O Atheneu (chronica de saudades)
Part 14
Nem de proposito! na mesma occasião entrava e lançava-se precipitadamente pela escada o terrivel professor. «Não o conhece? Lá vae!» indicou-me um companheiro mais proximo.
--Não o conhecia...
Vi-o, magro, anguloso, feio, olhando com ferocidade continua, não se sabia felizmente para quem, porque era estrabico. Por elle começou o meu improvisado informante, e, conhecendo que eu andava atrazado a respeito, não me deixou mais: «Se tem empenho, fura; se não tem, babáu. Bancas de peixe! O peixe é caro ás vezes, mas é sempre peixe de mercado. Olhe o Meirelles da philosophia, aquelle compridão de barba russa; o empenho é a Ritinha Pernambucana da rua dos Arcos; o Simas da mesa de geographia, um pançudo appellidado _esphera terrestre_, mimoseiem-no com um par de gallos de briga... o Barros Andrade... comprem-lhe os pontos... aquelle diabo da rhetorica que me bombeou ha dias... falem-lhe nos versos, que não ha suissas mais amaveis. O seu director é que os comprehende. Quando entra aqui é uma onça; o proprio tecto branco empallidece; levantam-se, saúdam o soberano! Agora, ha homens respeitaveis: o velho Moreira, o sympathico Ramiro, de sorriso patriarchal...»
Do topo da escada, gritaram para o saguão que ia principiar a chamada dos de portuguez.
Quando subia, vi um movimento enorme de rapazes na rua: um rolo! Silvavam os apitos. Atracavam-se os estudantes com os carroceiros a sopapos de ida e volta, segundo o bello costume do tempo.
Prestavam-se os exames numa grande sala de muitas janellas, de velhos caixilhos em xadrez apertado, vidros grossos, antigos, mal fundidos, offerecendo espessuras desiguaes e densidades verdes. Um parapeito de ferro em grade dividia o salão por dous lances; o mais espaçoso para os assistentes. No outro havia duas mesas de exame: a de mathematicas, perto da entrada, a de portuguez, mais adiante, e tão chegadas que se fundiam-as respostas de uma com as perguntas da outra, resultando admiraveis effeitos de applicação das sciencias exactas á philologia.
Antes da cerimonia palestrava-se, a meia voz. Um sujeito entrou, deixando cair a bengala. Olharam todos, «Não conhece?» indagou-me o officioso companheiro.
Um sexagenario, encanecido e helicoidal, cara lambida de padre, cabellos brancos ondeando pelos hombros em bossa, sobrecasaca illimitada riscando o chão a cada passo. «O conselheiro Villela, ou, melhor, o conselheiro Tieitch, uma instituição! Vae presidir ás mathematicas. Preside a tudo, conforme é preciso. Incorruptivel! Catão e Bruto sommados... Na banca de inglez, ha uns annos, reprovava a todos... Como não?! dizia; se erram escandalosamente no _tieitch_! Muito depois, apanharam-no consultando o Tautphœus: Que diabo, Barão, é este celebre _tieitch_ em que tanto se erra?...»
Quando no dia do jantar subi para o dormitorio com o Egbert, dançava-me no espirito, reduzida a miniatura, a imagem de Emma (era agradavel supprimir o D.), pequenina como uma abelha de ouro, vibrante e incerta.
[Figura 36]
Sonhei: ella sentada na cama, eu no verniz do chão, de joelhos. Mostrava-me a mão, recortada em puro jaspe, unhas de rosa, como petalas incrustadas. Eu fazia esforços para colher a mão e beijar; a mão fugia; chegava-se um pouco, escapava para mais alto; baixava de novo, fugia mais longe ainda, para o tecto, para o céu, e eu a via inattingivel na altura, clara, aberta como um astro.
Ella ria do meu desespero, mostrava-me o pé descalço, que a calçasse; não permittia mais. Calçar-lhe apenas o arminho que alli estava, o pequeno sapato, branco, exanime, voltando a sola, sem o conforto calido do pé que o pisava, que o vivificava. Eu me inclinava, invejoso do arminho, sobre o crivo de seda da meia, milagre de industria para o qual concorrera cada dia do seculo industrial com um esforço, tecido impalpavel, de fibras vivas, filtrando a transparencia branda do sangue, involucro subtil de um mimo de joelho, de perna, de tornozelo, irremediavelmente desfalcado do espolio glorioso da estatuaria pagã. Calçal-a apenas! Mas eu a fazia torcer-se, calçando-a, de dôres numa tortura ardente de beijos, exhalando eu proprio a alma toda em chamma.
Que outra creatura eu era ao despeitar! A apparição encantadora extincta; mas eu soffria da reacção de trévas que succede aos deslumbramentos.
Continuava cordialmente com o Egbert. Parecia-me, entretanto, a sua amizade agora uma cousa insufficiente como se houvesse em mim uma selvageria amordaçada de affectos.
Egbert parecia ás vezes um intruso. Passeiando com elle, que differença de outr'ora! produzia-me o effeito de uma _terceira pessoa_. Eu preferia andar só.
Não sei por que conveniencia de accommodação, fui transferido para o dormitorio dos maiores. Esta mudança distanciava-me ainda mais do Egbert; passámos a nos encontrar sómente á tarde, no campo.
Depois das aulas, subia para o dormitorio, aproveitando-me do relaxamento da policia do salão.
O inspector responsavel era o Sylvino. Receioso de uma represalia dos grandes, o prudente bedel deixava andar.
Eu deitava-me preguiçoso, ouvindo a grita do pateo, como cousa absolutamente alheia à minha vida. Contava as taboas do tecto, porção de traços parallelos que se perdiam num reflexo da tinta. Ás vezes lia narrativas de Dumas, que não distrahiam. Em outras camas, deitados como eu, de cai a para cima, cruzando os botins, alguns collegas fumavam, soprando, devagarinho, columnas de fumo que subiam verticalmente e rodavam azues. A um canto, no fim do salão, jogavam tres parceiros, bocejantes, accentuando sem enthusiasmo as alternativas do azar como uma partida de somnambulos. Muita vez na modorra pesada da sésta, as costas aquecidas da posição, fechando-se-me os olhos, ao brilho do sol que adivinhava lá fóra no terreiro abrazado, eu adormecia. A hora da aula ou do jantar, um companheiro puxava-me.
Estes intervallos de dormencia sem sonho, sem idéa, sem definida scisma, eram o meu socego. Pensar era impacientar-me. Que desejava eu? Sempre o desespero da reclusão collegial e da idade. Vinham-me crises nervosas de movimento, e eu cruzava de passos freneticos o pateo, sofrego, accelerando-me cada vez mais, como se quizesse passar adiante do tempo. Nem me interessavam as intrigas do salão. E que intrigas! exactamente a substancia do afamado mysterio do _chalet_.
A uma das extremidades do comprido salão, armava-se o biombo do Sylvino, grande caixão de pinho a meia altura do tecto, com uma porta e uma janella de palmo quadrado, d'onde saiam emanações de roupas suadas e varias outras, cheiros indecifraveis de pouco asseio; d'onde saia mais, durante a noite, crescendo, decrescendo, um roncar enorme, fungado de narigudo.
Os rapazes furavam orificios com verrumas para espiar, e tinham achado a legenda do Sylvino. Depois d'isto, vinha a demographia especial da terceira classe, a distribuição por familias regulares, ou por aproximações eventuaes, conforme os caracteres, sob a divisa commum do _nada haver_, ou como entendiam outros _nada vêr_. Louvavam-se os exemplos de fidelidade; commentavam-se as traições; censuravam-se as tentativas de seducção; improvisava-se a theoria do lar e do leito; cantava-se o hymno bacchico dos caprichos volantes, do enthusiasmo passageiro. Chamavam-me a mim o Sergio do Alves. Fazia-se a critica dos novos sob um ponto de vista inteiramente d'elles. Apostavam a vêr quem seria primeiro. Exigiam juramento de segredo, para passar adiante uma historia que tinham por sua vez jurado não contar a ninguem. Serviam-se mutuamente em pasto ás boas risadas, anecdotas espessas, com ou sem applicação, conforme o pedido e o paladar do ensejo. Toda a chronica obscura do _Atheneu_ redigia-se alli, em termos explicitos e fortes, expurgada dos arrebiques de recato, de inverdade, pelo escrupulo das commissões investigadoras. O Sylvino que se fosse! Não tinha nada com a conversa dos rapazes. Uma das melhores maximas do _chalet_ era esta, caracteristica:--Fica revogado o director.
Tudo que na primeira classe e na segunda era extraordinario, alli era normal e corrente. Todas as idades, desde o Candido até o Sanches.
Das classes inferiores, havia quem fizesse empenho em mudar para a terceira. No ambiente torvo da intriga, insinuava-se o vaevem silencioso das ficções, drama joco-sério dos instinctos, em illusão convencional e grosseira. E investiam-se dos diversos caracteres convictamente os mancebos, explorando o momento ephemero da pelle, novidade tenra do semblante, como elemento de artificio, deleitando-se no engano, tomando a peito a caricatura da sensualidade.
Havia o que affectava moderação no capricho, conhecendo o desvio em regra, como o ladrão sabe ser honesto no roubo; com o ar sério, espantadiço das _femmes qui sortent_; havia os ingenuos, perpetuamente infantis, não fazendo por mal, risonhos de riso solto, com o segredo de adiar a innocencia intacta atravez dos positivos extremos; havia os enthusiastas da profissão, conscientes, francos, impetuosos, apregoando-se por gosto, que não perdoavam á natureza o erro original da conformação: ah! não ser eu mulher para melhor o ser! Estes faziam grupo á parte, conhecidos publicamente e satisfeitos com isto, protegidos por um favor de sympathia geral, inconfessado mas evidente, beneplacito perverso e amavel de tolerancia que favoneia sempre a corrupção como um applauso. Elles, os bellos ephebos! exemplos da graça juvenil e da nobreza da linha. Ás vezes traziam pulseiras; ao banho triumphavam, nús, demorando attitudes de nympha, á beira d'agua, em meio da collecção mesquinha de esqueletos sem carnes nas tangas de meia, e carnes sem fórma. Havia os decaídos, portadores miseraveis de desprezo honesto, culpados por todos os outros, gastos ás vezes antes do consumo, atormentados pela propensão de um lado, pela repulsa de outro, mendigos de compaixão sem esmola, reduzidos ao extremo de conformar-se deploravelmente com a solidão.
Com estes em contraposição, os de orgulho masculino, pelludos, morenos, nodosos de musculos, largos de ossada, e outros mirrados de malicia, insaciaveis, de voz tremula e narinas ávidas de bode, os gorduchos de beiço vermelho relachado, fazendo praça de uma superioridade por que nem sempre zelaram antes da madureza das banhas.
Angela dominava-os a todos; vencia-os.
As janellas abertas para o quintal do director eram fortemente gradeadas de madeira; por entre as travessas olhavamos.
Angela fazia-se menina para brincar e correr com vivacidades de gata. Rolava no chão, envolvendo a cara nos cabellos seccos, soltos. Saltava agitando o ar com as roupas; colhia flôres e jogava, distribuindo por igual a todos, que ella a todos queria bem. Quando não havia muitos, ás grades do salão, descuidava-se, apparecia em corpinho e saia branca, afrouxando o cordão sobre o seio, mostrando o braço desde a espadua, espreguiçando-se com as mãos ambas á nuca e os cotovellos para cima, contando para a janella historias que não acabavam mais, emquanto ás axillas, em fofos de camisa, ia escapando a indiscrição dos fios fulvos. Sempre ao sol! sempre alegre! filha selvagem da luz, fauna indomavel das regiões quentes, affrontando a temperatura como as leoas, insensivel e sobranceira.
Cantava.
Só no canto era triste; canções nostalgicas repassadas do sentimento de cousas distantes, um lar amigo de paes, um coração de adolescente, conhecido uma vez antes da emigração para sempre, canções da ilha em que se ouvia o murmurio do oceano calmo e das brisas viajadas, e o grito angustiado das gaivotas e a celeuma longe da maruja á faina; acompanhando um estribilho insistente de amor, amor malandro de gente pobre á beira-mar, feito de peixe, de ociosidade triste e de calor.
Ás vezes era grosseira: dialogava ao desafio em chacota desbocada, com quem quizesse; impacientava-se abruptamente e desapparecia, arremessando uma praga de bem acabada torpeza. Fazia pilheria; tinha um collegio tambem para receber internos, externos, meio-pensionistas. Batia no ventre.
E com a grosseria, com a chacota, com o estribilho sentimental, com os descuidos do corpinho, com as flôres, com as turbulencias, de criança sem modos, Angela era a rainha da attenção e da curiosidade; inflammava-se o _chalet_ em conflagrações de enthusiasmo. Se passava algum tempo sem apparecer, collavam-se ás grades, perscrutando a sombra das arvores do quintal, carinhas sem conta, chapadas de saudade.
E divertia-se a apreciar os ardores engaiolados dos seus meninos, entretendo-se a desesperal-os como quem atiça o brazeiro para vêr a erupção das fagulhas, o rodopiar dos rubis candentes, com um prazer graduado entre o orgulho da castellã requestada do cem paladinos o a expectativa palpitante do carname em postas de um festim de jaula.
Com o tempo vim a descobrir que uma camarilha de espertos conseguira sophismar alguns páus da grade da ultima janella, tres ou quatro leitos além do meu, e passavam de noite, quando o silencio se fazia, a tomar fresco no jardim do director. Preferiam as noites escuras, que têm mais estrellas e mais segredo, e preferiam as noites de chuva, que em questão de fresco são decisivas. Desciam por uma corda de lençóes torcidos e voltavam ás vezes como pintos, mas refrescados sempre. Por medida de prudencia, não passeavam mais de dous por noite, fazendo sentinella um durante a ausencia do outro.
Disse que me não interessavam as intrigas e preoccupações geraes do salão; não fui preciso; e não sei como possa ser neste ponto sem recorrer ás modalidades de expressão--actualmente, virtualmente, que o anachromismo injusto condemnou. Pouco se me davam factos; o espirito seduzia. Talvez por isso fiz a descoberta do sophisma da camarilha; incommodando-me a liberdade secreta, o regabofe ás altas horas, como um roubo feito a mim, aos companheiros, illudidos no somno, traição odiosa á nossa tolice de descuidados. Veio-me uma noite a tentação violenta de espalhar o segredo por todos, desmoralisar os finorios, conduzir o Sylvino e mostrar-lhe os sarrafos ageitados á deslocação, trahir mereridamente aos traidores. Medi as objecções: além de feia delação de voluntario da espionagem, podia ser asneira. Talvez soubessem todos, menos eu, simplesmente por estar de pouco na terceira classe. Experimentei. Conservei-me acordado até á hora, com uma paciencia e um esforço de caçador de emboscada. No momento flagrante, ergui-me na cama, esfregando os olhos, fingindo-me admirado. Não houve remedio senão iniciar-me. Os dous da noite contaram. Malheiro era o chefe da troça, uma troça de nove, muito discretos, muito habeis; tambem quem trahisse apanhava.
A minha irritação contra o sophisma abrandou sem desfazer-se. Sempre que por acaso algum rapaz surprehendia os expedicionarios da frescata, era incontinente alliciado para as vantagens e sob as ameaças. O murro fabuloso do Malheiro era a sancção.
Não quiz as vantagens, mesmo murro á parte. Não que me não escaldassem as horas nocturnas ao _chalet_. Ah! o passeio livre do jardim! as grades abertas do carcere forçado! Mas uma hesitação prendia-me, de compromissos antigos commigo mesmo, compromissos de linha recta, não sei como diga, razões velhas de vaidade vertebrada; aversão ao subterfugio; ou talvez um medo que me occorreu por ultimo, sem fundamento: fosse uma vez, e de volta não achasse mais a corda para subir.
[Figura 37]
Outro signal de que não escapava á psychologia commum do chalet foi um accesso de furor que tive de suffocar, um dia que falaram de D. Emma diante de mim. Que me importava D. Emma? Uma boa senhora, nada mais, que me festejara com excesso de complacencia, nos limites, porém, da hospitalidade de rigor para muitas pessoas amaveis.
Deixara uma simples lembrança de gratidão, que começava a apagar-se.
Repetiam as murmurações do professor Chrysostomo, frioleiras de maldade. Pelas janellas gradeadas indicavam junto do muro da natação as venezianas da enfermaria e faziam a apologia da enfermeira, enfermeirazinha cuidadosa.
Com um geito incomparavel para o tratamento dos casos graves do coração. E vinham com historias de estudantes muito mal de imaginarias molestias... Doeu-me aquillo, como se me houvessem ferido o mais santo escrupulo de sentimento. Uma infamia, uma infamia, esta affirmação de cousas improvadas!
No meio d'esta temporada de descontentamento, tive um dia de prazer, prazer malvado, mas completo. Dormia no chalet o famoso Romulo. Occupava a cama inteira de ferro com a fartura de adipo e resomnava, no extremo opposto do salão, com a mesma intensidade que o Sylvino; falava fino o diabo e roncava grosso. Era um dos taes da troça do Malheiro.
Quando tocava-lhe a vez, reforçavam-se os lençóes e saíam mais dous páus.
Uma noite que o vi descer, tive idéa de pregar-lhe uma peça. Arriscadissima, como vão vêr, mas eu contava com o concurso, depois, do interesse de todos em abafar o negocio.
Lembram-se do receio infundado de que falei. Estava de sentinella o companheiro, que recollocava a grade, até que um aviso do quintal pedisse a corda. Offereci-me para substituil-o. O collega foi dormir.
Com o sangue-frio das boas vinganças, sem a menor pressa, evoquei a memoria da affronta que me devia Romulo. Era justo. Recolhi pouco a pouco a corda de lençóes, firmei forte as barras da grade e fui dormir. Chovia a potes; tanto melhor: a injuria, que o sangue não lava, bem póde lavar uma ducha de enchurro.
Estava vingado!
No outro dia appareceu o gorducho entanguido, encatarrhado, furibundo, em chinellos sem meias, calças, camisa de naufrago, miserando, cercado pelo espanto de todos e pela galhofa.
Passara a noite sob a janella pedindo misericordia ao sarrafo impassivel, toda a noite, inundado pelo aguaceiro, até que, ao romper do dia, Aristarcho o foi achar no lastimoso estado.
A noiva não viu, que acordava tarde. O sogro atinou espertamente com a aventura. Fez-se de esquerdo.
«Ora o rapaz!...» exclamou com uma satisfação muito intima.
E estranhou apenas que o bom do genro se deixasse pegar como um lorpa.
XI
O Dr. Claudio encetou uma serie de prelecções aos sabbados, á imitação das que fazia ás quintas Aristarcho sobre logares communs de moralidade. Philosophia, sciencia, litteratura, economia politica, pedagogia, biographia, até mesmo politica e hygiene, tudo era assumpto; interessantissimas, sem pesadas minuciosidades. Depois da astronomia do director, nenhuma curiosidade me valera tão bons minutos de attenção.
Narrava-nos a vida. As festas plutonianas do movimento, da ignição; a genese das rochas, fecundidade infernal do incendio primitivo, do granito, do porphyro, primogenitos do fogo; o grande somno millenario dos sedimentos, perturbado de convulsões titanicas.
Falava da anthracita e da hulha, o lucto feito pedra, lembrança tragica de muitas éras orgulhosas do planeta, monumento da prehistoria das arvores, negro, que a industria dos homens devasta. Descrevia a escadaria dos terrenos, onde existe a pegada impressa do genio das metamorphoses, subindo, desde a vegetação florestal dos fetos até ao homem quaternario. Falava-nos de Cuvier e da procissão dos monstros resurgidos, caminho dos museus, o megatherio potente, tardo, balançando as passadas, sujo, descamando saibro e as concreções seccas do lodo diluviano, solemne, conscio da carga de seculos que transporia.
Vinha depois a alluvião moderna das zonas formadas, o solo fecundo, lavradio. E o mestre passava a descrever a vida na humidade, na semente, a evolução da floresta, o gozo universal da chlorophylla na luz. Falava-nos do cerne, o generoso madeiro, o tronco, que sangra em Dante, que sustenta nos mares o commercio, Neptuno inglez do tridente de ouro. Falava-nos da poesia ignorada da vegetação marinha nos abysmos, e da giesta, isolada nas altas neves, flôr do ermo, a degradada eterna do inaccessivel.
Depois, a historia dos brutos, os grandes bramidos de macho nas regiões virgens, os dramas do egoismo na selva, do egoismo rude da força que póde, cégo, formidavel, sagrado como a fatalidade. E corria inteira a serie das classificações, mostrando a vida no infinitesimo, a microbia invisivel, omnipotencia do numero, sociedade inconsciente da monada, solidaria para a morte e para as reconstrucções impereciveis da terra.
O homem finalmente--ventre, coração e cerebro, politica, poemas, criterio: a alma, universo de universo, imagem de Deus, reflector immenso, anthropocentrico, do dia, das côres, que o sol inflamma, que o sol não sente.
Falava uma vez sobre educação.
Discutiu a questão do internado. Divergia do parecer vulgar, que o condemna.
É uma organisação imperfeita, aprendizagem de Corrupção, occasião de contacto com individuos de toda origem? O mestre é a tyrannia, a injustiça, o terror? o merecimento não tem cotação, cobrejam as linhas sinuosas da indignidade, approva-se a espionagem, a adulação, a humilhação, campeia a intriga, a maledicencia, a calumnia, opprimem os predilectos do favoritismo, opprimem os maiores, os mais fortes, abundam as seducções perversas, triumpham as audacias dos nullos? a reclusão exacerba as tendencias ingenitas?
Tanto melhor: é a escola da sociedade.
Illustrar o espirito é pouco; temperar o caracter é tudo. É preciso que chegue um dia a desillusão do carinho domestico. Toda a vantagem em que se realise o mais cedo.
A educação não faz almas: exercita-as. E o exercicio moral não vem das bellas palavras de virtude, mas do attrito com as circumstancias.
A energia para affrontal-as é a herança de sangue dos capazes da moralidade, felizes na loteria do destino. Os desherdados abatem-se.
Ensaiados no microcosmo do internato, não ha mais surprezas no grande mundo lá fora, onde se vão soffrer todas as convivencias, respirar todos os ambientes; onde a razão da maior força é a dialectica geral, e nos envolvem as evoluções de tudo que rasteja e tudo que morde, porque a perfidia terra-terra é um dos processos mais efficazes da vulgaridade vencedora; onde o aviltamento é quasi sempre a condição do exito, como se houvesse ascensões para baixo; onde o poder é uma redoma de chumbo sobre as aspirações altivas; onde a cidade é franca para as dissoluções babylonicas do instincto; onde o que é nullo, fluctua e apparece, como no mar as perolas immersas são ignoradas, e sobrenadam ao dia as algas mortas e a espuma.
O internato é util; a existencia agita-se como a peneira do garimpeiro: o que vale mais e o que vale menos, separam-se.
Cada mocidade representa uma direcção. Hão de vir os disfarces, as hypocrisias, as suggestões da habilidade, do esclarecimento intellectual; no fundo a direcção do caracter é invariavel. A constancia da bussola é uma; temos todos um norte necessario: cada um leva ás costas o sobrescripto da sua fatalidade. O collegio não illude: os caracteres exhibem-se em mostrador de franqueza absoluta. O que tem de ser, é já. E tanto mais exacto, que o encontro e a confusão das classes e das fortunas equipara tudo, supprimindo os enganos de apparato, que tanto complicam os aspectos da vida exterior, que no internato apagam-se no socialismo do regulamento.
E não se diga que é um viveiro de máus germens seminario nefasto de máus principios, que hão de arborescer depois. Não é o internato que faz a sociedade; o internato a reflecte. A corrupção que alli viceja, vae de fóra. Os caracteres que alli triumpham, trazem ao entrar o passaporte do successo, como os que se perdem, a marca da condemnação.
O externato é um meio termo falso em materia de educação moral; nem a vida exterior impressiona, porque a familia preserva, nem o collegio vive socialmente para instruir a observação, porque falta a convivencia de mundo á parte, que só a reclusão do grande internato occasiona. O internato com a somma dos defeitos possiveis é o ensino pratico da virtude, a aprendizagem do ferreiro á forja, habilitação do luctador na lucta. Os deuses sacrificam-se; não prevalecem. Os gymnasios são para os privilegiados da saude. O rheumatismo deve ser um pessimo acrobata. Erro grave combater o internato.