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Part 39

Chapter 393,961 wordsPublic domain

13 Cà depois de seus pilotos abriraõ o mar Atlhantico, por tantas centenas de annos cerrado, todos aquelles que na Filosofia natural tinhaõ gastado seu tempo, elle lhe gastou seu louvor. Pois dos Geografos, cuidavaõ ter o Mundo assoalhado com suas pinturas, aos olhos dos que naõ andavaõ por elle, que posso dizer? Senão o que se vè, que rusticos pilotos sem mais letras especulativas, que huma só doutrina praticada no convez de hum Navio endireitaõ as derrotas, diminuem, ou acrescentaõ os gràos, emendaõ as alturas, de tal maneira reprovaõ as taboas do Ptolomeo, como se estudaraõ em alguma illustre Universidade, e elle naõ em Athenas, onde gastou seus dias?

14 Naõ fallo nas vitorias de Africa, cujo temor fez fugir os Mouros das faldras, e da fertilidade dos mares Gaditano, Atlhantico, e meteo por dentro das secas areas do Sertaõ da Mauritania, nem o que fez em Guiné, e toda a Costa de Ethiopia, pois he notorio, que os negros que viviaõ fóra de toda a policîa, habitando as cavernas da terra, sem ley, sem justiça, sem direito humano, ou Divino, vivendo ao modo de brutos animaes, agora deixadas as trevas, e tornados à luz com a prègação delRey vosso Pay, que para elles foy novo Apostolo, levantaraõ Templos a Christo, e à Santissima Virgem sua Madre, e nelles pulpitos em que publicaõ, e exalçaõ seu nome, e Altares, em que offerecem seu Corpo Santissimo, e Sangue precioso, com que parece (Illustrissima Princesa) ser comprida a profecia do Psalmo, que diz, que os Estrangeiros e Tyro, e o Povo dos Ethiopes conheceriaõ a Deos: e pòdese dizer que seu nome lhe foy posto por Divino Mysterio, como lemos de alguns Santos Varoens, cujas futuras obras conhecidas por Deos, lhe deraõ nome, confórme o que elles aviaõ de obrar. S. Joaõ Bautista pelos Prophetas foy chamado, e por seu pay Zacharias: Joanne, nomes que convinhaõ a suas obras. E o Messias prometido na ley, jà tinha seu nome escrito nos livros de Isaias, que disse Manoel se chamarà, que em nossa lingua quer dizer: Deos he com nosco, pela vinda, que fez a este mundo, onde tomou carne humana, por nos remir do peccado de nosso primeiro Pay Adão. Pois assim mesmo eu diria, que este Christianissimo Rey Emanoel levou à India, e Ehiopia sua Fè, com que os infieis com muita razaõ là pòdem dizer: Deos he com nosco.

15 Passo pelas victorias dos Rumes, pelos tributos que poderosos Reys da India lhe pagaraõ, de que a Coroa deste Reyno naõ tem pequenos proveitos. Que tudo isto celebrado he por Poetas, e Oradores, que em Roma, e outras partes publicaraõ taõ excellentes victorias. Testemunha he do que digo Camillo Porcio, que em huma magnifica oraçaõ, que fez ao Papa Leão X celebrou a tomada de Malaca, cujo treslado veyo a estes Reynos por industria do Doutor João de Faria, que naquelle tempo servia de Embaixador em Roma. Testemunhas saõ Policiano, Fillipe Beroaldo, Blosio, Paladio, Pierio, Casalio, e outros, que em metro, e prosa espalharaõ pelo mundo estes triumphos delRey vosso Padre, em cujo tempo se fora o grande Homero, que tanto caso fez de huma taõ pequena navegaçaõ, como he do Helesponto atè Sicilia, que pòde comprehender pouco mais de trezentas legoas, em que misturou tantas fabulas, e acontecimentos, quam pouca conta fizera dos errores de Ulysses, se vira tantas mil legoas de mar, e costa senhoreadas de hum só Rey, nas quaes se contem as Indias, a quem, e àlem do Gange, e grande parte de Ethiopia, Arabia, e Persia, cujas forças asaltaraõ os Mouros, e Turcos, e os lançaraõ atè os fins do estreito Arabico, onde tem seus Navios varados em a pobre Villa de Suès, sem usarem de levantar suas vellas, que a força Portuguesa tantas vezes amainou.

16 Que fizeraõ os Poetas Orpheo, e Apollonio, quam pouco estimaraõ a conquista do vellocino douro, e daquelle primeiro Navio Argos, que tanta admiração naquelle tempo fez ao mundo, navegando o espaço, que hà de Thesalia, atè Colchos, que ao mais podem ser trezentas, e cincoenta legoas. Em o qual, mar por ser muito povoado podiaõ tomar muitos refrescos, e fazer muitas agoadas, com que teriaõ mais passatempo neste caminho, que trabalhos dignos de cansar nelles os Poetas seu engenho? Vendo seis mil legoas de mar, taõ hermo, e deshabitado, navegadas, e senhoreadas por a gente Portuguesa, que em suas tormentas nenhuma esperança tem nos portos, e nas Ilhas, de que as agoas estaõ desocupadas, a que possaõ fugir da braveza de taõ altas ondas, como nelle se levantaõ? Certamente, que olhando bem isto, se pòde dizer, que estas, e outras cousas, que os antigos contavaõ, como por excessos da natureza, quanto a nòs pelas que foraõ acabadas por industria delRey vosso Pay, podem ser havidas por historias de patranhas.

17 Naõ fallo nas colunnas de Hercules, postas na Ilha de Cales entre o fogo de nossas casas, que assentou como no fim de toda a terra, que neste tempo saõ riscadas da memoria dos homens, e postas em todo o silencio, e esquecimento, com outras mais altas, que por vosso sangue foraõ assentadas na derradeiras partes orientaes do mundo, mais proveitosas a elle por serem as em que Christo poz suas espadoas, do que foraõ as de Hercules, com que se perderaõ tantas almas.

18 Muito havia a cerca disto que dizer, mas basta mostrar o caminho, para que vejaõ o que tinha por passar, se disso quizera escrever. Mas deixaloey para dizer que de taes dous troncos como estes, naõ podia nascer senaõ V. Alteza, em que claramente se vè ser filha de tal pay, por quem Deos taes cousas obrou, e irmãa de tal irmão, conservador, e augmentador dellas; e sobre tudo criada na doutrina familiar, e exemplos da Rainha Nossa Senhora vossa Tia, em que tanto florecem as virtudes, que parece acharem nella descansado aposento. Em cuja Casa, que podemos chamar Escola de santa doutrina, V. Alteza foy ensinada nos preceitos da nossa Santa Fè, que inda isto deveis à Divina Clemencia, que alèm de vos fazer filha da Rainha Christianissima, Bisneta delRey D. Fernando, que por excellente Christaõ, mereceo o nome de Catholico, filha de outro Rey, que dos infieis (como pouco hà disse) foy novo Apostolo, e irmaõ delRey Nosso Senhor, maravilhoso reformador da Religiaõ Christãa, isto, como digo, deveis a Deos, que vos deu taõ santa criação, com que pudesses conservar esta inclinaçaõ, herdada de vossos progenitores.

19 O que bem claro se mostra em V. Alteza, pois que seu modo de vida fóra de Religiaõ, pòde ser aos Religiosos espelho, e doutrina de bem viver. É certo eu naõ sey, que mais virtuosos costumes, santas mulheres possaõ ter na Clausura dos Mosteiros, e vida solitaria do hermo, que V. Alteza nos Paços Reaes tem, onde vive em Corte, e ajuntamento de gente. Pois que a continuaçaõ de suas oraçoens, a muita participaçaõ dos Sacramentos da Confissaõ, e Eucharistia, de que tantas vezes por graça Divina se faz participante, manifestaõ ter dentro em seu coraçaõ grandissimo fervor da Fè de Christo. Cousa muito de estimar nos Principes, que como sejaõ huma fonte publica de que seus Vassallos haõ de tirar agoa de bons costumes, e saã dotrina, como a Religiaõ seja aquella, em que consiste toda a nossa bemaventurança, nenhuma virtude parece dar taõ grande ser à pessoa do Principe, como he o zelo, e amor de Deos, em cuja maõ estaõ os estados da terra. O qual no dar da ley, e mandamentos que deu, naõ sómente deste preceito, que avia de ser fundamento de todas vossas obras começou, mas ainda quiz que o homem se entregasse todo a elle, dizendo: Amaràs a Deos de todo teu coraçaõ, de toda tua alma, e de todas tuas forças, como sapientissimo edificador, que para levantar o edificio de nossa alma, em seu amor, mandou que todas as achegas de nossas potencias, e sentidos trouxessemos para sua fortaleza. Porque derribado este principal baluarte, pelas maquinas com que o demonio nos combate, que aproveitaria ter justiça, prudencia, fortaleza, e temperança, ou como efles se poderiaõ chamar virtudes, faltando a do amor de Deos, cunho com que nossa Moeda hade correr diante delle?

20 O que vendo o Bemaventurado S. Joaõ, e considerando a grandeza desta virtude da Caridade, quanto precedia às outras suas companheiras, naõ achou com quem a comparasse, senaõ com Deos, dizendo: Deos he caridade. Porque assim como elle he infinito, assim esta virtude tendo as outras seus termos, hade permanecer com nossa alma sem fim, que a fé, e esperança seus termos, e tempos tem, em que se haõ de acabar, sò a caridade vive, e reina na gloria dos Santos, dando a cada hum os quilates, que com elle mereceo, e sendo esta virtude a todos necessaria, mais o he aos Principes, que tem governança de povo, como nosso Redemptor significou perguntando tres vezes a S. Pedro se o amava, como quem se queria affirmar, no que fingio querer saber para doutrina nossa, cà Deos como penetra o intrinsico de nossos coraçoens, bem sabia que o amava S. Pedro, mas preguntando-lhe a derradeira vez: Pedro amas-me mais que todos? E respondendo o Discipulo: Senhor tu sabes bem que te amo, dando a elle mesmo por testemunha de seu amor: entaõ lhe encomendou a governança de seu povo, dizendo pasta minhas ovelhas; assim o Principe que naõ amar a Deos, mal pòde governar as ovelhas, que delle recebeo para o regimento das quaes se requere Divina sabedoria, cujo principio, como diz o Profeta, he temor de Deos, porque assim como o Pay de familias, que encomendou ao servo a governança de sua fazenda, e familia, pela boa conta que della lhe deu, conheceo o amor que lhe tinha: assim no cuidado, que o Principe tem de seu povo, vè Deos se o ama, e lhe dà o galardaõ, ou pena, conforme ao que merece.

21 Donde vemos estados de Principes desfeitos por se apartarem de Deos, e outros levantados por chegarem a elle. Exemplo pòde ser ElRey Saul, que perdeo seu estado, e vida; e o çurraõ, e cajado de David, levantado em Ceptro Real, o qual dizia: _Mihi autem adhærere Deo bonum esi_. Lemos Constantino ser exalçado por exalçar a Fè, e Juliano por della apostatar, morrer morte desestrada, e deshonrado. Vimos derribada a soberba de Maximo por Theodosio, e a elle por obedecer aos mandados de Ambrosio seu pastor, dar-lhe Deos o espirito profetico de Joanne Anachorita, como oraculo, porque se regesse em seus trabalhos, e fortunas: O os ventos acudirem ao som de suas trombetas, empuxando as batalhas dos inimigos, e peleijarem de sua banda, de que o Poeta Claudiano fez mençaõ nestes versos, e Augustinho tanto celebra.

_Omnium dilecte Deo cui fundit ab antro Aeolus armatas hyemes, cui militat æther, Et conjurati veniunt ad classica venti._

22 E naõ somente vimos o pezo da maõ do Senhor sobre aquelles, que immediatamente foraõ contra a sua honra, e o desconheceraõ por Senhor universal, negando-lhe a adoraçaõ de latria, que como a Deos lhe pertence, dando-a ao demonio, como o fizeraõ os que adoraraõ o bezerro no Deserto em tempo do graõ Profeta Moysès, e os que encurvaraõ seus joelhos diante de Baal, no tempo do Santo Elias, e outros de que faz mençaõ a Escritura, mas ainda aquelles, que com pouca reverencia trataraõ o Culto Divino, ou com descuido, e negligencia se ouveraõ a cerca delle, naõ escaparem de sua ira, como lemos de Oza, que indevidamente tocou a Arca do Testamento; de Nabab, e de Abiud, que ofereceraõ fogo alheyo; de Dataõ, e Abiraõ, que rebelaraõ contra Moysès; e do outro, que apanhou a lenha no dia do Sabbado; de Ananias, e Saphira sua mulher, que defraudaraõ do preço do agro, mentindo ao Espirito Santo, e de outros muitos, assim Principes, como pessoas particulares, de que està cheya a Escritura Divina. Em fim o cativeiro de Babilonia, e desterro universal de todo o judaismo, com a destruiçaõ do Templo, e daquella Cidade Real, senhora das gentes, que foy senaõ castigo do apartamento de Deos, e da morte de seu filho, que vindo para as ovelhas perdidas da casa de Israel o puzeraõ na Cruz em galardaõ de suas obras?

23 E naõ somente entre os Judeos, a quem se Deos naquelle tempo quiz communicar com preceitos familiares, do modo com que o aviaõ de servir, mas ainda entre os Gentios, como Egypcios, Asirios, Medos, Persas, Gregos, e Romanos, e entre todos aquelles, que tiveraõ Monarquias, em todas suas historias, quasi naõ lemos outra cousa, senaõ em quanta estima era entre elles tida a Religiaõ, de que Valerio Maximo escreve tantos exemplos. E aquelles, que mais a guardaraõ, e veneraraõ, posto que fosse sem a fè, que ao presente temos, foraõ por isso, e por suas virtudes, com que ajudaraõ a Patria, mais favorecidos no estado, e fortuna do Mundo. Como Alexandre, que entrando em Hierusalem adorou o nome de Deos, que o Sacerdote mayor trazia na testa; e como diz Agostinho: _Receperunt mercedem suam_, por ainda a sombra da virtude naõ ficar sem galardaõ. Por onde podemos crer que a Religiaõ, que entre estes se guardava, ainda que era contra seu louvor, pois louvavaõ a criatura, naõ conhecendo ao criador, fosse exemplo a nòs da estima, em que devemos ter a nossa, porque quando nos falecesse caridade, e amor de Deos, tivesse exemplo de gente condennada, com que nos castigasse da muita negligencia, e observancia da Religiaõ, como elle dizia aos Judeos: conheceo o boy seu dono, e as bestas a casa de seu senhor, e Israel naõ me conheceo.

24 Pois graças ao Eterno, e Omnipotente Deos, que taõ boas raizes como he este fundamento de seu amor, e observancia da Religiaõ criou em Vossa Alteza, que naõ pòdem deixar de produzir, senaõ ramos maravilhosos, de santos exercicios, e virtuosos costumes, como se vem, que o tempo que lhe sobeja dos Divinos Officios, e Oraçoens, gasta no estudo das letras, a que tanto se dà, naõ avendo respeito à sua criaçaõ, que por nascer de taõ alto lugar foy mais apartada dos trabalhos corporaes, e das necessidades, e mingoas com que a outra gente se cria, decorando aquelles primeiros, e emfadonhos rudimentos da Gramatica, que a força da palmatoria aos outros engenhos ensina, com que alcançou inteiro conhecimento da lingua latina, para daqui chegar ao fim de sua tençaõ, que he o estudo da Sagrada Escritura. Seguindo a doutrina do bemaventurado S. Hieronymo, que dizia a Paula, e outras mulheres santas, que lessem muitas vezes a Divina Escritura, e nunca soltassem da maõ os volumes sagrados. Movida taõ sòmente por huma inclinaçaõ virtuosa, afastada dos particulares interesses com que muitos usaõ das letras ao modo de jornaleiros, como de qualquer rustico instrumento, com que semeaõ o paõ, e cavaõ a terra, estudando para comer, e naõ para saber, e como o fim seja este, taes saõ os principios, como os quaes se contentaõ em qualquer sciencia, que aprendaõ.

25 E quanto mais cobiçosas saõ letras deste tempo, tanto mayor louvor he o de V. Alteza, pois a causa final de as querer entender naõ he falta de honra, nem de outra cousa, senaõ hum santo desejo de saber. De que todos seus vassallos devemos dar muitas graças à Divina Bondade, que por sua misericordia nos chegou a tempo, que tivessemos tal Princesa por Senhora, qual o divino Plataõ desejava, que dizia, bemaventurada serà a Republica, em que os Principes filosofassem, ou os Filosofos governassem.

26 No que se conhece claramente quam alto engenho, quam altos, e verdadeiramente reaes espiritos saõ os de Vossa alteza, que quer preceder às outras mulheres naquella parte em que os homens precedem aos outros. Naõ se contentando de lhe fazer tanta ventagem nos bens, que teve de seu alto nascimento, cà nasceo Princesa, nasceo filha de Rey, e levantada em estado, e pureza de sangue sobre muitas. Mas como isto se deve à natureza, quiz Vossa Alteza, que lhe devessem a sabedoria, ganhada por sua industria, e trabalho, que he a melhor cousa, que nesta vida os humanos pòdem ter, com a qual muitos ganharaõ estado, e outros por falta della os perderaõ, como poderiamos ver por exemplos, senaõ fosse contar historias, de que Vossa Alteza tanto conhecimento tem, e sòmente bastarà dizer como muitos Cesares ganharaõ, o que Sardanopalos, Tarquinios, e Dionysios perderaõ.

27 Fazenda he a sabedoria izenta da jurdiçaõ da fortuna, a qual, como diz Seneca, naõ toma, senaõ o que dà, o fogo gasta o ferro, o mar alaga Cidades, terremotos as derrubaõ, rayos espantaõ o Mundo, armas o senhoreaõ, sò o saber de homem he livre destes perigos, porque nem o tempo, que o mesmo Seneca chama sepultura de todas as cousas, o gasta, ou a morte o senhorea, que com elle mediante a graça Divina fazemos o caminho para a gloria, que esperamos. E assim dizia Byas Prienense fugindo da Patria, que deixava tomada dos inimigos, naõ levando mais que sua pessoa, e hum bordaõ, que tudo levava consigo. E se quizermos particularmente considerar as cousas, qual averà, que sem letras divinas, ou humanas se possa fazer? Como navegariamos as terras ignotas, que comercio, que noticia huma gente afastada por tantos intervallos de mar, e terra, teria das outras, sem a sciencia da Astronomia? Que communicaçaõ, ou que prestança das mercadorias averia sem navegaçaõ? Como se edificariaõ Navios, Casas, Templos, e Fortalezas com suas maquinas, taõ necessarias à vida, e policîa dos homens sem arquitetura? Como se governariaõ as Cidades, Reynos, e Respublicas, sem Filosofia moral? Como sem a natural se exercitaria o uso da agricultura taõ necessaria a mentença dos homens? E decendo ao particular das artes mecanicas, como nos aproveitariamos dellas, senaõ fosse por meyo das Mathematicas? Como tiveramos a musica pratica sem a especulativa? Com tanta diversidade de estromentos, taõ necessarios, assim à Religiaõ, e Culto Divino, como para a guerra, e deleitaçaõ da vida? Que remedio para nossas infermidades, com que os corpos humanos por taõ diversas vias saõ offendidos, senaõ fora a medicina? Pois vindo ao espiritual, que fora de nossas almas sem a Divina Sciencia, que nos ensina o caminho, que avemos de seguir para a salvaçaõ dessas, remate de nossa bemaventurança? Em fim, porque meyo os homens communicariaõ essas sciencias com os prezentes, e futuros, sem letras? Certamente que examinando bem isto, parecem indignos da potencia intelectual, que he imagem, e semelhança de Deos com que fomos criados, os que desprezaraõ o verdadeiro ornamento, e atabio dalma, que he a sabedoria. A qual, como diz Nazianzeno, he Princesa, e inventora de todas as cousas, e em si as comprehende: do nome da qual se quiz Deos intitular, chamando-se Sapiencia do Padre; e quam necessaria ella seja nos Principes, Salamaõ o diz: por mim reinão os Reys, e os Principes senhoreão.

28 E para mais verificarmos isto faremos huma parabola imitando aquelle, que para todos se fez unico exemplar. Finjamos hum Rey tão zeloso da paz, e liança de todos os brutos animaes, que mandasse ajuntar quantos ahi ha diferentes em genero, e especie, para que metidos em hum curral juntos, os entregasse a hum pastor, de que tivesse experiencia, e confiança, que os trouxesse a tal concordia, que o Leão não comesse o Lobo, nem o Lobo ao Carneiro, o Galgo naõ filhasse a Lebre, nem o Açor a Perdiz, de tal modo, que esquecidos de sua braveza natural uzassem de toda a brandura, e mansidaõ; e que Pastor averia por muito atrevido que fosse, que naõ dissesse o que Moysès dizia a Deos: Senhor manda quem as demandar, por o tal cargo requerer, naõ digo hum grande e consumado saber humano, mas ainda a hum Divino inspirado por graça? Pois o Rey, que isto quiz fazer foy Deos Eterno, que ordenou na terra o governo dos Reys, e Principes, ficando-lhe na mão o coraçaõ delles, como quem sabia que tamanho officio, sem sua ajuda muy particular senaõ podia bem administrar. E os animaes, que tanto lhe encomendou saõ os homens, que deixando o caminho da rasaõ seguiraõ o dos brutos. Cà, segundo Paulo: _Justis non est lex posita_. Donde nasceo a meu juizo fingirem alguns Filosofos, entre os quaes foy Plataõ, que as almas dos homens se trespassavaõ em corpos de diversas bestas, similhaveis aos costumes, que tiveraõ o dos Tyranos, e Principes em Lobos, Falcoens, e Milhanos, e os dados aos vicios da gula, e perguiça em asnos, introduzindo daquelle Herpamphilio, que disse ter visto a alma de Orpheo metida em hum Cisne, e de Aiax em hum leaõ, e a de Agamenon em Aguia, e em hum bugio a de Tersires Homerico, querendo significar, que nenhuma differença tem de brutos, os que vivem como brutos, e que a semelhança dos costumes lha faz igual a natureza; E dizerem as fabulas, que Acteon foy convertido em Corso, naõ he outra cousa senaõ, que pelo muito exercicio, e continuaçaõ da caça se fez agreste, e semelhavel aos animaes com que tratava; e tornando ao proposito, assim como entre estes hà tanta differença quanta vemos, assim nos homens se achaõ ainda mais differentes condiçoens de vida, e costumes, que na diversidade dos brutos. Cà saõ homens, e mulheres, casados, e solteiros, leigos, e Sacerdotes, nobres, e baixos, pobres, e ricos, moços, e velhos, senhor, e vassallos, rusticos, e politicos, discretos, e ignorantes, covardes, e animosos, irosos, e manços. Alèm destes màos, e bons, cobiçosos, roubadores, homicidas, onzeneiros, adulteros, sacrilegos, perjuros, hereges, e blasphemos, como vemos em quantos generos de maldades cabem no coraçaõ humano, a que he inclinado de seu nascimento, que cada cousa destas obra, differentes effeitos, e de huma maneira se ha de tratar o senhor, e de outra o vassallo, de huma o Leigo, de outra o Sacerdote. E como Hipocrates manda aos Medicos, que conheçaõ a idade dos enfermos, o tempo, a Região, e a infirmidade; assim o Principe no corpo mistico da Republica ha de ter tal regimento, que a medicina applicada a hum membro naõ dane o outro, que saõ as leys, a que Plataõ chama verdadeiro mantimento do povo: como fazia Paulo na Prègaçaõ do Evangelho, que aos fracos na Fè dava leite, e aos criados nella paõ com codea.

29 Pois que animal mais indomito, e fero pòde ser, que o homem injusto? Quantos males, e danos, quantas destruiçoens de povos, perdas de Reynos, e de almas nascem dos homens? A que o exemplo do castigo alheyo naõ aproveita para emenda propria; quantos cutellos ensangoentados, quantas execuçoens de justiça criminal vem cada dia ante seus olhos, os que sem temor destas penas cõmetem crimes dignos de morte? Podendo nelles mais a malicia, que o temor; pois qual saber humano poderà governar taõ differentes vontades, e trazellas a huma mesma concordia das leys?

30 Pelo mesmo modo contaõ os antigos, que foy hum certo tempo, em que os homens viviaõ nos campos, e sustentavaõ a vida, como bestas feras, fazendo as cousas mais por obra das mãos, que por arte, nem razaõ, carecendo da Religiaõ, sem casamento, nem amor de filhos, por os naõ terem certos, sem conhecimento de leys, de tal modo, que com esta ignorancia, e error andava a concupiscencia cega, senhora da razaõ, usando de forças corporaes, como de gente armada para satisfaçaõ de seus appetites. No qual tempo se levantou hum homem sabedor, e vendo quanta efficacia, e proveito para muitas cousas jazia escondida no animo dos homens, se pudesse trazer à luz, e acrescentar com doutrina; andando huns espalhados pelos campos, jazendo outros metidos em covas sylvestres, os ajuntou em hum lugar, e lhes ensinou o caminho, que haviaõ de seguir, acerca do que tocava ao prol commum de todos. Os quaes posto que no principio fossem màos de ajuntar, toda via pouco, e pouco, de feros, e salvaticos que eraõ, os fez domesticos, e racionaes.