Chapter 7
Mas o Minho pareceu-lhe pequeno para theatro das novas aventuras, que lhe traziam, sem enthusiasmo, um bem-estar, que não sentia ha muito.
Em volta de Peregrina, mexeu-se Lisboa. Appareceram os que desejavam folgar na casa do Alecrim, como pertencendo á sua parentela, e havia os recem-vindos das letras, que thuribulavam a Artista na presença e andavam pela cidade contando as extravagancias que derivavam da sua conversa livre.
Ella, conformada pelos novos amores, mal dava pelo cisco que remoinhava nos seus salões.
E, aos certames do sabbado, acquiescia, benevola, dispensando attenções e espirito. Entretinha-a brandamente aquelle gaudiar de gente que ia ali explorar-lhe o luxo e destinava a prender a futilidade da Salomé. Entretanto, para si preferia outros dias, aquelles em que tratava á puridade os intimos, que eram os da casa, Nuno de Villar e Ruy.
Nuno de Villar procurou-a, para agradecer a _Nova Sapho_, e offerecer o trabalho de Ruy; e ficou, desde logo, um amigo da casa, a quem Peregrina tratava com distincção e affecto.
Ruy apparecia esquivo, cobrindo o orgulho de humildades.
Peregrina tratava-o por tu; gabava-lhe o talento; tomava-o, carinhosamente, por uma creança que era preciso amimar; ria dos seus enleios, a ver se conseguia dar-lhe á alma selvatica tranquillidade e estados mais felizes.
Não havia meio.
Era, como frisava Nuno, o genio do povo, o Principe da Plebe, irreconciliavel com outras camadas.
Frequentava os meios aristocraticos, por curiosidade. A Arte dava-lhe admissão nos salões. Mas trocar affectos com outras raças, não podia. A sua obra era a concepção do homem que conversa de perto a natureza e a exterioriza, sonhando alto.
Elle sonhava em tela e bronze. Era poeta, pintando á sua maneira. Os pastores da sua provincia, vagabundeavam com os gados com os quaes trocavam expressões de olhar. Mas estas expressões davam-nas entre si, misturando, desvairando a alma, na alma livre dos campos.
Reflectiam-nas, desgarrando cantares impregnados de nostalgia arabe. Fóra dos descampados, eram outros.
Tambem Ruy, ainda nos salões, distrahido, usava expressões mansas de cordeiro.
Se o chamavam á vida e fixava os que o cercavam, espectrava logo denuncias duma alma irreconciliavel.
Quasi sempre calado, brando á vibração das inferioridades, como dos talentos alheios, era nos salões de Maria Peregrina como um alumno que apparecesse a tirar a falta.
Entretanto, a casa da artista era uma verdadeira academia, aos sabbados.
Romancistas em começo de vida, homens de Estado, jornalistas, pintores, poetas de primeiro vôo, tudo ia ali privar um pouco com a Poetisa, e dizer discursos de Arte, de philosophia e até de politica.
Maria Peregrina, tolerante, ia acompanhando aquella Babel de convenções. E a Nuno, que a increpava, educadamente, da generosidade, accusando-a de subsidiar os apostolos do que chamava a philosophia do Pôdre, respondia:
--A collecção dos sabbados é o meu narcotico. Aquelle barulhar de idéas disparatadas, auxilia-me a esquecer o passado, a viver o presente.
* * * * *
Uma noite estava no Salão-verde, só e muito attenta a um volume de Spinoza, que lia havia horas, quando entrou um creado a annunciar:
--O sr. Conde de Nevogilde e o sr. Ruy.
--Que entrem! mandou.
E vendo-os:
--Como vão?
E para Nevogilde:
--Não quiz vir hontem? A noite esteve desagradavel... Tem escripto muito? Que bello o ultimo folhetim para o _Jornal do Rio_!
Como o Nuno consegue ser original sem diatribe, crear sem demolir. Como se excede, escrevendo!
A puridade, na conversa, tem ainda impertinencias. Escrevendo, só edita o homem superior. Admiro-lhe, sobretudo, o alheamento da vida commum; a elevação do espirito, exotico quasi a frio; a forma por que consegue percorrer notas tão extranhas dentro da mais perfeita serenidade do dizer.
--É que a conversa é para mim uma distracção, um vicio. Pratico-a, como pratico os demais vicios, tal como os nervos, as influencias ma suggerem. A conversa não sou eu; são os outros e eu.
Tenho para mim que a companhia desdobra de nós uma creatura differente da que formamos intimamente. E, quanto mais intelligentes somos ou nos julgamos, peor é--mais ingenuos somos tambem, mais facilmente cahimos na tal rêde de suggestões...
Até Maria Peregrina é, acompanhada, uma pessoa tão diversa de si propria!
--É verdade, Nuno, confirmou. E quando estamos sós, é que mais soffremos!
Por mim, contrariando o proloquio, prefiro estar mal acompanhada a estar só. Contudo, convenho em que precisava de viver isolada.
E premindo o botão da campainha:
--Vou mandar chamar a Salomé e Violet; com a leitura não sei dellas ha muito...
Veiu Jacob, fez uma mesura a distancia e quedou, cabisbaixo, á espera de ordens.
--Anda cá, disse meigamente Maria Peregrina, passando-lhe os dedos pela face de pergaminho, tu vaes, meu velho, dizer ás senhoras que as espero, sim?
Voltando-se para Nevogilde:
--Gosto muito deste anão porque é menor do que a sua maldade, e a maldade delle profundamente legitima dentro do destino. Não imagina, paga a pena conversá-lo a sós. O Mal não tem que ensinar-lhe coisa alguma. Depois, tão intelligente e commodo nas suas formulas. Veja como entrou respeitoso. Eu uso-o como uma extravagancia, de longe em longe; a alma delle vale um frasco de essencia exotica que entorno sobre mim ás temporadas...
Salomé e Violet chegaram á sala ao mesmo tempo.
Nuno, levantou-se para cumprimentá-las, mas antes que tivesse tempo de fazê-lo, já Salomé o inquiria sobre a falta da vespera e aversão ás reuniões do sabbado.
--Estava agora para explicar a Maria Peregrina a razão da minha falta.
Ainda bem que a sua chegada me salva de repetir-me. Ia dizer que não gosto das reuniões do sabbado porque me aborrece a collecção de letrados que geralmente juntam. Além do chronista, que é sujo, tão effectivo na immundicie como nos serões, ha os dois poetas, que reputo duma pelintraria intellectual abaixo de tudo, deputados, os dois ministros--todo o indice da familia portuguesa que trato a distancia. Não sei como pode aturá-los, concluiu, olhando para Peregrina.
--Aturo-os bem, e divertem-me: são originaes na sua ingenuidade. E eu quando vejo alguem original exulto. A vida é tão monotona, a gente escorreita tão pouco interessante...
--Sabe? interveiu Salomé, voltada para Nuno: tambem esteve hontem a mulher do pintor...
Vinha pasmosa de côres e _toilette_. As tintas do cabello e da cara, desacreditavam, de vez, o marido.
--Se é o marido quem a pinta ou lhe inspira a côr, o que nunca ouvi, objectou Violet. O contrario é que parece verdadeiro; é ella o modelo, a razão da arte como dos infortunios do pintor.
--Coitada, commentou Peregrina, que pena me dá! Deus deu-lhe um cerebro estreito, que mal chega para a moral burguesa. E teima em ser _alguem_! Quando, afinal, nem tem vontade de ser boa, nem talento para ser má.
O horror que deve ser o conflicto da carne escandecida pelo temperamento sem a menor centelha de genio que o aproveite!
--Ah! commentou Nevogilde, essa, apesar de tudo, é sympathica no seu remoinhar de _toilettes_ de rainha pobre de tragedia...
Quem eu não aturo são os outros.
Umas creaturas tão enfezadas, tão pobres de corpo, como de alma... Que miseria!
--Nuno! observou a Artista, delindo as palavras num sorriso:--não me faça arrepender do conceito em que o tenho. Demais, esse luxo de parecer forte denuncia fraqueza...
Que mal lhe fizeram as minhas visitas de sabbado? Seja bom! A inferioridade dos outros é que faz o nosso talento.
Nevogilde ia a replicar, quando sentiu refolhar o reposteiro e surgir a cabeça quasi branca de José d'Andrada.
--Olá, monsenhor! Então que vae?
--Uma optima temperatura nesta sala, replicou o padre. Estou certo de que é o unico compartimento civilizado de Lisboa, pois que tem tudo--espirito, luxo, calor...
E sorria, numa expressão boa, encarando Peregrina e os companheiros de serão.
--É verdade, observou Nuno. E, entretanto, se o monsenhor não viesse de fóra, do frio, já nem agradecia esta temperatura e companhia.
Eu creio que até no ceu haverá dezembros para que haja camaras mais reconditas onde Deus alumie e aqueça os escolhidos. Não lhe parece, monsenhor?
--Sei lá! respondeu Andrada. Nunca me dei a averiguar se o ceu tinha calendario, mas creio que não, pois que, apesar de relapso, segundo os vigarios de Deus na Terra, quando leio o Breviario não dou pelo tempo...
--O monsenhor quando morrer não chega a estanciar no purgatorio, tão lavada é a sua vida neste mundo!
--Não sei, sr. Conde, como Deus vê as nossas obras! Se as avalia pelas intenções, estou certo de que nos absolverá a todos, seja qual fôr o conceito que o mundo faça de nós.
Elle vê-nos ainda informes. Sabe o que o destino vale contra as creaturas. Creio que castigará a maldade, mas será bom para a desgraça, perdoará os nossos erros.
De certo, ha de prosperar-nos no ceu segundo as intenções.
Por ellas saberá quem são os limpos de coração.
--Como poderá passar no ceu sem a Mouraria? perguntou Nuno, rindo, voltado para Ruy.
E dirigindo-se a Maria Peregrina:
--Não imagina, é uma sereia bohemia. Como sente a vida humilde dos que viciam por essas ruelas e sabe insinuar os imprevistos que por lá existem!
--Ahi está um emprego que me dirá bem, affirmou Ruy, em sua voz cantada: serei o informador junto de Deus da miseria que sei.
--Deus dispensa-o de tal trabalho, disse Andrada, sorrindo. Vive na consciencia de cada um. Julga os nossos julgamentos e joga para isso com factos que nos são despercebidos. Mas deixemos o assumpto se V. Ex.as o permittem.
Discutir Deus é estragá-lo. Basta crer nelle, acceitá-lo no maximo de bondade que pudermos pedir ao temperamento.
Uma novidade:--acaba de chegar a Lisboa o novo ministro inglês; vae ao Paço na proxima semana apresentar as credenciaes.
--E quem é? perguntou Nuno.
--É, deixe V. Ex.ª vêr se me lembro: É... John Brook.
--Brook! disseram a um tempo Peregrina e Violet.
--Conhecem? perguntou Nuno.
--Sim, conheço; quero dizer, sei quem é, informou Peregrina. Uma pessoa da familia delle foi do nosso tempo em Petersfield.
E, disfarçadamente, olhou para Salomé, que conversava baixo com Violet.
Appareceu um creado.
--Está lá em baixo o sr. dr. Amaro Sanches; pergunta se V. Ex.ª pode recebê-lo.
Peregrina fez um gesto de cansaço e disse de vagar, hesitante:
--Que entre...
Nuno ia a levantar-se.
--Ah! fique, peço-lhe, implorou Peregrina.
--Se assim o deseja, fico. Mas custa-me muito aturar um capello, e então aquelle--lente, filho de lente, neto de lente. Tem as caldas todas.
--Deixe lá, replicou Peregrina. O genero é antipathico em Coimbra. Fóra de portas é toleravel. Verá que é discreto...
Momentos depois entrava na sala o dr. Amaro Sanches, pequenino, precioso, á busca de expressões, anecdotico, preoccupado com a maneira de estar.
Explicou que partia no dia seguinte para Coimbra a reger cadeira. Falou das aulas e contou de enfiada as partidas do velho Lourenço, José Braz e casos do Quental.
E Maria Peregrina, que via, disfarçadamente, a atitude admirada de Nuno, como a desviar-lhe a palavra:
--Esteve na Granja, não é verdade? Divertiu-se? Agora vae extranhar; muito trabalho...
--Ah! não imaginam. Este anno a praia esteve animadissima. Disse lá umas conferencias na Assembléa sobre a Pedagogia na Allemanha. Sou um apostolo deste grande país. Fiz lá o melhor do meu apprendizado scientifico. Estou gratissimo ao ensino allemão. Será o meu guia na aula. Os meus collegas na Faculdade vêem de maus olhos este exclusivismo pela Allemanha. Mas V. Ex.as sabem que é a primeira em tudo:--em Medicina, Philosophia, Arte, Politica, etc. Sou tradicionalista como um allemão. Quero Sciencia, Arte e Politica tudo á allemã. As creaturas disciplinadas a uma só ordem--á auctoridade, que é no governo uma individualidade de poder, na aula o professor... Por mim serei um ditador. Um mestre é na cathedra um governante. Tem de impor os methodos.
E, numa confusão de assumptos, verboso, descrevendo methodos de ensino, as dansas da Granja, tudo o que lhe ia lembrando, passou uma hora. Até que pediu licença para retirar:--tinha de levantar-se cêdo...
Houve um movimento que tanto podia ser de attenção á despedida, como de allivio.
Nuno, vexado, abreviava os agradecimentos ás offertas do professor, muito importante, convidando-o a ir a Coimbra ver os progressos do ensino.
--Que fosse; o ensino estava ao par do que vira no extrangeiro; não era só a Medicina que honrava Coimbra, a antiga capital intellectual do país; honravam-na todas as faculdades, destacando-se a de Direito, onde o professor Alves, que ensinava Direito Patrio, remontava o estudo da sua cadeira ás edades paleolithicas;--que fosse ao menos assistir á festa dum capello, aconselhava com interesse: era a festa academica por excellencia.
E para Maria Peregrina e Salomé:
--Porque não vão V. Ex.as tambem? Deviam gostar. Haveria em breve o capello dum rapaz que se doutorava ao mesmo tempo em philosophia, mathematica e medicina e ia ostentar na festa um capello tricolor; não imaginavam:--era uma summidade, com vinte e cinco annos!
Que fossem, insistia; já o pae e o avô, que tambem tinham capello, falavam com uncção da grandiosa festa.
E os presentes á uma, para que se calasse:
--Que tinham o maior desejo de ver a tal zebra insigne. Era possivel apparecerem. Haviam de combinar...
Enquanto falava, Amaro Sanches fitava Salomé, que parecia a unica a interessar-se por aquella lôa coimbrã.
Afinal despediu-se, promettendo voltar em breve. Ia muito sensibilizado pelas reuniões dos sabbados.
E, depois de salamaleques varios, arrastando cadeiras, lembrando ainda os ditos do Dr. Lourenço, sahiu muito contente de si e da Universidade, após um aperto de mão prolongado á Salomé, que o fitava com ternura.
Quando sahiu tudo se calou. Nuno levantou-se, esfregou os olhos, como se tivesse acordado dum pesadelo, e disse, voltando-se para Ruy:
--Vamos!
--Já? inquiriu Peregrina. É cêdo; são onze horas.
--Estou fatigado, contuso. Tenho a impressão de que o homem varreu sobre mim toda a caliça dos paços de João III.
Quando a torre cahir não faz tamanha bulha!
A cabeça deste lente rehabilita o chaos. Aquelle craneo é uma terrina de salada russa!
Adeus, Maria Peregrina!
--Espere um pouco! disse ella, fixando-o.
Coitado! Depois das sabbatinas nas aulas, dos successos na Granja, triumphos em theses, do capello amarello, retrato entre o papá e o avô, dos cumprimentos dos rapazes, num meio pêco e idiotamente romantico, que queria V. que o homem fosse?
--O que eu me perguntava, no decurso daquelle desapontoado de coisas, era no que redundaria a geração que tem educadores de tal jaez?
Que viveiro!
X
Dias depois, escrevia Peregrina, quando foi interrompida por Jacob, que lhe trazia um bilhete.
Leu: Helen Broock.
--Está no vestibulo esta senhora? perguntou.
--Está, informou o anão.
--Acompanha-a aqui.
Momentos depois entrava Helen, e abraçava Peregrina num transporte de alegria.
--Ha que tempos nos não vemos!
E beijava a antiga companheira na boca e nos olhos, incendida de côr.
Maria Peregrina recebeu-a com moderado enthusiasmo. Quando ella se distanciou, mirou-a curiosamente.
Helen não era já a esbelta rapariga de Petersfield. Era uma figura quasi vulgar. Debalde Maria Peregrina procurava nella a linda pelle de seda que a tinha arrebatado tanta vez, as fórmas excepcionaes, a flexuosidade e candura do movimento.
--Estou mudada, não é assim? Tu não estás resentida commigo?! Sabes que tive um grande desgosto com a carta do John. Coitado, agora é um cordeiro. Tenho vingado a grossaria que praticou comtigo.
Então, minha _Sapho_! dize alguma coisa á tua velha amiga, abraça-me!
E beijava-a com ternura.
--Que queres que diga? Que és junto de mim o passado! O acaso, veiu juntar-nos, quando estamos tão longe do que fomos.
Não imaginas o estado de indecisão de espirito em que ando. Depois que te deixei, a nostalgia de Petersfield pautou-me toda a sorte de extravagancias. Queria encontrar alguem que te substituisse; e, entretanto, ia enchendo o tempo, pervertendo-me, para não pensar no perdido.
Não encontrei quem procurava. Nem tu, segundo acabo de verificar, podes substituir-te.
Não sei se sabes que vive commigo Violet. É uma pobre creatura que me é docil como a minha carne. Talvez por isso a vejo com amargura. Está ahi outra rapariga, minha parenta.
Já percebi que amo nella a simples frescura da mocidade, talvez a ingenuidade dos seus enleios de provinciana.
Mas o vago duma aspiração suprema, persiste em mim. Eu queria, sabes?--o goso tranquillo, pôr um fim onde só encontro o indeterminado...
Um horror!
Não tento uma aventura que me pague a imaginação de urdí-la...
--Pois calculei que eras feliz. Tinham-me dito que recebias a melhor gente de Lisboa; que davas festas...
--A melhor gente de Lisboa é pessima. Excepcionalmente encontrei uma figura rara, o Conde de Nevogilde, um excentrico, escriptor de merecimento, por quem sinto a melhor devoção. Vale-me nalguns serões.
Vou por estes dias passar algum tempo á sua casa de Entre-os-Rios, a Villa-Feia.
--Extranho logar, disse Helen, se o titulo não mente.
--Não mente, creio. Aquella Villa é um capricho da natureza em favor do proprietario.
É um scenario novo, com uma flora especial, cheia de imprevisto. Tudo ahi é curioso. E não imaginas o enthusiasmo de Nuno Nevogilde pela sua Villa, como sabe estimar o encanto do Feio.
É um rapaz adoravel. O seu interesse vale mais do que o seu talento.
Ser interessante é ser tudo para os outros. O interesse é bem mais raro do que o talento.
Este pode ser monotono, impertinente; o interesse é o imprevisto, o encanto derramado naturalmente, filho duma razão que escapa, adstricto a um genio cujo enredo nos move sem que possamos defender-nos das suas más consequencias.
Não é o que elle diz, é a forma porque diz. É insinuante, muito crestado de viver, apagando-se junto dos humildes, pasmando perto dos tolos, soffrendo o que vê, o que adivinha...
--Vaes então passar uma optima temporada? disse Helen triste e morna aos enthusiasmos de Peregrina.
O que te não lembra é Petersfield! Outros tempos, novos amores...
Pois eu, minha querida, vivo ainda na recordação dos velhos tempos. Não te enganavas quando respondias ao John, annunciando-lhe que eu permaneceria fiel aos teus ensinamentos. Cada vez tenho mais horror ao homem, sobretudo ao que me deram por companheiro. Ainda bem que a _diabétes_ promette liquidá-lo breve... É a sua nota sympathica--a doença.
--Olha que nos meus ensinamentos não cabe tal ferocidade. Ha coisas que podemos pensar, mas devemos envergonhar-nos de dizer. O pensamento nem sempre joga com a vontade.
Eu sou feroz commigo: tenho-me desejado a morte. Gosei a morte de Edgar, como nunca esperei gosar coisa alguma no mundo. Mas não lha desejei. Ter-lha-ia evitado, se a adivinhasse. Ante o facto consummado o meu espirito exultou. Espirito e corpo, num abraço como jámais se deram, possuiram aquelle lindo morto ou antes a Belleza-morte, no maior elasterio de sensualidade... Mas, vigiar dia a dia o que vae dar-nos a felicidade de morrer, perscrutar-lhe os passos da doença, porventura promover-lha, isso não é digno de ti.
--Ah! minha Peregrina, tu não sabes o que é sentir o amor do homem que detestamos. Olha que é peor do que o contrario, amar a pessoa que nos detesta!
--Mas afasta-te delle. Deixas de ser ministra de Inglaterra, mas és a mulher digna, ainda que vivas como uma rameira, de amores com outras rameiras. Sê a mulher livre; nada ha peor do que a honestidade forçada.
Só a hypocrisia é crime!
Os olhos de turquesa da extrangeira nublaram-se de lagrimas; cahiu a soluçar sobre o peito forte de Peregrina, que a afagava friamente. Bateram á porta.
Era Violet e Salomé.
--Esperae um pouco! disse a Artista.
E, dentro de breve tempo, sahiam as duas a encontrar-se com a antiga condiscipula e Salomé.
XI
A Villa-Feia, sobranceira a Entre-os-Rios, assenta na encosta que domina a juncção do Douro com o Paiva.
Este ribeiro desce obliquamente, como um fio de platina a fundir-se nas aguas de oiro do Rio, que segue, como um grilhão mysterioso, a perder-se no mar.
O antigo paço senhorial da Villa-Feia é um systema de torres e torreões extravagantes, casas afiladas de frestas altas e seguidas, que dão de longe a impressão de linhas pontoadas; e quadrados enormes, atarracados, beirados de ameias grotescas, e frestas em losango, que põem na cantaria verde-negra um recorte de retinas extranhas, attentas ao mechanismo liquido das correntes e á paisagem roxa dos montados.
Tanto o paço torreado como o plantio da maior parte do arvoredo da Villa-Feia, foram obra dum velho templario que, segundo a Lenda, veio esquecer ali as canseiras da guerra.
Aquella architectura, informam os do povoado, foi idéa do templario. A deformação das arvores e outros _signaes_ da Villa maldita, foram castigo de Deus, irritado com o porte de D. Alvaro de Castro Leite de Villar, um dos maioraes da Ordem que, em 1312, Clemente V aboliu.
Corre a fama de que o grande cavalleiro fôra um dos que mais justificaram a liquidação da Ordem militar e religiosa dos Templarios, pois que escureceu o brilho dos feitos mais ousados com actos de desenfreada sodomia.
O seu temperamento, fóra do natural, delineara um castello desproporcionado, alheio á architectura do seculo.
A natureza requintou em lhe deformar as arvores, dando á Villa-Feia uma flora monstruosa, invertendo o tempo das flores e dos fructos e afeiando as plantas de melhor raça. Mas não é sómente nas velhas arvores, que os do povo inculcam como plantadas pelo Templario, que as deformações se notam. É em todas as arvores que ahi se disponham. Quanto mais formosas são fóra, mais afeiam lá dentro. Ha-as chloroticas, abraçando-se numa adherencia de enxerto; outras, communicando serpentes de ramaria e abraços a muitos metros dos troncos; raças humildes, attingindo desenvolvimentos notaveis; eucalyptos, geralmente desenvolvidos e que ali figuram de anões, enfezados, exiguos.
Desenvolvimento, florescencia e fructos, parecem obedecer a leis especiaes. A Villa-Feia é um capricho da Natureza; uma pagina de Pathologia vegetal.
Os fructos são acres; as flores, em meios tons, e dum recorte esquisito, não têem aroma, o que faz que os camponios supponham que a sua approximação lhes veda o olfacto.
Tudo ali é extranho. Cada arvore toma um aspecto diverso das mais da sua raça em outras terras. O choupo-chorão abre em traços rectos; o _ulmus pendula_, de braços geralmente curvos no sentido do tronco, revira os ramos em hastes de novilho; cactos prodigiosos, vestem o sopé da encosta, formando cordões farpados; pinheiros bravos abrem-se em umbellas rôtas, de agulharia verde-escura; os cedros parecem arvoresitas de Natal, ramos de presepio; cyprestes bastos, tragicos e colossaes, põem pontos de admiração na paisagem; chorões, flexiveis como vimes, descem em tufos emmaranhados as suas lagrimas verdes, longas até aos pés; medronheiros de grandes troncos, herpeticos de musgueira, de folha sêca, mal vestidos, ostentam, simultaneamente, floritas brancas e fructos exiguos de coralina.
Os sobreiros jámais deixam o tom acastanhado que usam noutras terras ao abandonarem a cortiça:--põem na Villa-Feia uma _nuance_ de sangue velho, erguendo-se, rachiticos, como adolescentes morenos alcançados pela tisica.
Nos recantos mais sombrios o chão é hirsuto de tojeira, cerdoso de espinhos bravos, bastos como pellagem de javali, salvo nas ruelas, abertas em lacetes, tortuosos, duma colleação mysteriosa de labyrintho.
Domina a Villa um penedo enorme, simulando uma figura-gigante, deitada na tojeira, que se desdobra em volta como uma pelle.
É uma figura nua, guarnecida de musgos, ostentando signaes nitidos dos dois sexos; lembra a figura de Hermaphrodita que um artista ensandecido tivesse trabalhado ha muitos seculos, e postado ali como um amuleto maldito do mundo sensual.