Part 6
Nas historias destes Reynos ha muita mençaõ de Anadeis, ainda que naõ excedem o tempo delRey D. Fernando. Pelo que parece entraraõ estes officios no Reyno juntamente com os de Condestable, e Marichal; ao que ajuda o mesmo nome, que dizem ser Inglez. O mais antigo, que se acha com este titulo, he Afonso Furtado de Mendoça, e em tempo delRey D. Joaõ I. seu filho Afonso Furtado. Aos Anadeis pertencia ser Capitão de Bèsteiros, assim de cavallo, como da Garrucha do Conto, e do Monte, que chamavaõ de Fraldilha, e tambem dos Espingardeiros, os quais cargos duraraõ atè o tempo delRey D. Manoel[43] que só deixou os dos Espingardeiros, e os de Fraldilha, e extinguio os mais à petição do Reyno estando em Cortes.
Ordenou ElRey D. Afonso V. que os homens de armas Escudeiros, que serviaõ a cavallo nos Exercitos, fossem reduzidos à Capitanîa de hum Capitaõ, que os repartisse por Coudeis, dando a cada Coudel vinte: pelo que chamaraõ ao Capitaõ desta gente, e Coudeis, Coudel Mòr.
Derivou-se o nome de Coudel do nome antigo _Caudilho_ derivado de _Caput_, palavra latina, que significa Cabeça; donde se disse tambem o nome de Capitaõ. E dos Caudilhos trata o livro 4. tit. 23. das Partidas de Castella, onde se apontaõ as qualidades, que para os Caudilhos se requerem. Como o Coudel Mòr por o Regimento da guerra ficava capitaneando a gente de cavallo; depois se veyo a encarregar ao Coudel Mòr a execuçaõ das leys, que se fizeraõ para conservar as boas raças dos cavallos do Reyno, como adiante veremos.
§. VI.
_Do Adail Mòr, Almocadens, e ceremonias com que eraõ creados._
Adail he palavra Arabiga, segundo D. Sebastiam de Covarruvias[44] e significa Guia de caminho encuberto. Deriva-se de _Delid_, que he Mostrador. Em Castella ha muitos annos se usou este nome à imitaçaõ dos Mouros: e no tit. 22. da 2. Partida se trata largamente deste officio. Em Portugal se costumou depois da tomada de Ceita, e nas outras fronteiras de Berberia, e no Algarve ainda hoje os Adaiz saõ Capitaẽs do campo, que he o seu proprio officio. No Regimento da guerra se referem as ceremonias com que antigamente eraõ creados os Adaiz; o que tudo he tirado das Partidas de Castella, e saõ as seguintes.
Havia de ser eleito para Adail hum homem, que tivesse grande pratica de guerra, esforço, prudencia, e lealdade: e depois de escolhido tal, mandava ElRey por doze Adaiz tirar informaçoens com juramento do Adail, que estava para se fazer, e affirmando elles, que tinha as quatro qualidades requisitas, lhe dava ElRey espada, cavallo, e armas, e mandava a hum Rico Homem, que lhe cingisse a espada sem pescoçada; e posto entaõ o escudo no chaõ com o concavo para cima, se punha sobre elle o que havia de ser feito Adail, e ElRey lhe tirava a espada da cinta, e lha dava nua na maõ; e entaõ os doze Adaiz alevantavaõ o escudo no ar o mais alto que podiaõ, e olhando para o Oriente dava com a espada dous golpes em cruz dizendo: Eu foaõ desafio todos os inimigos da Fé, e de meu Senhor ElRey, e da terra, e o mesmo fazia para as outras tres partes do Mundo. Depois metia a espada na bainha, e ElRey lhe metia na maõ huma Bandeira dizendo, que lhe outorgava, que fosse Adail, dalli em diante. E com isto ficava novamente creado nesta dignidade, e podia trazer armas, e cavallo, e assentarse a comer com os Cavalleiros delRey, e podia capitanear os Almocadens, e Almogavares, e qualquer outra gente de pè, e de cavallo, que lhe fosse assinada. Eraõ Juizes das cavalgadas, para as dividirem, e julgarem tudo o que nellas acontecesse. Nos Exercitos do Reyno havia tambem Adail Mòr, que hia com alguns ginetes diante do arrayal descobrindo o campo, como se vè da historia delRey D. Afonso V. o qual parece, que foy o primeiro, que introdusio este officio, trazendo-o de Africa, onde, como dissemos, se usava delles desde o tempo da tomada de Ceita. O primeiro, que teve o officio de Adail Mòr, foy Pedro de Bairros, e servio este cargo nas guerras de Castella: de presente anda este officio na familia dos Peixotos Senhores de Penafiel.
Tambem o nome de _Almocadem_ he Arabigo, e significa Capitaõ e o que vay adiante. _Al_, que o articulo, _mo_, particular formativa do nome, _Cadem_, he do verbo _Quedem_, que significa Adiantar-se; por quanto o officio dos Almocadens he serem guias, e encaminhadores dos exercitos: em Castella trata delles a l. 5. t. 22. da 2. partida, donde parece se tomou o titulo, que delles faz o Regimento da guerra deste Reyno; e diz que os Almocadens eraõ antigamente os Coudeis dos piaens: e o modo, com que diz se elegiaõ, era desta maneira. O que queria ser feito Almocadem, requiria ao Adail, e o fazia certo das qualidades, que para isso tinha, que havia de ser pratica da guerra, e noticia da terra, e esforço, ligeireza, e lealdade: e entaõ vestido de festa se lhe dava huma lança com hum pendaõ pequeno; e chamando outros doze Almocadens, punhaõ duas lanças no chaõ ao comprimento, e elle se punha em pé sobre ellas, e o levantavaõ os outros, quatro vezes da terra para as quatro partes do mundo, dizendo as palavras, que jà referimos do Adail, tendo a lança feita na maõ. Destes officios se usa ainda hoje nas Fronteiras de África.
§. VII.
_Das gentes, de que constava o Exercito._
Depois de ditos os officios dos Capitaens, segue-se tratar da qualidade, e numero dos soldados. Constava o Exercito de gente de cavallo, e de pè. Os de cavallo, ou eraõ Fidalgos Vassallos delRey, ou Lanças, que os Senhores da terra traziaõ, ou Cavalleiros da Ordenança dos povos do Reyno. Os homens de armas eraõ principalmente os Fidalgos delRey, a que tambem chamavaõ Vassallos, os quaes eraõ obrigados a servir com certas lanças, por cada huma das quaes lhes pagava ElRey certa contia de livras confórme às lanças, com que haviaõ de servir, e eraõ obrigados a estar prestes com ellas, cada vez, que fossem chamados. E se na occasiaõ da guerra levavaõ mais lanças das que eraõ obrigados, nem por isso lhes davaõ mais. O soldo destas lanças, ou se dava a dinheiro cada anno das rendas delRey, ou o recebiaõ os Fidalgos Vassallos em terras, que lhes os Reys tinhaõ dado, como se vè dos Registros delRey D. Fernando, nos quaes està huma doaçaõ, porque ElRey deu a Martim Vasques da Cunha as terras de Tarouca, e Valdigem com condiçaõ, que servisse com tantas lanças armadas de todo ponto ao modo de França, e Inglaterra, quantas se montassem nas rendas destes lugares, a razão de 150. livras por lança. Porèm aos Fidalgos, que naõ serviaõ mais que com sua propria lança, lhes dava ElRey por ella 75. livras, que era a contia ordinaria: e ElRey D. Pedro os acrescentou a cento.[45] Destes Vassallos, que ElRey assim pagava, levava, quando morriaõ, o cavallo, e loriga de luctuosa para ter sempre os Cavalleiros armados, e providos: e a todo o filho de Fidalgo Vassallo, que nascia, se mandava logo huma carta da contia de seu pay, com que cresceo este numero de Vassallos acontiàdos em grande maneira atè o tempo delRey D. Fernando: o qual querendo evitar huma tamanha despesa, mandou que senaõ dèsse a carta de contia, senaõ ao filho mais velho do Fidalgo Vassallo, e que em caso, que morresse o primeiro, entaõ succedesse o mais chegado. Vindo depois ElRey D. João I. por as alteraçoens, que em tantos annos teve no Reyno, naõ deu contia aos Fidalgos, mas sómente soldo; atè que depois seguindo a usança antiga, pòs de contia a cada Fidalgo mil livras para a lança de sua pessoa; e por cada huma dos que o seguiaõ 700. e que o filho não ouvesse contia, senaõ como pudesse servir.
A outra gente de cavallo se fazia de todos os povos do Reyno, mandando cada lugar o numero de moradores, que confórme à fazenda, que tinhaõ, eraõ obrigados a ter cavallo, e armas. E para que pudesse haver mayor numero de lanças, mandou ElRey D. Fernando, que nenhum Fidalgo, que houvesse de servir com certas lanças, levasse desta gente de cavallo do Concelho. E para haver mais cavallos, naõ podiaõ ter officios da governança dos povos, os que naõ sustentavaõ cavallo. O numero da gente de cavallo, que houve no Reyno, naõ consta qual fosse atè o tempo delRey D. Fernando:[46] mas no delRey D. Joaõ se ordenou em Cortes, que houvesse 3500. prestes; convèm a saber de Vassallos, ou Cavalleiros de huma lança 2360. e pelas Ordens Militares 300. A saber a de Christo 100. pela de S. Tiago outras 100; pela de Aviz 80. e pela do Hospital de S. Joaõ 20. e pelos Capitaens, ou Senhores 500. afóra os de cavallo dos Concelhos. E assim quando ElRey D. Joaõ I. entrou em Castella, levou 4U600. de cavallo. ElRey D. Afonso V. passou tambem a Castella sobre a pretençaõ da Excellente Senhora com 5U700. de cavallo, e 14U. de pè. ElRey D. Joaõ II. teve em seu tempo 7U000. lanças. ElRey D. Manoel teve 6U000. cavallos prestes para passar a Africa como logo veremos;[47] afóra os que estavaõ nos lugares das fronteiras daquella Provincia, que consta passavaõ de 2U000. como se refere em muitas partes da Chronica delRey D. Joaõ III.[48] e o repete Francisco Pereira Pestana em hum Discurso sobre a guerra de Africa, em que mostra ao mesmo Rey quanto contra seu Estado era sustentar nos lugares de Africa 2U000. lanças que naõ faziaõ força mais que de 100. Porèm alèm destas 2U000. lanças, offereceo ElRey a sustentar em Arzilla a ElRey de Bèlles com outras 2U000. lanças; com tanto, que de Castella o ajudassem com outras 1U000. o que o Emperador, que entaõ reinava, disse que naõ podia fazer. Por estes exemplos se póde ver, que passou o numero de cavallos, que houve neste Reyno de 8. ou 9U000. e que pondo-se agora nesta materia a diligencia, que convèm, se poderà chegar, e passar de semelhante numero; pois pelas listas das Coudelarias, que Sua Magestade mandou fazer, consta que hà nas Comarcas do Reyno mais de 13U000. eguas, e com os cavallos, que estaõ nas fronteiras, se vè claro, que naõ he menor o numero de Cavalleria, que hoje temos no Reyno, do que houve antigamente.
Da gente de Infanteria naõ havia numero certo, mas era mayor, ou menor o numero, segundo as occasioens do tempo, ou vontade dos Reys o ordenavaõ. Porèm conhecidamente foy crescendo com a multiplicaçaõ, e mayor Senhorio des do tempo delRey D. Afonso I. atè D. Joaõ I. Porque na batalha do Campo de Ourique teve o nosso primeiro Rey doze mil homens, e ElRey D. Joaõ I. passou à tomada Ceita com 20U000. e seu neto D. Afonso V levou 30U000. quando foy à Conquista de Arzilla.
Este numero de gente cuidaõ alguns, que foy diminuindo, porque crescendo grandemente as nossas Conquistas, foy necessario dividir-se a gente Portuguesa por ellas: de maneira, que em tempo de Damiaõ de Goes pagava ElRey 20U000. soldados fóra da Barra;[49] e assim naõ he muito, que fizessem estes no Reyno falta. Por onde ElRey D. Sebastiaõ naõ levou mais de 11U000. Portugueses, quando ultimamente passou à empresa de Africa.
§. VIII.
_Das Leys Militares, que se guardavaõ no Exercito_.
As Leys Militares, que antigamente se guardavaõ nos Exercitos, estaõ ao largo referidas no Regimento da guerra: e para que naõ fiquem de todo em esquecimento, apontaremos aqui algumas brevemente. Antes de partir para a empreza, no dia, em que havia de marchar o Exercito, se mandava dizer huma Missa solemne no lugar mais accõmodado, presente o Principe, ou General, e se benzia a Bandeira para com este religioso principio poder ter a empreza ditoso fim, o qual costume ainda agora se guarda. Depois disto se dividia o Exercito, para poder marchar, em vanguarda, retaguarda, e alas; os quaes nomes se introduziraõ neste Reyno em tempo delRey D. Fernando, e se tomaraõ dos Ingleses, que cà vieraõ com o Conde de Cambris;[50] porque antes se chamavaõ Dianteira, Saga, e Costaneiras. Mandava assim mesmo o Regimento, que os Capitaens dessem memorias da gente, que cada hum levava, e armas, que tinha, para saber o General, como se delles havia de servir: e que houvesse no arrayal Officiaes de todos os Misteres. Ordenava, que o Aposentador do Exercito fosse diante escolher o sitio com certo numero de pendoens; com os quaes dividia os quarteis, em que as Companhias, e Senhores do Exercito se haviaõ de alojar. E para os caminhos ordenava, que houvesse guias, com os quaes se determinasse o dia dantes para onde se havia de caminhar; e que se escolhesse sitio para se assentar o arrayal, onde ficasse fortalecido, e provido de agua, herva, lenha, e outras cousas necessarias. Assentando o arrayal, mandava se posessem escutas, e que marchando fossem sempre as batalhas humas à vista das outras; e que as Bandeiras dos Fidalgos senaõ estendessem, salvo quando se soltasse a Real; que ninguem podesse ir na carruagem; e que antes, que o arrayal se abalasse, sahissem 20. de cavallo a descobrir o campo. Ordenava, que os que naõ quizessem fazer guarda, ou vèla, fossem condennados no cavallo, armas, e prisaõ: e os que appelidassem outro nome, mais que delRey, na vida: e que o que derrubasse o inimigo, e o naõ prendesse, partiria ametade do preço, com o que de novo o prendesse, e o que sobreviesse a hum soldado, que tinha outro preso, e matasse o prisioneiro sobre a partilha, perdia armas, e cavallo, para o Condestable; e era preso atè satisfazer ao primeiro prendedor, e de toda a preza, que os soldados tomassem, pagassem o terço a seu Senhor, ou Capitaõ: e que os prisioneiros fossem trasidos diante do Condestable, ou Marichal sobpena de os perder. E os prisioneiros naõ podiaõ sahir do arrayal, nem a buscar seu resgate, sem licença do Condestable, o qual só podia dar os salvos condutos, que se haviaõ de dar sobpena da vida, e que os que fossem à forragem, ou se alojassem fóra da ordem sem licença, perdessem as armas, e cavallos. E sendo achado algum prisioneiro fugido, havendo mais de hum dia, e noite desapparecido a seu Senhor, seria de quem o achasse; e haveria o Marichal a dizima delle: e sendo achado dentro no primeiro dia, e noite, seria tornado a seu primeiro amo. O mesmo se ordena de quaesquer cousas, que do arrayal tomassem os inimigos, porque sendo pelos nossos no primeiro dia, e noite recuperadas, seriaõ dadas a seus primeiros Senhores, mas passado deste termo, ou recuperando as depois dos inimigos as terem postas em salvo, ficariaõ dos que as tomassem. Esta era a ordem da antiga Milicia Portuguesa; e com ella, e com seu natural valor, alcançaraõ os Portugueses grandes vitorias, e desbarataraõ muitos exercitos de poderosissimos Principes, sendo sempre os nossos muito inferiores em numero como se vio em tempo delRey D. Afonso Henriques nas batalhas do Campo de Ourique contra ElRey Ismael; na de Santarèm contra o Miramolim de Marrocos; na de Xarrate contra ElRey de Sevilha; na tomada de Alcacere do Sal contra os quatro Reys Mouros, que a vinhaõ descercar. Do mesmo modo ElRey D. Afonso IV. venceo ElRey de Granada na baralha de Tarifa; e em Africa se alcançaraõ muitas vitorias contra o poder dos Reys de Marrocos, Xarifes, e Reys de Fèz em tempo delRey D. Manoel, sendo todas estas naçoens bellicosas, e praticas na guerra.
§.IX.
_Da Guerra de Castella._
A Guerra de Portugal com Castella he taõ antiga, que começou juntamente com o mesmo Reyno, e seus primeiros Principes, e ha mais de 500. annos, que dura. Pelo que nem esta guerra se deve ter por cousa nova, nem se deve de fazer da nossa parte por modo novo; mas termos por certo, que seguindose os meyos, por onde se conservaraõ os nossos Reys, terèmos na occasiaõ presente a mesma segurança, e bons successos contra Castella, que por tantos seculos tivemos.
Nesta guerra se haõ de considerar duas cousas. A primeira o poder da gente, com que se fez de cada huma das partes. A segunda o modo, que foy, humas vezes com exercitos, e outras com entradas. No numero da gente nos levaraõ antigamente os Castelhanos muita ventagem, porque como os Reys de Castella senhoreavaõ mais Provincias, e mayores que Portugal, tinhaõ muita mais gente. Por onde se diz na Chronica delRey D. Joaõ I.[51] que sempre os exercitos de Castella tiveraõ dobrada gente, que os nossos, porèm agora experimentamos o contrario; porque com a povoaçaõ do novo Mundo, que os Castelhanos tem feita com tantas Colonias, e com os presidios de Sicilia, Napoles, e Milaõ, e Estados de Flandes, foy tanta a gente, que se tirou das Provincias, que tem em Hespanha, que se achaõ os Reynos de Castella quasi todos despovoados. He isto cousa taõ manifesta, que consta pelo livro intitulado: _Poblacion de Hespaña_[52] impresso no anno de 1645. por hum Historiador de Castella, o qual no titulo de Medina del Campo, diz que antigamente era habitada de 14U000. vizinhos; e que agora naõ tem mais de 1200. E de Salamanca refere, que havia na Universidade mais de 15U000. Estudantes; e agora naõ chegaõ a 2U. E sobre tudo, que a Cidade de Toledo, cabeça de Castella, e de toda a sua Monarquia taõ rica, e populosa, que àlem da grande multidaõ da Nobreza, Clero, Mercadores, e Povo, só de Officiaes de Seda, e Laã tinha em tempo dos Reys Catholicos mais de 10U. Teceloens; agora confessa o dito Chronista, que naõ passaõ de 5U. todos seus moradores. De semelhantes exemplos poderamos trazer muitos, mas esses bastaõ, por serem dos principaes lugares de Castella. Por onde se vè, que naõ tem hoje aquelles Reynos a decima parte da gente, que antigamente tinhaõ. E sobre esta materia se tem impressos muitos livros modernamente, como saõ: _Las sinquo qualidades de los Hespañoles, que despueblan a Hespaña_. O Doutor Navarrete intitulado: _Conservaçaõ das Monarquias_; e o que mais he o mesmo Rey D. Filippe nas Pregmaticas, que fez para a reformaçaõ deste danno, em que chegou a dizer, que estavaõ os seus Reynos de Castella despovoados, e a Monarquia boqueando, termo que se censurou ao Conde Duque, nos cargos, que contra elle deraõ; naõ por ser falso, senaõ pelo manifestar ao Mundo todo. Pelo que naõ sómente naõ poderàõ hoje os Castelhanos pòr contra nòs os numerosos exercitos, que antigamente poseraõ, mas muito menores. E pelo contrario, ainda que tambem neste Reyno se tem sentido a falta da gente, pela que vay para fóra da Barra para as nossas Conquistas; com tudo vemos, que em sua proporçaõ està o Reyno muito mais povoado, que o de Castella. E assim com muita facilidade fez ElRey Nosso Senhor hum Exercito no anno de 1643. que sahio de Elvas com 12U000. Infantes, e 2U. cavallos: e no anno de 45. fez outro na mesma Fronteira de 7U000. Infantes, e 1500. cavallos, e que no Trem da Artelharia, e bagagem levava 13U000. E na Batalha de Montijo houve quasi a mesma gente: e com tudo nestas occasioens naõ juntaraõ os Castelhanos mais gente, que a nossa em numero consideravel, e o mesmo succedeo na batalha das Linhas de Elvas, em que os Castelhanos tinhaõ 14U. Infantes, e 5U. Cavallos, e nòs 8U. Infantes, e 2U500. cavallos, na do Amexial, ou Canal, nos excediaõ em mais trez mil cavallos, ainda que a Infantaria era pouco menos que a nossa. Na de CastelRodrigo era mayor o numero da sua gente do que o nosso, e na de Montes Claros se era inferior em mil Infantes, era superior em mais de mil, e seis centos cavallos. O mesmo vemos agora nas guerras de Catalunha[53] que só o primeiro Exercito foy de 26U000. homens; dos quaes mais de ametade naõ eraõ Castelhanos, e os outros Exercitos, que depois là foraõ, naõ passaraõ no numero de ametade deste primeiro. Pelo que se quando Castella tinha dobrada gente da nossa, se conservou Portugal, e ficou superior, agora que o poder de Castella he tanto menor, com mais razaõ podemos ter esta confiança. Donde podemos entender, que o seu poder he hoje muito menor do que antigamente experimentavamos; e que o nosso valor naõ he hoje menor, que aquelle, com que antigamente nos conservavamos; pois nos recontros, que muitas vezes tivemos com a sua gente de cavallo, ficaraõ os nossos vencedores, sendo os contrarios quasi dobrados em numero; e que àlem disso o que mais importa, he, que temos por nòs a causa justa, defendendo a legitima successaõ dos nossos Reys Portuguezes, e a liberdade da Patria, que Nosso Senhor com tantos favores do Ceo tem patrocinado. Pois vemos, que nesta guerra lhe temos arrazado, e tomado muitas Praças, que estaõ em nosso poder, o que elles naõ poderaõ fazer em tantos annos dos nossos lugares, ainda que abertos; porque se alguns entraraõ, logo foraõ recuperados, e fortificados melhor do que estavaõ. Donde se ve claro o favor de Deos, que temos da nossa parte; pois naõ sómente nos conserva, mas ainda nos faz superiores a estes contrarios, dando-nos delles gloriosas vitorias.
No modo desta guerra se ha de ser por exercitos, ou por entradas, e entrepresas, he muito para considerar, que havendo Rey em Portugal, todos os Exercitos Castelhanos, que entraraõ neste Reyno, e vieraõ a batalha, foraõ desbaratados. Exemplo saõ disto a batalha de Agua de Mayas junto a Coimbra, que venceo o nosso Rey D. Garcia, que reynou antes do Conde D. Henrique, e depois a de Santarem, em que o mesmo Rey D. Garcia prendeo a seu irmaõ D. Sancho Rey de Castella; e se depois se mudou a sorte das prisoens, foy por culpa delRey D. Garcia, que naõ poz a seu irmaõ a bom recado, e se foy só seguindo o alcance. ElRey D.Afonso Henriques desbaratou a ElRey D.Afonso seu primo nos Arcos de Valdevès. Entrando ElRey D.Fernando o II. de Leaõ com seu Exercito atè Cerolico, foy desbaratado pelos Portugueses; de que ainda hoje hà memoria dos vòtos de Nossa Senhora dos Assores. Os Fidalgos da Beira alcançaraõ a vitoria de Trancoso contra outro Exercito Castelhano. O mesmo fez o Condestable D. Nuno Alvares na batalha de Fronteira, e ultimamente ElRey D. Joaõ I. na de Aljubarrota.
O mesmo podemos quasi dizer dos Exercitos Portugueses, que foraõ a Castella. Pelo que mais se fez esta guerra entre ambos os Reynos por entradas, e entrepresas, que por batalhas. ElRey D. Afonso Henriques, e seus successores tomaraõ a Tuy tantas vezes, e a retiveraõ tantos annos, que des do nosso primeiro Rey atè D. Sancho o II. esteve por ElRey de Portugal. ElRey D. Joaõ I. a tornou a tomar, e o mesmo fez a Badajoz; e tantas entradas fizeraõ os nossos por a terra de Coria atè Salamanca, que por isso fortificaraõ os Castelhanos tanto a Ciudad Rodrigo, temendo-se das nossas entrepresas, e correrias. E por este territorio, e pelo de Galliza foraõ sempre as nossas entradas de mòr effeito, que por outras Fronteiras. Pelo que parece, que este estilo he o mais facil, e mais seguro; porque estando huma praça com bom presidio, naõ pòde ser entrada por hum grande Exercito, se tiver outro em seu favor, ainda que seja de muito menor numero, como se tem visto nas guerras dos Turcos com os Polacos, e nas de Jorge Castrioto, e nas modernas de Flandres, e Italia.
Segundo estes exemplos, podemos ter por certo, que havendo Rey em Portugal, tinhaõ conhecido os Castelhanos claramente, que naõ podiaõ sahir com esta empresa, como se refere na Chronica delRey D. Filippe o Prudente de Castella l. 12. cap. 9. Porque dizendo-lhe o Duque de Alva (quando lhe mandou fazer as exequias por ElRey D. Sebastiaõ em Madrid) que melhor fora vilas fazer a Belèm, respondeo ElRey: _El tiempo os mostrarà, quan errados fueramos_: e segue logo o Chronista com estas palavras: _Y con razon, porque entrando con Exercito contra el Cardenal su tio, que juraron brevemente como a escondidas, el Reyno todo se avia de emplear en su defensa, nombrando por General para la guerra el Duque de Bargança, o a Don Antonio Prior de Ocrato interessados en la sussession, y se hallàr a nen ser, y con Exercito en la muerte del Cardenal, que luego vino, con que mejoraran su partido, como lo hizo en Francia despues Henrique de Borbon_.