O Atheneu (chronica de saudades)

Part 17

Chapter 171,609 wordsPublic domain

Entre os reclusos das férias, contava-se um rapaz, matriculado de pouco, o Americo. Vinha da roça. Mostrou-se contrariado desde o primeiro dia. Aristarcho tentou abrandal-o; impossivel: cada vez mais enfezado. Não falava a ninguem. Era já crescido e parecia de robustez não commum. Olhavam todos para elle como para uma fera respeitavel. De repente desappareceu. Passado algum tempo vieram tres pessoas reconduzindo-o; o pae, o correspondente e um criado. O rapaz, amarello, com manchas vermelhas, movediças, no rosto, mordia os beiços até ferir. O pae pediu contra elle toda a severidade. Aristarcho, que tinha velleidades de amansador, gloriando-se de saber combinar irresistivelmente a energia com o modo amoroso, tranquillisou o fazendeiro: «Tenho visto peiores.»

Carregando a vista com toda a intensidade da força moral, segurou o discipulo rijamente pelo braço e fel-o sentar-se. «Tu ficarás, meu filho! O moço limitou-se a responder, cabisbaixo, possuido de repentina complacencia: «Eu fico.» Dizem que o pae o tratava terrivelmente, vendo-o apresentar-se em casa, evadido.

Com a proximidade da festa dos premios o caso do desertor ficou esquecido, e ninguem foi jamais como elle exemplo de cordura.

Ardia effectivamente o _Atheneu_. Transpuz a correr a porta de communicação entre a casa de Aristarcho e o collegio.

Não havia ainda começado serviço serio de extincção. A maior parte dos criados eram licenciados por occasião das férias; os poucos restantes andavam como doudos, incertos, gritando: _fogo_!

Fui achar Aristarcho no terraço lateral, agitado, bradando pelas bombas, que estava perdido, que aquillo era a sua completa desgraça! Ao redor d'elle pessoas do povo, que tinham acudido, trabalhavam para salvar o escriptorio, antes que viessem as chammas.

O incendio principiara no saguão das bacias.

Por maior incremento no desastre, ardia tambem, no pateo, uma porção de madeira que ficara das archibancadas, aquecendo as paredes proximas, reseccando o travejamento, favorecendo a propagação do fogo.

O susto de tal maneira me surprehendera, que eu não tinha exacta consciencia do momento. Esquecia-me a vêr os dragões dourados revoando sobre o _Atheneu_, as salamandras immensas de fumaça arrancando para a altura, desdobrando contorsões monstruosas, mergulhando na sombra cem metros acima.

O jardim era invadido pela multidão; vociferavam lamentações, clamavam por soccorro. Dominando a confusão das vozes, ouvia-se o apito da policia em alarma, cortante, electrico, e o rebate plangente de um sino, á distancia, como o desanimo de um paralytico que quizera vir.

O fogo crescia impetos de enthusiasmo, como alegrado dos proprios clarões, desfeiteando a noite com a vergasta das labaredas.

Sobre o pateo, sobre o jardim, por toda a circumvizinhança choviam fagulhas, contrastando a mansidão da quéda com os tempestuosos arrojos do incendio. Por toda a parte caíam escorias incineradas, que a atmosphera flagrante repellia para longe como folhas seccas de immensa arvore sacudida.

Quando as bombas appareceram, desde muito tinham começado os desabamentos. De instante a instante um estrondo, prolongado de descarga, ás vezes surdo, agitando o solo como explosões subterraneas. Ás vezes, a um novo alento das chammas, a columna ardente desenvolvia-se muito, e avistavam-se as arvores terrificadas, immoveis, as mais proximas crestadas pelas ondas de ar torrido que o incendio despedia. As alamedas, subitamente esclarecidas, multiplicavam as caras lividas, olhando. Na rua, ouvia-se arquejar presurosamente uma bomba a vapor; as mangueiras, como interminaveis serpentes, insinuavam-se pelo chão, collavam-se ás paredes, desappareciam por uma janella. Nas cimalhas, destacando-se em silhueta, sobre as côres terriveis do incendio, moviam-se os bombeiros.

Perdido completamente o lance principal do edificio; sala de entrada, capella, dormitorios todos da primeira e da segunda classes. Uma turma de salvação procurava isolar o refeitorio e as salas proximas, entregando-se a um serviço completo de vandalismo, abatendo o telhado, cortando o vigamento, destruindo a mobilia.

Para o terraço lateral, onde conservava-se Aristarcho, impassivel sob a chuva chamuscante das fagulhas, chegavam continuamente os destroços miserandos da salvação: armarios despedaçados, apparelhos, quadros de ensino inutilisados, mil fragmentos irreconheciveis de pedagogia sapecada.

A frente do _Atheneu_ apresentava o aspecto mais terrivel. De varios pontos do telhado, semelhando columnas torcidas, espiralavam grossas erupções de fumo; ás janellas superiores o fumo irrompia tambem, por braços immensos, que pareciam suster a mole incalculavel de vapores no alto. Com a falta de vento, as nuvens, accumuladas e comprimidas, pareciam consolidar-se em pavorosos rochedos inquietos. Ás janellas do primeiro andar as chammas appareciam, tisnando os humbraes, ennegrecendo as vergas. Tratadas a fogo, as vidraças estalavam. Distinguia-se na tempestade de rumores o barulho crystallino dos vidros na pedra das saccadas, como brindes perdidos da saturnal da devastação.

Nos logares ainda não alcançados, bombeiros e outros dedicados arremessavam para fóra camas de ferro, trastes diversos, veladores, que vinham espatifar-se no jardim, com um fracasso de esmagamento. As imagens da capella tinham sido salvas no principio do incendio. Estavam enfileiradas ao sereno, á beira de um gramal, voltadas para o edificio, como entretidas a vêr. A Virgem da Conceição chorava. Santo Antonio, com o menino Jesus ao collo, era o mais abstracto, equilibrando a custo um resplendor desproporcional, offerecendo ante os terrores a amostra de impassibilidade do sorriso palerma, que lhe emprestara um santeiro pulha.

O trabalho das bombas, nesse tempo das circumscripções lendarias, era uma vergonha. Os incendios acabavam de cançaço. A simples presença do Coronel, irritava as chammas, como uma impertinencia de petroleo. Notava-se que o incendio cedia mais facilmente sem o empenho dos profissionaes do esguicho.

No sinistro do _Atheneu_ a cousa foi evidente. Depois das bombas, a violencia das chammas chegou ao auge. Do interior do predio, como das entranhas de um animal que morre, exhalava-se um rugido surdo e vasto. Pelas janellas, sem batentes, sem bandeira, sem vidraça, estaladas, carbonisadas, via-se arder o tecto; desmembrava-se o telhado, furando-se boccas hiantes para a noite. Os barrotes, acima de invisiveis brazeiros, como animados pela dôr, recurvavam crispações terriveis, precipitando-se no sumidouro.

No meio da multidão commentava-se, explicava-se, definia-se o incendio.

«Que felicidade ser o desastre em tempo de férias!--Dizem que foi proposital...» Affirmava-se que o fogo começara de uma sala onde estavam em pilha os colchões, retirados para a lavagem da casa. Diziam que começara simultaneamente de varios cantos, por arrombamentos do tubo de gaz perto do soalho. Alguns suspeitavam de Aristarcho e aventuravam considerações a respeito das circunstancias financeiras do estabelecimento e do luxo do director.

A noticia do incendio, apezar da hora, espalhara-se em grande parte da cidade. Nas ruas do arrabalde havia um movimento de festa. Grande numero de alumnos tinham concorrido a testemunhar. Alguns empenhavam-se com bravura no serviço. Outros cercavam o director, em silencio, ou fazendo exclamações sem nexo e manifestando os symptomas da mais perigosa desolação.

Aristarcho, que se desesperava a principio, reflectiu que o desespero não convinha á dignidade. Recebia com toda a calma as pessoas importantes que o procuravam, autoridades, amigos, esforçados em minorar-lhe a magoa com o lenitivo proficuo dos offerecimentos. Affrontava a desgraça soberanamente, contemplando o anniquilamento de sua fortuna com a tranquillidade das grandes victimas.

Acceitava o rigor da sorte.

Et comme il voit en nous des âmes peu communes Hors de l'ordre commun il nous fait des fortunes.

Depois de algumas horas de somno, voltei ao collegio. O fogo abatera. Parte da casa tinha escapado. Refeitorio, cozinha, copa, uma ou duas salas. Foram respeitados os pavilhões independentes, do pateo. Funccionavam ainda as bombas, refrescando o entulho carbonisado e as paredes. De todos os lados, como de extensa solfatara, nasciam filetes de fumaça, mantendo um nevoeiro terroso e um cheiro forte de madeiras queimadas. As paredes mestras sustentavam-se firmes, varadas de janellas, como arrombamentos iguaes, negrejantes como da acção continua de muitas idades de ruina.

[Figura 44]

Sobre as paredes internas que restavam, equilibravam-se pontas de vigamento, revestidas de um bolor claro de cinza, tições enormes, apagados. Na atmosphera luminosa da manhã fluctuava o socego funebre que vem no dia seguinte sobre o theatro de um grande desastre.

Informaram-me de cousas extraordinarias. O incendio fôra propositalmente lançado pelo Americo, que para isso rompera o encanamento do gaz no saguão das bacias. Desapparecera depois do attentado.

Desapparecera igualmente durante o incendio a senhora do director.

Dirigi-me para o terraço de marmore do outão. Lá estava Aristarcho, tresnoitado, o infeliz. No jardim continuava a multidão dos basbaques. Algumas familias em toilette matinal passeavam. Em redor do director muitos discipulos tinham ficado desde a vespera, inabalaveis e compadecidos. Lá estava, a uma cadeira em que passara a noite, immovel, absorto, sujo de cinza como um penitente, o pé direito sobre um monte enorme de carvões, o cotovello espetado na perna, a grande mão felpuda envolvendo o queixo, dedos perdidos no bigode branco, sobr'olho carregado.

Falavam do incendiario. Immovel! Contavam que não se achava a senhora. Immovel! A propria senhora com quem elle contava para o jardim de crianças! Dôr veneranda! Indifferença suprema dos soffrimentos excepcionaes! Majestade inerte do cedro fulminado! Elle pertencia ao monopolio da magoa. O _Atheneu_ devastado! O seu trabalho perdido, a conquista inapreciavel dos seus esforços!... Em paz!... Não era um homem aquillo; era um _de profundis_.

Lá estava; em roda amontoavam-se figuras torradas de geometria, apparelhos de cosmographia partidos, enormes cartas muraes em tiras, queimadas, enxovalhadas, visceras dispersas das licções de anatomia, gravuras quebradas da historia santa em quadros, chronologias da historia patria, illustrações zoologicas, preceitos moraes pelo ladrilho, como ensinamentos perdidos, espheras terrestres contundidas, espheras celestes rachadas; borra, chamusco por cima de tudo: despojos negros da vida, da historia, da crença tradicional, da vegetação de outro tempo, lascas de continentes calcinados, planetas exorbitados de uma astronomia morta, sóes de ouro desthronados e incinerados...

Elle, como um deus caipora, triste, sobre o desastre universal de sua obra.

Aqui suspendo a chronica das saudades. Saudades verdadeiramente? Puras recordações, saudades talvez, se ponderarmos que o tempo é a occasião passageira dos factos, mas sobretudo--o funeral para sempre das horas.

Rio de Janeiro--Março de 1888.

FIN