Chapter 8
Corre entre os lavradores que o Penedo fôra cinzelado por D. Alvaro em noites brancas de janeiro, de collaboração com o Demonio, que, em baixo, no Ribeiro de Cobre, referve coleras.
E rapazes gastos e velhos sensuaes, crentes na sua virtude, vão horas mortas, pedir-lhe forças desbaratadas.
O Encommendado não se cansa de predicar o peccado em que incorrem os que veneram o mysterioso granito.
E velhos menos confiados contam casos de creaturas tolhidas, quando foram de romaria ao Penedo, depois de encontrarem a alma-penada do Templario, em companhia do Demonio, revendo a obra.
O Ribeiro de Cobre ganha a primeira altura da encosta dum salto, borbulhando tufos de agua escura, que rasam em madría pela açude. Dali partem levadas que cortam em leque os campos baixos.
Vogam na madría aves de agua, pequenos cysnes e enormes gansos, de pescoços de cobra e bicos de fava, remando de vagar os corpos gondolosos, vestidos de pennas, tufadas como ramos de chrysantos negros.
Tracto singular de paisagem, onde esparsos olivedos põem nodoas de saudade em cinza!
Parece haver o maior parentesco entre o Ribeiro de Cobre, assim chamado em razão da côr e o arvoredo, em que predomina o acastanhado dos sobreiros.
O povo guarda-se cautelosamente de pescar no Ribeiro, se bem que seja abundante em peixe e, sobretudo, em trutas, que lembram desenhos fugidos dalgum jarro precioso do Japão, a refulgirem escamas de prata e oiro por entre o cobre liquido do humilde corrego.
É que desde muito se conta na aldeia que D. Briolanja, a ultima morgada da Villa, fôra victima de peixes ahi pescados:--que ceara as endemoninhadas trutas numa vespera de Anno-Bom e amanhecera sem fala, muito branca, fazendo esgares, até que morreu, depois duma agonia mysteriosa, ao cabo de poucas horas.
Para além da madría, ha um velho moinho redondo, de grande circumferencia e pedra tosca, de juntas tomadas a verdura, com janellas oblongas e uma roda de dentes podres.
Semelha um carão horrivel, de olhos azeitonados, comidos de ophthalmias, sobrancelhas rentes de musgueira verde-limo e boca enorme, a que a roda de dentes cariada dá a expressão confrangida dum riso diabolico de dor.
A agua que a boca do moinho espúma, em camarinhas escuras, través da roda gasta, vae sumir-se a distancia, no lagedo amarello das alluviadas, que escondem o Ribeiro num tracto de dez passos. E é, sob o lagedo, que a agua espadanada contra a penedia baixa referve coleras de inferno, resoando naquella abobada de acaso as presumidas falas do diabo, segundo a voz corrente na aldeia.
Sobranceira ao moinho, na outra margem, fica a _Eira de Vidro_, uma escama natural de mica luzente, que, ao meio dia, quando o sol a veste, refulge, a meio da Penedia-amuleto, cordas de luz branca.
Circuita o exotico miradouro uma escarpa de granito rendilhado, que lembra o espaldar e braços de uma cadeira gothica de Cathedral.
Finalmente, é deste poiso extranho que os valles proximos escutam e repetem os dizeres dos que ahi falam.
Condições de acustica desconhecidas põem no espaço trios de arremêdo!
Tal a descripção da Villa-Feia, conforme um inedito de Nuno de Villar, III.º conde de Nevogilde e ultimo representante do Templario.
Era ahi que o escriptor villegiava quando a Cidade o aborrecia, ou sentia necessidade de dar asas á sua erudição e Arte. Ahi escreveu _Os Sensuaes_, o melhor dos seus livros, e varios capitulos da _Vida Plastica_, opusculos criticos, afora artigos. Dava-se bem com a paisagem que o cercava, e, sorria, benevolo, sempre que perguntava e ouvia a historia do Templario. Os camponeses interrogados é que o não indulgenciavam pela transigencia com o execrado cavalleiro. E, á puridade, aventavam suspeitas:
--Que o representante de D. Alvaro parecia seguir-lhe as pisadas; que não era facil fugir ás leis do sangue; que na Villa-Feia tudo se deformava, os homens como as arvores...
E discutiam as figuras que pernoitavam no velho casarão senhorial.
Maria Peregrina tinha dito a Nuno que ia ser hospeda delle, quando este falou em ir para Entre-os-Rios.
Nuno, cortês, agradeceu a visita e acceitou-a. Intimamente aborreceu-a.
Convidára o _Vagabundo_ para o acompanhar. Queria mostrar-lhe aquellas sombras. Não sabia porque impressionava-o bem a convivencia daquelle desequilibrado, que alternava com elle grossarias e carinhos, que ora o abordava com humildades de rafeiro, ora o perseguia, desdenhando da sua Arte e nobreza, dos seus privilegios de singular.
Maria Peregrina era a mulher absorvente que, apesar de tudo, receava, com quem não queria intimidades.
Era preciso attendê-la. Era uma creatura excepcional. Mas, por isso mesmo, horrorizava-o o excessivo carinho que lhe notava. Admirava-a como mulher, mas temia-a. Era uma sensual que tinha percorrido a gamma do mais extravagante teclado da vida. Quereria porventura matar um novo capricho? E elle que só usava creaturas inferiores, que percorria altas horas os becos mais suspeitos a recrutar mulheres de acaso, como se haveria deante da mulher invulgar?!
Ah, se encontrasse pelos prostibulos mulheres daquellas formas!
Mas ter relações sensuaes com ella, uma intellectual, que havia de estar a ver, a frio, as suas atitudes de animal enfraquecido, cahindo, segundo o costume, na hysteria, que é a carne entregue a si propria, a velocidade adquirida do prazer a derivar na loucura!
Isto, se a commoção lhe deixasse ver nella a _mulher_!
E, muito triste com a ida da Artista, ia contando os dias, num horror de frade que treme da primeira tensão da carne.
Ah! elle era bem culpado, pensava. Podia ser como toda a gente. Se se deixasse de requintes não temeria mulher alguma. Mas degenerára-se.
Exigia sempre nas relações uma certa liturgia; dahi o seu pessimismo litterario, o pessimismo em tudo.
E, involuntariamente, lembrava as palavras de Lichtenberger:
«O pessimista é um degenerado, um doente que deve curar-se ou partir, mas que não tem o direito de empeçonhar a existencia dos sãos, de desmoralizar os potentes, de calumniar a vida».
Como sentia aquellas verdades!
Era assim... Claro que tambem Peregrina era uma doente; mas por isso mesmo lhe não perdoaria. Demais, o seu horror por ella ferir-lhe-ia o amor proprio.
--A doença odeia a doença. O que nós procuramos nos outros são as qualidades que não temos, pensava Nuno.
Por isso elle era um forte, entre uma seara de mulheres, castanholando modas e vendendo alegrias.
Mas, na Villa-Feia, com Maria Peregrina a trocar beijos e impressões de Arte--que horror!
E era fatal a sua ida. Equivoca situação! Já tinha percebido que ella o desejava.
Por sua vez Peregrina, enthusiasmada, nem parecia a mesma.
--Tu lembras a antiga alumna de Petersfield, dizia Violet.
E vendo-a cuidadosa com as _toilettes_:
--Já percebi, vaes noivar...
--Talvez, disse Maria Peregrina, rindo; não sei. Os programmas nunca antecipam muito os meus desvarios. Geralmente vicío sem elles. A surpresa é, afinal, o melhor da vida. Irei ver como as arvores da Villa-Feia me recebem. Corre que o antigo Paço tem a fortuna de afeiar o que é bello e engrandecer o que é humilde...
* * * * *
Passados dias partiram os dois, Nuno e Peregrina, os creados do Palacio-Fóz e Jacob.
Nuno esteve inquieto até á hora da partida; esperava Ruy.
Esperou debalde: minutos antes da sahida, recebeu carta delle, explicando a falta com o motivo de ter de seguir nesse dia á tarde para Villa Alva. Era-lhe impossivel ir a Villa-Feia, informava. Esperaria Nuno em Lisboa.
Nevogilde, contrariado, entrou para a carruagem.
Ficaram em Lisboa Violet, Salomé, e José de Andrada.
XII
Decorreu um mês sem que ao palacete da rua do Alecrim chegasse qualquer noticia de Villa-Feia.
Salomé partiu para o Mosteiro, a pretexto de visitar as propriedades e passar ali algum tempo.
José de Andrada recolheu á cama myelitico, dias depois da sahida da Artista.
Violet, á vontade, senhora da casa, deu-se a receber aos sabbados a velha collecção de hospedes, e mais assiduamente Manuel Brito de Miraz, da _Folha da Noite_, continuador do publicista das _Horas Tôrpes_. Em breve tempo se entenderam intimamente, o chronista e a inglesa. A fatalidade fez amante de Violet o mais crapuloso do bando que passeava os salões de Maria Peregrina. Horas tardas, se o chronista não apparecia, sahia ella a visitar os bairros suspeitos, trocando-o por fadistas.
Um dia chegou Peregrina, sem prevenir.
Violet correu a abraçá-la, e a saber da villegiatura em Villa-Feia. Achava Peregrina cansada, mas alegre.
--Então, muito conciliada com o sexo feio? perguntou. Era certo que Nuno podia excluir-se da designação do seu sexo--pois que não era feio; e ria para a Artista, que a ouvia serena.
--É verdade, disse por fim, estive bem.
Nuno resume hoje para mim tudo! E eu a correr mundo á procura de _alguem_. Achei, sabes? A minha selvajaria amedronta-o, perturba-o; é um animalsinho, lindo de formas e docilidades, a submeter-se-me, a gostar dolorosamente os meus maus tratos, porque o maltrato, e a entregar-me, assustado, o corpo de raça, que veste naquellas horas uma alma de mulher e de lacaio. Ah! sei, afinal, o que é o amor...
Mas não sei porque lembro-me de que não pode durar a nossa felicidade... E por cá?
--O peor, informou a inglesa. Salomé foi quasi logo depois da tua partida para o Minho a tratar de negocios que me pareceram pretexto para sahir.
O monsenhor está no quarto, impossibilitado de andar, inutilizado por toda a vida, segundo o medico.
--Uma noticia triste--a do padre, disse Peregrina. A de Salomé nem vale discuti-la; chegou-lhe a nostalgia do Minho. Foi folgar as cirandas do Mosteiro, contar a differença que vae desta á sua aldeia.
Mas o padre, coitado! Vamos vê-lo.
E subiram as duas até aos aposentos do doente.
--Então que tem, monsenhor? perguntou Peregrina da porta.
E, depois, correndo para elle a abraçá-lo, enxugando-lhe, commovida, as lagrimas:
--Não se excite, ha de melhorar...
--Não melhoro, minha senhora. Os milagres nunca desmentem a razão. O que fazem é escondê-la, ás vezes. Ora a razão contribuiu-me irremissivelmente com uma doença incuravel. Eu devia adivinhá-la. Tê-la como fatal derivação da minha vida.
Tenho o mal dos que passaram a vida a vibratilizar os nervos.
Ainda na oração e no culto vivi uma tolerancia que escandalizou os meus superiores. Como não havia de ser tolerante para os peccados alheios, se sabia, por experiencia, o que era o inferno e a penitencia de soffreá-los.
Emfim, aqui tem V. Ex.ª o mais acabado exemplar de miseria que podia recorrer á generosidade da sua nobre estirpe, a pedir a esmola dum quarto e dum talher.
Sou o _index_ de faltas e excessos. Se algum dia escrever o romance da sua vida,--e creio que terá assumpto,--peço-lhe que se não esqueça de associar á sua peregrinação de mulher nobre, tão nobre que tem nos escudos symbolos de duas nacionalidades, a tragedia simples dum padre que batalhou deveres e nervos para vir acabar, miseravel, entre grandezas--as que V. Ex.ª quiz repartir com elle. Pois que está em moda o romance social, não deixaria de representar bem o clero de duas Potencias historicas a desfazerem-se...
Maria Peregrina e Violet commoveram-se. A confissão daquelle homem, precocemente velho, a trasbordar amarguras, veiu aguar o enthusiasmo da Artista, que pensava encontrar nos amores de Nuno uma nova epocha. Quem é feliz ou imagina sê-lo quer ver em tudo felicidades. E magôa-se se os fados lhas desmentem. Mal encontrava palavras a consolar Andrada.
E vingava-se, prodigalizando-lhe cuidados, andando em volta delle a adivinhar-lhe os desejos.
--Quero tornar-lhe superfluos os movimentos, dizia.
Ha de ver:--quando pudér mover-se dispensar-se-á de fazê-lo. Terá a vontade confortada de preguiça, com pouca vocação para ordenar lidas.
E abraçava-o, carinhosamente, enquanto Andrada lhe beijava as mãos a chorar.
* * * * *
--Vou a casa de Nuno, disse ella a Violet, no segundo dia depois da chegada.
Estou surprehendida com o socego delle. É de admirar que não tenha vindo. Está a abeberar os excessos de amor que trouxe da Villa-Feia.
Nuno recebia aquellas caricias duma sensualidade selvagem, medroso, de olhos baixos, humilde.
--É um exame de consciencia que naturalmente está a fazer. Tem medo de que não saiba dar-lhe impressões novas. Como é creança em amores. Mas vou educá-lo. Hei de pagar com usura os seus encantos de noviço. Vá, Violet, manda preparar o carro.
Um quarto de hora depois chegava ao palacete-Foz.
Nuno estava no quarto que communicava com o gabinete. Á hora do correio entrou o mordomo, segundo o costume; e, depois de entregar a correspondencia, informou que havia meia hora que Maria Peregrina esperava no salão.
--Ah! disse Nuno, admirado, porque não mandaste entrar?
E depois:
--Mas, não; como te não tinha prevenido... Olha, quando vier manda logo subir.
Mas não, depois falaremos ácerca das visitas. Convida-a a entrar. Já!...
E, confuso, levantou-se quando lhe presentiu os passos.
Peregrina entrou, encarou-o a distancia, e, depois de curto exame, foi beijá-lo nas palpebras. Começou a cofiar-lhe o cabello, duma negrura luzente; ora o abraçava, ora o repellia...
--Então não recebes antes desta hora? Nem a mim que sou senhora dos teus nervos e posso subjugar-te num momento! Anda cá, deixa morder a tua boca! É um fructo de desejo...
E mordia-a suavemente.
Depois, afastando-se:
--Vae buscar aquella pelle de urso. Cobre o escudo dessa alcatifa. Extranha idéa--brasonar tapetes! Que os outros pisem os nossos brasões vá, mas nós! Deita-te aqui, minha creança.
E desabotoando o vestido côr de hortensia:
--Faze o mesmo que estou fazendo! Despe-te! Já!... Vê como as sedas da pelle do urso se levantam. E olha que são dum urso do pólo!
Nada resiste ao genio sensual!
E, de repente, enlaçou-o pela cintura, fazendo-o tombar, passivo e tremente, sobre a pelle branca.
A physionomia de Peregrina espectrava a alegria selvagem da louca, que, numa ancia de luxuria, se preparasse para devorar o amante, depois de esfarrapá-lo.
A expressão de Nuno era de dor acceite. Lembrava um religioso a deixar-se maltratar, sorrindo aos cilicios, crente num ceu a apparecer!
De subito ergueu-se sobre o corpo de cobra da amante, e, num momento, desmanchou-o uma extranha furia; cahiu em coma, voltou a soffrer, sereno, o martyrio daquella mulher, cilicio de amor, simultaneamente divina e infernal, sagrada pelas fórmas e demoniaca no capricho das perversões! Até que cresceu, de novo, em tempestade; e, sobreexcitado, inconsciente, sacudiu-se em crise hysterica, e impelliu Peregrina, que tombou, exánime, ao longo da alcatifa...
XIII
--Quem é? perguntou a Poetisa, ouvindo a porta do gabinete, e suspendendo a escripta duma folha de papel que levava em meio. Não recebo a esta hora.
--Está lá fóra, informou Jacob, o sr. Miraz que pede para entrar; promette demorar pouco.
--Bem, disse Peregrina, aborrecida, manda subir.
Miraz chegou, muito desmanchado, cumprimentou, abrindo a boca num riso enigmatico e sujo, e sentou-se, cruzando as pernas.
--Que deseja? perguntou ella.
--Venho propor a V. Ex.ª um negocio.
É um negocio que não deve parecer-lhe pesado. Entro nelle sem rodeios, pois que V. Ex.ª conhece o mundo, sabe o que é a vida.
Quando a necessidade entra pela porta, diz o proloquio, sae a virtude pela janella. Eu creio que nunca tive virtude para baldear da janella. O que tenho são miserias.
Mas estou de posse dum manuscripto que vale dinheiro. E digo que vale, pois que fui ver por quanto um editor o pagava. Offereceu-me vinte libras. Para editor é bastante; mas para V. Ex.ª vale mais.
Eu preciso dum conto de réis. A V. Ex.ª não lhe faz differença esta quantia e a mim aproveita-me. É uma somma salvadora. Verá que jámais comprou socego por tal preço...
--Mas de que se trata?
--A publicação vae intitular-se--_Sapho em Lisboa_. Insere episodios que V. Ex.ª especialmente conhece, documentados com uma carta do ministro inglês.
E desdobrando um rôlo de papeis:
--Leia V. Ex.ª:--confio-lhe os manuscriptos, na minha presença.
Ella tomou o maço, muito serena. Leu a primeira folha:--era a carta de Broock, despedindo-a de casa. Viu algumas paginas com vagar.
--Onde e como obteve esta carta? perguntou depois.
--Permitta-me que não responda já.
É segredo. Posso vendê-lo tambem, mas caro, pois que interessa terceira pessoa.
--Esse segredo escuso de pagar-lho, replicou ella.
E continuou a ler. Passou algumas paginas e de repente disse, fitando-o:
--É uma historia incompleta, pessimamente feita. Não me perturba a idéa de ver praceados os meus delictos. Mas a historia ha de apparecer mais tarde, honestamente documentada e escripta.
Isto, accrescentou, é uma torpeza idiota. Vale, como documento para v., bem mais do que para mim. É um caso simples de _chantage_ a illustrar a vida dum jornalista de terceiras paginas, tambem _souteneur_ e ladrão! Está bem na _Folha_, enquanto não houver casas de reclusão bastantes...
--Pode V. Ex.ª pensar e dizer o que quizer. O que não quero é demorar-me; preciso de saber se tenho de contratar o manuscripto com o editor...
--Demais, estupido... Então imaginava que eu, de posse desta carta, que é minha, lha daria sob qualquer ameaça ou violencia?
E, destacando-a, atirou-lhe com as tiras sujas do manuscripto, premindo o botão da campainha.
Miraz levantou-se, derrubou um pequeno movel que o separava de Peregrina e cresceu para ella, que amarfanhou a carta, preparando-se para defendê-la, e encarando-o num misto de arrogancia e nojo.
Elle deitou-lhe as mãos aos pulsos e ia a torcer-lhos, quando se abriu a porta e entrou o creado, surpreso.
--Põe lá fóra este velhaco! ordenou Peregrina.
Immediatamente o creado agarrou o chronista pela golla do casaco, arrastando-o ao primeiro patamar e fazendo-o rolar sobre a passadeira até á porta.
--Não o maltrates, avisou Peregrina, do gabinete.
Era ao tempo em que elle, já da porta, confundido com o tapete, bolsava para o alto os peores adjectivos da _Folha_.
Mas, sentindo o creado, sahiu rapido, tapando com as mãos grossas os rasgões do fato, esfrangalhado.
Peregrina mandou chamar Violet.
Ella entrou, confusa.
--Vejo que déste pela scena. Leio-te na côr o delicto...
E mostrando a carta de Broock:
--Quanto recebias do conto de réis que elle queria por esta carta? Devias ter a melhor parte...
--Perdôa-me. Não lha dei, roubou-ma, num dia que veiu ahi ficar. É um miseravel. Pois que me faltava aqui? Dinheiro?!
Elle sim, era precisado. Imagina que o satisfazia ir ao Tavares commigo, cear. Só tinha comido lá seis vezes, confessou. Que miseravel! E sujo!
Oh! perdôa-me Peregrina. Não sei que loucura foi a minha. Estive a conversar demoradamente ácerca de ti. Contei-lhe, de boa fé, a historia da tua vida. Mostrei-lhe a carta. E elle, o miseravel, roubou-a quando sahi do quarto, á mistura com uma trancelim de platina e umas notas de banco que tinha na mesma boceta. Perdôa-me!
--Perdôo. Contudo, não podes continuar aqui.
O que succedeu foi uma fatalidade, mas eu dou por toda a indicação! Irás abraçar os teus. Tambem vou sahir de Lisboa, desta villa, com pretenções a terra civilizada e que só tem de civilização o peor:--alfobres de litteratos--genero-Miraz, gafos de toda a ordem, a especular escandalos.
Vaes para Londres. Eu vou escolher um ponto retirado, á beira mar, esquecer-me...
Na mesma tarde conversava Nuno com a Poetisa, acerca dos episodios do dia. E combinavam ir os dois passar o outomno á Figueira, a viver o socego da praia, á hora em que os banhistas retiravam.
Nuno demoraria em Lisboa quinze ou vinte dias, a liquidar negocios. Maria Peregrina partia immediatamente.
XIV
--Porque és tu tão esquivo aos meus affectos, depois da convivencia que temos tido? perguntava Nuno a Ruy, sentados ambos num banco de azulejo arabe, no parque do Palacete-Fóz.
Vês a incondicional devoção que tenho por ti, como sei ouvir os teus casos...
Senti o prazer amargo das tuas confidencias:--os amores innocentes com Paulina, aos treze annos; e as luxurias de dois annos de collegio com escolasticos anemicos. Viste a cordura com que ouvi tudo--sonhos e miserias adolescentes. Estimo-te como o destino te engendrou. Que prevenção é, pois, a tua contra mim? A cada momento sinto que me repelles...
--Sim, disse o _Vagabundo_, separa-nos a raça. Attribuo as mais das batalhas intimas aos fios de sangue nobre que me laivam o temperamento. Vejo mal as figuras de privilegio; como já te disse, só vivo os affectos que me não melindram. Não sei o que vale a amizade. Dou pelo interesse extranho, e raramente por uma ou outra figura de Belleza humilde. Propriamente culto não tenho por ninguem.
Nem sei porque, seduz-me o teu espirito, mas vexa-me o teu affecto. É um caso de sensibilidade que não apercebo bem. Mas não falemos nisso. Conta-me os teus delirios com Peregrina.
--Sei lá o que hei de contar:--amarguras. Tambem nos afastam razões intimas. Deante della, sinto-me abdicar de mim. Sou uma força que o seu amor explora. Goso e soffro segundo o seu capricho. Dá-me um amor que me faz ganhar a eminencia de sensualidades supremas, e me despenha, cégo, ás minhas fraquezas, onde tropeço com nervos e hysterias. Ainda bem que partiu. O mêdo que me causava!
Vou escrever-lhe a denunciar-lhe este mêdo e o proposito de jámais a encontrar. Dóe-me a desillusão que vae sentir. Mas, deixemos isso...
Agora sou eu quem relega o assumpto que deste.
Canta alguma coisa; quero ouvir-te o _Fado triste_...
--Vá lá, disse o Vagabundo, tangendo a guitarra que levantára da extrema do banco.
E interrogando-se:
--Que lettra ha de ser? Será uma velha _Cantiga_, a ultima que me ouviu Paulina, em Villa Alva.
E, desviando os olhos de Nuno para os espalhar, num além de reminiscencias, cantou em voz branda, os treze versos:
«Senhora, partem tão tristes Meus olhos por vós, meu bem, Que nunca tão tristes vistes Outros nenhuns por ninguem! Tão tristes, tão saúdosos, Tão doentes da partida Tão cançados, tão chorosos; Da morte mais desejosos, Cem mil vezes que da vida! Partem tão tristes os tristes, Tão fóra d'esperar bem Que nunca tão tristes vistes Outros nenhuns por ninguem»![1]
Nuno fixava, perturbado, o _Vagabundo_.
--Vaes deixar-me abraçar-te, disse quando elle acabou.
--Não, contrariou Ruy, esquivo e já de pé, entornando o olhar verde pela folhada mysteriosa do arvoredo...
É tarde, vou sahir.
--Espera um pouco.
E, dando por detonações, longe:
--Que é? Ouço barulho...
--Deve ser o desabar dum regimen, informou o _Vagabundo_. Já vês que não perdia o tempo enquanto conspirava pelas alfurjas, no segredo e abraço dos meus irmãos de crime.
--Ah! então conspiravas com essas figuras de patibulo com que ás vezes te via, ás noites, pela rua? Tenho prazer com a confissão. Não sabia que um artista, como és, podia tropeçar em coisas politicas, e suspeitava das tuas companhias. Pensava coisas peores...
O odio que me causavas quando te via encarar esses homens esguios, alvacentos, de torso recurvo, que o vicio planta nas esquinas, como postes de infamia, electrizando, vendendo-se á nevrose dos que passam...
Num dia em que o teu olhar se misturou no riso duma figura assim, senti gelar a alma, todos os sentimentos, no riso que te desafiou. Confundi-te com a larva que me pareceu essa figura...
Afinal, não podia ser; tu não podias dar-te áquelles farrapos.
Mas intrigava-me, profundamente, o mysterio que encobria os teus serões.
Em que passavas o tempo? Era o que me perguntava em vão. Como havia de suppor-te a conspirar! Tu a urdires a desgraça dum regimen!
Vem cá, minha creança. Deixa lá os regimens. Elles são o que valem; e valem os povos que inculcam.
Os povos são como as mulheres feias; culpam os espelhos que lhes reproduzem a hediondez!
Alegra-te aquelle barulhar de cobiça? Não é um systema que tomba. É o desabar das monarchias do Ocidente, dos povos que ellas inculcam, das tradições que resumem.