet!

Depois da distincção do curso primario, foi esta cabra o meu maior orgulho. Retocada pelo professor, que tinha o bom gosto de fazer no desenho tudo quanto não faziam os discipulos, a cabra thibetana, meio metro de altura, era aproximadamente obra prima. Ufanava-me do trabalho. Não quiz a sorte que me alegrasse por muito. Negaram-me á bella cabra a moldura dos bons trabalhos; ainda em cima--considerem o desespero! exactamente no dia da exposição, de manhã, fui encontral-a borrada por uma cruz de tinta, larga, de alto a baixo, que a mão benigna de um desconhecido traçara. Sem pensar mais nada, arranquei á parede o desgraçado papel e desfiz em pedaços o esforço de tantos dias de perseverança e carinho.

Quando os visitantes invadiram a sala, notaram na linha dos trabalhos suspensas duas enigmaticas portas de papel rasgado. Estranhavam, ignorando que alli estava, interessante, em ultimo capitulo, a historia de uma cabra, de uma cruz, drama de desespero e espolio miserando de uma obra prima que fôra.

As exposições artisticas eram de dous era dous annos, alternadamente com as festas dos premios. Conseguia-se assim uma quantidade fabulosa de papel riscado para maior riqueza das galerias. Cobria-se o metim desde o soalho até ao tecto. Havia de tudo, não só desenhos. Alguns quadros a oleo, do Altino, risonhas aquarellas accidentando a monotonia cinzenta do Faber, do Conté, do _fusain_. Os futuros engenheiros applicavam-se ás aguadas de architectura, aos desenhos coloridos de machinas.

Entre as cabeças a crayon retincto, crinas de ginete, felpas de onagro lanzudo, inclinando o funil das orelhas, cerdosas frontes hirsutas de javalis, que arreganhavam presas, perfis de audacia em collarinhos de renda, abas atrevidas de feltro, plumas revoltas, physionomias de marujo, selvagens, arrepiadas, num sopro de borrasca, barbas incultas, carapuça esmurrada sobre a testa, cachimbo aos dentes; entre todas estas caras, avultava uma collecção notavel de retratos do director.

[Figura 28]

O melindroso assumpto fôra inventado pela gentileza de um antigo mestre. Preparou-se modelo; um alumno copiou com exito; e, depois, não houve desenhista amavel que não entendesse zeladamente dever ensaiar-se na respeitavel veronica. Santo Deus! que ventas arranjavam ao pobre Aristarcho! Era até um desaforo! Que olhos de blepharite! que boccas de beiços pretos! que calumnia de bigodes! que invenção de expressões aparvalhadas para o digno rosto do nobre educador!

Não obstante, Aristarcho sentia-se lisonjeado pela intenção. Parecia-lhe ter na face a cocegazinha subtil do crayon passando, brincando na ruga molle da palpebra, dos pés de gallinha, contornando a concha da orelha, calcando a commissura dos labios, entrevista na franja dos fios brancos, definindo a severa mandibula barbeada, subindo pelas dobras obliquas da pelle ao nariz, varejando a pituitaria, extorquindo um espirro agradavel e desopilante.

Por isso eram acatados os desenhistas da veronica.

Os retratos todos, bons ou máus, eram alojados indistinctamente nas molduras de recommendação. Passada a festa, Aristarcho tomava ao quadro o desenho e levava para casa. Tinha-os já ás resmas. Ás vezes, em momentos de _spleen_, profundo _spleen_ de grandes homens, desarrumava a pilha; forrava de retratos, mesas, cadeiras, pavimento. E vinha-lhe um extase de vaidade. Quantas gerações de discipulos lhe haviam passado pela cara! Quantos affagos de bajulação á effigie de um homem eminente! Cada papel d'aquelles era um pedaço de ovação, um naco de apotheose.

E todas aquellas cousas mal feitas animavam-se e olhavam brilhantemente. «Vê, Aristarcho, diziam em côro, vê; nós que aqui estamos, nós somos tu, e nós te applaudimos!» E Aristarcho, como ninguem na terra, gozava a delicia inaudita, elle incomparavel, unico capaz de bem se comprehender e de bem se admirar--de vêr-se applaudido em chusma por alter-egos, glorificado por uma multidão de si-mesmos. _Primus inter pares_.

Todos, elle proprio, todos acclamando-o.

VIII

No anno seguinte, o _Atheneu_ revelou-se-me noutro aspecto. Conhecera-o interessante, com as seducções do que é novo, com as projecções obscuras de perspectiva, desafiando curiosidade e receio; conhecera-o insipido e banal como os mysterios resolvidos, caiado de tédio; conhecia-o agora intoleravel como um carcere, murado de desejos e privações.

Desenvolvido á força e habilitado no torvelinho moral do internato, aproveitara os dous mezes de feriado para espreitar a animação da vida exterior. A sala, a sociedade, os negocios da praça publica, que na infancia são como contactos de nevoeiros resvalando pela imaginação, que nos despertam com um estardalhaço de pesadelo, que fogem, que somem-se, deixando-nos readormecidos no esquecimento da idade, ao tempo em que preferimos da soirée os _bons bocados_, das toilettes os laços de côres rutilas, ignorando que ha talvez na vida alguma cousa mais assucar que o assucar, e que o toque macio póde uma vez levar vantagem á coloração fulgurante, quando invejamos das posições sociaes modestamente o garbo de Phaetonte nos carros de praça ou a bravura rubente de umas calças de grande uniforme, sem saber que as ambições vão mais alto e que ha commendadores; o movimento do grande mundo não me apparecia mais como um theatro de sombras. Comecei a penetrar a realidade exterior como palpava a verdade da existencia no collegio. Desesperava-me então vêr-me duplamente algemado á contingencia do ser irremissivelmente pequeno ainda e collegial. Collegial, quasi calceta! marcado com um numero, escravo dos limites da casa e do despotismo da administração.

Havia a escassa compensação dos passeios. Uniformisava-se de branco o collegio como para as festas de gymnastica, com os gorros de cadarço, e saíamos a dous, a quatro de fundo, tambores, clarins á frente.

No anno anterior, os passeios tinham sido insignificantes, marchas alegres pelo arrabalde. Vinham ao peitoril as mocinhas, e nós todos, anchos de militarismo, despendiamos elegancia prodigamente. Eram melhores as excursões á montanha. Subiamos aos Dous Irmãos, caminho do Corcovado, marchavamos até á Caixa d'agua. Ahi debandavamos, na amenissima chapada.

Os passeios eram depois do jantar. A noitinha voltavamos, dando balanço ás notas de sensações, um deslumbramento verde de floresta, um retalho de afogueado crepusculo, um canto de cidade ao longe diluido em fumaça côr de perola, ou o olhar de uma dama e o sorriso de outra, projectis inoffensivos de namoro que na hypothese de andar a gente em fórma têm o defeito da incerteza, se vêm expressamente a nós, se ao vizinho, e a nós apenas por uma casualidade de ricochete--o ciume eterno dos serra-filas que a Praia Vermelha conhece.

Os nossos passeios foram mais consideraveis.

Primeiro ao Corcovado, assalto ao gigante, hoje domado pela vulgaridade da linha ferrea.

Ás 2 horas da noite, troaram os tambores como em quartel assaltado. Os rapazes, que mal haviamos dormido, na excitação das vesperas, precipitaram-se dos dormitorios. Ás 3 e pouco estavamos na serra.

Aristarcho rompia a marcha, valente como um mancebo, animando a desfilada como Napoleão nos Alpes.

Passeio nocturno de alegria sem nome. As arvores beiravam a estrada de muros de sombra num e noutro ponto rendada de frestas para o céu limpido. No caminho, trevas de tunnel e agitação confusa das roupas, malhada a esmo de placas de luar brando--reptil immenso de cinza e leite em vagarosa subida. Que sonho de cócegas experimentaria o colosso, na dormencia de pedra que o prostrava ainda, espezinhado pela invasão! Subiamos. Pelas abertas do arvoredo devassavamos abysmos; ao fundo, a illuminação publica por enfiadas, como rosarios de ouro sobre velludo negro.

Á boa altura, acampamos para o café. Criados que nos precediam com o farnel, improvisaram um balcão, e nos serviam successivamente na ordem da fórma. Felizes alguns, conseguiram uma gotta de fino Porto, mais quente que o café, reforçando com um banho interno de conforto contra a umidade da altitude e da hora, inflamando a coragem como um punch, avivando a alegria como um brinde de fogo.

O espaço apparecia mais claro sobre a renda das ramas; as ultimas estrellas por entre as folhas emmurcheciam como jasmins, e fechavam-se. Aristarcho deu ordens á banda. A subida recomeçou em festa, um dobrado triumphal rasgou o silencio das montanhas espavorindo a noite; o bombo de Romulo trovejou robusto, com imensa admiração da passarada que o espiava metendo o bico á beira dos ninhos, que o cobiçava talvez para genro, aturdindo os echos com um repente brutal de alvorada.

Ao passo que nos elevavamos, elevava-se igualmente o dia nos ares. Apostava-se a vêr quem primeiro cançava. Cada avanço da luz no espaço era como um excitante novo para a jornada, suavisando a doçura do alvorecer todo o esforço da ascensão. Quando a musica parava, ouviamos na alvenaria do grande encanamento, pelos respiradouros, as aguas do Carioca, ciciando queixas poeticas de naiade emparedada.

Avistavamos por hiatos de perspectiva a bahia, o Oceano vastamente desdobrado em chammas, extenso cataclysma de lava.

No planalto do Chapéo de Sol parámos. O director convencionou que, ao signal de debandar, assaltariamos na carreira o espigão de granito empinado á extrema do monte. A rapaziada acclamou a proposta e, com um alarido barbaro de peleja, arrojámo-nos á conquista da altura.

Chegou na frente o Tonico, meninote nervoso, de S. Fidelis, especialista invicto da carreira, corredor de pratica e principios, que de cada exame da Instrucção Publica fugia duas vezes á chamada, entendendo que a fuga é a expressão verdadeira da força, e a bravura uma invenção artificial dos que não podem correr.

Romulo fez a asneira de tentar o espigão; ficou a meio caminho, suffocado, inanimado, roncando por terra.

Almoçámos ás dez horas, cada um para seu lado, depois da distribuição frugal do mantimento. Fartos de paysagem, formámos para a descida.

Descida penosa. Tinhamos imprudentemente esgotado as forças na folgança. A marcha de volta foi uma miseria. Formámos ainda, mas já não havia quem olhasse para o alinhamento. As correias frouxas escapavam á cintura, as blusas ás correias; os pés cambavam, mal equilibrados no calçado, bambeavam os joelhos passadas de bebado.

As crianças adiante voltavam os olhos dolorosamente para o director, segurando-se uns aos outros pelos hombros, seguindo em grupos atropellados como carneiros para a matança. Aristarcho, tão lépido como na subida, estimulava o seu povinho, chasqueando compadecidas ironias.

Quiz recorrer ao estimulante da musica. Os musicos, derreados, haviam deixado os instrumentos na carroça da matalotagem que vinha longe. Nem tambores, nem clarins; apenas Romulo, atraz de todos, trazia o bombo de roldão pela estrada como uma pipa.

Por maior tormento, fundia-se a soalheira em chumbo ardente sobre nós, accendendo reflexos insupportaveis na areia da estrada, emquanto reverberava o dia lá em baixo, sobre as casas, pelos jardins nublados de vaporisações de estio, sobre a vegetação das montanhas, a florescer das tristes flôres da Paixão da alleluia.

Voltavamos de um dia alegre como soldados batidos. A ordem de marcha decompôz-se aos poucos. Quando chegámos ao Rio Comprido, iamos por bandos dispersos, arquejantes, os de maior folego na vanguarda; depois, em cauda interminavel de alquebramento, os mais fracos, até aquelles que ficavam pelo chão como enfermos, e que os inspectores buscavam como gado perdido.

No portão do _Atheneu_, mãos ás cadeiras, dentinhos brancos á vista, esperava-nos Angela, fresca e forte, e recebia com uma vaia de risadas aquella entrada de vencidos, homens e moços.

Quando, tempos passados, annunciou-se o grande pique-nique ao Jardim Botânico, certo não foi objecção a lembrança d'este descalabro de fadiga. Tinhamos almoçado na montanha; tratava-se agora de ir jantar ao jardim. Promptos!

Ao meio-dia, apeava o _Atheneu_ dos bonds especiaes á porta do grande parque. Atravessámos cantando um dos hymnos do collegio as arcarias elevadas de palmas. Junto ao lago da avenida, debandámos.

No bosque dos bambús, á esquerda, estavam armadas as longas mesas para o banquete das quatro horas. Graças á boa vontade dos paes, prevenidos opportunamente, vergavam as taboas, sobre cavalletes, ao peso de uma quantidade rabelaiseana de acepipes. Á parte, em cestos, no chão, amontoavam-se fructas, caixas e frascos de confeitaria.

Era por um d'esses dias caprichosos, possiveis todo o anno, mais frequentes de verão, em que as bategas de chuva fazem alternativa com as mais sadias expansões de sol, deliciosos e traidores, em que, parece, a alma feminina se faz clima com as incertezas de pranto e riso.

Chovera uma vez ao partirmos, outra vez em viagem; havia no jardim muita humidade na relva e sob as folhas caidas; ás alamedas de mais sombra, via-se a areia crivada recentemente dos pequeninos furos que cava o gottejar do arvoredo. Mas eram tão claros os trechos de bom tempo, no intervallo dos nimbos, que não podiam apprehensões de aguaceiro entibiar a franqueza de alegria a que estavamos preparados.

A rapaziada dispersou-se pelos gramados para a montanha, para os cannaviaes e pomares de ingresso vedado. Alguns, munidos de anzoes, acocoravam-se á beira do açude, como batrachios, emquanto esperavam que picasse a probabilidade difficil de um peixe.

Os de espirito calmo buscavam sitios de soledade, iam passear a scisma silenciosa; os sentimentaes, com o instincto dos photographos paysagistas, ensaiavam, comparavam, applaudiam os melhores pontos de vista, ou, simplesmente, dous a dous, intimos, seguiam para longe, braços pela cintura, balbuciando dialogos lentos. Os menores corriam, armando animadissimos brincos, atiravam-se ás borboletas, iam pelos cursos d'agua canalisada através do parque, perseguindo a fuga de um graveto, trepido, inalcançavel na evasão rapida da lympha. Nos enredamentos obscuros do bosque, exactamente onde o artista grego incluiria um satyro, podia-se surprehender sob uma blusa o confiado abandono bucolico de outros collegas.

De quando em quando, um signal de clarim. Tocava-se a reunir e fazia-se a distribuição das gulodices. Muitos não compareciam.

Ás quatro horas a banda de musica assignalou com o hymno nacional o grande momento da festa campestre.

De todos os pontos do jardim começaram a chegar magotes pressurosos de uniformes brancos. Os vigilantes, energicos, regularisavam a occupação dos logares.

Ao correr da mesa, fechou-se o bloqueio ameaçador de dentaduras.

No centro alinhavam-se as peças, sem conta, frias, sem môlho, appetitosas, entretanto, da côr tostada e do aroma succulento.

Os garfos agitavam-se inimigos, amolavam-se os trinchantes nas mãos dos copeiros...