Part 40
31 A este proposito, cuido que diz a Escritura, que a Sapiencia edificou para si huma casa, e cortou sete colunnas, querendo dizer (naõ fallo agora nos sentidos espirituaes) que naõ buscou quem lha edificasse, e escusou ajudas, e mestres, porque nella havia tudo, o que naõ tem a ignorancia, que com todas as achegas postas em casa a naõ levantaria de sobrado. Por este homem sabedor podemos entender o Principe, o qual posto que tenha sua Republica unida com leys, e direito Divino, sempre se achaõ em todo o tempo, e em todo o estado homens (como pouco ha disse) desobedientes a toda a razaõ, que como aquelles primeiros andaõ fóra de toda a ley; naõ guardando a ordem matrimonial, sem Religiaõ, e temor de Deos, e nos manjares como bestas obedientes à gula, e ao ventre, vivendo fóra da commum habitaçaõ dos outros, matando, e salteando pelos despovoados, os quaes o Principe por força, e por arte ha de levar à domestica doutrina da razaõ, e fazer com que o lobo ande em hum mesmo pasto, como o cordeiro.
32 Aqui poderia eu dizer (prudentissima Princesa) que nella se pòde mostrar este grande homem sabedor, que meteo os outros no caminho da verdade. Que dias hà, que este vosso povo derramados pelos desertos deshabitados da razaõ, espera por V. Alteza. Grandes caminhos se me abriaõ aqui de seu louvor, mas diraõ, que não guardo o decoro, que devo à patria em publicar seus defeitos por ser mãy, que me gerou. Ó grandissima prudencia delRey Nosso Senhor entregar neste tempo hum povo a quem o havia de restituir a estado de mayor quietaçaõ, e repouso. Grandissima clemencia de V. Alteza, aceitar a governança delle pelo salvar. Certamente que naõ sey o que mais louve, se a prudencia de hum, se a clemencia do outro, igual he a divida, igual o louvor, igual a obrigaçaõ.
33 Muito devemos a ElRey, que nos deu a taõ alta Princesa, muito devemos a V. Alteza, que nos aceitou por seus. O singular, e nunca ouvido genero de liberalidade, taõ diverso, e taõ igual à delRey Nosso Senhor em dar, e a de V. Alteza em aceitar. Naõ sey o que diga por este taõ bom dia como nos amanheceo, e se disser alguma cousa, que posso dizer, senaõ o que diz o Poeta: _Jam redit & virgo, redeunt saturnia regna_. E elle a seu proposito, e eu ao meu. Quem serà taõ desconhecido, que seja ingrato a esta mercè? Quem taõ ignorante, que a naõ conheça? Quem taõ cego, que a naõ veja? Quem taõ mudo, que a naõ publique? Quem taõ sofrido, que a cale? Quem taõ rustico, que a naõ estime? E naõ entenda o tempo, em que ElRey nos buscou remedio de nossas enfirmidades, com que temos a saude certa, e a prosperidade segura. Nem podia sahir tal conselho, se naõ de Principe taõ dado às letras, e taõ favorecedor dellas. Nas quaes como naõ tenha pequena parte, assim buscou quem a tivesse muy grande, que as cousas naõ pòdem ser bem julgadas, senaõ por aquelles, que tem verdadeiro conhecimento dellas.
34 Vio bem Sua Alteza, que a jurisdiçaõ das letras se estendia tanto pela Universidade das cousas, que nenhuma se podia fazer sem ellas, que estes Cesares, estes Scipioens, e Anibaes, e todos os mais, que nas armas floreceraõ, entre ellas senaõ desprezavaõ dos livros. Como de Alexandre se lè, que achando no despojo de Dario huma caixa muito rica de maravilhoso artificio, que servia dos cheiros, e perfumes delRey, mandou (contra opiniaõ de alguns) que para outros usos a deputavaõ, que lha guardassem para a Illiada de Homero. Era taõ sofrego das letras, que por Aristoteles publicar huns livros, que compoz da Metaphysica, o reprehendeo disso, querendo reservar para si o uso delles: sómente como diz Seneca, em estudar Geometria errou, porque havia de saber quam pequena era a terra, da qual a mayor parte tinha occupada, com que ficava falso o nome de que se intitulava de Grande Alexandre.
35 E naõ lemos, que a Mathematica de Archimedes defendeo por muitos dias Çaragoça aos Romanos? E que as artes liberaes de Gallo Sulpicio, como diz Valerio Maximo, foraõ causa da grande victoria, que Lucio Paulo Capitaõ Romano houve contra os Persas, porque espantado o exercito do ecclipse da Lua tinhaõ perdida a confiança da victoria, o qual elle lhe restituyo, provando pela ordem dos Ceos, que o desfallecimento deste Planeta era natural, e naõ prodigioso.
36 O Emperador Antonino naõ foy bom Philosopho, e bom Capitaõ? Carlos Magno naõ trazia nos exercitos ao grande Alcuino, cujas obras saõ hoje ornamento da Igreja? A ElRey D. Afonso de Castella naõ lhe deraõ suas tavoas nome de Sabio? Ao de Napoles deste mesmo nome, vosso Tio filho delRey D. Fernando de Aragaõ vosso quarto Avò taõ excellente Cavalleiro, e singular Capitaõ, de cujos louvores estaõ cheyas as Chronicas Napolitanas; que mais posso dizer em louvor das letras, senaõ que trazia por divisa hum livro aberto: porque dizia João de Issera, homem de muy grande juizo, que se elle naõ fora Rey, fora muy grande Philosopho. O qual lendo hum proemio, do que tradusio em lingoa Castelhana, os livros de Santo Agostinho _De Civitates Dei_, achou huma sentença, que dizia que o Principe idiota era hum bruto animal coroado. As quaes palavras lhe pareceraõ taõ bem, que nos negocios, na guerra, em suas prizoens, e adversidades, nunca deixou de ler, ouvir, argumentar, praticar em letras, e no Campo em seus exercitos trazia consigo hum Mestre Martinho, com quem communicava seu estudo. Tradusio as Epistolas de Seneca em Espanhol, teve grande conhecimento das historias, grande noticia dos Poetas, e Oradores, soube muitas conclusoens de Philosophia natural, e tanto estudou na Sagrada Escritura, que se louvava ter lido o Testamento velho, e novo, quatorze vezes, com suas grozas, e commentos; respondia, e praticava como Theologo consumado em materias theologaes arduas, e dificultosas, como saõ da presença de Deos: _De Liber arbitrio_, _de Trinitate_, _de Incarnatione Verbi Dei_, _de Sacramento Eucharistiæ_. E dizia, que naõ avia melhores homens de conselho, que os mortos, que careciaõ de odio, favor, ou temor, respeitos, a que os vivos pela mayor parte saõ sugeitos. Dizem delle, que nos sacos dos lugares, nenhum despojo lhe era taõ agradavel como o dos livros, os quaes trazia sempre, como jà disse, nos caminhos, e exercicios, principalmente os Commentarios de Cesar, e Tito Livio, a que era affeiçoado. E na conversaçaõ domestica se servio de Bertholameu Fascio, singular historiographo, e Orador, de Georgio Trapezuncio, de Lourenço de Valla, doctissimos, hum na lingoa Grega, outro na Latina, de Joaõ Aurispa Siciliano, que escreveo muitas Epistolas, e Livros moraes, e de Antonio Panormitano Bolonhes, que escreveo hum Livro dos ditos, e sentenças do mesmo Rey D. Afonso, todos Baroens doutos, que no seu tempo floreceraõ.
37 Quiz fallar muito de taõ singular Rey, porque sua vida, e costumes, parece que confirmaõ o nosso proverbio, que diz: As letras naõ despontaraõ a lança. E certo naõ sey que sains mais amolados possaõ ser, que armas guiadas por conselho de prudente Capitaõ? E que muitos tragaõ em pratica: _Que farà aqui Plinio_, graça que hum homem disse em huma afronta a outro na Villa de Alcacer Ceguer; saõ cousas favorecidas daquelles, que por naõ saberem letras, querem authorizar este defeito com ditos alheyos, dignos de muita reprehençaõ, porque certo naõ ha ahi homens mais prejudiciaes às cousas dos que os que carecem dellas, que como esta privaçaõ seja causa de seu abatimento, querem-se sustentar com graças, quando lhe faltassem boas razoens.
38 Esta verdade confirmaraõ os Infantes D. Pedro, e D. Henrique vossos tios, cujas armas tanto honraraõ estes Reynos, que ainda hoje os livros, que hum compoz, authorizaõ a livraria delRey nosso Senhor, e o Mundo, que o outro com sua Mathematica começou a descobrir que ElRey vosso pay, com muito acrescentamento conquistou, està cheyo de seus louvores. E nisto cuido eu que o Infante D. Pedro quiz significar quam necessarias eraõ nos Principes, a Filosofia, e as armas, pois Tulio, de Officiis, e Vigecie, que destas duas cousas escreveraõ, traduzio em lingoa Portuguesa.
39 Tornando ao proposito, bem claro mostra Vossa Alteza nos livros, que tem por ornamento de sua Casa, que procede do sangue deste taõ glorioso Rey de Napoles, que taõ boa memoria de si deixou ao Mundo, e a seus descendentes, exemplo com que aprendessem a ser Filosofos na paz, e Cavalleiros na guerra, pois que os livros mais alimpaõ as armas, do que as danaõ, e que Vossa Alteza as naõ exercite por lhe naõ ser dado, tem logo outras espirituaes de tanta força, que sem ella as materias perderiaõ a sua. Cà o animo onde se acha prudencia, fortaleza, justiça, e temperança com a verdadeira fè do que se deve crer, que cousas começarà, que naõ acabe? Ou como acabarà a memoria das que começar? Obedece o ferro à industria, as armas ao conselho, a gente ao Capitaõ, e como diz Salustio muito tempo durou entre os homens esta profia, em que consistia mais a virtude militar, se nas forças corporaes, se nas do animo, e posto que humas tenhaõ necessidade das outras, todavia pelo tempo, e experiencia se achou, que na guerra, o saber valia mais. E certo que muitas vezes, lendo os notaveis feitos das Amasonas, que em armas fizeraõ, me faziaõ muita duvida, parecendo-me que em mulheres, que a natureza naõ criou para o tal exercicio, senaõ podia achar tanta perfeiçaõ, a qual me tirou Valasca, de que conta o Papa Pio II. que com Exercitos de mulheres senhoreou sete annos o Reyno de Boemia, vencendo muitas batalhas campaes, e fazendo feitos em armas de muy esforçados cavalleiros. E Joanna, de que conta Gaguino, que vulgarmente chamamos a Poncella, cujo esforço, e prudencia militar restituio o Reyno de França a ElRey Carlos VII. deste nome, posto que naõ acabasse conforme a seus merecimentos, as quaes nos tiraraõ a duvida de outras mais alongadas de nossa memoria, como Symiramis, que governou tantas Provincias, Dido, que edificou huma tão nobre Cidade, e Thomiris, que matou a ElRey Cyro.
40 Assim que com estes, e outros exemplos de mulheres, que nas armas floreceraõ, e administraraõ Reynos, naõ duvido eu (Illustrissima Princesa) que trazendo o tempo taes necessidades, que fosse necessaria sua prudencia, e conselho, para governar gente armada, que se acharia nella tão perfeito, como se achou na Rainha Dona Isabel vosso visavò, cujo favor, e esforço ajudou a lançar fòra os Mouros de Espanha, que de setecentos annos, e mais a senhorearão por força de armas, a qual foy vista nos Exercitos, e perigos da guerra: mas como o tempo não ordene tal cousa, Vossa Alteza o gasta em outras, de que naõ merece menos louvor do que estas tiverão, que pouco ha nomeei, as quaes posto que venceraõ homens algumas dellas, naõ venceraõ a si mesmas, senaõ que o seu he tanto mayor, que a vitoria dos inimigos de casa, he mais louvada, que a dos de fóra. Porque segundo diz Marco Tullio, como poderà ser senhor aquelle, que o naõ he de suas paixoens? Refree primeiro os vicios, despreze as deleitaçoens, reprima, e detenha a ira, vença avareza, e lance de si as nodoas do animo, e entaõ comece a senhorear, depois que deixar de servir.
41 Dizia o grande Agessilào, vendo que os Persas louvavaõ, e senhoreavaõ hum Rey da India, que tinha grandes thesouros: porque serà elle mais rico, pois naõ he mais temperado? Querendo dizer que as forças dos Principes naõ estavaõ nas pedras preciosas, e Elefantes da India, senaõ em a temperança da vida, que he a verdadeira Filosofia, e o verdadeiro fruito das letras, inventadas para assentar os homens em hum honesto modo, e boa ordem de viver. Mas como seus donos se servem dellas para valer, e naõ para merecer, saõ como os vazos avinagrados do Poeta Horacio, que diz:
_Nisi purum esi vas omne quod infundis acrescit._
42 Ao qual proposito dizia o Filosofo Epitheto a hum homem de bom engenho, e mal inclinado, que desejava, e trabalhava por saber. Ó homem, olha se he limpo o vazo em que tanta cousa lances. E certamente, assim como a ignorancia dos Governadores idiotas he prejudicial à Republica, assim a malicia dos Letrados he causa de muitos males, principalmente a daquelles, que tem officio de ensinar bons costumes, que se as obras naõ respondem às palavras, perdidas saõ quantas lhe caem dos pulpitos abaixo. Por a obra ser de tanta força, que mudo brada, e callando grita, com que comprehende estas duas cousas, fazer, e dizer; e a palavra sem obra he só, e naõ tem virtude para dar raizes na terra, onde acertou cahir: contra estes, que esperdiçaõ a Doutrina de Deos, fazendo o contrario do que dizem, e prégaõ, diz Paulo, que naõ escaparaõ da sua justiça, pois nas sentenças que daõ contra os outros, condenaõ a si mesmos.
43 Como cheguey à altura deste conceito, e conhecimento, tudo o que descobri foraõ louvores de Vossa Alteza, porque era qualquer dos rumos, em que o tempo me poz, em todos ouve vista de suas obras, taõ juntas aos livros, que parece naõ sahir fóra da margem do que nelles le. Cà se o jejum tem merecimento diante de Deos, quem melhor guarda este preceito, e com mais louvor? Pois, sendo criada na abastança de todas as cousas, que pertencem a seu estado; sem o trabalho de as adquirir, por servir a Deos, e merecer ante elle, se poem em necessidade dellas. Que notorio he a todos com quanto trabalho se resiste à criaçaõ, que padecem mais facilmente esta falta da mantença corporal os moradores da parte Meridional, que os de Setemtriaõ, por huns viverem em terra fria, e outros em quente, que obra diversos effeitos, mais o rustico, que o bem nascido, pelo costume, mais o velho, que o moço, pela deminuiçaõ de calor natural. Assim quer Vossa Alteza, sobejando-lhe as cousas de sua propria vontade, exprimentar o carecimento dellas, por respeito de virtude, certo he muy grande louvor, e merecimento, pois naõ tem necessidade, a quer sentir, forçando sua vontade por comprir a de Deos, desprezando tanta diversidade de iguarias, com tanto artificio compostas. Quem serà com taes exemplos mào Christaõ? E se o for, que escusa terà com Deos, estando à conta com elle, que lhe ha de ser tomada taõ estreita: podemos logo com muita razaõ dizer, que a liçaõ dos jejuns, que Vossa Alteza le da Rainha Hester, e de Elias, e S. Joaõ Bautista, e a obra com que os guarda, tudo junto anda enquadernado.
44 E se viermos ao sacrificio da oraçaõ taõ louvado na Sagrada Escritura, qual Religioso com mais cuidado, diligencia, e continuaçaõ reza suas horas por obrigaçaõ, que V. Alteza sem alguma? Naõ lhe faltando dia em que naõ ouça os officios Divinos, confessando-se tantas vezes no anno, e tantas vezes recebendo o Santissimo Sacramento do Altar. A communicaçaõ dos quaes, como sabe que daõ graça, assim trabalha pela merecer com elles. Certamente, que considerando muitas vezes a humildade de hum Principe bom Christaõ, se me representa, a ventagem, que nossa Fè tem às seitas, e falsas Religioens, que foraõ, e saõ ao presente: porque de quantos Principes, e Emperadores nellas houve, naõ se lé haver algum, a que a obrigaçaõ de sua Religiaõ fizessee taõ humilde, e taõ sogeito, como saõ os nossos. Os quaes vendo-se de huma parte rodeados de tantos criados, e servidores com tanto resguardo, e acatamento às suas pessoas, que os olhos naõ empregaõ em outro objecto, senaõ em o do Principe, para que em acenando, os seus jà executem, naõ sómente o que dizem, mas o que adivinhaõ, que querem. E da outra posto de joelhos diante de hum pobre Religioso seu Confessor, e de tal maneira, posto que naõ sómente lhe diz as culpas, e peccados, que commete, mas o pensamento que teve, ou tem de as commeter, pedindo-lhe sobre tudo penitencia, e castigo dellas; taõ obediente, e aparelhado a comprir quanto saõ seus Vassallos a lhe obedecer, somente nisto saõ differentes, que elle o faz de coraçaõ, e os seus às vezes de mà vontade, fingindo-a boa por lhe ganharem a sua. Cousa he certo de muita admiraçaõ, vontade de tantas obedecida, obedecer a huma só, sugeitar-se a hum homem, aquelle a que tantos saõ sugeitos, reduzir-se a hum só lugar huma jurisdiçaõ taõ estendida, por Reynos, e Provincias.
45 Pois notorio he a todos, como jà disse, quanto V. Alteza frequenta este acto de humildade, descendo tantas vezes de seu estrado aos pès de seu Confessor, esquecida donde vem, muito lembrada para onde vay. Passando sua vida com tanta temperança, que se algum exercicio fóra destes aceita, naõ he senaõ fundado em louvor de Deos, ou donde possaõ nascer occasioens de o servir. Porque deixada a caça, a que muitas Princesas em outros Reynos saõ inclinadas, V. Alteza comprehende os altos mysterios do Sol da justiça, como aquella aguia de mais subida altenaria, que penetrou os rayos do verdadeiro lume, onde nenhuma plumagem de Aves chega, por andar sempre esta garça taõ estrellada, que a naõ filhaõ, senaõ os que tem sua conversaçaõ nos Ceos. Em lugar de caẽs, que desassocegaõ as alimarias, tirando-as de seus agasalhados, penetra com a sagacidade, e ligeireza de seu espirito, os cavàdos das pedras, desencovando aquella fermosa pomba de Salamaõ, que he a graça do Espirito Santo, e os sentidos da Escritura, verdadeiro mantimento da alma, e quando o tempo lhe naõ dá lugar a esta caça, porque em hum ha de semear, e em outro ha de colher, gasta estes intervallos no exercicio da musica, seguindo o Real Propheta David, que com sua viola espantava o espirito mào, que atormentava ElRey Saul, levando no discurso de sua vida tal ordem, e proporçaõ com que o demonio, inimigo della foge para onde naõ hà senaõ desordens, e horrores perpetuos. E tanto fruto tem V. Alteza colhido das letras, que achando nellas quam espiritual cousa he a musica, e quanto levanta os coraçoens para o Ceo, nella se exercita, como fizeraõ muy graves Philosophos, que vendo a ordem dos Ceos disseraõ, que em suas continuas voltas com que rodeaõ o mundo, fazem huma muy suave musica, de que os nossos sentidos saõ incapazes, por exceder sua potencia, atribuindo a cada hum suas vozes agudas, e graves.
46 E os Platonicos disseraõ, que nossa alma era composta de proporçoens de musica, por onde se deleitava tanto com ella. E assim parece que sentindo os Anjos a conveniencia, que nossa alma tem com a ordem da musica, com ella nos deraõ as novas do nacimento do Filho de Deos, de que o mundo estava taõ dezejoso, cantando com suave melodia. Nem sem causa o Espirito Santo ordenou, que cantando se celebrassem os officios Divinos para nossa alma os poder melhor comprehender. Ordenando assim mesmo estromentos, cuja armonia inflamasse nossos sentidos, como saõ orgaõs, que ainda na ordem de suas frautas imitaõ a dos Anjos, que no Ceo Impirio tem suas precedencias ordenadas por Deos. A differença das quaes concerta com aquella ordenada composiçaõ de Isaias, que sem cessar cantaõ diante da Divina Magestade de Deos.
47 E por a musica ser cousa taõ divina como he, nunca se lè que a Igreja de Deos estivesse sem ella, assim no tempo da ley da Escritura passado, como no da graça presente. Testemunha he aquella trombeta, que no dar da Ley retumbava pelas faldras do Monte Sinai, testemunhas saõ os timpanos, e pandeiros de Maria, irmãa de Moyses, com que tanto festejou o naufragio dos Egypcios, e vencimento dos Judeos, e assim as trombetas de Hiericò, com a musica dos quaes os seus muros, como adromecidos, se deixavaõ cahir na terra.
48 Pois vindo ao Tabernaculo, e ao Templo de Salamaõ, sempre nelles houve estromentos de musica, com que os sacrificios se celebravaõ, que David tanto encomendava nos seus Psalmos, o qual levando a Arca do Testamento para Jerusalem, de que no principio fiz mençaõ, diz a Escritura, que elle, e o povo de Israel dançavaõ diante della, cantando, e tangendo violas, psalteiros, trombetas, e outros estromentos. E o mesmo Rey David, quando repartio os officios dos Levitas, lemos, que ordenou quatro mil delles, cujo officio fosse tanger orgaõs.
49 Cheya està a Escritura de muitos exemplos, porque claramente consta deleitarse Deos com a musica, a qual por experiencia se vè tem muito grande força nos coraçoens dos homens, por onde os que della tiveraõ conhecimento, vendo quanto podia em todas as cousas a levaraõ à guerra, ordenando trombetas, e outros estromentos, com que os homens, e ainda os cavallos cobrassem esforço no rompimento das batalhas, e no andar, e proceder dos esquadroens, guardassem a ordem, que ella em si tem.
50 E os que no exercicio da caça se deleitaõ, também entenderaõ, que atè aos brutos animaes chega a doçura, e conhecimento da musica, como diz Strabo dos Elefantes, e Plinio dos Cervos, que huns com cantigas, e timpanos, e outros com frautas pastoris se amançaõ. Cousa notoria he, e muy sabida, o que conta Herodoto, e outros Authores, dos golfinhos, que saõ taõ dados a esta deleitaçaõ, que o grande musico Ariaõ foy livre do naufragio do mar por hum golfinho, que o salvou, conhecendo ser aquelle, cuja voz ouvira em o Navio, que seguia.
51 E naõ se acha gente por barbara, que seja, que naõ tenha sua musica, mà, ou boa, segundo o que cada hum della alcança, como vemos em toda a terra de Ethiopia, cujos naturaes entre nòs saõ testemunhas desta verdade, levando ordem, e compasso em seu tanger, ainda que seja barbaro, e os rusticos do campo, a que naõ faltaõ suas gaitas.
52 Que posso dizer dos passarinhos, cuja melodia tanto deleita as orelhas dos homens, que os tem encarcerados, e prezos para esse fim. Entre os quaes se bem olhamos a differença das vozes, e armonia, que o reixinol faz com sua garganta, que Plinio por outra tanta diversidade de palavras explicou; acharemos, que todas as proporçoens da musica estaõ encerradas no papo de hum taõ pequeno animal, como he este passarinho.
53 Nem as agoas parece, que carecem deste sentido nos rumores, e roucos estropidos, que por entre os sexos, e pedras dos rios vaõ fazendo, que a nossos sentidos causaõ deleitação, e saudade. E assim mesmo nos ventos temperados do Veraõ com os zunidos, que fazem, movendo as folhas das arvores, tambem se acha huma certa semelhança da musica. Donde nasceo (a meu juizo) fingirem os Poetas, que Orpheo levava consigo os homens, e brutos animaes, com as arvores, e rios, dando a entender, quam geral he a força da musica, que em todas estas cousas tem jurisdiçaõ.
54 E vindo aos corpos humanos, que cousa he a saude, senaõ huma concordancia dos quatro humores, da discordia dos quaes, que se segue, senaõ enfirmidades, e màs disposiçoens? Nos tempos do anno naõ he claro, que quando as quatro qualidades primeiras guardaõ entre si boa, e ordenada temperança, que se faz huma excellente musica taõ necessaria à vida dos homens, como saõ boas novidades de mantimentos? E quando saem fóra daquella regra, para que foraõ criados, naõ fazem ellas Sol, quando se dezejava chuva? E chuva, quando he necessario Sol, com que os ares corruptos causaõ pèstes, e outras infirmidades, assim na gente, como nos animaes necessarios? E a cerca dos dòtes corporaes, e graça, que mais he, e fermosura do rosto, que huma conveniente proporçaõ dos membros? Que contem modo, ordem, e figura na ordem dos intervallos das partes, no modo, a quantidade dellas, na figura, as cores, e os traços. Das quaes cousas entre si bem ordenadas, resulta huma certa armonia apartada da materia, a que chamamos fermosura.
55 A qual, segundo os Philosophos, denota a bondade das virtudes interiores dalma. E naõ sem causa Salamaõ tanto louvou na Sacratissima Virgem Nossa Senhora a fermosura corporal. Porque olhadas bem as obras de Deos, assim as espirituaes, como as corporaes, todas saõ cheyas de fermosura, que respondem ao Author, e Criador dellas; o que David quiz significar, quando disse que a confissaõ, e fermosura estavaõ diante de Deos. E quanto estas obras se levantaõ da terra, e chegaõ a elle, tanto mais aparece este Divino dom nellas. A quem naõ farà muy grave admiraçaõ a fermosura do Sol, de que nossa vista he incapaz, vendo como estende seus rayos pela redondeza do mundo, fazendo tão fermosa variaçaõ de ervas, flores, e sombras, com que a terra està taõ graciosa, e ufana no Veraõ.