O Atheneu (chronica de saudades)

Part 16

Chapter 163,648 wordsPublic domain

Durante meia hora houve uma cousa estranha: uma convulsão angustiosa de barbas no espaço. Crescente. Desappareceu o poeta, desappareceu o palanque, encheu-se o amphitheatro, foi-se o throno com a Alteza Regente, a longa mesa com Aristarcho e o Ex.^mo do imperio, ennovellaram-se as archibancadas, desappareceu tudo numa expansão incalculavel de suissas, jubileu de queixos. Ninguem mais se via, nada mais, no cahos tormentoso de pellos, onde uma voz passava atroadora, carga tremenda de esquadrões pela noite espessa, calcando versos como patadas, esmagando, rompendo avante.

[Figura 41]

Até que tornamos a ver o nariz. Acalmaram pouco a pouco as barbas. Recolheram-se como uma inundação que se retira. Estava acabada a poesia. Ninguem percebeu palavra do berreiro, porém a impressão foi formidavel.

Depois de uma parte de concerto, que foi como descanço reparador, seguiu-se a offerta do busto. Teve a palavra o professor Venancio.

Aristarcho, na grande mesa, soffreu o segundo abalo de terror d'aquella solemnidade. Fez um esforço, preparou-se. É preciso ás vezes tanta bravura para arrostar o encomio face a face, como as aggressões. A propria vaidade acovarda-se. Venancio ia falar: coragem! A oscillação do thuribulo póde fazer enjôo. Elle receiava uma cousa que talvez seja a enxaqueca dos deuses: tonturas do muito incenso. Gostava do elogio, immensamente. Mas o Venancio era de mais. E alli, diante d'aquelle mundo! Não importa! Viva o heroismo.

Era conveniente postar-se em attitude severa bastante e olympica, para corresponder á glorificação de Venancio. Prompto.

O orador accumulou paciente todos os epithetos de engrandecimento, desde o raro metal da sinceridade até o cobre ductil, cantante das adulações. Fundiu a mistura numa fogueira de calorosas emphases, e sobre a massa bateu como um cyclope, longamente, até accentuar a imagem monumental do director.

Aristarcho depois do primeiro receio esquecia-se na delicia de uma metamorphose. Venancio era o seu esculptor.

A estatua não era mais uma aspiração; batiam-na alli. Elle sentia metallisar-se a carne á medida que o Venancio falava. Comprehendia inversamente o prazer de transmutação da materia bruta que a alma artistica penetra e anima; congelava-lhe os membros uma frialdade de ferro; á epiderme, nas mãos, na face, via, adivinhava reflexos desconhecidos de polimento. Consolidavam-se as dobras das roupas em modelagem resistente e fixa. Sentia-se estranhamente massiço por dentro, como se houvera bebido gesso. Parava-lhe o sangue nas arterias comprimidas. Perdia a sensação da roupa; empedernia-se, mineralisava-se todo. Não era um ser humano: era um corpo inorganico, rochedo inerte, blóco metallico, escoria de fundição, fórma de bronze, vivendo a vida exterior das esculpturas, sem consciencia, sem individualidade, morto sobre a cadeira, oh, gloria! mas feito estatua.

«Coroemol-o!» bradou de subito Venancio.

Neste momento, o Climaco estrategicamente postado, puxou com força um cordão. Da capa verde dilacerada, emergiu a surpreza: o busto da offerta. Um pouco de sol rasteiro, passando a lona, vinha de encommenda estilhaçar-se contra o metal novo.

--Coroemol-o! repetia Venancio, num vendaval de acclamações. E saccando da tribuna esplendida corôa de louros, que ninguem vira, collocou-a sobre a figura.

Aristarcho caiu em si. Referia-se ao busto toda a oração encomiastica de Venancio. Nada para elle das bellas apostrophes! Teve ciumes, O gozo da metamorphose fôra uma allucicação. O acclamado, o endeosado era o busto: elle continuava a ser o pobre Aristarcho, mortal, de carne e osso. O proprio Venancio, o fiel Venancio, abandonava-o. E por causa d'aquillo, d'aquella cousa mesquinha sobre a peanha, aquelle pedaço de Aristarcho, que nem ao menos era gente!

Mal acabou de falar o professor, viu-se Aristarcho levantar-se, atravessar freneticamente o espaço atapetado, arrancar a corôa de louros ao busto.

Louvaram todos a magnanimidade da modestia.

Mas o dia acabou insipido para o director. Ruminava confusamente a tristeza d'aquella rivalidade nova--o bronze invencivel.

Por que não usam os grandes homens, em vez de poltronas, pedestaes?

Que vale a estatua, se não somos nós? A adopção do pedestal nas mobilias teria ao menos a vantagem de facilitar a provação da gloria, de vez em quando, da gloria effectiva, gloria actual, gloria pratica.

Tinha-se alli a um canto a columna. Era vir a necessidade, nada mais facil: galgava-se a elevação, ensaiava-se a postura, esperava-se immovel que cedesse o espasmo. Mas... não! força era acceitar a verdade amarga.

O monumento prescinde do heróe, não o conhece, demitte-o por substituição, sopêa-o, anulla-o.

Com os diabos! Por que ha de ser isto afinal a immortalidade: um pedaço de marmore sobre um defunto?!

Á noitinha retiravam-se os convidados, as familias, multidão confusa de alegrias e despeitos. As mães acariciando muito o filho sem premio, os paes odiando o director, olhando como vencidos para os que passavam satisfeitos, os outros paes, os collegas do filho, menos infatuados da propria victoria que da humilhação alheia.

Humilde, a um canto, á beira da corrente dos que iam, pouco além da entrada do amphitheatro, mostraram-me uma familia de lucto--a familia do Franco. O desembargador, de chapéo na mão, esquecendo de cobrir-se; homem baixo, physionomia acabrunhada, longas barbas grisalhas, calvo, olhos miudos, palpebras em bolsa.

Tinha vindo de Matto Grosso um anno mais tarde do que pretendia. O correspondente dera a noticia.

Andava agora mostrando á familia o Rio de Janeiro. Viera á festa collegial, ao collegio do filho, para distrahir a filha, a raptada, que alli estava com a mãe e duas irmãs menores, muito pallida, delgada, num idiotismo sombrio, insanavel de melancolia e mudez, pestanas caidas, olhar na terra, como quem pensa encontrar alguma cousa.

XII

Musica estranha, na hora calida. Devia ser Gottschalk. Aquelle esforço agonisante dos sons, lentos, pungidos, angustia deliciosa de extremo gozo em que póde ficar a vida porque fôra uma conclusão triumphal. Notas graves, uma, uma; pausas de silencio e tréva em que o instrumento succumbe e logo um dia claro de renascença, que illumina o mundo como o momento phantastico do relampago, que a escuridão novamente abate...

Ha reminiscencias sonoras que ficam perpetuas, como um echo do passado. Recorda-me, ás vezes, o piano, resurge-me aquella data.

Do fundo repouso caído de convalescente, serenidade extenuada em que nos deixa a febre, infantilisados no enfraquecimento como a recomeçar a vida, inermes contra a sensação por um requinte morbido da sensibilidade--eu aspirava a musica como a embriaguez dulcissima de um perfume funesto; a musica envolvia-me num contagio de vibração, como se houvesse nervos no ar. As notas distantes cresciam-me n'alma em resonancia enorme de cisterna; eu soffria, como das palpitações fortes do coração quando o sentimento exacerba-se--a sensualidade dissolvente dos sons.

Lasso, sobre os lençóes, em conforto ideal de tumulo, que a vontade morrera, eu deixava martyrisar-me o encanto. A imaginação de azas crescidas, fugia solta.

E reconhecia visões antigas, no tecto da enfermaria, no papel das paredes rosa desmaiado, côr propria, enferma e pallejante... Aquelle rosto branco, cabellos de ondina, abertos ao meio, desatados, negrissimos, desatados para os hombros, a adorada dos sete annos que me tivera uma estrophe, parodia de um almanak, valha a verdade, e que lhe fôra entregue, sangrento escarneo! pelo proprio noivo; outra igualmente clara, a pequenina, a morta, que eu prezara tanto, cuja existencia fôra no mundo como o revoar das roupas que os sonhos levam, coma a phrase fugitiva de um hymno de anjos que o azul embebe... Outras lembranças confusas, precipitadas, mutações macias, incançaveis de nuvens, enlevando com a tonteira da elevação; lisas escapadas por um plano obliquo de vôo, oscillação de prodigioso aerostato, serena, em plena atmosphera...

Panoramas completos, uma partida, abraços, lagrimas, o steamer preto, sobre a agua esmeralda, inquieta e sem fundo, a gradezinha de cordas brancas cercando a pôpa, os salva-vidas como grandes collares achatados, cabos que se perdiam para cima, correntes que se dissolviam na espessura vitrea do mar; a camara dourada, baixa, suffocante, o torvelinho dos que se accommodam para ficar, dos que se apressam para descer aos escaleres...

Uma janella. Em baixo, o coradouro, espaçoso; para diante mangueiras arredondando a copa sombria na tela nitida do céu; além das mangueiras, conglobações de cumulus crescendo a olhos vistos, floresta collossal de prata; de outro lado, montanhas arborisadas, expondo num ponto e noutro, saliencias peitoraes de ferrugem como armaduras velhas. No coradouro estendidas, peças de roupa, iriadas de sabão, meias compridas de ourela vermelha, desenroladas na relva, saudosas da perna ausente, grandes lençóes, vestidos rugosos de molhados; acima do coradouro, cordas, ás cordas camisas transparentes, decotadas, rendadas, sem manga, lacrimejando espaçadamente a lavagem como se suassem ao sol a transpiração de muitas fadigas; saias brancas que dançavam na brisa a lembrança choreographica da _soirée_ mais recente.

Quando o vento era mais forte, enfunava as roupas estendidas, inflando ventres de mulher nas saias, nas camisas. Angela apparecia. Sempre no seu raio de sol, como as fadas no raio de lua. Saudava-me á janella com uma das exclamações vivas de menino surpreso. Sem paletot, ás mãos, empilhados, dous montes de roupa enxaguada. Ajudava a lavadeira para distrahir-se. Falava olhando para cima, affrontando o dia sem cobrir os olhos.

Estava aborrecida, uma preguiça! uma preguiça! uma vontade de deitar no collo! começava as infinitas historias, narradas de vagar, como derretidas no labio quente, muito repisadas, de quando era pequena, aventuras da immigração, as casas onde trabalhara; contava as origens do drama do outro anno... Tratara de accommodar os dous para vêr se as cousas chegavam a bom termo; a desgraça não quiz. Agora, para falar a verdade, gostava mais do que morreu. O assassino era muito máu, exigia cousas d'ella como se fosse uma escrava; era bruto, bruto. Mas era de Hespanha; companheiros de viagem, e um homem bonito! sacudido, eu bem tinha conhecido; mas judiava d'ella; batia, empurrava: olhe, ainda tinha signaes, e levantava candidamente o vestido para mostrar, no joelho, na coxa, cicatrizes, manchas antigas que eu não via absolutamente, nem ella.

Cessava a musica...

As venezianas abertas davam entrada á claridade do tempo. Entrava simultaneamente um borborinho imperceptivel de arvores, falando longe, gorgeios ciciados de passaros, gritos humanos indistinctamente, attenuados pela immensa distancia, martelladas miudas de canteiro, tremor de carros nas ruas, miniatura extrema de trovão, parcellas infimas da vida pulverisadas na luz...

A porta da enfermaria descerrava-se de vagarinho e na matinée de musselina elegante e frouxa apparecia a amavel senhora. Vinha verificar se eu dormia, saber como passava agora.

[Figura 42]

Bastava a sua presença para reanimar-me no leito. Tão boa, tão boa no seu carinho de enfermeira, de mãe.

Junto da cama, um velador modesto e uma cadeira. Emma sentava-se. Pousava os cotovellos á beira do colchão, o olhar nos meus olhos aquelle olhar inolvidavel, negro, profundo como um abysmo, bordado pelas seducções todas da vertigem. Eu não podia resistir, fechava as palpebras; sentia ainda na palpebra com o halito de velludo a caricia d'aquella attenção.

Ao fim de algum tempo, a senhora, a vêr se eu tinha febre, demorava-me a pequenina mão sobre a testa, finissima, fresca, deliciosa como um diadema de felicidade.

Eu me perdia numa somnolencia sem nome que jamais lograram produzir os mais suaves vapores do narcotismo oriental.

Com o regimen fortificante d'esta therapeutica, voltava-me rapidamente a saude.

Logo depois da festa de educação physica, que foi alguns dias depois da grande solemnidade dos premios, eu adoecera. Sarampos, sem mais nem menos. Por motivo dos seus padecimentos, meu pae seguira para a Europa, levando a familia. Eu ficara no _Atheneu_, confiado ao director, como a um correspondente.

Meia duzia de rapazes eram meus companheiros. Que terrivel soledade o _Atheneu_ deserto. No pateo, o silencio dormia ao sol, como um lagarto. Vagavamos, bocejando pelas salas desmontadas, despidas; as carteiras amontoadas num canto, na caliça os pregos sómente das cartas com alguns quadros restantes de maximas, por maior insipidez, os mais teimosos conselhos moraes. Nos dormitorios, as camas desfeitas mostravam o esqueleto de ferro pintado, o xadrez das chapas cruzadas. Principiava um serviço vasto de lavagem, envernizagem, caiação; vieram pintores reformar os aspectos do edificio que se renovavam todos os annos.

Os tristes reclusos das férias, ficavamos, no meio d'aquella restauração geral, como cousas antigas, do outro anno, com o deploravel inconveniente de se não poder caiar de novo e pintar.

Nesta situação, como do excesso de brilho das paredes em sol, que debatiam fulgores na melancolia morna da circumvizinhança dos morros, começaram a doer-me os olhos até á lagrima, forrou-me a lingua um sabor desagradavel de castanhas cruas. Seria isso o gosto do aborrecimento? Pesava-me a cabeça, o corpo todo, como se eu me cobrisse de chumbo.

Assim passei alguns dias, sem me queixar. Certa manhã, descubro no corpo, um formigueiro de pintinhas rubras. Aristarcho fez-me recolher na enfermaria, um prolongamento de sua residencia para os lados da natação. Veio medico, o mesmo do Franco; não me matou. D. Emma foi para mim o verdadeiro soccorro. Sabia tanto zelar, animar, acariciar, que a propria agonia aos cuidados do seu trato fôra uma resurreição.

A enfermaria era um simples lance da casa; especie de pavilhão lateral, com entrada independente pela chacara e communicando por dentro com as outras peças.

A senhora não deixava a enfermaria. Vigiava-me o somno, as crises de delirio, como uma irmã de caridade.

Aristarcho surgia ás vezes solemnemente, sem demorar. Angela nunca. Fôra-lhe prohibida a entrada.

Junto da cama, D. Emma commovia-se, mirando a prostração pallida, ao reabrir os olhos de um d'esses periodos de somno dos enfermos, que tão bem fingem de morte. Tirava-me a mão, prendia nas della tempo esquecido; luzia-lhe no olhar um brilho de pranto. A alimentação da dieta era ella quem trazia, quem servia. Ás vezes por gracejo carinhoso queria levar-me ella mesma o alimento á bocca, a colherinha de sagú, que primeiro provava com um adoravel amúo de beijo. Se precisava andar no aposento para mudar um frasco, entreabrir a janella, caminhava como uma sombra por um chão de paina.

Eu me sentia pequeno deliciosamente naquelle circulo de conchego como em um ninho.

Quando entrei em convalescença, a graciosa enfermeira tornou-se alegre. Ás escondidas do medico, embriagava-me, com aquella medicina de risos, gargarejo inimitavel de perolas a todo pretexto. Tagarellava, agitava-se como um passaro preso. Cantava, ás vezes, para adormecer-me, musicas desconhecidas, tão finamente, tão subtilmente, que os sons morriam-lhe quasi nos labios, brandos como o adejo brando da borboleta que expira. Quando me julgava adormecido, arranjava-me ao hombro a colcha, alisando-a sobre o corpo; uma vez beijou-me na tempora. E retirava-se, insensivelmente, evaporava-se.

Por um acaso da distribuição acustica dos compartimentos da casa, ouvia-se bem, agradavelmente amaciado, o som do piano do salão. A amavel senhora, para mandar-me da sua ausencia alguma cousa ainda, que acariciasse; que me fosse agradavel, traduzia no teclado com a mesma brandura sentida as musicas que sabia cantar. Nenhuma violencia de execução. Sentimento; apenas, sentimento, successão melodica de sons profundos, destacados como o dobre em Novembro, dos bronzes; depois, uma enfiada brilhante de lagrimas, colhidas num lago de repouso, final, sereno, consolado... effeitos commoventes da musica de Schopenhauer; fórma sem materia, turba de espiritos aereos.

A primeira vez que me levantei, tremulo da fraqueza, Emma amparou-me até á janella. Dez horas. Havia ainda a frescura matinal na terra. Diante de nós o jardim virente, constellado de margaridas; depois, um muro de hera, bambús á direita; uma zona do capinzal fronteiro; depois, casas, torres, mais casas adiante, telhados ainda á distancia, a cidade. Tudo me parecia desconhecido, renovado. Curioso esplendor revestia aquelle espectaculo. Era a primeira vez que me encantavam assim aquellas gradações de verde, o verde negro, de faiença, luzente da hera, o verde fluctuante mais claro dos bambús, o verde clarissimo do campo ao longe sobre o muro, em todo o fulgor da manhã. Tectos de casas, que novidade! que novidade o perfil de uma chaminé riscando o espaço! Emma entregava-se, como eu, ao prazer dos olhos. Sustinha-me em leve enlace; tocava-me com o quadril em descanço.

Absorvendo-me na contemplação da manhã, penetrado de ternura, inclinei a cabeça para o hombro de Emma, como um filho, entrecerrando os cilios, vendo o campo, os tectos vermelhos como cousas sonhadas em affastamento infinito, através de um tecido vibrante de luz e ouro.

Desde essa occasião, fez-se-me desesperada necessidade a companhia da boa senhora. Não! eu não amara nunca assim a minha mãe. Ella andava agora em viagem por paizes remotos, como se não vivesse mais para mim. Eu não sentia a falta. Não pensava nella... Escureceu-me as recordações aquelle olhar negro, bello, poderoso, como se perdem as linhas, as fórmas, os perfis, as tintas, de noite, no anniquilamento uniforme da sombra... Bem pouco, um resto desfeito de saudades para aquella inercia intensa, avassallando.

Apavorava-me apenas um susto, alarma eterno dos felizes, azedume insanavel dos melhores dias: não fosse subitamente destruir-se a situação. A convalescença progredia; era um desgosto.

No pequeno aposento da enfermaria, encerrava-se o mundo para mim. O meu passado eram as lembranças do dia anterior, um especial affago de Emma, uma attitude seductora que se me firmava na memoria como um painel presente, as duas covinhas que eu beijava, que ella deixava dos cotovellos no colchão premido, ao partir, depois da ultima visita, á noite, em que ficava como a esperar que eu dormisse, apoiando o rosto nas mãos, os braços na cama, impondo-me a lethargia magnetica do vasto olhar.

O meu futuro era o despertar precoce, a anciada esperança da primeira visita. Saltava da cama, abria imprudentemente a vidraça, a veneziana. Ainda escuro. Uma luz em frente, longinqua, irradiava solitaria, reforçando pelo contraste a obscuridade. Por toda a parte o firmamento limpo. O mais completo silencio. Dir-se-ia ouvir no silencio azul das alturas a crepitação das estrellas ardendo.

Eu tomava ao leito. Esperava. Não dormia mais. Ao fim de muito tempo, entrava na enfermaria, vinha ter aos lençóes, de mansinho, como uma insinuação derramada de leite, a primeira manifestação da alvorada. O arvoredo movia-se fóra com um bulicio progressivo de folhagem que acorda. A luz meiga, receiosa, desenvolvia-se docemente pelo soalho, pelas paredes.

Havia no aposento um grande chromo de paysagem, montanhas de neve no fundo, mais á vista, uma vivenda desmantelada, uma cachoeira de anil e pinheiros espectraes, trabalhados, encanecidos por um seculo de tormentas. A madrugada subia ao quadro, como se amanhecesse tambem na região dos pinheiros. Eu esperando. A madrugada progredia.

Toucava-se a vegetação de côres diurnas. Dialogava o primeiro trilar da passarada. Eu esperando ainda. E ella vinha... com a aurora.

Trouxe-me uma vez uma carta, de Paris, de meu pae.

«... Salvar o momento presente. A regra moral é a mesma da actividade. Nada para amanhã, do que póde ser hoje; salvar o presente. Nada mais preoccupe. O futuro é corruptor, o passado é dissolvente, só a actualidade é forte. Saudade, uma covardia, apprehensão outra covardia. O dia de amanhã transige; o passado entristece e a tristeza afrouxa.

Saudade, apprehensão, esperança, vãos phantasmas, projecções inanes de miragem; vive apenas o instante actual e transitorio. É salval-o! salvar o naufrago do tempo.

Quanto á linha de conducta: para diante. É a honesta logica das acções.

Para diante, na linha do dever, é o mesmo que para cima. Em geral, a despeza de heroismo é nenhuma. Pensa nisto. Para que a mentira prevaleça, é mister um systema completo de mentiras harmonicas. Não mentir é simples.

... Estou numa grande cidade, interessante, movimentada. As casas são mais altas que lá; em compensação, os tectos, mais baixos. Dir-se-ia que o andar de cima esmaga-nos. E como cada um tem sobre a cabeça um vizinho mais pobre, parece que a oppressão, aqui, pesa da miseria sobre os ricos.

A agitação não me faz bem.

Abro a janella para o boulevard: uma effervescencia de animação, de ruido, de povo, a festa illuminada dos negocios, das tentativas, das fortunas... Mas todos vêm, passam diante de mim, affastam-se, desapparecem. Que espectaculo para um doente. Parece que é a vida que foge.

Dou-te a minha benção...»

Momento presente... Eu tinha ainda contra a face a mão que me dera a carta; contra a face, contra os labios, venturosamente, ardentemente, como se fosse aquelle o momento, como se bebesse na linda concha da palma o gozo immortal da viva verdade.

[Figura 43]

«Ah! Tem ainda um pae» disse Emma, uma querida mãe, irmãos que o amam... Eu nada tenho; todos mortos... apparecem-me ás vezes á noite... sombras. Ninguem por mim. Nesta casa sou de mais... Deixemos essas cousas.

Não sabe o que é um coração isolado como eu... Todos mentem. Os que se aproximam são os mais traidores...»

A convivencia quotidiana na solidão do aposento estabelecera a entranhada familiaridade dos casaes.

Emma affectava não ter mais para mim avarezas de colchete. «Sergio, meu filhinho.» Dava-me os bons dias. Saia, voltava fresca, como grande, vernal sorriso rorejado ainda do orvalho das ablações. Rindo sem causa: da claridade feliz da manhã, de me vêr forte, quasi bom.

Debruçava-se expansiva, resplendendo a formosura sobre mim, na golla do peignoir, como um derramamento de flôres de uma cornucopia.

Tomava-me a fronte nas mãos, collava á d'ella; arredava-se um pouco e olhava-me de perto, bem dentro dos olhos, num encontro inebriante de olhares. Aproximava o rosto e contava, labios sobre labios, mimosas historietas sem texto, em que falava mais a vivacidade sanguinea da bocca, do que a imperceptivel confusão de arrulhos cantando-lhe na garganta como um collar sonoro.

Achava-me pequenino, pequenino. Sentava-se á cadeira. Tomava-me ao collo, acalentava-me, agitava-me contra o seio como um recem-nascido, inundando-me de irradiações quentes de maternidade, de amor. Desprendia os cabellos e com um ligeiro movimento de espaduas fazia cair sobre mim uma tenda escura. De cima, sobre as faces, chegava-me o bafejo tepido da respiração. Eu via, ao fundo da tenda, incerto como em sonhos, a fulguração sideral de dous olhos.

E fôra preciso que soubesse ferir o coração e escrever com a propria vida uma pagina de sangue para fazer a historia dos dias que vieram, os ultimos dias...

E tudo acabou com um fim brusco de máu romance...

Um grito subito fez-me estremecer no leito: Fogo! logo! Abri violentamente a janella. O _Atheneu_ ardia.

As chammas elevavam-se por cima do _chalet_, na direcção do edificio principal. Immenso globo de fumo convulsionava-se nos ares, tenebroso da parte de cima, que parecia chegar ao céu, illuminado inferiormente por um clarão côr de cobre.

Na casa de Aristarcho reinava o maior silencio.

As portas abertas, todos tinham saído. Precipitei-me para fóra da enfermaria.