Part 41
56 Quem senaõ espantarà do resplandor dourado das Estrellas, da claridade da Lua, e de toda a pintura do Ceo? E deleitarse Deos com a fermosura claramente se vè no ornamento, assim do Tabernaculo, como do Templo, que de tantas pinturas, e riquezas de ouro, e prata, mandou emnobrecer. Donde vem, que o homem, por ser criado à imagem, e semelhança de Deos, naturalmente aborrece as cousas feas. Esta natural inclinaçaõ se ve melhor nos meninos, em que inda o uso da razaõ he fraco, a cerca dos cocos, e medos, com que os acalentaõ suas amas, que naõ saõ outra cousa, senaõ hum qualquer vulto sem ordem, e proporçaõ, o qual medo naõ tem dos que lhe mostraõ bem feitos, e proporcionados, e por esta razaõ se defendeo em o Testamento velho, que ainda se guarda em o novo, que os homens manchados em o rosto de alguma deformidade notavel, naõ pudessem uzar de officio de Sacerdotes.
57 E naõ he pouco de estimar (esclarecida Princesa) este dom, e graça natural, que nosso Senhor ouve por bem de taõ particularmente lhe conceder, e de que tanto a quiz dotar, posto que Vossa Alteza della naõ faça conta. Porque como acima disse os sinaes de fóra pela mayor parte arguem a bondade do animo, de que Aristoteles, e Galeno fizeraõ seus pronosticos. O mesmo respeito teve o Espirito Santo nas vestiduras dos Sacerdotes, cuja virtude como avia de ser espelho para os outros, assim trouxessem habito conforme ao que delles se presumisse, como o rochete, que significa a inocencia dos Bispos, a Mitra divisa em duas partes, a sciencia dos dous Testamentos, e o Anel a Cruz, a Coroa, e assim as outras insignias (por me naõ deter nellas) todas tem suas significaçoens, denotadas por estes ornamentos exteriores.
58 A mesma razaõ ensinou aos Pintores fazerem os espiritos màos taõ feos, dando a entender por seu rosto suas obras, de que entre nòs nasceo hum proverbio, que diz: guarde-vos Deos do homem mal assinalado. Tambem parece que as leys a isto tiveraõ respeito, quando ordenaraõ mayores penas nas feridas do rosto, que nas de qualquer outra parte do corpo, carregando mais a maõ nas disformidades delle, por ficar danada aquella parte com que os homens aprazem, ou desaprazem aos olhos dos outros.
59 E descendo aos particulares effeitos da fermosura, acharemos tantos exemplos a cerca dos proveitos, que della resultaraõ, que naõ bastaõ palavras, para os comprehender. Como dos Judeos a fermosa Judit, a qual com nenhumas outras armas livrou sua patria do cruel cutello de Holofernes, senaõ com a que lhe deu a natureza, e o que grandes Esquadroens de gente fazer naõ poderaõ, a graça de huma mulher acabou.
60 A Rainha Ester sendo de baixa linhagem, com sua fermosura naõ subio ao estado Real? Vencendo com ella a crueza delRey Artaxerxes, com que servio o Povo de Israel. Abigail naõ livrou com a sua seu marido Nabal da ira delRey David, merecendo depois o juramento Real, a que foy chamada por matrimonio? Betsabè pelos mesmos degràos naõ subio a esta cadeira, merecendo ser mãy de Salamão, figura de nosso Redemptor Jesu Christo? Quem livrou Italia dos fortes Esquadroens, Exercitos, e grandes crueldades de Anibal, senaõ a fermosura de huma moça de Capua, desbaratando com seu poder aquelle, que as forças de todo o Povo Romano vencer naõ puderaõ.
61 Por estas, e outras razoens era taõ estimado dos antigos este dom, que lhe deo occasiaõ para fingir, que Meduza tornava os homens em pedras, por ter taõ alto grào de fermosura, que transportava, e fazia alheyos de si, os que aviaõ, e tinhaõ por mào agouro topar com cousa fea: como o Emperador Adriano, que disse ser chegada sua fim, por encontrar hum Negro. E naõ calarey a graça de Phylopomenes, singular Capitaõ Grego, que por ter pouca no rosto lhe mandou huma mulher fazer o fogo, parecendo-lhe, que em taõ fraca pessoa, naõ podiaõ jazer tamanhos espiritos. E alguns Filosofos Platonicos disseraõ, que a fermosura era dom de Deos, o que entre nòs em proverbio commummente se diz: A quem Deos quiz bem, no rosto lho vem.
62 Muitas cousas podera dizer acerca desta, mas como V. Alteza della faça taõ pouco fundamento, pelo fazer mayor das que tenho feito mençaõ, e de outras, a que meu entendimento naõ chega, por serem de tal qualidade, que as naõ póde entender, senaõ quem as tem: naõ fallarey mais dellas. Mas porque a opiniaõ que todos geralmente, assim nestes Reynos, como nos estranhos de Vossa Alteza tem concebido, e a esperança, que daõ os sinaes, que nella resplandecem de grandes cousas, lhe naõ impida o contentamento dellas, vendo que he mulher, naõ deixarey de dizer quam habil, e sufficiente sempre foy o engenho das mulheres, para grãdes emprezas, começadas com grande esforço, e ousadia, e acabadas com muita discriçaõ, porque como diz Hieronymo, as virtudes haõ de ser pezadas em o animo, e naõ em a condiçaõ da natureza.
63 E começando das letras, clara cousa he, que naõ sómente se igualaraõ com os homens nesta faculdade, mas ainda lhe levarão muita ventagem, como as dez Sybillas, que os Doutores da Igreja tanto celebraraõ, por muitos annos, antes da Encarnação de Deos, deixarem profetizado este Mysterio, de cujos livros os Romanos fizeraõ tanto fundamento, que os tinhaõ encerrados, como grande thezouro para os cazos duvidosos, e perigos de sua Republica, o que não fizerão dos livros de Platão, Aristoteles, Xenophonte, e de outros Authores, que sem chaves andaõ pelas mãos das gentes, como cousa, que muito naõ relevava sua perda. Neste numero podemos contar Cassandra Troyana, cujas letras, e saber, se fora de seus naturaes conhecida, nunca se perderaõ, nem deraõ tanto que escrever a Homero.
64 Se viermos à magica não nos faltarão Circes, e Medeas, que fizeraõ mais milagres nesta sciencia, que Zoroastes, que a inventou.
65 Se à medicina, acharemos Brella, e Therbisa, irmaãs da Rainha Irbussa, Boemias, huma muy douta no conhecimento das hervas, e outra na sciencia da Astrologia.
66 Se à Filosofia, Theano mulher de Pitagoras, e Dama sua filha, expositoras das escuras sentenças do pay, e marido, e Diotima discipula de Socrates, Mantinea, e Philesia discipulas de Plataõ, Gemina, Amphiclias, e Themistes, tão louvada de Lactancio, e as outras de Plotina.
67 E deixando as Gentias, quem deu mais augmento à Igreja de Deos com suas letras, que a Santa Virgem Catharina? Vencendo a doutrina de tantos Filosofos, em actos, e conferencias publicas, sopeando com seu martyrio as forças do demonio, merecendo tão honrada sepultura, fabricada por mãos angelicas, como he a que tem no Monte Sinay, onde Deos deu a Ley Escrita a Moysés, parece que por aquelle Monte ser Monte de sciencia permitio Nosso Senhor, que nelle fosse enterrada esta Santa Virgem, que tanta parte teve em todas, especialmente naquella, que manou do dito lugar sagrado de sua sepultura. Tambem podemos contar quatro filhas de Felippe Evangelista, que nas letras Divinas, e graça de profecia floreceraõ, cujo espirito Deos naõ reprovou, pois fallou pela boca de tantas mulheres, quantas ouve, que merecerão este nome de Profetas, como Maria irmaã de Moysès, de quem jà falley, Debbora, Olda, Anna profetiza, S. Elisabeth, e outras.
68 Na Poesia podemos contar a Mesia, Androgina, Hortensia, Lucera, Valeria, Copiola, Sapho inventora destes versos, Corina, Cornificia Romana, Erimna, Thelia, chamada Epigramatista, Sempronia, de que Salustio conta tantas habilidades, Calphurnia nomeada entre os Jurisconsultos. Quem formou a eloquente lingoa dos Grachos, senaõ Cornelia sua mãy, pela qual razaõ Quintiliano instituio nos seus preceitos, que as amas dos moços criados para Oradores, fossem discretas, e eloquentes porque dellas aprendemos a fallar. E Socrates julgado pelo Oraculo de Apollo, pelo mayor saber dos mortaes, sendo jà velho, nos quaes o saber he mais crecido, naõ aprendeo algumas cousas de Aspacia, e Apollo Theologo de Priscilla? Debbora mulher de Cabidod prudentissima, como lemos nos livros dos Juizes, naõ governou hum tempo o povo de Israel? A qual por lhe Barael desobedecer, sendo eleita por Capitaõ do Exercito, não alcançou vitoria mortos, e vencidos os inimigos? Não lemos, que a Rainha Attalia governou entre os Judeos o Reyno por espaço de sete annos? E Semiramis (de quem jà fiz mençaõ) depois da morte do marido não governou o Reyno quarenta? Edificando huma tão nobre Cidade, e tão soberba, como foy Babilonia de Mesopotania? As Rainhas chamadas Candaces, poderosas, e prudentissimas, não governarão muitos tempos seus Reynos, de que Josepho conta tantas maravilhas, e se faz mençaõ nos Actos dos Apostolos? A Rainha Sabà, de quem jà falley, por taõ longos caminhos não foy ouvir a sabedoria de Salamaõ, a qual hade condenar as doze Tribus de Israel no dia da ira do Senhor? Thecujtes sapientissima femea nas preguntas, que propoz a ElRey David, naõ deu grande sinal de seu saber?
69 Pois nas armas notoria cousa he, quantos Reynos, quantas Provincias, e Cidades conquistaraõ, e edificaraõ mulheres, como as Amazonas, Thomiris, Dido, Valasea, de que jà falley: entre as quaes contaremos Camilla da geraçaõ dos Volscos, e Arthemisia, que senhoreou os Rodeos, tomando-lhes a Ilha, a qual edificou aquelle taõ celebrado Sepulchro Mausoleo, contado por hum dos sete milagres do mundo. E a Poncella de França, de que já fiz mençaõ, em memoria da qual no Ducado d’Orlians naõ està hoje neste dia levantada huma Estatua, em a ponte do Rio Loure?
70 Das Sabinas cousa vulgar he, que naõ temendo as armas dos paes, e maridos, se meteraõ entre os golpes de suas espadas, e os amançaraõ, fazendo perpetua paz, e liança entre huns, e outros. De que excellente Capitaõ, e singular Philosopho, se podem contar mayores cousas, das que conta Trebellio Polio da Rainha Zenobia, de cujo triumpho tanto se prezou o Emperador Aurelio, o qual dizia, que as victorias, que Odenato ouvera dos Persas, naõ se podiaõ attribuir, senaõ ao esforço, e prudencia da dita Rainha sua mulher? Com temor da qual, como conta o mesmo Author, os Arabios, Sarracenos, Armenios, naõ usuraõ a tomar armas. E depois que seu marido morreo, governou o Imperio em nome de seos filhos, por muitos annos, vestindo armas, governando Exercitos, andando a pè longos caminhos por esforçar sua gente, e foy taõ docta na lingoa Grega, que recapitulou a historia Alexandrina, e Oriental, e fez muitas obras, que Nicomato traduzio.
71 E quanto à fama, que homens ouve, que a deixassem de si mòr, que Europa, Asia, e Libia, de cujos nomes estas tres partes do mundo tomaraõ os seus? E as sciencias fingiraõ os antigos, mulheres, e naõ homens. E que saber mais vario, e coraçaõ mais esforçado se poderia achar em homens, que o de Cleopatra Rainha do Egypto? Que constancia mayor, que a de Panthea, que conta Xenophonte, a que a primeira, e grande Monarquia del Rey Cyro naõ pode comover, que quebrantasse a fé matrimonial a seu marido Abradatas? Qual castidade se igualarà com a de Lucrecia, que estimou mais a dor de lhe ser forçosamente roubada, que a morte? Ou com a da Rainha Dido desamada por Virgilio? Naõ faltaraõ a estas animo para se matarem, e constancia, fé, e castidade, que em poucos homens se acha. Entre as quaes se pòde contar na mesma virtude Argia mulher de Policinis Tebano, Julia de Pompeo, Porcia de Catam, Cornelia de Graceso, de que jà falley em outro genero de virtude, Melicina de Sulpicio, Hypsicratia mulher delRey do Ponto, Sulpicia de Lentulo, e a Rainha Libussa, que em quanto tempo per si só governou o Reyno de Boemia, naõ se viraõ as guerras, e dannos, que depois de sua morte se seguiraõ. A justiça, e bom regimento da qual foy causa de lhe fazerem escolher marido, o qual posto que fosse taõ singular, como aquelle Presmilam, que do arado ella escolheo para o Reyno, todavia foy vencido das mesmas mulheres em batalha. A qual Libussa, como diz Æneas Sylvio, era grande sabedora nas sciencias divinas, e humanas.
72 Que façanha mòr em homens esforçados pòde ser da que fez Claudia freira da Ordem Vestal, que sahindo do Mosteiro por socorrer a seu pay, que os Tribunos queriaõ lançar do carro, em que hia triumphando, o tomou nos braços, e o sustentou de tal modo, que como diz Valerio Maximo, o pay com ajuda da filha chegou ao Capitolio com seu triumpho, e ella ao Mosteiro com sua victoria? Que exemplo de piedade mòr, do que conta o mesmo Author de duas moças, huma que dava de mamar a seu pay escondidamente no carcere, onde o Carcereiro por lhe naõ dar a morte, que lhe mandaraõ, movido de piedade determinou de o matar à fome. E da outra, que pelo mesmo modo manteve seu pay Cymon, cuja pintura naquelle tempo era fermosa cousa de ver em Roma hum homem muito velho pendurado do colo de huma moça sua filha, mamando em seus peitos o leite, que gerou. Do qual carcere se fez hum Templo dedicado à Piedade, por razaõ da que tiveraõ estas moças com seus pays, e por experiencia se vè, o que diz Aristoteles nos livros dos animaes, terem as mulheres mais gràos nesta virtude, que os homens.
73 O que Salamaõ confirma, dizendo onde naõ està mulher, geme o enfermo. Porque assim como os homens em sua infancia saõ alimentados com o leite taõ sustancial das mulheres, que os enfermos restaura, e criados com a diligencia de suas mãys, e afagos de suas palavras, apropriadas àquella fraca idade das crianças, assim o enfermo na fraqueza, e debilitaçaõ dos membros, tornando aos primeiros dias de sua criaçaõ, parece que a cura da mulher lhe dà mais descanço, como quem se acha na patria, e natureza onde nasceo.
74 Vindo às cousas da Fè lemos, que por homens foy nosso Redemptor acusado, por homens vendido, por homens crucificado, por homens negado, e dos homens desamparado, só as mulheres atè a Cruz, atè o Sepulchro o acompanharaõ, tornando a elle de noite, perdido o temor dos que o guardavaõ, com cheiros orientaes para ungirem seu corpo, e a Magdalena, que nesta parte mais mereceo com cousas perseveradas lagrimas, naõ foy a que pedio aos Apostolos alviseras da Resurreiçaõ de Christo, por ser a primeira a que apareceo. E ainda a mulher de Pilatos, sendo Gentia, trabalhava com seu marido por lhe escusar a morte.
75 Depois da qual, quem estendeo mais sua Fè, assim com doctrina, como com martyrio? Padecendo por ella tantos generos de tormentos, quantos a crueldade dos tyrannos inventou para lha fazer negar. Testemunhas saõ os dentes de Santa Apollonia, as tetas de Santa Agueda, os olhos de Santa Lusia, e as agudas navalhas, que cortaraõ a carne da Bemaventurada Virgem Catharina. Quantos membros espadaçados, quantas cabeças cortadas, quantos corpos de mulheres assados celebra cada anno a Santa Madre Igreja, qual esquadraõ de homens taõ unido em caridade, taõ armado de Fè, se ajuntou debaixo de algum Capitaõ, como lemos de Onze mil Virgens, que seguindo a Cruz de Santa Ursula, todas morreraõ por aquelle, que nella por ellas padeceo? Cousa de espanto he, e de muy grande admiração entre tantas mil mulheres naõ se achar huma a que o temor dos tormentos alheyos, presentes a seus olhos, fizesse mudar de seu santo proposito, como se vio em taõ pequeno numero de quarenta Martyres, hum delles negar a Fè, e em outro muito menor hum vender a seu Mestre, outro o desconhecer, e finalmente todos o desampararem, sómente as mulheres, como jà disse, que perseveraraõ com elle atè à morte.
76 E tiveraõ sempre tanta constancia na Fè, em que huma vez creraõ, que nunca se lè, apostatar Helena, ou outra alguma Rainha Christaã, como Juliano Emperador, e outros, nem nascer dellas alguma herezia, como dos homens, de antre os quaes se levantaraõ, e se levantaõ cada dia contra a verdadeira, e Catholica Fè. A qual fallecendo em todas, na morte de Christo, segundo affirmaõ os Theologos, em nenhum homem ficou plantada, sómente em a Sacratissima Virgem Nossa Senhora remate de todo o louvor das mulheres. Pois que Deos Eterno, Immenso, Omnipotente, de cuja grandeza o mundo he incapaz, nenhum lugar lhe foy taõ aceito, quando a elle veyo, como o ventre virginal desta Virgem Sacratissima.
77 Alevantem logo os sentidos todas as mulheres, concebaõ em si huma humildade soberba, huma virtuosa presumpçaõ, e gloria de sua natureza, que Deos fez digna, e merecedora de tanta honra, quanta nunca homem puro teve neste mundo, nem terà no outro. Certamente, que he cousa de tal maravilha, qual ella foy, ver aquelle taõ dezejado do mundo, taõ denunciado dos Prophetas, taõ esperado das gentes, taõ venerado dos Anjos, taõ temido dos demonios, e Senhor universal das naturezas angelica, e humana, chamar a huma mulher mãy, e ella filho ao verdadeiro Deos, que a fez, e naõ sem causa a Igreja em suas oraçoens, rogando pelas mulheres, diz: _Intercede por devoto fæmineo sexu_, attribuindo-lhes este epiteto de devaçaõ, e amor de Deos, como muy proprio, e natural seu dellas.
78 E se agora quizesse contar as finezas, que em diversos generos de virtudes fizeraõ mulheres, como as Lacedemonias, Melesias, e Thebanas, faltarmehia o tempo, e naõ os feitos, que acabaraõ. Cheyos estaõ os livros de todos elles. E depois claramente se vè pelos exemplos, que mais me representou a memoria, do que os busquey, quanto as mulheres floreceraõ em todo o genero de letras, nas armas, administraçaõ de Reynos, fundaçaõ de Cidades, e obras miraculosas, na constancia da Fè, padecimento de martyrios por ella, nas virtudes da castidade, piedade, e misericordia, assim em todas as outras, em que naõ sómente se igualaraõ com os homens, mas em muitas os excederaõ.
79 E como nenhum puro homem pòde ser comparado por mais gràos de graça que tivesse, com a melhor dellas, merecendo sua natureza louvor sobre todos os louvores angelicos, e humanos; que razaõ haverà para ser mais estimado o mando dos homens, que o das mulheres? Mayormente o de V. Alteza, a quem tantas, e tão boas partes, a Clemencia Divina deu, que em muy poucos homens, por consumados que fossem, se poderiaõ achar.
80 Agora se nos representarà (illustrissima Princesa) a todos seus vassallos o tempo da Rainha Sabà, ou Candaces; em V. Alteza se renovarà a memoria das esforçadas, castissimas, e prudentissimas Rainhas Arthemizia, e Dido, e de todas quantas ennobreceraõ seus nomes com suas obras. Nella sò veremos juntas as virtudes, que nestas andavaõ apartadas. A Rainha Santa, cujo precioso Corpo tem Coimbra, e sua alma a gloria de Deos, morta, serà viva em V. Alteza, e para isto ser assim, que menos pode fazer, como disse no principio desta Oraçaõ, filha de tal pay, e de tal Mãy, irmãa de taes irmaõs, neta de taes avòs, sobrinha de taes tios, todos Reys, Rainhas, Emperadores, Principes, Infantes, de que toda a Republica Christã he cheya na jurisdiçaõ secular, e provèsse a Deos, que assim o fosse na Ecclesiastica, que naõ faleceria em vossa linhagem (muy alta Princesa) quem estendesse a Fè pelas partes Setemptrionaes, como fizeraõ pelas Orientaes, Meridionaes, e do Occidente, pois que della nasceo o Serenissimo Principe, e Reverendissimo Senhor Infante D. Henrique vosso irmaõ. Cujos costumes, santa virtude, e purissima limpeza de vida nos representaõ em nossos dias o grande Gregorio, Basilio, ou Agostinho. Naõ averia em nossos tempos Luteranos, obedeceria ao Summo Pontifice Boemia, reduzirsehia Grecia com todas suas misturas de Jacobitas, Georgianos, Arménios, e Abexins, e quantas diversidades de herezias ha pelo Mundo cessariaõ. Tornando ao proposito, este seu povo, e vassallos, posto que em quantidade sejaõ poucos, e naõ enchaõ a medida dos merecimentos de Vossa Alteza, pois que grandes Imperios, e Reynos, demanda sua prudencia, e alto nascimento. Agora com serem seus, serà mayor seu nome, e os serviços, que os mais delles fizeraõ a ElRey vosso pay de gloriosa memoria, e a ElRey vosso irmão nosso Senhor, assim em sua casa na paz, como fóra della na guerra, se por ventura andavaõ apagados, daqui por diante seraõ conhecidos, louvados, e galardoados, assim por ElRey com seu favor, como com merces, e acrescentamentos, que elles, e seus filhos esperaõ receber de Vossa Alteza, cuja liberalidade, e humanidade, que aos estranhos he grande, mayor se espera que seja aos naturaes, e vassallos, os quaes para serem sustentados, e governados com paz, mantidos em justiça, ficaõ rogando à Divina Clemencia, naõ por todos estes bens, mas por a vida de Vossa Alteza, que taõ certos os tem com ella, a qual nosso Senhor conserve, acrescente, prospere por muitos annos. Amen.
ELOGIO
_DO DOUTOR_
FREY BERNARDO
DE BRITO
_RELIGIOSO DE CISTER, E CHRONISTA MÓR
de Portugal._
Na Comarca de entre Douro, e Minho, saõ muito antigos os nomes de Britonio, Briteiros, e Brito: porque de Britonio Cidade Episcopal se faz mençaõ no Concilio de Lugo celebrado no anno de 569. a qual foy destruida por Almançor de Cordova. O lugar de Briteiros deu este appellido a Fidalgos muy principaes, de que trataõ por vezes as historias Portuguesas, e os Registos Reaes. E sobre tudo a Ribeira, e freguesia de Brito, que està entre o Rio Aye, e a Portella dos Leitoens, he solar desta illustre Familia dos Britos. Cuidaõ alguns, que este nome he derivado dos Brutos Romanos, e outros, que dos Britones, primeiros moradores de Inglaterra, a que parece alludem os Leoens rompentes, que os Britos trazem por armas, que saõ as mesmas insignias daquella Provincia postas em tres barras. Com tudo neste Reyno tem muita antiguidade, e delles, e dos Briteiros (que todos saõ os mesmos, segundo os que melhor entendem) ha muita mençaõ no livro das Linhagens de Espanha do Conde D. Pedro. Na principal varonia desta Familia, que he a do Morgado de Santo Estevaõ de Beja, entraraõ por casamento, e linha femenina a Casa de Lima com o Viscondado de Villa Nova de Cerveira, e Condado de Arcos de Valdeves, e a Casa dos Nogueiras com o Morgado de S. Lourenço de Lisboa, e por largos annos possuiraõ a Alcaidaria Mòr de Beja, e em particular Affonso Annes de Brito, que foy pay de dous Bispos de Evora D. Martim Gil de Brito, e D. Joaõ Affonso de Brito, e Avò de D. Diogo de Brito, que successivamente tiveraõ esta grande Prelasia. Pelo que de alguns foy chamado Affonso Annes o Clerigo. Em outras partes de Alem Tejo conservaõ muy antigos Morgados, particularmente em Evora, onde o Bispo D. Joaõ, jà referido, instituio o Morgado de Fonte boa, com obrigaçaõ de usar o appellido, e armas dos Britos, que se pòde ter por huma das mais antigas instituiçoens de Espanha, em que so trate de semelhante clausula.
Deu esta linhagem homens insignes no serviço dos Reys, no governo da Republica, e no valor das armas, em que foy assinalado Joaõ Affonso de Brito na tomada de Ceita, e na India Lourenço de Brito Capitaõ de Cananor; o primeiro que defendeo o cerco de fortaleza naquelle Estado, sendo o que lhe puzeraõ os Malavares hum dos mayores, que os Portugueses sustentaraõ. E assim ha nesta Familia outros Varoens dignos de memoria, porèm quem em nossos tempos illustrou grandemente este nome com as excellentes obras de seu engenho, foy o Padre Frey Bernardo de Brito Chronista Mòr de Portugal; como se verà nesta breve relaçaõ de suas cousas, o qual estimou tanto este appellido, que o antepoz a outros muitos, e muy illustres de que descendia. Por quanto, segundo se vè na Historia de Nossa Senhora de Nazareth, de que adiante faremos mençaõ, era seu pay Pedro Cardoso, filho de Sebastiaõ Fernandes Cardoso, e neto de Francisco de Sousa, o qual era neto de Gonçalo de Sousa Comendador Mòr, que foy de Christo, e por sua mãy Maria de Brito de Andrade, ficava no mesmo grào com Nuno Freire de Andrade filho do Mestre de Christo D. Nuno.