O Atheneu (chronica de saudades)

Part 15

Chapter 153,606 wordsPublic domain

Cumpre que se institua, que se desenvolva, que floresça e se multiplique a escola positiva do conflicto social com os máus educadores e as companhias perigosas, na communhão corruptora, no tédio de claustro, de inacção, de carcere; cumpre que os generosos ardores da alma primitiva e ingenua se disciplinem na desillusão crua e prematura, que nunca é cedo para sentir que o futuro importa em mais que flanar facilmente, mãos ás costas, fronte ás nuvens, através das praças desimpedidas da republica de Platão.

[Figura 38]

Durante a conferencia pensei no Franco. Cada uma das opiniões do professor, eu applicava onerosamente ao pobre eleito da desdita, pagando por trimestre o seu abandono naquella casa, aluguel do desprezo. Lembrava-me do desembargador em Matto-Grosso e da carta que eu lera e da irmã raptada, da vingança extravagante dos cacos, da timidez baixa das maneiras, da concentração muda de odios, dos movimentos incompletos de revolta, da submissão final de escorraçado que se resigna. Tive pena.

Depois da conferencia fui visital-o.

Estava de cama no salão verde, á direita, perto das janellas. Andava adoentado desde a ultima vez que fôra á prisão.

Embaixo da casa. Fazia-se entrada pelo saguão cimentado dos lavatorios; sentia-se uma impressão de escuro absoluto; para os lados, á distancia, brilhavam vivamente, como olhos brancos, alguns respiradouros gradeados daquella especie de immensa adega. O chão era de terra batida, mal enxuta. Impressionava logo um cheiro humido de cogumelos pisados. Com a meia claridade dos respiradouros, habituando-se a vista, distinguia-se no meio uma especie de gaiola ou capoeira de travessões fortes de pinho. Dentro da gaiola um banco e uma taboa pregada, por mesa. Sobre a mesa um tinteiro de barro. Era a cafúa.

Engaiolava-se o condemnado na amavel companhia dos remorsos e da execração; ainda em cima, uma tarefa de paginas, para a qual o mais difficil era arranjar luz bastante. De espaço a espaço, galopava um rato no invisivel; ás vezes vinham subir ás pernas do condemnado os animaezinhos repugnantes dos logares lobregos. Á soltura surgia o preso, pallido como um redivivo, espantado do ar claro como de uma cousa incrivel. Alguns achavam meio de voltar verdadeiramente abatidos.

Franco saiu doente.

Alguns collegas mostravam interesse por elle. Franco respondia com aspereza: não tinha nada! Eram todos culpados; havia de adoecer, havia de adoecer gravemente para que tivessem remorsos, elles mesmos, o Sylvino, Aristarcho, todos os seus algozes! Raciocinava como as victimas da antiga escola, que se deixavam morrer fiadas no espectro. E occultou que soffria.

Devorou-o por semanas uma febre ligeira, mas impertinente. Expunha-se á soalheira, ao sereno, de proposito.

Um dia não pôde levantar-se.

Dorzinha de cabeça, explicava. Vinham-lhe nauseas, elle corria á janella. Em baixo havia um pé de magnolias, copado como um bosque; elle no intervallo dos arrancos entretinha-se em aprumar o fio visguento do vómito contra as amplas flôres alvas.

Encontrei-o mal.

Com a cabeça afundada no travesseiro, sumido sob a porção de cobertores que os vizinhos haviam cedido, affectava o descuido infantil, na physionomia, a indifferença horripilante, suprema dos que não vão longe. Fiquei surprehendido e aterrado.

O medico, a chamado de Aristarcho, viera duas vezes. Condemnou a idéa de remover-se o doente; recommendou cuidado com as vidraças; diagnosticou uma febre qualquer, redigindo o _recipe_, partindo ambas as vezes com a discrição hermetica que faz a importancia da classe.

Perguntei ao Franco como passava. Elle agitou de vagar as palpebras e sorriu-se. Nunca lhe conheci tão bello sorriso, sorriso de criança á morte. Oito horas da noite. O gaz attenuado produzia effluvios contristadores de claridade. Retirei-me sem aprofundar a vista pelos outros dormitorios, em cujas vidraças espelhantes devia passar successivamente a minha sombra. Procurei o director e communiquei-lhe os meus terrores.

No dia seguinte, um domingo alegre. Franco estava morto.

O correspondente compareceu em pessoa para as indispensaveis providencias. Transferiu-se o corpo para a capella, onde se erigia a eça. Aristarcho chorou; mas o saimento foi modesto; não convinha ao collegio o apparato de um grande enterro, pregão talvez de insalubridade.

[Figura 39]

Eu nada vi; quando subi ao salão verde novamente, estava tudo acabado. Alguns rapazes revolviam curiosos na gaveta do Franco o espolio da morte, uma escova de dentes esfiapada, tingida do carmim de um pó chinez, uma velha correia sem fivella, uma photographia gorda de mulher despindo os seios, cartas á tôa e um maço consideravel de boas notas, arranjadas ninguem sabe como, com assignaturas falsas de professores, e o nome de Franco, fraude de successo com que o pobre pretendia maravilhar o magistrado de Cuyabá.

Desmanchando-se a cama, caiu dos lençóes um cartão: uma gravura, Santa Rosalia! a minha padroeira desapparecida. Morrera talvez beijando-a, o pária.

Pouco tempo depois, o _Atheneu_ em festa.

Preparava-se a solemnidade da distribuição biennal dos premios. As benemerencias andavam famintas de corôas. Suspenderam-se as aulas. Era preciso começar o preparativo com grande anterioridade, porque se projectava cousa nunca vista. Alguns discipulos tinham prevenido ao director, guardavam-lhe uma surpreza: a offerta de um busto de bronze! Aristarcho predispunha-se para a surpreza com todas as veras da alma. Um busto! era a remuneração que chegava dos impagaveis esforços, a sonhada estatua. Vinha-lhe aos pedaços. Começavam pela cabeça; mais tarde, offerecer-lhe-iam o abdomen, bella pança metallica e magnifico umbigo de bonzo gordo, saliente como um murro; depois, o prolongamento do corpo, aos roletes, gradualmente... Ah! quando lhe offerecessem as botas!... Depois, não seria preciso mais: o pedestal, elle mesmo offerecer-se-ia para adiantar. E parafusaria, accumuladas, as peças do seu orgulho, a pilha dos seus anhelos, a estatua! surgida aos poucos da sinceridade vagarosa das oblações, como difficilmente a gloria, do escrutinio demorado dos tempos.

Devia ser uma solemnidade sem memoria nos fastos da pedagogia triumphante, um obelisco de despezas, de luxo, de esplendor, a cuja ponta, como a erupção de uma cratera, saltasse a surpreza, galardão das altas qualidades e pirraça suprema á concorrencia dos rivaes.

Não havia sala no _Atheneu_ que comportasse tão vasta festividade; nem o proprio logar dos recreios abrigados. Resolveu-se cobrir de lona o pateo central, sobre grandes mastros plantados convenientemente. Uma barraca incalculavel, a maior barraca que a imaginação humana tem concebido, que abrangesse na sombra quatro mil pessoas, com o panno emprestado aos toldos, ao velame de uma esquadra. Embaixo, as archibancadas; reservando-se, no meio, espaçosa arena para a exhibição dos laureados. Por intermedio do ajudante-general da armada, que tinha dous filhos no estabelecimento, podia-se commodamente obter a lona.

Durante alguns dias chegaram ao _Atheneu_ cargas immensas de panno. Espichavam-se os rolos no pateo, ao longo das paredes. Appareceram em seguida as madeiras e os carpinteiros, um povo de carpinteiros.

Em meio dos operarios iam e vinham os estudantes, ajudando, atrapalhando, ás carreiras, aos saltos, aos gritos, presentindo a felicidade do dia solemne. Aristarcho approvava o tumulto; queria vêl-os alegres. A morte do Franco produzira uma penumbra de panico; alguns rapazes tinham ido para casa, receiosos da febre.

O alvoroço dos preparativos reanimava o _Atheneu_. Em poucos dias atravancou-se o pateo de postes e travessões, taboas e pés de serra, como um desmedido estaleiro. Os martellos batiam por todos os cantos com a crepitação continua dos tiroteios. Desapparecia a terra sob a poeira dos páus cortados. Aristarcho fiscalisava o serviço como mestre de obras, rondando calado, sério, sorvendo satisfeito as emanações da serragem fresca, cheiro de officina, cheiro do trabalho, ouvindo attritar os serrotes com um rumor de fabrica, que lembrava os haustos de offego do vapor ao vaevem poderoso dos embolos. Havia um prazer especial naquillo; crescer do chão em tres dias por honra sua a floresta das vigas e barrotes, ao esforço de tantos homens activos e azafamados; cantarem as taboas sob os malhos, desdobrando-se escadas e bancadas como um desafio ás exaltações, e prejulgar do effeito total, quando tudo fosse belbutina e panninho, e o concurso da população invadisse, e assomasse, de um terremoto de acclamações o busto, altaneiro e luzente.

Certo não foi tão nobre o orgulho d'aquelles monarchas das pyramides, idiotas macabros e collossaes, architectos inuteis de sepulcros.

Partiram os carpinteiros, apresentaram-se os armadores. Estenderam-se sobre o vigamento os toldos, as velas, como um céu de lona. As janellas do pateo abriam-se para o amphitheatro como tribunas.

Os armadores comprometteram em sanefas todo o pundonor do talento. Tudo que póde produzir de apparatoso o bem combinado das côres vivas e os apanhados de cassa fluctuante, e os lambrequins pintados do coreto, e as columnatas de papelão; tudo que póde a concordancia assombrosa da scenographia e da ripa, armou-se no pateo profusamente.

Na arena central expandia-se um tapete pardo, de flôres claras. Em parte da archibancada, convenientemente disposta, alinhavam-se cadeiras. Os estudantes e os assistentes somenos sentar-se-iam na taboa dura. As abertas de construcção que não podiam ficar assim em osso, foram empannadas de velludo com frisos de galão. Vermelho e ouro. Acima dos assentos havia uma linha de balaustres espiralados de fitas. Em cada balaustre um escudo com o nome do um pedagogo celebre. Por delicadeza incluiram o nome de Aristarcho varias vezes. Aristarcho não reparou.

Um dos lados do tapete ondeava-se em quatro degráus para um longo estrado, fronteiro á entrada do amphitheatro, apoiado á parede da sala geral de estudo. Erguia-se alli um throno, sob um docel, para a Princeza Regente. De vez em quando, Aristarcho, cançado de tanto mover-se, subia ao throno, sentava-se. Fazia-lhe bem o docel por cima. E dava regras aos armadores, de lá, como um soberano precavido dictando o esplendor da coroação.

Os iniciadores da subscripção do busto haviam concluido a tarefa. Eram dous: o Climaco, alumno gratuito, e o professor de desenho. Climaco, moço de espirito pratico, não levou muito a ruminar uma feliz idéa. E se offerecessemos um busto ao nosso director? Lembrou-se a principio de congregar os gratuitos; mas repelliu immediatamente a lembrança por inexequivel. A gratidão podia-se subscrever por todos; saía mais barato. Entrou em campo. Os primeiros assaltados pelo convite ficaram frios. Diabo! não estavam dispostos assim, a ser gratos de uma hora para outra. Consultasse os collegas, que, se a idéa pegasse, não teriam duvida. Alguns mais acanhados assignaram logo; alguns, ainda, dos pequenos assignaram sem saber claramente o que significava a cousa. Em poucos minutos a existencia da subscripção estava no dominio publico. Começou a pressão irresistivel de facto. Que miseria! hesitar por dez mil réis! Quem teria coragem de furtar-se ao testemunho publico de agradecimento que a offerta do busto significava? Era uma desfeita ao director! Os primeiros signatarios encarniçavam-se com despeito em coagir os outros, como se não quizessem ser os unicos sangrados.

Já não era preciso esforço do iniciador. A idéa ganhava terreno por si; em dous dias inteirava-se a subscripção. Muitos pegavam á vista; os que não tinham dinheiro iam tirar ao escriptorio, e o guarda-livros em segredo debitava o valor, despezas diversas, na conta do trimestre.

Diante da facilidade de obter o dinheiro, Climaco resolveu sensatamente dispensar do rateio os gratuitos: adheriam com a intenção sincera. Razoavel. Quando principiaram os preparativos da solemnidade, já o busto, obra de zeloso artista, estava fundido.

No dia 13 de Novembro, ás nove horas, começou a affluencia. O amphitheatro do pateo estava fechado ainda. Os convidados que appareciam, depois de comprimentar o director, espalhavam-se a passear em grupos pelo jardim, ou percorriam as salas do estabelecimento, examinando os apparelhos escolares, as cartas de parede, as maximas sabias, meditando a seriedade do ensino naquella casa. A aflluencia augmentou. Os convites tinham sido distribuidos largamente pela cidade. As onze horas era difficil circular no _Atheneu_. A festa principiava ás duas. Ao meio-dia franqueou-se o amphitheatro.

Foi como se se houvera aberto o seio de Abrahão. A ultima demão dos armadores fôra digna do primeiro esforço. Cruzavam-se, fazendo volta ás archibancadas, no alto, em bambinella, em fachas entrelaçadas, balançantes, o côr de rosa dos sorrisos infantis com uma tira alaranjada do arrebol; immediatamente depois, uma zona de vivo escarlate, ferindo sangue ás veias do mais subido jubilo; aprumavam-se as columnatas dos escudos; debaixo dos escudos, oito soberbos degráus da archibancada, velludo e galões. Perto do throno, elevava-se um palanque para o corpo docente; ao lado opposto, symetricamente, outro palanque para a banda de musica e para os cantores. Não se via mais o tecto de lona: alças enormes de ramaria e flôres enredavam-se ao alto em graciosa desordem, flaccidas, pendentes, como um diluvio de primavera a desprender-se. Entre o verdor carregado dos festões do tecto e o tapete pardo, vagava a serenidade obscura das cathedraes e das florestas, neblina penetrante de recolhimento. As pessoas que entravam guardavam silencio. O pouco que se ouvia de vozes era baixinho, cochichos de missa, surdina avelludada, amortecida, como se estivesse falando o tapete. A cornija de sanefas vibrava em desconcerto com a melancolia religiosa do recinto. Algumas nesgas da lona sobre a folhagem contrastavam ainda mais, abrindo-se á irrupção do dia.

Os alumnos entravam fardados, subiam, abancavam-se á esquerda, fazendo tremer o edificio todo de carpintaria. Aristarcho veio ficar á porta. Immenso reposteiro, rubro, de grandes borlas, desviava-se acima d'elle como para mostral-o. Calças pretas, casaca, peito blindado de condecorações, uma fita de dignitario ao pescoço, que o enforcava de nobreza. Mirando! A suprema correcção, a envergadura imponente do talhe, a majestade dominadora da presença, fundia-se tudo numa mesma umbigada de empafia. Os rapazes olhavam com o prazer do soldado que se orgulha do commandante. O Mestre invejavel, desempenado, brilhante para a festa, como se houvesse engolido um armador.

Ao redor de Aristarcho, ajudantes de ordens, apressavam-se os membros de uma commissão de recepção, composta de professores de bella presença, e alumnos em condições semelhantes. Realisavam com o director um cerimonial interessante de hospitalidade. Na entrada do amphitheatro comprimia-se a multidão dos convidados. Aristarcho e os ajudantes espiavam, farejavam, descobriam os paes, as familias dos de mais elevada posição social, que pescavam para o ingresso preterindo os mais proximos. Os escolhidos eram levados para as archibancadas de cadeiras. Se encontravam nos logares especiaes quem para lá não houvessem conduzido, convidavam delicadamente a levantar-se; que a familia do visconde de Tres Estrellas não podia ir para as taboas núas. Este rigor de etiqueta fazia suar a commissão, embaraçada na massa da concorrencia. Aristarcho aproveitava tambem para desforrar-se dos pagadores morosos da escripturação. Afinal deu na vista a pescaria dos selectos. Houve murmurios, estremecimento de surda revolta; os convites eram todos iguaes! e a pretexto de haver crescido a multidão, foram-se muitos esgueirando sem mais vêr director nem commissionados de cortezia.

O amphitheatro encheu-se tumultuariamente.

A Princeza Serenissima, com o augusto esposo, chegou pontual ás duas horas, accedendo ao convite que recebera primeiro que ninguem.

As duas e tres minutos, subia á tribuna Aristarcho. Não preciso dizer que a _caranguejola_ soffrera mais uma das grandes commoções da malfadada existencia. Alli estava, paciente e quadrada, no exercicio effectivo de porta-rhetorica. Ficava á direita do solio da princeza e diante do _Orpheon_.

[Figura 40]

Aristarcho inclinou-se ligeiramente para a Graciosa Senhora. Passeou um olhar sobre o amphitheatro. Não pôde dizer palavra. Pela primeira vez na vida sentiu-se mal diante de um auditorio. A massa de ouvintes apertava-se curiosa na linha das bancadas, em curva de ferradura. A côr preta das casacas e paletots generalisava-se no espaço como uma escuridão desnorteadora; amedrontava-o o semi-circulo negro, enorme. A impressão simultanea do publico impedia-lhe reconhecer uma physionomia amiga que o animasse. Mas urgia improvisar alguma cousa antes da eloquencia rabiscada que trazia em tiras de papel... Quando o olhar foi ter a um objecto que o chamou á consciencia de si mesmo. Diante da tribuna erigia-se uma peanha de madeira lustrosa; sobre a peanha uma fórma indeterminada, mysteriosamente envolta numa capa de lã verde. A surpreza! Era elle, que alli estava encapado na expectativa da opportunidade; elle bronze imperterrito, sua effigie, seu estimulo, seu exemplo: mais elle até do que elle proprio, a tremer; porque bronze era a verdade do seu caracter, que um momento absurdo de fraqueza desfigurava e subtrahia. Lembrou-se de que o vasto barracão, as alças de flôres, o vigamento, a belbutina, a architectura dos palanques, os galões alfinetados, todas as sanefas de panninho, o olhar dos discipulos, a presença da população, o busto na capa verde, tudo era o seu triumpho por seu triumpho, e o embaraço desvaneceu-se. A inspiração ferveu-lhe de engulho á guela, vibrou-lhe electrica na lingua, e elle falou. Falou como nunca, esqueceu o calhamaço sobresalente que trouxera, improvisou como Demosthenes, inundou a arena, os degráus do throno as ordens todas da archibancada até á oitava, com o mais espantoso chorrilho de facundia que se tem feito correr na terra.

O assumpto conjectura-se. Agradecimentos, o elogio de seus penares de apostolo. Abria a casaca e mostrava. Debaixo das commendas tinha as cicatrizes. As settas que lhe varavam a alma não se podiam vêr bem por causa do collete. Avaliava-se pela descripção: devia ser horrivel. Depois dos soffrimentos, os serviços.

O educador é como a musica do futuro, que se conhece em um dia para se comprehender no outro: a posteridade é que havia do julgar. Quanto ao seu passado, nem falemos! não olhava para traz por modestia, para não virar monumento, como a mulher de Loth. Com o _Atheneu_ estava satisfeito; uma sementeira razoavel; não se fazia rogar para florescer. Corações de terra roxa, onde as licções do bem pegavam vivo. Era cair a semente e a virtude instantanea espipocava. Uma maravilha, aquella horta fecunda! Antes de maldizerem, do hortelão, calumniadores e invejosos julgassem-lhe os repolhos, pesassem-lhe os nabos, as tronchudas couves, crespas, modestas, serviçaes, as candidas alfaces, as sensiveis cebolas de lagrima tão facil quanto sincera, as instruidas batatas, as delicadas abóboras, que todos vão plantar e ninguem planta; os alhos, typos eternos, ás vezes porros, da vivacidade bem aproveitada; sem contar os arrepiados maxixes, nem as congestas beringelas, nem os mastruços innommaveis, nem os agriões amargos, nem os espinafres insignificantes, nem o caruru, a bertalha, a trapoiraba dos banhos, que tem uma flôr galante, mas que afinal é matto. Horta paradisiaca que ufanava-se de cultivar! A distribuição dos premios mostraria.

Podia concluir voltando á vacca fria do louvor em bocca propria; preferiu uma simples bomba qualquer de rhetorica, porque o mestriculo Venancio ia tambem falar, e, na qualidade de pagem por dedicação, disputava-lhe sempre uma ponta para carregar do manto de glorias.

Seguiram-se algumas peças da banda do _Atheneu_ e os hymnos escolares.

Na parte concertante diziam que Aristarcho mandara encartar um solo de zabumba para exhibir o genro. Caçoadas.

A premiação foi, como devia ser, exuberante. Aristarcho leu um relatorio do movimento litterario nos dous ultimos annos. Lembrou o nome dos alumnos de medalhas de ouro e prata, desde a fundação da casa, e convidou o secretario a evocar, por ordem de merecimento, os novos premiados. Extensa lista. A cada nome descia um alumno, branco de emoção, atrapalhando os passos; e transpunha a arena.

Á esquerda do throno estava uma longa mesa, a que sentavam-se o Ex.^mo ministro do imperio e varios figurões da Instrucção Publica.

Diante d'elles, a cavalleiro, encobrindo-os, erguia-se uma pyramide verde de corôas de carvalho, papel e arame, e outra de corôas de ouro, idem, idem. Ouro para os de medalha; carvalho para o resto, em quantidade.

No estrado, a pouca distancia, ramas de livros luxuosamente encadernados. O premiado recebia tres, dous, um d'aquelles volumes, a medalha, a menção honrosa, um sermãozinho amavel do ministro, e saía com tudo, zonzo.

Em caminho, pelas costas, á traição, um inspector enfiava-lhe um dos diademas de papel; até os olhos, quando era grande de mais; e peior ainda quando era pequeno, porque o misero laureado tinha de o aguentar em equilibrio até á bancada.

O publico batia palmas, talvez ao premio, talvez á sorte.

Ribas, o Matta Corcundinha, Nearcho, o Saulo das distincções e mais outro, alcançaram medalha de ouro. Romulo, Malheiro, Climaco, Sanches, Maurilio, Barreto, mais uns quinze, medalha de prata. Eu, o Egbert, o Cruz da doutrina, o açafroado Barbalho, o Almeidinha, o Negrão e numerosissimos outros, a singela menção honrosa. Aos não contemplados, ficava a compensação de desfazer raso na justiça distribuida.

Na massa dos convidados, diversas centenas de representantes da boa sociedade, havia pessoas verdadeiramente notaveis: titulares de solida grandeza, argentarios de mais solidos titulos, vultos politicos de bella estampa e tradições sonoras, uns exhibindo á fronte as neves pensativas do hibernal senado, outros a energia moça da camara temporaria, medicos celebrisados por façanhas cirurgicas, ou simplesmente pela vivisecção reciproca de mazellas em pleno logradouro publico dos «a pedidos».

Havia jornalistas, litteratos, pintores, compositores; entre as senhoras, accumuladas principalmente nas bancadas especiaes, distinguiam-se perfis soberbos de rainha em toda a efflorescencia da formosura, que a claridade branda do logar vaporisava idealmente; havia ostentações de pedraria e vestuarios que impressionavam; havia juventudes de labios e de olhar enervantes ou arrebatadoras, morenas, forçando magicamente o torpor da sésta sensual sob a caricia oppressora de um pequenino pé victorioso, louras convidando a um enlace de transporte á nuvem, mais alto! ao retiro ethereo onde vivem amor as estrellas duplas... Nada d'isso era o grande attractivo, nada conseguia altear-se para nós um palmo na perspectiva geral da multidão; o nosso grande cuidado era o poeta, «o poeta!» murmurava o collegio, uns á procura, outros indicando. Era aquelle de pé, mão ao quadril, vistosamente, no palanque do professorado, entornando para as duas bandas, sobre as pessoas mais proximas, uma profusão assombrosa de suissas.

D'entre as suissas, como um gorgeio do bosque, saía um bello nariz alexandrino de dous hemistichios, artisticamente longo, disfarçando o cavallete da cesura, tal qual os da ultima moda no Parnaso. Á raiz do poetico appendice brilhavam dous olhos, vivissimos, redondos, de coruja, como os de Minerva. Tão vivos ao fundo das orbitas cavas, que bem se percebia alli como deve brilhar o fundo na physionomia da estrophe. O grande Dr. Icaro de Nascimento! Vinha ao _Atheneu_ exclusivamente para declamar uma poesia famosa, que havia algum tempo era o successo obrigado das festas escolares do Rio: O mestre. Logo depois dos premios, teve a palavra.