Nova Sapho: Tragedia Extranha

Chapter 11

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Assombrosa concepção se a completarmos! Exultemos, sobretudo, a Sensualidade, no mais largo significado, no bem infinito que é. Cantar é amar. O Rhythmo das coisas é a expressão sensual do mundo em vibração, a orchestrar, a melodiar o Amor!... Amemos tudo.

Nesta hora de dor agradabilissima, sinto-me inclinada a amar o proprio odio que inspirei--o odio que me votaram e o desalento que o Destino me distribuiu em bem da Morte.

Os philosophos serenos são em regra mentirosos.

Contra Maeterlink affirmo que ha uma fatalidade interna que domina e rege os actos dos homens. A forma suprema da justiça é a Bondade. Mas esta forma, acceite pelo conceito medio dos eleitos, está sujeita aos entraves, ou causas de erro duma força inferior a que imprecisamente chamamos temperamento.

Um dia, na adolescencia, percorria, sózinha, um atalho. Senti barulhar a folhagem num carvalhal murado. Espreitei, e vi, ao abrigo duma lapa, o ultimo acto duma tragedia unica. Uma creança, que podia ter nove anos, acabava de matar outra de cinco! Aproximei-me. A criminosa segurava uma lamina, encarando, attenta, a victima.

--Que fizeste? perguntei.

E ella, serena:

--Não sei, ouvi uma voz que disse:--mata a tua irmã. E eu, que móro além, fui a correr buscar esta faca. Não sei se foi Deus quem mandou... Já está morta?

E sorria, espectrando na lamina o Deus suave das creanças...

A victima era um bocado de marfim e oiro, abandonada no chão, entre a serguilha grossa do vestido, a borbotar do peito alvo cravos de sangue. A outra parecia uma mulhersinha, de olhar quebrado, bandós escuros, face de cobre e sombras, typo de cigana enlouquecida, duma serenidade arrepiante junto ao _delicto_ innocente!

--Não sei se foi Deus quem mandou... dizia.

Seria, penso. Que Elle ás vezes capricha em desnortear os commentadores. Queria as duas creanças; e, por isso, ensandeceu a mais velha que despedaçou a outra como o faria a uma rosa...

Assim alou as duas. Foram quebrar a monotonia do sagrado mundo, pintalgar o Ceu de riso e loucura!

Abracei a innocente que pouco depois vestia de afagos um cordeiro branco que mamava de joelhos, rente á mãe.

Como comprehendo hoje a força duma tal voz, que tutela o genio, o crime, perversões, loucuras...

É a voz da alma a ordenar. Não sei se a voz de Deus!

Quando confronto os actos communs da vida com aquelles que me perturbam, vejo que o meu genio não é uma acuidade da intelligencia--é um mysterio emocional.

Deus reparte-se pelo genio creador dos artistas, e revive o poderio nas suas dores. É por elles que accrescenta o Bem, ampliando a geographia do Ceu com o Mal, ainda contra os da sua Egreja. Mas estas provas produzem as maiores tempestades da alma. E é facil ainda aos mais fortes succumbirem.

Eu elevei-me pela Dor. De mim desfiro melancholia, torturas, suavidades...

A Dor foi a minha Arte e teve um largo apprendizado. Primeiro percorri os museus, dando-me a reconstituir, segundo o meu genio plastico, as bellezas mutiladas,--isto para apprender a ler as linhas, coisa mais difficil do que ler os folios.

Depois apprehendi toda a perfeição, e sensualizei a forma. Fundei em Athenas o Templo de Amor,--um Paço de Luxuria. Havia ali um tracto sagrado, a Sala sensual, que me abrigou loucuras suaves, e tempestades de goso, duma nevrose sacudida e bemdita. Nesta sala, vestida de crystaes, concavos e convexos, duma asymetria e desarranjo de cháos, gosei dezenas de corpos alvos e morenos, que desenvolviam nus as curvas das sereias, em danças desvairantes. Tenho no peito o abraço dessas esculturas enleadas, marmores de innocencia e vicio, corpos sagrados pela pureza ideal da fórma. Se attentava aquella seara de carne, batida pelo temporal duma sensualidade abençoada, eu era o suão morno que beijava e confundia os lindos fructos.

Fui a haste exotica, o joio genial que, afrontando a seara, colhi a sua belleza e fui colhida.

Se alongava a vista ou a quebrava sobre os crystaes, descobria as nossas almas, ricas de imprevisto apocalyptico, desencontros de grotesco, curvas complicadas pelo genio do Feio, atrophias, que eram as sombras dos monstros soberbos que os lindos corpos abrigavam. A minha sensualidade redobrava, e eu, apertada ao corpo moreno ou branco dum principe em Belleza, mergulhava o olhar nos espelhos, que nos espalmavam, engrandeciam, ou afilavam, e vivia aquellas silhuetas e amava nellas o monstro que era, os monstros que eramos!

Fóra, alternavam-se collecções de harpas, violinos, psalterios, e orpheões cantando a Vida.

E os jorros de luz esparsa através dos crystaes de côr, esbatendo-se em manchas de esmeralda, roxo-e-oiro, banhavam de melancholia aquellas notas, deixando suppor que era a Luz que as cantava!

Gosei soffrendo; soffri gosando. Pratiquei actos que foram além de mim; uni-me a corpos de creanças; tive contactos, commercio de sensualidade com os mais bellos adolescentes.

Fui anjo e fera, mas fera de asas que partia ás travessias da Ventura, sem liames, sem programma, viuva de preconceitos. Troquei pela intimidade com poucos as devassidões, os respeitos, a consideração vulgar dos chamados homens moraes, seres aleijados pela grossaria do costume. Mas muita vez o temperamento me chamou a definir-me.

Dahi a predilecção pelos dois adolescentes de Petersfield, e a razão do mais entranhado sentimento de amor por Nuno, essa figura passiva da minha loucura, que admirei em sua lassidão.

Ah! depois das nupcias com o morto de Petersfield e das vigilias com Helen, ninguem me deu ainda a elevação da Dor-prazer em que elle me afogou, nos afogamos...

Mas todas as sensações que me deu eram afinal acasos da sua carne abençoada.

Approximei-me daquella alma que me pareceu transparente como a agua dum ribeiro.

Era geada insoluvel, crystal espelhante, mas denso, que contrafez dolorosamente a minha doce imagem amoral.

Tal qual o que succedeu um dia a um insecto, corpito de esmalte e oiro, que se esforçava por beber os diamantes que trago a calçar os dedos...

Nem eu pude solver á força de amor aquella agua congelada, nem o pobre insecto, sedento, poude mover as duras joias a que se deixassem beber, liquefazendo-se.

É que almas assim são como os diamantes; têem a bruteza dura da Fórma-fixa. Solidificaram as primeiras impressões; cortam, sem se deixarem cortar; são a maldade bella, a estupidez da Plastica!

E é ainda esta sua negação que requinta o culto que lhe voto.

E era a repulsa da sua alma pela minha que lhe quebrava o corpo em hysterias de goso!

E foram as lubricidades que lhe dei, numa prodigalidade de millionaria em exotismos, que o afastaram...

Como a alma é grande em capricho! Que mysterioso é o genio da Dor!

E os semelhantes a pretenderem transformar este Valle de Lagrimas em Valle de Risos, a inventarem palavras, abjecções, religiões de Força, de Alegria, de mil coisas que são a expressão pretenciosa da sua ignorancia magoante!

Que gerações as de hoje! Nem obras, nem instinctos!

Vontades de cera, gibbosas de subserviencia, nem a Morte as eleva!

Infimas creaturas!

Almas assim denunciam esteios molles...

E como odeiam o culto da plastica sensual! Se o não percebem... É o horror dos selvagens pelo Mysterio. Peor do que isso, pois que estes adoram o que não percebem. Ha na natureza ingenua do barbaro instinctos de salvaguarda e cautela para a Belleza desconhecida.

É que a Belleza basta-se, por si se impõe, ponto é encontrar bondade em que se esteie.

O que mal pode é deixar de abrir conflicto com a Biblia burguesa, balizada em dois preceitos: impor ao homem a conquista do pão, á mulher a dos filhos. Uma e outro se juntam, mercê de liturgias que enchem codigos e cartilhas...

Fim primeiro da união, afinal da Vida--a familia, a juncção pelo casamento de gente em que os chefes escravizam corpos e vontades!

Ah! foi o meu _erro_, rir de taes deveres. Não se foge impunemente da _carreira_.

Como haviam de ver-me bem as mulheres de ventre cheio,--obesas de divindades, ou fructos de maldição, se eu era o seu avesso?

Ellas deformavam-se pelo goso limitado.

Eu sensualizei toda a Belleza, illustrei a côres novas a Vida, sacrifiquei a dor vulgar de ser mãe á dor suprema de crear pela Arte a segunda alma dos seus fructos.

Podia agitar-me em sofreguidões de prazer, collar o corpo franzino a homens que se alternassem no mister de fecundar, dar á sociedade filhos em vez dos meus tormentos de Arte. Podia. E, se as creaturas com quem commerciasse amores tivessem a marca de _maridos_,--a sociedade receber-me-ia. A sensibilidade impôs-me uma liturgia propria. Amei a esmo. E destes amores sahiram os livros que por ahi correm,--paginas luxuriantes a reconstituirem horas duma tortura celeste e diabolica.

Livros são filhos. Os meus são-no tambem da Luxuria, duma luxuria extranha...

Assim a _Nova Sapho_ e, sobretudo, a _Emparedada_.

Estas obras, a que uma _élite_ concedeu foros supremos, fluctuam uma nevrose que a sociedade odeia.

Não fui um pousio. Fecundei á minha maneira. Mas para produzir, crear, exigi uma liturgia complicada, reflectindo-a ousadamente.

Ingenuos! Ha fructos e fructos.

Que horror a tudo o que é extravagante!

Porque foi Christo enorme?--tão grande que projectou a maior sombra divina que um homem tem projectado!

É que o genio universal o derivou de Maria de Nazareth sobrenaturalmente, sem a macula do peccado original.

É filho duma virgem da linhagem de David e de muitas religiões liadas pelo genio indico.

Só assim podia ser o Homem-Deus--encarnar e representar a Divindade.

Quer dizer, o genio universal, innato, postergou as relações vulgares quando quiz filhar alguem que fosse um Principio.

--Sabeis bem quem foi Christo? Foi Aquelle que no mundo soube vestir de grandeza a Humilhação; o mysterio deste poder é ainda da sua Divindade.

Todas as obras de genio, filhas da excepção, têem de ver-se áparte.

Interessae o vosso religiosismo na grande obra de Belleza que annunciei.

Porque as minhas obras são profundamente religiosas. Como todas as obras definitivas. Ultrapassam-me:--fui o pretexto dum poder que simplesmente apercebi.

O genio é a intelligencia tocada do sobrenatural.

Fecunda, pois, além da razão.

Lembro-me do papel da intelligencia quando urdia aquellas obras.

Era a escrava duma força desvairante que a superentendia e obrigava fóra do sentido commum, á mercê dum capricho que era a teia-mestra de tudo...

Assim tambem no desenrolar de intimas paixões.

Não sei se poderia recuar, remeter-me ao vulgar, entregando-me á Moral, como a sociedade a pratica. Creio que não. Mas quando pudesse fazê-lo, não o faria.

E ahi está neste mesmo juizo um traço de tutela extranha, pois que a sensualidade como a Arte que pratiquei só serviram a marcar-me de relapsa, _emparedando-me_! Sou para toda a gente a desprezivel Sapho, alma e corpo de monturo. E isto porque não acceitei o phalansterio commum, e pratiquei o amor lesbico.

Ora a sociedade não quiz receber-me assim.

Logicamente, o publico condemnou as minhas obras.

Tinha a obrigação de dar talento que não excedesse o estalão perro da sociedade em que vivia!

O meu prejuizo para o grande numero foi mostrar-me toda, dar-me a ler a uma sociedade inferior. Entornei a alma nas paginas que teci dolorosamente, sensualmente.

O publico não sentiu essas paginas, nem sequer as percebeu. Peor para mim como mulher; mas ascendi como Artista.

Este desacordo é a nossa differença em elogio da minha sensibilidade, posta á prova em todos os sentidos.

É grande esta differença?

Quanto maior fôr, maior sou. Quanto mais afastada estiver da minha geração, em geral do meu tempo, mais alta é a minha figura.

Quereis saber ao certo o que vale? Medi o espaço que vae da idéa média á minha Philosophia de Arte.

Esta Philosophia resalta, clara, dos meus versos--moldura propria duma sciencia nova que elegeu principios grandes, como sejam,--a bondade, a sensualidade, a fatalidade do temperamento, a Liberdade da alma dentro de cada homem, salvo o acordo dos espiritos affins.

O _Contracto social_ de Rousseau, que passa por obra de genio, veiu afinal, sacrificar a liberdade individual á alma collectiva.

Quero o inverso, o avesso dessa lei: a limitação do poder social pelo individuo; que os medios e os rudes cedam aos grandes as regalias que lhes são demasiadas, que não cabem na sua inferioridade.

Porque ha de ser millionario o pobre de alma? É bruteza permitti-lo, como tambem o é sanccionar as miserias dos superiores, assentir em que sejam ermos de bens os ricos de Espirito.

Em materia de sensibilidade cada vez me allio mais á minha desventura. Vivo a ultima hora na admiração e amor do que fui.

E é para que os eleitos vivam ao menos uma hora assim que lhes predico:--entregae-vos ao instincto, ao temperamento, ás taras.

Haveis de soffrer? Claro. Mas o soffrimento é das formas mais voluptuosas de goso; ponto é que a abnegação e a acuidade o aproveitem. Não tendes mais do que entregar-vos ao acaso. E o acaso é tão intelligente! Tanto quanto o cuidado é estupido!

Inferiores, a vossa felicidade é uma trapaça.

Superiores, acima! Corações, acima! Dae elasterio á Alma, subi!

Quereis ler um grande livro, o expositor maximo dos grandes preceitos da união livre a derivar á fusão no amor? Está em toda a parte. É a Natureza que interpretaes mal.

Vinde áquella janella. Quero ensinar-vos a ler uma grande pagina.

Além, para lá daquelle renque de arvores mais crescidas, está uma planta brava. Ha de ser enxertada ao morrer do inverno. Nasceu na mata; transportou-a o capricho de um camponio áquelle pomar. Parecia fadada a dar filhos bravos, fruta desprezivel; pois vae ser fecundada pelo garfo nobre duma arvore de linhagem (tambem as arvores têem genealogia e foros fidalgos) e dará em breve tumidos pomos.

Vêde aquella roseira, sustentando rosas de tres côres, resultado de enxertias diversas. Amou e fecundou segundo uma liturgia variada; o Acaso deu-lhe ainda enxertias que falharam, pois que os garfos exoticos morreram depois duma justaposição de dias, porventura mais terna e sensual do que a justaposição fecunda. Bordam o Mondego lindos laranjaes: ide ver como o homem accrescentou Deus, juntando no mesmo tronco raças differentes. Ha, por vezes ali, filhos do mesmo abraço, todos os pomos em que o Divino pôs liga de oiro.

E o vento lá balouça tudo, laranjas, limões e limas, um phalansterio em ramos, num contacto que elles, os lindos fructos, aproveitam, sensualmente.

Ha naquella roseira amores incestuosos. Pois as suas rosas são tão bellas como as das outras roseiras.

Attentae o jardim! Vêde como as flores se collam em beijos de lascivia, quando o vento, animo do tempo, as vaga--como se roçam suave ou tempestuosamente, segundo as marés!

O rosal parece agora, reparae, um mar encapellando-se em ondas sensuaes, num rhythmo religioso, perfumado...

Se vos alcançou a graça do grande sentido da Belleza, attentae bem nas flores:--São a essencia em fórmas,--o perfume em petalas.

Soberbo espectaculo! Lembram assim o amor das freiras nos conventos, enlevo das esposas de Deus,--sonhado, fremido por entre incensos e preces...

Ha naquelle canteiro algumas já fanadas, desfalcadas de petalas, sem viço.

Vêde como procuram o contacto das mais novas, como se activam a explorar a belleza adolescente dos botões gomosos.

Como a fraqueza da edade as pende a fortalecerem-se de vicio, na carnação das mais novas! E ellas lá se lhe entregam, com enleio e graça, generosamente, cumprindo a lei maxima--a Lei da Bondade, que é do instincto. Quem o não entende? A alma grossa dos estupidos, os que arrancam as papoilas da seára, irados de as ver entre os esmaltes dos trigaes.

Que lhes importam os grandes bens da Terra--a Côr, a Fórma, o Perfume?... O ridiculo em que me têem, só porque hei cantado a alma do rochedo, a symphonia da linha, a perversão sensual, fonte da Morte, e, conseguintemente, o melhor elo da Vida, pois que solda o corpo á terra, a alma á planta, fundindo o Universo numa confusão sublime!

Pobre terra que dá videntes cegos, como Milton, e não dá vista áquelles a quem deu olhos. A Vida é a immortalidade pela transformação, religiosa no seu movimento, sempre patente e actual. Mas considerar parcellas de vida é não ver; peor--ver mal.

Nada mais fallivel que o mundo dos aspectos. Acceitemos a Vida como ella é--profundamente metaphysica, religiosa. Eu vergo-me ante o facto positivo do meu genio que o arranjo universal systematizou ao poder, e a toda a fraqueza creada e por crear. Deus resume a Vida. As minhas fraquezas, as fraquezas de todos os superiores, são a sua ampliação infinita... Ninguem póde definir Deus com precisão. Está em tudo, mas só os raros o sentem, dão por si, portanto, por Elle.

Mas, se o vocabulo Deus tem um synonymo, esse synonymo é Amor. Amor universal, entende-se, sem leis, sem peias, segundo o instincto, á discrição e diversificação de cada ser.

É claro que este não cabe nos evangelhos, nas cartilhas. O homem de prazeres restrictos não pode sentir o que de si revela de Universo, de Infinito...

Este Amor lembra o _Puzzle_, jogo inventado pela nevoenta Inglaterra para tratar o _spleen_ patricio.

Imaginae um xadrez, em que as pedras se destinam a construcções enormes e cujo arranjo leva dias, mêses!

Pois a Vida é um _Puzzle_ de numero colossal de peças, com parte das quaes só Deus joga.

É ainda Elle quem torna o jogo interminavel, infinito, baralhando, accrescentando, substituindo as pedras... Tudo passa ao rhythmo do arranjo universal.

O homem segue, em geral, suave e indifferentemente. Só o Artista desfranze um pouco o cortinado de nevoa que o separa de Deus, para o ver de longe, ajoelhar á sua inconsciente majestade, buscar alentos á sua jornada.

Pois que Deus existe nas paginas ingenuas de Bernardes, e nos livros satanicos e genialmente rebeldes de Annunzio,--curve-nos ante Elle, o Deus clementissimo, que contrasta almas tão apparentemente oppostas.

A ingenuidade luminosa do frade e as paginas luxuriosissimas do italiano, que creou para uso da alma um maravilhoso novo,--tudo é de Deus e para Deus, tudo é Deus!

Que ninguem soffreie o temperamento. Ha um crime maior do que o commetido para com a liberdade do semelhante: é o que commetemos contra a nossa liberdade.

Dêmo-nos ao instincto. Só a continencia é delicto. O instincto é fundamentalmente bom, as leis é que o teem pervertido.

Accusam-me de defender toda a casta de luxuria, de dar nas minhas obras a resultante mental daquelles defeitos--uma philosophia negativa, dissolvente, e muito na logica dos meus desejos inconsumiveis.

Que horror o dos meus juizes! Não veem que é esta sensibilidade a mais a fusão de tantos sentimentos, esta synthese amorosa que a minha alma comprehende, que vem acabar com as distincções inferiores, que geralmente demarcam os actos da creança, do homem e da mulher!

Segundo a Physiologia pondera no homem a _razão_, na mulher o _sentimento_, na creança o _sentido_.

E é isto verdade no que importa á apreciação do typo medio.

Como é um facto, que é a edade de transição--a da vida adolescente--a que põe maior acuidade e interesse no mesmo typo,--o typo medio.

Sou a mulher superior. Por isso mesmo o temperamento me não demarcou fronteiras. Junto na alma os encantos, dores, vida sensual, ingenuidades, fraqueza e forças da creança, da mulher, do homem. Como no apologo das varas, a intelligencia dos dois sexos, considerada em conjuncto, ultrapassa o valor das parcellas em desencontro.

A minha obra tem tambem a ingenuidade da creança, a acuidade da mulher, a razão do homem, sobretudo a uncção, a grandeza, o vago genial da alma collectiva. Sou a synthese. Excedo o super-homem, sou a essencia da propria humanidade, na comprehensão e realização transcendente do Espirito Universal, em Deus.

Sou a super-sensivel!

A minha bondade acceita, em pé de egualdade, o amor idealista de Santa Thereza de Jesus--a mystica, os impulsos bestiaes de Caligula e as ordens alucinadas de Nero, determinando-se em sensualidades, ou incendiando Roma, para mergulhar a alma sublimemente perversa nas labaredas duma civilização a arder.

O instincto é a primeira força. Depois ha a aspiração vaga, que nos faz caminhar para o Desconhecido.

Caminhêmos. Sigamos a mão distante que nos acena. Dêmos por tudo o que formos encontrando.

Chamam-nos visionaria! Que importa? Que tem sido a humanidade, senão visionaria!

E como é grande a creatura quando sonha! E como é bella a alma a viver sentimentos, a visionar!

O que é a Vida nua de chimera?!

São factos o proprio sonho, a chimera...

Creio na vida eterna pelo Amor. O Amor, fundiu em mim--Deus, Perversão, Desgraça...

O Bem e o Mal deram a figura que sou--um bronze de sentimento. Realizo o genio sensual da humanidade nevrosada e a vida suave de toda a Belleza humilde!

Sou Shakespeare e Bandarra:--tenho no peito o cachoar tragico da muita miseria e altanaria heroica, que o inglês referveu em dramas, que são a perpetuidade da Dor-genio; e, ao mesmo tempo, a simpleza ingenua da amargura, delida por uma quasi inconsciencia,--aquelle extranho sentir dos loucos que têem o sestro de viver alegres as suas e as tragedias dum povo, os bellos crimes, como as grandes melancholias duma raça!

Sinto a alma amarrotada, amarfanhada! Mas ha almas e almas. Ha-as que são como a estopa grossa que, quando sujeitas vincam traços grosseiros.

A minha alma, é como a seda e as _moires_ luzentes: amarrotada, maltratada, tem cambiantes e vincos finos, dá traços curvos dum resplendor desmanchado, a esbaterem-se em sombreados duma belleza rara...

Tenho na alma a dor latente. O Acaso, fomenta-a por capricho.

Deitei-me a outra noite, triste, sem saber porque. Estava de mal commigo. Dormi pesadelos. Subito, levantei-me, abri a janella, e vi o roseiral escuro. Nem uma rosa a alumiar-me! Deus cortou relações commigo, pensei, angustiada. Cortou as relações com todos os homens, e por isso escureceu as flores, pintou-as côr do castigo, fê-las côr da fuligem.

Corria o tempo, e eu, muda, quieta, somnambula, a fitar as rosas, todas de seda crepe, e, ainda assim, bellas e cheias de graça no seu desenho fino e desegual!

Depois, a meio da tortura daquella visão sombria, recobrei-me, pensando em Deus. E vi que defraudando-me, se castigava. Elle não podia, sem desfalque da sua divindade, abdicar da Côr:--dar ás rosas o tom da sombra, embora tocado da belleza da noite, podia ser capricho, nunca um proposito eterno!

Chamei Deus a mim, num esforço ingente de Artista que requer o Elemento para trabalhar, produzir, crear...

E, desde logo, o sonho se esbateu em claridades. As flores começaram a colorir--milagre de Deus, da madrugada, do meu olhar!

Deus troca a sua alma com a minha. E sua alma cabe em mim.

Convenço-me de que o lisonjeia a troca--pois a minha abnegação e bondade não têem a caucioná-las immunidade alguma.

Vivo pelo Amor todo o amor, os maiores desalentos, o proprio odio, os fados desgraçados...

A intenção da minha ultima jornada foi duma pureza absoluta.

Elevou-me a isenção; por ella desprezei a Moral. Ser moral é servir a conveniencia; raramente é ser bom. Collidem quasi sempre a Bondade e a Moral.

Esta é muitas vezes hypocrisia a reflectir trapaça, iniquidade.

A minha coragem afronta o estabelecido. Moral alguma vale a Bondade! Ainda que sacrificasse a propria vida infinita, eu não recuaria:--outro Ceu havia de encontrar.

Protegi um dia os amores de dois mendigos. O meu olhar illuminava aquellas almas, que se trocavam para além das suas miserias.

Esbatia seus enleios um resplendor de sol, que espectrava riquezas e caprichos de tom:--era a minha bemquerença, a Bondade, eu propria, desfeita em luz a aquecer aquelles amores, banhando-os de goso divino.

Indifferente aos _grandes nadas_ do mundo--os que geralmente enchem as canseiras dos semelhantes, perturbo-me ao menor symptoma dum grande soffrimento.

Deus parece ter-se enganado, extravazando em mim toda a melancholia que devia ter apartada para uma raça.