Chapter 12
Extranha figura sou! No meio de tempestades intimas, as mais batidas, a alma raramente me deu lagrimas; suggeriu-me desalentos. Outro dia chorei, convulsa, deante de um numero, que ainda lembro cheia de medos.
Foi sobre a indicação de forçado (C. 3. 3.) com que Oscar Wilde, o predestinado da Perversão, assignou as paginas magoadas do _De Profundis_, escriptas no descanço do _hard labour_.
Vi naquelles numeros toda a severidade votada aos degenerados, o conflicto aberto entre uma sociedade inferior e a sensibilidade acuradissima dum louco genial.
Tambem eu sou odiada; e, para o grande numero, a Sapho, a larva immunda que acommete a adolescencia...
Não me defendo. Quantas vezes senti em mim a alma da grande lesbia, que visitava em meus poemas e loucuras a nova Hellada do Ocidente!
E larva tenho sido. Mas larva a evoluir. A chrysallida que sonha asas. Sinto-as no auge da nevrose. Prendem á carcassa de linhas finas em que o Destino veiu pousar uma grande alma. Erguem a minha belleza amoral.
Esta Belleza é pouco e é tudo. Por ella subjuguei forças proprias e extranhas a um só fim:--_sentir_.
Toda a gente odeia a Morte. Porque?
Ella é o supremo bem. O que o vulgo toma por acabamento é passagem para o Além... Mas esta passagem sómente é consciente para os que na vida _sentiram_. Só elles podem avistar com os olhos da alma, áquem da passagem, o eterno da Vida que segue... Como se adquire esta acuidade?
Desconheço-o em parte.
Mas a atmosphera propria a que se manifeste está na ignorancia das leis do mundo, no desprezo da Vida.
O estado mais proximo da superioridade--é o _estado sensual_, porque é elle que superentende, domina a nevrose, dando o maximo de elasterio á sensibilidade:--é, afinal, a Arte latente, a Belleza no estado puro.
Como obtive o _estado sensual_? Dando-me ao infinito de sentidos que descubro áquem e para além de mim...
Que ninguem tente reprimir a sensibilidade. Entregue-se-lhe. Ha no povo inculto, como entre os superiores, grandes temperamentos deformados pelo Preconceito. São aquelles a quem o Acaso repartiu almas que são preciosissimos instrumentos, que elles desferem mal.
Foi a guerra movida á minha conducta que melhor acurou os meus vicios, suggeriu a defesa integra dos meus actos, e creou, parallelamente ao meu nihilismo de sentido, uma Philosophia que prende a uma Liberdade amoral que vae além da outra,--a que peja os Codigos, as Biblias...
Sempre que intravazava o odio alheio, reconhecia, após horas de tortura, estados novos, de que manavam fontes suaves de riqueza espiritual. Ás vezes, sentia eu propria necessidade de concitar esses odios.
Esta attracção exprimia o braço do Bem e do Mal,--o instincto duma grande missão de Unidade a colligir os recursos do Novo-Mundo da Belleza. A grande elementação desse mundo não dispensa o Mal. Toda a creação é dolorosa.
Gosar o soffrimento é acceitar aquella missão. Mas, porque só os maiores a acceitam, só elles a gosam, exprimindo em Arte o agridoce daquella dor.
O vulgo mal comprehende a tortura dos eleitos, o que reflecte de grandeza sobrenatural. E a Sciencia não alcança mais! Que eram os apostolos quando se deixavam retalhar, a sorrir, de olhos fitos no Além?
Para o povo eram santos, para a sciencia--loucos. Erro grosseiro é ler a Dor atravez das lentes escuras que vestem os olhos de tanto myope! Como falseiam a missão da Belleza!
Loucos os apostolos duma Religião!
Tambem vou ser acoimada de louca! Quantas affinidades com elles hão de encontrar-me... E talvez, inconscientemente, a Sociedade acerte. O que é um louco?
É o espelho de melhor ou peor crystal, biselado ou lizo duma alma sem artificio a viver desvairamentos. É o absoluto em sinceridade--o que ri, e chora, odeia e ama sem trapaça, indifferente á sociedade que o espreita, o que despe a alma na praça publica sem caridade por si, alheio a quem o vê.
Na escala da loucura ha os criminosos-loucos, que dão á sociedade pretexto a que ella os enclausure, para melhor os explorar, e ha os outros, os que ella frecha de infamias, emparedando-os de preconceitos, dando-lhes a liberdade de sonharem alto, para que possam ouvir-lhes o sonho, e impedir-lhes que realizem desvairamentos, por vezes geniaes...
São os criminosos, os santos,--todos os reduzidos de entendimento, como os que o possuem accrescentado duma sensibilidade incomprehensivel. O mundo ri egualmente da treva dum inferior, como dos supremos desvairados.
Os inferiores desconhecem a grande parte da verdade eterna que o sonho contém, que ha, por vezes, na loucura profecias geniaes.
Parece que os loucos sonham, quando adormecidos, actos que a sociedade toma por feitos de juizo.
Depois ao acordarem abysmam-se do desapontoado dos sonhos...
Exactamente o inverso do que succede ao Vulgo. Este delira no somno os grandes feitos e delictos. Uns e outros relegam o que sonharam.
Ora o Artista, ou acorde na Obra uma aspiração do Vulgo, ou desvaire fóra do tempo e do espaço em que trabalha, é sempre a creatura que vive na Arte o sonho e sonha na Arte a Vida!
Do louco tem o desvairamento, que lhe distende a sensibilidade até á abnegação, o alheamento da conveniencia, a fatalidade do temperamento, agindo livre entre clarões e trevas. Sou a Artista-louca, perdida no cosmorama dos Paizes-Altos da Belleza. Não conheceis estes paizes! São aquelles que o meu genio doente aguarella e o Sentimento repinta e vive.
Deslumbro o entendimento na Fé sonhada--a nova Attica do Ocidente.
Valho o abraço de dois povos, que se estreitam e vivem as ultimas loucuras confundindo as almas!
Sou o Ocidente a alar-se.
Como a Grecia attingi o _estado sensual_. Deliro na ante-camara da Morte o sonho hellenico que vejo para além...
Triumpho morrendo.
Morrer é simplesmente erguermo-nos. Vou elevar-me, descansar na Altura.
Attingi pela Dor o planalto que me vae ser ponto de vôo. Fui a creatura que o Destino arrancou da pureza humilde dos montes, e que, ao chegar á civilização, deslumbrou de torpeza. Aguia nata em ferocidades puras, quiz o luxo mundano domesticar-me para que eu sommasse á ferocidade selvagem a hediondez civilizada!
Salvou-me a raça. Vivi o temperamento, as taras, tudo o que era meu, bem meu, em reacção com os outros.
Raras alegrias me assaltaram. Tinha de ser:--a Alegria jámais fecundou.
Vi chover sobre a minha obra, que era mais do que eu propria, pois que era eu tocada do sobrenatural, petalas de oiro e lama.
Prosápia, bens, armas, brasões, tudo revôlto, perdido...
Portugal, Hespanha!
As armas, os brasões, vós proprios os derrubastes, esquecidos de que tambem eram vossos, principalmente vossos!
A Historia ha de gelar no coração das creanças, quando os saxões e os outros, as raças praticas, vierem tentar o Ocidente... Antevejo conflictos entre as futuras searas de adolescentes, sortidas de pequenos demonios dourados, sardentos e gulosos dos meus bens.
Deixae-me beijar-vos, oh adolescentes morenos da minha raça,--corpos de sombra e sonho, pelo vosso triumpho!
Reviverá na vossa belleza o meu genio--nos Estados que tereis de crear o meu sonho!
Eu mesma terçarei armas na vossa lucta.
Voltarei, vestida dos vossos corpos de bronze. Sentir-me-eis em vós, como hoje vos sinto em mim!
Mas só resurge quem morre. Entreguemo-nos ao Deus latente em nós, que nos dá na Morte o summo poder.
Por tudo elle a repartiu, como a signalar que em tudo é latente.
O infinitamente grande leva a sua grandeza divina até vestir o infinitamente pequeno.
O infinitamente pequeno é Deus procedendo, transformando. A Morte é o genio divino, tocado da treva, a simular aniquilamento...
É elle a recolher o material disperso, para modelar e animar novos sonhos. É o esboço de novas formas a apparecer.
Bemdigamos o Deus que somos, o Deus que vive em tudo e é Tudo. Amemos a Morte, pois que ella é, definitivamente, Deus.
É isto loucura? Sei lá! Talvez sonho...
Por meu mal, sonho sempre. Batalho ás noites com phantasmas. A outra noite, foi com phantasmas de Belleza. Assisti a uma refeição nova, a refeição da madrugada, na Villa-Feia.
Jehovah, entendeu-se com os do Olympo e a pedido de Apollo, que me convidára, quietou o tempo numa luz branco-cinza. Jupiter emprestou Ganymedes para servir os nectares, o mel, os fructos; Jehovah mandou seraphins, rosas...
Os convivas eram Nuno, Apollo, Venus, adolescentes morenos de culpa, que fui resgatar ao inferno catholico; Sebastião, o ephebo-martyr; Edgar--muito discreto e lindo no seu nu côr de tocha;--Ruy, abraçado a Nuno, a afogá-lo no mar de luz do seu olhar velludento, verde de vicio;--Helen, feita sereia vegetal, erguendo a cabeça airosa e loira dentre petalas de açucena;--finalmente a Hermaphrodita, a Penedia enorme, que vi espreguiçar-se, mover o peito, as coxas de gran, e levantar-se, suprema, para vir tambem tomar parte na refeição, penetrar-se da essencia, do olor das rosas.
O nectar era servido em flores de magnolia e peonias...
Começou a refeição; pedi mel. Veio Ganymedes servi-lo; mediu cem violetas do oiro-doce para a copa dum lirio que beijou e correu a trazer-me. Bebi dum trago o lirio-calice da loira resina. Pedi os fructos, as flores da figueira--figos tumidos de carne-vermelha, coberta a seda-amethysta; quiz romãns, damascos, peros de Deus... Sorvi tudo. De repente, ao tomar a terceira peonia de nectar, senti-me entontecida, deliciosa e horrivelmente nauseada!
Era o olor das rosas, a essencia do nectar, dos fructos, daquella Carne tocada do genio dos divinos oleiros, o perfume das taças,--tudo a perturbar-me!
Evoquei os Deuses e acordei ao grito da sua voz, que era a voz da minha queixa! E, acordada, volvi a pedir-lhes que de novo me remetessem ao sonho, e me asphyxiassem, de vez, pela Imaginação!
Queria morrer imaginando, abrupta ou suavemente, mas do mal-de-sonhar...
* * * * *
O pensamento fixo é partir, morrer.
Jámais alguem sentiu, _viveu_ assim a Morte. Esta é a sua Elegia, o derradeiro e mais soffrido dos meus Poemas. É que sou eu em união hypostatica com o Divino Poeta.
Não obedece ás formas vulgares do verso. Tem as formas espraiadas da massa da agua em movimento. Resume a forma definitiva da Poesia. Nenhuma alma soffre medida. Menos podia soffrê-la a minha, immensa como o genio que a distende.
Eu não poderia contar as sensações intimas da minha tristeza. Quem pode contar as commoções da labareda? Como havia de sujeitar ao metro o infinito de melancholia que sinto agora e dar o espectro da transformação que está a passar-se em mim?
Vou morrer. Nem sinto a dor dos que vão desesperados e sem fé, nem a alegria dos que partem de vez á conquista doutros mundos. Sou a acropole do sentimento. Acceito a Morte como um bem. Vou provocá-la como successão logica duma Vida que só pode continuar-se depois da nova provação.
Esta provação era fatal... Exulto! Matar é transformar. Vou transformar-me. Quando voltar serei outra.
Saudades, levo-as das tristezas que vivi.
A tristeza, a nevoa de melancholia que enchem esta hora de partida, dão-me a nostalgia do mundo que fui, de muitas batalhas de dor, agora decididas.
A Dor tem o sestro dos maus filhos; aferra-se profundamente aos corações que tortura, e domina-os. Mas ha dores e dores!
Nas passadas vivo a Saudade, nas presentes a Morte! Abençôo a Morte que me conduz á nova Vida. E soffro e goso suavemente esta jornada que para tantos é maldita...
Morro no outomno. O Destino quiz que fosse com as ultimas esperanças dos primeiros tuberculosos...
Tisicos, iremos todos! Quero ir cercada das vossas figuras brancas, puras da doença. Os atalhos hão de mandar flores a acompanhar-nos...
Oh! que lindo cortejo. Já as vejo, além, paramentadas! São papoilas-sangue, risos petalados de boas-idas.
Iremos já. Tenho ali a mascara que, embebida em Ether, ha de dar-me passagem para a grande Vida. Começo a viver a suprema Vida.
Não sou já a «Emparedada»; a sombra immensa que projecto rompeu de vez a espessura que me occultava do Deus latente em mim, do Deus que sou.
Que cega estava, que surda fui. Como a Terra, o Mar, tudo é differente!
O Mundo, oh que genial mentira! Como o distingo bem, de longe! Eu propria fui o que elle é--Confusão. O que avisto:--palacios de poderosos, columnados de gelo; choupanas de Luz; corações de tritão em peitos de sereia; fios de aranha alando a Terra; a Humildade a chorar sob doceis de granadas; a Humanidade em arestas á mercê do vento, a mergulhar nos pantanos; monstros a florirem amor; e tudo a morrer para viver, a viver para morrer!
Já converso as sereias, os tritões, as sombras dos Poetas. Phosphorescencias da agua--oh que mysterios de luz!
Quantos espiritos novos! São sátyros estrebuchando amores, na treva; são genios lendo á luz verde dos pyrilampos a vida dos pinheiraes; são levadas chorosas da virtude dos homens e da castidade infame das donzellas; é a onda a trabalhar o granito, a estatuar Belleza; é o vento a ramalhar orações, a petalar a agua, a orchestrar a gargalhadas o Hymno do Desprezo pelas leis da Terra; é a sombra de Wagner, sob o pallio verde-escuro dos laranjaes a apontar as notas altas dos rouxinoes para dar a ultima demão ao Hymno de Amor em que vae cantar o Infinito...
São moinhos a moerem bagos de oiro, de que os homens fazem o pão puro--rodas de moinho a beberem agua e a espadanarem leite, o leite que o ribeiro entorna pelas sementeiras e amamenta o linho, as papoilas, e os trigaes!
Cada tronco de arvore é uma columna de Vida. Folhas são asas batendo Amor. Flores são tulipas, botões de luz... Luz de Carne!
Nem o luar de Granada empresta á noite uma luz como a das flores. É uma luz de opala com cambiantes suaves, luz que reflecte corpos, almas em sonho.
Ah! agora, sim! Já vejo, já palpo e goso as figuras que procurava,--as minhas creações!
Sinto o sussurro, a melodia gemente da transfusão do que fui no que vou ser, no que já sou...
O que ouço é como o murmurio brando de levadas. É Mozart a sonhar... São as Fontes.
Oh! figuras sagradas, esculpturas de nevoa, abraçae-me! Assim... Fundamo-nos!
Chovam sobre mim petalas de borboleta e asas de rosa. Fui na terra irmã das borboletas, parenta das rosas. Subam até mim columnas de incenso, o riso vermelho das creanças, as ondas de sensualidade innocente que encapellam a Terra.
A Artista vae morrer. Distingo o fim da Noite no começo do Dia...
Ahi vem a Madrugada. Abençoada seja a Noite, mãe da Madrugada! Bemdito o eterno Dia!
Aquellas rocadas de algodão, humidas de Ether, são as nuvens que ha pouco vi passar além, que tenho ali e posso apertar na minha mão.
Scenarios e scenarios de pureza! O Mar, o Ceu, a Morte tudo é branco, continuando-se de mim, do meu alvor... Alvor da alma que tudo repassa de Belleza!
Toda a Belleza permeio, toda a Belleza sou:--a Nuvem, o Mar, a Dor...
Sou o Mar que sóbe em cambraias de nevoa, a Nuvem que desce em veu de madrugadas e perolas de granizo...
Bemdito sejas, oh Deus!
Vou ser o Ether que me sóbe á nova Vida!
Sou a Onda, a Nuvem que passa, e se esbate em Nada,--a razão, o inicio de tudo!
Irmãos! vou partir, vou viver! Sou já o Ether, sou a Altura...
FIM
INDICE
I--MARIA PEREGRINA.......... 9 II.......................... 24 III......................... 48 IV.......................... 55 V........................... 86 VI.......................... 101 VII......................... 112 VIII........................ 121 IX.......................... 136 X........................... 150 XI.......................... 155 XII......................... 166 XIII........................ 172 XIV......................... 177 XV.......................... 185 XVI......................... 199 ADVERTENCIA................. 219 ELEGIA DA MORTE............. 221
Acabou de se imprimir na Typographia do Annuario do Brasil, (Almanak Laemmert) R. D. Manoel, 62--Rio de Janeiro aos 23 de Abril De 1921
[1] Cancioneiro de Resende, _Cantigua, partindo-se_ de João Rodrigues Castello-Branco.
[2] F. de Sá. Cancioneiro de Resende.
Notas de Transcrição:
1. Foram encontrados diversos erros tipográficos e gralhas, que foram devidamente corrigidos. Na lista que se segue apresentamos alguns dos erros corrigidos.
Pág. Original Correcção 32 _vinho_ do jardim _venho_ do jardim 48 com _uma_ maço com _um_ maço 67 ponto _cluminante_ ponto _culminante_ 95 perdida _no_ onda de luxuria perdida _na_ onda de luxuria 198 _E_ preciso pecar muito _É_ preciso pecar muito 217 Era _uma_ maritimo trigueiro Era _um_ maritimo trigueiro 223 _Evoluti_ com os nervos _Evolui_ com os nervos 248 _Conevnço-me_ de que _Convenço-me_ de que 248 hypocrisia a _reflecitr_ hypocrisia a _reflectir_ 250 Mas larva a _evolutir_. Mas larva a _evoluir_. 254 _Pizes-Altos_ da Belleza _Paizes-Altos_ da Belleza 259 dos primeiros _tubercluosos_ dos primeiros _tuberculosos_
2. O nome Brook aparece escrito no livro original com as seguintes grafias: Brook, Broock e Brooke. Nesta transcrição mantivemos as 3 grafias nos locais onde apareciam.