O Atheneu (chronica de saudades)

Part 12

Chapter 123,596 wordsPublic domain

Obrigados a uma sobranceria stoica de philosophos, depois da provação definitiva do forno, nem os perús, nem os leitões, nem os timidos frangos mostravam aperceber-se da situação arriscada.

Os frangos, de pernas para traz, sobre o dorso, cabeça escondida na aza, pareciam dormir sonhando o calembour das pennas perdidas; os redondos bacoros, encouraçados na bella côr de torresmo, serviam-se dos olhos de azeitona para não mais vêr as seducções mentidas da existencia, empenhados em ensinar aos homens como se leva a cabo o supplicio culinario dos palitos, com a aggravante azeda dos limões em rodella; os perús, soberbos até á ultima e menos philosophicos, prescindiam francamente da cabeça, orgulhosos apenas da vastidão do peito, enfunando a vaidade cheia do papo, hypertrophia de farofa.

Guarnecendo os assados, perfilavam-se as garrafas pretas desarrolhadas, conglobavam-se montes de maçãs, peras, laranjas, apoiadas ás nacionalissimas bananas, como um traço de nativismo. Os pudins, as marmeladas, as compotas enchiam os vãos da toalha, com um zelo apertado de mediador plastico. Mesmo sem metter em conta as postas de roastbeef com que contribuirá Aristarcho, percebe-se que era de truz o jantar.

Quando os rapazes sentaram-se, em bancos vindos do _Atheneu_ de proposito, e um gesto do director ordenou o assalto, as taboas das mesas gemeram. Nada pôde a severidade dos vigilantes contra a selvageria da boa vontade. A licença da alegria exorbitou em canibalismo.

Aves inteiras saltavam das travessas; os leitões, á unha, hesitavam entre dous reclamos igualmente energicos, dos dous lados da mesa. Os criados fugiram. Aristarcho, passando, sorria do espectaculo como um domador poderoso que relaxa. As garrafas, de fundo para cima, entornavam rios de embriaguez para os copos, excedendo-se pela toalha em sangueira. Moderação! moderação! clamavam os inspectores, afundando a bocca em aterros de farofa dignos do Sr. Revy. Alguns rapazes declamavam saudes, erguendo, em vez de taça, uma perna de porco. Á extremidade da ultima das mesas um pequeno apanhara um trombone e applicava-se, muito serio, a encher-lhe o tubo de carne assada. Maurilio descobriu um repolho recheiado e devorava-o ás gargalhadas, affirmando que era munição para os dias de gala. Cerqueira, _ratazana_, curvado, redobrado, sobre o prato, comia como um restaurante, comia, comia, comia como as sarnas, como um cancro. Sanches, meio embriagado, beijava os vizinhos, caindo, com os beiços em tromba. Ribas, dyspeptico, era o unico retrahido; suspirava de longe, anjo que era, diante dos reprovados excessos da bacchanal.

Em meio do tumulto ebrifestante, ouviram-se palmas. Á cabeceira da mesa principal, apresentavam-se de pé Aristarcho e o empertigadinho e cuprico professor Venancio. Era a poesia! Venancio de Lemos costumava improvisar, mais ou menos préviamente, estrophes analogas nas festas campestres...

Outros professores, que tinham concorrido ao piquenique, davam-se á faina grosseira de jantar. Elle, não.

Havia um quarto de hora que andava mysteriosamente por uma aléa de bambús, esfiapando as barbicas, a gaforina, palpando a testa, arrancando inspiração ao couro cabelludo, passando, nervoso, repassando, espiado furtivamente pela nossa admiração. Ninguem ousava acercar-se, temendo perturbar a elaboração do genio.

Muchôchos adoraveis das brisas, que andaes pela malta, gemedoras fontes, que desfiaes á tôa as lagrimas de vossos penares, amaveis sabiás cantores, que viveis de plantão na palmeira da litteratura indigena, sem que vos galardôe uma verba da secretaria do imperio, vinde commigo repartir o segredo do vosso encanto! Seductoras rolinhas, um pouco da vossa ternura! Vividos colibris, a mim! que sois como os animados tropos no poema frondoso da floresta... E as inspirações vieram. Primeiro, cerimoniosamente, á altura, volteando espiraes de urubú sobre a carniça; depois, de chofre, caindo-lhe ás bicadas sobre o estro. O estro entorpecido acordou. Fez-se hippogrypho um asno morto. O poeta foi registrando as estrophes.

Quadras de rima facil de participios, espancados pelo camartello contundente dos agudos.

Sustou-se em toda a linha o furor gastronomico dos rapazes. Ficámos a ouvir, surpresos.

Murmuraram as brisas; as fontes correram; tomaram a palavra os sabiás; surgiram palmeiras em repuxo; houve revoadas de juritys, de beija-flôres; todas essas cousas, de que se alimentam versos communs e de que morrem á fome os versejadores. Subito, do melhor das quadras, exactamente quando o poeta apostrophava o dia sereno e o sol, comparando a alegria dos discipulos com o brilho dos prados, e a presença do Mestre com o astro supremo, mal dos improvisos prévios! desata-se das nuvens espessadas uma carga d'agua diluvial, unica, sobre o banquete, sobre o poeta, sobre a miseranda apostrophe sem culpa.

Venancio não se perturbou. Abriu um guarda-chuva para não ser inteiramente desmentido pelas gotteiras e continuou, na guarita, a falar enthusiasticamente ao sol, á limpidez do azul.

[Figura 29]

Não querendo desprestigiar o estimavel subalterno, Aristarcho fingia acreditar no improviso e, indifferente, deixava cair o aguaceiro. As abas do chapéo de palha murchavam-lhe ao redor da cabeça, o rodaque branco desengommava-se em pregas verticaes gottejantes.

Para os rapazes a chuva foi novo signal de desordem. Deixou-se o poeta com a sua inspiração arrebatadora de bom tempo; recomeçou a investida aos pratos.

A abóbada de folhagem que nos cobria, em vez de attenuar a violencia das aguas, concorria para fazer mais grossos os pingos. Pouco importava. A philosophia impermeavel do director servia-nos tambem de capa. Que chovesse! Era o môlho dos manjares que nos faltava. As fructas lavadas luziam com um verniz de frescura que o proprio outomno não possue. O vinho estendia-se pela toalha encharcada numa generalisação solemne de purpura. O banho opportuno do banquete vinha temperar a demasiada aridez das farinhas de recheio. «Acabamos pela sopa, descobriu Nearcho, o penetrante, por onde o vulgo principia!»

Qual acabavamos! Ninguem acabou. Succedeu que, com os fundilhos molhados, ninguem quiz mais sentar-se. Gyrou o atropello ao redor das mesas; os bancos foram repellidos a ponta-pés. Repartia-se o doce sem equidade; quem não avançava a tempo ficava sem elle. Dous inspectores, João Numa e o _Conselheiro_, a pretexto de decidir uma contenda, arranjaram-se com uma caixa de pecegada e desappareceram.

A chuva desculpava a bebida. Era inacreditavel o consumo de brindes. Brindes a Aristarcho, brindes aos companheiros, ao Sylvino, ao poeta, ao sol, aos temporaes, ao trovão scandinavo; inimigos figadaes, no transporte do prazer, reconciliaram-se; Barbalho saudou-me fogosamente. Romulo, já tonto, affastado das mesas, brindava o copeiro que lhe arranjara uma garrafa; depois brindou a noiva; o criado, bebendo tambem, tocou-lhe o copo.

Como escurecia, o director fez o clarim chamar á fórma.

Debaixo do aguaceiro que não cessava, o collegio alinhou-se como bem pôde. Muitos, queixando-se de saude delicada, obtiveram, dispensa d'esta inopportuna disciplina de equilibrio; seguiram adiante para o portão abrigado do jardim... Após, fomos os outros, em marcha regular, pingando de molhados. A fita vermelha dos gorros desbotava-se-nos pelo rosto em fios sanguineos.

Quando chegámos ao portão, já nos esperavam os bonds especiaes. Do outro lado da rua, á entrada do conhecido restaurante, appareceu a familia do Aristarcho com alguns professores, que lá tinham jantado. D. Emma, pelo braço do Chrysostomo, a Melica altivamente só e distanciada.

No collegio, tivemos ordem de subir a descanço nos dormitorios. Preventivo louvavel de prudencia, depois dos excessos e da tempestade soffrida. O descanço foi simplesmente um prolongamento da pandega do passeio. Para cessar a desordem, tocou-se a estudo... Baixámos ao salão geral. Aristarcho, reassumindo a dureza olympica da seriedade habitual, apresentou-se e perguntou asperamente se pretendiamos que a vida passasse a ser agora um pique-nique perpetuo na desmoralisação. Tacitamente negámos e a tranquillidade normal entrou dos eixos.

Não sabiamos que, a essas horas, preparava o segredo da alta justiça uma trama de intrigas, que devia estragar em terrores a lembrança do grande passeio.

Á hora da ceia, na mesma porta em que se lia a gazetilha das aulas, sombrio como nunca, vagaroso como os compassos de requiem, tetrico como o juizo final, entrou o director.

Pausa preliminar, fremito de sensação pelo refeitorio:

«Tenho a alma triste», começou, cavernosamente. Uma cinta de trovões no horizonte, rostos da tormenta da tarde, faziam fundo ás palavras em côro eschyliano.

«Tenho a alma triste. Senhores! A immoralidade entrou nesta casa! Recusei-me a dar credito, rendi-me á evidencia»... Com todo o vigor tenebroso dos quadros tragicos, historiou-nos uma aventura bregeira. Uma carta comica e um encontro marcado no Jardim. «Ah! mas nada me escapa... tenho cem olhos. Se são capazes, illudam-me! Está em meu poder um papel, monstruoso corpo de delicto! assignado por um nome de mulher! Ha mulheres no _Atheneu_, meus senhores!»

Era uma carta do Candido, assignada Candida.

«Esta mulher, esta cortezã fala-nos da segurança do logar, do socego do bosque, da solidão a dous... um poema de pouca vergonha! É muito grave o que tenho a fazer. Amanhã é o dia da justiça! Apresento-me agora para dizer sómente: serei inexoravel, formidando! E para prevenir: todo aquelle que directa ou indirectamente se acha envolvido nesta miseria... tenho a lista dos comprometidos... e que negar espontaneo auxilio ao procedimento da justiça, será reputado cumplice e como tal: punido!»

Este convite era um verdadeiro arrastão. Remexendo a gaveta da consciencia e da memoria, ninguem havia, póde-se affirmar, que não estivesse implicado na comedia collegial dos sexos, ao menos pelo enredo remoto do _ouvi dizer_. Ouvir dizer e não denunciar logo, era um crime, dos grandes na jurisprudencia costumeira. A devassa promettida fazia alarma geral. Como prevêr as complicações do processo? Como adivinhar o segredo tremendo da lista?

Aristarcho ufanava-se de perspicacia de inquisidor. Sob a saraivada das perguntas, ameaças, promessas, o interrogado perturbava-se, compromettia-se, entregava-se e trahia os outros; nos processos do gabinete, os factos floresciam em carymbo, fructificavam em cacho; a pesquiza de uma culpa descobria tres, sem contar as ramificações da cumplicidade de outiva.

Ao retirar-se, o director deixou na sala uma estupefacção de pavor.

Eu, particularmente, tinha valiosos motivos de sobresalto. A guerra latente que já me ligava ao director, como as conjuncções disjunctivas, exacerbara-se com um episodio gravissimo, rompimento decisivo.

A caminho da bibliotheca, no mesmo logar do infeliz encontro com o enorme Romulo, achei-me inesperadamente com o Bento Alves.

As sympathias do excellente companheiro não tinham diminuido. Durante as férias, fôra vêr-me em casa, travando relações com a minha familia. Fui recommendado insistidamente ao amigo, que me valesse, nas difficuldades da vida collegial, contra o constante perigo da camaradagem perniciosa. Durante o mez de Janeiro não nos vimos. Por occasião da abertura das aulas, notei-lhe um calor novo de amizade, sem effusões como d'antes, mas evidentemente testemunhado por tremores da mão ao apertar a minha, embaraços na voz de amoroso errado, bisonho desviar dos olhos, denunciando a reluctancia de movimentos secretos e impetuosos. Ás vezes mesmo, um reflexo assustador de loucura accentuava-se-lhe nos traços.

Interessava-me aquella agonia comprimida. Estranha cousa, a amizade que, em vez da aproximação franca dos amigos, podia assim produzir a incerteza do mal estar, uma situação prolongada de vexame, como se a convivencia fosse um sacrificio e o sacrificio uma necessidade.

Durante os primeiros dias do anno, poucos alumnos chegados, ficavamos horas inteiras em companhia. Trouxera-me um presente de livros, com dedicatoria a côres, de bella calligraphia, inscripta em rosas entrelaçadas de chromo, Recordo-me tambem de um dulcissimo cofre dourado de pastilhas e outras ridicularias de amabilidade que me offerecia, passado de vergonha pela insignificancia do obsequio. Confusamente occorria-me a lembrança do meu papelzinho de namorada faz de conta, e eu levava a seriedade scenica a ponto de galanteal-o, occupando-me com o laço da gravata d'elle, com a mecha de cabello que lhe fazia cócega aos olhos; soprava-lhe ao ouvido segredos indistinctos para vêl-o rir, desesperado de não perceber. Uma das irmãs casara no Rio Grande; elle mostrou-me o retrato do noivo, um par de bigodes negros descaidos, com a noiva, um rosto oval correcto e puro, o turbilhão nevoento dos véus. Deu-me um botão de flôr de laranjeira que tinham remettido.

Andavam assim as cousas, em pé de serenidade, quando occorreu a mais espantosa mudança.

Não sei que diabo de expressão notei-lhe no semblante, de ordinario tão bom. Desvairamento completo. Apenas me reconheceu, atirou-se como fizera Romulo e igualmente brutal. Rolámos ao fundo escuro do vão da escada. Derribado, contundido, espancado, não descurei da defeza. Entrevi na meia obscuridade do recanto um grande sapato embolorado. Luctando na poeira, sob o joelho esmagador do assaltante, ataquei-lhe a cabeça, a cara, a bocca, a formidaveis golpes de tacão, apurando a energia de sola ferrada com a omnipotencia dos extremos. Bento Alves deixou-me bruscamente.

Tinhamos luctado em silencio, sem que nada mais se ouvisse do que os encontrões pelo soalho. No corredor, entretanto, vimos Aristarcho que chegava como em soccorro. Bento Alves passou; immobilisou-o com o olhar sem vista, esgazeado, medonho, de quem acaba de perpetrar um homicidio e desappareceu, tropego, manchado de pó, labios inflammados, desordem nos cabellos.

Aristarcho veio sobre mim. Que explicasse a briga! Eu estava como o adversario, empoeirado e sujo como de rolar sobre escarros.

Respondi-lhe com violencia.

«Insolente!» rugiu o director. Com uma das mãos prendendo-me a blusa, a estalar os botões, com a outra pela nuca, ergueu-me ao ar e sacudiu, «Desgraçado! desgraçado, torço-te o pescoço! Bandalhozinho impudente! Confessa-me tudo ou mato-te.»

Em vez de confessar, segurei-lhe o vigoroso bigode. Fervia-me ainda a excitação do primeiro combate; não podia olhar conveniencias de respeito. Esperneei, contorci-me no espaço como um escorpião pisado. O director arremessou-me ao chão. E, modificando o tom, falou: «Sergio!ousaste tocar-me!»

--Fui primeiro tocado! repliquei fortemente.

--Criança! feriste um velho!

Reparei que havia no chão fios brancos de bigode.

--Fui vilmente injuriado, disse.

--Ah! meu filho, ferir a um mestre é como ferir ao proprio pae, e os parricidas serão malditos.

O tom commovido d'este final inesperado impressionou-me até o intimo d'alma. Estava vencido. Fiquei por um minuto horrorisado de mim mesmo. De volta do atordoamento, achei-me só no corredor. A saída dramatica do director augmentou-me ainda remorsos. Houve uma reacção de esforço moral e desatei nervosamente em pranto, chorei a valer, amparando-me ao peitoril de uma janella.

Contava certo com um castigo excepcional, uma comminação qualquer do celebre codigo do arbitrio, em artigo cujo gráo minimo fosse a expulsão solemne.

Esperei um dia, dous dias, tres: o castigo não veio. Soube que Bento Alves despedira-se do _Atheneu_ na mesma tarde do extraordinario desvario. Acreditei algum tempo que a minha impunidade era um caso especial do afamado systema das punições moraes e que Aristarcho delegara ao abutre da minha consciencia o encargo da sua justiça e desaffronta. Hoje penso diversamente: não valia a pena perder de uma vez dous pagadores promptos, só pela futilidade de uma occorrencia, desagradavel, não se duvida, mas sem testemunhas.

O caso morreu em segredo de discrição, encontrando-nos eu e o director num conchavo bilateral de reserva, como se nada houvesse.

O resentimento, porém, devia ser fundo e a perspectiva tormentosa do processo ameaçava-me como o ensejo imminente da desforra.

Não foi possivel dormir tranquillo.

Á hora do primeiro almoço, como promettera, Aristarcho mostrou-se em toda a grandeza funebre dos justiçadores. De preto. Calculando magnificamente os passos pelos do director, seguiam-no em guarda de honra muitos professores. A porta fronteira, mais professores de pé e os bedéis ainda, e a multidão bisbilhoteira dos criados.

Tão grande a calada, que se distinguia nitido o tic-toc do relogio, na sala de espera, palpitando os ansiados segundos.

Aristarcho soprou duas vezes através do bigode, inundando o espaço com um bafejo de todo-poderoso.

E, sem exordio:

«Levante-se, Sr. Candido Lima!

«Apresento-lhes, meus senhores, a Sr.ª D. Candida, accrescentou com uma ironia desanimada.

[Figura 30]

«Para o meio da casa! e curve-se diante dos seus collegas!!»

Candido era um grande menino, beiçudo, louro, de olhos verdes e maneiras difficeis de indolencia e enfado. Atravessou de vagar a sala, dobrando a cabeça, cobrindo o rosto com a manga, castigado pela curiosidade publica.

«Levante-se, Sr. Emilio Tourinho...

Este é o cumplice, meus senhores!»

Tourinho era um pouco, mais velho que o outro, porém mais baixo; atarracado, moreno, ventas arregaladas, sobrancelhas crespas, fazendo um só arco pela testa. Nada absolutamente conformado para galã; mas era com effeito o amante.

«Venha ajoelhar-se com o companheiro.»

«Agora, os auxiliares...»

Desde as cinco horas da manhã trabalhava Aristarcho no processo. O interrogatorio, com o appendice das delações da policia secreta e dos timidos, compromettera apenas dez alumnos.

A chamado do director, foram deixando os logares e postando-se de joelhos em seguimento dos principaes culpados.

«Estes são os acolytos da vergonha, os co-réos do silencio!»

Candido e Tourinho, braço dobrado contra os olhos, espreitavam-se a furto, confortando-se na identidade da desgraça, como Francesca e Paolo no inferno.

Prostrados os doze rapazes perante Aristarcho, na passagem alongada entre as cabeceiras das mesas, parecia aquillo um ritual desconhecido de noivado: a espera da benção para o casal á frente.

Em vez da bênção chovia a colera.

«... Esquecem paes e irmãos, o futuro que os espera, e a vigilancia ineluctavel de Deus!... Na face estanhada não lhes pegou o beijo santo das mães... caiu-lhes a vergonha como um esmalte postiço... Deformada a physionomia, abatida a dignidade, aggravam ainda a natureza; esquecem as leis sagradas do respeito á individualidade humana... E encontram collegas assás perversos, que os favorecem, calando a reprovação, furtando-se a encaminhar a vingança da moralidade e a obra restauradora da justiça!...»

Não posso atear toda a rhetorica de chammas que alli correu sobre Pentapolis. Fica uma amostra do enxofre.

Isto, porém, era um começo. Conduzidos pelos inspectores, saíram os doze como uma leva de convictos para o gabinete do director, onde deviam ser litteralmente seviciados, segundo a praxe da justiça do arbitrio.

Consta que houve mesmo pancada de rijo. Os condemnados negaram, depois. Em todo caso, era de effeito o simples consta, engrandecido pela refracção nebulosa do boato.

Concluida a chamada dos indiciados, a sala inteira respirou desafogo. No recreio, a rapaziada dispersou-se com gritos festivos.

Franco, sobretudo, estava de um contentamento nunca visto. Casualmente em liberdade, por não ter havido leitura das notas, fazia da circumstancia uma pirraça contra o Sylvino: «Eu é que sou o máu; repetia andando á roda, eu é que sou o bandalho, a peste do collegio!... O máu sou eu só!...» Sylvino foi gradualmente perdendo a paciencia. Atirou-se por fim ao Franco, desesperado, lançou-o á terra, metteu-lhe os pés. Alguns rapazes protestaram com gritos, Sylvino ameaçou. Fogosos da exaltação desordeira do passeio da vespera, que por momentos dominara o terror do processo, reuniram-se em massa contra o Sylvino. O inspector salvou a força moral refugiando-se no alto da escada e fazendo de cima tregeitos energicos com a carteira e o lapis.

Á tardinha, em nome do director, foram convocados a castigo os cabeças do motim.

Eu no meio. Fomos alinhados vinte e tantos no corredor que partia do refeitorio. Na qualidade de _presos politicos_, victimas de generosa sedição, não nos vexava a penitencia. Uns conversavam gracejando, outros sentavam-se no soalho. Junto de mim ficava um armario dos apparelhos escolares, revestindo-se a vidraça de uma tela protectora de metal. Atravez do arame, na ultima luz vespertina, eu espiava lá dentro os queridos planetas de vago brilho, como a noite encarcerada ainda.

Por traz do armario, havia uma porta. Conversavam do outro lado, na saia das visitas, Aristarcho e o guarda-livros. Chegavam-me palavras perdidas, «... De boa familia... dous, um descredito!... Vão pensar... Expulsar não é corrigir... Isto é o menos; não ha gratuitos?... Sim, sim... Quanto a mim... desagradavel sempre riscar... bórra a escripta... Em summa... mocidade...»

Acabavam de accender a illuminação do _Atheneu_.

Decididamente, era um dia nefasto. Do corredor, ouvimos enorme barulho no pateo. Recomeçavam as vaias. Protegidos pela noite, mostravam-se mais alvoroçados os rapazes. Era um tumulto indescriptivel, vozear de populaça em revolta, silvos, brados, injurias, em que os gritos estridulos dos pequenos destacavam-se como arestas da massa confusa de clamores.

Os inspectores chegaram aterrados a procurar o director, mostrando a cara salpicada de verrugas vermelhas. Adivinhei. Era a revolução da goiabada! Uma velha queixa.

A comida do _Atheneu_ não era pessima.

O razoavel para algumas centenas de tolinhos. Possuia mesmo o condimento indispensado das moscas, um regalo. Mas aborrecia a impertinencia insistida de certos pratos. Uma epidemia, por exemplo, de figados guizados, o anno todo! Ultimamente, havia tres mezes, a _goiabada_ molle de bananas, manufactura economica do despenseiro.

Aristarcho empallideceu de despeito. Visava-o directamente a desaforada insurreição. E isto no mesmo dia em que fizera espectaculo da justiça tremenda. Não quiz, entretanto, arriscar o prestigio. Vimol-o no corredor, incerto, sem sangue, mandando que voltassem os bedéis a acalmar.

Torturava-o ainda em cima o ser ou não ser das expulsões. Expulsar... expulsar... fallir talvez. O codigo, em letra gothica, na moldura preta, lá estava imperioso o formal como a Lei, prescrevendo a desligação tambem contra os chefes da revolta... Moralidade, disciplina, tudo ao mesmo tempo... Era de mais! era de mais!... Entrava-lhe a justiça pelos bolsos como um desastre. O melhor a fazer era chimpar um murro no vidro amaldiçoado, rasgar ao vento a letra de patacoadas, aquella porqueira gothica de justiça!

[Figura 31]

Quando informaram qual o motivo das assuadas, saiu-lhe um peso do coração! «Ah! Tinham motivo... Mas aquillo era patota do despenseiro... Pedras que lhe atirassem seria pouco... Mas não tinha culpa... Era industria secreta a goiabada de bananas!...»

A sineta, chamando á ceia, pacificou os animos. Espalhou-se que Aristarcho rendia-se á revolta e ia falar.

Á mesma porta em que apparecera formidavel de manhã, surgiu-nos transformado, manso, liso como a propria cordura e a lealdade; altivo, comtudo, quanto comportava a submissão.

«Mas por que, meus amigos, não formularam uma representação? A representação é o motim reduzido á expressão ordeira e papeliforme! Qual a necessidade da representação por assuadas? Têm todos razão... Perdôo a todos... Mas eu sou tão enganado como os senhores... Até hoje estava convencido de que a goiabada era de goiaba... A verba consagrada é para a legitima de Campos... Nesta casa não ha miserias!... Quando alguma cousa faltar, reclamem, que aqui estou eu para as providencias, vosso Mestre, vosso pae!... Legitimo cascão de Campos... Aqui têm as latas... Mais latas!... leiam o rotulo... Como podia eu suspeitar...»