Part 36
Todo este louvor he seu proprio, e por isso tanto mais digno de ser neste lugar louvado, quanto mais a elle só he devido, porque tirando algumas cousas que necessariamente requere a dignidade Real para sua conservaçaõ, em tudo o mais se ha para seus vassallos com tanta moderaçaõ, que mais parece Pay de todos, que Rey, e Senhor. Oh quam grande força he a da virtude! Quanto mais temperado he V. Alteza, tanto de nòs he mais venerado, e quanto mais obedece à razaõ, tanto mais o alevanta Deos, de maneira que o acatamento, que muitos outros Reys com mostra de muita gente, com pompa de Real Estado, com luzentes Alabardas diante de si naõ pòdem alcançar, elle só com muito comedimento, com muita brandura, e humanidade naõ menos alcança do que merece. Bem està esta tal virtude a hum tal Principe, e tanto melhor lhe està, quanto he mais nova, naõ digo, porque o conhecimento das virtudes naõ seja cousa velha, mas porque a pratica, e uzo dellas, as mais vezes he cousa nova, mas elle naõ se contenta de louvor geral, os seus altos pensamentos dezejaõ merecimentos novos, o seu Real Coraçaõ desprezador de honras demasiadas, e amansador de desejos sem nenhum fim, mais do que Deos manda, alcança mais do que deseja. Naõ leyxarey de pòr aqui as palavras, que Moysès Secretario do muy alto Deos leyxou ditas a seu povo. Se quizerdes em algum tempo ser governados por Rey, olhay que seja vosso natural, e que tenha sempre cuidado da justiça, e que saiba que a sabedoria consiste principalmente em temer a Deos, e em guardar as leys, naõ faça nada sem vontade do Principe dos Sacerdotes, e dos mais anciaõs do Povo, naõ caze com muitas molheres, naõ trabalhe por acquirir muitos thesouros, nem por ter muitos cavallos ajaezados, por quanto se estas causas desejar, e tiver, serà soberbo, e pouco obediente às leys. Esta virtude taõ louvada de Moysès os mais antigos Romaõs, seguidores da ley da natureza, guardaraõ inteiramente, e em quanto a elles guardaraõ, e com ella juntamente amàraõ pobreza, o Imperio Romaõ assi na paz, como na guerra cresceo, e foy por diante. Lucio Quincio Cincinato Capitaõ, e Senador Romão com quatro geiras de terra vivia, e nellas andava lavrando, quando foy chamado para ser Dictador de Roma, que era entaõ a mòr honra, e dignidade que naquella Reepublica se podia dar, e delle se escreve, que fez no seu tempo seu Mestre dos Cavalleiros a hum Curio, ou Lucio Tarquino, que athè entaõ por ser muy pobre servira na guerra a pè, e assi Marco Athilio Regulo Nobre Capitaõ, que como jà em cima disse, foy prezo polos Carthaginenses teve o dezejo taõ curto, e limitado, que sendo em Africa Capitaõ d’hum grande Exercito mandou pedir ao Senado licença para vir a Roma olhar por huma sua Quintãa, que entaõ era maltratada de seus Lavradores: sem duvida quem isto pedia, naõ desejava de enriquecer na guerra, que entaõ pouco lhe lembràra o danno da sua erdade, mòrmente andando em tal parte, e com tal càrrego, donde pudera tirar grandes interesses, mas aquelle fim certo da bondade, que nunca pode exceder às Leys da temperança, foy causa, que assi como Regulo fazia guerra por gloria, e serviço da sua Reepublica, que assi em tamanha Capitanîa senaõ esquecesse de sua pobre fazenda.
He certo para notar a grandeza de coraçaõ dos Cidadaõs Romaõs, os quaes sendo em alguma parte Capitaens, eraõ magnanimos sobre todos os Principes, desbaratavaõ poderosos Reys, e grandes Exercitos em batalhas campaes, e estes mesmos depois, que se tornavaõ à patria, tornavaõ a ser como d’antes Cidadaõs particulares, temperados, contentes de suas pobres fazendas, obedientes aos Officiaes de Roma, e aos mais velhos, quasi de maneira, que parece cousa impossivel, em hum mesmo coraçaõ caber tamanha diversidade de costumes. Durou isto atè o tempo de Paulo Emilio, o qual vencendo a ElRey Perseo de Macedonia, e triumfando delle trouxe a Roma tanto ouro, e prata com que o Povo Romaõ aprendeo a ser cobiçoso, mas Paulo Emilio lembrado dos costumes em que fora criado, se lembrou sómente da victoria, e viveo como dantes pobremente: dahi por diante crescendo a cobiça nos Romaõs chegou a tanto extremo por onde aquella Reepublica, q́ o que com temperança se ganhàra, se veyo a perder com seu contrario, e como diz hum Poeta a cobiça, e desordem dos Romaõs destruio Roma, e deu della vingança ao mundo; mas V. Alteza naõ somente no que toca à dignidade Real, mas à maneira, e costumes de sua vida he muy temperado. Jà disse em cima quam sumptuosamente edificava, o que porèm faz com tanto respeito, que naõ pode ser a isso reprehendido, como foraõ Pericles, e Pompeo. ElRey Herodes de Judea filho de Antipatro, e Domiciano Emperador de Roma, e ElRey D. Fernando de Portugal por este demasiado apetito, de ricos Principes, que eraõ d’antes, deraõ consigo em muita pobreza. A Mesa Real de V. Alteza assi como he servida como cumpre a seu Real Estado, assi naõ excede o modo na muita sobejidaõ dos manjares, que se agora em outras partes usaõ, os quaes naõ sendo bons para a vida, trazem consigo outro danno, que empecem com seu exemplo ao povo, que como jà disse, sempre folga de fazer o que vè, que seu Principe faz.
De Julio Cesar se conta, que fez huma Ley, que naõ se comesse em Roma mais de certas viandas, e a fez guardar taõ inteiramente, que alèm de mandar olhar sempre o que se vendia nas Praças, mandava dissimuladamente saber o que se comia nas Casas dos principaes. Esta Ley foy tomada das Leys de Licurgo, que em nenhuma cousa trabalhou mais, que fazer, que a sua Reepublica fosse temperada no comer, e beber, e sem duvida os homens devem de comer para viverem, e naõ viverem para comer. Quem bem olhar quanto a sobejidaõ da gula repugna às Leys da natureza, e encurta a vida, e assi as muitas enfermidades, e naõ boas disposiçoens, que della nascem, acharà quam pouca necessidade tem os homens de muito comer. D’ElRey Dario se escreve, que hindo fugindo de Alexandre, e levando grande sede, foy dar em hum regato da agoa turba, trilhada de gente, e envolta em sangue de homens, que nella jasiaõ mortos, e fartando-se entaõ aquelle graõ Rey Dario desta sorte d’agoa, confessou, que nunca bebera com tanto gosto. Tambem ElRey Ptolomeo caminhando pelo Egypto, e naõ tendo huma noite, que cear, senaõ paõ de toda a farinha disse, que nunca cousa melhor lhe soubera. Desta temperança louva Mamertino em hum seu Panegyrico ao Emperador Juliano, o qual, segundo diz, as mais vezes comia, e bebia em pè o que lhe mandavaõ, e assi por este respeito louvaõ em seus Panegyricos Ausonio ao Emperador Graciano, e Plinio a Trajano. Pacato em hum Panegyrico, que fez ao Emperador Theodosio, diz, que sendo elle Senhor das terras, e dos mares, era no comer muy temperado contentando-se de toda a vianda, nem se prezando de manjares delicados de muito preço, e trasidos de longe, e no mesmo lugar reprehende a hum Principe, cujo nome calla, que foy taõ dado à Gula, que muitos comeres seus foraõ avaliados, e estimados cada hum em dez mil cruzados. Finalmente do Emperador Cesar Augusto se escreve, que nunca fez gasto demasiado em comer.
Naõ he V. Alteza digno de pequeno louvor em beber agoa, posto que esta taõ venturosa manha lhe venha a elle, e naõ menos aos Infantes seus Irmaõs, como de herança leyxada por ElRey D. Manoel seu Pay de gloriosa memoria. Diz Salamaõ nos Proverbios naõ queiras aos Reys dar vinho, porque onde reyna o vinho, naõ reyna nenhum segredo, sem duvida assi como o entendimento dos que bebem agoa, està inteiro, e claro, assi o sentido dos que bebem vinho, anda mais bruto, e remoto, e vè menos, porque a luz natural da razaõ natural he impedida, por isso he proverbio antigo, que o vinho traz assombrada a sabedoria. Manda Plataõ em suas Leys, que os Principes das Cidades, e Officiaes, e Conselheiros das Reespublicas naõ no bebaõ, e naõ dà outra razaõ, senaõ parecer cousa de escarneo, quem ha de mandar a outrem, aver elle mister de ser mandado: o mesmo diz assi Aristoteles louvando a Ley dos Carthaginenses, que nenhum Soldado sobpena da vida pudesse durando a guerra beber vinho, e Moysés mandou aos Sacerdotes, que quando houvessem de sacrificar o naõ bebessem. Em fim Salamaõ o defende naõ somente aos Reys, mas aos Officiaes, e Juizes de seu Povo: e diz Plutarcho, que antigamente era defezo aos Sacerdotes do Egypto.
Escreve-se delRey Cyro, que chegando a casa de hum seu Hospede, e tendo-lhe perguntado familiarmente, que queria comer, respondeo, que lhe buscassem paõ, por quanto esperava hir comer a huma fonte. Tambem o Emperador Octaviano sendo em tudo muy temperado, e queixando-se o Povo Romaõ a elle de o vinho valer muy caro em Roma, respondeo com muy grande merencorîa estas palavras: assaz trabalhou meu genro Marco Agrippa para que naõ houvesseis sede em vos trazer tantas agoas de fóra. Sohia dizer ElRey Cyro a seu Exercito, que se costumassem a beber agoa, e de Pescenio Nigro Capitaõ dos Romaõs se lè, que andando no Egypto com Exercito, e pedindo-lhe os Soldados vinho, respondeo como pode ser, que dezejeis vinho passando o Rio Nilo taõ perto de vòs?
Olhemos Portugal, e o que se agora nelle usa, e acharemos, que a temperança dos homens nos trajos, e vestidos nasce toda do bom exemplo de V. Alteza. Disse em cima do seu grande comedimento no modo de vestir, agora sómente direy, que posto que Xenocrates tenha, que os Reys para serem mais conhecidos devem d’ andar ricamente vestidos, com tudo para isto ser assi, mais verdadeiro caminho parece ser o Rey em tudo muy temperado, porque desta maneira sua bondade o fará ser mais conhecido, que nenhuma mostra de fora, nem insignias do real Estado. Esta virtude foy causa, que a Reepublica dos Spartanos durasse tanto tempo, e crescesse tanto com as Leys de Licurgo, o qual mandou, que na sua Cidade corresse moeda de couro, porque naõ vindo mercadorias de fóra, que as mais vezes fazem a gente afeminada, os bons costumes della se podessem melhor conservar.
Esta foy a causa, que o Estado de Persia fosse tanto àvante em tempo delRey Cyro, que de nenhuma cousa mais se presava, que de muita temperança, e humanidade, e os Romãos, como já disse, em quanto tiveraõ isto, cresceraõ, e cousa sabida he, que Cayo Fabricio Censor lançou fora do Senado a Publio Cornelio Rufo da linhagem dos Patricios, porque em hum convite, que deu, poz em huma sua bayxella somente quinze marcos de prata lavrada. Tem Aristoteles, que os Reynos para durarem muito haõ de ser temperados, e allega com os Lacedemonios, e com os Molossos, e para isto ser assi, diz que cumpre muito ao Rey ser temperado. Naõ busquemos prova disto longe, que neste Reyno a temos, o qual de seu principio atè estes tempos foy àvante, naõ menos por esta virtude, que polas outras: mas tanto agora nos he mais necessaria, quanto a riqueza, e mercadorias, que vem da India, saõ de mais força para fazerem mà impressaõ em nossos costumes. Estes inconvenientes tira vosso Alteza, e com o virtuoso exemplo, que de sua pessoa, e vida nos dà, faz guerra continua aos appetitos alheyos, o qual podendo andar cuberto de joyas, e perolas, tem mais respeito aos bons costumes de seus Vassallos, que naõ à qualidade, e grandeza de sua Real pessoa. A esta tamanha temperança responde a Rainha Nossa Senhora, vivo exemplo de toda a bondade, antre a qual, e V. Alteza se vè sempre andar hum famoso, e notavel competimento, de qual delles serà mais virtuoso. Escreve-se da Emperatriz Pompeya Plotina, mulher do Emperador Trajano, que foy taõ virtuosa, que acrescentou a gloria do mesmo Trajano, à qual com muita razaõ pòde ser comparada a Rainha N. Senhora, cuja virtude, e em todas as partes de sua vida perfeita temperança levantaõ mais a gloria, e alto merecimento de V. Alteza.
Que direy no comedimento que tem no jogo, e festas publicas, que pola mòr parte, se saõ feitas amiudo, aprende o povo a ser ocioso, e se aparta do exercicio da virtude? Se antigamente a Grecia senaõ dera a ver representaçoens, e festas, naõ perdera a gloria, que tinha ganhado com armas, e em quanto andava occupada em ver autos, e fazer comedias, ElRey Fillipe de Macedonia teve tempo de se fazer forte contra ella, e em fim a sojugou, e fez tributaria. Por isso Aristoteles, e Tullio naõ querem que haja muitas festas nas Reespublicas, e reprehende a Theophrasto Filosofo por ser nessa parte d’outra opiniaõ. Tem Aristoteles, que o Rey sobre tudo deve ser temperado, e daqui nasceo o proverbio, que diz: ametade do feito he mais que o todo; porque quem enfrear a vontade a naõ exceder aos fins da temperança, a qual sempre guarda o meyo de toda a bondade, este tal jà tem conseguido todas as virtudes; em algumas cartas que escreveraõ ElRey Fillipe de Macedonia a Alexandre seu filho, e Antipatro a Casandro, e Antigono a Fillipe, que foraõ tres notaveis Capitaens, lhes encomendaõ muito, que ganhem a vontade ao Povo, com boas palavras, em que haja huma temperada gravidade, e dizem que nenhuma cousa póde haver no Principe mais proveitosa a si, e a seus vassallos. Isto guarda V. Alteza inteiramente, cujas palavras, e respostas, assi como saõ vivas, e significantes, assi saõ temperadas, e graves, e nellas todas luz, e resplandece a grande bondade de seu Real Coração.
Finalmente saõ certo, e verdadeiro exemplo para a vida dos Principes. Acho eu, que ouve antigamente em Sicilia hum Rey por nome Anixilào, que por sua justiça, e temperança veyo a ser também quisto, e amado do Povo, que leyxando por sua morte filhos pequenos, e por seu Tutor delles a hum escravo de graõ virtude chamado Micitho, tanto foy o amor, que os Sicilianos tiveraõ à memoria de Anixilào, que quizeraõ antes ser governados por hum escravo, que dezamparar os filhos de hum taõ bom Rey, e assi os principaes Senhores da Ilha esquecidos de quem eraõ, ouveraõ por bem que a Magestade Real fosse administrada por mãos do mesmo escravo. Huma das propriedades desta parte he resistir ao appetito, e sometelo em tudo à razão. Entaõ hum Principe se póde chamar perfeitamente temperado, quando não menos obedece a si mesmo, do que seus vassallos obedecem a elle, quero dizer, quando obedece à justiça, e às leys, que saõ representadas no Ceptro Real, e bem se diz que a fonte de toda a temperança consiste em ser o appetito sogeito à razaõ. Qual Principe se póde achar, que mais obediente lhe seja? Qual Principe se lembrou mais de seu Povo, e se esqueceo de si? Qual teve nunca mór respeito às virtudes, e menos foy tocado de merencorîa, ou sem razaõ, que V. Alteza?
Naõ ha cousa mais contraria ao conhecimento da verdade, que o appetito da ira, e como diz S. Joaõ Chrisostomo, o coraçaõ naõ senhor de si, e sugeito à continuaçaõ do primeiro impeto he huma das cousas, que mais estrovaõ, e privaõ a luz do entendimento. A merencorîa muitas vezes vence os sabedores, e os olhos d’alma escurecidos, como quem peleja às escuras, naõ sabem fazer diferença dos amigos, a quem lhes quer mal. Lembrame que escreve Tullio em huma sua carta a Cataõ Uticense, que sempre em todalas idades foy mais trabalhoso vencer o homem a si mesmo, que a seus contrarios, e que mais pessoas ouveraõ vitoria de seus inimigos, que de seus appetitos; mas quanto isto he mòr verdade, tanto V. Alteza he digno de mais verdadeiro louvor, vencendo como faz os vicios, que pola mòr parte naquellas pessoas pòdem mais, que tem mór liberdade para peccar. Grande fama mereceraõ ElRey Ciro, e ElRey Agesilào, por nunca dizerem mà palavra, e a muita temperança do Infante D. Henrique, filho delRey D. Joaõ o primeiro deste nome, ainda hoje he nomeada, que foy tanta, que assi como em seu coraçaõ nunca entrou odio, nem ira, assi de sua boca nunca foy ouvida palavra, que naõ fosse santa, e fundada em zelo, e amor de Deos. Quem bem olhar a torvaçaõ do homem enfunado em grande colera, e escuridaõ do rosto, e mudança de cor, o tremer da falla, a payxão do espirito, o movimento, e esquecimento da razaõ, sem duvida achàra quam mà cousa he ser vencido della, e naõ lhe resistir muito.
Diz Xenofonte que o Principe justo, e temperado hade cuidar que a sua Reepublica he sua caza, e a seus subditos hade ter em conta de filhos, donde cuido eu que nasceo antigamente os Reys serem chamados Pays do Povo, representando tambem nisto a Deos, o qual he chamado Padre nosso, e se este he o officio dos Principes tratar os naturaes como seus filhos, tanto com mór cuidado devem resistir à ira, quanto este appetito os afasta mais do verdadeiro juizo, que he necessario para a boa conservaçaõ de qualquer estado. O Emperador Theodosio era vencido algumas vezes da merencorîa, mas hiase-lhe logo, e dezejando arredarse em vencer de todo este primeiro impeto, foy aconselhado de hum Filosofo, que quando sentisse vir a payxaõ, costumasse a dizer antre si as letras do A. B. C. porque desviando, e detendo com isto a fantezia, antre tanto que aquelle subito movimento passasse.
Mas V. Alteza he sempre taõ senhor de si, e està nelle em todo o tempo taõ viva, e inteira a razaõ, que naõ tem necessidade de algum remedio contra este, nem outro nenhum appetito, assaz lhe bastàra para ser excellente Principe obedecer (como faz) às proprias leys, posto que sobre o Principe naõ tenhaõ poder algum, mas elle nem contente disto, sendo assi tanto, juntamente obedece às leys de toda a boa razaõ, assi como que nada lhe seja licito, mais que a nós, e assi nos dà de si exemplo, com que vencendo a nós mesmos, naõ queiramos mais, do que he justo, como diz hum Poeta. Esta diferença vay dos bons aos màos, que os màos fógem da culpa com medo da pena, e os bons da pena com medo da culpa, e sem duvida onde naõ entra amor, mal se póde conservar a boa razaõ, por mór que seja o receo da pena. Mandando V. Alteza seu Reyno, juntamente o mandaõ as leys, a virtude, e todo bom respeito, posto que em alguns outros Reynos mais mandaõ, e podem os Principes, que o bom respeito; mas o Rey que obedecer à justiça facilmente uzarà toda a virtude, e polo contrario quem a naõ seguir, nem quizer dar credito às leys que ordena, mais deve ser chamado tirano, que Principe. Bemaventurança commummente se chama poder hum Rey quanto quer, mas grandeza sómente se deve chamar, naõ querer mais do que he bom, em fim tal he V. Alteza neste seu glorioso reynado, quaes outros muitos Principes prometem, que haõ de ser, e tal he qual deseja ser havido, o que (como dizia Socrates) he grande atalho para a verdadeira gloria, e tamanha a força da razaõ, que a quem somos mais obrigados, a esse temos mòr afeição, e amor, e athè os ladroens guardaõ antre si, e tem leys que seguem, sem as quaes huns sem os outros se naõ poderiaõ soster. Achase que foy hum famoso ladraõ na Esclavonia chamado Bargulo, que por se haver justamente com os outros ladroens seus companheiros, partindo antre elles o roubo igualmente, veyo a ter muito credito com elles, e possuir grandes riquezas, e dos Persas se escreve, que sohiaõ fazer os moços juizes d’outros moços para logo de pequenos se exercitarem no uzo da razaõ.
Siguaõ os Principes o exemplo de Hercules, o qual como escreve Xenofonte, passeando hum dia em hum lugar sò apartado, vieraõ a elle a virtude, e a deleitaçaõ, ambas em habito de mulheres, mas a virtude vinha como mulher grave, e a deleitaçaõ era Dama muito fermosa, e porfiando com muitas razoens cada huma polo converter a si, sendo elle mancebo, e naquella idade, em que naturalmente as vontades se soem de entregar a bem, ou mal; Hercules posto que a deleitaçaõ lhe prometesse grandes prazeres, e polo contrario a virtude lhe mostrasse grandes trabalhos, ou vida trabalhosa, com tudo depois de lançar suas contas, e cuidar tudo antre si, prudentemente escolheo a virtude com razaõ, e trabalho, que a deleitaçaõ com falso contentamento: mas quando a virtude por si naõ abastasse para se aver de seguir, ao menos se devia fogir da infamia, que de naõ se fazer o que era razaõ nasce aos homens. Quem he taõ presumpçoso, ou esquecido de si mesmo, que naõ estima o que outrem pode dizer delle, como diz S. Joaõ Chrisostomo? A multidaõ dos homens toda traz os olhos nos costumes de seu Principe, dos quaes como de huma pintura cada hum tira o debuxo, e modo do seu viver, e os peccados das pessoas baixas sómente empecem a quem os comete, as culpas dos grandes polo mào exemplo trazem danno geral a muitos. Se como dizem os Filosofos na temperança principalmente se olha, que tudo diga, e estè bem, em nenhum tempo pòde ser afastado da virtude, porque tudo o que diz, e està a bem por certo, em todas as partes da vida. V. Alteza guarda perfeitamente o que cumpre, e està bem ao preço, e authoridade de sua Real pessoa.
Sempre atençaõ de toda a pessoa virtuosa, e mòrmente do Principe assim mesmo deve ser, conforme a todalas partes da vida, naõ deve ter os apetitos soltos, ou sobejamente dezejando, ou sendo muito negligente, que isto he o que naõ està bem, nem ha de haver nella vozes falsas, nem desacordadas, o que tanto mais se deve fugir, quanto esta musica he mais suave, que todas as outras, e quanto o desconcerto della offende mais, e parece peyor. Bem està ao Principe ser vergonhoso, que aonde naõ hà vergonha, naõ pòde haver nenhuma virtude, e este louvor foy dado a Hercules: bem està ser humano, e chaõ, porque mais louvada foy a humanidade de Valerio Corvino Capitaõ Romaõ, que a muita aspereza de Anibal, e Manlio Torcato, que matou seu filho. Bem lhe està guardar o que promete, porque de Hercules se escreve, que nunca mentio, nem quebrou juramento, e que huma só vez jurou em toda a vida, e parecia taõ mal aos Romaõs quebrar o juramento, e a fé, que se dava, que defenderaõ aos seus Sacerdotes, que naõ jurassem. Em fim bem està ao Principe naõ querer mais honra daquella, que a razaõ, e authoridade de sua Real Pessoa requere.
Que cousa pode estar peyor a quem governa, que gabar-se a si mesmo muito, ou dar credito a lisongeiros, como dizia Aristoteles? Quem a si mesmo se gaba, he vaõ, e quem diz mal de si, he Sandeo, por isso a verdade he nem se louvar homem, nem menos dizer mal de si, e o mesmo dizia, que os contentamentos falsos se deviaõ de olhar no fim para taõ asinha se naõ tornarem a desejar. Escreve-se nos Livros Sagrados, que estando Acab Rey dos dez Tribus para dar batalha a ElRey Adado da Suria, mais de quatro centos Profetas falsos, que havia no Paço, por contentarem ao Rey lhe diziaõ, que pelejasse ousadamente, que Deos lhe tinha prometido a victoria, antre estes todos havia hum só Profeta verdadeiro chamado Micheas, o qual o desenganava, dizendo, q́ se là fosse, havia de ser morto; mas ElRey dando mais credito à falsa esperança dos lizongeiros, que ao dezengano de Micheas, depois de o mandar prender, sahio à batalha, em que foy morto, e este he o proveito, que tiraõ os Reys de quem lhes naõ falla verdade. Quem estas cousas bem olhar, acharà claramente pola comparaçaõ dellas, quam afastado he V. Alteza de todos estes males, e como em tudo segue, o que sómente està bem à qualidade da pessoa, e grande mando, que tem.