Noticias de Portugal

Part 42

Chapter 424,033 wordsPublic domain

Nasceo o Padre Frey Bernardo em Almeida, Villa notavel deste Reyno, dia de S. Bernardo 20. de Agosto de 1569. Seguio seu pay Pedro Cardoso a Milicia, e foy Capitaõ de nome em Italia, e Flandes, em serviço delRey D. Felippe o II. de Castella. Com esta occasiaõ andou o Capitaõ Pedro Cardoso ausente deste Reyno muitos annos, e temendo, que a falta de sua presença fosse de prejuzo à criaçaõ de seu filho, de pouca idade, o fez hir a Roma, e conhecendo bem, que naõ bastava sómente a mudança do lugar para melhorar o animo (como jà o disse Horacio, pelos que em seu tempo passavaõ a Athenas) lhe deu os melhores Mestres, que entaõ floreciaõ naquella Corte, que por tantos titulos he a Metropoli do Mundo. Delles aprendeo o nosso Author a policîa das lingoas, e ouvio a exposiçaõ dos mais illustres Poetas, e Oradores. Aproveitou o Padre Frey Bernardo muito com esta doutrina, e tornando em breve tempo ao Reyno, veyo muito acrescentado das partes acquiridas, que pertencem a hum mancebo nobre, porque sabia a lingoa latina com eminencia, fallava a Italiana como natural, a Francesa expeditamente, e naõ lhe faltava noticia da Hebraica, e Grega. Da historia fazia particular profissaõ, e sobre tudo se deu tanto à liçaõ dos Poetas, que compoz naquella primeira idade muitos versos, que nos conceitos, e elegancia podem competir com os dos melhores Lyricos de Espanha. A todas estas partes, e outras muitas naturaes, de que era dotado, soube acrescentar a mayor perfeiçaõ de todas, que foy dedicallas a Deos: e como reconheceo sempre a S. Bernardo por seu padroeiro, movido da devaçaõ que lhe tinha, deixou o Mundo, e se fez seu Religioso no Real Mosteiro de Alcobaça, mudando juntamente com o estado o nome de Balthasar de Brito de Andrade, que atè entaõ usara.

Sentio notavelmente o Capitaõ Pedro Cardoso seu Pay esta resoluçaõ, como ordinariamente costumaõ fazer os parentes, que ficaõ no Mundo, naõ lhes deixando ver a paixaõ, que se tem por boa fortuna aceitar-lhe o Principe da terra hum filho em seu serviço, quanto mayor felicidade he receber-lho o do Ceo por Grande de sua casa. Porèm como o Capitaõ Pedro Cardoso fazia conta de o deixar na Milicia com grandes ventagens, que esperava em satisfaçaõ de seus serviços, e entendia por este meyo ficavaõ accomodadas as cousas de sua Familia, fez tanto, que impetrou hum Breve com que se passasse à Religiaõ do Hospital de S. Joaõ, que vulgarmente chamaõ de Malta, e era taõ valido em Roma, que alcançou esta licença, cousa que rarissimamente se concede. Offende-se Deos grandemente de os Seculares perturbarem as vocaçoens dos Religiosos, e como naõ queria que o nosso Author fosse famoso pelas armas, mas que as armas fossem famosas por elle, levou para si o Capitaõ Pedro Cardoso poucos dias, depois do Indulto chegar a Portugal, e seu filho naõ quiz usar do Breve, com que mostrou claramente, que senaõ tratara a mudança por vontade sua, senaõ pela de seu pay.

Quando o Padre Fr. Bernardo veyo de Italia, como carecia da inteira noticia da historia da Patria, procurou darse a ella com toda a diligencia, porque ainda que qualquer historia seja huma compendiosa sabedoria, e fonte de prudencia, sempre a da Patria he mais proveitosa; pois tanto mais aprendem os homens, aprendem dos progressos, ou adversidades da mesma Provincia, para acertarem na administraçaõ das cousas particulares, e publicas, quanto os successos proprios ensinaõ mais, que os estranhos. Com este primeiro fervor juvenil, naõ sómente leo as Chronicas do Reyno, mas movido com o desejo de ver aquella escritura em melhor estilo, as resumio num volume, que escreveo de sua maõ, acrescentando algumas cousas de hum Author, que achou em Alcobaça, chamado Mendo Gomes. Porèm considerando depois attentamente a perfeiçaõ, com que os modernos Historiadores Castelhanos, e Aragoneses hiaõ escrevendo as historias de suas patrias, averiguando pelas escrituras dos Arquivos as cousas incertas, e achando outras muitas de novo, de que os antepassados se esqueceraõ, sobre esteve na publicaçaõ deste volume, entendendo, que lhe era necessario para sahir à luz fazer elle tambem a diligencia com os Cartorios de Portugal, que os outros tinhaõ feito em suas Provincias. Mas porque a nossa naõ ficasse inferior a nenhuma, vendo que faltava escritor, que tratasse as cousas de Portugal ordenadamente, e que por estarem divididas por muitos Authores, havia pouca noticia dellas, movido do zelo do bem publico se resolveo em escrever a historia Portuguesa sucessivamente des do principio do mundo atè seu tempo. Este heroico pensamento intentou primeiro Joaõ de Barros na Europa, que prometeo, posto que por lhe faltar descanso, e tempo o naõ pode comprir. O mesmo pretendeo Andre de Resende, porèm occupado em outros estudos, naõ pode mais que começar a empresa, deixando alguns fragmentos do tempo dos Romanos, ainda que de muita importancia. Menos parece obrou a intençaõ de Jorge Cardoso, como se vè no Tratado, que Manoel Fernandes Conego de Lamego fez da antiguidade daquella Igreja. Todos estes Authores saõ dignos de graõ louvor por terem taes intentos; porèm quanto vay do pensamento à obra, tanto mayores graças se devem ao Padre Fr. Bernardo, pois o que elles sómente imaginando mereceraõ, elle reduzio prosperamente a effeito.

Começou esta historia em Alcobaça, e ainda que os Superiores o mandaraõ continuar na Theologia em Coimbra, naõ se esqueceo da empreza, antes a proseguio nas horas, que lhe ficavaõ livres com tal cuidado, que a veyo acabar no principio do anno de 1596. tendo de idade 27. e no de 1597. a imprimio. Foy esta obra recebida com igual applauso, naõ só neste Reyno, mas ainda em toda Espanha, assim por aquella certa novidade, que as antiguidades trazem consigo, como por ser a primeira Historia Universal Portuguesa, que em vulgar sahio impressa. Nella mostrou o Author grande liçaõ, e hum animo incansavel, pois no meyo de tamanha occupaçaõ, como a dos estudos, pode concluir hum intento taõ arduo, que (como elle diz na sua elegantissima Dedicatoria) só o pensamento delle fez abaixar as velas a engenhos de muita estima, porque sendo por huma parte rarissimos os Authores, que fallaõ nestas materias, era necessario por outra hum infinito trabalho para buscar, o que se havia de dizer em huma immensa copia de leitura.

Recebeo ElRey Filippe II de Castella este serviço com particular benevolencia, por ver que o Padre Fr. Bernardo lhe offerecia graciosamente neste Reyno, o que no de Castella lhe tinha custado muita despesa, e cuidado, para assim obrigar o Mestre Ambrosio de Morales a se encarregar de semelhante historia, por tanto naõ só por sua carta agradeceo ao Padre Fr. Bernardo o trabalho da obra, mas ainda lhe encomendou de novo, que continuasse o que faltava della, e mandou ao Padre Geral de Alcobaça lhe ordenasse o mesmo.

Este favor animou ao Padre Fr. Bernardo para naõ fazer caso do desagradecimento de alguns mal contentadiços, que em lugar do premio de hum tamanho beneficio lhe censuravaõ o estilo do livro, e a certeza das cousas delle, naõ considerando, que a lingoagem he accidente em semelhante historia, e que tendo o Author a criaçaõ fóra da patria, naõ podia estar ainda taõ adiantado nos termos, que pede a gravidade da lingoa Portuguesa, como depois o esteve, e no que toca à historia, se no que passa em nossos tempos, e o que mais he diante dos nossos olhos, saõ tantas as opinioens, que nenhuma cousa se pòde quasi saber com infalivel certeza, demasiado rigor he querer, que se dè em cousas taõ antigas a firmeza, que nas presentes senaõ alcança. Pelo que com razaõ foy esta obra muito estimada dos doutos, e bem intencionados, e por ella se podem dar os parabens à Patria com aquelles excellentes versos, com que lhos dà hum famoso Escritor de nosso tempo, dizendo ao Tejo:

_Ripis ecce tuis genuit tibi patria civem Illustri egregium partu, quo clarior orbe Jactabit nullo tellus se Lysia tantum Arte potens opibusque animi, Bernardus ab alto Ducet Lysiadum famam, & monumenta tuorum Ex quo prima novis Aurora inventa quadrigis Splenduit humano generi, dehinc arma triumphis Inclyta, tunc sanctos repetens ab origine mores Longa vetustatis, rerumque arcana movebit._

Antes deste tempo lhe tinha a sua Congregação encomendado a composiçaõ da historia de Cister, de que fóra deste Reyno havia pouco escrito, e em Portugal nada, sendo assim que esta Ordem floreceo entre nòs com grandes ventagens a muitas outras Provincias da Christandade. Obedeceo o Padre Fr, Bernardo, e pouco depois de tres annos da impressaõ da Monarquia, sahio com a primeira parte da Chronica de Cister, que imprimio no anno de 1602. Como jà neste tempo estava mais exercitado na lingoa Portuguesa, compoz esta historia com tanta elegancia, e pureza de palavras, que o Padre Fr. Joaõ Marquez, hum dos mais doutos Varoens de nosso tempo, lhe dà por ella o titulo de Historiador insigne; e no que toca às cousas, escreveo com tal diligencia, que o Padre Fr. Antonio de Yepes honra da Religiaõ de S. Bento, quasi tradùs esta Chronica nos seus Annaes, e podemos com verdade dizer, que ao nosso Author se deve possuirmos agora as excellentes historias de S. Bento, e S. Bernardo, que depois sahiraõ à luz em Castella, pois o Padre Fr. Bernardo abrio caminho, e deu exemplo para sobre estas materias escreverem taõ singulares sugeitos. Alèm da Chronica de Cister se mandou ao Padre F. Bernardo por decreto do Capitulo Geral, que escrevesse outro livro dos privilegios da Ordem; o que elle fez com immenso trabalho, porque lhe coustou muitos de perigrinaçaõ, e ver os Cartorios de todos os Conventos de Religiosos, e Religiosas, que a Congregaçaõ de Alcobaça tem neste Reyno, e outra muita leitura. A molestia desta occupaçaõ com o continuo estudo dos annos passados, lhe foraõ causa de huma grande enfirmidade, que o teve naõ somente muito tempo impedido para continuar com a historia Portuguesa, mas ainda desconfiado da vida. Com tudo tanto que a saude lhe deu lugar, tornou a Coimbra a concluir os estudos, que a obediencia lhe fizera interromper, e naquella Universidade deu grandes mostras de seu engenho nos actos que fez, atè tomar o grào de Doutor, que foy no anno de 1606. Pouco antes compoz o livro dos Elogios dos Reys de Portugal, que imprimio no anno de 1603. Esta obra, ainda que breve, he de grande consideraçaõ, porque na lingoa, e juizo, pòde servir de modello a toda a boa historia abreviada, e na perfeiçaõ com que fez abrir em bronze os retratos dos Reys, e alcançou os originaes mais apurados, mandando vir alguns de partes remotas, com grande custo e despeza, exccedeo muito suas forças, e mostrou o grande zelo, que tinha de engrandecer a Patria, e de eternizar a memoria dos Reys Portugueses, a quem neste livro levantou hum honroso trofeo, e tal, que a nenhuns outros Reys de Espanha vemos outro semelhante dedicado. Este livro quasi traduzio em latim o Padre Antonio de Vasconcellos no seu Anacæsaleosis, mandando abrir as mesmas estampas dos Reys em mayores laminas, por estas serem as que só merecem credito de verdadeiras.

Desempedido destas digressoens, tornou a continuar a historia da Monarquia Lusitana, que imprimio no anno de 1609. Nesta segunda parte seguio hum estilo chaõ, e claro, ainda que grave; e se na elegancia ficou inferior aos dous livros proximos, que tinha publicado, foy a causa por naõ dar mais lugar a materia, pois o principal trabalho daquella historia, he descobrir. e por em ordem as cousas daquelles tempos das conquistas dos barbaros, que atègora por falta de Authores estiveraõ escondidas, e cheyas de duvidas, e fabulas.

Estas foraõ as obras, que o Padre Fr. Bernardo de Brito imprimio em sua vida, porèm naõ eraõ menos illustres outras muitas, que compoz, e naõ pode tirar a luz com a morte antecipada. Destas direy algumas, que chegaraõ à minha noticia.

Compoz hum tratado, a que deu titulo Republica antiga de Lusitania, em que tratou dos costumes, religião, e governo dos antigos Lusitanos. Dedicou esta obra à Senhora Infanta Dona Isabel Clara Eugenia a 21. de Março de 1596. Era dividida em dez capitulos, e continha huma maõ de papel, segundo me informou o Licenciado Francisco Galvaõ de Mendanha (grande benemerito dos Escritores Portugueses, como em outro lugar diremos) que a vio, por lha communicar hum Religioso, que assistia em S. Bento de Evora.

Outro livro me mostrou o Padre Frey Bernardo, passando por Evora em Abril de 1611 intitulado Historia de Nossa Senhora de Nazareth. Era hum justo volume, e tratava da invençaõ daquella Sagrada Imagem, e das doaçoens, que os Principes, e devotos lhe fizeraõ com a relação de seus milagres, e no fim de cada hum a linhagem, e descendencia daquelle, em quem o milagre fora obrado, por esta via ficava sendo o livro hum Nobilitario das principaes Familias deste Reyno; pareceo-me obra excellente, e do mesmo voto foy Luiz da Sylva de Brito Prior do Santo Milagre de Santarém, assaz conhecido neste Reyno por suas muitas letras, o qual lhe escreveo na primeira folha hum elegante Epigrama em louvor da obra, e Author. Levava o Padre Frey Bernardo este livro a Madrid para o offerecer à Rainha Dona Margarida.

No mesmo tempo me mostrou tambem huma Apologia, que escrevera ao Arcebispo de Braga D. Frey Agostinho de Castro, em reposta de certas duvidas, que pelo mesmo Arcebispo lhe foraõ enviadas sobre a primeira parte da Monarquia, e no fim della estava huma carta do mesmo Arcebispo, em que se dava por satisfeito de suas perguntas, e o exortava, que na composiçaõ da Monarquia seguisse igualmente a Historia Secular, e Ecclesiastica: e a das linhagens nobres do Reyno, como elle depois fez.

Àlem destas obras soube então delle, que tinha composto dous Volumes em lingua Latina, hum sobre os Profetas Menores, e outro de Duabus Hebdomadibus, que eraõ as duas somanas da criação do Mundo, e sua redempçaõ, conceito novo, e digno do grande engenho do seu Author.

Na primeira parte da Monarquia Lusitana prometeo de escrever huma Historia Ecclesiastica deste Reyno, o que em effeito comprio, introduzindo as cousas Ecclesiasticas com as Seculares na segunda parte da Monarquia, e assim tinha intençaõ de o hir continuando. Tambem quando tratou da Geographia antiga da Lusitania, prometeo a de Portugal com taboas da Provincia, e plantas das Cidades, o que sem duvida fizera, se chegara com a Historia às cousas deste tempo, porem se por lhe faltar a vida naõ pode comprir esta promessaa, assaz obrigados lhe ficamos, naõ só pelos desejos, mas por as excellentes obras que imprimio, com que eternizou a fama deste Reyno. Pelo que com justo titulo se lhe póde applicar o do Pheniz, que em num Epigrama lhe dey, quando imprimio a segunda parte da Monarquia: pois estando naquelle tempo jà quasi extinto o nome dos Portugueses, elle o tornou a resuscitar, e fazer com sua pena mais famoso, que de antes, como se vè destes versos.

_Cespite odoato Phænix ut Lysia mundo, E casia factis ignibus usta perit, Usta perit, gemini orbis opes, secum ipsa cremavis Qua cadit undisono Sol, oriturque mari. At veluti pulchris, ut odoribus ipsa cremata est, Lysiadum restat sic nisi solus odor. Bernarde hunc spargis, Phænix redivivus odorem, Pulchrior & diris surgis ab exequis._

Tanto mais proprio fica agora este Epigrama ao Author depois de morto, quanto vemos, que se tem levantado daquelle insigne Convento da Ordem de S. Bernardo, ou por melhor dizer daquella Pira, e Areola aromatum, de virtudes, e sabedoria, quem com igual valor vay seguindo, e renovando os heroicos intentos do Padre Frey Bernardo de Brito.

Estas obras fizeraõ julgar a seu Author por digno de grandes premios, mas como os que o Mundo dà, naõ sejaõ bastantes para satisfazer semelhantes merecimentos, permitte Deos muitas vezes, que ate estes faltem, para que melhor conheçamos, que só he digno de ser servido, quem naõ só paga com grandes ventagens todos os serviços que lhe fazem, mas ainda galardoa atè os pensamentos delles. Com tudo por vezes foy nomeado o Padre Frey Bernardo para alguns Bispados ultramarinos, que elle naõ quiz aceitar, naõ só por sua humildade, mas por a continuaçaõ dos estudos lhe ter tirado a saude propria, com que ficava impedido, para procurar a espiritual alheya. Posto que claramente se entende, que os que o consultaraõ, antepuzeraõ o bem particular do Padre Frey Bernardo ao bem publico do Reyno, a quem importava, que lhe dessem commodo para compor, e não que o desterrassem para onde naõ podesse continuar sua Historia. No que devem ser muy considerados os Ministros superiores, naõ premiando os benemeritos fora de seus talentos, pois àlem deste danno fazem, que os providos comecem muitas vezes a aprender na faculdade alheya, quando pela idade, e experiencia podiaõ com mayor fruito ensinar na propria.

Por esta razaõ foy provido o nosso Author no officio de Chronista Mòr de Portugal, no anno de 1616 quando vagou por falecimento de Francisco de Andrade, naõ por faltarem partes no sugeito, a quem este cargo podia competir, mas por naõ aver outro premio, que se pudesse dar ao Padre Frey Bernardo, mais proprio, e devido a seus estudos, o que naõ se seguia na pessoa, que o podia pretender, pois avia muitos despachos, com que podia ser galardoado.

Porèm nem assim lhe servio este cargo de premio, senaõ de huma carga pesadissima, e de hum seminario de desgostos, que nunca teraõ fim, sendo esta a causa de escreverem huns contra elle, e outros em sua defensaõ. Infelicissima emprezas para taõ felices engenhos, pois podendo ganhar grande honra para a Patria, e para si com seus estudos.

_Bella geri placuit nullas habitura triumphos_

Tomaraõ huma ingloriosa contenda: _Non cogitantes_ (como diz a Sagrada Escritura) _prosperitatem adversum cognatos malum esse maximum, & non civium, sed hostium trophea capturi_. Estava o Padre Frey Bernardo em Madrid, quando se lhe encarregou esta occupaçaõ, e se lhe encomendou, que deixados todos os outros intentos se applicasse sómente à Chronica delRey D. Sebastiaõ, pelo que logo na Corte começou a obra, e a continuou atè a Embaixada de D. João de Borja. Como neste tempo estava já taõ exercitado na composiçaõ, e preceitos da Historia, dizem os que a viraõ, que levava esta, ventagem a todas as outras, que elle tinha composto, e que se se acabàra, fora hum illustre ornamento da lingoa Portuguesa. Porèm a tudo atalhou a pouca fortuna deste Reyno, que tirando-lhe outros bens lhe quiz também roubar o engenho do Padre Frey Bernardo, quando estava mais assasoado para dar perfeitissimos fruitos.

Finalmente vindo de Madrid já falto de saude, se lhe aggravou a infirmidade no caminho, de maneira, que naõ pode passar de Almeida, onde continuando a doença, em pouco tempo lhe consumio as forças, e acabou a vida a 27. de Fevereiro, recebendo primeiro os Santos Sacramentos, e conhecendo sua morte com mostras de muita devaçaõ, e de verdadeiro Religioso. Seu corpo foy levado ao Mosteiro de Santa Maria de Aguiar, junto a Castel Rodrigo, que he de Religiosos de S. Bernardo, e sepultado na Capella Mor, onde se vè hum letreiro de pedra na parede, que diz: _Aqui jaz o muy douto Padre Frey Bernardo de Brito Chronista Mòr, que foy deste Reyno, morreo no anno de 1617._ Foy pessoa de agradavel presença, grande de corpo, bem proporcionado, e de robusta compreiçaõ, se a naõ estragara com o demasiado estudo, o que acontece a muitos engenhos de Espanha, que naõ saõ menos prodigos da vida no exercicio das letras, do que Silo Italico o confessa no das armas. Foy de suave conversaçaõ, e de felice memoria. Prègou com muita fama, e em todos os estudos, a que se applicou, mostrou grande talento, o qual sempre empregou no serviço publico, eternizando os Principes deste Reyno, illustrando a Nobreza delle, e resuscitando, como outro Deucaleonte, os Portugueses, atè das pedras espadaçadas dos Romanos, para lhes dar perpetua vida na memoria dos homens. Evora a 2. de Abril de 1628.

ELOGIO

DE EVORA.

No meyo da Provincia de Alentejo està situada a Cidade de Evora[255] em hum posto taõ eminente, que fica senhoreando os campos, que a cercaõ por toda a parte atè pararem em quatro serras, com que a natureza em larga distancia a cercou, quasi como com muro. Da parte do Oriente a serra de Ossa; de Meyo dia a de Portel, e Viana, do Norte a de Arrayolos, e do Occidente a de Montemuro. He este sitio taõ agradavel à vista, que aos de Italia lhes pareceo que era Roma; e aos de Castella, o seu Madrid, e Toledo. Esta he aquella Cidade, que sendo fundada por Elysa primeiro Povoador de Espanha, tem sustentado por tantos seculos o mesmo nome, e lugar, quando das Metropolis das mayores Monarchias naõ se sabem já os vestigios donde foraõ. A fama deste sitio trouxe a si da Gallia os Celtas, a quem admitindo os Eborenses por Cidadaõs, os dividiraõ depois por as Provincias vizinhas, reconhecendo-se sempre por colonias suas todos os Celtiberos de Espanha. Esta he a Cidade, a cuja vista Viriato levantou os primeiros tropheos dos desbaratados exercitos Romanos, e Sertorio edificou os muros, aqueductos, e fabricas Corynthias dos despojos daquelle povo, que foy vencedor do mundo, acquiridos com os soldados Eborenses; e que ainda hoje permanecem por testemunhos de tamanha gloria. Este o lugar, em cujo nome quiz o primeiro Emperador de Roma, que ficasse eternizada a memoria de sua liberalidade. Esta foy a Cidade, que primeiro ouvio as alegres novas do Evangelho, e della, como de Sede propria, as recebeo por S. Mancio toda Lusitania. Esta foy o propugnaculo dos Reys Godos contra o Imperio. E naquella grande ruina ultima de Espanha, posto que se sometteo ao poder dos Arabes, inda depois de rendida se temeraõ tanto della, que levaraõ a principal parte de seus moradores a Marrocos, cabeça de sua Monarquia, onde os Eborenses fundaraõ outro lugar, com o nome da mesma patria, em que conservaraõ a Fè, e a liberdade por muitos seculos, atè que no tempo delRey D. Joaõ I. se tornaraõ a Espanha. Nenhuma força pode recuperar esta inexpugnavel fortaleza; e assim foy só restituida pela industria intrepida de Giraldo Illustre Cavalleiro, que com ella deu aos Reys Portugueses a mayor parte da Lusitania. Esta foy a primeira em defender a liberdade de Espanha, naquella milagrosa batalha do Triumpho da Cruz, onde seus moradores se ouveraõ com tanto valor, que a mesma Cruz lhe ficou por premio em perpetua memoria de taõ glorioso Triumpho. Na conservaçaõ da liberdade Porruguesa foy ella a primeira, que servio a ElRey D. Joaõ I. depois que intentou a defensaõ do Reyno. Aqui foy a praça de armas do Condestable, com cujos moradores alcançou tantas victorias. Aqui permanece a primeira Igreja de Espanha, illustrada com tantos Santos, e gravissimos Prelados. Esta foy a patria de tantos Varoens insignes em letras, onde florecem todas as sciencias divinas, e humanas. Esta he aquella, que produzio a Real planta da Senhora Infanta Dona Catharina; donde refloreceo com mayor felicidade a nossa Monarquia. Esta foy a primeira, que teve valor para desprezar o poder da Monarquia Castelhana, a cujo exemplo deve Catalunha a conservaçaõ de seus foros, e Portugal sua honrosa, e amada liberdade. E finalmente Evora he a que com a restauraçaõ de seu Rey, e natural Senhor tem descuberto outro novo mundo a todas as Provincias de Europa.

NOTAS DE RODAPÉ:

[255] _I. Rep. Hesp. Botero I. p. De Principi Christ. l. 5. t. Afons. I. Herr. na entrad. de Port. l. 3 f. 97 e l. 2 f. 45. Goropio na sua Hesp. Plin. l. 3. c. 1. Mon. Lusit. 5. p. l. 3. Monarch. Lusit. I. p. l. 3 c. 21. Refen. Plin. l. 4. c. 22. O Arc. D. Rod. da Cun. na Hist. de Lisboa p. I. c. 9 n. 1. Moral. l.12. c. 14. Razis. Hist. Eboren. de Res. Chron. de D. Joaõ I.de Cast. an. 12ᵒ c. 19 Chron de D. Fern. o S. c. 10. Monarch. Lusit. Chron. delRey D. João I Carta do Biscainho O Conde Thesauro I. Campegiamenti di Piamonte._

INDEX

_Das cousas mais notaveis, que se contem neste Livro, e das Familias, de cujos Appellidos se explicaõ os brasoens. Vay notado com tres numeros o primeiro he do Discurso, o segundo do Paragrafo, e o terceiro da Pagina._

A