Noticias de Portugal

Part 38

Chapter 383,997 wordsPublic domain

No conselho de cousas mais importantes recebeo sempre o parecer da Rainha Dona Catharina sua mulher, e dos Infantes seus Irmaõs, ajuntando com elles alguns Grandes do Reyno de muita prudencia, e inteireza, de quem podia fiar a deliberação de qualquer negocio por importante que fosse, deixando sempre lugar aberto a outras pessoas de meam fortuna, que tinhaõ noticia de negocios, em que avia duvida, mas naõ se obrigava nunca a seguir o parecer alheyo, ainda que nelle fosse vencido, no que a parecer de alguns acertava menos, porque os Reys quando naõ tem revelaçoens divinas, que os guiem, saõ obrigados aver seu conselho por sospeito, e fiaremse dos homens, que votaõ mais livres, e naõ espreitaõ seu gosto: assim como lhe estranharaõ alguns meter no conselho a Rainha com novo exemplo para os outros Principes, que naõ costumaõ fiar tanto da condiçaõ das mulheres, que ainda que muy avisadas, e virtuosas, saõ sempre mulheres. E porque em seu tempo começarão encarecer os mantimentos com a esterilidade do paõ, desejou muito acudir às necessidades do Povo, dando ordem para prover de fóra o Reyno, por industria dos Mercadores, que se obrigavaõ sómente a fazer seu proveito, favorecidos delRey, mas com muito descuido, e pouca vigia dos Officiaes, a que este cuidado se encomendava, porque a falta da execuçaõ, e brandura das penas desordenava a provisaõ das leys, pela qual razaõ se ouveraõ por escusas as taixas, conjurando todos os Mercadores em Monopolios particulares, e o povo com os Officiaes do governo em sua propria desordem, e vida desacomodada: em tanto naõ deixava ElRey de mandar prover os campos do Tejo, e do Mondego com vallos, maranhoens, e outros beneficios, que refreavaõ as cheyas, e impeto daquelles rios, naõ somente por culpa da natureza, mas dos Lavradores do Reyno, que semeavaõ terras dependuradas sobre as ribeiras, e a troco de pouco fruito corriaõ, e areavaõ os campos, entupiaõ as barras, e ficando rochas nuas, perdiase muito pasto de gado, e se os Ministros do Reyno acodiraõ nas Cortes a huma perda tamanha, por ventura naõ se alagaraõ os campos, e sobejàra o pasto do gado. Algumas obras publicas começadas por mandado delRey D. Manoel fez acabar em seu tempo, como foy o Templo de Nossa Senhora de Bethlem, com o Mosteiro dos Padres Hieronymos, fundado por ElRey seu Pay, pela ordenança moderna, que aquelles tempos sofriaõ, acabado por ElRey D. Joaõ com igual magnificencia, e despeza, e mayor fermosura, qual se mostra na fórma dos Edificios Romanos. Restituio o Cano da agoa de prata de Evora, aqueducto antigo de Sertorio, que o tempo em muitas partes tinha gastado, a cuja conservaçaçaõ applicou renda publica, que bastava para suprir o reparo: o mesmo fez no Cano de Elvas, ainda que naõ foy possivel acaballo por alguns estrovos, que se offereceraõ, em quanto a obra corria. Do mesmo Rey he aquelle Edificio illustre, que fica sobre o Mar em Lisboa, onde de huma parte se recolhe o pão, que vem de fóra por mar, e por terra, e da outra todas as mercadorias, que devem à Coroa direitos; edificou na mesma Cidade o Almazem, onde se guardaõ todas as armas, e moniçoens do Reyno, assim para bastimento das Fortalezas de fóra, obra magnifica, e digna de sua grandeza. Edificou na mesma Cidade com suas esmolas os Templos offerecidos a Nossa Senhora da Graça, a S. Francisco, a S. Roque, começados em sua vida com a mesma Magestade, com que depois se acabaraõ: fóra dos muros repairou o Mosteiro de Santa Clara, e em todo o Reyno, naõ ouve lugar em que naõ deixasse pègadas de sua devação; porque no Mosteiro de Alcobaça, no de Santa Cruz de Coimbra, no Convento da Ordem de Christo em Tomar, fez tantas despezas com obras novas, que passarão àvante de todas, as que os Reys seus avòs ordenaraõ, não perdoando a despeza alguma, e favorecendo os Ministros, de que confiou o cuidado dellas. Em Africa, e na India naõ ouve lugar, que ou naõ fortificasse de novo, ou naõ reformasse os Edificios antigos, como fez tambem nos lugares maritimos deste Reyno, e alguns Castellos da Raya, de sorte, que com grande beneficio do Reyno gastou huma parte de suas rendas na fortificaçaõ de seu Estado, ornamento dos lugares sagrados, e remedio de muitos pobres, que tinhaõ por melhor servir nestas obras, que povoarem forças, onde mereciaõ estar os ociosos com outra sorte de gente, que vive sómente da industria, e do engano alheyo. Naõ sómente nesta magnificencia mostrou a grandeza de seu espirito, mas no sofrimento, a que sacrificou seu coração, vendo quasi cada anno hum irmaõ, e hum filho morto, sem lhe ficarem de tantos, salvo dous netos, o Principe D. Sebastiaõ, que lhe soccedeo no Reyno, e da Princesa Dona Maria, Carlos herdeiro de Castella, sem nunca lhe enxergarem fraqueza em tanta magoa, como a perda destes Principes naturalmente lhe avia de fazer, antes abraçado com Christo fazia ley da vontade Divina; àlem de tantas virtudes, como mostrou na paz, naõ lhe faltou conselho na guerra, e tanta prudencia para governar em seu tempo com muita honra sua; quanto pareceo mais impossivel fazella longe dos olhos, nas mais afastadas terras do Mundo: quando começou a reynar fez com diligencia huma escolla de seus naturaes, que podiaõ adestrarse nas armas, e repartidos em companhias, de que avia Coroneis em cada Comarca do Reyno, Capitaens, e Sargentos, e outros Offciaes da Milicia particulares em cada bandeira, proveo com muito cuidado esta gente, sem queixume do povo, e ensinada nos dias de festa, que dantes gastavaõ em jogos, e passatempos de pouca honra, e proveito, obedecer a seus Capitaens a todo o exercicio das armas, levando o medo perdido ao estrondo da Artelharia, quando se offerecesse necessidade de alguma batalha, e assim com pouca despeza de sua fazenda, e algum favor devida à virtude, criava na destreza da guerra homens de bem, que depois se assinalavaõ nas armas, assim em suas navegaçoens, como na guerra de Africa, e da India, com o mesmo conselho privilegiou os Escudeiros de boa linhagem, huns filhando-os por Cavalleiros de sua casa, outros por confirmaçaõ de Cavallaria, merecida na guerra, costumados em seu tempo nas Cidades, e Villas principaes do Reyno, escaramuçar, e jugar as canas, e outras boas manhas por naõ faltar occupaçaõ honesta a toda a sorte de vassallos seus, a fazenda dos quaes sendo taõ delgada, como cada hum em sua casa vè, poderia dar vida aos Portugueses, tendo a navegaçaõ livre dos Cossarios, o que em seu tempo se fez com diligencia, e cuidado, posto que os Franceses costumados a viver de roubo, ouvessem os Castelhanos, e Portugueses por huma mesma naçaõ, e naõ perdoassem a huns, nem a outros, quando lhe cahiaõ na maõ, e à sombra de fazerem guerra aos Castelhanos, tomassem nossos Navios desarmados, e outros que às vezes se defendiaõ valerosamente com igual perda, mas ElRey D. Joaõ com armadas ordinarias encomendadas a Capitaens esforçados, e outros officios, que fazia por seus Embaixadores em França, reparava aquella força dos Cossarios com grande prudencia, tendo este conselho por mais acertado, que seguir huma parte dos bandos, entre Carlos V. e Francisco, onde se aventurava mais, e segurava menos a navegaçaõ de que seus vassallos viviaõ. As Fronteiras de Africa, que seu Pay, e Avòs tinhaõ ganhadas aos Mouros, huns com tençaõ de criarem os Portugueses na guerra, e naõ enfraquecerem no repouso da paz, outros por lhe ficarem portos abertos para a Conquista de Berberia, fortificou de novo a mayor parte dellas, sustentadas com grandes despezas, governadas por Capitaens escolhidos, provendo com muito cuidado, naõ lhes faltassem mantimentos, e moniçaõ para soster qualquer cerco, nem Navios nos portos para lhe acodir com socorro, só a fortaleza de S. Cruz no cabo de Guè (de que era Capitaõ D. Guterre de Monroi filho do Comendador Mòr d’Alcantara) cercada dos Xarifes, quando começaraõ conquistar Berberia, e traziaõ apoz si com o zelo da sua Religiaõ falsa a mayor parte dos Alarves de Africa, posto que socorrida das Ilhas, começou o inverno a crescer, e os Mouros apertaraõ o cerco, de sorte que lhe faltou o socorro de Portugal pela injuria do tempo, e os moradores desesperados delle naõ poderaõ soster os inimigos, morrendo alguns valerosamente, e outros entregues aos Mouros perderaõ aquelle lugar com quebra de algumas particulares, como foy o Capitaõ D. Guterre, mas pouca culpa da gente de guerra que fez quanto pode por naõ se entregar viva aos vencedores. Em lugar desta força ordenou ElRey D. Joaõ fortificar Masagaõ na mesma Costa de Africa, o que fez com muita despeza, e conselho de grandes Capitaens, e em parte compensou a perda do cabo de Guee com muitas victorias, que os Portugueses depois houveraõ.

Aquelles presidios de gente, que ElRey D.Manoel seu Pay, e os outros Reys seus Avòs com conselho de guerra, que aquelles tempos sofriaõ, tinhaõ repartidos pelos lugares de África sem diferença do sitio, e commodidade dos portos, acordou por parecer do Emperador Carlos V. recolher em menos fortaleza, com muito melhor conselho do que antes do seu tempo se sustentavaõ, assim porque poucas forças juntas ficavaõ mais poderosas para se defender, e os sitios escolhidos à vontade delRey mais acomodados para socorro do Reyno. Ao mesmo Emperador Carlos V. ajudou com huma armada poderosa na jornada de Tunes dissimulando como o Infante D. Luiz seu irmão, que se achou nella com muitos Fidalgos principaes, sem pedir licença a ElRey como quem sabia delle, que nisto lhe fazia serviço. Aquella armada de Solimano Emperador dos Turcos enviada pelo Estreito de Mequa, com grande esperança de lançar os Portugueses da India, desbaratou duas vezes em Dio, metendo no fundo a mòr parte della, e recobrando as moniçoens, e artelharia, perdida em tempo do Governador Nuno da Cunha, sendo Capitão em Dio Antonio da Sylveira, e depois disso, governando D. Joaõ de Castro, e sendo Capitão desta fortaleza D. Joaõ Mascarenhas, foy roto outro campo delRey deCambaya, onde se achou Cojeçofar, lançado de Europa naquellas partes com muitos Turcos desejosos de refazer a perda de Solimano, e lançar os Portugueses da India. Em seu tempo repartio o Estado da Santa Cruz, chamado vulgarmente Brasil, que Pedro Alvares Cabral levado da força dos ventos descobrio nas primeiras prayas do Mundo novo. E para se a povoaçaõ fazer com mais facilidade, e menor despeza da Fazenda Real, repartio aquella Provincia em differentes Capitanîas, e governaçoens, na forma, que os Reys primeiros fizeraõ povoar as Ilhas achadas no mar Oceano, que em poucos tempos cresceraõ com seu favor prosperas, e ricas, onde erigio Igreja Cathedral, e enviou Governador supremo para amparar em igualdade de justiça os que a naõ podiaõ alcançar dos mais poderosos, com que amansou os Gentios daquella Costa, e outros, que se escondiaõ pelo sertaõ, repartidos em suas Cabildas, sem mais contra policia, ley, ou costume, que a vontade propria: muita parte dos quaes trouxeraõ à noticia da nossa Fè Catholica os Religiosos da Companhia à instancia delRey D. Joaõ. Neste Reyno fortificou no Algarve a Villa de Lagos, offerecida aos roubos, e assaltos continuos dos Cossarios, que em seu tempo infestavaõ o mar: começou tambem a fortaleza de S. Giaõ na boca do Tejo, com o mesmo conselho, e finalmente na paz, e na guerra foy hum Principe raro, nascido para beneficio dos homens, e amparo dos pobres, e estrangeiros; verdadeiro conservador do Culto Divino, e piedade Christãa. Foy de estatura meã, muy bem assombrado nos olhos, com muita graça na boca, brando nas palavras, de bom acolhimento aos pequenos, temido dos Grandes, de grande juizo na escolha dos homens bem inclinados, porque estes lhe foraõ muito mais aceitos, que os grandes engenhos, como foy o Cardeal D. Miguel da Sylva, D. Joaõ Manoel, Luiz da Sylva, e outros, que afastou de si por terem sobeja noticia do mundo, e pouca da que convinha para tratar com o seu Principe. Adoecia poucas vezes, e nunca de doença perigosa, atè o anno de cincoenta, que o começou tomar hum sonno amadornado no meyo dos negocios, doença criada de longe por falta do exercicio, e lisonjarîa dos Medicos, que lhe naõ preveraõ o perigo desta doença, de que veyo a fallecer no mesmo dia em que se lançou na cama, alguns diziaõ, que sem testamento, nem declaração de Governador do Reyno, e tutoria delRey seu Neto. Outros affirmaõ, que Pedro de Alcaçova, que entaõ servia de Escrivaõ da Puridade, e Gaspar de Carvalho Chanceler Mór deraõ sua fé na primeira Junta, que se fez depois de sua morte, que a vontade delRey era nomear para este cuidado do Reyno, e tutoria do Principe a Rainha Dona Catharina d’Austria sua mulher por algumas razoens, que a mòr parte do Reyno approvou, principalmente o Cardeal Infante D.Henrique, a quem esta eleição delRey parecia devida, assim por sua virtude, e inteireza muy conhecida, como por direito das gentes, e costume de Hespanha, que costuma dar este cuidado aos Principes do sangue mais chegado, primeiro que as femeas: falleceo finalmente depois dos Sacramentos da Igreja recebidos com devaçaõ, e havendo trinta e seis annos, que reynava, tendo cincoenta e cinco de sua idade, a onze dias de Junho, no anno do Senhor de mil e quinhentos, e cincoenta e sete.

PANEGYRICO

À MUY ALTA,

E ESCLARECIDA PRINCESA INFANTA

D. MARIA

NOSSA SENHORA.

POR

JOAÕ DE BARROS

1 Commum sentença dos Filosofos he visto por experiencia (Illustrissima Princesa nossa Senhora) o demasiado prazer causar nos coraçoens dos homens muy grandes alteraçoens, que naõ podendo o espirito suster em si o alvoroso, que dentro concebe, parece que abafaria, senaõ o communicasse, manifestando a todos a novidade do que em si sente. De que vem algumas vezes, que os homens esquecidos de si mesmos, sahem fóra dos limites, que a gravidade de seus officios poz em suas pessoas, como lemos delRey David, vencido do prazer, que tinha de levar a Arca do Testamento para sua casa, hia diante della dançando, e fazendo taõ desordenados movimentos com o corpo, que sua mulher Michol teve paixaõ, parecendo-lhe, que naõ guardava o decoro, que se devia à Dignidade Real com aquelles saltos, que via fazer a seu marido, de huma parte para outra.

2 E naõ sómente vemos causar o prazer estas operaçoens nos actos corporaes, mas ainda nas fazendas, taõ estimadas dos homens, que por ellas perdem as vidas, e aventuraõ as almas. Cà huns em alvisaras, outros em festas, que cada hum faz como pòde, gastaõ muitas vezes em hum dia o que ganhaõ em muitos. Alguns em vez de rir, choraõ com prazer, e de muitos lemos, a que o sobejo, causou morte subita, naõ podendo com a força delle suster a vida.

3 De todos estes movimentos, que asima disse (muito alta, e excellente Princesa) mayor foy o meu, que com o prazer, que ao presente tenho, ou temos todos seus Vassallos em ElRey nos dar a vòs por Senhora, fiquey como quem de grave enfermidade se levanta com grande detrimento, taõ ignorante, ou taõ ousado, que me pareceo poder louvar a V. Alteza, que he o mayor aballo, que no coraçaõ de hum homem muito contente se podia fazer. Que gastar minha fazenda em celebrar cousa taõ grande, manifesto he, que fora pouco, e muito menos morrer, pois a morte de huma pessoa taõ baixa naõ podia manifestar prazer taõ alto.

4 Mas querer encher de papeis de seus louvores, he dar a entender, que em alguns se podiaõ elles comprehender. Cà certo considerando a grandeza de seu estado, e a baixa qualidade de minha pessoa, o alto cume da suas virtudes, e a fraqueza de meu engenho, a gloria de sua fama, e a pouca noticia da minha, naõ he outra cousa querer louvar a V. Alteza, senaõ cuidar, que sómente com estender as mãos aos que estaõ da outra banda de taõ largo rio o posso passar a meu salvo como pelos penitentes das ribeiras stygias dizia o Poeta Virgilio:

_Tendebantque manus ripæ ulterioris amore._

Que estes enganos, e falsas imaginaçoens, às vezes causa, ou o grande desejo de haver huma causa, ou o gosto de a ter alcançada, que faz estimar as outras pouco. Donde vem que as grandes victorias, que alguns Capitaens houveraõ, foraõ causa de sua destruiçaõ, esquecidos com o vencimento presente, do futuro provimento, e forças de seus inimigos. Assim eu transportado no alvoroso deste prazer, e esquecido de taõ alta impreza, como he a que tomey, naõ se deve haver por muito ficar vencido della; como aquelle, que com falsas azas de cera se meteo no fogo de suas penas, e querendo tomar o Ceo com a mão, cahio no mar de sua ignorancia.

5 Mas jà que nisto heide satisfazer ao desejo, jà posto de huma parte, fique vencido meu engenho, ao menos da outra enganarey por hum breve espaço a vontade, atè que a experiencia me mostre, o que ensina aos enfermos, que tanto trabalhaõ por apagar com agoa o ardor da febre, tanto mais aumenta as chamas do fogo, que os queima, e parecendo-lhe que satisfazem a seus desejos, com isto os acrescentaõ mais. E pelo mesmo modo, querendo eu mostrar a razaõ, que todos seus vassallos temos de ser o dia de hoje muito contentes, quanto mais quizer subir ao cume de seus merecimentos, tanto me acharey mais afastado de os poder entender. E desta mingoa hum louvor me fica em naõ dizer os de V. Alteza, que naõ serey avido por lisongeiro dos que virem que minhas palavras naõ chegaõ ao verdadeiro louvor de suas cousas. Nem recearey o que dizia Horacio a Marco Agrippa nestes versos.

_Imbellisque Lyræ Musa potens vetat Laudes egregii Cæsaris, & tuas Culpa deterrere ingenii._

Dando-lhe a entender, que louvando mais a elle, e a Cesar seu sogro desfazia em seus louvores com falta de seu engenho. Porque a pureza, e a claridade dos de V. Alteza, he taõ excellente, que se lhe não pòde pegar a ferrugem de minhas palavras, mas estaraõ tão limpos entre ellas, como a luz do Sol, anda livre, e izenta dos pestiferos, e baixos vapores, que a claridade desfaz, sem deste ajuntamento ficar mascavada sua perfeição. Ou como o ouro, que lançado nos corruptos humores da terra fica taõ puro em seus quilates, que nenhum perde de quantos tinha.

6. Álèm disto alguma ousadia me dà ser o genero desta causa de sua natureza tal, que poderey escusar, o que costumavaõ os antigos, aquelles que floreceraõ na Arte da Eloquencia, que exercitavaõ o estillo em louvor de cousas, que naturalmente careciaõ delle. Ao modo do bom Lavrador, que a terra, a quem os beneficios da natureza fizeraõ escaça, faz elle com os da agricultura, tirando com seu industrioso artificio da esterilidade, proveito, e fruito, donde o naõ avia.

7 Nem tenho necessidade dos aguilhoens, que Pericles Atheniense deixava pregados nos coraçoens dos ouvintes, com que forçosamente os levava ao desejado fim de suas palavras. Nem tanta efficacia nas minhas, quanta tinha Thimoteo na musica, que com as cordas de sua viola levantava a colera ao grande Alexandre, ou lha abaixava, produzindo em seu coração tão diversos movimentos, como saõ paz, e guerra.

8 E assim posso escusar neste exordio o captar benevolencia, e outras insinuaçoens do artificioso Orador das cousas asperas, as orelhas dos ouvintes, como era o louvor dos Tirannos, e o da febre, e da mosca, e da calva, que alguns antigos louvarão, e em nossos dias, o da Sandice. As quaes cousas sendo em si muy estreitas, para nellas hum Orador se poder esprayar com suas palavras, com ellas lhe fizeraõ aquelles doutos Baroens, taõ largos campos, que sem nenhum impedimento se puderaõ com louvores por elles estender, porque a verdade naõ ha mister pincel de Apelles, para acrescentar em sua fermosura, cà nua sem mais outro algum trajo està ella no verdadeiro primor de sua bondade. E como dizia hum sabedor a ElRey Dario: todas as cousas vence a verdade. A qual sem os sylogismos de Fabio, e sem as palavras empoladas de Demosthenes, ou Tullio estende suas raizes nos frios coraçoens da gentilidade. Assim que dado que me faltem as flores da Eloquencia, ellas duraõ tam pouco, que por derradeiro ficaõ pizadas, quando se colhe o fruito da verdade.

9 Diz Marco Tullio, que os brutos naõ se movem, senaõ para as cousas, que diante lhe saõ presentes, sentindo pouco as passadas, e futuras, e que os homens, como participem da razaõ, entendendo os effeitos, que de outros se seguem, e vendo os principios, e causas, comparaõ as semelhanças das cousas, cotejando as passadas com as presentes, com que facilmente alcançaõ o custo de toda a vida. Pois vendo o que V. Alteza atèaqui tem feito na sua, quasi vou entendendo, o que della pòde ser ao diante. E porque este discurso que tenho feito, me vay descubrindo grandes cousas, cresceme cada vez tanto a admiraçaõ dellas, que naõ pude deixar de a pòr em tinta, e papel, pois com torvaçaõ, e alvoroço, o naõ posso fazer com a lingoa. Porque naõ he de crer, dando-lhe a Divina Providencia, tantos, e taõ excellentes dotes, que fosse para lhe negar o summo, e mayor de todos.

10 He certo que nos bens da fortuna que os Filosofos chamaõ exteriores commummente, V. Alteza, os tem taõ perfeitos, que alguns de que os antigos se espantaraõ, diante dos seus perdem toda sua admiraçaõ. Là Plinio entre os milagres da Bemaventurança humana, conta de huma Rainha, que foy filha, mulher, e mãy de Rey, avendo por muito estas qualidades juntas em huma pessoa. A qual bem creyo, que de seus avoengos não tivesse a nobreza, e real limpeza de sangue, que V. Alteza tem de todas as partes, de taõ altos, e tão esclarecidos Reys, de que a Christianissima Rainha de França vossa mãy, vem descendendo. Em a qual, e em outras muitas Rainhas de vossa genealogia resplandece melhor esta gloria de bemaventurança, que Plinio achou na outra, de que faz mençaõ. Que naõ somente he filha de hum tão glorioso Principe, como foy ElRey D. Filippe vosso Avò, e mulher de outro, tão poderoso, e Christianissimo, como ao presente he ElRey de França, mas para melhor remate a fez Deos mãy de Vossa Alteza.

11 Pois vindo a ElRey de gloriosa memoria vosso Pay, de quem tendes o sangue dos poderosos, e Catholicos Reys de Portugal, taõ antigos, que olhando para traz, nos cansaria a memoria, naõ achando termo, onde descansasse, de cujos louvores, e vitorias taõ cheyo he o Mundo; acharemos que do principio, e fundamento destes Reynos, sempre tendes Reys vossos Avòs; e ainda nestes naõ tem nascimento seu sangue, que para chegarmos a esta fonte, avemos de revolver a antiguidade, e nobreza dos Reys de Ungria, de Castella, e de Aragaõ, de Leaõ, e de Navarra, e os triumfos da guerreira gente dos Godos, juntamente com os Reynos de Inglaterra, Boemia, França, e do sacro Imperio de Alemanha, em que de todos tendes parte; e naõ passarey por o que dizia o Emperador Maximiliano vosso Vizavò, que muitas vezes se louvava ter mais limpo sangue, que todos os outros Principes. Porque naõ o tendo de menos valia que elles, tinha mais hum quilate, que fora criado aos peitos da Emperatris Dona Leanor vossa Tresavò.

12 Pois quem foy ElRey vosso Pay? Por ventura hum Phalaris, ou Dionysio Siracusano? Certo naõ, mas aquelle em cujo coração ferveo sempre tal zelo da Fè, que com muito gasto de sua fazenda, mortes de seus naturaes, trabalhos de sua vida, e cuidados de seu espirito, fez adorar o precioso Sangue de Christo, onde o dos brutos animaes se sacrificava. E isto taõ longe de seus Reynos, e Senhorios, quam perto elle estava da gloria, que por isso mereceo. Despregando bandeiras, tomando Cidades, sugeitando Reynos, onde nunca o vitorioso Alexandre, e grande Hercules, de cujas façanhas se espantaraõ os antigos, puderaõ chegar. Achando novas Estrellas, navegando mares naõ conhecidos, descubrindo a ignorancia dos Filosofos antigos, que o Mundo tinha por mestres de verdades occultas.