Chapter 9
Mas que vale uma tal quéda, se a Arte e os artistas ficam! Não teem patria as grandes memorias...
Ainda te entretens com a cabala publica? Para que? Qualquer quota de esforço que lhe dês te deminue. Comicios, revoluções, conjuras, que é isso? Que valem, que entravam?
Nada. Uma nação moribunda a _fazer_ phrases...
Coincidencia curiosa:--sonhei esta noite que tinha ido ao Paço das Côrtes, que não servia já o actual regimen, mas um outro.
Entrei. Havia deputados e senadores, escolhidos dentre a primeira gente e a ultima corja da nação--dispostos atabalhoadamente, pela sala, em _Carrara_, granito e gesso. Vi-me afflicto entre aquellas figuras de museu politico, que mal conhecia, com quem não queria privar.
A um canto barafustava um velho a elegia do Passado. Era uma figura moldada pelo tempo em granito e gesso.
Subito, vi mexer o busto do Propheta, que estava ao centro do salão,--nariz em bico de aguia, testa alta, repas finas e ralas. Jorrou dos olhos redondos de mocho velho duas columnas obliquas de negrura, desfranziu a boca de satyro, e falou assim:
--Nacionalidades! Patrias! mentiras de poetas...
Heroes são poetas de mentiras!
Systema latente é trapaça a chocar.
Videntes são loucos a sonhar, cegos vendendo luz!
A Vida é o que cada um quer. Só a Arte vale, a Arte, o fio-mestre da Vida!
Nacionalidades! Patrias!--mentiras de Poetas. Portugal! Hespanha!--Versos, trastes velhos!
--Não achas curiosa, Ruy, a coincidencia? E como no fundo o sonho é verdadeiro?
Sabes o que vae ficar, provisoriamente? Quem vae governar?
Não sabes. Vae ser um arremêdo do Grão-Lama.
Não conheces, nem imaginas quem seja?
Vou explicar-te essa figura, já que não lês o Escriptor-santo, em cujas obras vem retratada.
O Grão-Lama é uma figura que os chineses conceberam perduravel, um homem eleito Deus por uma casta da China antiga, rodeado de ritos, uncções e virtudes, substituido cautelosamente, secretamente, apenas morto, por outro, semelhante em parecer; no nosso caso, sê-lo-á por outro semelhante em manhas, até que o Destino funda, providencialmente, embustices e embusteiros, em sacrificio a uma civilização por vir...
O Grão-Lama do Ocidente ha de ser um litterato que somme a idiotia das Academias, e tenha a presumpção da visão dos tempos, um misto de Bandarra e Gongora, prenhe de democracia e lettras.
Se era esta a figura que trabalhavas...
--Sei lá para que trabalhava. Sentia necessidade de privar, já te disse, com os meus eguaes; não se foge ás affeições que o Destino impõe. A affeição é do Destino...
O Destino pode ser a Raça. De politica nada sei, nem quero saber. A Raça mandou-me suppurar na Politica o odio innato, viver na loja secreta a miseria intima.
Ahi tens a razão da minha solidariedade com as revoluções. Sou affim de todos os que odeiam!
Ha pouco discorrias suspeitas sobre as minhas fraquezas. Exquisitos reparos! Que direitos podes arrogar-te para discutir-me? Convenho que repugne a tua Arte a minha predilecção pela Belleza humilde, que me discutas como artista... Mas aventar alto suspeitas, a generalização das minhas miserias! Nego-te esse direito!
Em todo o caso, quero dizer-te que, no momento, curo, sobretudo, de vingar principios, e, no numero das liberdades que batalho, entra a liberdade do Vicio. É a prevenção do doente, que não sabe bem onde os nervos, a educação e as taras podem arrastá-lo...
Adeus, Nuno!
* * * * *
No dia seguinte, passeava Nevogilde no gabinete de trabalho.
Parou por momentos deante de um contador, e esteve a afagar um gomil esguio e depois as curvas puras de dois boiões, pó-de-pedra, esmaltados de flores de linho. Volveu a passear a diagonal da sala, e foi junto da secretária premir o botão da campainha.
Veiu um creado.
--Ainda não chegou o mordomo? perguntou.
--Veiu ha instantes.
--Que appareça, immediatamente, a falar-me.
Minutos depois entrava o mordomo.
--Tão grande demora? Recommendei-te pressa!
--Ah! sr. Conde, estava a ver que não dava com o paradeiro do sr. Ruy. Que mais valera não trazer noticia alguma... Sei quanto V. Ex.ª se interessava por elle! Coitado...
--Está doente?!
--O sr. Ruy, informou o mordomo, morreu ha poucas horas... Cahiu ás primeiras balas das tropas fieis, junto ao monumento da Restauração, na Avenida, entre os revoltosos...
XV
Maria Peregrina, que chegou á Figueira muito fatigada e doente, no começo de outubro, foi installar-se na pequena vivenda de Mira-Mar,--á extrema da cidade.
Passou os primeiros dias num torpor de contemplativa de quem mal dá pela vida externa.
O mirante e os alegretes de Mira-Mar eram pontos de vôo á sua imaginação triste para um paiz de bruma, que nem bem sabia onde era, e, a bem dizer, só existia em si propria.
Esse paiz era ella mesma, nevoenta como o espirito que o creára para si.
De Mira-Mar avistam-se as terras barrentas do Cabo Mondego, morrendo na agua, o lindo casario da serra, branco e religioso como um systema de ermidas, bellos poentes, tudo o que o abraço do mar e da serra pode dar de grande, como expressão de paisagem voluptuosa.
Do Mirante distingue-se, nitida, a linha do Cabo, que lembra as navalhas recurvadas que usa a gente do norte, e em que o mar figura como uma lamina, resplandecente de sol, a certas horas.
A Cidade, rica de luz e notas imprevistas, é das que mais convidam a noviciar amores.
Mas Peregrina, crestada pela vida, muito oxydada de alma, passou os primeiros dias do outomno recolhida numa rememoração de si propria, que nem o mar, nem toda a belleza da terra seriam capazes de delir.
Havia uma grande affinidade entre ella e o tempo. Reflectia o outomno na sua physionomia de sombra, vincada de traços melancholicos, que signalavam uma belleza de occaso, especie de imagem de marfim antigo, vivendo o seu crepusculo de idolo abandonado...
Aquella physionomia, talhada em sombra e chamma suave, não era já o involucro, a mascara; era a mulher toda,--a alma a esbater-se em luz de outomno.
Na segunda quinzena de outubro fez-se-lhe no espirito alguma trégua.
Sahia, ás tardes, a percorrer a praia, embevecida no scenario discreto da linda terra de pescadores.
Aves marinhas andavam aos bandos, misturando o som rouco da sua voz á voz da agua inquieta, e esvoaçando sobre o mar que parecia uma geleira arada, muito riscado de fitas brancas, ondas regulares, certas, espreguiçando-se, com volupia, numa luxuria rhythmica.
Quasi toda a adolescencia morena da praia, afrontava nua o mar, confundindo a sua carne côr de mel com as vagas serenas daquelles restos de oceano.
E Peregrina, de olhos fitos naquellas formas, batidas pelas ondas, vivia então sua belleza em massa, irmã em amor dos bronzes que para ali boiavam doidamente, sentindo na alma aquelle mar, aquelles corpos humidos e macios, tudo...
Ia ao outro lado numa bateira branca aos areaes de Lavos, muito sensivel á musica dos remos, espadanados por dois moços fortes.
Tardes côr de graphita.
Era á hora em que as gaivotas, as rôlas e as negrelas põem accentos circumfléxos na tarde, limitando a altura, num sob-ceu de asas.
Passava horas nas praias fronteiras á Figueira, esquecendo-se, até se deixar dominar por aquella belleza de chromo, vivendo as cambiantes do ceu de outubro, duma belleza intima e serena.
Nuvens côr da terra accrescentavam o Cabo até ao sol, que primeiro se projectava em amphora de luz, e depois morria numa brasa, a boiar no mar.
Já noite, tomava um remo, ao lado dos moços da bateira, e ahi vinham todos, muito certos e irmãos naquella labuta embaladora, de olhos fitos no pharolim, que se ergue entre o Mondego e o Oceano--um polyedro verde que lembra um pedacito de mar-esmeralda, gelado, para nortear noctivagos da agua.
Nalgumas tardes ia até á explanada, junto do Forte, para sentir a maré contra a muralha e avistar o recolher do sol.
Passava o tempo a ler as côres em que se dispersava o dia, as tonalidades roxas que preparam a passagem para a treva.
Marcam a extrema do Cabo o casario da mina e o pharol alçado em redoma.
Noite alta, mandava o pensamento em derrota pela agua, e figurava-se a passear por entre as arcadas da mina ou pelas escarpas do fim da serra.
Vieram as chuvas e as primeiras tempestades.
A Figueira, no verão tão cheia de luz, veste de escuro o outomno. Abrem os dias num ceu de cinza que pouco e pouco melancholiza os campos.
Rompem-se em agua a cada hora nuvens de chumbo, enquanto o vento revólta a paisagem, arremessando, escramalhando as pedras, a areia e os ramos.
Em tardes de granizo e trovoada, quando os elementos se assanhavam, Peregrina recolhia ao Mirante a vivê-los de perto, emparedando-se ahi como num biombo de vidro.
A tempestade, aquella agua batida, a dispersão electrica do fogo das trovoadas, davam-lhe impressões que ella casava aos estudos de sua alma em desarranjo.
E, então, nostalgica das tardes da Grecia, procurava viver uns trechos do passado; e, fazendo do Mirante uma réplica do _Templo de Amor_, mandava vir adolescentes dos mais formosos, fundindo-se com elles numa tempestade esteril ás tempestades de fóra.
Juntavam as vozes em orpheão, cantando as modas creadas pela toada undisona da bahia. Tudo ali condiz:--a voz das aves, o canto rouco da marinhagem, a surdina do mar.
Mas os arrancos da trovoada abriam clareiras naquella toada de porão, pois que as creanças a suspendiam a espaços, agoirando castigos.
Os relampagos, que pareciam abrir o vidro em letras chinesas, quebravam em linhas de fogo contra os bellos corpos de topazio.
Havia sempre na ronda um predilecto com quem Peregrina trocava especiaes lascivias...
Illuminada pelo fogo duma paixão inconsumivel transfigurava-se, fundindo a alma em corpos eleitos, que vestia de delirios em dispersão de beijos. Beijos mudos, impressivos como a alma que os mandava, parecendo romper a seda-lacre dos labios que os praticavam...
No entanto, as dansas continuavam, como um pretexto de enleio daquelles corpos atarantados, rematados por faces pallidas, esbatidas de penumbra, de risos brancos e gelados, inculcando o torvelinho a que se entregavam por mero capricho duma artista louca.
Ia para o mar num yacht oriundo dos estaleiros de Portsmouth. Vivendo na attracção dos perigos, sahia de preferencia em horas de tempestade, pondo á prova a coragem dos companheiros, em geral ephebos.
Era em dias em que o mar respira fundo, erguendo-se em violencias de desejo.
As ondas, que na praia são rolos brancos, morrentes em torvelinhos de catarata, tomam na barra a expressão aguda de fundos verdes, quebrados, de garrafa, esfarrapando cambraias.
Seguia o yacht, côr de turqueza, desenhando letras de alphabeto liquido, mysterioso.
E Peregrina, irmã pela alma daquelle tumulto verde, ia afogando pensamentos no remoinhar de agua em desespero.
O barco, ora arremettia contra as ondas, despedaçando-as, ora as subia, suavemente.
Se subia, era arfante e lento, num rumor de dyspneia que attingia o alto daquellas cordilheiras de agua. Ao descê-las, quasi cahia de chofre, sacudindo e batendo os corpos da tripulação extranha.
Cada onda que partia espiralava alto camarinhas de leite que morriam num veu sem côr.
Nos postos, os da tripulação systematizavam o trabalho aos signaes do mestre.
E Peregrina da camara roxa de crystal, que simulava na amurada uma amethysta, ia seguindo e vivendo aquellas violencias, anesthesiando-se em ondas de som, crente de que uma tal instabilidade a destinára, para o seu caso, o Deus das almas que lhe pedem esquecimentos.
Animava-se a barra, e havia lugres, escunas, a solicitarem para terra a intervenção da pilotagem.
Peregrina, que conhecia o significado das côres, lia de prompto as bandeiras alternadas nas barcas, senhoreando-se do programma de manobras.
Seguia com interesse aquella faina á procura de incidentes, aliás vulgares.
Assistia ao arranco das ondas, despedaçando de raiva os troncos de corda que atavam as barcas aos rebocadores. Interessava-a o espectaculo das suas refregas.
É então que a marinhagem se méde com o mar, e amargura suas intimidades, gosadas em marés suaves...
As ondas empoadas, atravessando as barcas, em doceis de espuma, quebram dentro os seus abraços. Enquanto estas, escramalhadas, apparecem, desapparecem, nas differenças da agua, que ainda ha pouco era planicie e logo se abriu em sulcos de quebrada e montanhas de cordilheira movediça.
Segue a labuta da marinhagem em litigio com o mar.
As tripulações enxergam ao largo leguas de terra; e, apesar de correrem perigo de abalroarem, não se vêem.
Lançam os do rebocador a nova amarra a cada approximação das barcas; e a amarra, que fluctua ao acaso um traço de oiro, colleia, desmanchada, as cristas das ondas que a retorcem, simulando enguli-la.
A meio da faina, passada entre um cyclone de odios e orvalhos transparentes, ha grita da tripulação. Mas esta desordem é suggestão do mar. É a voz de quem vive o elemento, syllabando forte, em ondas roucas, a linguagem da agua.
Afinal, lá vingam atar de novo a amarra. Sôa o grito aspero da sereia do vapor, abrindo notas de falsete na tempestade.
E as barcas, uma a uma, lá vão transpondo a barra.
Se a tempestade acalma, ceu e mar invertem-se nos tons:--o mar simúla uma caixa azul, em que o ceu branco, fofo de brumas, tampa o espaço.
Chega a noite, passando a sombra as figuras tragicas dos maritimos. Aves longas flecham o espaço em traços rectos. Patos bravos, em bandos negros, como gondolas á ventura, regressam ás aguas fundas.
Peregrina regressava ao caes. Era á hora em que os lampiões dos molhes zebravam de luz a ultima agua.
A Artista ia a sahir ao molhe do nascente, junto ao candieiro roxo.
E era ahi, áquella luz de alecrim, sob o docel mysterioso do arvoredo, que despedia os companheiros, recolhendo cedo e só a Mira-Mar.
* * * * *
Recebia cartas de Nuno de quando em quando. E escrevia-lhe todos os dias.
Elle, sem coragem para dizer o seu tormento, mentia por cobardia, e ainda por amor della.
Contemporizava. Ella, sentindo as sombras da antiga tristeza, curava de illudir-se, enchendo o tempo com passeios, e ritos de velhos cultos. Chegaram novas de Lisboa e do Mosteiro.
Helen tinha resvalado ao ultimo degrau da torpeza, fugindo do marido para ir viver num pateo com a _Manola_, marafona e bebada.
O marido pedira transferencia para uma legação de inferior classe e sahira penitente das vergonhas da mulher.
A Salomé dava-lhe parte do casamento proximo. Resvalára aos braços do lente Amaro, avido de cevar a sensualidade erudita naquella loira de carnes brancas e pennugentas, e prompto a embolsar os duzentos contos que tinham ficado dos Pamplonas, em terras e inscripções.
Maria Peregrina via fugir tudo o que a prendera, á excepção de Nuno.
Mas, ao mesmo tempo que sentia o correr dos dias, via avisinhar-se, cada vez mais, a antiga melancholia, uma tristeza que mal explicava.
Uma tarde, conduzia pelo braço, segundo o costume, monsenhor Andrada até o eirado eminente ao mar.
Seguia-os Jacob com duas cadeiras leves, fechadas.
O ataxico movia as coxas com esforço, atirando ao acaso as pernas de fantoche, dondas como travesseiros de moinha. Sentaram-se os dois, o padre muito amparado por Peregrina.
--Sabe, disse esta, que escrevi ha duas noites o meu testamento? Posso morrer breve...
--Suggestões da minha miseria, disse o monsenhor. Eu hospédo metade da morte. Sou o caixão de metade do que fui. V. Ex.ª a pensar em morrer, uma creança! Isso é para os velhos e doentes, como eu.
--Engana-se. É tão facil morrer, sobretudo quando temos o culto da Morte! Entendi que devia empreitar obras posthumas. Vou dizer-lhe a minha ultima vontade.
E, desdobrando três folhas de papel azul, leu:
--Eu, Dona Maria Peregrina Alvares de Lorena e Villa-Verde, filha de Dona Maria de Lorena Eannes de Castro e Villa-Verde e de Dom Antonio Alvares Muito Nobre Leite Moniz de Sá, natural do Mosteiro, cidade de Guimarães, resolvi fazer o meu testamento pela forma que segue:
Primeiramente elévo a alma a Deus, sagrado em si e nas minhas desventuras; foi reflectindo-o, que soube sentir a majestade do Infortunio. Que ninguem cuide dos meus funeraes; o Acaso os cuidará.
Dos bens de fortuna disponho assim:
Lego o usufructo de cem contos de réis ao antigo prior do Mosteiro, Monsenhor José de Andrada, presentemente em minha companhia.
Á sua morte passará este capital para o meu procurador José Lourenço.
Lego o usufructo de cento e cincoenta contos ás minhas antigas condiscipulas Helen Green, residente na Mouraria, em Lisboa; e a Violet Ioung, actualmente em Londres.
O capital passará á morte da ultima para a administração de Petersfield, Inglaterra, que pelo seu juro creará uma aula de musica com a designação--Instituto-Edgar, destinado a adolescentes musicos.
Lego cincoenta contos aos creados que me servirem ao tempo da minha morte, e vinte e cinco contos ao anão teutão Jacob.
Finalmente, instituo minha herdeira a cidade de Coimbra para que liquide a minha fortuna, resto das maiores casas da Peninsula, e faça construir uma grandiosa Escola de Arte grega com a designação--Parthenon do Ocidente, tendo na fachada os symbolos heraldicos de Portugal e Castella, cujos desvarios e sangue represento.
Haverá annualmente premios para os dois adolescentes mais bellos do Parthenon. Serão eleitos pelo collegio dos alumnos da Cidade. O premio destinado ao alumno designar-se-á--Edgar, em homenagem a um antigo companheiro de Petersfield; o outro chamar-se-á--Helen, em memoria do meu antigo culto por Helen Green.
Faço meu testamenteiro a D. Nuno Alvaro de Sousa e Villar, IIIº Conde de Nevogilde, natural de Traz-os-Montes, escriptor, actualmente em Lisboa, a quem offereço as minhas obras, á excepção do Poema que vou urdir, e desejo fique no Archivo do Parthenon. Na sua falta zelará as clausulas deste testamento a Municipalidade de Coimbra.
(_Segue a approvação, e assignatura das testemunhas e testadora. Foi rubricado nas tres folhas)._
Quando Maria Peregrina acabou de ler, o padre soluçava.
Ella passou-lhe a mão pela cabeça encanecida e disse-lhe num sorriso triste:
--Chora, antecipadamente, a minha morte?
--Não: abençôo em V. Ex.ª a mulher sagrada por toda a especie de tortura. É preciso ter soffrido para subscrever um testamento assim. Sou insuspeito. Irei adeante para informar o Ceu dos peccados dos _honestos_, e das virtudes da _relapsa_. É preciso pecar muito para ser bom... Mas quando tivesse de ficar, não podia receber o que V. Ex.ª me lega. Apesar de condemnado segundo a Egreja, considero-me da Egreja. Sou frade. Não infringirei o voto da pobreza. É tão facil ser pobre!...
Emfim, uma herança recebo eu, que essa não ma veda nenhuma religião,--os carinhos que V. Ex.ª quer protelar além da morte.
E soluçava, abalando a cadeira leve.
Na extrema do eirado, Jacob, de pé, firme, numa mudez de esphinge, fixava o olhar amarelo-metal sobre o collo alto de Peregrina. E dos seus olhos de azeite, exiguas lampadas de altar-mór, expedia filetes de luz duma melancholia lubrica e mortiça.
O padre e Maria Peregrina conversavam.
XVI
Certa manhã lia ella, sob os loureiros, uma lenda escandinava.
Era uma lenda triste e prophetica, como o genio do Norte. O vento ramalhava as pernadas secas de louro, crepitantes como ralas. A paisagem era dum roxo delido, melancholica como a lenda, como Peregrina.
Chegou Jacob com a correspondencia. O sol, até ahi hesitante, desappareceu, mysterioso.
Peregrina encarou a altura. Depois, descendo a vista, pareceu-lhe vê-lo na salva de oiro que Jacob segurava, com as cartas.
--Deixa ver! disse impaciente.
E apartando a de Nuno pela letra:
--Leva o resto.
O anão expressou um rictus novo na physionomia de pergaminho, sublinhou o olhar de bilis com um riso branco, e sahiu a caminho do alpendre.
Maria Peregrina abriu a carta, sobreexcitada, nervosa. Leu-a, releu-a, espectrou os mais desencontrados movimentos de alma, e quedou, muda, por muito tempo, a olhar para as pernadas secas de louro, mysteriosas, crepitantes...
A carta, dizia:
Peregrina:
Repugna-me continuar a mentir. Não posso mais procurar-te. Beijo as ultimas palavras da tua carta, que denunciam um amor que jámais alguem teve por mim. Mas o proprio enthusiasmo desse amor me atemoriza, ao mesmo tempo que me lisonjeia. Eu sou a contradicção de tudo--de mim mesmo. Acquiesço com a razão aos que me querem; mas só amo os que me desprezam...
Tu comprehendes-me se olhares para dentro de ti, porque, fundamentalmente, somos eguaes. Cada um de nós é o abysmo de si proprio.
Chamavas-me outro dia, no amor dos maiores delirios, o teu Phaon. Ah! como eu visto de razões o proceder do desejado da antiga Sapho! De razões, quero dizer, de fatalidades:--o amor nada tem com a razão. É o Destino, a loucura. É o Deus e o Demonio que temos em nós, rompendo livres, indifferentes aos nossos gosos e torturas. É a fatalidade a entrudar com o sentimento.
Ao despedir-me de ti, não tenho uma palavra de conselho. Nem sequer insinuo que te consultes a ti propria.
A vida está acima e abaixo dos superiores, noutra esphera. Pois que somos a essencia della, alando-nos pela Dor, não podemos entreter esperanças com expedientes. Tratar casos de supersensibilidade com as cabalas que a vida fornece o mesmo é que utilizar a materia a remediar queixas da alma, no fundo a aggravar dores insophismaveis.
O mundo tem revolvido tudo. E, contudo, a sua especulação erudita ainda nem sequer chegou a converter em dogma a Liberdade moral.
Nós, que ha muito conquistamos esporas de oiro na Desgraça, é que sabemos até onde pode ir a nova sciencia por crear--a Philosophia sensual.
É que vivemos na consciente e superior ignorancia do que somos. Para mim, passou o tempo em que acastellava illusões...
Presumo que seja um pouco do que reflicto nos livros--um museu de bellezas mutiladas. Tu eras irreprehensivelmente perfeita no conjuncto bizarro das degenerescencias para que me pertencesses e te pertencesse. E jámais gosei soffrimentos como os que me deste nos teus abraços!
Ah! porque me não matou o delirio das nossas hysterias, quando nos confundiamos na folhada exotica da Villa-Feia!
Ha pouco me interrogava eu ácerca do teu amor, do nosso amor...
Fui ver-me ao espelho. Encontrei a sombra do que fui na adolescencia.
Reconheci o rapaz de ha dezeseis annos, tratado pelo tempo.
Vi ainda nos olhos a negridão da minha antiga virtude atarantada, imprecisa, a procurar o ceu na continencia, e a sophismar sensualidades na oração; volvi-me ao tempo em que fitava os idolos com os olhos da carne, gosando-os com a alma, lubrica de sonho...
Sou o mesmo mysterio sensual, medroso e desequilibrado:--reflicto, impotente, num mar de desesperos, um mundo de desejos.
Tu soubeste exaltar estes desejos, assaltar-me, de chofre, os nervos, vibratizá-los...
Mas foi então que dei por forças intimas, que augmentam os meus receios. Sei lá se ainda tenho nervos á espreita! Que seria de mim?...
Põe na imaginação braseiros de incendio, brancuras e frios de nevada, asphyxias, essencias de requinte, torturas e suavidades religiosas, harmonias bizarras de harpas, psalterios e violinos, saltos macabros de demonios intimos, visões, o Ceu, o Inferno, e terás uma parte do que me fizeste descobrir áquem de mim, da minha fraqueza.
Eis um pouco do que tecia o extranho do nosso viver...
Mas não poderemos mais encontrar-nos!
Perdôa a sem razão destas linhas na logica duma razão que sinto pelos effeitos, mas que não apercebo bem:--a tal fatalidade que nos juntou, a fatalidade que nos afasta.
Adeus, Peregrina! Esquece-me!
_Nuno_.
Passou uma hora, sem que ella se levantasse.
A manhã sangrou uma chuva miuda, por que mal deu, occulta pela ramaria, abstrahida dos caprichos do tempo, numa contemplação dolorosa.
Veiu um creado lembrar que era a hora de conduzir o monsenhor, que recolhia do alpendre.
--Lá vou.
E sahiu a dar o braço a Andrada.
Dahi a momentos caminhavam os dois, collados e oscillantes. A distancia, mal se extremava o doente.