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Part 5

Chapter 54,007 wordsPublic domain

O primeiro he fazer-se outra ley, que nenhum pay, ou mãy possa dotar a huma filha mais, que a legitima da filha, e da sua terça a parte, que pro rata lhe couber: convem a saber, se tiver duas filhas, ametade da terça, e se tiver trez filhas, a terça parte da terça, e assim das mais: e que isto se observe com as mesmas condiçoens, com que hoje naõ pòde o pay dotar mais, que a terça a huma filha. Porque deste modo haverà muito mais commodidade para se casarem muitas mulheres. Nem contra isto se pòde dizer, que se assim for, naõ quereraõ os homens casar com taõ pequenos dotes, porque como todos forem desta sorte, forçosamente os haõ de aceitar, como vemos, que acontece hoje a todos os Morgados, os quaes ainda que tenhaõ muitos mil cruzados de renda, nem por isso pretendem mulheres taõ ricas, como elles; pois he cousa averiguada, que nos casamentos nobres sempre os homens saõ os mais ricos; e por isso lhes he forçado aceitarem os dotes, que cõmummente se achaõ, que de ordinario naõ vem a montar a terça parte das rendas dos Morgados, e ainda estes saõ os mayores. Pelo que naõ se achando entaõ outros dotes de mayor quantia, forçado serà, que se aceitem estes: e assim haverà mais possibilidade para se dotarem as filhas. E para que se naõ possa frustrar o intento da ley com os pays meterem as filhas freiras, concertando-se com os Mosteiros, que naõ herdem mais, que os dotes, que lhes derem na entrada para effeito de poderem mais dotar à filha, que sómente querem casar, se deve de prohibir, que naõ valhaõ semelhantes contratos feitos com os Mosteiros, senaõ quando o pay, ou mãy, que os fizer, tiver primeiro casado duas, ou trez filhas, porque deste modo parece, que se atalharà a fraude, que a esta ley se pòde fazer.

O terceiro, e ultimo meyo parece, que podia ser, quando Sua Magestade provè officios grandes, e rendosos, e algumas Commendas de muitas rendas, que seja com clausula de casarem os despachados com as filhas de Fidalgos, que Sua Magestade nomear: porque deste modo se ficaõ accommodando muitas destas Donzellas sem custo de seus pays, nem delRey. E assim como Sua Magestade costuma ter neste Reyno muitos lugares em Mosteiros para Freiras; parece convenientissimo, que tenha outros muitos mais para estes casamentos, pois delles resultaõ taõ grandes bens a este Reyno. E do mesmo modo devia Sua Magestade de applicar outros lugares menores de Officios, e Commendas para as filhas de outras pessoas Nobres, e de menor qualidade. E posto que qualquer destes meyos parece efficaz para se remediar o mal de que tratamos; com tudo todos trez juntos devem fazer muito mayor, e mais notavel effeito.

NOTAS DE RODAPÉ:

[1] _Relação das rendas da Coroa de Castella._

[2] _Botero tit. Granada._

[3] _Garib. na Hist. de Gran. l. 39. c. 40._

[4] _Part. 2. t. 20. l. 6._

[5] _Chiliadas._

[6] _Plinio._

[7] _Mendoça, na Hist. da China l. 3. c. 15. & 16._

[8] _Annaes de Sueiro 1. p. em Balduino braço de Hierro an. 878._

[9] _Botero tit. Portogallo._

[10] _Chron. de D. Af. 5. cap. 161._

[11] _Desde o anno de 1640. atè agora se tem unido em outras Cazas mais de cento, e cincoenta Morgados, que se herdaraõ por falta de filhos, nas Cazas, em que atè alli andavaõ._

[12] _Cortes do anno de 1641. cap. 31. do Estado da Nobreza._

[13] _Castanh. l. 1._

[14] _Botero Ragione di Stat. l. 10._

[15] _Cõmentar. de Af. de Alb. p. 3. c. ult._

[16] _Antonio Boccarro no Prologo da sua Decada da India, fallando dos interesses, que aquella Conquista teve em seu principio, antes de tantas fortalezas, diz_: O grande interesse, que se do cõmercio tirava, agora està para nòs quasi de todo extincto, e se naõ tem respeito mais, que a esta Christandade, e levar o nome de Christo N. S. e seu Evangelho Santo a naçoens remotas, que o conheçaõ, e confessem.

[17] _Diogo do Couto no seu Soldado pratico da India cap. 6._

[18] _Couto no Soldado pratico cap. 6. & na Dec. 9. cap. 11, & 16._

[19] _Duarte Gom. n. 12._

[20] _Duart Gom. fol. 334._

[21] _Successos das Philip. de D. Ant. de Morg. c. 4._

[22] _Escol. Dec. I. de Valenc. I. p. l. 4. c. 6._

[23] _Duarte Gomes sobre a Comp. Orien. n. 138. f. 166._

[24] _Laguna sobre o cap. 49. do liv. 4. de Dioscor_.

[25] _Hist. de Valen. p.I. l. 4. c. 6_.

[26] _Joaõ de Barr. Dec. I. l. 2. c. 16._

[27] _Prolom. Tab. de Hisp. H._

[28] _Plin. l. 18. c. 18._

[29] _Apianus l. 1._

[30] _Amparo dos pobres de Herrera._

[31] _Hist. de Sevilha de Morgado._

DISCURSO II.

_Sobre a ordem da milicia, que antigamente havia em Portugal, e das forças militares, que hoje tem para se conservar, e ficar superior a seus contrarios._

§. I.

He taõ necessaria a conservaçaõ das cousas, que igualmente as produsio a natureza com os meyos convenientes para sua defensaõ. Isto vemos naõ só na contrariedade, com que os Elementos repugnaõ huns aos outros para se conservarem; e nas plantas, muitas das quaes a natureza defendeo, armando as de espinhos nos troncos, nos ramos, nas folhas, e nos pomos; mas mais manifestamente nos animaes, aos quaes naõ só a natureza deo armas, com que se defendessem, mas ainda lhes communicou conhecimento para se unirem os de cada especie, e particulares astucias, com que se defendessem melhor de seus inimigos. Desta militar industria, com que a mesma natureza creou aos brutos animaes, se vè claro, quaõ necessarios saõ os soldados na Republica, pois sem a força da Milicia naõ pòdem permanecer as leys, nem professar-se as sciencias, ou exercitarem-se as artes, nem finalmente conserva-se a paz, e liberdade. Por tanto hum dos mayores castigos, com que Deos ameaçava antigamente seu povo, era dizendo-lhe, que deixaria aquella Republica sem Capitaens, e Soldados.

Inclue em si o exercicio das armas trez maravilhosas virtudes, que saõ Caridade, Fortaleza, e Prudencia. Com a Caridade offerecem os particulares a vida propria pelo bem commum de todos, que he o mayor acto desta virtude, como testificou Nosso Senhor no Evangelho, dizendo: _Maiorem dilectionem nemo habet, ut animam suam ponat quis pro amicis suis_.[32] E assim atè os Gentios tiveraõ o morrer pela patria, e defensaõ della pela mais gloriosa acçaõ da vida, donde pelas leys de Licurgo se mandava, que em nenhum sepulchro se posesse epitaphio, ou nome se naõ daquelles, que morressem pela patria.[33] Com a Fortaleza se desprezaõ os perigos, e se vencem as injurias do tempo, as incommodidades dos alojamentos, as fomes, sedes, e finalmente as forças, e armas dos contrarios. Com a Prudencia se usa destas virtudes a seu tempo, aproveitando-se das occasioens, e escolhendo sitios aventejados, e providos para alojar, e combater, ou fortificando-os para se defender. Por estas, e outras razoens tendo os homens todos hum só principio, aquelles, em quem estas virtudes mais resplandeceraõ, ficaraõ superiores aos outros: e o mesmo era antigamente ser Rey, que defensor da Republica, o que ainda hoje significa o Cetro, que os Reys trazem, o qual teve seu principio da lança, a que chamavaõ Hastapura. E em Espanha confórme eraõ as armas, com que os soldados serviaõ, se lhes dava o grào da Nobreza. Daqui nasceraõ os titulos dos Escudeiros, de Cavalleiros, de Fidalgos, de Ricos Homens, Condes, Marquezes, e Duques; e vieraõ a ser os mais nobres cargos da Republica aquelles, que pertenciaõ à Milicia, principalmente neste Reyno. Porque como os nossos Reys alcançaraõ pelas armas o Senhorio delle, libertando quasi toda a Provincia das mãos dos Mouros, que a senhoreavaõ, e defendendo-o dos Reys vizinhos para confirmarem mais seu Estado, pozeraõ toda a honra na gloria Militar, dando nova Nobreza aos do povo, que faziaõ feitos assinalados nella, e os nobres acrescentando-os a mayores estados, de maneira, que raros saõ os Senhores de Vassallos, que hoje hà em Portugal, que naõ tivessem este heroico principio. E para sahirem insignes nas armas creavaõ todos seus filhos com grande parsimonia nos vestidos, e manjares; dando os mesmos Reys aos outros exemplo nesta materia. De modo, que na virtude da Temperança se poderà comparar esta nossa Republica atè o tempo de nossos Avòs com a taõ celebrada dos Lacedemonios. Por esta causa usavaõ ainda na paz dos Exercitos Militares, posto que fingidos; para que quando lhes fossem necessarios senaõ acharem bizonhos, mas destros nelles. Sendo os seus jogos, e passatempos tirar a tabolado, ou bordear, justas, torneos, touros de cavallo, montarias, exercicios todos, em que se mostra tanto esforço, e galhardia, como nas verdadeiras batalhas, e recontros da guerra.

A Milicia, que os nossos Reys antigos procuravaõ ter prestes para defensaõ, e segurança do danno, que podiaõ receber dos outros Principes confinantes, era hum Exercito com todos os Capitaens, Officiaes, e soldados necessarios, com que pudessem acudir em continente a todas as occasioens, que se offerecessem, onde fosse necessario. E porque o fundamento da guerra saõ as forças dos naturaes da Provincia, assim da gente de pè, como de cavallo; e a ordem, com que a Milicia se exercita, me pareceo conveniente apontar o modo, que os nossos Reys tiveraõ assim na defensaõ dos lugares, como nos Exercitos, com que andaraõ em campanha, e o numero de gente, de que nelles usavaõ. Porque ainda que se mudou o estilo da Milicia com as novas armas, e instrumentos de polvora, com tudo as forças, e a ordem, e meyos para alcançallas sempre saõ os mesmos: e por estes principios se ha de dispor o que na nova Milicia se ha de ordenar. Nem se me pòde estranhar este argumento por alheyo da profissaõ Ecclesiastica, por quanto a Milicia he parte da Politica, e como tal trata della Santo Thomaz em muitos lugares de suas obras; por onde a theorica he commua à todos; e assim a estaõ lendo muitos Religiosos nas Escolas publicas, naõ só fóra deste Reyno, mas ainda nelle. Quanto mais, que estando as forças de Portugal na occasiaõ presente todas occupadas neste exercicio, obrigação nos fica tambem a todos de trabalhar nesta materia cada hum no que lhe toca em conservaçaõ do bem publico. Mas porque a guerra se divide em terrestre, e maritima, fallaremos primeiro da terra, como mais principal, discorrendo pelos mayores officios do exercito, dando particular noticia de cada hum, com tudo o que pertence à Milicia antiga, atè o presente, seguindo nesta materia os nossos historiadores, e particularmente o Regimento da guerra, que fez ElRey D. Afonso V. conformando-se com os estilos antigos deste Reyno.

§. II.

_Do officio, que fazia ElRey no Exercito, e dos Ministros, que serviaõ à Pessoa Real na guerra, e da dignidade de Condestable._

Os exercitos deste Reyno foraõ sempre governados pelos Reys delle. Porque como os mesmos Principes faziaõ profissaõ de guerreiros, não queriaõ dar a outrem esta honra.[34] E assim houve poucos Reys, que não se achassem por suas pessoas nas empresas mais importantes, que em seu tempo se fizeraõ, como lemos do primeiro Rey D. Afonso Henriques, e de seu Filho D. Sancho, D. Afonso III. D. Diniz, D. Afonso IV. D. João I. D. Afonso V. D. João II. e D. Sabastiaõ. O officio, que no Exercito faziaõ, era o supremo; e delles recebiaõ as ordens os Condestables. Para o serviço, e guarda de sua pessoa tinha ElRey hum Guarda Mòr, que era dos Fidalgos principaes do Reyno, o qual trazia consigo 20. Cavalleiros Nobres para guarda da Pessoa delRey. Estes na guerra o acompanhavaõ em toda a parte, e na paz assistiaõ no Paço, e dormiaõ juntos à Camara Real.[35] Porèm depois usaraõ os Reys de Fidalgos em lugar destes Cavalleiros, e tinhaõ as entradas livres, como os Gentis homens da Camara na Casa de Borgonha. Naõ havia delles numero certo, mas em tempo delRey D. Sebastiaõ o foraõ sómente doze. Estes Cavalleiros da guarda no tempo da guerra andavaõ no Exercito com o seu Guarda Mor armados, e a cavallo, seguindo a Pessoa delRey, segurando-o; alèm do qual teve tambem depois o Capitão dos Ginetes parte deste cuidado, como adiante veremos.[36] Tinhaõ os Reys hum Armador Mòr, cujo principal cargo era guardar as armas da Pessoa Real: tambem alguns Moços Fidalgos serviaõ de Pagens da lança.[37]

A mayor dignidade do Exercito depois da Pessoa Real, era o Condestable, cuja origem, por ser pouco conhecida, tocaremos brevemente.[38] Os Emperadores Romanos, e à sua imitaçaõ os antigos Reys de Espanha, e França introduziraõ nos seus Officiaes do Paço o titulo de _Comites_, ou _Condes_; aos quaes confórme o ministerio, a que presidiaõ, se lhes dava o nome, com que se differençavaõ huns dos outros, chamando _Comes rei privatæ_ ao Veador da Casa; _Comes domesticorum_, ao Mordomo Mòr, e assim aos mais. Por esta razaõ chamaraõ ao Estribeiro Mòr _Comes stabuli_. O mais antigo Author onde se acha este nome, he em S. Gregorio Turonense: e assim se entende, que teve esta dignidade principio em França, e que aquelles Reys foraõ usando destes seus Estribeiros Mores, ou Condestables nas cousas de guerra.[39] No principio, sendo o Condestable Capitaõ de Cavallos, e depois General da Cavalleria, atè o virem a fazer General da Milicia de todo o Reyno, e proveraõ este cargo nas pessoas mais illustres delle. De França parece que veyo este officio a Italia, e a Inglaterra; a cuja imitaçaõ ElRey D. Fernando de Portugal o creou de novo neste Reyno, quando o Conde de Cambris com os seus Ingleses o veyo a ajudar a fazer guerra a Castella. O primeiro, que este cargo teve em Portugal, foy D. Alvaro Pires de Castro Conde de Arrayolos, e atè entaõ fazia neste Reyno o officio de Condestable o Alferes Mòr; e de entaõ atègora tiveraõ sempre o titulo de Condestables, ou Infantes, ou os mais principaes Senhores do Reyno.

He o Condestable em Portugal o General da Milicia, seu lugar no Exercito he o da vanguarda; e confórme ao seu titulo, que està no Regimento da guerra; a elle dà ElRey as ordens do que se deve fazer no Exercito, e elle as cõmette ao Marichal, para que as execute, e a elle pertence fazer os Coudeis dos Bèsteiros, e dos homens de pè, cada hum com 30. soldados. Assinaõ os Quadrilheiros, que haõ de repartir os despojos das batalhas, e sacos dos lugares. Antes de partir o Exercito, manda os Descobridores do campo, e Almocadens a segurar os caminhos, e dà as guias para a vanguarda, e Capitaens para cavalgadas, Aposentandor para alojar o campo e guardas, e roldas e escutas para de noite, e lhes dà o nome. Por sua ordem se reconhecem os lugares, que se haõ de cercar. Em todos os casos, que succedem no exercito, assim civeis, como crimes, he suprema Justiça, para o que nomea Ouvidor, e Meirinho; e a elle vem por appellaçaõ os feitos do Marichal: em os civeis naõ hà do Condestable appellaçaõ. Estas, e outras cousas dispoem o Regimento antigo, e lhe concede gajes no Exercito de cada mercador, ou regataõ doze reaes brancos cada somana, e dos que servirem a estes, trez reaes: e todas as penas de Direito, ou Condenaçoens, que se no Exercito fizessem, eraõ para elle, e a carceragem dos que fossem presos na prisaõ do seu Ouvidor, das presas das cavalgadas eraõ todas as cavalgaduras, que naõ andassem em bandos.

Este officio de Condestable exercitaraõ com estas leis, e costumes o Conde de Arrayolos D. Alvaro Pires de Castro servindo a ElRey D. Fernando, e depois a ElRey D. Joaõ I. sendo ainda Defensor do Reyno; o qual por morte de D. Alvaro Pires deu este ao Grande D. Nunalves Pereira, que o servio com grande valor, e boa fortuna. E quando ElRey passou a Castella em ajuda do Duque de Lancastro, nunca o Condestable quiz dar a vanguarda ao Duque: mas sempre usou de sua preminencia. Succedeo-lhe no officio o Infante D. Joaõ, e por sua morte o Senhor D. Pedro Mestre de Aviz filho do Infante D. Pedro; depois o Infante D. Fernando filho delRey D. Duarte, D. Joaõ Marquez de Monte-Mòr filho do Duque D. Fernando de Bargança o primeiro, o qual exercitou o officio acompanhando ElRey D. Afonso V. nas guerras de Castella, no que tocava às vèlas, e causas judiciaes, que nas mais preminencias do cargo corriaõ com o Duque de Guimaraens seu Irmaõ. Por morte do Marquez foy Condestable ElRey D. Manoel, sendo ainda Duque de Beja, e depois que entrou na successaõ do Reyno, deu este officio a D. Afonso filho natural do Duque de Viseu seu Irmaõ. Succedeo-lhe o Infante D.Luiz, depois o Senhor D. Duarte, e por sua morte os Duques D. Joaõ, e o Serenissimo D. Theodosio II. seu filho. He agora esta dignidade mais exercitada com titulo honorario, que com exercicio. Porque des do tempo delRey D. Joaõ II. para cà se foy mudando a ordem da Milicia, de maneira, que tirando as preminencias das Cortes, em que hà Levantamentos dos Reys, ou Juramentos dos Principes, nos quaes os Condestables tem o estoque diante dos Reys, e em outras prerogativas semelhantes de honra naõ se deu caso em que exercitassem a jurdiçaõ dos Exercitos. Nas Cortes de 1641. fez o officio de Condestable o Marquez de Ferreira D. Francisco de Mello; nos Autos de Levantamentos de Reys, que se seguiraõ, foy Condestavel o Infante D. Pedro, depois Rey, o Duque D. Nuno Alvares Pereira de Mello, e o Infante D. Francisco.

§. III.

_Do Marichal._

A segunda dignidade da Hoste (que assim se chamava antigamente em Portugal o Exercito) he Marichal.[40] Seu nome affirmaõ ser Tudesco, e que se corrompeo de Marigal, que significa Justiça da Corte, e Casa Imperial. Pontano diz, que na lingua Francesa quer dizer Mestre de Campo, e ambas estas significaçoens cahem bem ao officio, que neste Reyno faz. Esta dignidade creou ElRey D.Fernando de novo em Portugal juntamente com a de Condestable, à imitaçaõ dos Reys de Inglaterra, quando cà andava o Conde de Cambris. E foy o primeiro Marichal Gonçalo Vaz de Azevedo. Ao Marichal pertence pelo Regimento da guerra repartir os alojamentos de seu exercito; depois que pelo Aposentador do Condestable for assinado o lugar, onde se houver de assentar; e para isso tem tambem o Marichal seu Aposentador, e provè de outros para as cavalgadas; manda ter cuidado das vèlas ao tempo de comer, assim de dia, como de noite.

Tem o Marichal Ouvidor, diante do qual se pòdem pòr todas as acçoens civeis, e crimes no exercito; tem assim mesmo Meirinho, Carcereiro, prizoens, Aguazîs, para exercitarem justiça: a alçada he nos feitos civeis atè trez mil reaes brancos: daqui para cima hà appellaçaõ para o Condestable. Nos crimes naõ pòde executar penas de sangue, ou açoutes: todas as execuçoens de justiça se mandaõ fazer por seus Ministros, e os pregoens se daõ em nome seu, e do Condestable. As gajes, que tinha, eraõ das presas das cavalgadas, que se faziaõ, todas as cavalgaduras mezeladas, e castradas. De cada tenda, ou logea de Mercador, regataõ, barbeiro, assacalador doze reaes brancos cada somana. Todas as penas, que por via de graça, ou merce mandar ElRey pagar no exercito aos condenados, perdoando-se-lhe a pena principal; assim mesmo a carceragem, e armas, que se tomarem aos que forem presos na cadea do seu Ouvidor, e as decimas dos prisioneiros do Exercito, que sendo fugidos depois de huma noite, e dia, saõ tornados ao campo. Os que atégora tiveraõ esta dignidade, foraõ Gonçalo Vasques de Azevedo, seu genro Gonçalo Vaz Coutinho Senhor de Leomil, Vasco Fernandes Coutinho primeiro Conde de Marialva, D. Fernando Coutinho, seu segundo filho, D. Alvaro Coutinho, D. Fernando Coutinho, o que morreo em Calecut, D. Alvaro Coutinho, D. Fernando Coutinho, D. Fernando Mascarenhas filho de D. Jorge Mascarenhas Marquez de Montalvaõ.

§. IV.

_Do Alferes Mòr, Capitaõ dos Ginetes, e Capitaõ da Guarda._

Atè o tempo del Rey D. Fernando, o Alferes Mòr del Rey era o General do Exercito, como jà apontamos, e fazia o officio de Condestable, e Marichal, como consta do seu titulo no Regimento da guerra. Entre os Ricos Homens era dos primeiros, que confirmavaõ as Escrituras com o titulo de _Signifer Regis_; e o mesmo se usou em Castella. O nome de Alferes he Arabigo, que quer dizer tanto como Cavalleiro. Seu officio he ao presente ter a Bandeira Real no acto de Levantamento dos Reys, e levalla nos exercitos com a Pessoa Real; mas naõ estende a bandeira, senaõ em batalha campal. Costumaõ os Alferes Mòres ter outro Alferes, que chamaõ pequeno, a quem entregaõ a bandeira, quando estaõ impedidos para o poder levar, como se le,[41] que succedeo na batalha de Touro, em que a Duarte de Almeida Alferes pequeno cortaraõ as mãos, para lhe tomarem a bandeira. O primeiro Alferes Mòr, que houve em Portugal, foy D. Fafez Luz, que viera de França com o Conde D. Henrique. Os mais que este cargo serviraõ, segundo tenho alcançado, foraõ D. Pedro Paez da Silva, Fidalgo illustre, e grande cavalleiro. Em tempo del Rey D. Afonso II. confirmaõ com titulo de Alferes Mór Martim Annes, e D. Sueiro Reymondo: no delRey D. Afonso III. D. Joaõ Pirez de Aboim, e D. Gonçalo: no delRey D. Afonso IV. servio este cargo na batalha do Salado D. Pedro Paes neto do Mestre de Santiago D. Payo Correa: na batalha de Aljubarrota levava a bandeira Real Lopo Vaz da Cunha por seu irmão Gil Vaz da Cunha: e nas mais empresas delRey D. João I. exercitou o officio Joaõ Gomes da Silva; e por sua morte, o deu ElRey ao Conde de Viana D. Pedro de Menezes, que o teve em todo o tempo delRey D. Duarte, cujo Alferes Mòr era sendo Infante: e na jornada de Africa com os Infantes fez o officio em seu lugar D. Duarte de Menezes pelo Conde seu pay, por cuja morte lhe fez elRey D. Duarte merce delle: daqui se continuou sempre na Familia dos Menezes. Hoje anda na Caza do Conde de Sabugosa.

Ainda que o officio de Capitaõ dos Ginetes parece deve ser mais antigo neste Reyno, todavia naõ se faz delle mençaõ nas historias, senaõ de pouco tempo a esta parte; e a primeira vez, que achey nomeados Ginetes descobridores de campo nos Exercitos de Portugal, foy em tempo delRey D. Duarte;[42] quando os Infantes D. Henrique, e D. Fernando passaraõ a Tangere, onde o Chronista diz, que Ruy de Sousa, e seu filho Gonçalo Rodrigues de Sousa, hiaõ diante do Exercito com 300. Ginetes a descobrir o campo, e que este Gonçalo Rodrigues foy depois Capitaõ dos Ginetes. Pelo que parece; que o primeiro que introduzio este cargo na Milicia do Reyno, foy ElRey D. Afonso V. por haver na sua historia muita mençaõ delle. Seu proprio officio he ser Capitaõ dos Ginetes da Guarda delRey, a que dizem se annexou ser General da Cavallaria do Reyno, e como tal exercitou este officio Vasco Martins de Sousa Chichorro, acompanhando a ElRey D. Afonso V. em as guerras de Castella; depois entrou esta dignidade na Casa dos Mascarenhas por D. Fernando Martins, que servio de Capitaõ dos Ginetes aos Reys D. Joaõ II. e D. Manoel. Os Cavalleiros desta Guarda dos Ginetes eraõ da qualidade dos mesmos Cavalleiros da Camara, e Guarda delRey: o numero era de 200. e usavaõ os Reys della naõ só na guerra, mas tambem na paz, principalmente quando faziaõ caminho, como se ve das historias delRey D. Joaõ II. e D Manoel. A Guarda dos Alabardeiros introduzio ElRey D. Sebastiaõ, assim para respeito da Pessoa Real, como para segurança della, pelos muitos Estrangeiros Hereges, que havia em Lisboa, mas naõ eraõ de Tudescos, senaõ de Portuguezes, e foy seu Capitaõ da Guarda Francisco de Sà Camareiro Mór delRey D. Henrique, e Conde de Matozinhos: depois ElRey D. Felippe Prudente, deixando por Governador deste Reyno ao Archiduque Alberto, lhe deixou Guarda Tudesca, e por Capitaõ della D. Francisco de Sousa, a qual se foy continuando com os Governadores, e VisoReys, que lhe succederaõ, atè Sua Magestade, que Deos guarde, que admittio os Tudescos, que ainda achou com os outros Alabardeiros da sua Guarda, que dantes tinha.

§. V.

_Dos Anadeis, e Coudeis Mòres._