Chapter 10
Symbolizavam as carcassas de dois poderes que o habito juntára, e agora sommavam fraquezas...
No poente, uma nuvem escorria agua. Do norte, o arco-iris desdobrava as sete côres. E o povo dizia, sahindo ás portas dos casaes:--É Deus que está de bem comnosco!
E levantando as mãos:
--Louvado sejaes, Senhor!
E Maria Peregrina, em blasphemia suave, encarando o arco:
--Deus em alliança com os homens, nesta hora, que ironia!
* * * * *
Sahiu de carruagem, demorando cerca duma hora. Ao chegar, o trintanario desceu do _coupé_ varios embrulhos, que levou ao Mirante. Peregrina conversou por espaço de três quartos de hora com monsenhor Andrada. Depois abraçou-o, commovida.
--Só nos veremos tarde, disse, vou escrever...
Ás quatro horas tomou uma refeição leve, e avisou:
--Que não vá alguem interromper-me. Vou trabalhar.
Noite alta, trepava Jacob pelo gradil do nascente, que cerca o Mirante, ganhando o peitoril da janella, fronteira ao Mondego.
Sobre um pequeno bufete Renascença, pousava um pergaminho mal enrolado, que pendia até meio da armação boleada.
Jacob, confundido com a noite, cauteloso de que as trepadeiras que vestiam o Mirante barulhassem a sua presença, quedou, numa estabilidade de simio mal accommodado, esgarçando os olhos á procura de Peregrina.
Ella estava de costas para elle, que a via, mysteriosa, mexer uma mascara, de applicação desconhecida, vasando ether sobre pastas de algodão.
Pelas frestas da janella, xadrezada, mal collada ao peitoril, sentia Jacob o aroma estonteante do liquido extravazando.
Subito, viu-a deixar o contador alto, e recostar-se sobre um canapé João V, cujo estofo côr de brasa lhe illuminava a figura marfilenea, vincada de sombras. Recuperára a antiga compostura fidalga.
Os traços de amargura, que lhe tatuavam a physionomia, não lhe venciam a raça:--era a mulher fraca, simulando força. Tinha o aspecto de quem despreza a vida, cumpria o destino.
A sua figura desbotada, mantinha-se como num tablado, por dar contas a si propria. Nem vigilias, nem dores haviam conseguido deminui-la.
A artista parecia vigiar a mulher.
Preparava-se para morrer. Mas o instincto, e o habito da Belleza, velavam a sua figura estatual, suprema de altanaria.
Ondas fluidas, forças aeriformes, enchiam aquelle quadrado de crystal, em parte opaco pelas folhas das trepadeiras--agora leve como uma asa. Tudo ali parecia voar...
Ella, diaphana, duma transparencia de visão, segurava numa das mãos a mascara que tinha como que á espera, do mesmo passo que applicava ás narinas brancas compressas humidas de ether.
E a boca, da côr das farripas do algodão, delia-se em risos de madrugada, expressões de sentimentos sobrenaturaes.
O ether, fluindo livre, parecia vagá-la pelo espaço; arrebatá-la pela altura.
Mira-Mar era já uma camara alada...
Subito, sentiu um repelão forte na janella estreita do lado do Mondego. E, a seguir, outro, que lhe partiu a fecharia, escancarando-a.
Uma lufada de vento dispersou, rapida, aquella atmosphera de morte e sonho. E Maria Peregrina, como voltando dum mundo de nevoa, encarou, somnambula, o anão, que cavalgava, audaz, o peitoril da janella, com a cabeça rente á ogiva.
--Que fazes? perguntou, numa voz de surdina, que parecia magoar-lhe os labios de lirio pisado.
--Venho impedir que te mates. Concede-me esse direito. É o direito de quem abdicou de tudo, desmentiu até hoje a raça, passando de nomada a escravo muito de vontade.
Eu sei que tens tido amarguras... Ainda esta manhã _elle_ tas causou, a ponto de resolveres esta loucura.
Estamos sós. Deixa-me falar á vontade. Era como exigias que te falasse quando sophismavas o amor commigo. Não é o anão, o rafeiro quem fala. É a alma que a natureza acobertou num corpo infame; e que, no entanto, abençôa a sua forma só porque ella foi alguma vez bem possuida.
Na logica dos teus desejos eu fui o histrião e o tapête. Tudo. Até mulher dos teus amantes!
E ria, num riso de metal.
--Hoje, do mundo só te acceito a ti. Cabe na minha humildade o maior rancor.
Dizias que vestia animo de lobo em pelle de ovelha. Pouco me importa hoje que me descubram o animo.
Odeio quasi toda a gente; e, sobretudo, o odiava a _elle_ que, recebendo-te corpo e alma, te vexava e me vexava, tratando-me como um farrapo. Como era immundo!
--Cala-te! Vae! Quem te permittiu a entrada? Quem te permittiu que viesses discutir Nuno?
Não te condemno; a tua intelligencia é inteira de maldade...
Acredito o que insinuas--que se serviu de ti! Que mais vae que se servisse elle ou eu?
A materia é una, percebes? As almas é que são differentes.
Pois que os superiores não encontram as almas que procuram em corpos bellos vão até vasculhar as dos monstros...
Não pudeste comprehendê-lo. Foste o demonio, a vibora enroscada, que elle, o desvairado, tomou por uma flor exotica e quiz colher...
Deixa-me! Sáe! e apontava-lhe de novo a janella.
--Espera, olha que estive ha poucas horas com elle!
E ria, numa contracção de possesso.
Has de querer novas, vou dar-tas.
Mas, antes, quero contar-te um sonho. Sonhei a noite passada um crime!
A imaginação da noite vestiu-me o somno de delicto. E eu não tomei o delicto como pesadelo, senti-o como um bem...
Ris-te da exiguidade do meu corpo! Pois não imaginas como é grande o odio que arrasta! Pois que sou o avesso dos felizes, o animal corrido pelos sobejos do bem, sinto-me a expiação de extranhos crimes, e é por horas tardas que o instincto do delicto surde e me embriaga em sonhos de morte. A noite é a camara escura onde revelo os perfis tragicos das victimas, que são todos, menos tu!
A noite passada foi _elle_! Estavamos na Villa-Feia. Lembras-te do eirado que domina o Ribeiro de Cobre? Foi dahi que o vi comtigo, daquella Eira de Vidro, donde tanta vez espreitei os vossos enleios, duma luxuria que eu sentia cá em cima, esporeado por infernos de ciume. Vós estaveis sob o docel fresco e branco das magnolias...
--Cala-te! mandou Peregrina.
--Ah! não queres que fale; calarei as novas que te trazia delle...
Não acreditas que tenha estado com elle? Affirmo-to, juro-te. Juro? Como hei de jurar, se não tenho religião alguma!?
Creio que sou o unico assim, em todos os mundos. Até o diabo tem a sua, pois que é proprietario do Inferno, precisa tambem de cabalas para explorar, negociar almas.
Eu nem inferno tenho!
--Jacob! se sabes alguma coisa de Nuno, dize. Mas não me atormentes.
--Vou então completar o sonho.
Eu beirava o eirado da Villa-Feia, encostado ao galho, meio podre, meio florido, dum medronheiro de muitos pés de altura, testemunha dos meus zelos. Subito, o ramo partiu, e o Destino precipitou-me sobre os dois, sobre vós. Tu mergulhaste na agua suja do Ribeiro de Cobre que foi rapida levar-te ao Douro, que no dia seguinte era mais de oiro, correndo como um grilhão immenso para o mar, conduzido por força mysteriosa. Horas depois, eras o Mar!
_Elle_ ficou na minha frente, mudo e estupido, como a Innocencia que o Destino empreita para fazer mal.
Foi então que, desesperado, o retalhei com uma lamina que recebi do momento. Quem ma deu? Ninguem...
Talvez fosse prenda do Destino que lhe deu a elle a passividade que te servia e me despenhava!
Certo é que lhe bebi o sangue, inundei-me delle, sentindo-me afogar...
A vida partia, ia morrer. Phantasiava já um cortejo de velhacos, conduzindo-me ao cemiterio dos criminosos em Plootzenseel. E eu a pedir-lhes que me levassem no cofre de ébano das tuas joias, aquelle cofre onde uma vez me meteste, a rir...
E a um gesto della:
--Espera! Depois acordei; foi para cumprir o sonho.
Encara-me bem! Assim...
Os sonhos são avisos do Destino. Esta manhã recebi recado para ir falar-lhe.
Fui. Simulei a antiga passividade.
Aprazamos o novo encontro á beira-mar, junto ao Forte, perto da gruta. Era ahi que o fidalgo queria ainda usar o farrapo!
Vinha cevar-se, immundamente, no monstro, contratado pela amante para servir os dois!
Mas enganou-se. Em Villa-Feia, dobrei-me a todo o enxovalho da sua vileza, porque elle era uma parte de ti propria. Eu era o teu escravo; servindo-o, servia-te:--entreguei-me.
Mas aqui, depois de despedir-te, de te enganar, commeter a abjecção de me preferir a ti, que vales um mundo de Belleza! Era muito, era mais do que tentar a Deus porque era tentar um monstro!
Ah! elle não sabia, os grandes como os infimos não sabem, o enigma que a fealdade encerra!
--Que fizeste, Jacob? implorou Peregrina. Dize!
--Que fiz?
E encarando-a a rir:
--Cumpri o sonho; adquiri uma lamina com que sondei o coração que te affligiu e me vexou.
Lá está na areia! Ficou-me num abraço...
Sinto ainda saudades do sangue que lavei para vir falar-te.
Bello noivado na praia, o do monstro com o fidalgo!
--És a fatalidade! disse Peregrina, correndo a abrir o Mirante. Não podias faltar ao ultimo acto da minha vida.
És a imagem do monstro que fui tanta vez!
A nossa distincção está em que eu puz a indifferença onde lançaste o odio.
Vejo entre nós o corpo branco de Edgar, tatuado de fios roxo-lirio. Vejo-o, tão lindo! Elle perdoou-me, o Destino é que não...
E, rapida, num passo incerto, sahiu do Mirante, desceu pela azinhaga guardada de louros que lhe embaraçavam o vestido côr de pervinca, e caminhou ao longo da estrada de Buarcos, que se desdobrava em fita pelo Cabo, listrando a noite.
Parou; ia errada.
Voltou-se; lá estava o pharolim do Forte.
Era ali que o morto quedava, dissera Jacob. Até lhe parecia ouvi-lo, de longe, a chamá-la! Estugou o passo; tinha pressa de vê-lo, de senti-lo.
Desceu á praia; correu sobre a areia côr de zinco, pintada do luar.
A distancia seguia Jacob, como uma sombra.
Era a madona duma Cathedral a silhuetar um monstro!
Fixou, ainda de longe, o morto. Abrandou o andar, como quem reconsidera... Depois, foi-se approximando num passo miudo de alvéloa receosa.
Elle estava deitado de costas, membros abandonados, descomposto, numa nudez de ephebo, morto mysteriosamente á beira da agua.
Os olhos de vidro, salientes do caseado das palpebras, muito abertas, lembravam os dum santo de capella pobre--contas escuras de camandulas, despedindo traços rectos de suavidade.
Era serena a sua face livida, irmã da luz daquella hora, mal cortando o luar.
O peito era de seda crua, côr da camisa aberta em sanefa.
Floriam-lhe o seio glabro redondos signaes vermelhos. Cada punhalada era uma tulipa de sangue.
Peregrina ajoelhou.
A areia phosphoreava luz de sonho, irradiações de phantastica pedraria...
Ella esteve a mirá-lo com uncção de penitente. Curvou-se a procurar os traços de luz vaga do seu olhar de vidro.
Depois olhou em redor como quem acorda ao ruido de passos que não espera.
Era o anão que andava á volta delles como um cão somnambulo, atado a um baraço imaginario, preso á tulipa semi-liquida que marcava o coração do morto...
--Que fazes, bandido? perguntou ella. Podes ir! Já me não perturbas. Segue o Destino!
Erra, segundo o espirito dos cães do teu sangue. Apprende como se transmuda a missão duma raça! Vae dizer aos teus a suavidade das nossas taras e amarguras. Se o genio teutão as comprehende!...
--É cêdo, volveu o monstro, como falando comsigo.
Peregrina voltou a encarar o morto. E, de repente, como batida de luxuria, começou a agitar-se num esvoaçar de aguia tonteada, envolveu-o no seu olhar de treva, falou-lhe, sacudiu-o, afagou-o, até que cahiu sobre elle, mordendo-lhe os labios de camelia pisada, lubricos de morte...
O mar tinha sobre a madrugada uma rhythmica extranha. Parecia ter recebido dos rios e das fontes, que xadrezam a prata a paisagem portuguesa, uma melopeia gemente de melancholias...
As ondas evolucionavam mysteriosamente, encapellando-se ao rhytmo das proprias queixas. Já duas vezes o mar tinha circuitado a renda aquelle grupo, duma selvajaria suave.
Á terceira investida, Maria Peregrina solevou a cabeça, numa atitude de quem trata com o mar como irmã.
Era a descendente de heroes, a desafiar novas fainas e conquistas, agora para além da terra, para além do mar...
Era a Artista a medir a morte, superior á terra, maior do que o mar! Veiu uma onda enorme. Surdiu, ao longe, como um Pegaso, de asas e crinas crespas, requebrando a sua anca azul través a praia.
Maria Peregrina, que a viu, levantou-se a esperá-la. A agua quebrou junto dos dois num lago de saphira. Ella impelliu o amante num carinho de noiva; e esteve um momento a vê-lo partir entre um roldão de cambraias...
Veiu uma segunda onda. Espatulou na areia uma lingua de agua, foi até á muralha do Fortim, e refluiu, volveu ao mar, chovendo os restos em orvalho de pureza.
Peregrina, que sentiu a onda abrir-se atraz della como uma concha liquida, deixou-se impellir, avançou com ella, e foi mergulhar na resaca da primeira vaga que a esperava com o morto.
E seguiram os dois...
Na areia estava Jacob, fixo como o deus Termo dos campos, numa serenidade inquietante.
Quando as ondas remoinharam os dois corpos num funil de espumas, a sua physionomia visajou infernos, como se partisse, interiormente, elasticos que tivesse a arrepanhar-lhe o carão alvar. Trepou como um gamo a escarpa do Fortim, arregaçou as palpebras, parecendo rebentar os olhos de azeite, numa tensão de myope que tenta ver, que quer ver...
Fixou a primeira agua, muito attento ás flores de neve, hydranjas de espuma em que as ondas se volveram; depois o mar fundo. Nada! Tinham desapparecido! Olhou mais, esfregou os olhos, e olhou ainda... Fixou ao longe o vago liquido daquella massa immensa.
De repente, como quem encontra o que procura, illuminou a physionomia da sua faceira glabra num sorriso de idiota manso, que se foi abrindo em riso brando, e mais, e mais, até que lhe distendeu as maxillas, num gargalhar continuo...
Desceu, vagaroso, as primeiras desegualdades da gruta, depois tombou, num novello, levantou-se, descreveu a curva de terra, fronteira á linha de agua; e, a correr, em gargalhar parallelo ao som rouco das ondas, seguiu o desenho da bahia, a esparsar a loucura em movimento, e sempre a rir, a rir, num cascalhar pavoroso!
Era manhã. Um lençol de nevoa intensa vestia as armas reaes do Forte. O tempo concedia aos mortos um lucto branco, um lucto áparte!
Tudo mudára. O mar, ainda ha pouco azul e branco, fez-se rapido em campo glauco.
Era uma larga esmeralda de agua. Nem a antiga côr, nem a velha altanaria!
O ceu, pouco antes zebrado de vermelho e oiro, côres heraldicas de Castella, cerrou em nuvem de sangue.
Só ao longe, para os lados da Grecia, uma nesga de azul delido rompia suave, como para informar que os Deuses velavam os mortos que haviam de resurgir com a velha Attica!
O mar toava a mesma musica extranha...
Enquanto, do outro lado, rente ao Fortim, e eminente á escarpa, um moço marinheiro cantava. Era um maritimo trigueiro, de olhos de velludo e noite, guardados por pestanas longas, que desciam, mysteriosas, como gelosias, voz de levada, corpo flexuoso de ephebo da beira-mar, a reflectir nas linhas a belleza inconsciente dum Povo...
Pleno dia.
E a sua alma dolente, côr dos olhos, a desgarrar, em voz de levada, a _Cantiga_ triste do vate-fidalgo:
Commigo me desavim: Vejo-me em grande perigo! Não posso viver commigo, Nem posso fugir de mim! Antes que este mal tivesse Da outra gente fugia: Agora já fugiria De mim, se de mim podesse! Que cabo espero, ou que fim Deste cuidado, que sigo Pois trago a mim commigo, Tamanho imigo de mim.[2]
ADVERTENCIA
_O rôlo de pergaminho, meio desdobrado sobre o bufete, em Mira-Mar, continha, em letra muito bordada, semelhante á dalguns manuscriptos do seculo XVI, o ultimo canto de Maria Peregrina--Elegia da Morte._
ELEGIA DA MORTE
POEMA RELIGIOSO
Este Poema é o preludio da Morte, annuncia a Libertação!
Pela primeira vez, depois duma travessia longa, accidentada e rude, venho repousar á sombra do que fui, sonhar alto o mais do que tenho occultado.
O sentimento,--a minha primeira consciencia,--tem-se gasto no mais exhaustivo conflicto--um conflicto dolorosissimo entre o instincto proprio e a mesquinhez alheia.
Houve em mim desequilibrios enormes tendentes a perturbar-me. É que nem sempre a alma se satisfez com os recursos da materia; o corpo foi algumas vezes o involucro imperfeito da grande alma que arrastava.
Quantas vezes ella pretendeu subir, ganhar altura, do mesmo passo que o corpo lhe pautou vôos mesquinhos; e, quando lhe deu amplidão,--lances arriscados, triumphos dolorosissimos! Sempre a materia a entravar tudo, o pêso a embaraçar o vôo.
Eu fui como os zirros que vivem nas fendas dos rochedos. Vivem alto; a raça impõe-lhes vida alta e por isso a natureza lhes deu asas largas e pernas excessivamente reduzidas. Vôam, mas não andam...
Com a seguinte differença contra mim:--o meu ninho fê-lo o Acaso cá em baixo. Ainda subi e desdobrei as asas em linhas de boa desenvoltura. Mas o Destino trouxe-me quasi sempre, misturada com aquelles que teimavam em ser da minha casta; quando a verdade é que meus semelhantes, affins pela alma, encontrei poucos. Atravessei a vida _procurando alguem_, uma figura rara que o Deus dos bons tivesse sorteado em meu favor. Encontrei figuras talhadas por medida que não era a minha. E ainda hoje não perdôo a Deus que me tenha dado altura excessiva e camaradas infimos.
Permitti-me toda a perversão, se perversão é amar a parte bella da materia, index da Belleza pura, sem o preconceito de sexos, sem preconceito algum...
Quizeram que me lavasse na moral de toda a gente, afinal em agua suja; reagi. Fugi á fraqueza de vencer-me; e, fortalecida pelo instincto, dei-me ao temperamento. Creei uma vida nova, a vida-conflicto entre as aspirações supremas e a bruteza da materia.
Tive de roçar por almas que lembravam a lixa grossa. Excepcionalmente encontrei espiritos brancos em corpos bellos. Os corpos mais brancos e mais bellos guardam quasi sempre almas mulatas, incaracteristicas, pessimas.
Vi-me constrangida a amar simples creações,--as minhas creações. Na impossibilidade de amar as creaturas como ellas eram, dei-me a estimá-las taes como as suppunha. Menti a mim propria, por servir a sensibilidade. Ha mentiras nobilissimas! Mas, em regra, os homens mentem por espirito de trapaça, de torpeza.
Sou um espirito religioso. A primeira razão da minha fé foi a religião de minha mãe, que a tradição me transmittiu. Mas ella era um temperamento puro, suave e bello na accepção simples destes termos.
Eu herdei as taras, as predilecções, os requintes de todos os que me precederam.
Sou uma figura complicada, conseguintemente a minha religião não podia ser a sua.
Evolui com os nervos, a educação, o temperamento. Descubro-me a todos os symbolos, pois que tenho para mim que elles se fundem num Deus de Belleza que começa a surgir, dentre a confusão, aos poetas, aos artistas.
Creio no Deus de todos os cultos, embora aborreça a liturgia que o occulta. A alma deu-me um cerimonial differente. No fundo, um cerimonial de amor, ineffavel...
Alei-me em vicio. Ia comprar quartos de hora daquelle amor ás ruelas onde se vende o Nu, o contacto, onde a intelligencia e o genio da Carne se expandem na belleza fresca da adolescencia.
Sou um firmamento de perversão.
Os meus vicios estrellam fatalidade,--caminhos de luz pela _treva_ azul...
Luz intima, discorrendo fados de amargura e magia. Duros fados! Excedi a Nana, a Manon, a propria Sapho,--todas as mulheres sagradas pela Desgraça!
Fui o genio da Luxuria, parabolando amores...
A sociedade escorraçou-me. Quando o meu talento brilhava, ella, de mãos nos olhos, ia vingando a luz que eu derramava, pregoando as _abominações_ a que me entregava.
Perversos e estupidos, ouvi:
--Tenho a consciencia de que a vida sensual que tenho reflectido é uma derivação fatal e religiosa dum poder occulto que me tem dominado e impellido.
Talvez, por isso, tenha pisado os lupanares com o respeito devido aos templos...
O prostibulo é, tambem, um Templo; a sensualidade uma religião, uma grande e ineffavel religião, o culto immenso do Amor, para além dos ritos, dos mil preconceitos dominantes. Mas, a despeito desta consciencia do Destino, desta razão de talento e de sangue, sinto-me vencida, desilludida.
Cancei a imaginação no encalço de creações precisas á minha razão sensual de existir.
A sensibilidade de que fui dotada não me permitte que espere o fim de toda a gente. Debalde o tentei.
Sinto necessidade de viver em outros mundos. A podridão brilhante que me atormentou a vida vae compensar-me de bens que presinto marcados para além desta valla de torpeza _honesta_.
Cumpri; não posso demorar-me: basta de conflictos com o semelhante.
Esta lucta é inacreditavel a quem a não viveu. É o conflicto da idéa pura feita Arte, sensibilidade, sentimento, contra a bruteza do temperamento medio.
Quantas vezes afoguei commigo miserias, casos exoticos dum capricho cruel! Embriaguei-me de dor, daquella dor que á volta de mim cachoou desgraça--um mar de fatalidades, para que ali naufragasse.
Afrontei este mar ás braçadas. E nesse Atlantico de verdete, absintho de amarguras, com phosphorescencias tenebrosas me fundi eu toda, alma e corpo, para batalhar e seguir, louca, ora encapellada contra a penedia immensa das praias malditas--as que os homens povoam, ora espraiando-me, numa gaza de mysterio, sobre doirados areaes, suave, ternamente, como um mar vulgar em horas mansas.
As ondas deste mar foram os meus sentidos:--um infinito de sentidos, os que se attingem pelo estado sensual...
Alcancei pelo sonho uma vida vallada e circumvallada de sombras.
Fui a somnambula, soffrendo e amando pesadelos que me eram dolorosamente gratos.
No mar de sensualidade em que me afundei, em que muitas vezes me solvi, tive horas de sêde, duma sêde obsessora, horrivel! Era o desejo inconsumivel, a febre, a chamma eterna duma aspiração de raça condemnada pela grossaria dos outros.
Chamma eterna, de certo, pois que falo por mim e pelos temperamentos que no passado choraram em silencio horas que tenho repetido, e pelos superiores do futuro, figuras talhadas pelo Destino para continuarem a Dor!
Coisa horrivel é roçar o semelhante e proximo!
Entre mim e os desgraçados para quem falo, aquelles que entornam as suas lagrimas no silencio--medeia a minha coragem, um ousio que os passados não tiveram, que talvez os futuros não tivessem sem este exemplo...
Este mundo, que estimei com amizade amorosa, ousando transformá-lo num mundo affectivo, parece-me, á hora deste inventario, obra posthuma, uma ilha de cães vadios, malditos, em saldo de contas com os raros que sahiram a perturbar a sua orchestra de alegrias.
Miseravel exercicio...
A Belleza é una no seu abraço colossal de todo o concebivel e concebido.
E só para ella deve viver-se. Os superiores começam a sentir aquella unidade, na fusão das linhas puras, em toda a obra da materia donde vôe o espirito. Venus e Apollo têem um significado conjuncto; são provas de Belleza que se completam e ajustam numa synthese que o super-sensivel realiza.
Sensualizar a vida, descobrindo fontes novas de prazer e dor, transformá-la num mundo de alma, tal a faina suprema dos apostolos da Belleza.
Myopes e inferiores, ouvi!
--A liturgia em que geralmente resumis o appetite genesico chega para a vossa felicidade, basta aos vossos instinctos, porque a alma vos cabe dentro dos orgãos que vos inculcam o sexo.
Vale uns minutos abjectos o vosso amor...
Nós amamos tudo e sempre. O Amor é para nós a razão unica da Vida.
Por isso Wilde, o condemnado, cantou ternamente o amor dos monstros e das flores; casou os homens com os habitantes imaginarios dos bosques e do mar, e expiou na prisão o delicto de ter gostado tudo, amando e cantando a symphonia das linhas, a intelligencia da Carne, a liberdade da alma!
Quando será a libertação collectiva? Sei lá! Fecho os olhos e perco-me a memorar a fileira interminavel das victimas. Quando se realizará a grande paz no Amor? Talvez nunca... E quem sabe?
Wagner, o mais genial revolucionario do mundo, pretendeu fazer do Universo um canto.